quarta-feira, 3 de junho de 2015

Sexo de mentirinha


Sexo de mentirinha

Em pesquisas, homens tendem a aumentar a lista de parceiras, mulheres, a reduzi-la, e ambos blefam sobre satisfação, mostrando que tema ainda é tabu
JULIANA VINESCOLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Homens aumentam a lista de parceiras, mulheres diminuem, e todos tentam esconder problemas quando são questionados sobre sexo. Isso é o que muitos estudos sobre sexo não mostram. Ou o que números contraditórios de pesquisas revelam.
A psicóloga Terri Fisher, da Universidade do Estado de Ohio (EUA), fez, em 2013, 140 estudantes pensarem que estavam sendo monitorados por detectores de mentira enquanto respondiam a um questionário sobre sexo.
Outros 140 participantes responderam às mesmas perguntas sem achar que estavam ligados ao polígrafo.
"Quando as pessoas pensam que precisam ser verdadeiras, suas respostas sobre o comportamento sexual mudam. As diferenças de gênero diminuem", diz Fisher.
Os homens reduziram a lista de pessoas com quem já tinham transado. E as mulheres aumentaram esse número quando estavam ligadas ao detector de mentira (que na verdade não funcionava).
"O contexto impacta muito no que as pessoas contam ou deixam de contar", diz ela.
O contexto e a forma como é feita a pergunta. Dois levantamentos feitos no Brasil questionaram qual a frequência com que homens e mulheres chegam ao orgasmo.
Segundo uma pesquisa Datafolha de 2010, 76% dos homens e 39% das mulheres dizem que "sempre" têm orgasmo. Já de acordo com um levantamento feito pelo fabricante da camisinha Durex, em 2012, 52% dos homens e 22% das mulheres afirmam chegar "sempre" ao clímax.
A primeira pesquisa foi feita pessoalmente, misturando entrevistas e questionários anônimos. A segunda pela internet, de forma anônima.
Segundo Mauro Paulino, diretor-geral do Datafolha, os resultados diferentes são culpa da metodologia. Uma pesquisa na internet depende da iniciativa do entrevistado, e quem tem mais iniciativa pode ser mais desinibido, diz.
"As pesquisas sobre sexo são difíceis, exigem cuidados específicos. O Datafolha, por exemplo, desenvolveu métodos para obter mais verdade dos entrevistados. Nessas pesquisas, é preciso que homens sejam entrevistados por homens e vice-versa."
Outra coisa importante, afirma ele, é fazer perguntas mais íntimas de forma secreta, com autopreenchimento.
"Esse é um assunto íntimo. Cara a cara as pessoas podem ficar constrangidas e, no fim, serem menos verdadeiras", diz Carmita Abdo, coordenadora do Programa de Estudos em Sexualidade da USP.
No último estudo que coordenou, chamado de Mosaico Brasil, coletou dados de 8.200 pessoas em questionários respondidos pelos próprios participantes, anonimamente.
"Se não for anônimo, não descobrimos como as pessoas fazem sexo, mas sim como respondem sobre o sexo."

FORA DO PADRÃO?

Para Iracema Teixeira, presidente da Sociedade Brasileira de Estudos em Sexualidade Humana, as dificuldades de se pesquisar o tema só demonstram o quanto sexo ainda é tabu.
"As pessoas respondem de forma a seguir padrões e acabam reforçando esses estereótipos. Ainda espera-se que a mulher tenha um comportamento mais recatado e o homem seja mais agressivo."
É um círculo vicioso. Ao reforçar estereótipos, os números deixam insatisfeitos os que se sentem "anormais".
"Os casais felizes que fazem sexo uma vez por semana se sentem desajustados ao ver pesquisas em que o 'normal' é três vezes", diz a antropóloga Mirian Goldenberg. "Nem os homens transam tanto assim nem as mulheres têm orgasmo tão facilmente."
A psicanalista Regina Navarro Lins não acredita em pesquisas que dizem que pessoas casadas há 30 anos fazem sexo três vezes na semana. "Há exceções, mas a maioria tem problemas com isso."
Para a ginecologista Carolina Ambrogini, da Unifesp, é preciso parar de seguir padrões. "Não há 'normalidade' em sexo. Se eu transo uma vez por ano e estou feliz assim, ótimo."

Reprodução da Folha de São Paulo

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