terça-feira, 14 de abril de 2015

É necessário um partido

Hillary Clinton está oficialmente na disputa, então. Não é surpresa para ninguém. E você sabe o que virá: tentativas intermináveis de psicanálise da candidata, tentativas intermináveis de determinar a importância do que ela diz ou não diz sobre o presidente Barack Obama, e preocupação obsessiva com o "posicionamento" dela sobre essa e aquela questão.
Por favor, não preste atenção a nada disso. Análise política baseada em personalidades é sempre uma empreitada dúbia –em minha experiência, os sabichões da análise política são sempre péssimos juízes de caráter. As pessoas com idade suficiente para recordar a eleição de 2000 devem lembrar igualmente de que as análises nos garantiam que George Bush filho era um sujeito afável que seguiria políticas moderadas e bipartidárias.
De qualquer forma, jamais houve um momento na história dos Estados Unidos em que os supostos traços pessoais dos candidatos importassem menos. Ao nos encaminharmos a 2016, os dois grandes partidos estão bastante unidos quanto às grandes questões de política pública –e essas posições unidas estão bem distantes uma da outra.
O imenso e substantivo espaço que separa os partidos será refletido nas posições políticas de quem quer que eles venham a indicar, e quase certamente será refletido nas políticas que virão a ser adotadas pelo eventual vencedor.
Por exemplo, qualquer democrata que venha a ser eleito buscaria manter os programas básicos de seguridade social norte-americanos –Previdência Social, Medicare e Medicaid– basicamente em sua forma atual, e preservaria e tentaria expandir a Lei de Acesso à Saúde.
Qualquer republicano tentaria destruir o Obamacare, realizar cortes profundos no Medicaid e provavelmente tentaria converter o Medicare em um sistema de vales de custeio para tratamento privado.
Qualquer democrata manteria os aumentos de impostos para os norte-americanos de alta renda que entraram em vigor em 2013 –e provavelmente buscaria novos aumentos. Qualquer republicano tentaria cortar os impostos dos ricos– os republicanos da Câmara dos Estados planejam votar na semana que vem um projeto de lei que abole o imposto sobre heranças –e cortaria programas que ajudam as famílias mais pobres.
Qualquer democrata tentaria preservar a reforma financeira de 2010, que recentemente vem parecendo muito mais efetiva do que seus críticos sugeriam. Qualquer republicano tentaria revertê-la, eliminando tanto a proteção ao consumidor quanto a regulamentação dirigida a instituições financeiras de grande porte e "sistemicamente importantes".
E qualquer democrata tentaria seguir adiante com ações quanto à mudança do clima, por meio de decretos presidenciais se necessário, enquanto qualquer republicano -quer seja, quer não seja ele mesmo uma das pessoas que negam as conclusões da ciência do clima– bloquearia os esforços para limitar as emissões de gases causadores do efeito estufa.
Como é que os partidos se afastaram a esse ponto? Os cientistas políticos sugerem que a resposta tem muito a ver com a desigualdade de renda. À medida que os ricos enriquecem ainda mais, se comparados a todas as demais pessoas, suas preferências políticas caminham para a direita –e isso arrastou o Partido Republicano ainda mais nessa direção.
Enquanto isso, a influência do dinheiro grosso sobre os democratas pelo menos se erodiu um pouco, agora que Wall Street, furiosa com a regulamentação do setor financeiro e os modestos aumentos de impostos adotados, desertou em massa do partido. O resultado é um nível de polarização política que não se vê desde a guerra civil.
Haverá pessoas que não vão gostarão de admitir que as escolhas são tão severas quanto retratei, na eleição de 2016.
Comentaristas políticos que se especializam em cobrir personalidades e não questões rejeitarão a asserção de que sua área de conhecimento em nada importa. As pessoas que se dizem centristas buscarão um território comum que na verdade não existe.
E como resultado ouviremos muitas afirmações de que os candidatos na verdade não querem dizer aquilo que afirmaram.
No entanto, haverá uma assimetria na maneira pela qual essa suposta distância entre retórica e realidade será apresentada.
De um lado, suponha que Hillary de fato seja a indicada do Partido Democrata. Caso isso se confirme, você pode ter certeza de que ela será acusada, já desde o começo da campanha e repetidamente, de insinceridade, de não ser a progressista populista que diz ser.
Do outro lado, suponha que o indicado do Partido Republicano seja um suposto moderado como Jeb Bush ou Marco Rubio. Em qualquer dos casos, veremos muitas afirmações dos sabichões políticos no sentido de que o candidato não acredita muito naquilo que estará dizendo.
Mas no caso deles essa insinceridade será apresentada como virtude e não com o vício –tudo bem, Bush está mesmo dizendo coisas insanas sobre a saúde, mas não acredita nelas de verdade, e se comportará de modo razoável quando estiver no poder. Exatamente como seu irmão.
Você provavelmente deve ter percebido que tenho medo dos próximos 18 meses, que estarão repletos de sonoras declarações e fúria, significando nada.
Bem, creio que poderemos discernir algumas coisas –como é que Hillary se posicionará sobre acordos comerciais, a exemplo da Parceria Transpacífico? Qual será a influência dos republicanos que detestam o Federal Reserve?–, mas as diferenças entre os partidos são tão claras e dramáticas que é difícil que qualquer pessoa que esteja acompanhando as questões ainda se sinta indecisa, a esta altura, ou possa ser convencida a mudar de ideia daqui até a eleição.
Uma coisa é certa: Os eleitores dos Estados Unidos terão uma escolha real a fazer. Que o melhor partido vença.

Texto de Paul Krugmann, na Folha de São Paulo. Tradução de Paulo Migliacci.

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