domingo, 23 de agosto de 2015

Chacina neolítica

Chacina neolítica

Há 7.000 anos, ataque na Europa deixou 26 torturados e mortos, reforçando a noção de que violência é indissociável da vida tribal e da história humana
RICARDO MIOTOEDITOR-ADJUNTO DE "COTIDIANO"

Foi uma chacina. Antes de morrerem, as 26 vítimas foram torturadas. Primeiro, tiveram as pernas quebradas, para que não fugissem. Depois, foram agredidas na cabeça e em outras partes do corpo. Havia crianças, que apanharam do mesmo jeito.
Aconteceu há 7.000 anos.
Os corpos foram despejados sem cuidado em uma vala comum. Só não restaram ossos de mulheres jovens, que provavelmente foram tomadas para fins sexuais.
A história foi contada por pesquisadores alemães que analisaram um sítio arqueológico a 20 quilômetros de Frankfurt. O estudo foi publicado na revista "PNAS".
A vala foi encontrada por operários que abriam uma rodovia. Eles chamaram os arqueólogos, que ficaram impressionados. "Poucas vezes se viu em um sítio violência tão extrema e generalizada", diz Christian Meyer, da Universidade de Mainz.
Os danos nas ossadas permitem saber que foram utilizados tanto porretes quanto flechas e, pelo caráter sistemático do estrago, que tudo foi feito de forma deliberada.
Os ossos não permitem saber isso, mas os pesquisadores acreditam que o episódio tenha seguido o modelo padrão dos ataques em sociedades tribais. Não há "fair play": as ações são sempre de surpresa, em geral de noite, quando as vítimas, já dormindo, estão mais indefesas.
Como os agrupamentos humanos de então agregavam não mais do que algumas dezenas de pessoas, em geral aparentadas, é de se imaginar que essa comunidade tenha sido exterminada.
Não se sabe quem são eles –curiosamente, na arqueologia a história é contada pelos perdedores, que deixam seus cadáveres–, mas é possível que fossem até vizinhos. A convivência entre os grupos primitivos tende a ser tensa, e a linha que divide a simpatia da emboscada é tênue, apontam os autores do estudo.
No caso desses povos da Europa do neolítico, período final da Idade da Pedra em que os humanos começam a ficar sedentários e a plantar, arqueólogos têm encontrado com frequência restos de humanos vítimas de violência.
"Tem ficado muito evidente que a aniquilação de unidades sociais inteiras em massacres foi característica crucial da vida pré-história. Era, aliás, a estratégia de guerra mais poderosa", escrevem os autores.

CONSEQUÊNCIAS

Se os arqueólogos estiverem certos, há impactos na história e até na filosofia.
No primeiro caso, seria errado o senso comum de que o mundo nunca foi tão violento. Mesmo com guerras mundiais e bombas atômicas, a taxa de homicídios seria bem mais elevada em sociedades tribais –pense que, se dez pessoas são mortas em um grupo de 50, proporcionalmente é como se 40 milhões de brasileiros morressem de uma vez.
Na filosofia, estaria errada a ideia de Rousseau (1712 - 1778) de que o homem é naturalmente bom, mas acaba degenerado pela sociedade. "O conceito de bom selvagem não é científico", diz Meyer à Folha. "Temos firme evidência de que a violência sempre foi parte do repertório humano."
Também argumentam nessa linha pesquisadores como Napoleon Chagnon (autor de "Nobres Selvagens", publicado neste ano pela Três Estrelas) e Steven Pinker ("Os Anjos Bons da Nossa Natureza", Companhia das Letras, 2013).
Arqueólogos vivem encontrando, entre resquícios de povos primitivos, armas como porretes, pouco úteis para a caça, mas muito adequados para bater no outros.
"Por décadas, 'antropólogos da paz' negaram que humanos já tivessem sido canibais, mas indícios em contrário se acumulam", escreve Pinker, citando proteína humana encontrada em cacos de panela. "Condenação certa."
Desse ponto de vista, a pergunta não é o que leva as pessoas a atacarem as outras –ficam assim absolvidas a televisão, os jogos violentos, a decadência moral, a sociedade opressora. A questão é o que faz com que as pessoas não se agridam. Afinal, de alguma forma os terríveis vikings acabaram dando nos bonzinhos dinamarqueses e suecos.
Pinker sugere que a resposta passa pela maior quantidade de redes de reciprocidade, como o comércio, que tornam os outros humanos mais úteis vivos do que mortos –ou seja, não há mudança "moral", mas de interesses.
Ele cita ainda que, em uma sociedade sofisticada, a violência é menos eficiente. Se mato meu colega de trabalho, não fico com seu dinheiro, sua casa nem sua mulher –e ainda vou perder o emprego e provavelmente ser preso.
Ser preso: "Quando eu era adolescente no pacífico Canadá, nos românticos anos 1960, ridicularizava a ideia dos meus pais de que o caos ocorreria se o governo abrisse mão das armas", escreve Pinker.
"Mas, quando a polícia de Montreal entrou em greve em 17 de outubro de 1969, já de manhã um banco foi roubado, ao meio-dia as lojas fecharam por causa de saques e taxistas incendiaram uma locadora de limusines que competia com eles no aeroporto. Tiveram de chamar o Exército."
O psicólogo cita Winston Churchill, que sucedeu a Neville Chamberlain, pacifista primeiro-ministro britânico que fez concessões a Hitler: "A história humana é a guerra. Exceto por breves e precários intervalos, nunca houve paz; bem antes de a história começar, o conflito assassino era universal e interminável".


Reprodução da Folha de São Paulo

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