quinta-feira, 23 de março de 2017

Cacique da reserva de Serrinha é morto com cinco tiros

Cacique da reserva de Serrinha é morto com cinco tiros

Indígena de 57 anos estava na casa de um amigo no interior de Ronda Alta
O cacique Antônio Ming Claudino, 57 anos, da Reserva de Serrinha foi morto na noite dessa segunda-feira com cinco tiros. Os disparos, que atingiram o pescoço do indígena, foram desferidos por uma pessoa que desceu de um Chevrolet Prisma, cor branca, conduzido por uma mulher. Ele estava na casa de um amigo, na localidade de Alto Recreio, interior de Ronda Alta, quando foi atacado.
O cacique, ex-vereador de 2013 a 2016 pelo PT, foi socorrido, levado ao Hospital de Ronda Alta, mas não resistiu aos ferimentos. Claudino era cacique há 20 anos da reserva de 12 mil hectares, onde residem mais de mil caingangues e que abrange os municípios de Constantina, Engenho Velho, Ronda Alta e Três Palmeiras. 
A Delegacia de Polícia de Ronda Alta, no Norte do Estado, abriu inquérito e apura o caso, juntamente com a Polícia Federal (PF). Segundo moradores de Ronda Alta, o cacique era considerado um parceiro das autoridades policiais e se posicionava contra as invasões de terras que ocorriam no interior da reserva.
O corpo do cacique será sepultado na tarde desta terça-feira, na localidade de Alto Recreio, em Ronda Alta, sede da Reserva de Serrinha.

Reprodução do Correio do Povo
 

Homens invadem hospital e matam a tiros liderança do MST no Pará

Homens armados invadiram o Hospital Geral de Parauapebas (PA) e mataram a tiros Waldomiro Costa Pereira, liderança do MST (Movimento Sem-Terra) e assessor de gabinete na prefeitura da cidade, na madrugada desta segunda-feira (20).
Pereira estava internado no hospital desde o último final de semana após ser baleado em seu sítio, na cidade de Eldorado do Carajás. Segundo a
Prefeitura de Parauapebas, ao menos cinco homens armados invadiram o hospital, renderam os seguranças e mataram Pereira.
Pereira não participava recentemente da direção do MST no Estado, pois estava se dedicando ao lote onde vivia no Assentamento 17 de abril. Ele era militante do MST desde 1996 e, segundo o movimento, "contribuiu durante longo período na luta pela reforma agrária". Pereira também era militante do PT (Partido dos Trabalhadores).
O MST informou que desconhece os motivos do assassinato e lamentou a morte do militante. Em nota, o movimento sem-terra disse esperar que as autoridades tomem as providências necessárias diante da execução sumária praticada por assassinos dentro do hospital com vigilância de câmeras.
"Este é mais um assassinato de trabalhadores no Estado do Pará que o governo é culpado pela sua incompetência em cuidar da segurança da população e praticado em função da negligência do Estado em apurar e punir os crimes desta natureza".
A Prefeitura de Parauapebas também manifestou pesar pela morte e se solidarizou com os familiares e amigos de Pereira.


Reportagem de Marha Alves, na Folha de São Paulo.

Viciado em crack, morador de rua revitaliza praça no centro de SP


Quando era pequeno, Alexandre Martinez escutava a avó conversando com as plantas. "Tá doida, vó?", perguntava. Depois, passou a ajudá-la no ofício –e essas plantas, em Limeira (151 km de São Paulo), eram tão admiradas que atraíam até quem pedisse para comprá-las. Hoje, aos 41, esse morador de rua com as mãos sujas de terra é quem conversa com as "meninas" que plantou em uma praça no centro de São Paulo.
Sozinho, ele revitalizou em três meses o pequeno espaço na esquina das avenidas São João e Duque de Caxias. Martinez substituiu o lixo e o entulho por canteiros com pau-brasil, palmeira, bananeira, abacateiro. Também plantou boldo, batata doce, feijão, pimenta, cebolinha e plantas decorativas como a espada-de-são-jorge. Nesta segunda (20), foi a vez do chuchu.
O centro da praça agora tem um vaso que ele encontrou em uma caçamba e uma cesta de lixo –a única do local– que ele mesmo pendurou em um poste. As paredes, pichadas, ele pintou com tinta presenteada por um carroceiro –sem pincel, mas com a espuma de um colchão.
Com uma pequena faca de cozinha, vai limpando as plantas no solo. Aponta para pontos em que algumas foram arrancadas por outras pessoas. Mas afunda as mãos na terra e diz: "Se plantei, tenho que cuidar. São minhas meninas". E o faz com delicadeza. "Mó deselegância, amigo, não precisa disso", comenta quando um morador dali urina no pé de um dos coqueiros.
Moradores do entorno reparam na mudança gradual da praça e elogiam o autor das alterações –na tarde em que a reportagem passou com ele, nesta segunda, três pessoas pararam para felicitá-lo espontaneamente. "Ele não para. É uma máquina. Observo ele dia e noite, desde janeiro. O rapaz tem talento", diz Maria do Socorro dos Santos, 61.
Outra senhora passa e pergunta se ele quer algumas mudas. "Opa, aceito!", responde o jardineiro. "Ele é uma pessoa muito organizada, caprichosa. É um prazer passar por aqui agora", diz ela, Ciralva Pereira, 71. "Antes, eu precisava limpar todos os dias. Agora não preciso mais", afirma a gari Maria das Neves Silva, 65. "Melhorou 100%. Eu o parabenizo."
"Não faço isso por dinheiro nem por glória. Faço para controlar minha ansiedade", diz Martinez. "Tentei melhorar a praça. E daí, com isso, deixei de fumar um cigarro. Depois, deixei de usar uma droga. Preenche minha cabeça e meu tempo", diz, mostrando na carteira uma pedra de crack, enrolada em um pedaço de papel. "Por estar cuidando das plantas hoje, não estou fumando isso."

JARDINEIRO

Depois de Limeira, Martinez retomou sua experiência como jardineiro em Maresias, no litoral norte de São Paulo, conta, colocando para trás das orelhas os cabelos compridos e encaracolados.
Aos 19 anos se despediu da avó, que o criou (a mãe morreu quando ele tinha sete anos), e foi para a praia sem dinheiro no bolso. Ao vê-lo dormindo em uma praça, um homem o contratou para fazer um bico de jardinagem. Pegou gosto. Durante cinco anos, "trabalhava três dias e ficava um na praia, fumando maconha e surfando".
Depois, foi para Salvador, onde trabalhou como garçom. Quando chegou a São Paulo, já viciado em crack, conheceu na boate Lovestory, no centro da cidade, aquela que atualmente é sua ex-mulher. A tatuagem no braço, "Nicole, amor eterno", denuncia: tiveram uma filha, hoje com 11 anos, "olhos azuis como os meus e loira como a mãe", diz ele, que a vê quando se considera arrumado e bem.
No começo do ano, Martinez morava na praça 14 Bis, onde o prefeito João Doria (PSDB) inaugurou seu programa de zeladoria Cidade Linda. Incomodado com a lona verde que a prefeitura colocou sob o viaduto Plínio de Queiroz, escondendo os moradores de rua, migrou para a praça na Duque de Caxias. Há duas semanas, deixou de dormir ali para alugar um quarto na cracolândia (região da Luz) por R$ 25 a noite.
"Volto para a praça de dois em dois dias, quando não chove", diz ele. Rega as plantas com água que vaza de um prédio próximo dali. As mudas são doadas ou colhidas de outros canteiros –e é assim também que recebe renda suficiente para pagar sua hospedagem. Outras vezes vende na cracolândia frutas caídas de carregamentos.
Materiais foram presenteados, como a vassoura e uma enxada, que ele diz sentir falta –foi confiscada pela GCM (Guarda Civil Metropolitana), segundo conta, resignado.
Mas ele queria mesmo era uma barraca, para voltar a dormir na praça e cuidar das plantas. "Quando levanto, agradeço todos os dias por mais um dia", afirma. "E como posso ir embora? Daqui a pouco tem festa junina e vou querer provar da minha batata doce", brinca, sorrindo.


Reportagem de Juliana Gragnani, na Folha de São Paulo

Médico precisa ter cuidado até para dar boa notícia

Em outubro passado, recebi o diagnóstico de um pequeno nódulo na vesícula durante ultrassom de abdome de rotina. Nada muito assustador exceto o fato de a minha mãe ter morrido três meses antes de um câncer primário nesse mesmo órgão, com metástase no fígado.
Eu e minha médica decidimos repetir o exame seis meses depois para ver como o nódulo havia se comportado. Caso tivesse aumentado ou mudado de formato, faria uma cirurgia para retirar a vesícula.
Na semana passada, repeti o ultrassom de abdome com uma certa apreensão. Ao passar o transdutor na região da vesícula, a médica se deteve no local. Passou o aparelho várias vezes. "Segura a respiração, agora solta." "Vira de lado, agora do outro". Nesse meio tempo, falava baixinho com a assistente.
Depois de alguns minutos e nada de dar prosseguimento na análise de outros órgãos, perguntei à médica se havia algo errado com a vesícula. "Ao final a gente conversa", ela respondeu. Engoli o choro.
É claro que não ela fazia ideia (e continua não fazendo) do impacto que essas palavras iriam me causar. As três semanas terríveis entre o diagnóstico do câncer da minha mãe a morte dela voltaram a me assombrar. Na minha cabeça só passava o pior. Naquela hora, de nada valeu o arsenal de informações que eu tinha sobre o câncer que levou a minha mãe e o fato de o tumor não ter origem genética.
Após examinar os outros órgãos, a médica deixou a sala e voltou dizendo que repetiria a análise da vesícula, aumentando ainda mais a minha apreensão. Após mais alguns minutos, ela disse: "Não fique assustada, mas é que não estou encontrando o nódulo que o exame anterior havia detectado. A sua vesícula tá ótima, não tem nada". Chorei de alívio.
Ela não entendeu nada. Eu também me calei sobre a razão das lágrimas. Claro que ninguém tem a obrigação de conhecer de antemão as suscetibilidades do paciente, mas penso que ainda há muito o que avançar na comunicação de notícias (as ruins e as boas também).
O meu caso não é nada diante de tantas histórias que já ouvi e escrevi, mas me fez lembrar delas. De uma amiga febril que ouviu de um infectologista que ela tinha leucemia (sem ao menos os olhar os exames) a um oncologista que, diante da recidiva do câncer da paciente, decretou a sua morte dizendo mais ou menos assim: "Aproveite o seu filho enquanto há tempo". Detalhe: o filho, de oito anos, estava do lado dela.
Há histórias que de tão bizarras parecem inverossímeis. Uma leitora me contou que certa vez um especialista em reprodução humana disse que ela não engravidaria naturalmente porque, aos 41 anos, não era mais "aquela Brastemp".
Dentro das instituições de saúde, existem várias iniciativas com o intuito de melhorar a comunicação entre médicos e pacientes. Algumas envolvem até encenações com atores profissionais para ensinar a comunicação de más notícias. Muitas são louváveis, mas pouco adianta se o profissional desconhecer aquela velha e boa regra de ouro: trate os outros como gostaria de ser tratado, ou faça aos outros aquilo que gostaria que fizessem a você.


Texto de Claudia Collucci, na Folha de São Paulo

segunda-feira, 20 de março de 2017

As almas se dividem entre as próximas de Tolstói ou de Dostoiévski

Existem dois tipos de alma: ou você está próximo de Dostoiévski (1821-1881) ou de Tolstói (1828-1910). Talvez pareça excessivamente chique uma divisão dessas, mas, ao fim dessa coluna, espero que fique menos obscuro esse critério.
Essa é a tese do crítico George Steiner em seu maravilhoso livro "Tolstói ou Dostoiésvki", da editora Perspectiva. Um dos livros mais belos que já li na vida. Próximo ao "Obras do Amor" de Kierkegaard (1813-1855), que é de longe o livro mais belo escrito em filosofia ou teologia que conheço.
A beleza e o amor suspendem a vida acima da banalidade do cotidiano. Despertá-los talvez seja a missão mais sublime que alguém pode ter na vida com relação aos seus semelhantes.
Uma das forças da literatura clássica é nos fazer conhecer a nós mesmos. Sei que está na moda dizer que não existe literatura clássica, mas deixemos de lado essa discussão entediante.
A tipologia que nos propõe Steiner deita raízes nos dois estilos gregos: o épico e o trágico. Tolstói estaria no primeiro, Dostoiévski no segundo. E, por consequência, são dois modos distintos de viver a vida. Ambos carregando a grandiosidade de espíritos avassaladores, como os dois escritores russos.
O épico seria o estilo em que a vida está envolvida pela presença do mito ou da religião, fundando uma ação fincada na esperança prática do transcendente (mundo dos deuses) e, por consequência, na esperança da redenção do mundo. Salvar o mundo é sua marca. Pessoas épicas sentiriam que suas vidas são acompanhadas por forças que as tornam capazes de redimir o mundo de suas misérias. Sua virtude central é a esperança.
Por "prática" aqui, quero dizer que não se trata de um espírito religioso meramente teórico ou alienado do mundo, mas profundamente enraizado nas agonias e demandas do mundo.
Para Steiner, Tolstói tem esse espírito de modo bem evidente, entre outros momentos, no período em que escreve "Ressurreição", que começou a ser publicado na Rússia em fascículos em 1899. O Conde Tolstói nessa época estava bastante envolvido na luta contra as injustiças da Rússia czarista, e abraçou, no final da vida, uma forma de anarquismo cristão pietista bastante radical.
O trágico seria o estilo em que o olhar para a vida se mantém fincado na fragilidade dela.
A precariedade é a estrutura dinâmica da vida. Nas palavras do escritor americano Henry James (1843-1916), uma vida tomada pela "imaginação do desastre". Aqui não há redenção, há coragem de enfrentar esse "desastre" que é a existência humana. Para Steiner, esse é a alma dostoievskiana. Sua virtude central é a coragem.
Aqui, mesmo que haja o divino, como há em Dostoiévski, o peso do drama cai sobre as costas do homem que caminha sozinho pelo chão do mundo. A beleza de Deus, na forma de "taborização" de seus místicos, como se fala na teologia russa, em referência à transfiguração do Cristo no Monte Tabor, aparece sempre como iluminação da agonia humana a sua volta (basta ver o Príncipe Mishkin do romance "O Idiota").
O místico em Dostoiévski ilumina por contraste. Sua luz divina faz a doçura do perdão brotar na consciência atormentada do pecador.
Uma alma tolstoiana é uma alma iluminada pela esperança e pela vitalidade que Deus a empresta. Seu elemento é a força de atuar no mundo social e político.
Uma alma dostoievskiana é iluminada pela dor e pela coragem que a mantém de pé. Seu elemento é a misericórdia como substância de sua psicologia espiritual.
E como passamos dessa alta teologia para o chão do cotidiano de nós mortais?
Almas tolstoianas lutam a cada dia contra a miséria do mundo, fazendo deste um campo de batalha contra o mal, movidas por uma certeza que parece alucinada.
Almas dostoievskianas, um tanto mais delicadas, suportam o sofrimento encantando o mundo a sua volta com piedade e sinceridade avassaladoras.
Felizes são aqueles que convivem com pessoas assim. A vida se transfigura em esperança e coragem. Duas faces da graça que sustenta o caminho dos homens. Mas, sem humildade, como sempre, seremos cegos a essas virtudes de Deus.


Texto de Luiz Felipe Pondé, na Folha de São Paulo

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Façanhas de Temer predominam no noticiário


Desde a exclusão de Geddel Vieira Lima, não parou mais. O aperitivo da Odebrecht com 34 citações a Moreira Franco, e dezenas de outras, ainda sem contagem precisa, a Michel Temer. A aberração da escolha de Temer para suceder Teori Zavascki. A criação de um ministério para dar foro privilegiado a Moreira. O hacker de Marcela.
A censura de Temer à Folha e ao Globo. A derrota judicial do censor ameaçado de ver-se "jogado na lama". A identificação do indicado para o Supremo, Alexandre de Moraes, como plagiário. Os vetos e recusas de convidados por Temer para ministro da Justiça.
Mais de um mês de predomínio do noticiário pelas façanhas de Temer. Só mesmo chamando a polícia.
É o que foi feito. À falta de mais imaginação, a Polícia Federal sacou um "relatório parcial", logo "vazado" para imprensa e TV. Pronto, Lula voltou à proeminência do noticiário. Acompanhado, como convém, por Dilma Rousseff. E, de quebra, Aloizio Mercadante.
Ainda aquela história de que quiseram obstruir a Lava Jato, os dois primeiros com a nomeação de Lula para ministro da Casa Civil. Mercadante, por aconselhar calma a Delcídio Amaral, ainda tido, na ocasião, como pessoa séria.
Mas, de fato, não é "aquela história". É aquela fraude. No episódio, ilegal foi a conduta de Sergio Moro. Três vezes: ao desprezar o excedente de mais de duas horas entre o prazo de escuta telefônica, por ele mesmo fixado, e o telefonema gravado pela PF; ao divulgar, ele próprio, a gravação ilegal; e fazer o mesmo, sem razão para isso, com uma conversa entre Marisa Lula da Silva e um filho.
O decano pouco liberal do Supremo, Celso de Mello, mencionou na semana passada que foro privilegiado, por transferência de um processo para o Supremo, não interfere e muito menos interrompe o processo. Muda o nível de tramitação, não mais. Deveria ser verdade. Mas é só meia verdade. Porque no Supremo vale para alguns, como Temer e Moreira Franco. Para outros, não, como negado para Lula e, por extensão, para Dilma. Feito de Gilmar Mendes, ministro à direita de Celso de Mello.
Os cursos de Direito precisam acabar com o ensino de leis e de como as empregar. O que vale hoje, está visto, são os truques, capazes até de tirar um presidente da República que as leis não puniram.
Mais um truque está em gestação, agora entre o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, e o ministro Luiz Fux, do Supremo.
A lei exige que seja verificada a autenticidade das assinaturas do "projeto popular" proposto pela Lava Jato – aquele que propõe até a aceitação de provas ilícitas. A Câmara não tem como verificar dois milhões de autenticidades. Os dois poderosos combinam a solução: apenas serão lidos por funcionários, sem exame algum, os nomes, endereços e números declarados de títulos eleitorais.
Até que comece a leitura, a proposta da Lava Jato é um AI-5 envergonhado. Da leitura em diante, seguirá como fraude. A lei será burlada e ao resultado da burla será dada falsa validade legal.
Está feita a primeira reforma dos novos tempos: direito é truque.


Texto de Jânio de Freitas,  na Folha de São Paulo.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Escritores na guerra síria

A guerra na Síria completa seis anos em março. O que foi àquela época descrito pelo regime como protestos pontuais e pela oposição como uma revolução é hoje um longo e imparável confronto.
Como todos os conflitos, este carece de sentido. Mas escritores sírios se esforçam desde já para entender e explicar suas experiências, que serão o grande assunto de sua ficção durante as próximas décadas.
Foi o que aconteceu no vizinho Líbano, cujos pensadores se voltaram ao confronto civil de entre os anos de 1975 e 1990, produzindo os clássicos de sua literatura.
A partir dessa constatação, a revista literária "Banipal", publicada em Londres, dedicou seu número mais recente a 12 autores sírios, traduzindo trechos de seus trabalhos.
São pequenos fragmentos, como as pedras do minarete da antiga mesquita de Aleppo, espalhadas pela esplanada depois de um bombardeio. Mas são registros importantes de como artistas enxergam a guerra enquanto ela ainda é travada.
Hala Mohammad descreve, no poema "Empreste-me a janela, estranho", a experiência de deixar o lar -um drama vivido por outros milhões de sírios, incluindo aqueles que se refugiaram no Brasil.
Ela conta que, após os embates, ninguém voltou a suas casas. Nem mesmo as casas retornaram a si mesmas.
"Os coelhos nos campos, embaixo da erva incinerada pelo napalm, pelo gás de cloro e sarin, fecham seus olhos diante das câmeras, não querendo ser fotografados", escreve. "As crianças morreram. Para quem, então, contar histórias?"
Fawaz Kaderi, por sua vez, narra um cortejo fúnebre. "Essa criança, carregada em ombros, observa a todos de uma rachadura na vida", escreve.
"Uma mulher balança sua cabeça de maneira violenta. Levante, meu menino. O garoto ainda está inerte. O universo tremeu e o assassino sorriu."
Esses pequenos trechos, incluindo também um texto do premiado Khaled Khalifa (autor de "Em Elogio ao Ódio"), são vozes distantes, sem tradução extensiva ao inglês e provavelmente inéditas em português por um longuíssimo tempo.
Os relatos desses 12 autores ainda não serão, pois, lidos ao lado das reportagens jornalísticas e dos discursos políticos.
Mas, uma vez consolidados pelos anos, seus livros vão solidificar o horror de mais um conflito que não precisava ter sido travado.
Essa parece ser, de uma maneira mais ampla, a missão entregue pelo escritor Nouri al-Jarrah a todos os refugiados sírios no final de seu poema "Um Barco para Lesbos":
"Zarpem em todas as direções e, depois da tempestade e do dano, ergam-se em todas as línguas e em todos os livros". "Apareçam em todos os territórios e levantem-se como o raio nas árvores."


Texto de Diogo Bercito, na Folha de São Paulo

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

A aula do professor Padilha

Na campanha pelo impeachment, Michel Temer prometeu montar um ministério de notáveis. Ele nomearia uma equipe de auxiliares reconhecidos pelo talento, e não pela ficha corrida ou pelo apoio de deputados e senadores.
O balão de ensaio murchou rapidamente. Ao tomar posse, o presidente imitou os antecessores e loteou a Esplanada em troca de votos no Congresso. Prevaleceu o velho "toma lá, dá cá", no qual ele se especializou como poderoso chefão do PMDB.
Na semana passada, o ministro Eliseu Padilha relembrou o truque em tom de galhofa. Em palestra para funcionários da Caixa Econômica Federal, ele narrou os bastidores da escolha do ministro da Saúde, Ricardo Barros. A fala foi transcrita pelo jornal "O Estado de S. Paulo" e vale como uma aula de fisiologismo.
"Lembram que quando começou a montagem do governo diziam: 'Só queremos nomear ministros que são distinguidos na sua profissão em todo o Brasil, os chamados notáveis'? Aí nós ensaiamos a conversa de convidar um médico famoso em São Paulo, até se propagou que ele ia ser ministro da Saúde", contou.
Padilha se referia ao respeitado cirurgião Raul Cutait, livre-docente da Faculdade de Medicina da USP. "Aí nós fomos conversar com o PP. 'O Ministério da Saúde é de vocês, mas gostaríamos de ter um ministro da Saúde assim'", prosseguiu.
Animado com o interesse da plateia, o peemedebista narrou o desfecho do diálogo: "Diz para o presidente que nosso notável é o deputado Ricardo Barros". "Vocês garantem todos os nomes do partido em todas as votações?". "Garantimos". "Então o Ricardo será o notável".
Há nove meses no cargo, Barros se notabilizou por dizer besteiras e defender os interesses dos planos de saúde. Apesar do desempenho pífio, tem recebido boas notas do professor Padilha. O PP também parece satisfeito. Desde que assumiu o ministério, não deixou de cumprir um dever de casa dado pelo Planalto.


Texto de Bernardo Mello Franco, na Folha de São Paulo

O ignorante não sabe que o é

Lena Dunham é a autora e a protagonista de "Girls", o seriado da HBO que estreia sua última temporada nesta semana. "Girls" é "Sex in the City", mas para gente grande –o que é irônico, porque o pessoal de "Girls" é mais jovem do que o pessoal de "Sex in the City".
Enfim, Lena Dunham, pela boca de sua personagem Hannah, reconheceu: "Tenho forte opinião sobre tudo. Mesmo em tópicos sobre os quais sei pouco a respeito".
Talvez você não goste de Lena Dunham e pule de alegria porque ela finalmente admitiu o que você sempre pensou dela (ou seja, que ela é "metida" mesmo). Pois bem, não pule. O que Dunham disse é apenas uma regra universal e incontestável: ao tomar posição sobre qualquer tópico, quanto menos soubermos, tanto mais mostraremos e sentiremos uma certeza absoluta. E quanto maior nossa incompetência, tanto maior será nossa convicção na hora de agir.
Em 1995, o sr. McArthur Wheeler assaltou dois bancos depois de molhar o rosto com suco de limão, absolutamente convencido de que o suco funcionaria como tinta invisível e não deixaria seu rosto aparecer nas gravações das câmeras de segurança. Todos podemos ter ideias erradas, mas só os grandes incompetentes se avaliam como extremamente competentes.
O fenômeno foi comprovado em 1999 por David Dunning e Justin Kruger, psicólogos da universidade Cornell, numa série de experiências com a prática médica, o jogo de xadrez, a capacidade de dirigir um carro etc. Em cada caso, as pessoas incompetentes não reconheciam o tamanho de sua incompetência –só começavam a reconhecer sua incompetência efetiva se e quando elas treinassem e se instruíssem para tornar-se competentes.
Ou seja, quanto mais a gente é ignorante e incompetente, mais a gente tem certezas radicais e passionais. Inversamente, quem se afasta de sua incompetência (informando-se ou formando-se) torna-se mais humilde e mais disposto a duvidar de si.
Em suma, ignorância e incompetência produzem uma ilusão interna de saber e competência. Inversamente, saber e competência produzem uma certa auto-desvalorização do sujeito, que passa a duvidar de si.
É possível pensar que a certeza passional seja uma maneira de compensar (e esconder) nossa própria ignorância ou incompetência.
Mas, de qualquer forma, a explicação é intuitiva: quanto menos eu souber (do que for: de motor de carro, de política econômica, de teatro, de amor etc.), tanto menos saberei medir o que não sei. Inversamente, quem sabe mede facilmente que só sabe uma pequena parte do que gostaria de saber.
Sócrates dizia que ele só sabia que nada sabia. Por isso mesmo, o resultado da pesquisa pareceu tão esperado que Dunning e Kruger, em 2000, ganharam o prêmio Ig Nobel de irrelevância. Mas Dunning continuou e, em 2005, publicou um livro, "Self-Insight", cujas implicações são úteis.
Em época de grandes paixões e conflitos –ou, como se diz, de polarizações– mundo afora, vale a pena lembrar que a certeza (ainda mais quando for passional) é proporcional à ignorância e à incompetência.
Aplique isso ao campo da moral, da política e da religião: a ignorância é a grande mãe de quase qualquer extremismo.
O psicanalista Jacques Lacan disse um dia que só os teólogos conseguiam ser verdadeiros ateus: o saber e a competência nos afastam da certeza.
Enfim, alguém poderia se preocupar especificamente com uma consequência disso tudo: se a ignorância e a incompetência nos oferecem certezas (falsas, mas tanto faz), será que isso não significa que os ignorantes e os incompetentes são os mais aptos a agir?
Será que o excesso de competência e de saber nos levariam a dúvidas sofridas e, portanto, à incapacidade de agir? Por exemplo, deve ser fácil decidir a política dos EUA a partir do noticiário da televisão, mas se você lesse e estudasse todos os relatórios preparados pelas diferentes fontes que informam o presidente, então a tomada de decisão se tornaria complicada, hesitante.
Obviamente, essa não é uma razão para se render à facilidade da incompetência. Tampouco é uma razão para não agir. Para agir, é preciso aceitar que a qualidade de um ato apareça nas dúvidas e não na certeza de quem age, porque, como já dizia Touchstone, o bobo de "As You Like it" (mais de 400 anos antes de Dunning e Kruger), "o idiota pensa que é sábio, enquanto o sábio é aquele que sabe de ser idiota".


Texto de Contardo Calligaris, na Folha de São Paulo.

Flor do jardim da responsabilidade fiscal, Hartung lançou luz sobre as outras

Somando-se todos os seus mandatos, Paulo Hartung governou o Espírito Santo por dez anos e trabalhou duro no seu saneamento financeiro. Encarnou o respeito à Lei da Responsabilidade Fiscal e aquilo que chama de "o caminho capixaba". O motim da Polícia Militar do Estado mostra a necessidade da busca de algo impossível, uma lei da responsabilidade social. O prometido paraíso fiscal levou o Espírito Santo a viver dias de inferno social.
Enfrentando o motim da PM, o governo de Hartung seguiu um modelo comum aos governadores que esticam a corda e, quando despertam, pedem socorro às Forças Armadas. Em 2012, num motim muito parecido com o capixaba, o governador Jacques Wagner chamou o Exército. Seis governadores já chamaram a tropa e 22 Unidades da Federação já expulsaram policiais militares e bombeiros.
Parecem grandes defensores da lei e da ordem, mas é tudo teatro. Entre 2011 e agosto passado, o Congresso votou duas anistias para policiais e bombeiros que se meteram em pelo menos 33 greves e motins. Nas duas, o PMDB de Temer e Hartung apoiou as iniciativas (curiosidade: um militar que sofreu uma sanção disciplinar enquanto sua tropa estava mobilizada para conter um motim continua com a ficha suja. O PM foi anistiado).
Noutro motim, o dos bombeiros do Rio, o governador Sérgio Cabral foi o paladino da lei e da ordem. Hoje ele está em Bangu. Pezão, seu vice e herdeiro, também chamou o Exército, depois de detonar a responsabilidade fiscal, a social e, quem sabe, a penal.
Hartung sustenta que não atende as reivindicações da PM pois não tem dinheiro. Algum dia se saberá quanto custou a mobilização da tropa federal de 3.000 homens. A desordem que acompanhou o motim custou dezenas vidas e cerca de R$ 500 milhões à economia. Esse aspecto fiscalista das desordens não é o único.
Nesses motins e na forma como os governos estaduais reagem, há uma irresponsabilidade social, impossível de ser legislada, mas possível de ser percebida. Os governadores não se previnem e, quando o caldo entorna, chamam o Exército. Quando tudo volta ao normal, deixam a anistia passar no escurinho do Congresso.
A doce figura de Milton Campos (1900-1972) governava Minas Gerais quando estourou uma greve provocada por salários atrasados e um de seus secretários anunciou que mandaria um trem com soldados para a área.
"Não seria melhor mandar o trem pagador?", perguntou o governador. Seria um exemplo de tibieza, mas esse adjetivo jamais poderá ser associado ao general Ernesto Geisel. Em 1975, ele enfrentava uma greve de fome de presos políticos por melhores situações carcerárias e dois dos seus generais cuspiam fogo. (Entre os presos estavam dois condenados à prisão perpétua, três sequestradores e um dos terroristas que mataram um marinheiro inglês cujo navio visitava o Rio de Janeiro.) Geisel estudou a situação e informou: "Ceder a uma greve é duro, mas eu prefiro ceder".
Se fosse possível redigir uma lei da responsabilidade social, os governantes seriam punidos quando criassem situações caóticas. Em nome da responsabilidade fiscal, Hartung acha que faz o certo, assim como Michel Temer acredita que deve reformar a Previdência e a legislação trabalhista de acordo com as tabelas de seus sábios. Planilha de excel qualquer um faz. Administrar uma sociedade é bem outra coisa.


Texto de Elio Gaspari, na Folha de São Paulo

Persistência é mais importante do que inteligência

"Por que a capacidade de trabalhar duro não é considerada um talento natural?"
A pergunta é feita por Garry Kasparov, um dos maiores jogadores de xadrez de todos os tempos, em sua biografia, publicada há uma década.
No livro, o enxadrista conta que, quando se tornou o mais jovem campeão mundial do jogo, aos 22 anos, em 1985, passou a ser questionado frequentemente sobre o segredo de seu sucesso. Rapidamente percebeu que suas respostas decepcionavam.
Isso acontecia, por exemplo, quando ele dizia que sua memória era boa, mas não exatamente fotográfica.
E o talento inato para o xadrez? Segundo Kasparov, seu pai percebeu muito cedo que ele tinha jeito para o jogo, mas que essa característica só se transformou em uma super-habilidade porque sua mãe o ensinou a estudar e praticar com afinco.
A capacidade de perseverar descrita pelo enxadrista pode ter menos glamour do que a inteligência, mas tem aparecido com frequência crescente nas pesquisas sobre educação.
Estudiosos do tema, como a psicóloga americana Angela Duckworth, da Universidade da Pensilvânia, têm afirmado que a determinação é crucial para a aprendizagem.
Em um de seus muitos experimentos detalhados sobre o assunto, Duckworth e Martin Seligman concluíram que a autodisciplina era um indicador duas vezes mais forte do que o QI (coeficiente de inteligência) para explicar as diferenças entre as notas de alunos dos EUA no fim do ensino fundamental.
A contundência de descobertas desse tipo fez a preocupação sobre como ajudar crianças e jovens a desenvolver habilidades como a persistência ultrapassar os muros da academia e chegar aos formuladores de políticas educacionais.
É um debate tanto instigante como complexo.
A crença na inteligência como principal explicação para o sucesso escolar, profissional e pessoal prevaleceu por décadas. Isso talvez se explique por que medir atributos como a capacidade de identificar padrões e fazer contas é mais fácil do que avaliar a tal habilidade para trabalhar duro descrita por Kasparov.
Ser dedicado pode significar estudar três horas por dia para um aluno e seis para outro. Quanta perseverança é necessária para melhorar a aprendizagem?
Experiências como a de alguns países asiáticos mostram que o excesso de disciplina pode acabar sendo prejudicial à saúde, ainda que garanta resultados brilhantes em testes de aprendizagem. Como atingir o equilíbrio?
A lista das chamadas habilidades socioemocionais ou competências do século 21 mencionadas como importantes é longa. Dedicação, autocontrole, extroversão, capacidade de trabalhar em grupo e de sentir empatia são apenas algumas delas. É viável trabalhar todas na escola? Como?
Estudiosos reconhecem a necessidade de mais pesquisas para responder a essas perguntas.
A falta de respostas mais conclusivas não invalida, porém, as tentativas de reformular currículos com base no que já é conhecido. As experiências nessa direção têm servido como insumo para avaliar as iniciativas de maior e menor êxito.
É, portanto, alentador o fato de que o governo brasileiro pretenda incluir as competências socioemocionais na Base Nacional Comum Curricular, como revelou o jornalista Paulo Saldaña em reportagem sobre o assunto.
A divulgação do documento é esperada, com atraso, para o próximo mês.
Embora seja o ponto de partida, a base precisará apresentar diretrizes claras, fundamentadas nas melhores experiências nacionais e internacionais. Só assim conseguirá guiar as redes na formulação de currículos capazes de melhorar o sofrível desempenho dos estudantes brasileiros.


Texto de Érica Fraga, na Folha de São Paulo

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

A censura do doutor Moro

Em novembro, o acusado Eduardo Cunha fez 41 perguntas a Michel Temer, sua testemunha de defesa nos processos de Curitiba. O juiz Sergio Moro censurou metade do questionário. Afirmou que oito indagações não tinham "pertinência" e outras 13 eram "inapropriadas".
Cunha e Temer são velhos aliados, e as perguntas vetadas por Moro forneciam um bom roteiro para a Lava Jato. Numa delas, o correntista suíço queria saber: "O sr. José Yunes recebeu alguma contribuição de campanha para alguma eleição de vossa excelência ou do PMDB?"
Em dezembro, Yunes foi acusado por um delator da Odebrecht de receber dinheiro em espécie para Temer. Ele se disse indignado e deixou o cargo de assessor do presidente.
Nesta sexta (10), Moro recusou um pedido para soltar Cunha. Na decisão, voltou a reclamar das perguntas a Temer. Disse que tinham como objetivo "constranger o exmo. sr. presidente da República e provavelmente buscavam com isso provocar alguma espécie de intervenção indevida da parte dele". Faltou explicar que tipo de intervenção estaria ao alcance presidencial.
De acordo com Moro, Cunha recorre a "extorsão, ameaça e intimidações" para tentar escapar da lei. Os métodos do ex-deputado são conhecidos, mas o juiz deveria parecer mais interessado no que ele tem a revelar. A tarefa de evitar constrangimentos a Temer pode ser deixada para os advogados do presidente.


Texto de Bernardo Mello Franco, na Folha de São Paulo. Destaques do blogueiro.