terça-feira, 7 de outubro de 2014

Oferta de primavera

Um manancial de praticamente um terço dos eleitores está à espera de ser interessado a participar do segundo turno. O mistério do primeiro turno é a influência que esse manancial, cujas preferências são desconhecidas, desempenhou no resultado ao deixar de incluir sua manifestação por um dos candidatos. O mistério agora é quanto dele é despertável para a participação e, em sendo, como se dividira. Certo é que pode ser decisivo.
Dos quase 143 milhões de eleitores, 29% não foram à urna, votaram em branco ou anularam o voto. Bem mais do que todos os votos dados a Marina Silva, nos seus 21,3%, e próximo do total de 33,6% que levou Aécio Neves ao segundo turno. É uma quantidade exuberante de participações negadas ou impossibilitadas, mas, como de outras eleições, logo se ouvem as corridas em busca de apoio dos derrotados, e nenhuma preocupação em atrair as multidões disponíveis de trânsfugas.
Esperada por muitos já para amanhã, em reunião a ser conduzida por Marina, a escolha do PSB por Aécio Neves seria menos simples, na prática partidária, do que aparenta. Como legenda socialista, o PSB é um partido considerado e que se considera de esquerda, e, com a adesão ao candidato do PSDB, estará apoiando a proposta de um governo com política econômica neoliberal e arrochante em muitos sentidos, por exigência de uma inflação de 3%, como pretendida pelo projeto de Arminio Fraga/Aécio.
O PSB tem parlamentares e governantes, em exercício e agora eleitos, identificados com o (pequeno) simbolismo expresso no nome do partido. E alguns já emitiram os sinais de que puderam acompanhar a candidatura de Marina, um tanto amorfa em política econômica, mas não iriam além disso. Para prevenir tais reações, logo entrou em discussão a cobrança de um compromisso formal de Aécio, protegendo as conquistas sociais existentes. Mas a forma de garanti-lo, para que não seja mero facilitador da adesão, continua em aberto. Caso exista.
O mais cobiçado dos apoios individuais está nos quadros do PSB e, do monumento dos 4,6 milhões de votos para tornar-se senador pelo Rio, o craque Romário avisa que decidirá por si a sua adesão. E lembra: "Sou um favelado que se torna senador". Não apoiou Dilma, o que não quer dizer que tenha dado apoio real a Aécio. Nem que esteve entre as mal disfarçadas traições a Dilma, que teve o apoio declarado dos quatro disputantes ao governo e não o recebeu, de fato, de nenhum deles. O foi mais grave no PMDB, que pôde chegar à campanha com bastante a mostrar graças, sobretudo, à contribuição federal.
No Rio, aliás, Marina deixa disponíveis 31%, que teve contra apenas 27% de Aécio e os 36% que comprovam o abandono de Dilma. Onde menos ocorre a dualidade PT-PSDB é no Rio, ambos fracos. Mas outra multidão de votos tende a discutir sua adesão: os evangélicos, que vão ao segundo turno com o arguto bispo Crivella. Se os evangélicos se aliarem para valer, serão capazes de um salto de gigante rumo ao seu objetivo –o poder. Não só o do Rio. Os católicos assistem em silêncio.
Os próximos dias serão de negociações por baixo e boatos por cima. Os prefeitos que preparem os ouvidos, nos Estados sem segundo turno, porque os governadores eleitos sabem o quanto já são fortes com o poder que ainda não têm.
Por fim, com Eduardo Suplicy, outra perda histórica a mudar a fisionomia do Senado: Pedro Simon, vencido no Rio Grande do Sul.



Reprodução de texto de Jânio de Freitas, na Folha de São Paulo

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