sábado, 27 de agosto de 2016

Depois da Olimpíada, complexo de vira-lata é posto em questão

Não me inscrevi entre os pessimistas nesta Olimpíada, embora fosse temerário assegurar o sucesso que, em ampla medida, acabou acontecendo. O "não vai ter Copa" já tinha me deixado cético quanto às previsões de um grande desastre, e o que tivemos de errado foi bem pouco.
Com isso, entrou na moda a ideia de que temos um "complexo de vira-lata". A frase, que Nelson Rodrigues pôs em circulação numa época em que mal tínhamos conquistado uma Copa no futebol, vai sendo repetida com intensidade.
Descobrimos que não somos tão ruins assim, e os visitantes estrangeiros não saíram daqui achando que o país é um lixo. Houve mesmo situações em que nos portamos muito bem.
Afinal, um dos maiores escândalos com venda de ingressos irregular terminou com a prisão de irlandeses, e não de nossos compatriotas. Furtos na Vila Olímpica? Ora, as camareiras também foram vítimas –sem contar o caso de algumas que sofreram assédio de atletas estrangeiros.
Como bom vira-lata, achei que a polícia ia dar vexame quando desconfiou da versão dos nadadores americanos sobre o tal assalto que disseram ter sofrido. O vexame, entretanto, foi deles, e as autoridades brasileiras se mostraram competentes ao tratar do episódio.
Quanto aos resultados esportivos, inexistem motivos para a depressão. Ficamos à frente da Espanha e do Canadá, sem ter grande coisa a invejar da Holanda e da Hungria. O Brasil não é a piada que gostamos de achar que é.
Bom sinal que estejamos tomando consciência disso.
O problema é que falar em "complexo de vira-lata" tem outras consequências e implicações.
Falamos mal dele, e o "complexo" se torna, automaticamente, um defeito nosso –um defeito a mais, e, pior que isso, um defeito que só nós temos.
Assim, recriminar nosso "complexo de vira-lata" se torna uma vira-latice também. Ao contrário de outros povos –que se levam a sério, são patrióticos, orgulham-se de seu país–, somos colonizados, não temos autoestima, tomamos os Estados Unidos ou a Suíça como modelo de tudo... Logo, somos indignos, inferiores, rastaqueras. Em suma, somos vira-latas mesmo.
Fica evidente o curto-circuito lógico desse sentimento. Se de fato quisermos afastar nosso complexo, teríamos de dizer que ele não existe.
Ou então –esta a minha proposta– teremos de dizer que isso é uma qualidade nossa, não um defeito.
Talvez seja excelente, no fundo, o fato de não acreditarmos tanto em nosso país. Aliás, acho que sempre nos damos mal nas Olimpíadas quando de fato achamos que temos chance de ganhar.
As medalhas de ouro que tínhamos como certas, no judô ou na ginástica, terminam impondo uma pressão psicológica terrível sobre uns poucos atletas escolhidos para serem os salvadores da pátria. Ninguém pensava em canoagem nem sabia de Isaquias –e pode ser que isso tenha ajudado.
Denuncia-se o complexo de vira-lata porque seria um efeito de nossa mentalidade colonizada. Nossas elites, prossegue o raciocínio, idealizam os países europeus e lamentam que São Paulo não seja Paris.
É verdade. Tudo fica especialmente doído, no Brasil, quando pensamos que um país igualmente rico em recursos naturais, e de colonização também recente, se transformou numa potência mundial –refiro-me aos Estados Unidos–, enquanto nós ficamos para trás na corrida para o desenvolvimento.
Negar nossa inferioridade seria, acho eu, falta de qualquer senso crítico. Mas quem combate o complexo de vira-lata é também, num paradoxo, hipercrítico com relação ao país. Ou melhor, é crítico com relação às nossas "elites". Que seriam especialmente predatórias, antipatrióticas, entreguistas etc.
Isso talvez seja desconhecer a história das elites de outros países. Penso nas "elites" francesas durante a ocupação nazista, por exemplo. A direita aceitou alegremente o domínio dos alemães.
Com todas suas realizações culturais e científicas, Itália e Alemanha só conseguiram constituir-se como países no final do século 19: suas "elites" eram perfeitos exemplos de fracasso político. As "elites" americanas, até 1960, tinham um projeto de país que excluía largas parcelas da população negra.
Não se trata de defender as nossas. Mas de ver que o complexo de vira-lata pode ser forte, mesmo na mentalidade de quem o critica. Em vez de criticar nossa vira-latice, ainda acho melhor criticar o que, de concreto, torna o Brasil ruim.


Texto de Marcelo Coelho, na Folha de São Paulo.

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