sexta-feira, 28 de maio de 2021

Me isolem, por favor!


Sim, caro leitor, a minha Covid ainda vai render mais uma coluna. Quando, semanas atrás, precisei ir ao laboratório para colher sangue e fazer uma tomografia, achei desprezível pôr qualquer pessoa em risco (motorista de aplicativo, taxista, marido, amigo) e, mesmo numa vibe “talvez eu desmaie se me esforçar pra dar seta pra direita”, fui dirigindo.

Procurei vaga na rua, mas eu ia acabar perdendo o horário do exame (e mais do que uma quadra eu sinceramente não aguentava andar). Quando cheguei ao estacionamento do prédio, baixei o vidro meio centímetro e pedi, usando duas máscaras, por um espaço em que eu pudesse parar o carro sem contaminar as pessoas.

Notei que provavelmente ninguém com Covid, ou com suspeita do vírus, teve essa preocupação antes.

Não existia essa possibilidade, e o manobrista insistiu: “Tudo bem, senhora, eu não tenho medo”. Não deixei, pensei em sair e tentar mais uma vez estacionar na rua. Me mandaram então parar na vaga de um médico que estava de férias. E lá eu fiquei por 40 minutos, esperando um segurança compreender (a dois metros de mim) que sim, eu estava no lugar errado e sem crachá, mas não era rebeldia, era uma tentativa “meio perua, meio de esquerda” de pensar nos outros.

O homem passou o rádio 67 vezes até que ficou decidido que eu só poderia circular com a minha doença de forma segura se ele ficasse bem perto de mim dentro de um elevador apertado. Me recusei e comecei a subir andares de escada, mesmo com meu pulmão me avisando que ia dar ruim. O segurança foi atrás “caso eu passasse mal” e repetia: “Eu não tenho medo”.

Daí você pode me zoar, com razão: “Ah, tadinha da branquela com plano de saúde tentando parar o carrinho dela no laboratório, né?”. Mas na verdade, a galhofa real continuará sendo com os funcionários desse prédio sem nenhuma proteção contra a Covid da branquela com plano de saúde.

Finalmente na recepção —do “melhor laboratório do país”— eu avisei sobre a minha doença e esperei que me isolassem. A moça sorriu, doutrinada para acreditar que loira é bem-vinda mesmo trazendo a praga: “Quer uma água?”. Me encaminharam para um ambiente com famílias, uma grávida e um senhor de uns 50 anos que me olhava com ódio a cada vez que eu tossia. Me levantei e falei alto: “É Covid, ninguém vai me isolar?”. Em dois segundos eu estava finalmente sendo tratada como merecia: um perigo para sociedade. O que faltava para isso ter acontecido antes? Eu deveria ter ido vestida de Jason do “Sexta-Feira 13”? Com a máscara do “Pânico”? Com uma camiseta com a estampa “Desculpem o transtorno, estamos em manutenção” e o desenho de um pulmão?

Conversei com a enfermeira que coletou meu sangue. Expliquei-lhe que deveria estar mais bem protegida para chegar perto de mim. Mãe de dois adolescentes, ela me contou que quase todo mundo ali pegou Covid, alguns ficaram muito mal e “uns dois” morreram. O técnico que me acompanhou na tomografia disse que procurava não pensar nisso. Lembrei da Maria, que trabalha na minha casa, insistindo no meu celular há dias: “Deixa eu ir, eu não tenho medo”.

Pois eu estava apavorada. A enfermeira fez um carinho no meu braço: “Vai ficar tudo bem”. As pessoas que estão sendo dizimadas, sem plano de saúde de branquela tentando estacionar em laboratório caro, são ensinadas que não precisam ser protegidas e não precisam ter medo. Eu fui ensinada que preciso ser protegida e preciso ter medo. E assim estabelecemos uma relação desigual até durante o fim do mundo.

Eu tento pensar nisso todos os dias enquanto sinto vergonha e inveja dos meus amigos que estão se vacinando nos EUA. E sou ridícula, mas melhora quando compro plantas e almofadas.


Tati Bernardi, na Folha de São Paulo

quarta-feira, 26 de maio de 2021

Espetáculo da força é a droga do direitista, que se gaba de não ser bonzinho



Manifestar algum respeito pela vida selvagem e pelas espécies ameaçadas não é difícil. Quem ironiza a preocupação ecológica se arrisca a virar, ele próprio, um perfeito animal.

Mas vale a pena evitar os excessos do romantismo. Viajei uma vez para a Patagônia, e o programa incluía a visita a um rancho de criação de ovelhas.

Nada contra; turista está aí para isso mesmo. O lugar, dos mais desertos que já vi, tinha um problema: pumas atacavam o rebanho. O homem que nos explicava as coisas não se arrependia de matá-los.

“Son malos”, dizia, e seus argumentos me convenceram. O puma destroçava o pescoço de um carneiro e o abandonava, sem se alimentar de sua carne. Fazia o mesmo com o carneiro seguinte. Não era fome, raciocinava o fazendeiro; era puro instinto de matança.

Vai saber. Um grande felino talvez precise de exercício e distração, como um caçador humano. Quem sabe, numa cega programação genética, ele estivesse deixando os carneiros mortos para os filhotes, sem saber que não havia nenhum por perto. Ou, também por instinto, o puma precisasse mostrar seu domínio sobre o território, afastando rivais. Mas talvez fosse maldade mesmo.

Vi uma vez, ao vivo, a cena proverbial de um gato brincando com o ratinho. Era tudo de uma crueldade hipnótica e impressionante. Durou muito tempo —e não tive estômago para assistir ao desfecho.

A pata do gato, tão bonita, prendia o rabo do ratinho. Soltava-o; era visível o desespero da vítima. Quando o rato parecia ter se safado, a calma feroz do felino se impunha novamente. O tapa se abatia em silêncio, sobre a cabecinha agora.

“Vejamos se ele foge desta vez”, pensava o gato. “Estou livre”, iludia-se o ratinho novamente. “Zás! Apanhei-te de novo, amiguinho!” Aquilo não acabava mais. Era jogo. Era luxo. Era sadismo puro.

Pois bem, a ciência acaba de demonstrar que a realidade é provavelmente bem mais complexa. Quem entende de gatos já ouviu falar de uma planta, a Nepeta cataria, que é conhecida em inglês como “catnip”, ou erva de gato em português. É a maconha, o tabaco, o LSD do mundo felino.

Dizem, entretanto, que não vicia. O gato se esfrega nela, lambe as plantas, come-as; fica doidão. Segundo o site Petz.com, ele emite sons de cio; persegue animais imaginários; se estiver estressado, se acalma; se estiver apático, anima-se.

A substância responsável pelo barato se chama nepelactona. Surge então a descoberta, feita por cientistas de uma faculdade de veterinária na Califórnia (onde mais?).

Quando preso entre as patas de um gato, o camundongo produz uma molécula da mesma família da nepelactona, liberando-a pelo suor.

O gato então sente o cheiro e fica momentaneamente chapado. O ratinho ganha tempo suficiente (ou não) para escapar.

Recuperado do brevíssimo transe, o gato estapeia de novo o ratinho, que irá secretar ainda um pouco da droga. O jogo continuará enquanto houver lactonas disponíveis.

Vê-se que o gato não tortura seu inimigo. Está só “dando um tapinha”, como se diz, bem a propósito, na gíria dos consumidores de maconha.

Não é improvável que os pumas da Patagônia tenham relação semelhante com as pobres ovelhas. Fico pensando como é fácil inventar ensinamentos morais a partir do que acontece na natureza.

Todo conservador se entusiasma com a ideia de que a maldade e a destruição fazem parte dos desígnios de são Darwin. Vibra ao pensar que solidariedade e compaixão não passam de um “tênue verniz”, como dizia são Freud, mal e mal recobrindo uma realidade brutal de egoísmo e violência.

Claro que não acho o puma “bonzinho”. Nunca fui de tomar partido entre Tom e Jerry, entre Frajola e Piu-Piu.

Mas acho que bondade e maldade não fazem parte da psicologia animal. Agressão, sim. Só que carinho também.

A guerra pela sobrevivência, o sangue e a violência são a erva de gato do conservador. É preciso que ele acredite numa maldade essencial da espécie humana, e por extensão de toda a natureza, para justificar sua má vontade, a antipatia pelos bons sentimentos e a defesa de seus privilégios.

Por vezes, o direitista nem tem tantos privilégios assim. Fica apenas fascinado pelo poder dos milionários, dos generais, dos chefes, dos brutos.

O espetáculo da pura força é sua maconha: “Haha, não sou bonzinho; sou inteligente demais para ser ingênuo; aqui, da minha biblioteca, vejo claramente a vida como ela é”.

É o machismo do intelectual raquítico. A vida, entretanto, sorri diante de suas proclamações moralizantes e de suas maldições veterotestamentárias. O gato, como os algozes de Cristo, não sabe o que faz.


Texto de Marcelo Coelho, na Folha de São Paulo

terça-feira, 25 de maio de 2021

Sexo, swing e tédio


A mulher dos anos 1950 confessava no divã um desejo bem diferente daquele que podia realizar nos casamentos da época —ou mesmo fora deles. A monogamia, com suas obrigações maritais —leia-se sexo compulsório— pesava como spray broxante, fomentando frigidez e fantasias impronunciáveis. Digo mulheres pois, embora o desejo homoerótico dos homens fosse proibido, não dá para comparar a liberdade de cada gênero.

Para Foucault, o sujeito reprimido do século 19 escrutinava o sexo em nome da ciência e da religião, revelando a obsessão em tudo dizer sobre o mesmo. Se o sexo é interditado, resta saber como, quando e com quem, nos mínimos detalhes. Como a mão, o olho, a boca, o pênis, a vagina, o ânus podem ou não comparecer na relação tornou-se assunto tanto de tratados científicos quanto de encíclicas papais.

Em 1905, Freud defendia, para escândalo da galera, que a sexualidade humana não cabe em nenhum manual, portanto, normal é uma palavra que não orna com sexo. Cada um que assuma a “dor e a delícia de ser o que é”, como diz Caetano, o mais analisado de nossos poetas. Mas também é verdade que o inventor da psicanálise contribuiu para legitimar a heteronormatividade na leitura do mito de Édipo. Moral da história: ninguém é perfeito e amamos odiar/amar Freud.

Passadas algumas décadas, muitas lutas feministas e redes virtuais depois, os segredos da alcova ganharam o espaço público, num grande movimento de desnaturalização e ultra exposição do que pode e do que não pode no reino do ingovernável.

[É sempre bom lembrar que a regra pétrea da sexualidade é que nenhuma forma de abuso e exploração do outro é aceitável, sob nenhuma circunstância. O resto é festa.]

Daí o boom das casas de swing, a explicitação das trocas de casais, do poliamor, das relações não monogâmicas e a realização dos fetiches, agora ao alcance de um zap.

A pergunta que passa a ser feita no divã se modifica. Diante do imperativo de gozar, resta saber como usufruir da “liberdade” alcançada.

Na esteira das novas experimentações —por vezes inspiradoras, por vezes desastrosas— alguns se perguntam se estão perdendo alguma coisa e se deveriam experimentar também. Do possível para o obrigatório é só um pulinho, eliminando o caráter libertador. Cria-se o curioso paradoxo: diga-me como gozar... para que eu me sinta livre!

Como sugere a socióloga e antropóloga Marília Moschkovich, é importante marcar a diferença entre monogamia —como cada um decide o tipo de relação que quer estabelecer com o outro— e Monogamia. Ela reserva a palavra com “M” maiúsculo para se referir à estrutura social que normatiza a relação de “exclusividade afetiva/sexual”. Daí pouco importa como, quanto e com quem você se deita, desde que essa escolha não responda aos imperativos sociais capitalistas, mas ao desejo singular do sujeito.

A resposta da nova geração tem sido um grande bocejo de tédio diante do modelo de sexo “liberal”. Diferentemente dos mais velhos, que ainda insistem em fazer dos jogos sexuais o suprassumo da liberdade, o jovem parece mais inclinado a experimentar o sexo em outras bases, menos glamorizadas. Parafraseando Nelson Rodrigues: sem pudores, pouco afrodisíaco. Nada contra, cada geração encerra uma solução própria e provisória para as questões da morte, do sexo, do amor…

Acossados pela morte, invoquemos Eros em todas as formas que abalam as estruturas e não as que servem aos imperativos do neoliberalismo e do consumo.


Texto de Vera Iaconelli, na Folha de São Paulo

segunda-feira, 24 de maio de 2021

Uma fábula - Histórias da era da ausência



Conta-se que Indra chegou na sua aldeia depois de oito anos de ausência. Todos queriam saber por onde tinha andado. Mas ele se recusou a contar. Estava mais silencioso do que nunca, embora demonstrasse muito afeto pelos pais e vontade de rever os amigos. Ele havia partido quando sentira que algo o atraía para longe. Fizeram de tudo para impedir que se afastasse. Nada surtiu efeito. Indra tinha ideias estranhas. Acreditava na liberdade dos sonhos. Achava que nada, nem cultura, nem raça, nem ideologias, nada mesmo, podia prender os homens numa couraça. Esse era para ele o grande mistério da vida.

Ao chegar em casa, numa tarde de sol, deparou-se com o sábio do lugar, Danesh, um ancião pequeno, barbudo e calvo como costumam ser os sábios nas fábulas sobre sábios e anciãos. O velho perguntou-lhe:

– O que aprendeu na sua viagem, Indra?

– Ainda não sei, mestre. Preciso fazer o balanço.

No dia seguinte, Indra construiu um balanço e pôs-se suavemente a oscilar. Todos ficaram olhando para ele com alguma estranheza. Teria enlouquecido? O sábio, porém, tratou de explicar que ele estava certo.

– É preciso dar realidade às ideias – disse.

Ninguém entendeu o que o sábio queria dizer. Por isso mesmo tiveram certeza de que não se enganava. Indra sorria enquanto se balançava. Quando todos se cansaram de observá-lo, ficou só. O sábio retornou depois de alguns minutos de ausência. Retomou a pergunta:

– O que aprendeu na sua viagem, Indra?

– Que levamos nossa casa quando viajamos, mestre.

O sábio pareceu gostar da resposta. Mesmo assim, não deixou de pressionar o rapaz com uma pergunta doce como sua voz de pássaro:

– Se tinhas a tua casa contigo, menino, por que voltaste?

– Eu não sabia.

– Então vais partir novamente?

– Quando se ama, mestre, nunca se parte.

O velho revelou um ar contrariado. Era dele o papel de ser evasivo ou elíptico. Indra continuava a se balançar sem pressa.

– Foi tudo que aprendeste?

– Não sei. Há algo que ainda me escapa: o tempo.

Aí o mestre sorriu. O tempo era a sua questão predileta. Já se preparava para soltar uma pérola, das que só ele conhecia na aldeia, quando Indra parou o balanço e disse com seu ar de menino grande:

– O que é o tempo, mestre?

– Dê tempo ao tempo, menino, que ele mesmo te dirá.

– Mas eu tenho poder sobre o tempo?

– Depende?

– De quê?

– Da sua capacidade de lidar com o tempo.

Indra passou anos balançando-se um pouco a cada dia. Fazia tudo o que era dele exigido. Cumpria os seus deveres. Produzia o esperado. O mestre morreu sem saber se o discípulo ainda pensava no tempo. Um dia, a um menino que o via oscilar no balanço, Indra disse ternamente:

– Nunca apresse o tempo. Deixe que ele passe como quiser.



Aprendi desde cedo que, quando algo é muito especial, dá pena de usar

 

“Esse copo aí, não. Ele é das visitas. Pega o de requeijão.” Se você nunca ouviu uma frase assim, desconfie. Pode estar faltando uma peça essencial —e intocável— ao acervo afetivo da sua família.

Desde cedo, aprendi a regra de ouro da classe média: quando algo é muito bonito ou especial, dá pena de usar. Então você guarda, “que é para não juntar poeira”, numa caixa ou dentro de um móvel, ao lado do sofá. Qual sofá? Aquele que ninguém jamais viu sem capa de plástico, o que vira tobogã de uma tia suada.

Debaixo de redomas, por cima de paninhos de crochê, a vida transcorre sem grandes arranhões, esperando pelo depois que não chega. Mas, olha só, com a maçã foi diferente.

Ao se casar, em 1962, minha mãe ganhou um balde de gelo em forma de maçã. Pode “googlar”, ele era indispensável às senhoras que davam jantares dançantes e coquetéis retrô. Filha temporã, nasci após tudo isso ter saído de moda. A maçã, porém, fez parte da minha criação, ainda que inalcançável.

Nos eventos domésticos, mamãe não deixava seu item favorito se misturar aos comes nem aos bebes. A maçã se mantinha dourada e longínqua. Passou duas décadas exilada no topo do refrigerador, dando um gelo na gente. “Mona Lisa” dos itens nunca usados.

Já adulta e dona de meus próprios cacarecos, vira e mexe eu jogava um verde, na esperança de ganhar a maçã. As repostas eram sempre: “um dia, quem sabe” ou “vou pensar no seu caso”. O eterno depois.

Até que veio a doença da minha mãe. E, com ela, a angústia de quem não reconhecia mais o apartamento de anos, bem como os pertences de toda uma vida. Nada à sua volta fazia sentido. Então, durante uma visita, com o coração vacilante, fiz o teste.

“E aí, mãe? Cadê a maçã? Vai me dar quando?”, perguntei. “Pode levar.” Assim, de bate-pronto. “É sua.” Quase desabei.

Pouco tempo depois, mamãe morreu. Mas, se você quer saber por onde anda a maçã, eu digo —está solta por aí. Apesar da nostalgia, frequentou churrascos e piqueniques. Recheada de balas numa festa infantil, escapou ilesa. Fez até participação em cenário de novela. Linda e útil, toda de época.

Agora, enquanto escrevo de madrugada, eu a observo na tarefa banal de manter as pedras de gelo da minha Coca-Cola. Acho que o depois, enfim, chegou. Um brinde, mãe. Em copo de requeijão, para não perder a ternura.


Texto de Bia Braune, na Folha de São Paulo

domingo, 23 de maio de 2021

É difícil segurar o riso sempre que Bolsonaro acusa alguém de ser idiota

 

Mesmo tendo em conta a Sua onisciência, é duvidoso que, há cerca de 2.000 anos, o Messias soubesse que estava a dirigir-se a outro Messias.

Seja como for, o conselho de Jesus, apesar de antigo, não tem sido seguido. Disse Ele: “Por que vês o argueiro no olho de teu irmão, porém não reparas na trave que tens no teu? Ou como poderás dizer a teu irmão: ‘Deixa-me tirar o argueiro do teu olho, quando tens a trave no teu?’”. Ficamos a saber que, para o filho de Deus, um dos problemas deste mundo é que as pessoas lastimem, nos outros, exatamente os mesmos defeitos que têm.

Pois bem, concedo que possa ser problemático, mas é muito engraçado —pormenor que parece ter escapado a Deus.

Se Ronaldinho Gaúcho se exasperar com os boêmios, em princípio a gente ri. Se Elton John lamentar que as pessoas não sejam mais sóbrias a vestir-se, também tem graça.

Por isso, sempre que Bolsonaro acusa alguém de ser idiota, é difícil suster o riso.

Há uns tempos, Bolsonaro já tinha chamado idiotas a estudantes que se manifestavam contra cortes na educação. Pouco depois, disse que talvez tivesse exagerado.

Não concordo. Se, quando Bolsonaro chama idiota a alguém, estamos perante aquele fenômeno que a psicologia designa por projeção, então ele nunca, mas nunca, exagera.

Desta vez, os idiotas são as pessoas que, para protegerem a si mesmas e aos outros do vírus, e também para não sobrecarregarem o sistema de saúde, permanecem em casa o máximo de tempo possível.

Os especialistas discordaram, mas já vem sendo um hábito (e é, aliás, um fenômeno fascinante que a pandemia ajudou a compreender) que quem entende de saúde pública discorde de quem não entende de saúde pública.

O mais surpreendente foi o seguinte: as declarações de Bolsonaro foram criticadas mesmo pelos empresários que pediam a reabertura das atividades. Não é qualquer idiota que reúne um consenso tão vasto. Isso só está ao alcance de um extraordinário idiota.

É possível que sejamos todos idiotas. Se uns idiotas não organizam um processo rápido de vacinação, outros idiotas têm de ficar em casa. É um círculo vicioso de idiotia contra o qual, infelizmente, não há vacina. Resta-nos o consolo de pensar que, se houvesse, o governo seria incompetente a adquiri-la e a administrá-la. Não perdemos nada.


Texto de Ricardo Araújo Pereira, na Folha de São Paulo

sexta-feira, 21 de maio de 2021

Covid é treva

 

Hoje é o primeiro dia que entro no meu escritório depois de duas semanas. Ainda não recebi alta, mas já respiro sem sentir como se tivesse uma faca enfiada nas costas. Já consigo ir do quarto para a sala sem dar uma paradinha no corredor para recuperar o fôlego.

Covid me pegou de jeito. Não desenvolvi uma forma grave da doença, mas ela derruba de tal maneira que você acaba pensando em morte. Tenho uma tendência à depressão, acho que todos que me leem sabem disso, mas o mais acentuado da minha química cerebral é um forte apreço pela repetição. Caso eu pense “e se eu morrer?” uma vez, isso significa que vou pensar um zilhão de vezes até pular para outra obsessão.

Bem, foram 14 dias trancada num quarto, sem poder chegar perto da minha filha, sem nenhum saco pra ler livros (mas lendo o oxímetro e o termômetro compulsivamente) e pensando o dia inteiro na morte. Na minha, na da minha família, na do Paulo Gustavo, na da criança espancada que só queria um copo de leite, na dos chacinados no Jacarezinho. Tudo isso sem a capa protetora dos escapes, da vida lá fora, do restaurante com amigos, dos projetos de roteiro, dos planos de futuro. Você está em carne viva e finalmente entende (não! você sente!) que morrem milhares por dia. Milhares. Não é mais uma chamada de jornal. Não é roteiro do Bonner no teleprompter. É a humanidade. É você.

Covid é treva. Você precisa desesperadamente do abraço de alguém, mas está há dias catando pratos de comida do chão como se fosse uma presidiária. E você é. Você está presa num país cujo presidente é a própria Covid. O presidente-treva. O presidente que ressurge como essas infinitas variantes novas e mais fatais. Como pode ainda ter gente que o apoia?

Perdi até o senso de humor. Liguei para a padaria e perguntei se eles colocavam linguiça na Dona Deôla. Era o nome da sopa. Acharam que era trote e desligaram na minha cara. Só hoje estou conseguindo rir disso. Com Covid você olha para a comida e pensa que preferia levar uma picada de abelha no olho a se alimentar. Tem que tomar água, mas a água está com gosto da bica do inferno. Tem que se movimentar para não ter trombose, mas apelidei o trajeto que vai da minha cama até o meu chinelo de São Silvestrinha.

Lá pelo sétimo dia da doença, precisei tomar banho sentada no chão. Eu escutava a voz da minha mãe saindo pelo ralo: “Vai pegar uma infecção urinária”. Mas se eu ficasse em pé eu vomitava. Para segurar um copo de suco de laranja um pouco mais cheio, precisei da força dos dois braços (e mesmo assim tremi, porque estava muito pesado). Eu, que tenho dor no corpo há anos (já fui diagnosticada com fibromialgia algumas vezes, mas não sei se acredito nisso), senti como se tivessem aumentado o volume da inflamação até beirar o insuportável.

Minha saturação de oxigênio chegou a 93%, mas rapidamente voltava para 96%. Não era grave. Não mesmo? A tomografia mostrou que meu pulmão estava 25% comprometido. O D-dímero não estava bom, mas não estava péssimo. Um médico quis me internar, outro deu parabéns: “Ah, pegar só ¼ do pulmão é boa notícia!”.

Minha filha passava desenhos por debaixo da porta, sempre nós duas juntas e bem coloridas. De hora em hora, perguntava lá de fora: “Tá boa, mamãe?”. Ela colou band-aids na porta “pra eu sarar”. E vinha cantar pra mim. Deu certo amar tanto essa criança, porque ela também me ama demais. Ontem finalmente a gente se abraçou, e o abraço durou 24 horas. Tive que fazer xixi com ela grudada em mim. Por todo o dia, ela me fez carinho e me beijou e disse que me amava muito. Ela pegava a minha mão e colocava no rosto dela e fechava os olhos e dizia: “Mamãe tá boa já”. Eu não morri.


Texto de Tati Bernardi, na Folha de São Paulo

15 anos dos 'Crimes de Maio'

 

Entre os dias 12 e 21 de maio de 2006, ao menos 564 pessoas foram mortas e 110 ficaram feridas por armas de fogo no estado de São Paulo, conforme dados contidos em pesquisa da UERJ de 2008, no episódio que ficou conhecido como “Crimes de Maio”.

Passados 15 anos, diversos estudos que contaram, inclusive, com análise pericial dos corpos, chegaram à mesma conclusão: sob a justificativa de “repressão ao crime” praticado por uma facção criminosa, houve uma onda de violência estatal contra pessoas negras, jovens e periféricas que morreram por ação direta da polícia (nos chamados “autos de resistência”) e em razão da atuação de grupos de extermínio, com indício de participação de policiais e ex-policiais (as chamadas chacinas ou execuções sumárias).

Qualquer semelhança dessa narrativa com a da chacina do Jacarezinho não é mera coincidência. Ao contrário, apenas demonstra como a violência de Estado no Brasil é estrutural e fruto de um sistema profundamente desigual, racista e autoritário, em que uma significativa parcela da população não tem acesso aos direitos mais básicos.

No mesmo ano dos “Crimes de Maio” foi criada no estado de São Paulo a Defensoria Pública, instituição que tem como missão constitucional, justamente, a de promover o acesso da população mais vulnerável à Justiça.

Sendo a investigação de graves violações de direitos humanos um aspecto fundamental do acesso à Justiça, logo nos anos iniciais de criação a Defensoria foi procurada pelo movimento das mães e familiares das vítimas daqueles crimes, que reivindicavam atuação em razão da impunidade que caracteriza os delitos praticados por agentes estatais.

Impulsionado pelas “Mães de Maio”, o Núcleo de Cidadania e Direitos Humanos passou a atuar na defesa dessas vítimas em diversas esferas. Além de requerimentos de desarquivamento de inquéritos policiais, em 2010 foram propostas oito ações cíveis de indenização por danos morais e materiais contra o estado de São Paulo. No mesmo ano, em conjunto com as “Mães de Maio” e outras entidades da sociedade civil, foi feito pedido de “federalização” das investigações à Procuradoria-Geral da República.

Posteriormente, em 2015, foi apresentada denúncia contra o Estado brasileiro no Sistema Interamericano de Direitos Humanos e, em 2018, houve ingresso em ação civil pública que busca o reconhecimento do direito à verdade e à memória e de reparação das vítimas.

Infelizmente, nenhuma dessas ações foi capaz, até agora, de garantir o que as mães e familiares buscam: a responsabilização do Estado e de seus agentes pela morte de entes queridos e respostas efetivas para que violações como essa não se repitam.

Apesar desse triste cenário, a força das mães e dos movimentos sociais, que insistem em “tocar o sino” de que nos contou Saramago e anunciar que “a Justiça está morta”, foi e é essencial para a consolidação do trabalho da Defensoria Pública em favor das vítimas de violência. Também nos motiva a aprimorar a nossa atuação, para que seja pautada pela escuta e busque a redução das desigualdades sociais e a efetividade dos direitos humanos.


Texto assinado por Fernanda Penteado Balera e Letícia Marquez de Avelar, publicado na Folha de São Paulo

Multidões dentro de mim

 

Walt Whitman, o grande poeta da Revolução Americana, de acordo com o nosso Paulo Leminski, num poema chamado "Song of Myself 51" afirma "I am large, I contain multitudes", ou, em tradução livre, "Sou grande, contenho multidões".

Essa frase foi usada em "Fundamentals", livro recente do físico Frank Wilczek, para mostrar como o espaço é infinito não só fora de nós, mas dentro do cérebro humano, por conter percepções do mundo e lembranças que se acumulam e dialogam entre si.

Ao relembrar da frase do poema, na acepção que Wilczek lhe atribui, recordei certo pensamento mágico que me vem aparecendo nos últimos tempos: os meus que já se foram vivem dentro de mim e posso dar-lhes, em alternância, expressão.

Assim, acordo às 5h30 sendo meu pai, comovo-me com uma cena bonita nas minhas caminhadas como minha avó materna, assumo tarefas domésticas apesar de ter intenso trabalho profissional, como minha mãe. E, a cada lembrança dessas, falo com eles, conto-lhes o que estamos vivendo com a pandemia e volta-me, como sempre, a frase de minha mãe: "Conte suas bênçãos", dita sempre em inglês, não sei por que motivo. Era sua forma de nos mostrar que, mesmo na dor, precisávamos ter consciência de que éramos privilegiados e que outros sofriam mais do que nós.

Mas há mais gente dentro de mim, como a história de sofrimentos e dramas mal resolvidos que minha família me traz, na forma de parentes que frequentavam as narrativas de meus tios e avós, que perambularam por diferentes países na busca de um lugar seguro, num mundo não só em guerras constantes mas com perseguições e retirada de direitos do grupo étnico-religioso a que pertenciam, os judeus.

Lá dentro de mim se encontram o Vilmos Billitz, que salvou não só sua família mas um grupo grande de prisioneiros em Bergen-Belsen e foi posteriormente, ao que tudo indica, assassinado, entre vários outros antepassados, com suas visões de mundo, nomadismos e estigmas que os acompanhavam, na Hungria, na Romênia, em Portugal ou na Turquia.

E é sobre estes dois últimos pontos, o nomadismo e o estigma, que se detém o livro recém-lançado pelo jornalista Rubens Glasberg, "Os Indesejados", retratando a saga de sua família nos terríveis anos do nazismo. Ao lê-lo defrontei-me novamente com meus personagens interiores, que viveram as mesmas decisões difíceis e o mesmo sofrimento e receberam as mesmas ajudas.

O depoimento da mãe de Rubens, austríaca de nascimento, fez-me lembrar de frases inteiras que minha mãe disse ao, finalmente, depois de anos sem compartilhar sua condição, decidir nos contar sua fuga e nos dizer quem éramos.


Texto de Claudia Costin, na Folha de São Paulo

quinta-feira, 20 de maio de 2021

Que país é esse no espelho?


​Quando me despedi aqui da lusofonia, semana passada, provoquei uma resposta simpática do historiador, escritor e político português Rui Tavares em sua coluna no jornal Público.

Rui achou que eu estivesse encenando “uma daquelas despedidas lusófonas, de quem sai do bar à espera que os amigos lhe digam ‘não vá, fica aqui com a gente, bebe mais uma’”.

Beber mais uma, bebo com prazer, mesmo porque nenhuma visão autonomista do português brasileiro pode apagar o fato de que ele sempre será... português, pois é.

Se nesse sentido a lusofonia é inescapável, como mito de unidade cultural e bloco geopolítico ela anda bem estropiada, e suspeito que tenha contribuído para agravar um grave problema brasileiro.

O transtorno dismórfico corporal leva pessoas bonitas a se verem como um compêndio de defeitos, com riscos potencialmente sérios à sua saúde. O Brasil sofre de transtorno dismórfico linguístico.

Somos um país que se olha no espelho da língua e odeia o que vê. Não é por outra razão que vive tentando fazer harmonização facial com injeções de anglicismo.

As raízes profundas do problema se alojam em nossa condição original de colônia portuguesa, quando éramos falantes de segunda linha de um idioma imposto de fora.

Imposto, além do mais, com um desprezo pela educação que se destaca na história colonial. Nosso primeiro censo, de 1872, flagrou uma população de dez milhões —dos quais 85% eram analfabetos.

Só em fins daquele século o português se imporia como majoritário entre nós, superando a língua geral brasileira. Hoje mal falamos dessa língua, mas como a falávamos!

Derivada do tupi antigo e com variantes dividas em dois grupos, um no norte e um no sul, foi nossa mãe pela maior parte da história. Está praticamente morta —sua variedade amazônica, o nheengatu, sobrevive à míngua em São Gabriel da Cachoeira (AM).

Vitorioso, o português guarda cicatrizes do tempo em que era só a língua do poder. Quando se dá à margem do ensino, o espalhamento de um idioma por uma população que não o tem como nativo é chamado pelos linguistas de “transmissão irregular”.

Em casos extremos isso leva à crioulização, à criação de uma nova língua, como em Cabo Verde. Em casos moderados, a língua permanece a mesma mas se fende em duas modalidades, a escolar e a popular, que se olham sobre um abismo. É o caso do Brasil.

Alvo de preconceito e marca de exclusão social, o português popular brasileiro nunca se aproximou de uma posição de prestígio institucional. É do jogo.

Contudo, teve tempo de sobra e condições sociais propícias para penetrar em nossa alma pelas frestas, quando o vigia estava distraído.

Hoje a norma culta —sobretudo a oral— dos brasileiros com alto índice de escolaridade é dramaticamente diferente da norma-padrão de nossas gramáticas escolares, retrato congelado e às vezes até cômico da língua que se ensinava em Portugal no século 19.

Como se vê, nosso problema está no espelho. Se a maioria dos portugueses concordaria com a afirmativa de que os brasileiros falam e escrevem “errado”, multidões de brasileiros também pensam assim. A imprensa vive cheia de seus suspiros lamentosos.

Não sabem que língua é aquilo que a gente fala, e que dicionários e gramáticas vêm depois. Eis nosso transtorno dismórfico linguístico e a importância crucial de uma visão autonomista do português brasileiro. Questão de saúde pública. Mas primeiro, claro, a gente tira o Bolsonaro.


Texto de Sergio Rodrigues, na Folha de São Paulo

quarta-feira, 19 de maio de 2021

Comer carne sem ligar para sofrimento alheio é como aplaudir Bolsonaro



Por mais que eu me considere civilizado, defensor das artes e dos direitos humanos, sempre tive medo de ser visto, daqui a 200 ou 300 anos, como um bárbaro, capaz de atos inconcebíveis.

Comer carne, por exemplo. Imagino alguém no futuro perguntando como alguém podia ser tão insensível em 2021; o equivalente, para nós, das multidões que se divertiam assistindo a sessões públicas de tortura e execução na Paris de 1700 e tantos.

Há vários motivos para ser vegetariano. Atribui-se parte significativa do aquecimento global à pecuária; diz-se que a mesma quantidade de terra pode alimentar mais pessoas se produzir grãos em vez de bois; mas o argumento principal, para mim, é o da sensibilidade. Se me recuso a ver um matadouro, não tenho nenhuma moral para o churrasco.

Depois de assistir a “Professor Polvo”, o bom documentário de Pippa Ehrlich e James Reed que ganhou o Oscar deste ano, ganhei novos escrúpulos: o bicho, longe de ser ameaçador como parece, é amoroso e inteligente. Discute-se o quanto dói, para um peixe, o anzol na boca. Imagino que muito.

Ah, mas é a lei da vida… Um bicho come o outro, sem se importar a mínima com o sofrimento alheio.

Certo, mas se fosse assim deveríamos continuar trepados em árvores, dando guinchos, renegando qualquer possibilidade de evolução moral e aplaudindo as ações de Bolsonaro. Em todo caso, não vou dar lições de moral. Principalmente porque continuo comendo carne —mesmo sabendo que isso não é certo.

É um tipo de blindagem, que todos nós praticamos. Minha coerência nunca foi total.

Contento-me em saber que, como espécie, caminhamos aos poucos. Só que é chato perceber que a humanidade vai andando, em alguns aspectos, mais depressa do que eu.

Cresce a onda vegetariana na Argentina! Sim, no país da parrillada, o governo federal lançou recentemente a campanha da “segunda-feira sem carne”, sem temer, aparentemente, nenhuma derrota eleitoral.

No País de Gales, a ideia é introduzir insetos na merenda escolar, de modo que as gerações futuras abandonem nossos preconceitos. Bichos cujos nomes não tenho curiosidade de pesquisar são ressecados e moídos. Produzem um molho à bolonhesa que seria capaz de encantar tanto Al Capone quanto João 23.

Disponho-me a aceitar a inovação. Provei uma linguiça vegetariana certa vez. A coisa, pelo que sei, evolui rapidamente, graças a produtos químicos capazes de imitar o gosto da gordura carbonizada, a cor saudável (?) do suíno morto e a textura da fibra muscular antes viva e semovente.

Minha experiência não foi um sucesso. No interior daquele cilindro gorduroso e traiçoeiro, vi algo como fragmentos de ervilha e cubinhos de cenoura afogados numa espécie de purê duro de chuchu.

Como reclamar? Não era para ser uma linguiça vegetariana? E, se fosse melhor que isso, talvez os fregueses devolvessem o prato.

A boa notícia é que o progresso tecnológico não para —e que, em vez do fim das linguiças e das picanhas, pode ser que uma coisa termine antes.

Surge no horizonte uma outra extinção: a extinção dos vegetarianos. Pelo menos, de boa parte deles, se derem certo as últimas experiências no mundo da ciência alimentar.

Tudo começou com o desenvolvimento de tecidos humanos em laboratório, para fins cirúrgicos. Alguém teve a ideia de, em vez de rins e alvéolos pulmonares, produzir lombos e pancetas com a tecnologia.

Afaga-se um porquinho selecionado, aplica-se uma anestesia nele e retira-se com uma seringa especial uma parcela mínima de carne e gordura. Num tanque biorreator, com água quentinha e nutrientes, as células são colocadas numa espécie de treliça, reproduzem-se e voilà!

Em pouco tempo, sem dor e sem morticínio, uma bisteca suína sai fresquíssima do laboratório. É o que promete o Instituto de Engenharia Biomédica de Oxford. As linguiças custarão apenas 25% a mais do que seu equivalente assassino, diz o jornal The Times.

A produção começará logo: serão 12 mil toneladas de carne em 2025 —e 170 mil porcos salvos nesse ano.

Resta saber o que faremos com porcos, bois e galinhas —que continuarão se reproduzindo, sem ninguém para criá-los, alimentá-los e matá-los. Nos pastos, agora florestas renascidas, talvez se tornem selvagens.

Talvez os adotemos como animais domésticos; talvez os deixemos aqui na Terra —quando partirmos, com biorreatores e células suínas, para um planeta novo em folha.


Texto de Marcelo Coelho, na Folha de São Paulo


terça-feira, 18 de maio de 2021

A alma portuguesa de Rubem Braga


Em recente coluna, lembrei a lição de Rubem Braga contra a discriminação dos portugueses à maneira de falar dos brasileiros. Alguns leitores ficaram com a impressão de que o Braga era antilusitano. E ainda por cima preconceituoso, ao dizer que Portugal, com o tempo, adotou a prosódia dos camponeses e dos pescadores. Nada mais falso.

Se pudesse, ele passaria o tempo na roça, cultivando pés de milho, ou, com seu vasto conhecimento de ventos e correntes, pescando em alto-mar. Rubem devia seu sobrenome à cidade de Braga, uma das mais antigas de Portugal. Sabia de cor os sonetos de Camões e fez uma adaptação em prosa de "Os Lusíadas". Considerava um decassílabo camoniano —"A grande dor das coisas que passaram"— o mais belo verso da língua portuguesa, porque construído com as palavras mais simples. O poeta caolho foi o mestre de estilo do Sabiá da Crônica.

Também aprendeu com Eça de Queirós e Camilo Castelo Branco. Tinha predileção pelos romances históricos de Alexandre Herculano. Gostava de ler manuais de mecânica, agricultura e jardinagem e, com o mesmo prazer, os sermões do padre Antônio Vieira, as narrativas marítimas de Diogo do Couto, os tratados de Francisco Manuel de Melo, autor da "Carta de Guia de Casados", autoajuda do século 17 sobre a vida conjugal. O curioso é que, na entrada da sua cobertura em Ipanema, pendurou um azulejo com a frase "Aqui mora um solteiro feliz".

Na cabeceira da cama ficavam o "Dicionário Contrastivo Luso-Brasileiro", de Mauro de Salles Villar, e o "Rifoneiro Português", de Pedro Chaves. Neste, colheu antigos provérbios que passou a citar em textos e conversas com amigos, tendo motivo ou não: "Alegrai-vos, tripas, que aí vai vinho", "Bravo, seu Zé Nabo", "É na cara dos pobres que os barbeiros aprendem".

Um deles se ajusta a nossos tempos sombrios: "El-Rei não manda chover, manda marchar".


Texto de Alvaro Costa e Silva, na Folha de São Paulo

domingo, 16 de maio de 2021

Paulo Gustavo foi Cazuza, Renato, Cacilda e Leila, e por isso viva Paulo Gustavo

 

Artistas não são mais nem menos importantes do que médicos, políticos, garis ou professores. Mas sua profissão consiste em espelhar aquilo que reconhecemos como humano, em nos irmanar no gozo e na aflição. Daí o luto coletivo que experimentamos quando um deles nos deixa.

Eu ainda era criança quando um derrame cerebral tirou a vida de Cacilda Becker. A inconformidade com a morte de uma mulher daquela envergadura, aos 48 anos, no auge de sua potência, suscitou o brado "viva Cacilda Becker!".

Caetano Veloso o lançou, em meio a vaias, no Festival da Canção de 1968, e ainda hoje o repetimos como afirmação tanto da imortalidade da atriz quanto da arte.

Dentre todos os acasos funestos que vez por outra nos assombram, nenhum se compara ao trágico desaparecimento de Leila Diniz, aos 27 anos, vítima de acidente aéreo.

Leila era todas as mulheres do mundo: a namorada, a mulher e a mãe, eternizada na barriga imensa exposta pelo biquíni. Leila foi o Carnaval e a praia, o amor carnal e o romântico. Não há teoria, palavra ou prece que dê conta de tão absurda ausência. Todos os que a amaram morreram, um pouco, com ela.

Leila encarnou a revolução de costumes que, finda a ditadura, eu e os meus poríamos em prática, não fosse a aparição de um vírus hediondo. Quando completei 18 anos, a Aids se abateu sobre o planeta, transformando o sexo em risco e paranoia.

A peste levou Agenor de Miranda Araújo Neto, o Cazuza, em 7 de julho de 1990. No mesmo dia, a Legião Urbana fez um show, no Jockey Club do Rio, para 60 mil espectadores. Eu estava entre eles e testemunhei a homenagem de Renato Russo ao amigo e colega.

"Eu vou falar de mim. Eu tenho mais ou menos 30 anos. Eu sou do signo de Áries. Eu nasci no Rio de Janeiro. Eu gosto da Billie Holiday e dos Rolling Stones. Eu gosto de beber pra caramba de vez em quando. [...] Eu gosto de meninas, mas eu também gosto de meninos. Todo mundo diz que eu sou meio louco. Eu sou um cantor numa banda de rock'n'roll. Eu sou letrista e algumas pessoas dizem que eu sou poeta."

"Agora eu vou falar de um carinha. Ele tem 30 anos. Ele é do signo de Áries. Ele nasceu no Rio de Janeiro. Ele gosta da Billie Holiday e dos Rolling Stones. Ele é meio louco. Ele gosta de beber pra caramba. Ele é cantor numa banda de rock. Ele é letrista. E eu digo, ele é poeta."

Renato já sabia, ali, ser portador do HIV. Seis anos depois, seria a sua vez de partir.

Assim como com Cacilda e Leila, parte de Dado e de Bonfá, dos Paralamas, dos Titãs, do Barão, dos 60 mil presentes e de todos os que viveram aquela hora, feneceu com os dois.

Felipe Pinheiro não era astro de rock, não possuía a nobreza de Cacilda nem a divindade mundana de Leila.

Ator, roteirista e escritor, Felipe foi o grande parceiro de palco de Pedro Cardoso e o meu maior amigo. Ele fez parte do movimento apelidado de besteirol, o BRock das artes cênicas, e morreu em 1993, com a idade de Cristo.

A morte dele marca o fim da minha mocidade. Considero contemporâneos todos aqueles que a ele assistiram. Os que não ou eram velhos demais para entendê-lo ou jovens demais para entrar na sessão de meia-noite de "Bar Doce Bar", no Teatro Cândido Mendes.

Não tenho como traduzi-lo e, até hoje, sinto uma falta incurável dele. Para os que quiserem conhecer a inteligência vira-lata desse espírito do meu tempo, aconselho a leitura da compilação de seus textos, editada pela e-galáxia, no recém lançado "O Demitido".

morte de Paulo Gustavo se reflete em todas as ausências aqui descritas. Para os herdeiros do besteirol, Porchat, Adnet, Gregorio, Majella, Lobianco, Ingrid, Mônica, Caruso, Katiuscia, Raphael e Tabet, Paulo é o que Felipe foi para mim.

Sua partida marca a entrada deles na maturidade, na consciência da brevidade da vida e da fragilidade humana.

Para a legião urbana de fãs que conquistou, Paulo foi Cazuza e foi Renato, o ídolo pop do pedaço, o senhor de mil Jockeys. Para o teatro, a despedida de Paulo é o vazio de Cacilda em cena. Para os meninos que gostam de meninos e meninas, para o marido, Thales, e os filhos, Romeu e Gael, Paulo foi e sempre será Leila.

Para o Brasil, que deveria tê-lo vacinado, sua morte é o retrato triste de um país que desistiu de ser alegre e cordial.

Dona Déa Lúcia, obrigada por esse filho. Ele era mesmo fascinação.

Viva Cacilda Becker, viva Leila, viva Cazuza e Renato, viva Felipe Pinheiro e, para sempre, viva Paulo Gustavo!

P.S.: Carlito Carvalhosa, amigo imenso, artista imenso, o sujeito mais doce e inteligente, mais delicado e amado, a alma mais nobre que eu já conheci, acaba de partir. Não tenho palavras para dizer do orgulho de tê-lo conhecido. Levo comigo a sua eterna presença.


Texto de Fernanda Torres, na Folha de São Paulo

sexta-feira, 14 de maio de 2021

O suspeito de ser escravo do século 19 é o morador das favelas e periferias do século 21

 

No Brasil, geralmente o que se apresenta como novo na política sempre traz o cheiro de coisa velha e mofada.

Não falo aqui da velhice cronológica, aquela da qual nada escapa. Falo de uma velhice reativa, do tipo que não aceita ser ultrapassada e que sempre arruma um jeito de reaparecer de forma diferente.

Nada foi mais significativo dessa renovação da velhice do que a entrevista coletiva concedida por membros da Polícia Civil do Rio após a morte de 29 pessoas em operação na favela do Jacarezinho. Nas falas dos policiais, o Brasil, mais uma vez, renasceu. Renasceu mais podre e mais anoso. Ou morreu de novo, como queiram.

O velho Brasil aparece nos detalhes, e o uso da palavra “suspeito” para se referir aos mortos pela ação da polícia é exemplo disso. Se o uso do termo pelos representantes da Polícia Civil chama a atenção, também é perceptível a facilidade com que a imprensa aderiu à retórica da suspeição. Aliás, o papel da imprensa é fundamental para que condutas que, em outras circunstâncias, seriam consideradas invasão de domicílio, abuso de autoridade, fraude processual e homicídio transformem-se em “luta contra o crime”.

O livro “Retrato em Branco e Negro”, de Lilia Schwarcz, é bastante elucidativo desse processo que transforma novidade em coisa velha aqui em terras brasileiras. No mencionado livro, a autora demonstra como a imprensa paulista no final do século 19 atuou “na construção e manipulação das representações sobre o negro cativo ou liberto, quando se intensificavam as rebeliões negras”.

Nas palavras da autora, a intenção primordial do livro é “apresentar os modos com que os brancos se referiam aos negros e o representavam” num momento de profundas mudanças sociais, que naquele momento culminariam na abolição, na República e em na reconfiguração do racismo no Brasil.

Ao analisar os jornais da época, Lilia Schwarcz constata que ao tempo da escravidão todos eram considerados escravos até prova em contrário. Se não conseguisse provar a própria liberdade, o negro que fosse pego “vagando pela rua” (“vagabundo”, portanto) poderia ser detido por “suspeita de ser escravo”.

Ao não comprovarem ser “homens decentes” deveriam então ser considerados escravos fugidos e levados de volta ao cativeiro. Além da “suspeita de escravo”, negros eram também detidos “por desordem”, bebedeira ou “por andar sem bilhete após o toque de recolher”.

Conclui a autora que tais motivações vagas possibilitavam o arbítrio policial e se escoravam em uma visão que via o negro, mesmo livre, como um “degenerado”, seja por não ter ocupação, seja por não estar adaptado “às condições ‘civilizadas’ da vida nas cidades”.

Como se pode notar pela similaridade com o discurso escravocrata do século 19, os agentes da Polícia Civil trouxeram à tona o ódio aos pobres, aos trabalhadores e aos negros pacientemente cultivado pela sociedade, mesmo em tempos ditos republicanos e liberais.

A novidade de 2021 talvez seja o fato de que, dado o avançado grau de decomposição econômica e política, já não seja preciso —e nem possível— disfarçar esse ódio com arranjos jurídico-institucionais.

Desse modo, a fragilíssima fronteira da legalidade que separava, ao menos no campo das aparências, feitor de escravo e agente de segurança, e mais tarde, policial de miliciano, talvez agora não mais exista.

Os recados enviados ao STF e às entidades de direitos humanos durante a coletiva de imprensa são indícios fortes de que os poderes selvagens já se estabeleceram e que não aceitarão passivamente qualquer tentativa de contenção.


Texto de Silvio Almeida, na Folha de São Paulo