segunda-feira, 7 de julho de 2014

O Iluminismo e o humanocentrismo

Algo de extraordinário ocorreu na Europa no final do século 17 e no século 18: a explosão intelectual chamada Iluminismo. Filósofos, cientistas, artistas participaram de uma revolução no pensamento na qual a razão e os direitos do homem estavam acima de qualquer coisa.
É bem verdade que alguns desses filósofos seriam hoje considerados racistas, especialmente por colocar o homem branco no ápice da sociedade. Mas, de forma geral, a mensagem do chamado Projeto Iluminista era criar uma civilização global, com valores morais universais compartilhados por todos.
A ideia era criar uma moral secular, separada da religião, especialmente do fanatismo religioso. O Iluminismo foi uma guerra declarada contra os excessos da religião e do nacionalismo cego.
Adam Smith, por exemplo, defendia não só o patriotismo ao país, mas também um patriotismo como parte da "grande sociedade da humanidade", o que Immanuel Kant chamou de "patriotismo global".
Einstein, bem mais tarde, foi influenciado por essas ideias ao declarar que as fronteiras entre países deveriam ser abolidas: "A única salvação para a civilização e a raça humana está na criação de um governo mundial, onde a segurança das nações é fundamentada na lei", disse em entrevista ao "New York Times" em setembro de 1945, ao final da Segunda Guerra Mundial.
Agora que estamos no século 21, podemos revisitar essas ideias, baseados na nova realidade da globalização da informação; se não atingimos um governo mundial --a ONU não tem o poder legislativo sobre outros países e mal consegue manter a paz em regiões turbulentas--, temos uma outra perspectiva emergente: a do cidadão planetário.
No meu livro "Criação Imperfeita", sugeri que a astronomia moderna proporciona uma nova visão da humanidade, que chamei de humanocentrismo. O humancentrismo é uma inversão do copernicanismo, que diz que quanto mais aprendemos sobre o Universo, menos importantes somos. Hoje, quando telescópios espaciais como o satélite Kepler descobrem milhares de outros planetas, aprendemos algo de muito importante sobre quem somos e, mais ainda, sobre o nosso planeta.
Mesmo que existam outros planetas com as propriedades da Terra, vemos como nosso planeta é único. Ao estudarmos a história da vida na Terra, aprendemos como nós, humanos, somos únicos. A evolução de seres unicelulares a seres multicelulares e, finalmente, a seres multicelulares inteligentes, sobrepujou uma série de barreiras. Aprendemos que, se houver vida inteligente em outros planetas, será rara e distante. Estamos sós, e somos importamos porque somos únicos.
Se os sábios do Iluminismo soubessem disso, teriam declarado a centralidade do homem junto ao Cosmo como um todo. Um conjunto de moléculas capaz de se questionar sobre a existência deve também celebrar e respeitar sua existência.
E como nossa existência depende do nosso planeta, devemos também celebrá-lo como único. A razão humana, que nos levou a compreender nosso lugar no Cosmo, leva a uma nova moralidade, independente da religião: a igualdade de todas as criaturas e a preservação da vida e do nosso planeta.


Texto de Marcelo Gleiser, na Folha de São Paulo

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