segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Silêncio mortal

Carlos Alexandre Azevedo tinha um ano e sete meses quando seus pais foram presos, em São Paulo. Chorou de fome diante de policiais da equipe do delegado Sérgio Fleury. Um deles deu um tapa em seu rosto, abrindo-lhe um corte na boca.
A família foi viver, quase clandestinamente, no Rio Grande do Norte. Cacá, como era conhecido, apanhava dos colegas de escola, que o chamavam de "terrorista". Desenvolveu depressão e fobia social.
Sempre dizia à mãe que não conseguia se adaptar ao mundo. Resistiu até a madrugada de 16 de fevereiro de 2013, quando se matou. Tinha 40 anos.
O caso de Cacá é um dos relatados no livro "Infância Roubada ""Crianças Atingidas pela Ditadura Militar no Brasil", produzido pela Comissão da Verdade do Estado de São Paulo "Rubens Paiva".
O volume dá a palavra a quem teve parentes presos, torturados, assassinados, desaparecidos. Alguns tratam seus pais, ex-participantes da luta armada, como heróis. Não é preciso concordar. Basta entender que são pessoas que tiveram suas vidas tão destroçadas quanto os corpos de seus pais e lidam com isso da maneira que conseguem. Filhos de torturadores talvez idolatrem quem espancava, afogava e queimava seres humanos.
Uma das realizações da Comissão Nacional da Verdade, cujo relatório será apresentado na quarta-feira, é tirar das sombras torturados e torturadores, dando-lhes nomes e biografias. Não é revanche, é história.
Se as Forças Armadas, contra as mais óbvias evidências, insistem em negar que transformaram em rotina a tortura e o desaparecimento de compatriotas, deixam clara a vergonha que sentem do papel desempenhado. Preferem silenciar sobre o passado em vez de ajudar a construir um futuro digno para o país. Futuro que Cacá não verá.


Texto de Luiz Fernando Vianna, na Folha de São Paulo

Nenhum comentário:

Postar um comentário