terça-feira, 29 de julho de 2014

Um médico pra chamar de seu


Nunca houve um médico como o doutor Clodoaldo. Pelo menos não para a minha família. Clínico-geral, ele era a referência para qualquer tipo de problema. Do mal de Parkinson da minha avó, passando pela erisipela da minha tia e a hérnia do meu pai, ele sempre foi pau pra toda obra.
Era o médico da nossa família. E de milhares de outros ribeirão-pretanos que lotavam o seu consultório, na Vila Tibério, à procura de solução para os seus problemas de saúde. Estou usando as frases no passado apenas por não ter notícias recentes do dr. Clodoaldo. As últimas que tive, ano passado, davam conta de que ele continuava na ativa, aos 83 anos, atendendo de 15 a 20 pessoas todos os dias.
Preciso em seus diagnósticos, praticamente salvou a vida do meu pai anos atrás quando detectou uma apendicite supurada. Meu velho já tinha passado duas vezes pelo pronto-socorro. Nas duas vezes, foi "examinado" pelos doutores de plantão, que mal o tocaram.
Prescreveram analgésicos e o mandaram de volta para casa. Com muita dor e febre, ele procurou o dr. Clodoaldo no consultório que, num simples toque, percebeu a gravidade e o encaminhou direto para a cirurgia. Sorte. Já estava com infecção generalizada.
Mais sorte ainda foi ter caído nas mãos do dr. Balduíno, experiente cirurgião do aparelho digestivo, que tão bem soube conduzir o caso. Aos 84 anos, dois infartos e uma dengue complicada no currículo, "seu" Haroldo segue firme e forte cultivando a sua horta.
A história é só para lembrar a diferença que faz na vida a gente ter um bom médico. O nosso médico. Também tenho a minha, a Lilian, muito mais do que a minha ginecologista. É a pessoa que já me orientou nas mais diversas situações, mesmo à distância. De uma intoxicação alimentar na Colômbia a uma crise de sinusite nos EUA.
A Lilian e o Clodoaldo são dois exemplos de médicos que me fazem acreditar veemente que a maior parte das nossas queixas pode ser resolvida longe dos pronto-socorros, sem necessidade de exames invasivos ou do uso de alta tecnologia. Só depende de alguém que te escute, que te toque e que te enxergue.
Por isso é bem-vinda a iniciativa de alguns planos de saúde de investirem em programas de saúde da família, conforme reportagem publicada nesre domingo (27). São ainda iniciativas isoladas, mas representam um passo para melhorar a assistência privada no país.
Presente no SUS há 20 anos, o PSF (Programa de Saúde da Família) já promoveu importantes mudanças na saúde pública (ainda há muito o que melhorar, não há dúvida) e deveria ser usado como modelo para os planos privados.
Aliás, o ideal seria que os dois sistemas (público e privado) conversassem de alguma forma.
Não é preciso ser um PhD pela Universidade Harvard para saber que uma rede de cuidados básicos, bem articulada com os demais níveis de assistência, é o pilar de qualquer qualquer sistema sério de saúde. Essa história que a gente assiste hoje, de o paciente ficar rodando de médico em médico, de pronto-socorro a pronto-socorro, é a coisa mais contraproducente que existe.
Ninguém ganha com isso. Os planos perdem dinheiro. E o paciente, muitas vezes, a vida.


Texto de Cláudia Collucci, na Folha de São Paulo

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