quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Você está insatisfeita com o corpo?

No Brasil, o corpo jovem e magro é extremamente valorizado. Não é à toa que as brasileiras investem tanto tempo e dinheiro na busca incessante de construir a aparência ideal. Elas consideram o corpo um verdadeiro capital.
Quando pergunto o que as mulheres mais invejam nos homens, elas respondem, categoricamente, liberdade, especialmente liberdade com o próprio corpo.
Quando pergunto o que mais invejam nas mulheres, elas dizem beleza, corpo, magreza, juventude e inúmeros aspectos relacionados à aparência.
O que mais me preocupa neste culto ao corpo é o enorme sofrimento que ele provoca nas mulheres, inclusive nas que são consideradas belas, jovens, magras e atraentes.
Inúmeras pesquisas revelam que a brasileira é a campeã na busca do "corpo perfeito": somos as primeiras ou segundas (após os EUA) em número de cirurgias estéticas, as que mais desejam fazer alguma plástica, as que mais deixam de ir a festas ou até mesmo ao trabalho por se sentirem gordas e feias, as que mais pintam o cabelo, as que mais consomem remédios para emagrecer, para dormir e antidepressivos etc.
Como disse uma professora de 45 anos, a valorização da juventude só nos faz sentir, cada vez mais precocemente, velhas:
"Quando fiz 40 anos tive a maior crise da minha vida. Descobri que sou uma mulher invisível, transparente, sem qualquer tipo de beleza e sensualidade. Não tenho tempo para cuidar de mim, com tantas obrigações com a casa, filhos adolescentes, marido, trabalho e ainda me sinto culpada por não conseguir malhar e emagrecer. Estou exausta, deprimida, irritada e não durmo direito. É uma luta diária com o meu corpo que só me traz frustração e a sensação de que sou um fracasso como mulher".
A professora revela que algumas amigas são viciadas em plásticas e fazem qualquer loucura para emagrecer: fumam, comem papinha de bebê, tomam laxantes etc. Disse que existe uma espécie de "gordofobia" e "velhofobia" ao seu redor.
Ela mostra a mesma angústia de inúmeras brasileiras: "Como posso me sentir tão velha e acabada se só tenho 45 anos? Por que tanto sacrifício para conquistar um corpo que eu sei que é impossível? Como posso lutar tanto por liberdade e ser prisioneira da insatisfação com o meu próprio corpo?".


Texto de Mirian Goldenberg na Folha de São Paulo

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Dr. Machismo

O primeiro obstetra indicado parecia um ursinho carinhoso, de tão doce e baixinho. Eu já estava me deleitando em segurança e afetividade filial quando ele mandou, sem dó, no meio do meu ultrassom transvaginal: "Se for menina o cérebro demora mais para se formar, se é que um dia se forma". E riu, buscando na face de meu marido chocado alguma camaradagem, um aval "testosterônico" para a piadota estúpida. Nunca mais voltei ali.
Tentei a segunda indicação e já na sala de espera vi que o relacionamento não iria pra frente. O lugar parecia um lounge do shopping Cidade Jardim. Mulheres muito magras, maquiadas e montadas lançavam à atmosfera, sem nenhum pudor, angústias existenciais tão ocas quanto as de uma Barbie sem útero: "Tadinha da minha Pietra, convive na escola com amiguinhos que têm jatinho particular e sofre por não ter um".
O médico era tratado como uma estrela intocável (de fato, me cobrou uma fortuna e nem sequer encostou em mim, suas assistentes é que fazem tudo). O corre-corre de enfermeiras e secretárias mais parecia os bastidores de um famoso show que entraria no ar assim que eu, ou qualquer gestante, topasse ser a escadinha insignificante para o grande protagonista da manhã. Depois de solar ininterruptamente, por uma hora, sobre como ele era incrível, me sobraram cinco minutos para que eu perguntasse se era normal andar meio esquecida. Ao que ele respondeu, terno, elegante: "Querida, mulher já é burra, imagina com a progesterona causando edema cerebral!" Nunca mais voltei ali.
Finalmente marquei com uma mulher. Talvez eu a abraçasse e chorasse apenas por ela ter uma vagina. Finalmente estava a salvo! Não. Me lembrei que mulheres também podem ser muito machistas quando ela começou a falar que o mais importante, durante a minha gestação, era não esquecer de ser atraente para o meu marido. Eu precisava me manter bonita, agradável e com apetite sexual. Eu tinha que me forçar a sair de casa, fazer ginástica e, caso não estivesse a fim do sexo em si, não custava "fazer um agradinho". Era isso ou "liberar um 'freepass' pro maridão sair". Sim, eu ouvi essa frase. Eu tinha uma lista com 200 perguntas que nada tinham a ver com meu marido (tampouco com a alegria peniana dele), mas a consulta acabou virando dicas cretinas de revista funesta. Quem, com azia, prisão de ventre, enjoo, enxaqueca, sono e cansaço quer transar? Bom, segundo essa médica, era preciso "se forçar um pouquinho". Ela coroou seu discurso dizendo que amamentação não era pra durar mais do que três meses e que "bebês são muito chatos, legal é quando a criança já consegue discutir política". Nunca mais voltei.
Traumatizada pelos doutores tradicionais, quase caí no papo dos pequenos templos dos ditadores da fofura. Aquela gente que te olha como se você fosse um Hitler de pança só porque a situação "parir num riacho a 3.000 quilômetros de um bom hospital" não lhe parece a opção mais adequada. Não, eu não quero passar gengibre no mamilo, camomila na vulva e chia no ânus, eu quero tatuar "viva a descoberta da anestesia" na testa! Enfim liberta do espartilho ecológico "parindo como no século 15" travestido de cartilha bondosa da mãe natureza, ainda sigo em busca do que, em essência, deveria ser muito simples: um médico que não fale tanta merda.

Texto de Tati Bernardi, na Folha de São Paulo

terça-feira, 15 de agosto de 2017

A razão em Pascal tem por objeto o reconhecimento da desmesura

"Do Espírito Geométrico e da Arte de Persuadir e Outros Escritos de Ciência, Política e Fé" é uma coletânea de textos de Blaise Pascal enfim traduzidos e editados em português em edição cuidadosa de Flávio Fontenelle Loque (Autêntica, 192 págs.).
Juntamente com os "Pensamentos e as Cartas Provinciais", ele fornece os textos principais de um dos mais impressionantes pensadores do século 17 em sua articulação cruzada entre matemática, política radical e teologia.
Filósofo ligado ao jansenismo e sua articulação entre rigor moral, crítica de si e insubmissão política, Pascal fornece, nesses escritos, os eixos principais de sua experiência intelectual. É evidente aqui sua maneira de levar o que o que chamaríamos atualmente de "problemas epistemológicos" a se desdobrarem em afirmações de claras consequências metafísicas.
Tomemos, por exemplo, o manuscrito que abre a coletânea, a saber, "Do Espírito Geométrico". A princípio, pode parecer estarmos diante de um clássico texto no espírito protoiluminista daqueles que afirmarão serem as matemáticas e a geometria o modelo racional de apreensão de um modo desencantado.
No entanto, o verdadeiro objeto de tais elaborações paulatinamente vai se descortinando. Pascal luta contra aqueles que querem, por meio da razão, assegurar a inexistência do infinito, como aqueles que asseguravam que o espaço podia ser dividido em duas partes indivisíveis, em vez de assumir o princípio de uma divisão ao infinito, de uma aceleração ao infinito, de uma diminuição ao infinito. Não há geômetra, dirá Pascal, que não creia ser o espaço divisível ao infinito. Crer nisso seria como crer em um "homem sem alma".
A analogia é mais sugestiva do que parece. Através do infinito, a razão expressa a existência do que o entendimento não alcança. Ela ultrapassa o que o entendimento não concebe. A geometria permite, assim, "admirar a potência da natureza nessa dupla infinidade [do infinitamente grande e do infinitamente pequeno] que nos circunda por todos os lados".
Tal existência pode ser reconhecida não pela sua apreensão sensível, mas devido à compreensão da falsidade de seu contrário ("há o que é espacialmente indivisível").
Ou seja, a razão em Pascal tem por objeto o reconhecimento da desmesura. O infinito matemático é uma astuta porta de entrada ao reconhecimento de realidades infinitas que nos atravessam e nos circundam por todos os lados.
"O silêncio desses espaços infinitos me apavora", dizia Pascal em seus "Pensamentos". Inicialmente, parece que estamos diante da afirmação de que a passagem do mundo fechado da física aristotélica, com seus lugares naturais e qualitativamente distintos, ao universo infinito próprio dos espaços ilimitados e homogêneos da física galilaica teria silenciado todo finalismo e toda teologia.
Daí porque "esses espaços infinitos" pareceriam silenciar um mundo que então cantava a glória e o necessitarismo finalista da criação de Deus.
De fato, Pascal não cansará de afirmar, na aurora da modernidade, que entrávamos na era de um "Deus escondido" que não se faz ver como o Sol ao meio-dia.
Mas ele era escondido e silencioso não porque entrávamos em um mundo desencantado, no qual a natureza aparecia como uma máquina cujas relações de causalidade lhe seriam completamente imanentes.
Deus se silenciaria a partir de então porque, em espaços infinitos –e esta é uma das consequências principais do pensamento pascalino–, é impossível eliminar a realidade ontológica do acaso. Espaços infinitos têm relações e implicações possíveis infinitas, o que é outra forma de dizer que neles o acaso não pode ser eliminado. O que silencia Deus não é a força explanatória da ciência, mas o reconhecimento da irredutibilidade do acaso.
Mas o acaso silencia tanto Deus quanto os reis. O que faz de alguém um rei, dirá Pascal, não é lei natural alguma, mas uma sucessão inumerável de acasos que o poder procura esconder como o mais profundo de seus segredos.
Pois o acaso destitui a naturalidade da autoridade e coloca os reis em uma condição de "perfeita igualdade com todos os homens". Para alguns, isto é ainda mais apavorante do que o silêncio desses espaços infinitos.


Vladimir Safatle, na Folha de São Paulo.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Como homens e mulheres superam a dor de uma separação?

Observei algumas diferenças de gênero marcantes nas minhas pesquisas. Muitas mulheres "ruminam" durante meses, às vezes anos, as possíveis causas da separação. Elas se sentem angustiadas, deprimidas, fracassadas e, principalmente, culpadas por não terem conseguido manter o relacionamento. "O que eu fiz de errado? O que eu poderia ter feito diferente? E se eu tivesse agido de outra forma?"
Já alguns homens parecem superar mais facilmente o fim de uma relação de duas maneiras: bebendo com os amigos e encontrando rapidamente um novo amor. Eles não se sentem responsáveis pela separação. A culpa é sempre dela: "Ela reclamava de tudo! Ela estava sempre insatisfeita! Ela cobrava e exigia demais! Era o tempo todo DR!".
Eles querem minimizar ou anestesiar a dor, enquanto elas maximizam o sofrimento em um luto interminável.
O processo feminino de superação é muito mais demorado, verbalizado e compartilhado, especialmente com as amigas.
Elas procuram refletir sobre os possíveis erros, para não errarem novamente. E também preferem cicatrizar as feridas antes de buscarem um novo amor. Algumas resolvem investir em novos projetos de vida para se sentirem mais fortes: estudar, trabalhar, viajar, cuidar do corpo e da saúde, reformar a casa etc.
Apesar de agirem de formas diferentes, eles e elas revelam que uma coisa é certa: um dia a dor acaba. Por mais clichê que possa parecer, o tempo é o melhor remédio. Saber que vai passar, mesmo que demore muito, ameniza bastante a dor de uma separação.
E, como me contaram, apesar de todo o sofrimento, a separação pode ter sido a melhor coisa que aconteceu em suas vidas. Muitos encontraram um novo amor, mais saudável, equilibrado e feliz, com mais risadas e menos brigas. Outros fizeram viagens incríveis ou investiram em um trabalho mais interessante, por se sentirem mais livres para assumir novos desafios. Alguns descobriram que é possível, sim, ser feliz sozinho. E que a pior solidão é a solidão a dois.
Para lidar com o sofrimento inevitável de uma separação, aprendi que a melhor saída é repetir o seguinte mantra: "Acabou! Posso sofrer, posso chorar, mas, mais cedo ou mais tarde, vai passar!".


Mirian Goldenberg, na Folha de São Paulo

O Silêncio

Há algo de instrutivo no ritual que o Congresso Nacional ofereceu ao país na última quarta-feira, quando um ocupante do cargo da Presidência, gravado em situação flagrante de prevaricação e corrupção passiva, formalmente denunciado pela Procuradoria Geral da União, foi poupado.
É difícil imaginar algum país no mundo que chegaria a um espetáculo tamanho de degradação comandado por uma casta de políticos dignos de filmes de gângsteres série B. Ao menos, depois dessa confissão de desprezo oligárquico pela opinião pública, quem sabe agora parem de falar que estamos em uma "democracia".
Enquanto o país assiste a universidades públicas suspenderem as aulas por se encontrarem em situação falimentar, serviços públicos entrarem em deterioração, agências de pesquisa decretarem estado de calamidade e 3,6 milhões de pessoas saírem da classe média baixa em direção à pobreza, o ocupante do trono da Presidência, único presidente da história brasileira a ser denunciado pela Justiça no cargo, gastava milhões de reais em suborno explícito de deputados, uso de cargos públicos para aliciamento de votos e liberação de emendas escusas a fim de garantir sua sobrevida.
Ou seja, bem-vindos a uma cleptocracia que agora não faz nem sequer questão de conservar as aparências. Há algo de terminal quando até mesmo as aparências já não são mais conservadas. Tudo isso com o beneplácito daqueles que dizem que o país precisa, afinal, de "estabilidade".
Com se vê, há algo de muito interessante no conceito de "estabilidade" que circula atualmente. Uma estabilidade da pauperização, da precarização do emprego, do desmonte dos serviços públicos e da redução final da república brasileira a uma farsa macabra.
Contra isso, há aqueles que falam que receberam uma "herança maldita" do governo anterior. Alguém deveria explicar essa repetição compulsiva que nos acomete. Vivemos em um país onde todo governo usa o expediente de culpar a herança maldita do anterior para mascarar sua própria impotência. O cômico é que eles sempre encontram alguém a continuar a vociferar a mesma estratégia surrada de sempre.
Mas o que pode realmente impressionar alguns é o silêncio com que este momento foi recebido por setores da sociedade brasileira ou, antes, os expedientes que vemos para justificar a passividade. Por que as ruas não queimam, perguntam?
Ao menos três fatores deveriam ser levados em conta aqui.
Primeiro, porque estamos falando de um governo que atira em manifestantes em toda impunidade, como vimos na última manifestação de greve na Esplanada dos Ministérios. Ele usa seu braço armado para cegar estudantes com bala de borracha, atemorizar a população nas ruas com sua polícia gestora da desordem, ameaçar com punições os que entram em greve e ridicularizar o fato de 35 milhões de pessoas pararem o país (como na última greve geral). Ou seja, boa parte das pessoas não sai às ruas porque elas têm medo da violência do Estado, já que elas tacitamente sabem que não têm mais garantias alguma de integridade.
Segundo, porque há um setor da sociedade brasileira que nunca teve problemas com corrupção, mesmo que tenham saído às ruas em 2015 falando o contrário. Eles sempre votaram em corruptos notórios e continuarão fazendo isto. O único problema deles era com o governo anterior. Derrubado o governo, todos eles voltaram para casa e continuarão lá para todo o sempre.
Por fim, não há ninguém nas ruas porque a esquerda brasileira entrou em colapso. Presa entre a tentativa de ressuscitar o que morreu e a incapacidade de encontrar outra forma de incorporação genérica de sua multiplicidade de demandas em um ator político unificado, ela encontra-se paralisada e sem capacidade de dizer claramente o que quer, qual seu horizonte.
Queremos simplesmente retornar ao passado recente, conservar o que está sendo desmontado, ou temos algo a mais a propor? Conseguiremos fazer a maioria da população brasileira sonhar e acreditar em sua própria força de transformação e luta ou empurraremos todos a um horizonte desinflacionado de mudanças, como se isso fosse a expressão de um realismo duro, porém pretensamente necessário?
Sem clareza acerca desses pontos, ninguém avançará um passo.


Vladimir Safatle, na Folha de São Paulo

A família sem linguagem

Era uma casa pequena demais pra tanta doença, mas o que seriam das noites em torno da mesa não fosse a rica profusão de mal-estares? Não era a comida ou o amor, mas sim (o absurdo prazer em relatar) o incômodo físico que os mantinha vivos, falantes e unidos.
Dona Nelma sofria de um suco gástrico mordaz que lhe causava amigdalites, aftas e algumas falsas suspeitas de infarto. Seu Alcides tinhas dores espalhadas pelo corpo todo e colecionava médicos e seus diferentes diagnósticos: fibromialgia, neuropatia, artrite reumatoide. Danilinho, o filho mais velho, estava tranquilo vendo TV quando começava a se tremelicar inteiro e ter medo de morrer. Desde muito novo lhe entucharam anticonvulsivantes, mas jamais lhe perguntaram o que ele sentia.
Drica era o ET da família, pois quase nunca ficava doente. Porém, muitas vezes cansada de não receber nenhuma atenção nos jantares, de ser preterida até mesmo pelo idoso e cardíaco cachorro Arthur (recentemente tratando mazelas renais), deu graças a Deus quando seu corpo inteiro foi tomado por manchas vermelhas que ardiam e coçavam. Algumas, pra sua alegria, viraram feridas com pus. Drica agora tinha lugar à mesa.
Pobre novela ou "Jornal Nacional", querendo competir com as manchetes hospitalares e laboratoriais da família Teixeira. Eles salivavam pelo momento mais esperado do dia: a competição "hoje eu tô pior que vocês". Eram viciados no jogo da insalubridade. Danilinho e mais uma tomografia que nunca descobria nada. Seu Alcides e mais uma ressonância inconclusiva. Nelminha e sua descrença nesses médicos "de hoje" que nunca resolviam seu problema. Drica, mangas compridas mesmo no verão, estava no terceiro tratamento e, em seu íntimo, torcia para piorar. A solidão, o não pertencimento, eram piores do que a psoríase, transformadas por suas unhas angustiadas em chagas abertas.
O que teria acontecido se Danilinho tivesse espaço, naquela casa, para falar sobre o medo de crescer, o medo de ser bissexual e a necessidade de trancar a porta do quarto, às vezes, para poder ser apenas jovem e não um objeto eterno de afago tóxico de uma mãe que não suportava carregar sozinha o inferno dentro do esôfago?
O que teria acontecido se seu Alcides tivesse feito as viagens que planejou, construído as casas que desenhou, ido embora por alguns dias, com o carro que durante tanto tempo guardou dinheiro para ter? Seus membros talvez não gritassem histericamente o peso insuportável da imobilidade, seus nervos não inflamariam tanto, motivados por uma febre raivosa "de tudo que ele poderia ter sido".
O que seriam das tórridas biles descontroladas de dona Nelma se ela pudesse colocar em palavras organizadas (ou em ação despudorada) o desejo de trepar com todo homem que passasse na rua menos com o egoísta descortês com quem divide a cama há mais tempo do que lhe parece tolerável? Que fim levariam as sensações de "facadas na boca do estômago" se ela pudesse empunhar sua arma em objeção às chatices da vida e das convenções e não mais contra as suas fantasias?
Se a família Teixeira pudesse falar, soubesse falar, tivesse a coragem de falar, o que seria da indústria farmacêutica, dos planos médicos, da máfia dos mil exames computadorizados e desnecessários, dos médicos ignorantes que tratam carniças e carcaças e não crianças assustadas em corpos envelhecidos apenas pelo tempo?
Drica passou o rodo na firma e sua única coceira agora é da candidíase. Está bem melhor.


Tati Bernardi na Folha de São Paulo

Ainda e Sempre

Sergio Moro vai tentar, até o fim da vida, explicações para a divulgação ilegal das gravações ilegais com a então presidente e Lula. Volta agora à do começo: "As pessoas tinham o direito de saber a respeito daqueles diálogos". Mesmo que fosse o caso, o juiz Sergio Moro não tinha e não tem o direito de transgredir a lei, como fez em dose dupla. Impunemente -o que deveria incomodar quem vive de punir os outros.


Jânio de Freitas, na Folha de São Paulo

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Jeanne Moreau, símbolo do cinema francês, morre aos 89 anos

Jeanne Moreau, símbolo do cinema francês, morre aos 89 anos

Musa da Nouvelle Vague foi encontrada morte em sua residência em Paris
Jeanne Moreau, uma das atrizes mais emblemáticas do cinema francês e musa da Nouvelle Vague, faleceu em Paris aos 89 anos, informou nesta segunda-feira seu agente.
Moreau, que atou em mais de 100 filmes ao longo de uma carreira de 65 anos, incluindo "Amantes" de Louis Malle, "Jules e Jim" de François Truffaut e "O Diário de uma Camareira de Luis Buñuel, foi encontrada morta em sua residência na capital francesa, afirmou a prefeitura de seu distrito.
De acordo com várias fontes, o corpo foi encontrado na manhã desta segunda-feira por uma pessoa que trabalhava na limpeza da casa. "Se foi uma parte da lenda do cinema", afirmou a presidência francesa em um comunicado, que descreve Moreau como uma mulher "livre, rebelde e a serviço das causas nas quais acreditava".
Seu talento, beleza e voz profunda fascinaram grandes cineastas, incluindo Luis Buñuel, Orson Welles e Wim Wenders.
Em 1998 recebeu um Oscar honorário pelo conjunto de sua carreira das mãos de Sharon Stone. Dez anos depois recebeu um César honorário, o grande prêmio do cinema francês.

Reprodução do Correio do Povo

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Paradoxos da candidatura Lula (I)

No dia seguinte à sua condenação, em pronunciamento à imprensa e a militantes, Lula fez um pedido formal ao PT, reivindicando o direito de ser candidato à presidente da República em 2018. Esta petição o colocou no centro de vários paradoxos, com destaque para dois. O primeiro é de ordem jurídico-política e o segundo é de ordem política. Examine-se aqui o primeiro. O paradoxo de ordem jurídico-política se constitui pelo fato de que Lula expressou de forma manifesta a vontade de ser candidato, o que o PT não lhe negará, lidera as pesquisas de intenção de voto e, ao mesmo tempo, corre o risco e sofre uma ameaça de interdição judicial de sua candidatura. Ou seja: pela manifestação de vontades e de intenções de Lula e do PT estamos diante de uma candidatura certa, mas, potencialmente, os desdobramentos judiciais a colocam no âmbito de uma incerteza.

Hoje poucos dividam que o ato final do golpe, ao menos para uma parcela dos golpistas, consistia em interditar a candidatura de Lula. Mas o bloco que apoiou a deposição de Dilma cindiu-se e muitos dos que estavam nele manifestam a convicção de que a condenação de Lula é um ato puramente político e que o juiz Moro eximiu-se de apresentar provas na condenação. Certamente, os historiadores do futuro, distanciados do calor dos acontecimentos, terão muito a pesquisar e a dizer sobre esta crise brasileira. Mas, dada a velocidade dos acontecimentos, e a elucidação, o deslindamento acelerado de que vêm carregados, permitiram que o tribunal da história pronunciasse já, agora, duas sentenças: 1) foi golpe; 2) os procuradores da Lava Jato e o juiz Moro se meteram numa empreitada persecutória e parcial contra Lula.
E na medida em que muitos adversários e inimigos de Lula passam a admitir que ele está sendo condenado sem provas, torna-se uma tarefa difícil entender as atitudes dos procuradores e do juiz Moro, pois, se elas têm uma investidura política, é forçoso reconhecer que elas (as atitudes) vão para além da política e resvalam para o terreno pessoal, da personalidade e do caráter, particularmente do procurador Deltan Dallagnol e do juiz Moro.
Várias hipóteses podem ser cogitadas para tentar explicá-los. Reportagens de diversas mídias sugerem que eles seriam movidos pela pureza de um moralismo. Mas outras matérias indicam que este moralismo é oco, farisaico. Uma das hipóteses sugere que quando no auge de sua popularidade, no momento das grandes manifestações pelo impeachment, eles se atribuíram uma grandeza que não têm e nunca teriam, imantando-se com um verniz dourado do heroismo que o tempo se encarregaria de mofar. Não é um atributo ou prerrogativa de procuradores e juízes almejar a grandeza e o heroísmo. A supervalorização de si mesmos não tinha uma correspondência nas capacidades e nos saberes jurídicos que ambos possuíam: nenhum dos dois é autor de uma teoria inovadora ou de grande compêndio de conhecimento jurídico, como foi demonstrado por juristas e especialistas que analisaram suas atitudes, suas decisões e sua formação. Quando uma pessoa de mediano conhecimento quer se mostrar muito superior do que realmente é, resvala, inapelavelmente, para a vaidade e para a arrogância. Dallagnol é um vaidoso e arrogante explícito, que busca vorazmente o exibicionismo. O juiz Moro é um vaidoso e arrogante contido, que se compraz consigo mesmo e com a ideia de grandeza que faz de si.
Estes descaminhos pessoais, provocaram decisões desastradas da dupla. O exibicionismo de Dallagnol chegou ao ápice no momento do PowerPoint e, para mostrar uma ilustração que não tem, fundamentou a denúncia contra Lula, não em fatos, mas em duas teorias bastante estranhas ao direito, tão bem desmistificadas pelo jurista Lenio Luis Streck, que as classificou de exóticas. Trata-se do "probabilismo, na vertente do bayesianismo, e o explanacionismo". Ou seja, trata-se do exibicionismo elevado à condição do ridículo.
O juiz Moro, na sua imantação horóico-santificada, condenou Lula, não com base na denúncia, pois esta era vazia, mas com base na vontade de condenar. Vários juristas mostraram que não há nenhuma ligação entre a sentença condenatória e a denúncia, o que configura uma condenação sem provas. A hipótese mais provável é que Moro caiu numa armadilha da defesa de Lula. Esta partiu do pressuposto de que o juiz o condenaria. Assim, adotou como estratégia de defesa a confrontação com o próprio juiz, em atos deliberados de provocação e escaramuças públicas.
Uma condenação movida a ódio
Moro cometeu o erro mais elementar que nenhum juiz e nenhum líder podem cometer. Agiu, não com a lei, mas movido pela raiva, pela ideia de se vingar das afrontas públicas promovidas pela defesa e pelo ódio a Lula. As ações motivadas pela raiva revelam frustração, uma atitude da impotência infantil, erro que jamais é cometido por aqueles que exercem realmente o poder. As reações emocionais, nos jogos estratégicos, nos jogos de poder - era coisa já sabida pelos líderes prudentes do mundo antigo - são contraproducentes e revelam o desequilíbrio dos seus agentes.
Na imagem grandiosa que construiu de si mesmo e no narcisismo de sua autocontemplação, Moro quis mostrar-se grande entre aqueles que ele considera grandes: Aécio Neves, Michel Temer, João Doria etc. Compareceu em eventos, sorridente e feliz, a abraçar aquele, a apertar a mão deste, exibindo-se com os novos donos do poder, todos mal-cheirosos, o que denota a imprudência desbragada do juiz. Comparando-o ao juiz italiano anti-máfia, Paolo Borsellino, o jurista Walter Maierovitch afirma que este "jamais deu ouvidos a adversários e detratores. Nem abraçou políticos poderosos ou decadentes. Ou seja, tipos como Aécios da vida".   
Movido pelo ódio e pela vontade de destruir, de anular Lula, Moro o comparou descabidamente com Cunha. As justificativas de suas sentenças tornaram-se um emaranhado de confusões, que revelam o monumental despreparo para comandar o julgamento de um caso tão especial e delicado como é o da Lava Jato. Moro e Dallagnol, cada um a seu modo, também deram sua contribuição para o agravamento da crise das nossas  instituições, recorrentemente colapsadas por aqueles que as deveriam defender. Deputados e senadores destruíram o Congresso Nacional. Temer destruiu a instituição da Presidência da República e o Brasil. Juízes e procuradores, incluindo magistrados do STF, destruíram o Judiciário e o Ministério Público.
É difícil prever o que fará o Tribunal Regional Federal de Porto Alegre, a quem caberá julgar Lula em segunda instância. Mas duas coisas parecem certas: 1) nesta instância não é prudente que a defesa de Lula utilize a tática da confrontação e da provocação. Mesmo que não confie, o recomendável será dizer que confia na Justiça; 2) A candidatura Lula não será salva só nos tribunais.
Se Lula e o PT quiserem viabilizá-la, terão que salvá-la nas ruas e em movimentos da sociedade civil. Terão que levantar o povo para salvá-la. Isto porque o Brasil vive um daqueles momentos em que os agentes públicos com poder de decisão se insularam, pairam acima da sociedade, das leis e da Constituição. Decidem a partir de seus interesses e de suas vontades; de suas raivas e de seus ódios, de suas vaidades e de suas arrogâncias, dos seus orgulhos e de suas presunções. Somente o povo, comandado por líderes prudentes, poderá retirar o Brasil desta loucura destrutiva em que o país está mergulhado para dar-lhe algum sentido de futuro promissor e esperançoso. 

Texto de Aldo Fornazieri, no Jornal GGN

Os ingênuos creem em 'idealismos' contra a monstruosa realidade

Lembro-me que a primeira vez que li a Bíblia, por volta dos 13 anos de idade, achava estranho Abrãao, um dos heróis de Deus, referir-se a si mesmo dizendo "Eu, que sou pó e cinzas...".
Com o passar dos anos, fui cada vez mais entendendo como esse autorreconhecimento, na verdade, era o passo necessário e eficiente (como se diz na mais alta filosofia) para o restante do enredo: a convivência com o Deus de Israel só é possível se você fizer a experiência "esmagadora" da verdade de si mesmo.
Esse é o preço para se viver ao lado do Santo. Sendo Ele pleno, e nada resistindo a esta plenitude, a única forma de plenitude possível aos seu heróis era o reconhecimento de sua própria insuficiência. Perceber-se insuficiente é uma libertação.
Daí decorre muito do mau entendimento desse enredo e de seus personagens. A suposta "humilhação" que muitos pensam ver na relação com o Deus de Israel é apenas fruto de má leitura, ou de pouca leitura, ou, simplesmente, como diria um dos meus filósofos preferidos, Santo Agostinho (354-430), "orgulho, revolta e cegueira".
Parece-me que a correta interpretação dessa confissão de insuficiência presente na imagem de "pó e cinzas" é o encontro libertador com a humildade. Georges Bernanos (1888-1948), outro autor que me forma intelectualmente e espiritualmente continuamente, dizia que a humildade é, de todas as virtudes, a única imbatível.
Abraão, ao se reconhecer como pó e cinzas, simplesmente, encontrava sua libertação definitiva. A humildade bíblica é a mais profunda forma de libertação já descrita na literatura ocidental. O "rochedo da humildade" é imbatível como experiência existencial e espiritual.
A libertação não habita a boçalidade da assertividade treinada em workshops movidos a ressentimento "caché" (em francês, é mais chique dizer "escondido"). Nem tampouco em fórmulas neurolinguísticas a serviço desse pequeno ditador chamado "eu". Menos ainda em formas de espiritualidade quântica para consumo.
Diante desse fato, sinto-me um pouco como o filósofo judeu russo Lev Chestov (1866-1938), que se dizia um ateu convicto de que a mensagem bíblica é essencial para o conhecimento do lugar do homem em constante busca de dar sentido a uma vida em si insustentável.
Os ingênuos creem nas mais distintas formas de "idealismos", como dizia Chestov, contra a monstruosidade da realidade. "Sofremos a existência" e narrar esse sofrimento talvez seja a forma mais sublime de sinceridade que alguém que tem como profissão a escrita pode ter para com seus semelhantes.
Outro russo, filósofo também, Nicolas Berdiaev (1874-1948), influenciado diretamente por Dostoiévski (1821-1881), como Chestov, via a aventura espiritual humana como um combate entre o Nada do qual fomos tirados, e que nos habita intimamente, e a possibilidade de sermos criadores, como o Criador.
Para isso, a coragem de fugir da "cotidianeidade" banal é essencial. Essa banalidade se dá por meio de uma vida vivida com o espírito de rebanho, longe da "aristocracia espiritual" de que tanto falou Berdiaev, conceito retirado de Nietzsche (1844-1900), claro.
A vida espiritual como enfrentamento desse Nada, manifesta-se, entre outras formas, na superação do orgulho moral, traço clássico das almas ressentidas, incapazes de reconhecer o "nada do pecado" em si mesmas. Ao contrário do que prega nossa vã teologia da autoestima espiritual, o pecado é um dos conceitos mais libertadores na tradição ocidental.
A beleza de Deus nos impacta de formas distintas. Nosso vazio enxerga Deus melhor do que nosso orgulho. A passagem do Novo Testamento, em que Jesus está ao lado de dois ladrões no Gólgota, é paradigmática. Enquanto um, o mau ladrão, exige que Jesus use seus "superpoderes" de filho do Deus todo poderoso para tirá-los da cruz, o outro, o bom ladrão, pede que Jesus simplesmente se lembre dele, um ladrão que merece a cruz, quando entrar em Seu reino.
Por isso, no judaísmo, na oração "Nosso Pai e nosso Rei", falada no Dia do Perdão, se diz: "zachur ki afar anáchnu": Lembra-Te de que nada mais somos do que pó.


Luiz Felipe Pondé, na Folha de São Paulo

terça-feira, 18 de julho de 2017

Hollywood desprezou Martin Landau, ganhador do Oscar por 'Ed Wood'

O ator Martin Landau, que morreu de câncer neste sábado (15), aos 89 anos, é um dos raros casos hollywoodianos que depõem contra o ditado "quem não sabe fazer ensina". Landau sabia interpretar como poucos no cinema americano, mas também ensinava.
Começou a carreira como cartunista e depois passou a se dedicar ao teatro. Foi aceito em Nova York pela prestigiada Actor's Studio, organização de atores que serve para refinamento da arte dramática, em 1955 –Steve McQueen entrou naquele ano. Conheceu o melhor amigo, James Dean, com quem percorreu os estúdios em busca de emprego, e namorou Marilyn Monroe.
Landau nunca foi famoso como os amigos. As feições rudes e a compleição alta e magra até se confundiam com seus personagens, como o espião de sexualidade ambígua de "Intriga Internacional" (1959), de Alfred Hitchcock.
Landau não era charmoso como Cary Grant ou bonito como James Dean, o que fez Hollywood subestimar o homem que chegou a comandar o Actor's Studio na costa oeste dos EUA, quando formou alunos como Jack Nicholson.
Mas conseguiu mostrar sua versatilidade em três anos na série de TV "Missão: Impossível" (1966), interpretando um mestre dos disfarces.
Costumava dizer que nunca "precisou ser garçom" para sobreviver, mas teve uma carreira de vácuos, o principal entre as décadas de 1970 e 80. Foi resgatado por Francis Ford Coppola, em 1988, em "Tucker - Um Homem e Seu Sonho", como um implacável homem de negócios. O papel rendeu a ele a primeira de suas três indicações ao Oscar de melhor ator coadjuvante.
Sua aura misteriosa e sombria foi perfeita em "Crimes e Pecados" (1989), de Woody Allen. No papel do marido que se sente culpado pelo assassinato da amante, Landau levou a segunda indicação ao Oscar.
A estatueta só veio em "Ed Wood" (1994). O diretor Tim Burton era fã dos filmes de horror que o ator fez nos anos 1970 e o escalou para viver o eterno Drácula Béla Lugosi na fase final, velho, viciado em morfina e sem um tostão no bolso. Mesmo debaixo de próteses, Landau conseguiu passar o conflito entre ego e limitação artística do húngaro.
Landau voltou a ser esquecido por Hollywood. Tirando participações em programas como "Os Simpsons" e "Entourage", não voltou a participar de grandes projetos.
Morava com a filha e o neto, em Los Angeles, e lançou "Memórias Secretas", quando refletiu sobre o passar dos anos em entrevista à Folha, em 2016. "Atuar é diversão e acho incrível que consigo fazer meu trabalho na minha idade. Perdi muitos amigos. E os que estão vivos não lembram o que comeram no almoço. Acho que tive sorte."

Texto de Rodrigo Salem, na Folha de São Paulo.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Lima Barreto em guerra com seu tempo

Lima Barreto era triste e visionário como diz o título da biografia escrita por Lilia Moritz Schwarcz. Enxergava melancolicamente longe. Sofria de bovarismo. Madame Bovary queria viver mais do que podia e sentir mais do que lhe cabia. A sociedade não podia perdoar-lhe tamanha ambição.
Lima Barreto escrevia livros irônicos e realistas que ninguém lia. Atacava a corrupção dos políticos, que chamava de comilança, batia no conservadorismo dos jornais, odiava as afetações modernistas, esculhambava a obsessão das elites por estrangeirismos e enfrentava as panelinhas que dominavam os espaços chiques do seu tempo de citações e incitações. Era um duro chicote batendo em Chico e em Francisco. Sabia que o poder era da imprensa. Fazia crítica de mídia. Dava com os burros n´água.
Dava com água nos burros. Lima era negro e sofrido. Publicava por pequenas editoras e era ignorado pela imprensa, que o fustigava com seu silêncio canalha. Lima tinha, porém, os seus contatos e furava como podia o bloqueio impostos pelos donos do campo. Ele queria ser o anti-Machado de Assis. Clamava por uma literatura de combate que incomodasse os poderosos. Lima era militante, denunciava o racismo e não fazia concessões de qualquer ordem. Machado de Assis teve generosos espaços na “mídia”. É preciso procurar com uma lupa alguma manifestação sua nos jornais sobre a questão negra. Lima fazia barulho. Machado era discreto. Cartadas diferentes. Machado ganhou. Lima perdeu. Em vida, Lima Barreto parou duas vezes no hospício. Machado de Assis morreu pobre. Nada mudou?
Lima Barreto era boêmio e foi devorado pelo álcool. Bebia escrevendo e escrevia bebendo. O álcool é o inimigo número um do escritor bovarista. O inimigo número dois é a confissão de exclusão. Falar da própria exclusão, exclui sempre mais. Lima Barreto comprava briga, polemizava, desafiava, arrumava inimigos de graça vendo graça em tudo. Detonou os modernistas, que se consagrariam na semana de 1922, na casca. Ridicularizou o futurismo de Marinetti, que chamou de velho, e os modismos dos paulistas, nacionalistas deslumbrados com a Europa e populistas de butique.
Inquieto e impiedoso, Lima Barreto frequentava o centro do Rio de Janeiro, mas sacolejava até a periferia como o plebeu que era e nunca deixaria de ser. Via o seu talento ser ignorado, menosprezado e vilipendiado por não poder fazer parte do clube, salvo o dos marginalizados, pois era livre demais para ser aceito por alguma confraria de moderninhos. Lima Barreto morreu pela língua e pela pena. Dizia o que pensava e não pensava nas consequências do que dizia. Eis um homem que não calculava. Eis o homem cordial: agia pelo coração, por impulso, por emoção, por instinto, por vocação. Não se censurava.
O tempo passa. Quantos Lima Barreto andam por aí? Quem é? Quem não é? Lima Barreto como escritor homenageado do Festival Literário de Paraty (FLIP) é quase um contrassenso. Se estivesse vivo e na ativa, Lima Barreto dificilmente teria mesa de destaque em Paraty onde reinam os afetados. Continuaria certamente a ser um escritor negro marginalizado com belos livros ignorados pela mídia fashion e umbilical. Seria, como foi, chamado de autor de textos desleixados, sem imaginação e ressentidos. Lima Barreto viu e viveu tudo precocemente. A exclusão é atemporal. Meu ídolo literário. A melancolia do excluído é que ele acaba por falar de quem o exclui. Não consegue silenciar. Não pode se vingar. Lima Barreto anda por aí luminoso como uma referência recuperada pelos seus inimigos.
Publicou a sua obra mais conhecida, “Triste fim de Policarpo Quaresma”, como folhetim no Jornal do Commercio. Teve de meter a mão no bolso para garantir a edição do romance como livro quatro anos depois. Vivendo entre a depressão e o alcoolismo, sempre de ponta com o mundo das modas, pregando pacifismo em tempos de guerra e guerreando em tempos de paz, ele aprofundou com certo gosto a sua marginalização. Se era para ser marginal, ele o seria com estilo, força e obsessão. Nascido numa sexta-feira, 13 de maio de 1881, ele via nesse aspecto um sinal de sorte. Acontece que a sorte raramente esteve do seu lado. A sorte não perde tempo. Ela corre ao lado dos vencedores. É calculista e pragmática.
Quem era melhor, Machado de Assis ou Lima Barreto? Literariamente, texto contra texto, Lima Barreto era tão bom ou melhor do que Machado de Assis. Podia ser melhor e podia ser pior. Machado de Assis escrevia com o cérebro em estado de frieza absoluta. Procurava não se comprometer. Posava de branco. Uma operação controlada. Lima Barreto escrevia com as tripas e com o coração. O criador de Capitu foi sinuoso. O de Policarpo Quaresma, direto e implicante. Machado amaciava. Lima batia. Machado adensava. Lima botava o preto no branco. Machado comia pelas beiradas. Lima enfiava o dedo no olho. Se Machado de Assis é o nosso Pelé, Lima Barreto é o nosso Garrincha.
Quando recebeu do jovem Sérgio Buarque de Holanda um exemplar da revista modernista “Klaxon”, Lima Barreto achou que era uma propaganda americana de automóveis e rotulou os intrépidos paulistas, que se propunham a modernizar nossa cultura, de “moços tão estimáveis”. Papo reto: achou que era um bando de almofadinhas encantados com as últimas modas estrangeiras tentando fazer papel de rebeldes. Eu sou mais Lima Barreto. Nunca um anarquista foi tão tropical e tristemente certeiro.
Lima Barreto c’est moi.
Ah, ele não gostava de estrangeirismos.
Em francês, vá lá!