terça-feira, 23 de maio de 2017

Não dá para pensar em acabar com o crack sem atacar pobreza e violência

Enquanto mais uma vez, a Prefeitura de São Paulo e o governo do Estado disputam os holofotes em mais uma operação policial na cracolândia, a questão principal, como tratar esses dependentes químicos, segue em aberto.
O programa "Redenção", anunciado pela gestão de João Doria (PSDB), ainda não passa de uma carta de intenções, mas já recebe críticas. Para o Ministério Público Estadual,o projeto apresenta "inconsistências", "falta de referencial teórico" e precisa de "modificação bastante profunda".
Mais de 20 anos depois de o crack se instalar na capital paulista e em outras regiões do país e atingir mais de 1 milhão de pessoas, ainda não existem programas consistentes para enfrentá-lo.
A questão é que não dá para pensar em resolver o problema da droga em si sem olhar para um outro bem maior: a pobreza e todos os problemas associados a ela.
A vasta maioria dos dependentes de crack tem histórico de discriminação, violência doméstica, abuso sexual e frágeis vínculos familiares.
Atacar apenas a substância química (no caso, o crack) não fará desaparecer os problemas associados a ela.
Muitos dos usuários estão tão absurdamente à margem da sociedade que o crack (assim como a bebida e outras drogas) servem de "remédios" para encararem a brutalidade do cotidiano.
Ao mesmo tempo, programas de assistência social não devem ser encarados como sinônimos de tratamento da dependência química.
Abrigo e alimentação são muito importantes para os usuários de crack em situação de rua, mas abordagens psicossociais, remédios para casos específicos (como depressão e ansiedade), e eventuais internações para situações de risco (surtos psicóticos) são igualmente fundamentais nesse processo.
Ter a abstinência como único indicador de sucesso do tratamento do usuário de crack é um outro equívoco.
Segundo estudos em saúde mental, para muitos dependentes do crack, especialmente os que vivem nas ruas, programas de redução de danos podem ser efetivos.
É possível que as pessoas não parem de usar drogas completamente, mas conseguem estabilizar suas vidas. Isso traz mais segurança para elas e para a comunidade onde vivem.
Em Vancouver (Canadá), por exemplo, são considerados indicadores de sucesso desses programas a redução de pequenos delitos e de internações por problemas ligados à droga, assim como a estabilidade na moradia.
Em entrevista à Folha no ano passado, a enfermeira canadense Liz Evans disse que qualquer serviço de redução de danos estará fadado ao fracasso se não ouvir os usuários.
"Porque será aquilo que nós queremos, e não o que eles precisam. A redução de danos é sobre aceitar as pessoas, e não ajudá-las a ser aquilo que você quer que sejam."
*
documentário "Hotel Laide", que conta a história de Angélica, 24, dependente de crack e que foi para as ruas aos sete anos, é um bom exemplo do que significa redução de danos. O vídeo está disponível no YouTube. 


Texto de Cláudia Collucci, na Folha de São Paulo

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Não estamos sós

No fim de semana passado, passei o dia sozinho em casa, tomando notas que serviriam para uma espécie de livro de memórias.
No meio da manhã, fiz um café na cozinha e, por causa de um título no jornal, lembrei-me de que era Dia das Mães. Minha mãe morreu em 1994, minha avó, antes disso; de qualquer forma, o Dia das Mães, na Itália, é em outra data.
Não havia ninguém que eu quisesse ou precisasse festejar.
No momento de voltar para a sala, tive uma experiência bizarra. Por um curto instante, pareceu-me óbvio que minha mãe estava viva, e quis lhe dizer o que eu acabava de ler no jornal, que era o Dia das Mães, e eu chamei "mamma", em voz alta, no meio do corredor da minha casa. Minha própria voz me acordou, e voltei para os dias de hoje.
Não fiquei preocupado; apenas feliz ao constatar que, depois de tantos anos, ela está presente na minha vida. Não preciso acreditar em espíritos ou fantasmas para desejar que eles existam e se manifestem.
Somos 7 bilhões hoje na Terra. Desde o começo da humanidade, calcula-se que aqui viveram 107 bilhões de humanos. Há por volta de 15 mortos por cada vivo.
Não são tantos. E aposto que a presença deles melhoraria nossa vida e nossa convivência. Eles são nosso passado, a história que nos produziu, e nós somos o futuro deles, a razão de eles terem vivido.
No sábado antes do Dia das Mães, eu li, encantado, em poucas horas, "A Cena Interior", de Marcel Cohen (editora 34, tradução de S. Titan Jr.). O livro talvez seja responsável pelo episódio bizarro do domingo.
Num tom direto e simples, Marcel Cohen evoca seus mortos (dos que ele se lembra e dos que ele soube por outros). Todos sumiram no genocídio, e cada capítulo se abre com o nome da pessoa e o número e a data do comboio que a levou de Paris (a dos anos 1930 e 1940, tão parecida com a de hoje) para o extermínio.
Na capa, Jacques Cohen toca um violino; é o pai de Marcel, nascido em Istambul em 1902 e sumido no Comboio nº 59, em setembro de 1943.
Os mortos deixaram alguns objetos, o violino, um porta-ovo, uma pulseirinha de prata"¦ Eles funcionam como a madeleine de Proust: abrem a porta da memória.
A extraordinária força do livro está no fato de que não se trata de lembranças ou de saudades; o que importa não são os sentimentos de Marcel, que escreve, mas são eles, os mortos, com suas vidas, longas ou breves, que persistem nestas páginas, sem idealizações, numa grandeza feita de pequenos nadas.
Numa hora em que tento escrever sobre minha infância e meus antepassados também descubro que, para a ciência contemporânea, os antepassados não estão apenas nos porta-retratos. Explico.
As girafas têm pescoço comprido. Cinquenta anos antes de Darwin, para Lamarck, cada girafa, vendo que a comida estava no alto, estendia seu pescoço; com isso, os filhotes nasceriam de pescoço mais comprido. Com Darwin, o entendimento da evolução mudou de rumo: os esforços dos indivíduos girafas para alongar seu pescoço não passariam pelos genes, e as girafas têm pescoço comprido porque as de pescoço curto morreram de fome, enquanto sobreviveram e se reproduziram apenas as que, por acaso, eram mais pescoçudas.
Cresci darwiniano, acreditando que cada geração transmite para a seguinte o mesmo genoma que ela recebeu de seus pais etc. Mas hoje hoje já se descobriu que não é bem assim.
Sem alterar a sequência do DNA, variações adquiridas durante a vida de um indivíduo (a girafa que fez o esforço de alongar seu pescoço) podem chegar aos seus descendentes.
Essas variações são ditas epigenéticas porque acontecem nas proteínas que envolvem o DNA ("epí" significa em cima, em grego).
Em suma, nossos hábitos e nossa maneira de viver afetam as gerações futuras, e pelo genoma –não só por serem eventualmente transmitidas como lendas familiares.
Não sei se nosso legado epigenético inclui só os hábitos de nosso corpo (se você comer muito chocolate, fumar, beber e não fizer exercício, então seus filhos etc.). Talvez ele inclua também nossas covardias, nossa coragem, nossa estupidez.
Sempre pensei que o passado está dentro da gente –até o passado do qual preferiríamos não nos lembrar. Agora parece que nossos mortos estão presentes ao redor de cada um de nossos genes. E que nós estaremos, com eles, ao redor dos genes de nossos filhos e filhas. Responsabilidade, hein?


Texto de Contardo Calligaris, na Folha de São Paulo

Chris Cornell, vocalista do Audioslave e do Soundgarden, morre aos 52 anos

Chris Cornell, conhecido vocalista das bandas Soundgarden e Audioslave, morreu na noite desta quarta (17) em Detroit (EUA) aos 52 anos.
A autópsia do médico legista confirmou a hipótese já levantada pela polícia de que o músico se suicidou.
De acordo com nota divulgada, família e equipe gostariam de agradecer aos fãs pelo amor e pela lealdade e pedir privacidade e respeito neste momento.
Segundo a agência de notícias "Associated Press", a polícia afirma que um amigo da família teve que forçar a entrada no quarto de Cornell e o encontrou morto com uma faixa ao redor do seu pescoço. A publicação alega que a polícia suspeita que o cantor se suicidou.
Chris Cornell teve problemas com álcool e outras drogas durante a carreira. Em 2003, ao passar por um tratamento de reabilitação, ele disse em entrevista que gostava daquele processo. "É como uma escola, é interessante. Estou vendo que posso aprender aos 38 anos."
Cornell era um dos ícones do grunge com a banda Soundgarden, formada em Seattle no início dos anos 1980, e ganhou destaque no início da década de 1990, ao lado de grupos como Nirvana, Alice in Chains e Pearl Jam.
Após uma pausa com o Soundgarden, ele alternou carreira solo e outros projetos.
Em 2001, ele se juntou aos ex-integrantes do Rage Against the Machine —Tom Morello, Brad Wilk e Tim Commeford— e formou no Audioslave em 2001. A banda lançou três álbuns e se manteve até 2007.
Em 2010, o Soundgarden se reuniu para novos trabalhos e turnê. Neste mês, o grupo tem shows marcados em diversas cidades dos EUA.
A última passagem do músico pelo Brasil foi em dezembro do ano passado em turnê solo, após shows em 2007, no Citiback Hall, em 2011, no SWU, em 2013 no Festival Best of Blues e 2014, com o Soundgarden, no Lollapalooza.
Em março, ele divulgou um novo single solo, "The Promise".
Ele deixa a mulher e os filhos.


Notícia de Amon Borges, na Folha de São Paulo

Com 310 mil palavras de cinco países, VOC é um monumento da lusofonia

Depois de uma coluna cética sobre a promessa de futuro lusofônico corporificada no Acordo Ortográfico de 1990, semana passada, aqui vai uma com o sinal oposto. Não que eu seja ciclotímico: a realidade é que é.
Na última sexta-feira (12), na cidade da Praia, capital de Cabo Verde, foi apresentada a primeira versão realmente abrangente do VOC (Vocabulário Ortográfico Comum) da língua portuguesa, com cerca de 310 mil palavras de cinco países submetidas a critérios lexicográficos unificados: Brasil, Portugal, Moçambique, Cabo Verde e Timor Leste.
A falta de perspectiva histórica que, por definição, caracteriza o noticiário convencional e o burburinho das redes sociais pode explicar a repercussão pífia de um fato cultural tão relevante.
A cargo do Instituto Internacional da Língua Portuguesa, que tem representantes dos principais membros da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa), o VOC é uma obra em andamento há alguns anos –e ainda aberta.
O vocabulário nacional de São Tomé e Príncipe está pronto, mas depende da aprovação das autoridades locais para se somar à base comum. O de Angola deve estar disponível ano que vem e o da Guiné-Bissau mal começou a ser elaborado.
A Guiné Equatorial não conta como desfalque. O país aderiu à CPLP em 2014, depois de instituir por decreto o português como idioma oficial (ao lado de espanhol e francês), mas não fala nossa língua. Sua lusofonia é uma aspiração.
Disponível no endereço voc.cplp.org, o VOC é um instrumento de trabalho e um parque de diversões para amantes do português. Clicando na bandeira de cada país, direcionamos a busca ao seu vocabulário nacional. O símbolo do instituto leva à base comum.
E como fica o Volp (Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa) da ABL (Academia Brasileira de Letras), o primeiro a consolidar um repertório de palavras em conformidade com o Acordo de 1990?
Revisado, o Volp está incorporado ao Vocabulário Ortográfico Comum e ganhou com isso. Submetido aos critérios rigorosos de um corpo técnico que a ABL não tem, foi purgado de deslizes embaraçosos.
Entre estes está o vocábulo "elefoa", absurdo feminino de "elefante" que nenhum lexicógrafo reconhece e que, além do território dos erros infantis, só existia no Volp.
Outro exemplo de bobagem –esta mais grave, por ter arrastado nossos principais dicionários– é a interpretação de certas palavras compostas como locuções, o que lhes subtrairia os hifens.
Com uma leitura idiossincrática do texto do Acordo, o Volp criou pesadelos em frases como "Maria vai com as outras porque é maria vai com as outras". Aleluia: o Vocabulário Ortográfico Comum devolve os hifens a "maria-vai-com-as-outras", "bumba-meu-boi", "deus-nos-acuda" etc.
Um dos representantes brasileiros no Instituto Internacional da Língua Portuguesa, o linguista Carlos Alberto Faraco divide em duas partes a relevância do trabalho: a união das bases brasileira e portuguesa e a constituição de vocabulários nacionais que não existiam –de Moçambique, Cabo Verde e Timor Leste.
"Esse vasto acervo poderá servir de base para a escrita de um novo dicionário geral da língua, o que será um passo fundamental", comemora. "Aos poucos vai se consolidando o conceito de língua pluricêntrica para o português."


Texto de Sergio Rodrigues, na Folha de São Paulo

sábado, 13 de maio de 2017

Por você, meu futuro filho, tive que falar em espermograma

Por você, meu filho, mudei totalmente a minha vida. Há exatos oito meses tenho uma dor horrível no primeiro molar inferior esquerdo, mas achei melhor não fazer raio-x. Vai que te faz mal. Amo ansiolítico mais do que minha própria existência, mas nunca mais encostei em um. Por você, que nem existe, que ainda é só uma promessa de um amontoadinho de células todo dia 20 de cada mês, deixei de lado uma das coisas mais maravilhosas que pode acontecer na vida de uma mulher: ser solteira.
Por você, pequeno Felipe ou pequena Joana. Pequena Marieta ou Rita ou Anita. Meu pequeno João ou Nuno. Pequena Olímpia? Por você, minha gaveta de joias virou depósito de exames de gravidez. Minha espontânea vida sexual virou dia e hora certos (certos pra você, nunca pra mim). Por você fui capaz do maior milagre de todos: sou uma taurina histérica, carente e com pouca autoestima que aprendeu a guardar dinheiro. Sim, uso blusas com um pequeno furo remendado no sovaco e calças com a bunda puída. Você insiste em adiar nosso amor e eu já garanti parte do seu futuro.
Por você tive que falar em espermograma com um homem que estava há mais de 20 anos sem chegar perto de um laboratório. Por você enfiei um troço fosforescente no meu útero (ou era ovário?). Por você fiz um exame estranho que mede a idade do meu ovário (ou era útero?). Por você tomo Endofolim como se fosse 7Belo.
Já orcei a transformação do meu escritório em seu quarto. Já aumentei pra três vezes por semana as sessões de terapia (pra garantir que eu não surte e precise de ansiolíticos quando você aparecer dentro de mim). Por você eu parei de contar parceiros e desencantos e passei a contar óvulos e metros quadrados.
Parei de levar choques no fisioterapeuta, parei de fazer laser nas manchas de sol, parei de fazer botox, preenchimento, luzes, corrente russa, clareamento nos dentes e progressivas. Parei de fazer intrigas, divórcios e DSTs. Você ainda nem existe, mas eu sempre penso "e se ele já existe há dois segundos?". Ainda não.
Todo dia 20 você me pede mais um tempo. E eu sigo babando nos 784 filhos de amigos. O Instagram inteiro tem filhos. O Facebook inteiro tem filhos. Os vizinhos, as pessoas nas ruas, nas lojas, nas filas duplas. O mundo inteiro está grávido, meu filho, menos mamãe.
Por você eu perdi o medo de avião (não quero te passar nenhum trauma), estou estudando psicanálise (não quero te passar nenhum trauma) e joguei fora minha coleção de pênis de pelúcia (não quero te passar nenhum trauma). Eu levo a minha cachorra para brincar no parquinho do prédio e coloco ela sentadinha no gira-gira. Sim, ela já aprendeu a descer sozinha no escorregador. Eu sei, dá medo me conhecer, mas vai valer a pena.
Por você, meu filho, parei de ver graça em toda a sorte de piores espécimes masculinos do universo. Casados, misóginos, mitômanos, mendigos, publicitários. E passei a amar alguém que fica pra dormir por uma noite e também por quatro anos.
Até os 37 anos eu tive 17 anos. Por você, pela primeira vez na vida, ao fazer 38 anos, eu fiz 38 anos. Você esqueceu de aparecer no dia do meu aniversário, não tem problema. Faltará também nesse Dia das Mães, te perdoo. Mas Natal é Natal.


Tati Bernardi, na Folha de São Paulo

sexta-feira, 28 de abril de 2017

O falante decide: de 'judiar' a 'denegrir', PC acerta tanto quanto erra

No livro "Meu Menino Vadio" (ed. Intrínseca), relato seco e corajoso de sua experiência como pai de um menino autista, o jornalista carioca Luiz Fernando Vianna condena o emprego depreciativo que a palavra "autista" ganhou na política brasileira.
"Tornou-se comum políticos –inclusive um ex-presidente da República– chamarem seus opositores de 'autistas', acusando-os de estarem dissociados da realidade", anota. "Também já fizeram isso intelectuais, artistas, jornalistas, uma presidente do Supremo Tribunal Federal."
O problema com isso? "Em primeiro lugar, é um uso mentiroso. Em segundo lugar, significa estigmatizar uma parte da população que precisa ser incorporada à vida social, e não rotulada como incapaz de fazê-lo", argumenta Vianna. "Se hoje evitamos adjetivos como 'retardado' e 'mongoloide', devemos poupar de agressão semelhante as pessoas com autismo."
Se o tal uso não é propriamente mentiroso, mas metafórico, o segundo argumento me convence no ato. Vasculho a memória para descobrir se eu mesmo usei algum dia a palavra "autista" com esse sentido. Talvez sim, não me lembro bem. O que garanto é que não o farei de novo.
Trata-se, como se vê, de uma daquelas controvérsias que costumamos agrupar sob um amplo guarda-chuva no qual, em letras garrafais, está escrito "PC –politicamente correto".
Amplo demais, o guarda-chuva presta um desserviço ao debate. Abriga preocupações muito diversas e sugere que, diante delas, temos dois caminhos: aceitar ou repudiar todas. Em bloco. Não é uma dicotomia inteligente.
Rejeitar como "coitadismo" a totalidade dos argumentos PC é menosprezar o papel da língua, reflexo da sociedade, na perpetuação de vilezas. Nenhum uso está acima da crítica.
Aceitar de saída todos esses argumentos é ignorar que a língua, arena política onde o pau quebra, pertence à sociedade que a fala e não a um ou outro grupo. Toda crítica está sujeita à crítica.
Enquanto a coletividade não chega a uma conclusão (debates eternos não estão descartados), a decisão cabe ao indivíduo. Senhor da sua fala, ele não precisa esperar o veredito da sociedade para fazer sua escolha política e moral.
Examino o verbo "judiar" (maltratar). Tem óbvio ranço antissemita, embora haja dúvida sobre seu sentido original: referência aos maus-tratos que os judeus infligiram a Jesus ou aos que eles sofrem desde então? De uma forma ou de outra, decido cortá-lo do meu vocabulário.
Agora examino "denegrir". Racista? Procuro algo que sustente a tese. O que se suja fica escuro, encardido, fuliginoso, e o resto parece coincidência cromática. Nem todo charuto é um símbolo fálico, como provam o elefante branco e a febre amarela. No meu tribunal íntimo, absolvo a palavra.
Somos convocados a tomar decisões desse tipo o tempo todo. O que é ótimo.
O PC comete abusos e se expõe ao descrédito quando, por exemplo, insiste em eufemismos ridiculamente rebuscados para palavras funcionais ou tenta censurar dicionários, como se estes inventassem o vocabulário que apenas retratam.
No entanto, a reflexão permanente que ele propõe tem o mérito de nos deixar ligados. Os problemas sociais não serão resolvidos na língua e pela língua, mas negar que ela esteja incluída no pacote é desconhecer sua natureza.


Texto de Sergio Rodrigues, na Folha de São Paulo

Reforma trabalhista não responde aos desafios do século 21

Reagindo à greve geral convocada para esta sexta-feira (28) contra as reformas do governo Temer, o prefeito João Doria declarou que a "reforma da Previdência não afeta ninguém" e que a trabalhista muda uma "legislação arcaica que prejudica a todos".
Segundo ele, a lei trabalhista atual "não protege o trabalhador. Ela prejudica, à medida que não gera mais empregos".
Poucos temas na economia são mais controversos do que os efeitos da flexibilização de leis trabalhistas sobre a criação de postos de trabalho.
Os estudos existentes para sustentar a hipótese defendida por Doria carecem, no mínimo, de robustez estatística. A proliferação de estudos sugerindo o contrário —ou seja, que a desregulamentação do mercado de trabalho não eleva, ou até prejudica, o nível de emprego— parece ter levado a uma mudança de posição até mesmo de alguns organismos multilaterais que costumavam preconizar maior flexibilidade.
O relatório de 2003 do Banco Mundial "Economies Perform Better In Coordinated Labor Markets" concluiu, por exemplo, que, "ao nível macroeconômico, taxas maiores de sindicalização levam a uma menor desigualdade nos rendimentos e podem aumentar a performance econômica (na forma de taxas menores de desemprego e inflação e resposta mais rápida aos choques)".
Mas o debate sobre o suposto dilema entre garantir direitos de trabalhadores e aumentar o dinamismo e a eficiência econômica ganhou complexidade com o advento das novas tecnologias de informação e comunicação e com a chamada "uberização" no mercado de trabalho.
Como apontam Jacques Barthélémy e Gilbert Cette no livro "Trabalhadores no Século 21", trabalhadores independentes do ponto de vista jurídico também ficam frequentemente em situação de dependência econômica em relação às empresas prestadoras, que detêm o poder de fixação de preços, sanção e interrupção das relações de trabalho.
A greve de motoristas de Uber em dezembro de 2016 em Paris trouxe à tona esse desequilíbrio e jogou ainda mais luz em um desafio hoje global: como adaptar-se à criação dessas novas atividades sem desproteger e precarizar trabalhadores?
O caminho defendido por Barthélémy e Cette não é nem transformar todos os trabalhadores independentes em assalariados nem manter o status quo. O que os autores propõem é a garantia de direitos a todos os trabalhadores em estado de subordinação —assalariados ou não.
Para eles, um código amplo de novos "direitos da atividade profissional", que não substitui os direitos dos trabalhadores assalariados, teria de preservar para o chamado "cidadão-trabalhador" o direito à saúde, à renda razoável e à aposentadoria digna, além de impedir a ruptura de contratos de um dia para o outro, por exemplo.
Construir uma agenda para a modernidade não significa, portanto, confundir trabalhadores autônomos em clara situação de dependência econômica com os empreendedores altamente qualificados da era da internet e do "home office", que também proliferam em todo o mundo.
Em ambos os casos, "não ter patrão" pode até ser objeto de escolha —em um contexto de desemprego crescente e falta de oportunidades no mercado formal de trabalho, fica mais difícil dizer—, mas há graus distintos de subordinação.
No Brasil, a criação do status de MEI (microempreendedor individual) e a PEC das Domésticas, por exemplo, aprofundaram o debate sobre essa agenda, concordando-se ou não com o formato final das legislações.
Na reforma trabalhista, aprovada na Câmara nesta quarta (26), por sua vez, além da falta de debate com a sociedade, não há modernidade alguma. Afinal, não há nada de mais arcaico do que aumentar ainda mais o poder dos que já o têm de sobra.


Texto de Laura Carvalho, na Folha de São Paulo

Israel é o único a negar que colonizou terra estrangeira, diz historiador

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Mais um adubo na terra

Nasceu e viveu naquelas várzeas. E agora, depois de dias e dias de estafante jornada, trotando, caminhando, cortando campos e andando por antigas estradas, está a vê-las de novo. E por isso chora. Não se preocupa, está sozinho, ninguém enxergará essas lágrimas sentidas.  Lá está o açude que desde muito novo nele brincou com sua mãe. E olha, lá perto da restinga, o cocho ao lado do umbu solitário, onde comia com seus amigos, em impetuosas manhãs de setembro, correndo de lá e para cá, em disparadas, aproveitando o vento na cara e em suas melenas jovens e, sim, eram potros sem dono, na flor da idade, livres pelas invernadas.
Depois, bueno, quanta água rolou, quanto casco na estrada, meses se cansando em matagais, nadando dia e noite em aguaceiros. Quanta saudade no lombo. Eram gritos diferentes, um gado diferente, um charco e um calor tão estranho. Ainda lembra daquele caminhão que um dia chegou bufando e nele foram encaixotados à força, a laço, a gritos e a mangaço. Foram muitos dias de estrada. O destino não importa. Era uma terra seca, áspera e árida. E lá os homens eram hostis, mal-educados, não fez amizade com ninguém. Ele e os demais foram tratados como jamais haviam sido. E os usaram para tudo, sem dó, em tudo que era serviço.
Até que um dia decidiu pular a cerca. Isto ele lembrava desde os tempos da Vila Rica. Era uma brincadeira preferida de um antigo companheiro, dono de bolicho, que largava tudo para estar com ele. Juntos, cruzavam várzeas, riachos, coxilhas, estradas de chão, invernadas, tudo, tudo mesmo. Aquele sim era um bueno amigo para a lida de campo. Guri, ainda, mas já um homem na forma de tratar, no jeito de falar, e sempre trazia um  mimo de amigo para amigo.  Então, ficava ali, bem na porteira à espera, à espreita, do amigo que às vezes demorava, mas sempre vinha. Quase sempre de freio e pelego na mão. E ganhavam o mundo, os dois, como uma dupla haragana sem destino. Ele e o amigo, depois de muito galopar, buscavam a sombra das pitangueiras das velhas sangas. O amigo sempre levava um livro, para ler e recitar poemas ao entardecer. Ele, que não sabia ler, ficava ao lado olhando o sol colorado indo embora, tingindo aquelas tão lindas tardes do Sul.
Agora, enxerga ao longe o umbu solitário e ali deita, pois o corpo se mostra extenuado, os músculos estão exaustos, e, enfim, se dá conta que esta velho, muito velho.  Com os olhos rente ao chão percebe que ali não existe mais campo, só uma enorme lavoura. Ouve o ronco do trator e não se importa, se estica todo sobre  a terra em que nasceu. Como está dentro de um baixio, uma espécie de cova na terra fofa, quando o trator aparece nem dá tempo de fugir. Uma roda enorme estoura-lhe a cabeça e tudo finda. Lá em cima, na cabine, o tratorista, escutando música sertaneja moderna em seu celular com fones de ouvido pensa “é só uma pedra”.
No outro dia, uma plantadeira passa espalhando sementes de soja sobre seu corpo inerte. E ele, que voltou já matungo velho para rever sua querência, morto, não tem nem o direito de saber que veio apenas para servir de adubo para a mais badalada commoditie do rincão.

Conto de Paulo Mendes, na Correio do Povo

quinta-feira, 27 de abril de 2017

Dirigente regional do MST de Minas é assassinado no Vale do Rio Doce

O MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) de Minas Gerais informou que um dos seus dirigentes regionais, Silvino Nunes Gouveia, 51, foi morto com dez tiros no domingo (23).
Segundo o MST, Gouveia estava em casa quando foi chamado por volta das 20h. Ao sair, foi recebido com os tiros.
O crime aconteceu no Assentamento Liberdade, no município de Periquito, no Vale do Rio Doce, região com mais de 1.200 famílias em cinco acampamentos, de acordo com o MST.
A entidade afirmou ainda que os conflitos por terra têm se intensificado no Vale do Rio Doce e que Gouveia já tinha sido alvo de ameaças.
"A solução destes conflitos só será possível com medidas concretas do Estado: assentar nossas famílias e punir os responsáveis por estas atrocidades. A impunidade é uma das principais causas destes crimes, por isso exigimos a imediata apuração e prisão dos criminosos", afirmou a direção do MST de Minas em nota.
O MST estima que o Estado tenha 47 acampamentos com aproximadamente 7.000 famílias acampadas em nove regiões.


Rerprodução da Folha de São Paulo

quarta-feira, 26 de abril de 2017

O agronegócio nacional é tudo isso?

Até o ambientalista mais radical reconhecerá que a agropecuária brasileira é uma potência. Com tanta água, terra e sol, a produtividade é boa –e vem crescendo. Mas será que o setor é isso tudo que a propaganda diz?
Até o ruralista mais radical reconhecerá que uma propriedade rural precisa ser sustentável. Isso, claro, se não viver de grilagem de terras ou de lavagem de dinheiro com transações de gado, casos em que produtividade e esgotamento de recursos naturais –com solo e água– passarão longe de suas preocupações.
Até o nacionalista mais radical reconhecerá que a imagem do país no exterior tem importância e consequências. Caso contrário, não ficaria tão agastado quando se publicam lá fora avaliações negativas sobre o Brasil.
Pois bem, a Economist Intelligence Unit (EIU, divisão de dados da célebre revista britânica) desenvolveu para o Centro Barilla para Alimentos e Nutrição um Índice de Sustentabilidade de Alimentos que não corrobora a imagem de provedor infalível que o agronegócio nacional gosta de cultivar.
Os analistas da EIU consideraram 31 indicadores reunidos em três grandes grupos: perdas e desperdício de alimentos; agricultura sustentável; e desafios nutricionais.
Dos 25 países avaliados, o Brasil figura na 20ª posição do ranking geral. Só ganhamos de Indonésia, Emirados Árabes, Egito, Arábia Saudita e Índia.
A pior colocação brasileira (22ª) se dá no quesito das perdas. É o padrão de desperdício comum na América Latina e no Caribe, onde 127 milhões de toneladas de alimentos vão para o lixo todos os anos, segundo a Organização Pan-Americana de Saúde.
Em sustentabilidade agrícola, o país aparece no meio da classificação, em 12º lugar. Nosso campo vai do céu ao inferno nos 15 indicadores deste grupo.
Ganha nota zero em diversificação de culturas e dez em biodiversidade e em mitigação da mudança climática (queda de desmatamento). Tem avaliação alta pela disponibilidade de água, mas despenca quando se trata de impactos sobre recursos hídricos e solos.
Por fim, na área de nutrição, aparecemos de novo perto da rabeira, na 17ª posição. O mau desempenho decorre principalmente de excesso de peso na população, prevalência de açúcar na dieta, quantidade de pessoas que recorrem a fast-food e falta de políticas públicas para influenciar hábitos alimentares.
Proprietários agrícolas poderão alegar que muitos dos itens avaliados –como a questão da dieta– escapa a seu controle. Médio: segundo a propaganda, agro é tudo, a cadeia alimentar inteira, da fazenda à indústria e à mesa do brasileiro.
Agro é muito, claro, mas não é tudo. Se não há razão para estigmatizar o setor, tampouco há para canonizá-lo.
Não se pode sair impune apenas por ter dado contribuição inestimável para a balança comercial, nos últimos anos, ou porque seus representantes conservadores no Congresso retomaram a iniciativa política.
A insistirem na política de terra arrasada contra unidades de conservação e povos indígenas, os ruralistas só agravarão as ameaças ao patrimônio natural do país –biodiversidade, solos férteis e recursos hídricos abundante. De quebra, colherão grave prejuízo à imagem de suas commodities no mercado mundial.


Texto de Marcelo Leite, na Folha de São Paulo

sexta-feira, 21 de abril de 2017

'Nossas Noites'

Imagine que você tenha 60-70 anos –ou mais. Você está sozinho ou sozinha. As "crianças", se você teve filhos, já estão longe, com suas vidas feitas. Seu companheiro ou companheira (da vida toda ou dos últimos tempos) foi-se. Você sobrou, viúvo, separado, tanto faz.
Você está bem de saúde –apenas envelhecendo. A aposentadoria é suficiente, paga o supermercado a cada semana e, de vez em quando, um restaurante, um cinema, um teatro. E os livros; você lê, sempre leu.
Há dias em que você não fala com ninguém. Às vezes, são semanas.
Você mora desde sempre, como se diz, na casa onde viveu seu tempo de casal e criou seus filhos –talvez no mesmo bairro onde você foi, por exemplo, professor de colégio. Poderia ser uma casa vitoriana, num subúrbio norte-americano, ou um sobrado, num bairro de classe média de uma cidade brasileira –ou um apartamento, num prédio da mesma cidade.
Um dia, alguém toca a campainha da sua porta ou bate de leve. É uma vizinha, que você conhece de vista e de vocês se cumprimentarem de longe. Tem a mesma idade que você, mais ou menos; ela viveu lá a vida inteira, com o marido dela, e agora é viúva ou separada, que nem você.
"Quero fazer uma sugestão para você", ela diz. "O que você acharia da ideia de ir à minha casa de vez em quando para dormir comigo?"
O quê? Como assim?
"É que nós dois estamos sozinhos. Já há muito tempo. Há anos. Eu me sinto sozinha. E acho que é possível que você também se sinta. Então fiquei pensando se você gostaria de ir para minha casa à noite e dormir comigo. E conversar."
Ela não está falando de sexo, mas de uma companhia: falar, cada um de si, "porque as noites são a pior parte. Você não acha?".
Assim começa a história de Addie e Louis, que é contada em "Nossas Noites", o último romance de Kent Maruf, que morreu em 2014, aos 71 anos (Cia das Letras, tradução de Sonia Moreira). Li o livro numa sentada, e me tocou fundo, talvez pela minha idade, que avança.
Como o menino Jamie, neto de Addie, eu tinha medo do escuro quando criança. Acordava meu irmão; eu não pedia para ele ligar a luz (o interruptor estava ao lado da cama dele), só queria que ele me respondesse.
Anos depois, durante a minha análise, eu lia muita poesia e estudava alemão. Georg Trakl era um de meus poetas preferidos; fascinava-me ele ter morrido cedo e de overdose, mas, sobretudo, na poesia dele, percebia o medo, que me era familiar, dos conúbios ameaçadores do silêncio com a escuridão.
Freud conta ("Introdução à Psicanálise", 1923): "Um menino, angustiado por estar no escuro, chama a tia, que está num quarto ao lado. 'Tia, fala comigo; estou com medo'; 'De que te serve que eu fale, se no escuro você não me enxergaria?' responde a tia. E o menino: 'Quando alguém fala, tem sempre um pouco de luz'".
Tenho a lembrança de uma estrofe de um poema de Hölderlin (não sei mais qual) em que o andarilho, de noite, canta para se dar coragem. Deveria ter um provérbio que diz: quem canta seu medo espanta; e outro: quem conversa seu medo espanta.
Addie e Louis são parecidos com Jamie. Eles não têm medo do escuro que está no fim do caminho, mas é porque acharam um jeito de resistir. Jamie, quando acorda no escuro, vai para a cama deles, e eles, no escuro, contam suas vidas, um para o outro. Cada um com o seu remédio.
Não seria mais fácil dormir? De novo, Hölderlin: um verso de "Pão e Vinho" diz: "Besser zu schlafen, wie so ohne Genossen zu sein", melhor dormir do que estar sem companheiro. O problema é que nem sempre é fácil dormir sem companheiro.
Há uma insônia típica da terceira idade, pela qual a gente acorda de madrugada e espera a luz do dia, para poder dormir de novo. Cai bem, nessa estranha suspensão do sono, contemplar o outro que continua dormindo ao seu lado ou acordá-lo, para que converse conosco.
"Nossas Noites" é um história de resistência à morte e ao tempo que passa, pela descoberta que ainda é possível encontrar amizade e amor.
Os idosos sabem disso como nunca. Hoje, aliás, 80% dos adultos entre 50 e 90 anos são amorosa e sexualmente ativos.
Só não sei se os jovens aguentam isso. Os filhos sempre acham escandalosos os prazeres dos pais idosos.
E, contrariamente ao que reza a lenda, eles aguentam bem a morte dos pais, que é natural. O que eles acham contrário à natureza não é que os pais morram, mas que os pais vivam.


Texto de Contardo Calligaris, na Folha de São Paulo