quarta-feira, 2 de abril de 2014

Historiador Jacques Le Goff morre aos 90

Historiador Jacques Le Goff morre aos 90
Integrante da escola que incluiu as ciências sociais no estudo da história, francês renovou o gênero biográfico
Estudioso se dedicava às relações sociais e às transformações intelectuais da Europa nos séculos 12 e 13
SYLVIA COLOMBODE SÃO PAULO

Morreu ontem, no hospital Saint-Louis, em Paris, aos 90 anos, o historiador francês Jacques Le Goff. Integrante de uma escola de pensamento que renovou o estudo da história no século 20, o pesquisador, nascido na cidade de Toulon, influenciou estudiosos também no Brasil.
Le Goff integrou a terceira geração da chamada Escola dos Annales, criada no final dos anos 1920 por Marc Bloch (1886-1944) e Lucien Febvre (1878-1956), em torno da publicação "Annales d'Histoire Economique et Sociale".
Em contraposição à chamada "história positivista", vinculada à enumeração de datas, a biografias de homens notáveis e à predominância do relato dos vencedores, os integrantes dos Annales se interessaram em apreender fenômenos de "longa duração".
A isso se referiam ao tratar das transformações das "mentalidades", ou seja, do imaginário dos homens através da história. De um ponto de vista prático, isso significou integrar ao estudo clássico da história instrumentos e documentos relacionados a antropologia, arqueologia e outras ciências sociais.
"Ele antropologizou' a história", afirmou o historiador e editor francês Pierre Nora. "Foi o último dos grandes."

BIOGRAFIAS

Le Goff dedicou-se, em linhas gerais, ao estudo da vida material, das relações sociais e transformações intelectuais da Europa nos séculos 12 e 13. Entre seus trabalhos mais importantes, estão "O Nascimento do Purgatório" e as biografias do rei Luís 9º, da França, e de são Francisco de Assis.
No caso das biografias, Le Goff defendia uma renovação do gênero. Em vez de elencar feitos do sujeito, o estudo biográfico deveria desenhar sua relação com o contexto à exaustão, retratar não só o indivíduo como as sociedades que o geraram. Segundo Le Goff, esse formato de biografia aproximava-se do que chamava de "história total".
Sobre suas biografias, disse à Folha: "A época em que vivem meus heróis' é também o período de emergência de uma concepção de indivíduo. Antes se dizia que a Idade Média cristã não conhecia o indivíduo, uma problemática interessante que levantou minha atenção".
Era defensor da ideia de que considerar o período que vai do século 4 ao 15 como "Idade Média" era depreciativo e sugeria que a época teria sido um período de trevas.
Em sua visão, havia sido um tempo de renovação intelectual no período, refletido num novo modo de os ocidentais relacionarem-se com a religião, o dinheiro e o conhecimento, além de transformações do papel da mulher e da organização da família.

USP

Também foi membro da Escola dos Annales Fernand Braudel (1902-1985), que nos anos 1930 participou do grupo de estudiosos estrangeiros que ajudaria a fundar a escola de humanidades da USP.
Por conta disso, o curso de história da universidade paulista manteve como referência o trabalho dos Annales. Le Goff, assim como Phillippe Ariés (1914-1984) e Georges Duby (1919-1996) foram muito lidos por estudantes.
Em entrevista à Folha em 2001, Le Goff declarou que o movimento iniciado por seu grupo seria completado pela globalização, resultando numa "desocidentalização" da história.
Le Goff mantinha a preocupação de divulgar a história fora do ambiente universitário. Além de um programa na rádio estatal francesa, foi ainda consultor de várias produções para a TV e o cinema, entre elas, "O Nome da Rosa" (1986), baseado em livro de Umberto Eco e estrelado por Sean Connery.

Reprodução da Folha de São Paulo


Francês transformou olhar de acadêmicos sobre Idade Média

JOÃO BATISTA NATALICOLABORAÇÃO PARA A FOLHA

O historiador Jacques Le Goff foi um dos mais influentes intelectuais do século 20. Por meio de seus livros e da revista "Annales", transformou o olhar do meio acadêmico sobre a Idade Média.
Le Goff, autor de livros como "Uma Breve História da Europa", seguiu o caminho aberto, na França, pelos historiadores Marc Bloch e Lucien Febvre, que desde o final da década de 1920 trilharam uma via intermediária para o estudo da história.
Não se tratava mais de alinhavar biografias edificantes que pudessem servir moralmente de exemplo para o homem contemporâneo (os santos dentro do catolicismo, por exemplo) ou então, e na esteira do marxismo, de colocar em primeiro plano a economia e estudar os conflitos gerados pela escassez.
O grupo dentro do qual Le Goff surgiu, também chamado "Nova História", valorizava as mentalidades, incorporava a antropologia à leitura de velhos manuscritos, identificava hierarquias paralelas ao esfacelado poder político medieval. As pertinências das pesquisas se deslocavam.
No livro "Os Intelectuais na Idade Média" (1957), por exemplo, estudou o cotidiano estudantil no século 13 e não os teólogos influentes naquela época.

SISTEMAS ORIGINAIS

Com Le Goff, a Idade Média deixou de ser vista como um longo período que colocou o progresso entre parênteses e, com suas supostas "trevas", serviu apenas de penoso caminho da humanidade na direção do Renascimento.
O historiador não apenas fazia uma espécie de arqueologia das mentalidades que coexistiam na Europa. Ele também as considerava sistemas originais, das quais o século 16 e o mercantilismo seriam bons herdeiros.
Abordou os banqueiros, o dinheiro, as percepções diferenciadas de Deus, o nascimento do purgatório dentro do cristianismo ou a relação entre os santos, reis e heróis.
Uma exceção nessas pinceladas de cores múltiplas foi sua biografia "São Luís" (1996), porque Luís, como rei da França, gerou imagens poderosas que enriqueceram e nutriram a mentalidade do homem medieval.
Nascido em Toulon, era filho de um professor secundário e militante anticlerical. Passou em 1945 o concurso de ingresso à Escola Normal Superior --que forma a elite docente francesa-- e, já como historiador, interessou-se pela temática medieval. Pesquisou arquivos em Praga, Roma ou Oxford.
Foi um dos protegidos do historiador francês Fernand Braudel (1902-1985), que o convidou para ser bolsista da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais, da qual foi diretor entre 1972 e 1977.
Fortaleceu essa instituição um tanto órfã no organograma do ensino superior e da pesquisa francesa, espremida entre as universidades e as grandes escolas, como a "Normale Sup".
Para um país polarizado politicamente, Le Goff nunca deixou de ser um homem de esquerda. Tinha ojeriza pelo Partido Comunista e pela União Soviética. Dizia-se socialista e, nos anos 1960, chegou a se filiar ao PSU (Partido Socialista Unificado), cisão à esquerda do atual Partido Socialista.


Reprodução da Folha de São Paulo


BIBLIOTECA JACQUES LE GOFF

Principais livros publicados no Brasil

"HOMENS E MULHERES DA IDADE MÉDIA" (2014)
EDITORA Estação Liberdade
TRADUÇÃO Nícia Adan Bonatti
QUANTO R$ 115 (448 págs.)
Organizado pelo historiador, o livro apresenta 112 personagens notórios do período e procura demonstrar que a Idade Média foi mais progressista do que se imagina hoje

"HERÓIS E MARAVILHAS DA IDADE MÉDIA" (2010)
EDITORA: Vozes
TRADUÇÃO: Stephania Matousek
QUANTO: R$ 56,60 (336 págs.)
O livro explora o imaginário medieval por meio de personagens famosos (El Cid, o rei Artur, Robin Hood e o mago Merlin)e três tipos de edifícios que dominam a sociedade (a catedral, o castelo e o claustro)

"A IDADE MÉDIA E O DINHEIRO" (2014)
EDITORA Civilização Brasileira
TRADUÇÃO Marcos de Castro
QUANTO R$ 35 (272 págs.)
O autor examina de que maneira o cristianismo determinou a atitude que adotamos em relação ao dinheiro e ao uso que fazemos dele

"SÃO FRANCISCO DE ASSIS" (1999)
EDITORA Record
TRADUÇÃO Marcos de Castro
QUANTO: R$ 42 (256 págs.)
Le Goff disseca, em quatro ensaios, o que considera o primeiro santo moderno da Igreja Católica

"O DEUS DA IDADE MÉDIA" (2007)
EDITORA Civilização Brasileira
TRADUÇÃO Marcos de Castro
QUANTO R$ 28 (128 págs.)
A partir de entrevista com o jornalista Jean-Luc Pouthier, aborda as representações divinas por meio da Igreja "? principal poder dominante da sociedade feudal "?, instituições políticas, arte e cultura

"SÃO LUÍS" (1999)
EDITORA Record
TRADUÇÃO Marcos de Castro
QUANTO: R$ 82 (882 págs.)
Biografia do rei que governou a França entre 1226 e 1270

"POR AMOR ÀS CIDADES" (1998)
EDITORA Unesp
TRADUÇÃO Reginaldo Corrêa de Moraes
QUANTO R$ 55 (160 págs.)
O historiador traça uma série de paralelos entre as cidades contemporâneas e as medievais

"A HISTÓRIA NOVA" (1990)
EDITORA Martins Fontes
TRADUÇÃO Eduardo Brandão
QUANTO R$ 71,12 (438 págs.)
Reproduz a parte fundamental da "La Nouvelle Histoire", publicada em 1978 sob a direção de Le Goff

Reprodução da Folha de São Paulo

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