quinta-feira, 7 de julho de 2016

Em novo livro, França Castro quer desviar leitor de 'olhar acomodado'

Em novo livro, França Castro quer desviar leitor de 'olhar acomodado'

WALTER PORTO
DE SÃO PAULO

"Começar a ler um romance, parar. / Começar outro, parar. / Começar outro, parar. / Tornar-se livro de contos". O trecho, um exercício de teatro de um ator que protagoniza um dos contos do novo livro de Marcílio França Castro, soa como uma referência à própria obra que o contém.
O autor, porém, descarta a comparação como uma mera brincadeira do personagem. Declara-se insatisfeito com a definição tradicional dos gêneros literários.
"O termo conto é precário para englobar a multiplicidade de narrativas que a gente pode produzir," diz ele à Folha. Prefere o termo "ficções".
"Histórias Naturais", que França Castro lança durante a Flip, abarca ficções dos mais diversos temas e tamanhos. Vai desde a longa história que abre o livro, sobre um datilógrafo de tribunal que faz carreira no cinema como dublê de mãos de escritores famosos, até uma reflexão de apenas um parágrafo sobre um par de sapatos velhos.
É o terceiro livro de contos publicado pelo escritor mineiro de 49 anos que, tal qual o protagonista da primeira narrativa, levava carreira de funcionário público até estrear na literatura em 2009 com "A Casa dos Outros" (7Letras).
Despontou de vez três anos depois ao vencer o prêmio Clarice Lispector da Fundação Biblioteca Nacional por "Breve Cartografia de Lugares sem Nenhum Interesse", da mesma editora.
Nesta quinta (30), às 17h15, ele divide uma mesa na Flip com o mexicano Álvaro Enrigue, que, entre contos e romances, vem se destacando na ficção latinoamericana.
Segundo França Castro, seu livro mais recente tinha o propósito inicial de jogar com a aproximação de diferentes áreas do conhecimento, transpondo a lógica de um determinado campo a outro.
No processo, a proposta foi ampliada, mas manteve a brincadeira literária com o método científico. O próprio título é uma referência irônica a essa tradição, evocando o rigor de coleções enciclopédicas que tinham, segundo ele, "o ímpeto de fazer um inventário do mundo".
A chave que define seu estilo, diz França Castro, é o que chama de "realismo oblíquo": narrativas insólitas, sob lentes improváveis, mas que não pendem para o fantástico. "É o deslocamento do olhar sobre os objetos e sobre o mundo," define o autor. "É uma tentativa de tirá-los do olhar acomodado, cristalizado".

HISTÓRIAS NATURAIS
AUTOR Marcílio França Castro
EDITORA Companhia das Letras
QUANTO R$ 39,90 (200 págs.)

Reprodução da Folha de São Paulo

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