quinta-feira, 7 de julho de 2016

Poesia de Ana C., da margem para o centro


Eventos e mesas que homenageiam Ana Cristina Cesar colocam os versos no foco de tudo na Flip, em Paraty
Por Luiz Gonzaga Lopes

“Diálogo de surdos, não: amistoso no frio. 
Atravanco na contramão. Suspiros no 
contrafluxo. Te apresento a mulher mais discreta 
do mundo: essa que não tem nenhum segredo”
Ana Cristina Cesar – Noite Carioca.

Em entrevista preparatória à 14ª Festa Literária Internacional de Paraty, o curador Paulo Werneck deu a entender que a poesia é a cara da festa, que não tem riscos, lembrando grandes fenômenos que foram Bruna Beber, em 2013, e Matilde Campilho, em 2015. Na abertura da Flip, a conversa “Em Tecnicolor” entre Armando Freitas Filho e Walter Carvalho, mediados por Eucanaã Ferraz, recuperou um pouco da homenageada da Flip, Ana Cristina Cesar. Armando Freitas Filho, 76 anos, lembra que conheceu Ana Cristina Cesar (1952-1983), quando ela tinha 20 anos. “O que mais me impressionou foi a maneira intrigante como ela provocava você. Isto era forte e às vezes incômodo. Tudo era problema para ser resolvido. O livro ‘Longa Vida’ eu dei para ela colocar vírgulas. Nós discutíamos sobre verso livre. Era um ringue, uma luta, ginástica”, destacou.

O amigo de Ana C. observou que o livro “A Teus Pés”, o único publicado em vida em 1982, ficou seis meses de espera na Brasiliense. “Um cara decisivo para a publicação deste livro foi o Caio Fernando Abreu. Ele fez o livro dela sair em 1982. Ela duvidava que ia sair, mas saiu por causa do Caio, a quem ela chamava de mon ange. Tem um texto fantástico dele na quarta capa do livro explicando. Após a mesa, foi apresentado o filme de Walter Carvalho sobre Armando Freitas Filho, intitulado “Manter a Linha da Cordilheira sem o Desmaio da Planície”, que era o início de um poema de Armando, em seu caderno, que ainda não havia tido continuidade, quando o filme foi captado.
No filme, estão algumas pérolas do carismático Armando Freitas Filho, autor de “Dever” e “Lar”, como: “a poesia está além de você. você a busca como quem pesca” ou “a poesia não tem cura, é virótica; escrevo por hábito, por vício, por vírus”. Também está na obra de Carvalho a dor de Armando e do irmão de Ana C., Flavio Lenz, pelo suicídio da poeta em 1983. A noite de abertura foi encerrada com o Sarau, conduzida pela atriz, apresentadora, MC e poeta Roberta Estrela D´Alva e convidados, recitando Ana Cristina Cesar e outros.

Na manhã desta quinta-feira, a mesa “A Teus Pés” mostrou três jovens poetas falando sobre a poesia de Ana Cristina Cesar. Annita Costa Malufe destacou que a poesia de Ana C. trouxe uma mudança de paradigma, que atualizava a poesia concreta e trabalhava com o estranhamento e ausência ou interrupção de enredo. “A Ana Cristina Cesar catalisa algumas características da poesia norte-americana e europeia, mas tem uma determinada coisa que só ela fez. Ela acaba marcando os poetas de 1990 e 2000, como uma nova proposta, uma ressonância na poesia brasileira, uma voz muito singular”, afirmou a autora de “Quando Não Estou por Perto”.

Laura Liuzzi começou a sua fala ironizando o pseudopoeta Michel Temer, lendo o poema “Por Quê”, de autora do presidente interino. Aliás, o Fora Temer é a figura mais presente em todas as mesas e atividades da Flip, uma unanimidade. Laura lembrou que Ana Cristina teve uma grande influência na geração posterior e que era muito sintonizada com o que era feito lá fora. “Tem uma coisa na poesia dela muito libertadora. Você lê o poema e parece que fica conectado, você vai junto, ela apaga a luz do poema e te afasta e você fica meio perdido. É engraçado, pois acho que a geração que se seguiu, a gente não fez isto. Tem poemas maravilhosos, que são super narrativos. Se você quiser entender o que está se passando ali, acaba não conseguindo”, clarificou um pouco a poeta, autora de “Coisas” e “Calcanhar”.

Marília Garcia lembrou que uma questão básica na poesia de Ana Cristina Cesar é exatamente a forma de pensar e de conduzir os poemas, uma forma de pensar que interessa e influencia. “Para mim foi importante não só a leitura de A Teus Pés, o único livro publicado em vida, e os póstumos, desenhos, ensaios e todas as outras coisas da obra dela, os cadernos, os rascunhos, você consegue ver como funcionava o instrumental dela. Como ela coletava material, como era a forma de construir os textos e de pensar a poesia. Talvez uma herança seria pensar nela em relação aos poemas e não tanto pensar somente nos textos”, explanou a poeta, autora de “Erro Geográfico” e “Paris Não tem Centro”. A 14ª Flip segue até domingo à tarde, com 21 mesas na programação principal e centenas de atividades na Flip +, Flipzona, Flipinha, Off Flip e demais atividades paralelas. Mais informações pelo www.flip.org.br. O Itaú Cultural está transmitindo ao vivo todas as mesas pelo www.itaucultural.org.br.

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