sexta-feira, 12 de julho de 2013

Prosperidade filipina exclui os mais pobres

Prosperidade filipina exclui os mais pobres
Por FLOYD WHALEY

MANILA - Quando está na sua banca de verduras, Lamberto Tagarro fica cercado por reluzentes arranha-céus e carros de luxo. "As Filipinas são o tigre econômico em ascensão na Ásia", disse Tagarro, que ganha o equivalente a US$ 5 por dia. "Mas só os ricos estão subindo."
O país, cujo PIB registrou uma expansão anual de 7,8% no primeiro trimestre de 2013, tem a economia que mais cresce no leste da Ásia: seu mercado acionário está aquecidíssimo, a moeda local é forte e as agências internacionais de avaliação de crédito elevam consistentemente a nota filipina.
Mas a exclusão de Tagarro da recente onda de prosperidade nacional reflete a experiência de muitos filipinos, segundo os últimos dados governamentais sobre pobreza e emprego.
Estima-se que 7 milhões de filipinos, ou cerca de 17% da força de trabalho, tenham partido para o exterior em busca de empregos, segundo o Banco Asiático de Desenvolvimento. O desemprego no arquipélago subiu de 6,9%, em abril de 2012, para 7,5%, no mesmo mês deste ano. Cerca de 3 milhões de filipinos que desejam trabalhar estão desempregados.
Em seus primeiros três anos no cargo, o presidente Benigno Aquino 3° afastou funcionários públicos graduados acusados de corrupção, reprimiu sonegadores e cortejou agressivamente os investimentos estrangeiros. Mas ele teve menos sucesso no combate à pobreza, que é persistente e generalizada no país. Adversários políticos de Aquino disseram antes das recentes eleições legislativas que ele enriqueceu os ricos e rejeitou os pobres.
As Filipinas continuam tendo um sólido setor de serviços. Recentemente, o país ultrapassou a Índia como principal polo internacional de call centers. No entanto, o país carece da base industrial que tirou milhões de pessoas da pobreza em outros países asiáticos.
Os dados mais recentes sobre a pobreza no país, divulgados em abril, mostram que quase não houve avanços desde 2007. Cerca de 10% dos filipinos vivem na pobreza extrema, incapazes de suprir suas necessidades alimentares mais básicas.
Segundo estimativas governamentais, mais de 9 milhões de famílias filipinas extremamente pobres são incapazes de auferir a renda mensal de 5.460 pesos (US$ 135) necessária para a alimentação. Essa quantia é similar ao preço cobrado pelo ingresso para o último show do Aerosmith em Manila, capital das Filipinas.
Recente levantamento de um instituto de Manila mostrou que 19,2% dos entrevistados -o equivalente a 3,9 milhões de famílias- declaram passar fome.
A pobreza rural é particularmente aguda. O setor pesqueiro, que encolheu, é o mais atingido.
O pescador Joel Cesista, 26, que sustenta a mulher e um filho pequeno, mora a oeste de Manila. Ele não encontrou emprego em fábricas e não tem terras para cultivar, então embarca cerca de duas vezes por mês em um perigoso esforço para encontrar atum a 320 km de distância, no mar do Sul da China, ganhando cerca de US$ 200 numa boa viagem. "Não há trabalho permanente aqui", disse Cesista. "Só temos a pesca."
Quando os gastos superam a produção pesqueira, ele não ganha nada. Muitas vezes, fica satisfeito só por voltar vivo para casa. "Já quase afundamos em tempestades", disse. "Não temos rádio nem ninguém para nos resgatar, exceto outros pescadores."
Desde 2008, com apoio de organizações internacionais, o governo filipino tem um programa de transferência de renda, dando dinheiro às pessoas mais pobres do país em troca de contrapartidas, como a presença dos filhos na escola. O programa, que beneficia quase 4 milhões de famílias, recebe avaliações positivas, mas também está cercado por acusações de corrupção e não demonstrou ter efeito sobre as cifras nacionais de pobreza.
Julita Cabading, 56, esperava receber ajuda. Ela disse que não conseguiu mais trabalho como contabilista porque os patrões preferem contratar pessoas mais jovens e ela não teve condições de arcar com uma formação que melhorasse sua capacitação profissional. Cabading ganha cerca de US$ 3 por dia vendendo jornais e chicletes em Manila. Quando ela se inscreveu para receber o benefício, foi informada de que precisaria esperar até dois meses em casa por uma entrevista.Depois disso, contraiu um empréstimo. Ela caiu em uma armadilha comum, trabalhando em troca de um salário de subsistência para sobreviver e pagar as dívidas.
"As Filipinas estão melhorando", disse Cabading. "Mas isso ainda não chegou até nós."


Reprodução do The New York Times, na Folha de São Paulo.

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