terça-feira, 15 de julho de 2014

O fracasso do Obamacare é não fracassar


Quantos norte-americanos sabem como a reforma da saúde no país está se saindo? Aliás, quanta gente na mídia noticiosa vem acompanhando os desdobramentos positivos?
Suspeito que a resposta à primeira pergunta seja "não muitos", e que a resposta à segunda seja "talvez ainda menos", por motivos que exporei adiante. E se estou certo, isso é realmente notável - um imenso sucesso em termos de política pública está melhorando as vidas de milhões de norte-americanos, mas no geral sem atrair grande atenção.
Como é que isso é possível? Bem, uma negatividade incansável, acompanhada pela irresponsabilidade propiciada pela falta de prestação de contas, serve como resposta. A Lei de Acesso à Saúde vem enfrentando incessantes ataques partidários e da mídia de direita, e a mídia mais equilibrada também vem tendendo a insistir mais em seus problemas do que nos pontos positivos.
Muitos dos ataques envolveram previsões de desastre, e nenhuma delas se concretizou. Mas a ausência de desastre não propicia manchetes atraentes, e as pessoas que previram falsas calamidades não param de voltar com novas profecias catastróficas.
Considere, especialmente, o impacto do Obamacare sobre o número de norte-americanos desprovidos de planos de saúde. O fiasco inicial no site do governo federal para o plano produziu muita alegria na direita e muitas reportagens negativas na mídia centrista, igualmente; no começo de 2014, muitas reportagens afirmavam com confiança que o número de inscritos no novo sistema em seu primeiro ano ficaria bem aquém das projeções da Casa Branca.
E então veio a notável disparada tardia no número de inscrições. Os pessimistas tiveram de encarar perguntas difíceis sobre os motivos de seu imenso erro? É claro que não. Em lugar disso, as mesmas pessoas apareceram com um novo conjunto de teorias da conspiração e novas previsões de calamidade.
O governo está "adulterando os números", disse o senador John Barrasso, do Wyoming; as pessoas inscritas não pagariam as mensalidades dos planos de saúde, uma coleção de supostos "especialistas" previu; mais pessoas estavam perdendo os planos de saúde de que dispunham do que assinando para novos planos, declarou Ted Cruz, senador pelo Texas.
Mas a grande maioria dos inscritos pagou suas mensalidades, e hoje temos múltiplos levantamentos independentes - do Gallup, do Urban Institute e do Commonwealth Fund - mostrando acentuada redução no número de norte-americanos desprovidos de planos de saúde, do final do ano passado para cá.

CAPENGA

Tenho visto algumas alegações da direita no sentido de que a dramática redução no número de pessoas desprovidas de planos de saúde foi causada pela recuperação da economia e não pela reforma da saúde (o que quer dizer que agora os conservadores elogiam a condução da economia por Obama?) Mas é uma afirmação bem capenga, e demonstravelmente falsa.
Para começar, a queda é muito acentuada para ser explicada por uma melhora no máximo modesta no quadro do emprego. Além disso, a pesquisa do Urban Institute mostra diferença notável entre a experiência nos Estados que expandiram o [plano federal de saúde] Medicaid - que em geral também são aqueles que fizeram o melhor trabalho para garantir que a reforma da saúde funcione - e os Estados que fizeram o possível para recusar cobertura adicional do governo federal aos seus cidadãos mais pobres.
E o resultado é que a queda no número de pessoas desprovidas de planos de saúde foi três vezes maior nos Estados que expandiram o Medicaid do que naqueles que rejeitaram essa expansão. Não é a economia: é a política, estúpido.
E quanto ao custo? No ano passado, houve muitas alegações de um "choque de mensalidades", uma disparada no custo dos planos de saúde. Mas no mês passado o Departamento de Saúde e Serviços Humanos do governo federal norte-americano reportou que entre as pessoas que recebem subsídios federais - a grande maioria dos inscritos -, o saldo líquido mensal a pagar por um plano é de apenas US$ 82.
Sim, há quem tenha saído perdendo com o Obamacare. Se você é jovem, saudável e tem renda suficiente para não se qualificar para um subsídio (e não contar com um plano de saúde fornecido por seu empregador), é provável que a mensalidade do seu plano de saúde tenha subido.
E se você é rico o bastante para pagar os impostos adicionais que bancam os subsídios, terá sofrido um impacto financeiro. Mas é revelador que nem mesmo os oponentes da reforma estejam tentando dar destaque a essas histórias.
Em lugar disso, continuam a procurar por vítimas mais velhas, e mais doentes, na classe média, e continuam fracassando em encontrá-las.
Oh, e de acordo com a pesquisa do Commonwealth Fund, a maioria esmagadora das pessoas que adquiriram novos planos de saúde, o que inclui 74% dos republicanos entre elas, estão satisfeitas com a cobertura de que dispõem.

RESULTADOS

Seria possível perguntar por que, se a reforma da saúde está indo tão bem, seus resultados nas pesquisas continuam tão ruins. É crucial, eu argumentaria, compreender que o Obamacare, propositadamente, não afeta os norte-americanos que já contam com bons planos de saúde. Como resultado, a opinião de muita gente é determinada pela cobertura em geral negativa da mídia noticiosa.
Ainda assim, a mais recente pesquisa de acompanhamento da Kaiser Family Foundation mostra que número crescente de norte-americanos está sendo informado por familiares e amigos sobre o plano, o que significa que mais pessoas estão começando a ser informadas pelos beneficiários do programa.
E como sugeri acima, o pessoal da mídia - especialmente os sabichões da elite -talvez esteja entre os últimos a ouvir as boas notícias, simplesmente porque é parte de uma categoria socioeconômica na qual as pessoas em geral contam com boa cobertura.
Para os menos afortunados, porém, a Lei de Acesso à Saúde já fez grande e positiva diferença. Os suspeitos de sempre continuarão a alegar fracasso, mas a verdade é que a reforma da saúde - que absurdo! - está funcionando.

Reprodução de texto de Paul Krugmann, na Folha de São Paulo. Tradução de Paulo Migliacci.

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