sexta-feira, 28 de setembro de 2018

Desafiada a responder às mazelas, elite escolhe tiro, porrada e bomba

Quando os liberais brasileiros foram convocados ao desafio de mobilizar as forças de mercado para responder com políticas públicas às demandas da nossa ainda formidável pobreza, parte deles não hesitou em escolher o caminho do tiro, porrada e bomba. 
Liberais nada! Trata-se de uma gente grotescamente reacionária, que tem ódio e medo de pobre e de preto. Não importa o resultado das urnas, ou se guardam as garruchas, ou vamos constatar que países não conhecem o fundo do poço. Jair Bolsonaro quer aulas de Educação Moral e Cívica para o povo. Quem educará as elites?
O petista Fernando Haddad estará no segundo turno por obra, em parte, da Lava Jato, da direita xucra e de quantos assistiram inermes, quando não com aplausos, às duas tentativas de deposição de Michel Temer. Antevi o resultado neste espaço, em fevereiro do ano passado: “Se todos são iguais, Lula é melhor”. No reverso da moeda, a resposta é outra: “Se todos são iguais, viva a pistola!”
Mas falta um dado à equação. O PT chega a essa posição também por seus méritos, não porque praticou as esbórnias do mensalão e do petrolão. Abstraindo-se o desastre do governo Dilma, os muito pobres sabem por que votam no partido. E é por bons motivos —bons para eles, os muito pobres, realidade que está distante de nós, meu querido leitor, “meu semelhante”. Os oito anos de Lula forneceram para aquela gente, tratada com desdém pelos brucutus das redes sociais, um prenúncio ao menos de distribuição de renda. É questão de número, não de gosto. E foi coisa pouca.
Não posso avançar sem que emende: os muito ricos, que hoje veem no PT o sinônimo do mal, não tinham do que reclamar nem no governo Dilma. Alguns, aliás, aproveitaram a tibieza e a irresponsabilidade da gestão da governanta para arrancar renúncias fiscais abusivas, que contribuíram para expulsá-la do poder. Sob o aplauso dos beneficiários das mamatas.
“Mudou de lado? E os textos e os livros contra os petralhas?” Eu os subscrevo a todos ainda hoje. Procurem um só artigo meu atacando medidas para minorar a pobreza —“cotismo” é outra conversa. Eu me recusei —e me recusarei sempre— a trocar inclusão social por um projeto de hegemonia política, que cometeu o erro adicional de instrumentalizar o Ministério Público e setores do Judiciário contra seus adversários. O PT alimentou o Leviatã de toga que hoje tenta destruir o espaço público. Não se deve dar nem a fardados nem a togados o gostinho da política.
Eles engolem seus patronos. Os primeiros cassaram Carlos Lacerda. Os outros meteram Lula na cadeia. O PT é o principal responsável por haver procuradores e juízes que ignoram a Constituição, não é mesmo, Roberto Barroso? Na prática, esses valentes inimputáveis criaram um novo partido. E com poder de polícia. Nem os stalinistas cometeram essa sandice. Os nazistas sim.
Vamos ver o que o futuro governante, qualquer que seja, vai fazer do mapa eleitoral que herdar. Será, por si, um grave sinal de advertência. É constrangedor ter de escrever isto em 2018, mas nós estamos ainda, em muitos aspectos, no universo de “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos. Pausa: é a hora em que certo tipo retira as duas mãos do chão, vai ao Google para saber quem é esse e corre à área de comentários: “Reinaldo está citando um comunista; coisa do Foro de São Paulo”. Há quem pense, inclusive, que o tal foro é um prédio que pode ser demolido...  De volta ao romance.
Sinhá Vitória só se dava ao direito de sonhar com uma cama de ripas quando chovia. Quando chovia, Fabiano mudava sua economia de palavras. É espantoso que parte considerável das elites brasileiras ignore as razões por que os muito pobres votam no PT, reduzindo-os à categoria dos “mortadelas” preguiçosos. A mortadela sem metáfora ainda não chegou aos grotões do Vale do Ribeira, em São Paulo, ou do Vale do Jequitinhonha, em Minas, para ficar em dois estados ricos.
Não há solidão maior no Brasil do que a de um liberal. Os esquerdistas têm, ao menos, aqueles a quem chamam “companheiros”. Já fui brasileiro como eles. “Mas há uma hora em que os bares se fecham/ e todas as virtudes se negam.”

Reinaldo Azevedo, na Folha de São Paulo

#Helenão#

Helenão é homem e mulher, transa homem e mulher e, sobretudo, não transa quando não está a fim. Helenão é superfamília, mas não gosta de Coca-Cola tamanho família e não curte 89% dos parentes. Helenão ficou algumas semanas sem falar com os tios e primos que votam em fascistas, mas depois rezou para que eles fossem felizes. Não que Helenão acredite no Deus dos outros, mas acredita em seus deuses e, por meio deles, manda boas vibrações. Helenão também detesta uma galera aí e, quanto a essa, só manda mesmo é todo mundo à merda. Helenão é gente como a gente e tem mais humanidade que os 27% das pesquisas presidenciais.
Helenão lê Gregório Duvivier, Antonio Prata, Celso Rocha de Barros e brilha na sororidade com Fernanda Torres, Laura Carvalho, Manuela Dias, Roberta Martinelli, Petria Chaves, Antonia Pellegrino, Maria Ribeiro, Marília Gabriela, Martha Batalha, Laerte e a leitora desta coluna.
Helenão adora feriado, mas, quando crianças marcham no Sete de Setembro, preferia vê-las dançando livremente. Helenão gosta da casa em ordem, mas acredita que o que coloca ordem no país é a democracia. Helenão detesta educação moral e cívica.
Se você não gosta de Helenão, sua vida deve ser uma eternidade de jantares chatos sobre mercado financeiro, camisas com brasão em promoção, fotos em Nova Jersey comprando sapatênis e cervejadas em Ribeirão sonhando com a volta das espingardas.
 
Helenão é contra as fake news da boçalidade, o protecionismo a banqueiros, a continência ao feminicídio e a ordem ao regresso. Helenão é a favor dos gays, dos índios, dos negros, das cotas, da decisão das mulheres sobre o próprio corpo, dos beijos gregos, das tatuagens de ursinhos psicodélicos. Helenão 
é a favor de todos nós.
Helenos vieram da Grécia, Helenas das novelas, Elenas das mães com bom gosto para nomear as filhas. Já Helenão veio do que há de mais bonito dentro de cada um dos desgraçadinhos votantes do Brasil. Dentro de cada eleitor do Bolsonaro há sempre uma porcentagem de decência, de homossexualidade e de Helenão. Eu torço para que eles abracem sem medo sua infinita capacidade de serem melhores, de serem Helenão.
Eu queria que Helenão fosse presidenta, dono do mundo, senhora absoluto. Eu queria que Helenão tocasse o coração dos homens que posam ao lado de policiais, armas, tanques. Queria que Helenão colocasse de ponta-cabeça as certezas das mulheres que votam em homens que podem pôr jovens no pau de arara. Helenão não usa calça camuflada nem quando volta à moda —prefere andar nu, balançando 
suas tetas e pênis e celulites.
Eu queria que Helenão levasse você para as ruas no dia 29, pra gente se abraçar, se amar. Que Helenão esteja na garganta de todos nós. Que Helenão seja nosso grito, o padrinho da minha filha, a madrinha do seu filho, o melhor amigo dos meus parentes, a amante dos meus amigos. Queria que ela entrasse na sua casa, pé 42 na porta, dormisse de conchinha com você, te enrabasse com doçura e consentimento.
Se Helenão perder, imagine a tristeza de morar neste país. De andar pelas ruas sabendo que a maioria decidiu jogar no lixo nossa história, nossos traumas, nossas conquistas, nossos jovens torturados e assassinados de outrora, nossos jovens torturados e assassinados de hoje. #Helenão. A liberdade de escrever para este jornal, sim.

Texto de Tati Bernardi, na Folha de São Paulo

Aquarela do Brasil

Você desce a avenida das Américas com o seu filho de dez anos no carona. A lua cheia desponta na pedra da Gávea, o sol laranja no retrovisor. Você ignora os prédios feios, o horizonte de favelas, passa a mão no cabelo dele e diz: "Bonito, né?"
E a rádio toca "Aquarela do Brasil", justo ali, naquela hora, o moleque entoa os versos que aprendeu na escola, "Brasil... meu Brasil brasileiro", e o peito aperta de horror das coisas.
Seus amigos deixaram a cidade, se mandaram para o exterior. Você cogita fazer o mesmo, mas sua pátria é sua língua. E você pensa nos tiroteios, no Cabral, no Crivella e no Garotinho —e tem ganas de fechar as malas e correr para o aeroporto.
E você aguarda a próxima pesquisa e escuta a ladainha do dois pra lá, dois pra cá das margens de incerteza. E você estuda as curvas e acompanha análises, com um misto de angústia, raiva e desespero.
E você lê que o general tacanho xingou os africanos e os sul-americanos de mulambada, depois de comparar o Brasil com um cavalo saltador. E se dá conta de que já ouviu a analogia equestre na adolescência, na voz de outro milico truculento, o do prendo e arrebento, que preferia o cheiro de égua ao da população.
E você constata que a autoestima do Messias deu ao monstro um senso de humor que ele não tinha. Um senso de humor que o tornou palatável, apesar da incitação ao ódio, da menina com a mãozinha em riste, imitando um três-oitão, e da adoração confessa pelo torturador que levou duas crianças para ver a mãe ensanguentada levar choque nos porões do Dops.
E você assiste à facada quase ao vivo, e se controla para não desejar a morte do pobre do ser humano. E você vê o sujeito morfinado recontar, na UTI, o milagre que fez de um misógino homofóbico racista do baixo clero um mito da classe média escolarizada que tem pânico da Venezuela. E você pensa que se danou, porque, depois do atentado, vai ser difícil roubar-lhe a aura de Lázaro ressuscitado.
E você lê Adorno e descobre que a razão esclarecida é a mãe de Juliette, a assassina ninfomaníaca do Marquês. Você lê isso e pensa que a soberba fria do liquida tudo do Paulo Guedes tem mesmo algo de sádico, e se arrepia com a crença cega que o economista ostenta no mega-ultraliberalismo.
E você conclui que o Brasil SA se associou ao Brasil SS; e que na impossibilidade de demitir os miseráveis, melhor fuzilar em massa, com 30 tiros no peito, como sugeriu o candidato.
E você, enquanto ouve "Aquarela do Brasil" na porra do carro blindado que já te livrou de levar um tiro à queima-roupa, você olha para o seu filho e lamenta o fracasso da terceira via. E pensa que, se é para ser Haddad, ele é o que de melhor Lula tem a oferecer de poste.
E você lê a The Economist, o Guardian e o Le Monde e reza para que o mercado entenda que o triunvirato do ungido da pena de morte com o posto Ipiranga do day trade e o general maçom de cabelo graúna é um fim de linha que não tem tamanho.
E você ama Ary Barroso, e canta com seu filho o "Brasil do meu amor, terra de nosso Senhor", e tenta dizer que aqui é bom, mas não consegue. E você olha a lua cheia, iluminando os barracos da Rocinha, e tem vontade de gritar.

Texto de Fernanda Torres, na Folha de São Paulo

Paulo Guedes privatizará o Exército

O marechal Paulo Guedes voltou a anunciar seus planos econômicos caso o capitão Jair Bolsonaro seja eleito. "Para dar mais eficiência ao gasto público, o primeiro passo será uma fusão entre Exército, Marinha e Aeronáutica. Faremos downsizing das Forças Armadas e concentraremos tudo num único CNPJ. Em seguida, faremos um IPO", defendeu.
Conforme frisou em sua sabatina à GloboNews, Guedes está empenhado em zerar o déficit público em um ano vendendo estatais e terrenos do governo federal. "Aqueles latifúndios das Forças Armadas na Urca —com vista para o Pão de Açúcar— dariam lugar a portentosos condomínios de luxo. Isso sem falar nas praias particulares. O Hotel de Trânsito Forte Imbuhy de Oficiais, em Niterói, por exemplo, daria um Club Med dionisíaco."
Em contrapartida, o guru prometeu construir a Cidade do Exército numa região mais barata da cidade para concentrar todas as funções administrativas. "É uma ideia que pode se replicar em todas as cidades do Brasil." Após ajeitar os óculos, completou: "Tenho para mim que talvez não faça mais sentido os militares ocuparem nossa valorizada costa para nos proteger dos ataques de caravelas".
Em linha com a reforma trabalhista de Michel Temer, o Posto Ipiranga sugeriu terceirizar todos os funcionários da Forças Armadas. "Fechamos um acordo para importar mão de obra chinesa. Além de economizar drasticamente nos salários, vamos cortar adicional militar, adicional de habitação, adicional de compensação orgânica, adicional de permanência, gratificação de localidade especial, gratificação de representação, auxílio-fardamento, auxílio-natalidade, assistência pré-escolar, adicional natalino e as pensões para filhas de militares", salientou o papa do liberalismo que orientará Bolsonaro. "Segundo a revista Exame, o peso do militar federal é 16 vezes maior no prejuízo da Previdência do que o de um segurado do INSS. Vamos resolver vários problemas ao mesmo tempo."
Em seguida, Paulo Guedes antecipou críticas ao bater continência para a frase lapidar de Bolsonaro: "O militar terá que escolher entre mais direito e menos emprego, ou menos direito e mais emprego".

Texto de Renato Terra, na Folha de São Paulo

quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Torturadores reais e chavistas de ficção

Qual a diferença entre uma ameaça e uma bravata? É que numa bravata ninguém acredita —nem mesmo aquele que a profere.
Lula e o PT ostentam um longo histórico de bravatas. Em 2015, o ex-presidente falou em convocar "o exército do Stédile" para lutar contra o impeachment de Dilma Rousseff.
Depois de sua prisão, surgiram faixas e camisetas dizendo que "eleição sem Lula é fraude".
Em sua coluna de segunda-feira (24), Vinicius Mota destaca pontos de um documento petista, publicado após o impeachment. Bela "autocrítica", ironiza ele, com razão.
Para a cúpula do PT, o partido falhou ao "não impedir a sabotagem conservadora" da Polícia Federal e ao "não alterar os currículos das academias militares". O documento citado por Vinicius Mota também lembra que o Executivo, na era Dilma, distribuiu verbas demais aos "monopólios da comunicação".
Mais grave foi a frase da senadora Gleisi Hoffmann, que diante da possibilidade de uma prisão de Lula chegou a dizer que "ia ter de matar gente".
Um momento. Gleisi Hoffmann disse que ia matar gente?
É o que li num artigo de Fernando Schüler, "O paradoxo da democracia brasileira", publicado na Folha de quinta-feira passada (20).
Mas a citação estava errada. A frase de Gleisi era: "Para prender o Lula, vai ter que prender muita gente, mas, mais que isso, vai ter que matar gente. Aí, vai ter que matar".
Foi uma irresponsabilidade. Ela imaginou que algumas pessoas arriscariam a vida em defesa de Lula, mas ao mesmo tempo não se ofereceu para tal sacrifício; entregava a missão, quem sabe, para o "exército de Stédile".
Mas é muito diferente dizer que "matarão pessoas para prender Lula" e dizer que "iremos matar gente para não prender Lula".
A distorção operada por Fernando Schüler em seu artigo é significativa. Reflete o esforço generalizado de neutralizar a fraseologia de Bolsonaro e do general Mourão, insistindo na ideia de que o PT é tão radical e antidemocrático quanto a chapa do PSL.
Retomo as "autocríticas" petistas citadas por Vinicius Mota. Não é certo querer influenciar nas atividades da Polícia Federal. É errado distribuir verbas publicitárias segundo critérios políticos.
Só que, evidentemente, ações desse tipo não configurariam uma ruptura da ordem constitucional. Outros governos democráticos não tiveram escrúpulos em nomear procuradores-gerais da República bem mais camaradas do que Rodrigo Janot.
Quanto a propor uma mudança nos currículos das academias militares, acho que isso seria uma ótima ideia. No mundo das Forças Armadas, nem mesmo a Revolta da Chibata, ocorrida em 1910, foi absorvida —que dizer da Comissão da Verdade.
Passemos ao "exército de Stédile". Uma bravata, como muitas. Péssima, aliás, porque admite que o líder do MST possui nada mais que uma massa de manobra. Bravata, porque Lula sabia perfeitamente que protestos do MST não seriam capazes de enfrentar uma tropa de choque.
Os fatos: chamando ou não de golpe o impeachment de Dilma (pessoalmente acho que foi 80% um golpe), o PT o engoliu. Com protestos e delongas, Lula se entregou à Polícia Federal. Com toda a fraseologia de que "sem Lula a eleição é fraude", Haddad disputa a Presidência e sabe que, se perder, perdeu.
Não que eles sejam bonzinhos. Simplesmente faltou força para barrar o impeachment e para intimidar a Justiça no caso Lula.
No seu auge, Lula não enveredou pelo chavismo. Por que Haddad faria isso agora? É pura ficção.
Serão igualmente "bravatas" as frases de Bolsonaro? Quando ele põe em dúvida a urna eletrônica, fico preocupado, mas não muito —Brizola dizia a mesma coisa. Quando ele fala em "metralhar a petralhada", não acredito que fará isso assim que eleito.
O problema é saber se ele acredita no que está dizendo, e, mais ainda, se seus apoiadores mais extremados estarão dispostos a isso. Ainda mais depois de eleitos.
Se ele decidir fechar o Congresso, convocar uma Constituinte ao estilo Mourão, quem terá forças para defender as instituições?
Bolsonaro diz que o movimento de 1964 não foi um golpe, elogia como "heróis" os torturadores da ditadura, cogitou aumentar o número de membros do STF. Por esse último motivo, aliás, Janaina Paschoal achou melhor não entrar na chapa do capitão reformado. Janaína, pelo menos, não considerou bravata —e me arrisco a dizer que ela entende disso.

Marcelo Coelho, na Folha de São Paulo

domingo, 23 de setembro de 2018

Poder, irrelevância ou arruaça?

Se Jair Bolsonaro (PSL) ou Geraldo Alckmin (PSDB) vencer a disputa, sei quem vai liderar a oposição: o PT. E já é um lugar de poder. Essa batalha, o partido já ganhou. Agora há a outra. Se o vitorioso for o petista Fernando Haddad ou Ciro Gomes (PDT), quem comandará o campo adversário? A pergunta e a resposta expõem a miséria a que chegou a política brasileira.
Segundo dados da mais recente pesquisa Datafolha, Bolsonaro lidera a corrida no primeiro turno, com 28%. Empatados tecnicamente em segundo lugar estão Haddad, com 16%, e Ciro, com 13%. Alckmin segue com 9%. A disputa de 2014 recomenda cuidado com antevisões a duas semanas da disputa. Mas é razoável supor ao menos que o “capitão reformado” tem grande chance de estar na etapa final. E essa possibilidade basta para a fantasmagoria de que se vai tratar aqui.
Antes, uma pequena pausa. Notem que recorri no parágrafo anterior a uma expressão comum na imprensa. Para não repetir a palavra “Bolsonaro”, optei por “capitão reformado”. Os especialistas poderiam debater se estamos diante de uma perífrase ou de uma antonomásia (cabe pesquisa aos interessados). Do ponto de vista da política, trata-se apenas de uma disfunção. 
Afinal, todos sabemos o que é um petista, um tucano, um peemedebista ou um democrata... Mas que diabos seria um “peesselista”? O PSL, a exemplo do PRN do Fernando Collor de 1989, só tem existência cartorial. À época, empregava-se “caçador de marajás” na segunda referência ao candidato porque não havia como escrever “peerrenista”. O resto da história é conhecido. Ou, no caso dos “moços, pobres moços”, tem de ser.
Se o “capitão reformado” vencer, já sabemos que o PT vai chefiar a oposição tenha o tamanho que tiver. O que eventualmente lhe faltar no Parlamento será compensado por sua inserção nos sindicatos e nos movimentos sociais. 
Não será difícil arrebanhar apoio na sociedade porque o vitorioso, então, terá chegado lá com ou contra a rejeição de parcela considerável da população. Ademais, um fato: foi a Justiça que impediu Lula de voltar à Presidência, não o eleitor. Não se trata de um juízo de valor. Só um fato para quem gosta de fatos.
Como o bolsonarismo de internet está fascinado com a ideia da “guerrilha cultural”, ou da “contraguerrilha”, os opostos vão se alimentar e se neutralizar num período de instabilidade que promete ser longo. Paulo Guedes, o “Posto Ipiranga”, ficou claro, parece disposto a assombrar a seara acadêmica também na área econômica. Ele não conseguiu ensinar economia a Bolsonaro, mas Bolsonaro conseguiu lhe ensinar bolsonarices.
Pensemos um pouco mais. É claro que nossa perífrase ou antonomásia pode ser derrotada, não? Na simulação de segundo turno, o peesselista (!) aparece empatado com Fernando Haddad — ainda “Andrade” em muitos rincões —, com 41% das intenções de voto, e perderia para Ciro Gomes por 45% a 39%. Cabe a pergunta: numa eventual vitória da esquerda, quem vai chefiar a oposição?
Ainda que os estranhamentos entre ciristas e petistas sejam relevantes no primeiro turno —e, às vezes, até divertidos—, é razoável supor, qualquer que seja o vencedor desse campo ideológico, que é grande a possibilidade de haver uma composição entre PT e PDT.
Nota à margem: não estou aqui a decretar, porque 2014 não autoriza, que Alckmin está fora do jogo. Mas, também nesse caso, o PT será a vanguarda do “não”. Volto ao cenário de vitória da esquerda.
Bolsonaro não terá, se derrotado, condições políticas, intelectuais e partidárias de comandar a oposição. Ele o faria ancorado em quais pressupostos?
Para a segurança, um 38 na mão de cada brasileiro? Para a educação, uma escola em que moleque não seja estimulado a brincar de boneca? Para a economia... Bem, para a economia, não existirá, creio, nem mesmo o Guedes. 
Quantos parlamentares o acompanharão na resistência democrática a um eventual governo de esquerda? A tarefa caberá, mais uma vez, ao PSDB — que, nessa hipótese, não terá nem tamanho nem força para um trabalho eficiente.
Nas democracias, quem perde vigia o poder. Vivemos um tempo em que, a depender do resultado, ao grande derrotado restará a irrelevância ou a arruaça. Como foi que chegamos a esse ponto?
Texto de Reinaldo Azevedo, na Folha de São Paulo

A erosão das normas democráticas

Uma boa Constituição não basta para fazer que a democracia funcione. A democracia depende de normas não escritas. Duas são especialmente importantes. A primeira é a tolerância mútua, ou a aceitação da legitimidade dos oponentes. Isso significa que, não importa o quanto possamos desgostar de nossos rivais em outros partidos, reconhecemos que eles são cidadãos leais, com direito legítimo a governar. Em outras palavras, não tratamos os rivais como inimigos.
A segunda norma é a indulgência. Indulgência significa abrir mão de exercer um direito legal. É um ato de autocontrole, uma subutilização do poder.
A indulgência é essencial para a democracia. Os políticos têm a capacidade de usar a letra de qualquer Constituição para subverter seu espírito, transformando instituições em destrutivas armas partidárias. Apontar juízes parciais. Conduzir impeachments em base partidária. Excluir candidatos de um pleito por conta de minúcias legais. O professor de direito Mark Tushnet define o método como “jogo duro constitucional”.
Observe qualquer democracia em colapso e verá uma abundância de jogo duro constitucional: Espanha e Alemanha na década de 1930; a Argentina de Perón; a Venezuela na era Chávez; Turquia, Hungria, Bolívia e Equador hoje em dia.
O que impede que uma democracia seja arruinada pelo jogo duro constitucional é a indulgência. É o compromisso dos políticos de exercerem de maneira contida as suas prerrogativas institucionais, sem utilizá-las irresponsavelmente como armas partidárias.
As normas de tolerância mútua e indulgência são as grades de proteção informais da democracia. São elas que impedem que a competição política degringole para o tipo de disputa partidária impiedosa que destruiu as democracias da Europa na década de 1930 e as da América do Sul nas décadas de 1960 e 1970.
A democracia brasileira contava com essas grades de proteção informais, entre 1994 e 2014. O PT e o PSDB competiam vigorosamente, mas aceitavam um ao outro como legítimos. Não se tratavam como inimigos. E os políticos exercitavam a indulgência. Não houve interferência na composição dos tribunais, como aconteceu na Argentina de Kirchner ou na Venezuela de Chávez; não houve impeachments em estilo paraguaio; nem legalização de tentativas dúbias de reeleição por judiciários amistosos, como na Bolívia e Nicarágua.
Mas muita coisa mudou nos cinco últimos anos. À medida que a política se polarizava, a tolerância mútua desaparecia. Muita gente na direita agora vê o PT como ameaça existencial —uma força chavista determinada a se perpetuar no poder. E muitos petistas agora veem seus oponentes como golpistas ou até “fascistas”.
A erosão da tolerância mútua encoraja o jogo duro constitucional. Quando vemos os rivais como ameaça à nossa existência, como chavistas ou golpistas, nos sentimos tentados a usar quaisquer meios necessários para derrotá-los.
É exatamente isso que está acontecendo agora. O Brasil viu um recuo acentuado na indulgência. O impeachment de Dilma não foi um golpe —foi inteiramente legal. Mas representou um caso claro de jogo duro constitucional. Dilma também se engajou em jogo duro constitucional. A indicação de Lula como chefe de sua Casa Civil, para protegê-lo contra processos, é um exemplo.
A exclusão de Lula da corrida presidencial também foi inteiramente legal. Mas os juízes aceleraram o caso, levando a lei aos seus limites. Lula não precisava ter sido condenado antes da eleição. Mesmo que essas ações sejam consideradas como justificáveis, as consequências são perturbadoras: os petistas acreditam ter sido tirados do poder ilegitimamente em 2016 e impedidos ilegitimamente de recuperá-lo em 2018.
No Brasil atual, setores importantes da esquerda e da direita veem uns aos outros como inimigos perigosos. Essa intolerância mútua coloca a democracia em perigo. Quando a política fica polarizada a ponto de vermos rivais como ameaça à nossa existência, o que tornaria sua eleição intolerável, começamos a justificar o uso de meios extraordinários —violência, fraude eleitoral, golpes —a fim de derrotá-los. 
De fato, a crença de que o PT é chavista levou muita gente na direita a considerar medidas irresponsáveis. Como, por exemplo, votar em Bolsonaro, o candidato verdadeiramente autoritário que está na disputa, para derrotá-lo. A tolerância quanto a líderes e ações antidemocráticas, em nome de derrotar rivais odiados, ajudou a matar a democracia na Alemanha e Espanha na década de 1930, no Chile em 1973, e na Venezuela no começo da década de 2000.
A polarização nublou as percepções. Nem o PSDB nem o PT são uma ameaça à democracia. Os dois partidos deveriam ser rivais acalorados, mas não inimigos temidos. A verdadeira ameaça é Bolsonaro, e a tentação de apoiá-lo, gerada pelo medo. A centro-direita e a centro-esquerda do Brasil precisam perceber a gravidade da situação antes que seja tarde.

Texto de Steven Levitsky, com tradução de Paulo Migliacci, na Folha de São Paulo

domingo, 16 de setembro de 2018

Gauguin no Taiti

Pode ser uma visão romântica, mas sempre fico com a impressão de que vida de artista é sofrida.  Não de todos. De muitos. Nem vou falar dos sofrimentos de Van Gogh. O momento é de Paul Gauguin por causa do filme sobre ele em cartaz. Eu esperava imagens luminosas do Taiti. O filme é sombrio. O pintor deixou a Europa, mulher e filhos em busca de luz. Sentia-se sufocado no Velho Mundo. Encontrou na Polinésia Francesa, conforme a denominação dos colonizadores, material para obras-primas. Só não conseguiu se livrar dos próprios fantasmas.
Era difícil encontrar comprador para as suas pinturas. Filho de um francês com uma franco-peruana, passou parte da infância em Lima. Casou-se com uma dinamarquesa. Morreu pobre e solitário na Oceania. Quem diria que um dia o seu quadro “quando te casarás?” seria leiloado por quase trezentos milhões de dólares! Quando ele morreu, a linda tela foi negociada por míseros sete francos. Gauguin chegou a trabalhar como estivador para ter o que comer. Também foi operário na construção do canal do Panamá. Ele sofreu por amor, ciúme e falta de reconhecimento. Sofreu, mais do que tudo, por sua obsessão. Sabia que era um grande artista e precisava sustentar isso contra o descrédito generalizado. Artista é isso: estar certo contra o seu tempo.
O artista genial surpreende tanto os seus contemporâneos que estes não estão providos de mecanismos para interpretar o que veem. É o paradoxo da grande arte. Quanto maior a originalidade maior a incompreensão. Claro que essa ideia pode servir de consolo para gente sem talento. Basta imaginar que se está à frente de tudo e de todos. Gauguin era teimoso, temperamental e obcecado. Via arte em tudo. Era louco por exotismo e por meninas exóticas. Hoje, seria considerado pedófilo. Um dos seus amores no Taiti foi Tehura, de 13 anos de idade.
É quase impossível, no Museu d’Orsay, em Paris, não ficar petrificado diante de quadros de Gauguin no Taiti. As cores são tão fortes que quase queimam. A relação entre observador e obra é sensual, epidérmica. Pessoas de horizontes diversos se arrepiam. A frieza nórdica descongela. Eu olho os quadros e penso também no homem. Era um vulcão. Queria a diferença. Foi atrás dela. Buscava a autenticidade. Odiava o colonialismo. Comportou-se muitas vezes como um colonizador violento e irascível. Salvo pelo fato de que não se contentou em saquear temas, corpos e imaginários. Criou. Deixou um legado genial.
O filme é triste. Devastador. Nem os momentos de alegria de Gauguin entre os nativos da Polinésia aliviam a tensão. O artista parece sempre acossado pela sua fome de criação. Quando lhe falta tela para pintar, tem uma espécie de crise de abstinência. Há beleza nessa necessidade de expressão. Há também vertigem, tortura e desespero. Eis um filme que vale a pena ser visto. Não pelo divertimento. Acima de tudo pela reflexão que proporciona sobre a “natureza” dos artistas. A vontade de expressão é como um bicho roendo a pessoa de dentro. Aquilo precisa sair. Só que isso não basta. É preciso encontrar um público.

Tanques e togas tentam cercar a democracia brasileira

Tanques e togas tentam cercar a democracia brasileira. Há um esforço deliberado para tratar o eleitor como um débil mental. Generais, juízes e procuradores se arvoram em consciência crítica da brasileirada incapaz. Aos 57 anos, incomoda-me o assédio que ofendia meu senso de autonomia adolescente. Desculpem-me por um tantinho de memória privada a unir setembros. Como naquele filme, sei que a história de uma pessoa “vale menos do que um punhado de feijão neste mundo louco”, mas é a minha história — ou a infância afetiva de um liberal. Entre togas e tanques.
Eu tinha 15 anos quando o DOPS (Departamento da Ordem Política e Social) encostou as mãos sujas em mim. Passei por um interrogatório informal na escola. A denúncia partira de um professor infiltrado. Eu havia vencido um concurso estadual de redação cujo tema era “O Dia da Árvore”. Associei a agressão à natureza à incúria do governo, ao egoísmo humano e ao lucro irresponsável. E o fiz com a ambição condoreira que têm os candidatos a mau poeta na periferia do mundo...
Bastou para que os arautos de então de uma “escola sem partido dos adversários” se assanhassem. De onde eu havia tirado aquelas ideias? Vinham de algum professor? De qual? O que eu entendia por “lucro”? E por “egoísmo”?
Engrolei irrelevâncias. Era só um garoto inocente, óculos fundo-de-garrafa, barba nascente, voz ainda desengonçada, meio gordo, ruim de bola, mas bom de amigos — afinal, eu tinha cigarros e dividia com eles os arcanos do Movimento Retilíneo Uniformemente Variado (MRUV) e da Oração Subordinada Adverbial Temporal Reduzida de Particípio. Terminado o interrogatório, concluí em silêncio que a ditadura tinha de acabar. No tempo da memória, como no do cinema, que furta detalhes em benefício da síntese, fui ser condoreiro da periferia do trotskismo. Até os 21 anos. Nas ditaduras, não há lugar para míopes inocentes.
O “menino antigo” em mim (com a licença de Drummond) e o velho recente leram com indignação a entrevista ao Estado de S.Paulo Eduardo Villas Boas, comandante do Exército, segundo quem o futuro governo “pode ter sua legitimidade questionada” em razão da agressão sofrida por Jair Bolsonaro.
Nas democracias, chefes militares não fazem considerações sobre política e o processo eleitoral. Também não dizem quem pode e quem não pode ser eleito. Ciro Gomes tem razão ao afirmar, aludindo a Brecht, que o general buscava calar as “vozes das cadelas no cio” do fascismo caseiro. E, destaque-se em nome da precisão, Villas Boas descartou um golpe. Mas restou a sombra da tutela.
Eu não me bandeei para o liberalismo como um trânsfuga. Passei por um processo de conversão silenciosa. Quero a inocência dos que se sentem representados pelo império da lei, não pelo triunfo da vontade dos senhores da guerra ou de grupos que se organizam para assumir o lugar da consciência do eleitor.
Há duas semanas, denunciei nesta coluna o movimento empreendido pelo Ministério Público — na verdade, pelo “Partido da Polícia — para interferir nas eleições. Dados forma, calendário e argumentação contida nas petições, as investidas contra Geraldo Alckmin, Fernando Haddad e Beto Richa são brocados de um Estado fascista. Notem que não assevero inocências e culpas. Cobro é o devido processo legal.
Ações de improbidade, prisões temporárias e preventivas e vazamentos de inquéritos e de delações passaram a ser empregados com o nítido propósito de mudar o resultado das urnas. A corregedoria do Conselho Nacional do Ministério Público vai apurar a conduta de alguns de seus membros, que resolveram confundir boca de urna com combate à corrupção. No TSE, Roberto Barroso inventou o “trânsito em julgado” do que ainda está “sub judice”. Um espanto. A exemplo do general, todos querem proteger o povo brasileiro. O diabo é que se colocam no papel de quem pode até rasgar a lei para poupá-lo de sua própria vontade.
Ainda sei o que é MRUV e reconheço a Adverbial Temporal Reduzida de Particípio quando diante de uma. O Dia da Árvore se comemora na sexta que vem, unindo setembros. Dois dias depois, começa a primavera. Odeio invernos. Desde os 15 anos. Este também passará.

Reinaldo Azevedo, na Folha de São Paulo

Ayahuasca impulsiona ciência psicodélica no Brasil

Um dos poucos campos da neurociência em que pesquisadores brasileiros podem tomar a dianteira mundial é a ciência psicodélica, apontou reunião realizada quinta-feira (13) em Campinas. E a ayahuasca, chá também conhecido como Santo Daime, está no centro desse sonho.
Cerca de 120 pessoas —várias delas jovens ayahuasqueiros— compareceram ao fórum “A Neurociência dos Psicodélicos: Uma Revolução em Curso”. O auditório Zeferino Vaz, no Instituto de Economia da Unicamp, ficou quase todo o tempo lotado.
“É uma imensa oportunidade [para o Brasil]”, disse Sidarta Ribeiro, neurocientista do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), um dos cinco palestrantes. “Nós temos de fazer isso antes que os gringos e os chineses façam.”
Psicodélicos —LSD, MDMA (base do ecstasy), mescalina, psilocibina etc.— são definidos como compostos que agem sobre receptores do neurotransmissor serotonina, envolvido, entre outras coisas, na regulação do humor. A maioria está no rol de substâncias de abuso, proibidas, o que dificulta obter as substâncias e licenças para fazer pesquisas.
Podem provocar visões, como a ayahuasca (as “mirações” de que se fala em cultos como Santo Daime, União do Vegetal e Barquinha). Neste caso, contudo, o chá feito com o cipó mariri e a erva chacrona foi legalizado no país para uso ritual.
Os psicodélicos já foram drogas legais, muito estudadas nas décadas de 1950 e 1960 como possíveis remédios associados a psicoterapia. Tornou-se famoso o LSD, cujo efeito alucinógeno foi descoberto em 1943 pelo químico suíço Albert Hofmann, da Sandoz.
O LSD caiu nas graças da contracultura e, associado com a contestação política, sobretudo com o movimento hippie e a oposição à Guerra do Vietnã, terminou proibido nos EUA em 1970. Uma convenção da ONU de 1971 requer que seus membros o proíbam.
proibicionismo redundou no quase desaparecimento da pesquisa psicodélica, apesar de resultados iniciais promissores no tratamento de alcoolismo e depressão. Nos últimos anos, ela vem passando por um renascimento, capitaneado pelo emprego do MDMA na recuperação de estresse pós-traumático —estudo de grande interesse para veteranos de guerra dos EUA, onde a droga está perto de obter aprovação para esse fim.
No Brasil, a ayahuasca vem sendo estudada em grande parte pela facilidade de acesso, mas também pelos relatos de efeitos benéficos obtidos em cultos. Pesquisa recente liderada por Dráulio Araújo, da UFRN, encontrou melhora significativa entre pacientes deprimidos.
Foi o primeiro estudo feito no mundo usando psicodélico para depressão com controle de um grupo placebo (no caso, um chá marrom de gosto ruim, como a ayahuasca). Saiu publicado no periódico Psychological Medicine, após ser recusado por uma dúzia de outras revistas especializadas, talvez por preconceito contra a droga ou o local de pesquisa.
A ambição dos neurocientistas brasileiros, agora, é ir além dos estudos comportamentais e partir para elucidar os mecanismos bioquímicos e neurológicos do efeito psicodélico.
A química da ayahuasca foi o tema da palestra de Alessandra Sussulini, do Laboratório de Bioanalítica e Ciências Ômicas Integradas da Unicamp. Ela usou análises por cromatografia e espectrometria de massa para caracterizar a presença de quatro compostos alcaloides conhecidos do chá: DMT (dimetiltriptamina), harmina, harmalina e tetraidroarmina.
Sussulini encontrou grande variação, nas 38 amostras fornecidas por cultos tradicionais, entre as concentrações relativas do quarteto de substâncias, como seria de esperar num preparado obtido de plantas. Mas um padrão emergiu: a mais abundante era a tetraidroarmina, seguida de harmina, DMT e harmalina.
Mais problemáticas se revelaram outras 39 amostras conseguidas em outras fontes, como grupos europeus, de países em que a ayahuasca não está autorizada. Não só a concentração dos quatro compostos variava ainda mais como ainda foram encontradas outras substâncias psicoativas, como mescalina e psilocibina e até drogas antidepressivas.
Conclusão: os chás que não foram preparados no contexto dos cultos brasileiros haviam sido “batizados”. Não deixa de ser um argumento em favor da legalização, pondera Luís Fernando Tófoli, da Unicamp, organizador do evento: a proibição, no caso, levou à circulação de formulações mais perigosas.
O fórum se encerrou com uma apresentação conjunta de Sidarta Ribeiro, da UFRN, e Stevens Rehen, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e do Instituto D’Or de Ensino e Pesquisa —duas estrelas brilhantes no pequeno firmamento da ciência psicodélica nacional.
Ribeiro apresentou como seu grupo do Instituto do Cérebro potiguar vem usando ratos para esmiuçar os efeitos de psicodélicos. Rehen, de seu lado, falou de como busca fazer o mesmo com recurso a “minicérebros”.
Os organoides são cultivados a partir de células-tronco derivadas de células adultas coletadas da urina de pacientes. Primeiro elas são induzidas a se transformar em neurônios, que são depois postos a se reproduzir e se organizar em frascos que ficam girando, resultando em corpos tridimensionais de alguns milímetros que começam a formar estruturas similares a tecidos neurais, como córtex e até um proto-olho.
É um mundo novo e admirável de pesquisa, que mal está começando.

Carta do filósofo Candoca

Talvez alguém não se lembre. Candoca é um filósofo. Vive em Palomas. Divide-se entre uma biografia de Voltaire e a criação de coelhos. A biografia avança lentamente. Pessoa doce, otimista e de bem com a vida, acredita que tudo caminha para o melhor neste Brasil em crise. Depois de muito tempo silencioso, Candoca me mandou esta carta:
      “Caro jornalista: não entendo o seu pessimismo. Sei que já teve facada e candidato impedido de concorrer, mas o nosso país vive um momento especial, macanudo. Em outubro, iremos às urnas. Vou de bombacha como sempre e no meu zaino. A urna é eletrônica. Deixarei nela as minhas digitais. Vamos pensar sem ódios nem ressentimentos. Temos a oportunidade de zerar as coisas. Pode existir algo melhor? Elegeremos um novo presidente, que ninguém poderá chamar de golpista. Será eleito pelo povo. Cada cabeça, um voto. Que vença o melhor. E o melhor é sempre aquele que o povo escolhe, pois estamos em democracia.
      Dizem que as coisas andam mal. Admito. Ontem mesmo morreu o meu porco cachaço mais produtivo. Mas isso pode ser muito positivo. Como diz a sabedoria popular, não há mal que dure sempre. O governo do Temer só tem quatro meses pela frente. Se bem que parece já ter acabado. Aqui em Palomas ninguém mais fala dele, a não ser para assustar caturrita na lavoura ou criança respondona. Cito uma frase do meu mestre Voltaire: “Uma discussão prolongada significa que ambas as partes estão erradas”. Muita bola, pouco pirão. É por isso que não dou muita importância para esses debates todos. Sei que tentam nos enrolar. É conversa de calavera.
Calavera para nós é jogador, viciado em apostas. Não estou falando de desocupados. Como diz o outro, tudo evolui, até cola de cavalo. Ainda mando cartas. Estava aprendendo a usar o e-mail. Veio um guri que estuda na cidade e me disse que isso é coisa de velho. Vai me ensinar a usar um tal de uateszape. Diz que é bala. Gosto de bala de chupar, não de atirar. Vamos ver que bicho sai. Por enquanto, tudo vai bem. O pior já passou. Não tenho medo do futuro. Vivi o passado. Sei que ditadura não traz felicidade, salvo para quem gosta de perversidade.
Lendo Voltaire, compreendi que meu avô tinha razão: ovelha não é pra mato. Por que falo dessa pérola? Não fosse uma linguagem mais empolada do que pirão de farinha de mandioca, diria que cabe hermenêutica aí. Enquanto fumo meu cachimbo, que larguei o palheiro, solto os meus latinórios para impressionar os viventes que me visitam: periculum in mora e fumus boni iuris. Saem daqui me achando um sábio. Comigo não tem perigo na demora. A minha fumaça não é do bom direito, mas do fogo de chão mesmo. Se bem que acredito em nossas instituições. Elas só se atrapalham quando um dos seus queridinhos se mete em confusão.
Estamos avançando. Em breve, voltaremos a ter um governo sem discussão de legitimidade. Tem candidato de todas as ideologias. Vai de banqueiro a bancário, de cabo a capitão, de soldado raso a general, de capitalista a comunista. Eu acredito na inteligência do eleitor. Cada um sabe onde lhe aperta a bota. Os ricos votam em quem promete diminuir impostos. Os pobres, em quem garante a permanência do bolsa-família. O eleitor é racional. Não vota em cavalo, salvo quando vira rebanho. Saudações palomenses do Candoca.”

'O estado é racista, mas se falo isso é mimimi', diz advogada algemada no Rio

A advogada Valéria Lucia dos Santos, 48, foi algemada por policiais na última segunda-feira (10) durante uma audiência em Duque de Caxias, no estado do Rio. Valéria e a juíza leiga discutiram, porque a advogada exigia ter acesso à peça da defesa. A juíza negou o pedido e chamou os policiais.
Pessoas na sala gravaram vídeos da discussão, mas não é possível ver todos os momentos ou o início do episódio. Segundo a OAB, Valéria estava “absolutamente correta”, e o ato foi uma grave violação. Questionado, o Tribunal de Justiça do Rio disse, em nota, que a juíza leiga pediu a presença de policiais “para conter uma advogada que não havia acatado orientações da magistrada”.
Valéria afirma que sofre diariamente com preconceito no trabalho e não se sente representada no Judiciário. Ela evita, entretanto, associar o seu caso ao racismo.
A OAB-RJ vai entrar com com representação contra os policiais e a juíza. A pedido da ordem, a audiência foi anulada e remarcada para 18 de setembro, quando será presidida por um juiz togado —o juiz leigo é um advogado que auxilia a Justiça em alguns juizados especiais, mas a decisão final é de um juiz togado.
A seguir, o depoimento de Valéria à Folha.
*
A ficha do racismo só caiu quando eu estava no chão, algemada. Os policiais me pegaram cada um por um braço na sala de audiência e me arrastaram em pé até o corredor. Não fui violenta com ninguém, só não me movi. Quando chegou do lado de fora da sala, me deram uma rasteira e eu caí sentada. Depois colocaram as algemas.
Nesse momento chegou o delegado da OAB. Ele foi muito firme: “Tira a algema dela agora!”. Os policiais obedeceram na hora. Já eram quatro a essa altura. Aí você pensa: Como é a formação da nossa sociedade? Vamos dar os nomes: tem o senhor de engenho, a senhorinha, o capitão do mato. E quem estava no chão algemado? Eu.
Estado é racista, entendeu? Mas se eu falo isso é mimimi, é vitimismo, por isso que eu não queria atrelar esse caso a racismo, porque eu não quero ouvir essa resposta. A minha luta ali era garantir o meu direito de trabalhar. O racismo vai voltar a acontecer. Eu tento abstrair, ignoro. Mas não dá para tirar o meu ganha pão.
Naquele dia, a juíza leiga já tinha começado a audiência com uma pergunta não muito amigável. A minha cliente também é negra, e a juíza falou: “vocês são irmãs?”. A cliente respondeu, eu fingi que não tinha ouvido e continuei o meu trabalho.
Episódios assim acontecem quase todo dia, mas muitos colegas não falam porque acham que não vale a pena ou não querem criar problema. Vou dar um exemplo simples. O direito tem várias formalidades. Tem uma cadeira para o advogado e uma para o cliente. Eu sento na cadeira do advogado e os juízes me perguntam: “a senhora é o quê?”. Ou eles falam para os outros advogados na sala que já os conhece, mas eu preciso mostrar a carteira da OAB. Não adianta eu dar o número, preciso mostrar o documento.
Não vou te enganar, eu entro nas audiências e não me sinto representada. A gente está em minoria na estrutura institucional do Judiciário. A última vez que um desses episódios aconteceu, eu me acovardei, não quis arrumar tumulto. Naquele dia em Caxias, decidi que isso não ia se repetir. Eu tinha direito de ver a peça da defesa.
A juíza leiga negou. Eu saí da audiência para buscar o delegado da OAB, mas ele não estava na sala dele. Avisei à atendente. Quando voltei, a juíza tinha encerrado a audiência e me mandou esperar do lado de fora. Me recusei. Disse que eles, como representantes do Estado, não estavam respeitando a lei. Ela decidiu chamar a força policial.
Tanto foi uma violação que a audiência foi remarcada, com um juiz togado. Aquele ato ali, tanto meu, se eu extrapolei, quanto o dela, foi anulado. Na hora eu não chorei, mas por dentro eu chorava. Fiquei muito mal. Quando cheguei em casa, sozinha, desabei.
Na OAB, quando uma outra advogada negra me abraçou e disse que tinha se sentido representada pela minha atitude, também fiquei muito comovida. Não esperava essa acolhida.
No dia seguinte tentei espairecer, fazer a minha corrida em Mesquita, na Baixada Fluminense, onde eu moro. Eu sempre fui atleta. Fiz atletismo e joguei basquete profissionalmente, muito antes do Direito chegar na minha vida. Meu pai era caminhoneiro e minha mãe, costureira.
Na adolescência, fui convidada para jogar no Iguaçu Basquete Clube e no América. Aos 17, me mudei para Santa Catarina para ser atleta em Criciúma e depois em Concórdia. Morava em uma república de jogadoras, treinava de manhã, ia para escola, estudava de tarde e treinava de novo. Recebia um salário, tudo direitinho. Joguei contra a Paula, a Hortência, várias atletas famosas.
Com 24, voltei para o Rio para fazer faculdade. Comecei com fisioterapia, depois mudei para educação física na Universidade Federal Rural. Fui a primeira da família a entrar na faculdade.  
Antes de concluir, recebi uma bolsa para estudar e jogar nos Estados Unidos, na Oral Roberts University, em Tulsa, Oklahoma. Morei lá dez anos, casei com um americano e tive dois filhos. Quando fiquei grávida, perdi a bolsa. Fiz um curso técnico e me tornei auxiliar de enfermagem.
Em 2005, minha mãe foi diagnosticada com câncer de pulmão, e eu decidi voltar ao Brasil. Meu casamento já não estava bom, e nos divorciamos. As crianças vieram comigo, conheceram a avó. Retornei para a Baixada e segui com a enfermagem.
Aos poucos, o desejo de terminar a faculdade voltou. A saúde no Brasil estava muito precária e escolhi cursar direito. Passei em uma universidade particular, com o Prouni. Mas me angustiava com a situação dos meus filhos.
Infelizmente, com a implantação das UPPs na cidade do Rio, a Baixada ficou muito perigosa. Meus dois irmãos foram assassinados em Mesquita. Eu olhava para os meus filhos dormindo e pensava: 'Meu Deus…' Eles faziam várias atividades, futebol, natação, judô, mas eu tinha aquele receio de mãe. Eu trabalhava muito, fazia faculdade. Pensava: 'E se eu vacilar, não for tão atenta? Com o tráfico e aquela violência toda…'
O Brasil não investe no ser humano, e eles vão ficando pelo meio do caminho. Tem uns que têm uma força muito grande e, mesmo com todas as dificuldades, conseguem quebrar barreiras. Outros não, e são esses que nós perdemos.
Então na época eu liguei para o meu ex-marido e chegamos a um acordo. Era melhor para os nossos filhos que eles voltassem para os EUA. Não consegui viajar para visitá-los ainda, faz sete anos que não os vejo. Sou advogada autônoma, no começo da carreira, me formei em 2016. Ganho pouco, cerca de R$ 1.500 por mês. Trabalho de casa, em Mesquita, e duas vezes por semana em um escritório de Caxias.
Foi uma decisão radical mandar meus filhos para os EUA, mas foi a melhor opção. Um está começando a faculdade de engenharia, na Carolina do Norte, e o outro está terminando o segundo grau. É difícil para mim falar disso [fica em silêncio, suspira]. Tenho saudade, mas vejo que eles estão evoluindo lá. O mais velho conseguiu uma bolsa de estudos. Então foi doloroso sim, mas valeu a pena.
Como meus pais já faleceram e meus filhos estão fora, a minha referência aqui são os meus tios. Foi com um deles que fui conversar depois do que aconteceu no fórum. Porque as pessoas mais velhas, mesmo sem estudo, são muito sábias. Ele me disse: “Você é igual à sua mãe, não leva desaforo para casa”. E me deu o melhor conselho: “Não abaixa a cabeça, segue em frente”.

sábado, 8 de setembro de 2018

Régua brasileira de crimes

Certos dias, empurrado pelas injustiças do presente, pelo frio ou pela chuva, ou tudo isso junto, eu releio o que escrevi sobre o passado. Gastei anos pesquisando para conceber e publicar “Raízes do conservadorismo brasileiro, a abolição na imprensa e no imaginário social”. Não o fiz por vaidade. Queria entender como nos tornamos o que somos. Acredito que o passado engendra o presente e deixa marcas duras de apagar. Temos réguas para medir crimes. O maior costuma ser aquele que fere mais privilégios. A desmontagem de situações aberrantes provoca grandes ressentimentos. Surgem discursos hilariantes do tipo: não se pode mais ser heterossexual nem branco.
“No Diário de Notícias, de 13 de maio de 1889, Coelho Neto resumiria com estilo e pontaria certeira: ‘Primeiro aniversário da nossa história política. Começamos a viver, 13 de maio de 1888, antes éramos um povo de bárbaros, no estado primitivo. Depois das naus portuguesas, que descobriram o solo, era mister alguma coisa que descobrisse as almas – um coração encarregou-se disso. O Brasil deixou de ser o presídio dos negros da África para ser um Estado livre, independente da suserania dos oligarcas. 13 de maio é a data inicial da nossa história. Depois do Gênese, o Êxodo’. Num inferno.
O pai de Paulino de Sousa, o Visconde do Uruguai, Paulino José Soares de Sousa, como ministro da Justiça do jovem imperador D. Pedro II, opusera-se ferrenhamente ao Bill Aberdeen, o decreto inglês que dava poderes absolutos a navios britânicos para abordar, vistoriar e apresar navios brasileiros suspeitos de tráfico de escravos, considerando pirataria o crime cometido pelos traficantes. Paulino, o pai, considerava que a Inglaterra cometia grave violação ao direito internacional e praticava o pior dos crimes: o desrespeito à soberania nacional. Os ingleses fleumaticamente entendiam que comprar pessoas, traficá-las e mantê-las em cativeiro era muito mais grave.  Paulino de Sousa, o pai, via na atitude dos ingleses uma demonstração inaceitável de arrogância e de imperialismo. Os ingleses viam na postura brasileira uma prova de iniquidade e de barbárie nacional. Paulino, o pai, pretendia que os ingleses insultavam os brasileiros. Os britânicos compreendiam que o Brasil ofendia toda a humanidade.
Paulino José Soares de Sousa, o pai, aceitava o fim do tráfico, mas não a abolição da escravatura. Paulino José Soares de Sousa, o filho, admitia o fim da escravidão, mas gradualmente e com indenização aos proprietários ‘lesados’. Tal pai, tal filho. Ambos foram derrotados. Ambos caíram atirando. Ambos causaram estragos. A abolição, lenta e gradual, precisou vencê-los durante décadas. Os discursos dos escravagistas fincaram raízes na cultura brasileira. Sempre em nome da legalidade, da ordem, da produção, da produtividade, do direito, da Constituição, das famílias, das fortunas adquiridas dentro da lei, do respeito à propriedade, da paz, da segurança jurídica e alimentar, das instituições e do bem comum.” Nada incomum.

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Timidez como virtude

Outro dia ouvia uma colega, muito inteligente e bonita, me dizer da “gastura” que sentia em ouvir pessoas falando sobre suas qualidades intelectuais, realizações e títulos. Estando eu presente no momento desse infeliz “self marketing” que causou a “gastura” no estômago da minha jovem colega, entendi bem o que ela dizia.
O mau hábito de falar das próprias realizações sempre existiu. Mas, hoje, é diferente: ser brega e fazer self marketing virou uma “ciência”. Hoje, a velha máxima que “toda virtude verdadeira é tímida” se transformou numa informação urgente.
Toda virtude verdadeira é tímida. Sempre. Sim, sei que somos seres de contínua baixa autoestima, e que o mundo prima por nos ferrar todo dia: gorda, burro, brocha, histérica, mal amado, enfim, adjetivos feitos para destruir a já frágil autoestima que temos. E que, portanto, muitas vezes nos faz cair na tentação de reafirmar nossos feitos na cara dos outros. Mas há uma diferença quando fazemos isso em claro momento de desespero e quando fazemos isso achando que estamos abafando. O caso comentado pela minha colega era este segundo caso.
Por que toda virtude verdadeira é tímida? Antes de tudo, porque a vocação constante à vaidade que nos assola deixa a virtude insegura com relação a si mesma. Esta dinâmica, entre a dúvida da virtude x a certeza da vaidade é tema, por exemplo, da clássica polêmica da graça entre Santo Agostinho (354–430) e Pelagius (360–420).
Outro traço da virtude é ser desatenta consigo mesma. Por isso, alguns afirmam que a maior de todas as virtudes seria a humildade, uma vez que esta é o oposto simétrico da vaidade. O cotidiano da virtude não é checar a si mesma continuamente no espelho para ver o quão bem sucedida ela tem sido em ser ela mesma. Essa desatenção consigo mesma é traço essencial da virtude. Associada a ela está a percepção de “naturalidade” que toda virtude verdadeira transparece.
Somos naturalmente “equipados” com a capacidade de identificar a leveza com a qual alguém age de modo virtuoso. Assemelhando-se à manifestação da graça, a leveza da virtude tímida e natural equipara-se à beleza sem vaidade.
Essa “naturalidade” da virtude está descrita por Aristóteles (384 AC–322 AC) quando em seu “’Ética a Nicômaco” ele diz que a virtude deve se transformar numa segunda natureza.
Não se trata de negar o esforço consciente em busca do comportamento virtuoso, segundo o filósofo. O esforço é real e consciente. Portanto, a timidez da virtude não é fruto de sua inconsciência como comportamento. A timidez é fruto da naturalidade (segunda natureza, nos termos do filósofo) que caracteriza uma virtude madura.
Timidez aqui é quase uma metáfora, não para a insegurança enquanto tal, mas para a virtude instalada no cotidiano do virtuoso que se deixa perceber pelo ato, e não pelo “anúncio do ato”.
A ética é uma ciência prática. A ideia de fazer marketing da ética é como se afirmar que um círculo é quadrado. Dizer que a virtude é prática e jamais teórica significa dizer que só o outro reconhece a virtude em você. A virtude é da ordem do ato e não do discurso. Se você falar da sua virtude, você jamais convencerá uma pessoa razoavelmente inteligente e madura da veracidade da sua afirmação. Porque quem precisa anunciar sua própria virtude é porque a prática dessa virtude não é suficiente para ser reconhecida.
Por isso, afirma-se que a virtude é pública, jamais privada. É silenciosa, mas sua existência é atestada pelo olhar do outro que a vê acontecer no mundo, sem anunciar que está acontecendo. O histórico do seu comportamento, reconhecido ao longo do tempo pelas pessoas à sua volta (mesmo as que te odeiam), se constituirá na substância do seu caráter. Esse caráter, ao longo da vida, se constituirá, por sua vez, no seu destino. Por isso, afirma-se que virtude é destino. Sendo ela uma segunda natureza, realizada no silêncio do esforço prático sem tagarelice, a virtude (ou a ausência dela) pode se transformar numa maldição mesmo. Nada garante que virtude traga “felicidade”.
No nosso mundo tagarela, marcado pela breguice do self marketing, a virtude não deve ser apenas tímida, mas a própria timidez se torna, a cada dia, uma virtude em si mesma. E esta é um animal do silêncio. Semelhantes a ela são a discrição, a delicadeza, a elegância e a contenção. A busca dessas virtudes como forma de sabedoria é um desafio para o século 21. Otavio Frias Filho era um exemplo vivo delas.

Luiz Felipe Pondé, na Folha de São Paulo