domingo, 31 de janeiro de 2016

A festa


Eu tinha uns nove anos. O irmão da minha amiga, que comemorava aniversário de dez, tinha uns 11. Todos os outros garotos eram barulhentos, frenéticos e tinham cheiro de sola de tênis. Ele era sério, um pouco bravo e já tinha pelos nas coxas. Ele não me notava. Tentei beliscar, gritar, sujar meus dentes com brigadeiro pra fazer a piada "tô banguela", mas ele não me olhava. Nunca tive paciência pra nada, então parei na frente dele, no meio da festa, na frente de todos e levantei meu vestido. Mostrei minha calcinha pra ele. A mãe deles me pegou pelo braço e disse que assim não se faz. Não pode. Eu disse que podia sim, era só uma brincadeira, eu era criança. Até hoje dou essa desculpa. Por isso mesmo, a mãe disse. Justamente porque você é criança. Então quando eu tiver a sua idade vou poder levantar uma saia no meio de uma festa e mostrar minha calcinha, talvez eu tenha respondido.
E levantei a saia pra ele, de novo. Ele fugiu. Eu corri atrás dele com a saia levantada. Ele chamou pelo pai. Os amigos riram dele. Os homens adultos riram, alguns saíram de perto. Um dos homens adultos falou que assim não se faz, você é menina. Eu odiei ser menina, odiei ter nove anos, odiei que aquele garoto besta tivesse 11 anos. Odiei que homens adultos saíram da sala. Eu segurei o rosto do menino, a essa altura todo melecado de muco nasal e lágrimas, e pressionei meu lábio contra o dele. Pronto, dane-se, tava resolvido. Nem era meu primeiro beijo. Eu já tinha agarrado à força outros garotos na escola e já tinham chamado minha mãe e minha mãe me perguntou por que eu fazia isso se eram meninos feios. Foi alguma técnica que até hoje não entendi. O pai dele apareceu e perguntou, querendo rir, se eu tinha bebido. Eu ri, mas estava muito triste. Talvez agora a urgência parasse, mas ela havia se transformado em um cinema inteiro vazio com uma tela em manutenção. Que foi isso tudo que eu fiz e por quê? A mãe resolveu ligar pra minha mãe. As pessoas olhavam com raiva. Era pra ser a noite da minha amiga e não da maluca que correu atrás de um garoto com as saias levantadas. Se eu fosse um garoto, eu apanhava, mas eu sendo uma menina, o que fariam? Ficava um desejo de tabefe no ar, eu sei porque estavam todos de braços cruzados, tensos em esconder as mãos. Minha amiga pedia: "Ela tem que ir embora". Alguém comentou: "É filha de pais separados". A mãe chamou pro parabéns, naquele clima de "então vamos ao que interessa e esquecer isso". Ele correu pra comer bolo, como se nada tivesse acontecido. Homens são sempre iguais. De repente é como se nada tivesse acontecido com eles. Todo mundo esqueceu ou fez força pra esquecer. Batiam palmas, queriam roubar docinhos, mais uma festa de aniversário como todas as outras. Eu odiava a coisa igual, as pessoas sempre iguais, mas porque ainda estava em idade de teatralizar extrema ansiedade por açúcar, resolvi correr para a mesa com as pessoas, como se me importasse com elas ou com seus doces. No meio do caminho vi um corredor, um quarto escuro, e pensei que seria mesmo muito estranho ficar deitada no chão daquele quarto, no breu completo, enquanto todos cantavam na sala. E fiz isso para me punir. Começou com uma alergia do carpete, um chorinho baixo e de repente afluiu um tsunami aquoso de dentro da minha cabeça. Eu berrava "mãe" com a mesma violência surda com que os outros batiam palmas. E aquele medo, aquele exato medo, é uma coisa que nunca mais parei de sentir. 


Texto de Tati Bernardi, na Folha de São Paulo

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