quinta-feira, 25 de junho de 2015

Primavera Árabe e guerra na Síria geram crise em turismo na Jordânia


RANA F. SWEIS
DO "NEW YORK TIMES"

Os guias de turismo se sentaram em um trailer branco e poeirento a poucos passos do portão principal, tomando um café preto e forte e fumando. Havia 42 deles, prontos a mostrar a um visitante um sítio arqueológico mundialmente famoso, em até nove idiomas. Mas, ainda que este fosse um dia ensolarado de primavera, não havia trabalho para 38 deles.
"Quatro anos atrás, eu faria de dois a quatro tours por dia", disse Ahmed al-Qaim, 43, que trabalha como guia turístico há 19 anos. "Agora, nós mais ficamos sentados discutindo coisas do tipo 'Como você gosta do café?'"
As ruínas da cidade antiga de Gerasa, hoje conhecida como Jerash, estão entre as mais bem preservadas de qualquer cidade provincial do Império Romano. Monumentos e templos, banhos e anfiteatros, praças e colunatas transportam os visitantes para os primeiros séculos depois de Cristo, quando a cidade prosperou sob imperadores como Trajano, Adriano e Antonino. As marcas de bigas ainda podem ser vistas nos antigos pavimentos.
O sítio de cerca de 650 mil metros quadrados já foi uma das principais atrações turísticas da Jordânia, e uma fonte sustentável de receitas a longo prazo. Mas fica a apenas cerca de 30 quilômetros da fronteira com a Síria, onde uma guerra civil tem se estendido há quatro anos –e os conflitos na região são tudo, menos um ímã para visitantes estrangeiros.
Locais em toda a Jordânia estão sofrendo. Em 2010, um ano antes de a Primavera Árabe irromper na região, 8,2 milhões de pessoas visitavam o país, segundo o Banco Mundial, mas em 2013 o número caiu a 5,4 milhões, e continua em queda. Muitos dos estrangeiros que vêm agora não são turistas, mas pessoas trazidas pela exata perturbação que os mantém longe: voluntários, diplomatas, jornalistas, refugiados.
O ministro de Turismo e Antiguidades disse que as visitas a Jerash caíram cerca de 35% neste ano, em relação a 2014. Em outros destinos, como o monte Nebo, Wadi Rum e Karak, a queda foi ainda mais aguda, em cerca de 50%.
"Quando olho pela região, não vejo motivos para ser otimista", disse Ahmad Shami, autoridade do ministério responsável por Jerash. "Temos a responsabilidade de promover e preservar Jerash, porque este local pertence ao mundo e à humanidade."
Alguns jordanianos dizem que aquilo que o ministro chama de problema é, na verdade, uma oportunidade. "Ninguém está indo ao Iêmen, à Síria ou ao Iraque", disse Thiab Atoom, que recentemente abriu um restaurante na estrada que leva ao portão de Jerash. "Isso não é algo que deve ser usado contra nós –deveria ser uma oportunidade de dizer 'a Jordânia é um refúgio, venha para cá!', mas não estamos fazendo o suficiente para atrair visitantes."
Em tempos mais calmos, alguns anos atrás, era fácil para turistas agendar um tour com paradas em três sítios antigos espetaculares –começando em Petra, famosa cidade entalhada em colinas de pedra rosada no sul do país, então em Jerash e em seguida Palmyra, na Síria.
Palmyra tem muitas coisas comuns com Jerash –as duas foram cruzamento de culturas no mundo antigo e ambas exibem bem preservadas colunatas e majestosos anfiteatros romanos. Mas a cidade síria recentemente caiu sob o controle do grupo extremista Estado Islâmico, que tem ficado conhecido por pilhar ou destruir muitos artefatos culturais.
De acordo com o Observatório Sírio para os Direitos Humanos, baseado no Reino Unido, o EI usou o anfiteatro de Palmyra para matar quase duas dúzias de prisioneiros.
Na mesma semana, em Jerash, cerca de 40 meninas em uniformes escolares azuis sorriram e cumprimentaram um pequeno grupo de turistas chineses, que posaram para fotos coletivas segurando sombrinhas para se proteger do sol.
Escavações recentes mostraram que Jerash tem sido inabitada desde a era do bronze, deixando para trás camadas de antiguidades das civilizações grega, romana e bizantina e do califado de Umayyad. A cidade moderna tem cerca de 200 mil habitantes e o principal mercado fica bem ao lado do sítio arqueológico, com fileiras de lojas de roupas e acessórios e barracas de vegetais cercadas por mesquitas, casas de alvenaria e prédios degradados.
Especialistas dizem que não mais do que um quarto da cidade antiga já foi escavado, e que importantes ruínas romanas provavelmente ainda estão abaixo dos atuais mercados e casas.
A baixa no turismo ameaça muitos trabalhos em Jerash e algumas lojas de antiguidades já fecharam as portas. Moradores e donos de negócios locais jogam a culpa em muitas direções –na beligerante vizinhança da região por assustar os visitantes, no governo e nas autoridades do turismo por fazer pouco para atraí-los de volta, na comunidade internacional por não resolver a crise e acabar com a violência brutal.
Se as coisas não melhorarem logo, "será uma tragédia", disse Shami, do ministério de antiguidades. "Qual será o resultado quando todas essas pessoas perderem seus meios de subsistência?"

Tradução de GUSTAVO SIMON


Reprodução da Folha de São Paulo.

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