terça-feira, 18 de julho de 2017

Hollywood desprezou Martin Landau, ganhador do Oscar por 'Ed Wood'

O ator Martin Landau, que morreu de câncer neste sábado (15), aos 89 anos, é um dos raros casos hollywoodianos que depõem contra o ditado "quem não sabe fazer ensina". Landau sabia interpretar como poucos no cinema americano, mas também ensinava.
Começou a carreira como cartunista e depois passou a se dedicar ao teatro. Foi aceito em Nova York pela prestigiada Actor's Studio, organização de atores que serve para refinamento da arte dramática, em 1955 –Steve McQueen entrou naquele ano. Conheceu o melhor amigo, James Dean, com quem percorreu os estúdios em busca de emprego, e namorou Marilyn Monroe.
Landau nunca foi famoso como os amigos. As feições rudes e a compleição alta e magra até se confundiam com seus personagens, como o espião de sexualidade ambígua de "Intriga Internacional" (1959), de Alfred Hitchcock.
Landau não era charmoso como Cary Grant ou bonito como James Dean, o que fez Hollywood subestimar o homem que chegou a comandar o Actor's Studio na costa oeste dos EUA, quando formou alunos como Jack Nicholson.
Mas conseguiu mostrar sua versatilidade em três anos na série de TV "Missão: Impossível" (1966), interpretando um mestre dos disfarces.
Costumava dizer que nunca "precisou ser garçom" para sobreviver, mas teve uma carreira de vácuos, o principal entre as décadas de 1970 e 80. Foi resgatado por Francis Ford Coppola, em 1988, em "Tucker - Um Homem e Seu Sonho", como um implacável homem de negócios. O papel rendeu a ele a primeira de suas três indicações ao Oscar de melhor ator coadjuvante.
Sua aura misteriosa e sombria foi perfeita em "Crimes e Pecados" (1989), de Woody Allen. No papel do marido que se sente culpado pelo assassinato da amante, Landau levou a segunda indicação ao Oscar.
A estatueta só veio em "Ed Wood" (1994). O diretor Tim Burton era fã dos filmes de horror que o ator fez nos anos 1970 e o escalou para viver o eterno Drácula Béla Lugosi na fase final, velho, viciado em morfina e sem um tostão no bolso. Mesmo debaixo de próteses, Landau conseguiu passar o conflito entre ego e limitação artística do húngaro.
Landau voltou a ser esquecido por Hollywood. Tirando participações em programas como "Os Simpsons" e "Entourage", não voltou a participar de grandes projetos.
Morava com a filha e o neto, em Los Angeles, e lançou "Memórias Secretas", quando refletiu sobre o passar dos anos em entrevista à Folha, em 2016. "Atuar é diversão e acho incrível que consigo fazer meu trabalho na minha idade. Perdi muitos amigos. E os que estão vivos não lembram o que comeram no almoço. Acho que tive sorte."

Texto de Rodrigo Salem, na Folha de São Paulo.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Lima Barreto em guerra com seu tempo

Lima Barreto era triste e visionário como diz o título da biografia escrita por Lilia Moritz Schwarcz. Enxergava melancolicamente longe. Sofria de bovarismo. Madame Bovary queria viver mais do que podia e sentir mais do que lhe cabia. A sociedade não podia perdoar-lhe tamanha ambição.
Lima Barreto escrevia livros irônicos e realistas que ninguém lia. Atacava a corrupção dos políticos, que chamava de comilança, batia no conservadorismo dos jornais, odiava as afetações modernistas, esculhambava a obsessão das elites por estrangeirismos e enfrentava as panelinhas que dominavam os espaços chiques do seu tempo de citações e incitações. Era um duro chicote batendo em Chico e em Francisco. Sabia que o poder era da imprensa. Fazia crítica de mídia. Dava com os burros n´água.
Dava com água nos burros. Lima era negro e sofrido. Publicava por pequenas editoras e era ignorado pela imprensa, que o fustigava com seu silêncio canalha. Lima tinha, porém, os seus contatos e furava como podia o bloqueio impostos pelos donos do campo. Ele queria ser o anti-Machado de Assis. Clamava por uma literatura de combate que incomodasse os poderosos. Lima era militante, denunciava o racismo e não fazia concessões de qualquer ordem. Machado de Assis teve generosos espaços na “mídia”. É preciso procurar com uma lupa alguma manifestação sua nos jornais sobre a questão negra. Lima fazia barulho. Machado era discreto. Cartadas diferentes. Machado ganhou. Lima perdeu. Em vida, Lima Barreto parou duas vezes no hospício. Machado de Assis morreu pobre. Nada mudou?
Lima Barreto era boêmio e foi devorado pelo álcool. Bebia escrevendo e escrevia bebendo. O álcool é o inimigo número um do escritor bovarista. O inimigo número dois é a confissão de exclusão. Falar da própria exclusão, exclui sempre mais. Lima Barreto comprava briga, polemizava, desafiava, arrumava inimigos de graça vendo graça em tudo. Detonou os modernistas, que se consagrariam na semana de 1922, na casca. Ridicularizou o futurismo de Marinetti, que chamou de velho, e os modismos dos paulistas, nacionalistas deslumbrados com a Europa e populistas de butique.
Inquieto e impiedoso, Lima Barreto frequentava o centro do Rio de Janeiro, mas sacolejava até a periferia como o plebeu que era e nunca deixaria de ser. Via o seu talento ser ignorado, menosprezado e vilipendiado por não poder fazer parte do clube, salvo o dos marginalizados, pois era livre demais para ser aceito por alguma confraria de moderninhos. Lima Barreto morreu pela língua e pela pena. Dizia o que pensava e não pensava nas consequências do que dizia. Eis um homem que não calculava. Eis o homem cordial: agia pelo coração, por impulso, por emoção, por instinto, por vocação. Não se censurava.
O tempo passa. Quantos Lima Barreto andam por aí? Quem é? Quem não é? Lima Barreto como escritor homenageado do Festival Literário de Paraty (FLIP) é quase um contrassenso. Se estivesse vivo e na ativa, Lima Barreto dificilmente teria mesa de destaque em Paraty onde reinam os afetados. Continuaria certamente a ser um escritor negro marginalizado com belos livros ignorados pela mídia fashion e umbilical. Seria, como foi, chamado de autor de textos desleixados, sem imaginação e ressentidos. Lima Barreto viu e viveu tudo precocemente. A exclusão é atemporal. Meu ídolo literário. A melancolia do excluído é que ele acaba por falar de quem o exclui. Não consegue silenciar. Não pode se vingar. Lima Barreto anda por aí luminoso como uma referência recuperada pelos seus inimigos.
Publicou a sua obra mais conhecida, “Triste fim de Policarpo Quaresma”, como folhetim no Jornal do Commercio. Teve de meter a mão no bolso para garantir a edição do romance como livro quatro anos depois. Vivendo entre a depressão e o alcoolismo, sempre de ponta com o mundo das modas, pregando pacifismo em tempos de guerra e guerreando em tempos de paz, ele aprofundou com certo gosto a sua marginalização. Se era para ser marginal, ele o seria com estilo, força e obsessão. Nascido numa sexta-feira, 13 de maio de 1881, ele via nesse aspecto um sinal de sorte. Acontece que a sorte raramente esteve do seu lado. A sorte não perde tempo. Ela corre ao lado dos vencedores. É calculista e pragmática.
Quem era melhor, Machado de Assis ou Lima Barreto? Literariamente, texto contra texto, Lima Barreto era tão bom ou melhor do que Machado de Assis. Podia ser melhor e podia ser pior. Machado de Assis escrevia com o cérebro em estado de frieza absoluta. Procurava não se comprometer. Posava de branco. Uma operação controlada. Lima Barreto escrevia com as tripas e com o coração. O criador de Capitu foi sinuoso. O de Policarpo Quaresma, direto e implicante. Machado amaciava. Lima batia. Machado adensava. Lima botava o preto no branco. Machado comia pelas beiradas. Lima enfiava o dedo no olho. Se Machado de Assis é o nosso Pelé, Lima Barreto é o nosso Garrincha.
Quando recebeu do jovem Sérgio Buarque de Holanda um exemplar da revista modernista “Klaxon”, Lima Barreto achou que era uma propaganda americana de automóveis e rotulou os intrépidos paulistas, que se propunham a modernizar nossa cultura, de “moços tão estimáveis”. Papo reto: achou que era um bando de almofadinhas encantados com as últimas modas estrangeiras tentando fazer papel de rebeldes. Eu sou mais Lima Barreto. Nunca um anarquista foi tão tropical e tristemente certeiro.
Lima Barreto c’est moi.
Ah, ele não gostava de estrangeirismos.
Em francês, vá lá!

sábado, 15 de julho de 2017

Lava Jato agoniza no auge

Sem paradoxos e contradições, nada tem gosto de Brasil.  Existiam três operações Lava Jato: a dos procuradores do Ministério Público Federal, a do juiz Sérgio Moro e a dos políticos que queriam tirar o PT do poder. Essas três vertentes se encontraram em alguns momentos. O MPF atingiu o seu ponto mais alto na ânsia condenatória com o powerpoint do procurador Deltan Dallagnol. Sérgio Moro deu a sua maior cartada ao deixar vazar o grampo da conversa de Dilma com Lula, que levou ao fim do governo da petista. O MPF e Moro sempre tiveram intenções justificadas: combater furiosamente a corrupção forçando os limites da legislação e explorando as brechas legais para obter confissões. Exemplo: não existe número de dias fixo para a prisão preventiva. Quem sabia disso? Era pegar, usar e colher.
Acontece que Dallagnol e Moro acabaram usados pelos políticos que buscavam uma alavanca para desalojar o petismo do poder. Cansados de perder eleições e ansiosos pelo retorno do neoliberalismo de FHC, políticos decidiram jogar pesado atacando a corrupção do adversário da qual sempre foram cúmplices ou protagonistas. A Lava Jato foi obrigada a andar sempre mais rápido. Quanto mais se expôs, mais abriu o flanco para críticas: abuso de poder, seletividade, condenação sem provas materiais e por aí vai. Moro e Dallagnol tornaram-se alvo de advogados criminalistas, de militantes políticos e de constitucionalistas de ocasião. Eles teriam escolhido um foco para diminuir o atrito? Por que nunca um tucano graúdo caiu nas redes estreitas da chamada república de Curitiba? Ninguém responde.
Derrubado o petismo, a Lava Jato deixou de interessar aos velhos donos do poder. Mas Dallagnol e Moro continuaram a tocar a operação que conceberam. Só que passaram a lidar com profissionais da resistência oficial. O aparelhamento petista do Estado sempre foi amador, contraditório e tabajara. Michel Temer alterou o rumo das coisas. A Lava Jato agoniza no seu auge, justamente quando Sergio Moro se sente nas alturas. O STF já mudou o seu entendimento. O intrépido Moro perdeu inquéritos para outros juízes e lugares. A Lava Jato do Procurador-Geral da República esbarrou em conveniências antes ignoradas. Aécio Neves não foi para a cadeia, Rocha Loures anda livre, leve e solto, salvo pelo peso da tornozeleira, o dinheiro encurtou e o efetivo em Curitiba diminuiu. Geddel já está em casa.
Tudo se ajeita. A Lava Jato deverá entrar para a história como um sonho de verão de jovens procuradores, com certo viés missionário e certezas demais, mas não sem ótimas razões, e de um juiz inspirado em operações internacionais que terminaram mal. Ingênuos, eles acreditaram que com apoio da mídia e da população conseguiriam vencer todos os obstáculos. Achavam que estavam dando as cartas. Não percebiam que o baralho já estava de posse de gente acostumada a trapacear dando as cartas e jogando de mão. O que sobrará disso tudo? Uma presidente deposta, alguns empresários na cadeia por pouco tempo, algumas carreiras políticas justamente abaladas, muitos executivos corruptos albergados em suas mansões cumprindo penas de ficção e um sistema político desacreditado, mas disposto a não mudar e capaz de se reconstituir. Quem é mais forte? A Lava Jato ou o Brasil corrupto? Para Sérgio Moro faltava o último ato: condenar Lula. Está feito. O verão acabou. O resto é nuvem passageira.
No futuro, quando falarem do Brasil do começo do século XXI, os historiadores colocarão uma nota de rodapé nos seus textos para explicar o papel de Sérgio Moro na derrocada do lulopetismo e na recomposição do capitalismo nacional de compadrio. Graças a Moro tudo mudou para o mesmo.

Texto de Juremir Machado da Silva, no seu blog no Correio do Povo

domingo, 2 de julho de 2017

O ato de escrever nos modifica, e é por essa razão que ele faz sentido

Há muitos anos, ouvi o escritor português Augusto Abelaira (1926-2003) classificar toda a literatura do mundo em apenas duas famílias: "Grandes Esperanças" e "Ilusões Perdidas". A brincadeira com as obras-primas de Dickens e Balzac poderia ser estendida ao temperamento dos escritores, os soturnos e os solares.
Como classificar e coçar é só começar, e a ficção -o nome já o diz- não é uma ciência, pensei em separar os escritores em função de como eles veem o mundo que pretendem "revelar". As aspas se explicam adiante.
A primeira vertente seria a conspiratória. Segundo ela, somos naturalmente seres negativos que se dirigem à morte. Infelizmente, não há nada que se possa fazer a respeito porque a natureza é soberana e a subjetividade, uma mentira. Pela escrita, fomos arrancados do aqui e agora do mundo natural, ao qual não podemos voltar.
Assim, escrever será sempre um processo insidioso de ocultação, e são impressionantes os meios de que dispõe a escrita para nos enganar, criando fantasmas paralelos e arbitrários que asfixiam o real tentando simular um impossível retorno à suposta paz primitiva.
É falsa portanto a distinção entre ficção e não ficção -tudo é ficção; ou, pior, tudo é uma mentira, e a penosa ética da escrita seria torná-la límpida, trazer a mentira à luz do sol, denunciando perpetuamente o fracasso, que, queiramos ou não, se volta sobre si mesmo. Não há escape ou segurança, exceto no próprio ato de escrever, que é, necessariamente, um ato de desespero.
A segunda vertente é a encantatória. Vivemos numa rede maravilhosa -não necessariamente otimista, alegre ou feliz, mas no sentido atávico das mil e uma noites, o maravilhoso como suspensão do tempo e das regras sensoriais.
Essa rede fantástica de sentidos, causas e efeitos existe segundo essências inatingíveis pela lógica humana, e revela sinais milagrosos em toda parte. O artista é a antena com poderes de captação de um saber que, apesar da intransponível opacidade da natureza, está sempre pulsando no entorno à espera de um intérprete. O escritor seria esse arauto das forças misteriosas do mundo.
Nessa visão, de um apelo instintivamente escapista, escrever também é tirar o manto que oculta a realidade e revelá-la tal qual ela é. Para o poeta Ezra Pound, havia mesmo uma raça pulsando em alguma parte, que o poeta, "antena da raça", deve farejar. A expressão é historicamente grotesca, mas o seu espírito tem uma atração perene, uma espécie de "alma do mundo", o comando romântico irresistível.
O fato é que tanto para os encantatórios como para os conspiratórios, a realidade é um dado prévio que se deixa ver apenas por enigmas e só pode ser pressentido; escrever é revelar, ou, mais precisamente, deixar o mundo revelar-se pelas mãos do escritor.
São visões com o charme do irracionalismo poético -e certamente obras-primas se escreveram e continuarão se escrevendo sob o sopro desta natureza regressiva.
Para colocar essa teoria capenga em minha própria medida, gosto de pensar em mim mesmo como escritor de uma realidade encantatória, mas o espírito da conspiração vive me puxando o tapete. A ideia de que os escritores "revelam" alguma coisa é enganosa -eu aqui, cristalino; e o mundo lá, turvo e misterioso.
Escrever é uma ação sobre o mundo, e sou parte dele. O ato de escrever nos modifica, e é por essa razão que ele faz sentido. É possível que o primeiro impulso seja o da "revelação" -o que é isso que estou vendo ou sentindo?-, mas já no instante seguinte a redução da vida real às letras, a reapresentação e o fechamento do mundo pela gramática, pelo funil das sentenças, cria uma terceira realidade, um desejo que se desenha, um objeto espelhado, uma hipótese, que, por sua própria natureza, surge não "revelando" o mundo, que nada diz por si mesmo, mas fazendo concorrência a ele, como queriam os verdadeiros realistas.
Levando-se adiante a conversa solta, pode-se extrair daí uma ética laica do ato de escrever ficção: o seu princípio inegociável, desde os diálogos socráticos e seu sabor romanesco, é o fato de que somos seres inacabados. Fico por aqui: para salvação deste escriba, e alegria do leitor, acabou o espaço.


Texto de Cristóvão Tezza, na Folha de São Paulo

Medidas do STF mostram desequilíbrio

As duas decisões tomadas nesta sexta pelo Supremo Tribunal Federal (STF) lançam, outra vez, dúvidas sobre a isenção da Justiça nesta longa e tenebrosa crise. Ao soltar o ex-deputado Rodrigo Rocha Loures e devolver o mandato ao senador Aécio Neves, ficam questionadas medidas resolvidas em fases anteriores, as quais tiveram importante influência sobre o processo político.
Compare-se o tempo de estadia, no mesmo cubículo da Polícia Federal, destinado ao então líder do governo Dilma no Senado, Delcídio do Amaral, e, agora, ao assessor de Temer. Preso em novembro de 2015, Amaral ficou detido 85 dias e só saiu porque concordou em fazer delação premiada. A peça extorquida por meio do que hoje a família Loures chama de condições torturantes tinha como centro a afirmação de que Lula e Dilma conheciam o esquema de corrupção na Petrobras.
O vazamento da colaboração "voluntária" de Delcídio virou edição extra da revista "Isto É" no meio da semana, com direito a uma extensa cobertura eletrônica. Dois dias depois o ex-presidente Lula sofria condução coercitiva. No domingo subsequente, veio a gigantesca manifestação de rua, a qual iria selar o destino político de Rousseff.
Loures, por seu turno, ficou preso menos de um mês, sendo ele a figura chave para esclarecer se, de fato, os R$ 500 mil entregues pela JBS se destinavam ao atual presidente da República, como afirma a denúncia da Procuradoria entregue na segunda-feira. Notícias dão conta de que o homem da mala se encontrava em condições lastimáveis, havendo, talvez, um sentido humanitário no gesto do ministro Edson Fachin. Mas, pergunta-se, por que semelhante humanidade não foi aplicada a Delcídio, o qual teve uma crise de claustrofobia nos primeiros dias de prisão?
O ministro Marco Aurélio Mello, por seu turno, ao restituir o presidente afastado do PSDB à condição de senador, argumentou que extrapola a competência do STF "afastar um parlamentar" do legítimo exercício da função para a qual foi eleito. De fato, inexiste na Constituição, conforme registrado nesta coluna, a figura da suspensão de mandato. Ocorre que, para resolver um problema político da época, o de que a Câmara se recusava a cassar o presidente da Casa, Eduardo Cunha, o Supremo intrometeu-se onde não devia e não foi contestado.
A diferença entre a situação anterior e a atual é que o afastamento —e posterior prisão— de Cunha funcionava para legitimar o polêmico impedimento de Dilma, ainda em curso naquele momento. Era preciso "lavar" o procedimento que visava derrubar a petista. Agora que é outro o presidente da República denunciado, o tratamento mudou.


Texto de André Singer, na Folha de São Paulo

sábado, 1 de julho de 2017

O empresariado que estimula a revolução social no país

Os paulistas me surpreendem. Em especial os paulistas ricos. Conversei nesta quinta com o presidente da Abinee, Humberto Barbato, e esperava dele a manifestação de algum desconforto com os rumos da política econômica. Ao contrário, ele se mostrou exultante com a suposta recuperação da economia. Argumentou que em sua área, a indústria eletro-eletrônica, as coisas vão muito bem pelo testemunho dos seus pares. Claro que não pode haver retomada de uma vez. Isso quem pretende, sem razão, são “as esquerdas”.
Para Barbato, toda desgraça que ainda resta na economia se deve à herança dos 13 anos de governo do PT. Em especial “daquela mulher”. Obviamente que ele não inclui no espólio de Dilma a grande estupidez da isenção fiscal para a linha branca, de que os sócios da Abinee foram beneficiários diretos. Foram bilhões de reais para engordar o lucro da pauliceia rica, sem geração de um único emprego, ao contrário da forma como era justificada. Nos 13 anos o BNDES também esteve sempre aberto para os investidores produtivos.
Como foi um telefonema rápido, não tive tempo para  dizer a Barbato que fui, ao longo dos 13 anos, um crítico frequente dos governos do PT em matéria de política econômica. Achava Palocci um ignorante de economia e Mantega um frouxo. Nenhum dos dois teria condições para dar uma virada na economia brasileira no sentido de cortar as asas da especulação financeira predatória. E capitularam aos interesses do grande capital interno, associado ao internacional, que nos mantém a todos escravizados de forma permanente.
O presidente da Abinee fez largos elogios à maioria governista da Comissão de Constituição e Justiça que aprovou o projeto da chamada reforma trabalhista. Parecia exultante com a possibilidade de restaurar no Brasil o trabalho escravo, o trabalho intermitente, o trabalho de grávidas em áreas insalubres, a terceirização ilimitada, o acordo acima da lei, a destruição da Previdência Social. Em mais de 40 anos de jornalismo e de economia, jamais pensei que alguém tão reacionário, tão retrógrado, a exemplo de Paulo Skaf, pudesse representar um segmento significativo do empresariado brasileiro.
Infelizmente não tive tempo de apresentar meus argumentos sobre a marcha atual da economia, de forma que os apresento agora. A recuperação é uma falácia. Esse fenômeno de circo chamado Meirelles já refez para baixo, como previ há meses, a estimativa do desempenho do PIB este ano. Não é mais 0,5%, como orgulhosamente havia anunciado, mas menos que isso, “porém positivo”. É claro que não será positivo coisa nenhuma pois o Governo, de vontade própria, simplesmente travou a economia inteira, desde o orçamento público ao BNDES.
O fato é que o investimento, o consumo e o gasto público continuam caindo, restando para crescimento apenas o agronegócio. Entretanto, o agronegócio não pode compensar as outras quedas, mesmo porque representa apenas 5,5% da economia. A queda da inflação, muito valorizada por Barbato, se deve a um fator extremamente negativo, justamente o desabamento do investimento, da demanda e do gasto público. E pior do que tudo, a taxa real de juros aumentou, em lugar de cair acompanhando a queda da inflação, devido à política criminosa do Banco Central.
Empresários como Barbato, por sua ignorância ou má fé, representam aquela parcela de ricos financistas do país completamente indiferentes à maior mazela de qualquer economia, o alto desemprego. Estamos chegando à casa dos 15 milhões. É uma realidade social que estimula o ódio entre as classes. A continuar assim, chegaremos à situação da Rússia de 1917, na qual, por falta de mediação do interesse nacional por parte de uma burguesia ilustrada, um punhado de revolucionários fez a revolução social antes da revolução burguesa, por cima da burguesia anti-nacional.

Texto de J. Carlos Assis, no Jornal GGN.

A tática do plenário vazio

Começou o processo que pode afastar Michel Temer do poder. Nesta quinta, a segunda-secretária da Câmara leu a denúncia contra o presidente da República. O momento era grave, mas poucos deputados deram as caras. Durante uma hora e 36 minutos, a tucana Mariana Carvalho recitou as acusações para um mar de poltronas vazias.
O plenário às moscas resume o clima de apatia geral diante do processo contra Temer. A indignação com o presidente domina as redes sociais, mas não tem produzido mobilizações de massa. A maioria governista aproveita a indiferença da rua para evitar o assunto no Congresso.
O Planalto conta com essa inércia para segurar Temer na cadeira. A fidelidade ficou mais cara, mas ainda parece possível comprá-la com a distribuição de cargos e emendas.
Se é difícil convencer 172 deputados a defender Temer no microfone, a solução pode estar no plenário vazio. É por isso que o governo passou a apostar nas ausências para barrar a denúncia. A ideia é manter os parlamentares longe de Brasília ou bem escondidos, como aconteceu na primeira leitura da acusação.
Nesta terça, a oposição pediu ao presidente da Câmara que anuncie logo o rito do processo. O objetivo da reunião foi pressionar Rodrigo Maia a seguir o mesmo roteiro do impeachment de Dilma Rousseff. "A regra não pode mudar de acordo com o grau de amizade entre o presidente da Câmara e o governante", diz o deputado Alessandro Molon, da Rede.
Se Maia respeitar o rito de 2016, a denúncia contra Temer será votada num domingo, com milhões de eleitores colados na TV. Os parlamentares ausentes serão chamados três vezes no microfone, para deixar claro que eles resolveram se omitir.
"Se não for assim, a votação vai começar numa quinta à noite e terminar de madrugada, quando o povo já estiver dormindo", diz o deputado Júlio Delgado, do PSB. Seria o ambiente ideal para salvar um presidente com 7% de aprovação.


Texto de Bernardo Mello Franco, na Folha de São Paulo

Mortalha

Moro em frente à lagoa Rodrigo de Freitas, no caminho do túnel Rebouças, principal via de ligação entre a zona sul, o centro e a zona norte do Rio de Janeiro.
Aprendi, com a vida, a lidar com o eterno engarrafamento das cercanias do meu prédio. Tracei estratégias para suportá-lo com resignação, e na época em que ainda existia a Árvore-de-natal da Lagoa, cheguei a abandonar o volante e ir a pé, devido à quantidade de curiosos em torno do espelho d'água.
De janeiro para cá, os congestionamentos desapareceram como que por milagre. Dei para ir e vir com uma rapidez espantosa, comemorei a melhoria do trânsito, até perceber que o fenômeno nada tinha a ver com mobilidade urbana. Era a crise. A crise e a depressão da cidade.
Os restaurantes e bares estão vazios, os teatros fecharam, as lojas se foram e os hotéis olímpicos acabaram às moscas. É como se estivéssemos vivendo sob um toque de recolher. Minha mãe comentou, outro dia, que sente o Rio envolto numa mortalha.
Os assaltos, as trocas de tiro que ecoam como na Síria, os arrastões continuam, mas a calmaria é assombrosa.
Não há dinheiro nem plano, não há futuro ou comando. É como estar num transatlântico à deriva, rezando para passar, você nem sabe o quê.
Pezão abriu mão de governar, declarou estar ciente de que não resistirá muito mais no cargo. Crivella honra compromissos na África, como pastor, e tem planos para fechar as torneiras da festa pagã do Carnaval.
No último dilúvio, a comitiva do prefeito colidiu com o carro de um cidadão e passou batida, sem prestar assistência. Crivella, suspeita-se, tinha pressa de chegar em casa, para ficar a salvo das corredeiras de esgoto e lixo em que se transformaram as ruas e avenidas sob sua responsabilidade.
Normal. Não se espera mesmo nada do andar de cima. Não há revolta, não há mais bombas na Primeiro de Março. Resta apenas a apatia, e uma falta de saída de arrepiar.
Os males que ameaçam o país parecem acontecer antes, e com mais intensidade, nessa vitrine chamada Rio de Janeiro. Carma de ex-capital. O PMDB de Cunha e Cabral levou a medalha de ouro em corrupção, o buraco da Previdência já mostra os dentes por aqui, e a falência é palpável.
Ninguém merece a Alerj, Picciani, ou a oposição de Garotinho. O Rio prima pelo horror, mas os eguns engravatados de Brasília não deixam nada a dever aos mortos-vivos da Guanabara.
Michel Temer sofreu bullying na Noruega, tem uma taxa de aversão de 93%, é investigado por formação de quadrilha. Ainda assim, não há grita.
O medo do colapso da economia, a tentativa de atravessar o lamaçal até 2018 sem fazer marola, o "Fora, Temer" tão colado ao "Volta, Lula", o deserto de candidatos, tudo isso explica, em parte, o marasmo. Mas a paralisia do Rio diz mais.
Cansamos. Desistimos deles.
No temporal de 20 de junho, um mergulhador limpou os bueiros da praça da Bandeira por conta própria, enquanto Crivella fugia a caminho de sua casa.
Não há consenso ou energia que faça a indignação chegar às praças, mas um e-mail seguido de "send", para pressionar os deputados da CCJ a levar a acusação de Janot a plenário, já seria um baita de um esforço cívico.
Temer é como Pezão. Já foi e sabe. É preciso impedir que ele estenda a mortalha.

Texto de Fernanda Torres, na Folha de São Paulo

Deixar quebrar

Alguém precisa salvar o Brasil de seus salvadores. Neste momento em que, pela primeira vez em sua história, o país tem um presidente em exercício denunciado por crime, é sintomático a quantidade de vozes a ocupar a imprensa a fim de falar da "responsabilidade para com a nação", do "temos um compromisso com o país", do "não podemos deixar o país parar".
Tais vozes são sustentadas por um coro de analistas, juízes e jornalistas que entoa a cantilena do "não devemos desqualificar a política", do "é perigoso quando um povo já não acredita mais na política".
Mas estes que assim falam não são exatamente parte da solução. Eles são parte do problema. Há um exercício de tradução que se faz atualmente necessário quando se ouvem afirmações como essas. Pois onde se lê "temos que ter responsabilidade para com a nação", leia-se, por favor, "deixemos os negócios continuarem como sempre e deixemos o poder nas mãos dos que sempre o detiveram".
Já onde se lê: "não devemos desqualificar a política", entenda: "continuem a acreditar nas instituições deterioradas da república e seus ocupantes". Ou no lugar de: "é perigoso quando um povo já não acredita mais na política", entenda: "as acusações estão chegando muito perto de mim mesmo".
No entanto, o melhor que pode acontecer ao Brasil neste momento é, de certa forma, deixar tudo quebrar. A consciência de que o país entrou em colapso e de que nenhuma de suas instituições funciona de maneira minimamente adequada pode ser a única saída real do fracasso.
O filósofo Theodor Adorno uma vez afirmou: "O medo do caos, em música como em psicologia social, é superestimado". Isso vale para nós neste momento.
Muitos temem o avanço de um protofascismo aberto ou do populismo conservador que assombra o Brasil desde os idos de Jânio Quadros. Mas a única forma efetiva de combatê-los é tomar deles o discurso da ruptura e ir em direção a uma ruptura real, em vez de se deixar absorver por esses simulacros produzidos pela associação explícita de "novas figuras" com a antiga linha de comando da economia nacional.
Há ainda aqueles que reclamam do vazio político. Eles dizem que não há força de transformação alguma no horizonte e, por isso, qualquer movimento brusco será ainda pior.
Mas está evidente que tal "vazio" tem uma função clara: paralisar toda demanda social através de um raciocínio: "Ou isso que temos ou o vazio, o caos". Aqueles que se servem desse raciocínio agem como alguém que não sai de uma casa em chamas por não ter uma nova casa.
No entanto, só é possível construir outra casa quando se decide sair da antiga. Só quando os tijolos da antiga forem deixados para trás, o vazio desaparecerá. Há uma criação imanente de política no interior da vida social. O vazio é apenas uma ilusão vinda da fixação em um tempo arruinado.
Nesse sentido, não é verdade que estaríamos agora diante do risco da desqualificação geral da política. De certa forma, a verdade é que a política já não existe há muito em nosso país. O discurso gerencial, que é o discurso antipolítico por excelência, já fora utilizado na primeira eleição de Dilma Rousseff. Política é indissociável do exercício irrestrito da soberania popular e isso, há de ser honesto, nunca ocorreu no Brasil.
Mas a estratégia atual consiste em amedrontar a população com o discurso do futuro caótico, em vez de permitir que a imaginação política aja e crie o que o país ainda não sabe como fazer existir. Se isso continuar, no lugar de uma destruição criadora teremos apenas uma desagregação sem fim.
Não se pode temer que tudo fique estagnado para que o país entre em movimento com novos ritmos, novas intensidades.
Não temos outra saída a não ser terminar o que não quer morrer, recusar mais um acordo espúrio e confiar em nossa própria capacidade. Mas a confiança no povo é algo que o poder no Brasil sempre procurou impedir.


Texto de Vladimir Safatle, na Folha de São Paulo

terça-feira, 27 de junho de 2017

Brasil precisa de um novo pacto político que enfrente a desigualdade

reportagem da Folha sobre os decasséguis –brasileiros descendentes de japoneses que foram trabalhar no país asiático nas "décadas pedidas" de 1980 e 1990– é muito oportuna. O drama desses emigrantes mostra que sair do país não é opção.
Catorze milhões de desempregados e autoestima em baixa (47% sentem vergonha do Brasil e só 7% aprovam o governo) explicam por que muitos pensam que a solução está no exterior. Entre 2011 e 2016, o número dos que foram trabalhar fora aumentou 130%, com tendência de crescimento.
O caso dos decasséguis mostra o ônus dessa alternativa. Dos 400 mil que migraram para o Japão, metade foi forçada a voltar após a recessão de 2008 e o terremoto de 2011.
Os filhos desses emigrantes, levados ainda crianças ou nascidos lá, sofreram discriminação, bullying e desadaptação. Ao voltarem, não tinham identidade, referências culturais ou amigos. Mal sabiam ler e escrever em português.
Seus pais, após 20 anos de jornadas de até 16 horas e preconceitos, voltaram desempregados, desambientados e sem ter onde morar. Vivem dramas como alcoolismo e depressão.
Hoje, a situação é ainda mais difícil. O fluxo migratório explodiu, com refugiados de guerras e deslocados por problemas climáticos e econômicos. A intolerância e o xenofobismo cresceram assustadoramente. Setenta muros cercam países receptores, como os EUA; em 2001, eram apenas 17.
Achar que nossa solução está no exterior é uma ilusão. O Brasil pode oferecer trabalho e qualidade de vida, pois é um dos países mais viáveis do mundo, com dimensão continental e posição estratégica.
O país tem baixa densidade demográfica, terra agricultável abundante, recursos naturais fartos, infraestrutura e parque produtivo estruturado. Cidadãos criativos, riqueza cultural e desenvolvimento científico e tecnológico. A maior biodiversidade do planeta, sem grandes catástrofes climáticas.
Muitos dizem que o problema são os políticos. Na verdade, nosso problema é uma elite econômica e social tosca e mesquinha, que controla o sistema político, em especial o Legislativo, para manter privilégios e uma das piores distribuições de renda do planeta.
Uma elite que acumula riqueza em vez de distribuí-la. Que depreda o ambiente para ampliar seu patrimônio. Que prefere ser rentista a investir na produção. Que sonega impostos, impedindo a garantia de direitos sociais. Que mantém privilégios no aparelho estatal e monopólio na mídia eletrônica.
A crise que atravessamos é uma oportunidade para o surgimento de um novo pacto político, que agregue parcelas expressivas da sociedade para formular um projeto de desenvolvimento capaz de alterar a secular desigualdade e dar um rumo para o país. Para tanto, a democracia é essencial.


Texto de Nabil Bonduki, na Folha de São Paulo

Impostos progressivos: todo mundo apoia, ninguém põe em prática

Parece um paradoxo. A maior parte das forças políticas e a maior parte dos analistas consideram nosso sistema tributário essencialmente equivocado. O Brasil taxa muito o consumo e pouco a renda e a propriedade e, por isso, os mais pobres pagam proporcionalmente mais imposto do que os mais ricos, uma distorção absurda chamada de regressividade. O paradoxo consiste no fato de que, embora essa regressividade seja quase que universalmente condenada, ninguém se empenha em revertê-la. Tanto quando fomos governados pelo PSDB, como quando fomos governados pelo PT, os pobres seguiram pagando proporcionalmente mais impostos do que os ricos – na verdade, a diferença entre o que pagam até aumentou.
Reformar o sistema tributário não é trivial. A mudança é tão necessária quanto é difícil, porque implica não apenas em redistribuir a carga entre os mais ricos e os mais pobres, como entre as unidades federativas (Estados e municípios) e as destinações vinculadas (saúde, educação, assistência social). Em parte por isso, até pouco tempo atrás, o nosso sistema era uma espécie de monstro que só crescia na sua monstruosidade, já que era mais fácil ampliar ou criar mais um tributo injusto do que reordenar o conjunto.
Mas o obstáculo maior nunca foi a engenharia política requerida para fazer uma reforma tributária – o maior obstáculo sempre foi o de enfrentar a resistência dos ricos que não pagam e não querem pagar impostos como o resto dos brasileiros. Quando se decidiu aumentar a carga tributária, mudanças mais ou menos simples como cobrar mais imposto de renda para faixas de renda mais altas, cobrar imposto sobre os lucros e os dividendos, cobrar mais imposto territorial rural e mais imposto sobre a herança, sempre foram preteridas em prol de saídas mais "fáceis" como os impostos indiretos que oneram mais os pobres.
A falta de empenho em mudar o nosso sistema tributário é difícil de aceitar. Somos um dos países mais desiguais do mundo e nosso sistema tributário, ao invés de reverter a situação, a acentua. E nosso sistema político, da direita à esquerda, não parece dar muito prioridade para a questão.
Países que já têm sistemas tributários progressivos, como a França, os Estados Unidos e a Inglaterra tiveram seus processos eleitorais mais recentes marcados pelo debate sobre se seus impostos deveriam ser mais progressivos, com tributos ainda mais duros para os ricos. Hillary Clinton, nos Estados Unidos, propôs sobretaxar em 4% aqueles que ganham mais de 5 milhões de dólares e ampliar o imposto sobre a herança; Jeremy Corbyn, na Inglaterra, propôs ampliar o imposto de renda sobre salários acima de 80 mil libras e criar uma sobretaxa às empresas de 2,5% sobre salários maiores que 330 mil libras e 5% sobre salários maiores que 500 mil libras; finalmente, na França, Jean-Luc Mélenchon simplesmente propôs taxar em 90% os rendimentos acima de 400 mil euros, praticamente criando um teto.
Enquanto isso, o tema segue ausente por aqui, com as exceções retóricas de praxe. Nos 14 anos em que governou o Brasil, a esquerda preferiu não mexer na distribuição do ônus tributário, limitando-se a aproveitar o boom das commodities para financiar programas sociais – iniciativa relevante para aumentar a renda dos mais pobres, mas insuficiente para diminuir a desigualdade na velocidade que a urgência social requer.
Está mais do que na hora de colocarmos em primeiro plano a agenda de uma reforma tributária com vistas a um sistema progressivo. Só com ele poderemos reduzir nossa vergonhosa desigualdade e levar a cabo a construção dos nossos serviços públicos de educação, saúde e previdência, cuja sustentabilidade está atualmente ameaçada.


Texto de Pablo Ortellado, na Folha de São Paulo

quarta-feira, 21 de junho de 2017

O liberalismo moderno se transformou numa nova inquisição

Será que um cristão pode fazer política? Não falo de um fundamentalista que pretende aplicar os preceitos bíblicos a toda a sociedade. Falo de um cristão "moderado", que sabe distinguir os princípios morais que regem a sua vida e os valores seculares que regem a vida da comunidade.
Falo, enfim, de um cristão que conhece o preceito bíblico de dar a Deus o que é de Deus e a César o que é de César –uma distinção crucial para a emergência do liberalismo e, claro, inexistente no Islã. Haverá lugar para essa criatura?
Maquiavel tratou da questão com brutalidade: não, não há. Para recuperar a influente interpretação de Isaiah Berlin sobre o florentino, o cristianismo é uma religião estimável, até admirável. Mas funciona apenas para os assuntos privados.
Na esfera pública, exige-se ao príncipe certas virtudes que obviamente colidem com a mensagem bíblica. Virtudes "pagãs", digamos assim, embora eu sempre tenha duvidado dessa conclusão de Berlin. Lemos Maquiavel e só por piada as "virtudes pagãs" dos seus tratados poderiam ser partilhadas por Cícero. As "virtudes" de Maquiavel são um capítulo novo na história da política e não uma nostalgia clássica. Mas divago.
Ou não divago. Porque a pergunta inicial aflorou nos últimos dias com a demissão de Tim Farron, o líder dos Liberais Democratas no Reino Unido.
Já tudo foi escrito sobre as eleições britânicas. O colapso dos conservadores, a espantosa ressurreição dos trabalhistas. Mas que dizer do destino de Tim Farron?
Leio no "Wall Street Journal" um artigo de Sohrab Ahmari que relata esse destino. Tim Farron, cristão evangélico, tem visões conservadoras sobre certos temas sociais. Como a homossexualidade. Como o aborto. Comecemos pelo primeiro. Será a homossexualidade um pecado?
A pergunta foi feita em 2015 e Tim Farron respondeu: "Todos somos pecadores". Não foi suficiente uma tal exibição de humildade. Durante a campanha, o fantasma regressou e Farron tentou enterrá-lo. Não, a homossexualidade não é um pecado, disse ele.
Também não foi suficiente. Se a homossexualidade não era um pecado, por que motivo Tim Farron demorou tanto tempo a reconhecê-lo?
Sem falar do aborto. Em 2007, parece que o "Guardian" encontrou uma frase de Farron na qual ele declarava que "o aborto é errado". Essa espantosa declaração, nunca antes vista na história da humanidade, provocou a tempestade respectiva.
Pergunta: as opiniões de Farron estão certas ou erradas?
Um fanático formula essa pergunta. Mas ela não faz sentido do ponto de visto político. A pergunta certa é saber se os valores religiosos de Tim Farron se sobrepõem aos consensos democraticamente estabelecidos no Reino Unido.
O próprio Farron foi claro: voltar a proibir o aborto seria um plano "impraticável". E abolir o "casamento gay" não estava na agenda.
Nada feito. Como escreve Sohrab Ahmari, não era suficiente que o aborto ou o casamento gay estivessem liberados. Tim Farron deveria aplaudir ambas as leis, prescindindo das suas convicções mais íntimas. Foi o fim de uma carreira.
Eis a suprema perversão do liberalismo moderno. Tempos houve em que a proposta liberal procurava separar a política da religião. Não cabe ao Estado legislar sobre a alma dos homens, escrevia John Locke. Em matérias de consciência, o indivíduo é soberano. De igual forma, não cabe à alma dos homens determinar os destinos da "polis".
Hoje, o caso de Tim Farron apenas mostra como o liberalismo moderno se transformou numa forma de religião. E de inquisição: quem discorda da cartilha é um herege que merece a fogueira das vaidades progressistas. A política não é uma arena de consensos entre visões distintas do bem comum. É um tribunal onde os pecadores devem confessar os seus crimes (de joelhos) e abraçar a Verdade (com maiúscula).
O problema desta visão medieval das coisas não está apenas na "intolerância" que ela revela. Muito menos na quantidade de "homens vazios" que ela promove: criaturas destituídas de qualquer vida interior, que debitam como se fossem robôs o "software" da moda.
O problema é mais vasto: aqueles que destroem a consciência individual em nome do "bem coletivo" estão a destruir a última barreira contra o poder arbitrário. Uma barreira de que eles podem precisar um dia se o pêndulo do fanatismo mudar de direção.


Texto de João Pereira Coutinho, na Folha de São Paulo