sábado, 19 de agosto de 2023

Morte de Léa Garcia traz ao presente o Brasil exótico de 'Orfeu Negro'


Lata d'água na cabeça, lá vai Léa Garcia. É no alto de uma favela carioca que ela desabrocha em "Orfeu Negro". No papel da serelepe Serafina, equilibra a lata na cabeça, requebra e leva água a barracos esquálidos no topo do morro. Atabaques rufam e cuícas choram.

O filme não se enoja com a miséria. Ao contrário. Celebra a fibra, a alegria, a arte, os mitos e ritos do Brasil negro e pobre. Tudo isso está sintetizado na magnética atuação de Léa Garcia. Ela dá vida a uma
diva livre, a uma libertária e libertina que faz o que quer.

A atriz morreu na terça (15), horas antes de receber um prêmio especial no Festival de Gramado. Não pôde curtir a salva de palmas pelo seu aniversário de 90 anos, a festa por estar num batente iniciado em 1952, no Teatro Experimental do Negro.

Um justo tributo seria passar no cinema uma cópia restaurada de "Orfeu", como a que vi no Grand Action, em Paris. Não só para você se deleitar com Serafina —a moça da pá virada que atiça a mocinha Eurídice e afronta a megera Mira.

Seria bom vê-lo porque "Orfeu" reatualiza problemas nacionais irresolvidos. Como a formação inacabada e deformada; as contradições entre povo preto e elite branca; os mal-entendidos de centro e periferia; o lugar de cada um de nós, nativos, no mundo.

Orfeu vive há mais de 2.000 anos nas "Geórgicas", de Virgílio. Inventor da lira, o músico se apaixona por Eurídice, que morre, e ele vai buscá-la no inferno. Consegue soltá-la, mas não pode olhar para ela até que emerjam das trevas. Orfeu arrisca e, ó fado funesto, Eurídice morre.

Nos anos 1940, Vinicius de Moraes ciceroneou o escritor americano Waldo Frank numa viagem de 40 dias pelo Brasil. Foi com ele a terreiros, bordéis, rodas de samba, palafitas e mocambos. "Saí do Rio um homem de direita e voltei de esquerda", contou o poeta.

A frase de Waldo Frank numa favela ficou-lhe na mente: os negros parecem gregos. Foi ela que o levou a escrever "Orfeu da Conceição". Pediu que João Cabral de Melo Neto a lesse e o pernambucano lhe disse: "Os dois primeiro atos estão ótimos; o terceiro, péssimo".

"Orfeu da Conceição" é, de fato, desigual. Mas retém a guinada que deu gume à adaga de Vinicius: o apreço pela ralé, na forma da música popular e das crenças afro-brasileiras.

Por isso pediu a Tom Jobim que a musicasse. Realista, o garoto de Ipanema perguntou: "Tem um dinheirinho aí?". Léa Garcia integrou o elenco totalmente negro da primeira encenação, de 1956.
Os cenários eram de Niemeyer.

Na época, Marcel Camus se encantara com o Rio. Fora preso pelos nazistas na Segunda Guerra Mundial e dirigira havia pouco um filme que, por flagrar a ocupação na Indochina, foi proibido no além-mar. Vagamente, "Orfeu Negro" propugna harmonia antitética à guerra colonial que a França travava na Argélia.

Camus açucarou a brasilidade de Vinicius e rebatizou o filme para "Orfeu Negro", título de um ensaio no qual Sartre dizia: "A descida incansável do negro para dentro de si mesmo me faz pensar em Orfeu indo recuperar Eurídice".

Disse mais, Sartre: "Um judeu, um branco entre brancos, pode negar que é judeu e declarar-se um homem entre os homens. O negro não pode negar que é negro nem reivindicar para si a humanidade
abstrata e incolor: ele é negro".

Mesmo feito antes da bossa nova, do cinema novo e de Brasília, o filme mostra um Rio moderno. O Ministério da Educação, de Le Corbusier, aparece de lado, lindo; o Monumento aos Pracinhas está nos andaimes; um bondinho que é um arabesco percorre os Arcos da Lapa.

Musicados por Jobim, os versos de Vinicius exaltam a cidade "a sorrir, a cantar, a pedir a beleza de amar". O povo retinto e reto samba na favela cheia de flores, aves, cabras, até cavalo. De cima, o mar enche os olhos, beija areias do Flamengo, Botafogo e Copacabana.

"Orfeu Negro" ganhou a Palma de Ouro em Cannes e o Oscar de filme estrangeiro. Já a repulsa dos brasileiros a ele começou pelo próprio Vinicius. O poeta o viu no Palácio do Catete, junto com JK, o presidente. Ficou tão nauseado com a falsidade que saiu no meio.

Nem todos no exterior caíram na macumba para turista de Camus. Godard, ainda só um crítico da Cahiers du Cinéma, escreveu: "'Orfeu Negro' é de uma inautenticidade total".

Mas, com olhar agudo, Godard sublinhou a cena em que a Serafina-Léa Garcia leva para a cama um marinheiro chegado à malvada pinga —a câmera mostra os pés deles entrelaçados, e em seguida a mão marota da moça apaga o abajur.

No New York Times, no ano 2000, Caetano Veloso escreveu que "o contraste entre o fascínio que 'Orfeu Negro' gerou no exterior e o desprezo com que foi tratado pelos brasileiros, que se viram retratados como exóticos, é um convite a reflexões sobre a solidão do Brasil".

Reflexões que poderiam passar por Paulo Emílio Salles Gomes: "Não somos europeus nem americanos do norte, mas, destituídos de cultura original, nada nos é estrangeiro pois tudo o é. A penosa construção de nós mesmos se desenvolve na dialética rarefeita entre o não ser e o ser outro".

Ou por Sérgio Buarque de Holanda: "Trazendo de países distantes nossas formas de convívio, nossas instituições, nossas ideias, e timbrando em manter tudo isso em ambiente muitas vezes desfavorável e hostil, somos ainda hoje uns desterrados em nossa terra".

O Brasil de "Orfeu Negro" projeta luzes e sombras no presente. Como aquele país fantasmagórico ainda pulsa, se bem que tenha mudado muito, o filho de Sérgio Buarque de Holanda, Chico, publicou em 2021 "Copacabana".

No conto, Ava Gardner faz questão "de subir ao morro onde rodaram 'Orfeu Negro', musical a que assistira inúmeras vezes". Lá, a molecada trepa no capô do conversível rabo de peixe e malandros apalpam a bunda da atriz —até que um chefão do tráfico a leva embora numa Harley-Davidson.

"Copacabana" é um retalho da nação na qual evangélicos acossam o candomblé; o samba deu lugar ao rap, ao sertanejo, à sofrência; a luta de classes murchou; traficantes e milícias enquadram favelados; a Parada Gay abraça a Marcha para Jesus; o imperialismo nos vela; Janja ri e Michelle chora.

Senta que o Brasil é manso. Valei-nos Léa Garcia.


Texto de Mario Sergio Conti, na Folha de São Paulo

quarta-feira, 16 de agosto de 2023

A brasilidade existe nas diferenças entre nós


Há um campo de tensões que chamamos Brasil e que se forma a partir dos povos originários, que já estavam no território mas não eram brasileiros, pois o país ainda não existia; dos primeiros europeus que chegaram para dominar a terra habitada; dos africanos trazidos à força; dos europeus, árabes e asiáticos que aportaram —e aportam— em múltiplas ondas migratórias.

Nas relações de tensão dentro desse campo, deve-se incluir o tesão transformado em violência entre os diferentes corpos, como nos lembra a antropóloga e grande interlocutora da psicanálise Lélia Gonzalez.

Ser brasileiro é ser apenas uma parte desse sistema aberto de relações étnico-raciais. Alguns de nós ouvem: "Você é brasileiro? Não parece?!". Mas, afinal, brasileiro parece com o quê?

O negro, símbolo da mestiçagem, é considerado "a cara" do país, mas é, sintomaticamente, colocado no lugar de cidadão de segunda classe. O indígena é o "exótico" e se não estiver coberto de penas é tido como falso. O branco, que controla as narrativas sobre a formação do Brasil, sonha em ser tudo, menos brasileiro. A ascendência asiática e árabe é usada para desqualificar a brasilidade.

A título de exemplo, lembremos que o Brasil tem o maior número de descendentes de japoneses fora do Japão. São jovens que não falam japonês, dificilmente visitaram o país de seus antepassados e caíram no samba e na feijoada há mais de um século, mas continuam a ser chamados de "japas" pelo fenótipo, não importando se são netos de coreanos, de chineses…

Brasileiro é negro, é índio, é amarelo, é branco?

Até aqui, somos o resultado do que se passou entre todos esses grupos e também o resultado da negação da história e da cultura dos dois primeiros. No caso de indígenas e negros, a ancestralidade precisa ser resgatada em cada detalhe. Para os brancos cabe reconhecer uma história comum que descaracteriza sua ancestralidade. Não se trata de negá-la, mas de retificá-la.

Quando estou na Itália, terra dos meus avós —que só conheci depois de adulta—, os ecos da história da minha família se fazem ouvir, mas não me reconheço italiana. Foi no terreiro de umbanda que batizei minha filha, minha música é MPB e não acho que massa seja a panaceia da culinária. Tive o privilégio de conhecer as pegadas dos que me antecederam até para me dar ao luxo de entender que não me identifico com eles.

Não se passa o mesmo com negros e indígenas. Está em cartaz no Sesc Belenzinho a exposição "Dos Brasis", com belíssima curadoria de Igor Simões, Lorraine Mendes e Marcelo Campos e montagem primorosa. Ali se recupera uma parte da brasilidade negra que não vimos nas décadas em que passamos confinados aos bancos escolares e nas quais nos martelaram uma versão histórica alijada de seus fundamentos. O sistema de relações étnico-raciais que nos compõe sempre foi achatado por uma narrativa pálida e falaciosa.

Saímos da exposição arrebatados pela violência, mas também pela grandeza. Ela está montada de tal forma que as crianças circulam alegremente pelo local sem se dar conta de tudo o que está em jogo. Ali recuperamos traços de uma nacionalidade comum.

Não dá para ser brasileiro sem ter sido atravessado pela exuberância natural dessa terra que foi invadida para fins extrativistas e que só por acidente tornou-se país. O único mérito que poderíamos receber por viver num lugar tão lindo seria por nossa capacidade de preservá-lo. Não é o caso.

Ser brasileiro é um tipo de descentramento, um tipo de vertigem. Se pudéssemos bancar isso, seríamos o país do futuro, pois não há nada que o mundo precise mais do que povos que reconheçam sua incompletude e que se abram à alteridade.


Texto de Vera Iaconelli, na Folha de São Paulo

sábado, 5 de agosto de 2023

A matança como espetáculo eleitoral


Um timing perfeito, tão sincronizado que parece coisa ensaiada e pensada nos mínimos detalhes. Depois da operação na Baixada Santista, que deixou pelo menos 16 mortos, deputados da bancada da bala na Alesp cobraram a retirada das câmeras dos uniformes de policiais militares em São Paulo. Nem precisavam cobrar. Desde a campanha eleitoral Tarcísio de Freitas tem se mostrado a favor da medida linha-dura. O governador resiste ao aumento gradual do número de câmaras (são pouco mais de 10 mil para uma corporação com cerca de 80 mil policiais).

A estatística revela queda nas mortes de policiais e de suspeitos após a implementação do Programa Olho Vivo. Os dados derrubam a tese terraplanista de que o crime organizado se aproveita do equipamento para identificar e atacar PMs.

Tido como um quadro técnico do bolsonarismo, Tarcísio classifica as mortes como "efeito colateral". Especialistas em segurança sugerem indícios de chacina, ordenada em resposta ao assassinato de um soldado da Rota. Moradores denunciaram torturas e homicídios. A promessa do MP e da Ouvidoria de investigar o excesso de força no Guarujá esbarra em algumas perguntas. Há imagens da operação? Quantas equipes da PM portavam câmeras? Elas estavam ligadas?

Combater a criminalidade espetacularmente, com fuzil na mão e sangue nos olhos, cala fundo na cabeça do cidadão que não mora na favela, mas se sente indefeso do mesmo jeito. No Brasil não há como repetir a estratégia do ditador Nayib Bukele, que lotou as cadeias de El Salvador e aumentou sua popularidade. Com cerca de 800 mil presos, o país já tem hoje a maior população carcerária da história. Matar é mais fácil e mais barato, e se obtém igual objetivo: votos.

A matança não é exclusividade de São Paulo. Bahia e Rio registraram cerca de 30 vítimas em recentes investidas de suas polícias. Virou moda. Uma moda macabra que não sai de cena.


Texto de Álvaro Costa e Silva, na Folha de São Paulo

Governadores e bandidos


Apesar da polaridade política, há pelo menos um indicador que, concretamente, unifica a governança brasileira. A violência contra presos, criminosos e suspeitos, descontadas as honrosas e episódicas exceções.

Semana sangrenta, parece campeonato.

Desde domingo, a operação da PM na Baixada Santista, em São Paulo, organizada como resposta vingativa ao homicídio de um soldado da Rota, contabiliza (por enquanto) 16 mortos –entre eles, o pedreiro, o indigente, o garçom.

Na quarta-feira, dez pessoas foram mortas a bala em operação da Polícia Civil e da PM no Rio de Janeiro.

Ainda no domingo, na zona rural de Itatim, Bahiaação da PM deixou oito cadáveres, dois adolescentes. Em 2022, houve apenas um homicídio no município.

Os responsáveis pelas operações não se intimidam. Dizem agir conforme a lei e lamentam as mortes que acontecem em confrontos. A culpa é dos bandidos, que ostentam ou não antecedentes criminais. Se indício de abuso policial surgir, será investigado: é o que se promete e o que nunca se cumpre.

O Brasil se acostumou a maus-tratos e morticínios em favelas e presídios. Os policiais que matam continuam nas ruas. A suspeita justifica tudo.

Bolsonarista de carteirinha, o governador de São Paulo saúda, bravamente, a matança de Guarujá, como dano colateral corriqueiro e compreensível na guerra travada contra o crime.

A Bahia é governada pelo PT desde 2007. O Rio de Janeiro é sempre destaque. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, os dois estados concentram mais de 43% dos abatidos.

O país registrou no ano passado uma pequena redução (1%) no número de mortos em intervenções policiais. Mas é muita gente, 6.429 pessoas, 17 por dia, a grande maioria formada por jovens e negros. 

O noticiário da semana mostra, ainda, a constrangedora informação de que na penitenciária de Alcaçuz, no Rio Grande do Norte, estado governado por petistas, os "custodiados" não têm direito a papel higiênico. O item é perigoso. Nele se pode escrever. Pode virar "massa" para ocultar objetos e esconderijos, como nos filmes sobre Alcatraz.

Depois de anos e anos, com avanços e recuos e muita resistência corporativa, tentando estabelecer, bem ou mal, protocolos para a redução do número de mortos em confronto, o enfrentamento ao crime em São Paulo sofre uma perigosa inflexão ideológica sob o comando de Tarcísio.

A homenagem política ao coronel Erasmo Dias, expoente da repressão durante a ditadura militar, faz parte da sinalização. O governador chafurda no mesmo chiqueiro golpista e miliciano do ex-presidente Bolsonaro, defensor perpétuo da tortura e da impunidade do policial corrupto e assassino.

O homem escolhido pelo governador para comandar as polícias paulistas, como mostra reportagem da Folha, não escondia o orgulho de ser matador de "ladrão".

Há caminhos institucionais para a redução da letalidade policial, entre eles a generalização do uso de câmeras nos uniformes. O tempo passa e as referências humanistas e republicanas para o combate da criminalidade vão ficando para trás, como um instrumental fora de moda.

Independentemente da cor ideológica, há governadores que fecham os olhos diante da violência policial sistemática e pandêmica para não criar arestas políticas.

Há governadores que fazem da licença para matar uma política pública.

Em matéria de resultado, para quem mata e para quem morre, a diferença é aparentemente nenhuma.


Texto de Luís Fernando Carvalho Filho, na Folha de São Paulo

Rio de Janeiro, o túmulo do silêncio


Esta cidade é o inferno dos introvertidos.

No Rio, uma corrida de Uber não raro termina com o motorista dando conselhos sentimentais para o passageiro (ou vice-versa). Se ficarem presos no engarrafamento, há o risco de um ser chamado para ser padrinho de batismo do filho do outro.

Aqui, já fui chamado para arbitrar um entrevero entre a moça do caixa e a senhora que estava à minha frente na fila do mercado, uma divergência quanto ao valor do troco.

Balancei a cabeça em silêncio e mergulhei de volta na tela do celular, o bastante para ambas praguejarem contra a minha pessoa.

O Rio explode em luz e cores, mas também em sons. Som do samba, som do funk, som do carro de ovo, do carro de ferro-velho, do alto-falante da loja popular, som de gente falando.

Cariocas e residentes do Rio falam pelos cotovelos. As pessoas falam a rodo com desconhecidos, algo estranho para um paulistano com tendência à misantropia.

Não posso reclamar muito, porém. Já namorei uma moça que me interpelou com uma pergunta tonta, do nada, durante uma apresentação de chorinho na Gávea.

Aí, num bar de Santa Teresa, nós dois desandamos a falar com um grupo de estranhos. Fomos todos juntos beber mais um pouco no largo da Prainha.

Introvertido até o segundo gole de cerveja, eu me sinto um pouco menos estrangeiro quando estou num botequim. Por sorte, o Rio os tem aos milhares.

O boteco carioca é o inferno de quem quer beber em silêncio, absorto nos próprios pensamentos. O bebedor silencioso é alvo de irresistível curiosidade.

Todos no bar querem saber quem é, o que faz, de onde vem. O que há de errado com aquela pessoa que não fala?

Eu não ligo, até gosto. Se quisesse beber sozinho, ficava em casa.

Mas tem dias que você só quer almoçar. Foi o caso, nesta semana, em um bar de esquina no Grajaú, bairro da desinibida rodriguiana.

Peguei uma mesa sob o toldo e atrás da televisão. Pedi uma cerveja e o cardápio. E comecei a observar as pessoas.

Ao meu lado, também sozinho, outro homem de meia-idade infernizava a vida de um garçom.

Em tom condescendente, discorria sobre como o limiar do congelamento é a temperatura ideal de serviço de uma cerveja.

"Aqui no Rio a gente chama de canela de pedreiro", dizia. O marrom da garrafa é a perna do trabalhador. A superfície branca de cristais de gelo representa a cal.

Finda a sabatina, o garçom se foi. Pressenti que sobraria para mim.

Na TV, o noticiário mudou para algo sobre Robinho, ex-jogador que está no Brasil para fugir da cadeia por estupro na Itália. O homem ao lado se virou para assistir. Seu o olhar encontrou o meu.

"Não dá mais para fazer mais nada... lei Maria da Penha... não pode mais assoviar para as mulheres..." Eu só queria sumir. Não queria falar com ninguém, muito menos me meter numa briga de bar.

Então o milagre carioca aconteceu: no zap, um amigo me chamou para almoçar em outro lugar. Paguei e deixei o infeliz a falar sozinho.

Nada contra bater papo com desconhecidos, mas é sempre bom ter gente conhecida para te salvar deles.


Texto de Marcos Nogueira, em seu blogue Cozinha Bruta, na Folha de São Paulo