segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Um jogo de sombras

Nas últimas semanas, o tema da violência nas manifestações tomou conta do debate público nos meios de comunicação. Às vésperas da Copa do Mundo e de eleições no Brasil, a ideia de que o país está mergulhando em um mar de desordem e descontrole convoca clamores por maior repressão, alimentados por toda sorte de apetites político-partidários. O problema agora é o "vandalismo" e o que importa é buscar seus antídotos: leis antiterrorismo, intervenção direta do Exército, prisões e punições mais duras para manifestantes...
A trágica morte do cinegrafista da Band, Santiago Andrade, quando cobria protesto contra o aumento das passagens de ônibus no Rio de Janeiro, intensificou esse clamor por maior repressão. Porém, Santiago não foi a primeira vítima fatal dos protestos, nem mesmo o primeiro profissional de mídia a ser atacado e ferido. Segundo a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), foram 119 os jornalistas agredidos em manifestações de junho para cá, dos quais 75% vítimas de ações policiais.
Tampouco a violência no Brasil foi inventada pelos chamados "black blocs". Disfarçada de cordialidade, oculta ou mesmo escancarada, a violência faz parte da nossa cultura: das guerras entre torcidas à violência doméstica, dos linchamentos públicos às ações discriminatórias e racistas praticadas amplamente, inclusive pela polícia, dos assassinatos de camponeses à prostituição infantil e todo tipo de tráfico e milícias, a lista é extensa.
Mesmo o vandalismo --que hoje é percebido como algo inadmissível e para o qual se exigem respostas imediatas-- há muito marca o cotidiano da paisagem de nossas periferias: todos os dias equipamentos públicos são depredados ou destruídos.
A pergunta difícil de responder é: por que jovens estão nas ruas arrebentando e quebrando?
Aí reside, a meu ver, o problema: as pautas, demandas e reivindicações presentes nas manifestações --por infraestrutura e serviços públicos de qualidade, pelo direito à cidade, por participação nas decisões e no controle social, entre muitas outras-- não são ouvidas nem respondidas porque exigiriam reformas (urbana, política, entre outras reformas estruturais) que nenhuma força política no país hoje é capaz de encarar e liderar.
São os chamados temas complexos, que exigem mudanças estruturais e rupturas com coalizões fortemente sedimentadas que jamais apresentarão resultados concretos no curto prazo dos horizontes eleitorais.
Por isso, é mais fácil assumir que o problema central é como conter a violência nas manifestações. Nem a criação do crime de terrorismo, nem a proibição do uso de máscaras, nem a convocação do Exército são ações que minimamente apresentam respostas às insatisfações manifestas nas ruas.
Entretanto, perigosamente convocam um estado de exceção, enfraquecendo as reivindicações mais do que legítimas que tomaram conta das ruas desde o ano passado.
Estejamos atentos para não resvalarmos num jogo de sombras. Mantenhamos viva a escuta do que se grita nas ruas, ainda que, infelizmente, neste momento, a linguagem perversa da violência ameace nos cegar.


Texto de Raquel Rolnik na Folha de São Paulo

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