quinta-feira, 13 de junho de 2013

Lembranças das festas juninas


Nos dias de nostalgia, penso que perdemos o carnaval de salão e as guerras de bisnaga de água nas ruas em distantes meses de fevereiro de aparente inocência. Perdemos também o melhor das festas juninas. Certamente é um exagero da minha parte. Tudo isso se conserva de alguma maneira. Em Palomas, quando eu era criança e acreditava na alma dos pássaros, os santos e as festas juninas eram muito populares. São Pedro vivia em todas as bocas por causa do tempo e da morte. Por qualquer coisa já se ia dizendo com uma mescla de humor e de seriedade:
– Que São Pedro te receba com a porteira aberta no céu.
São João era o mais popular. Ao menos, em junho. As fogueiras crepitavam fazendo minha tia Olga apavorar-se. Eu não entendia o medo dela. As casas eram cobertas de palha. No seu desespero, ela clamava pelo seu protetor:
– Que Santo Antônio nos proteja desse desatino todo.
Encontrava-se uma sabedoria profunda no apego dos mais simples aos seus santos e crenças. Tinha algo de uma negociação cotidiana com o infinito, com o transcendente, com o misterioso. Gosto de ler sobre as qualidades atribuídas a cada santo. A internet tornou-se um manancial de comentários sobre a vida desses suspostos intermediários da relação com Deus. Santo Antônio é “considerado padroeiro dos amputados, dos animais, dos estéreis, dos barqueiros, dos velhos, das grávidas, dos pescadores, agricultores, viajantes e marinheiros; dos cavalos e burros; dos pobres e dos oprimidos; é padroeiro de Portugal, e é invocado para achar-se coisas perdidas, para conceber-se filhos, para evitar naufrágios, para conseguir casamento”.
Tem algo de sublime ou de fantástico nessa lista.
Protetor dos barqueiros, dos pobres e oprimidos, dos cavalos e dos burros. Invocado para evitar naufrágios, para arranjar casamentos e gerar filhos. Pobre do Santo Antônio. Quantas missões impossíveis. Confesso que eu não sabia dessa proteção aos burros, que acho justa. Tenho sido chamado de burro tantas vezes na vida, especialmente quando tenho razão ou algum lampejo de inteligência, que poderia ser devoto de Santo Antônio. O problema é que os ataques costumam vir de cavalos, também protegidos pelo mesmo santo. Creio, porém, que a proteção, nesse caso, só se aplica aos quadrúpedes que não falam. Brincadeira. Quando abriram seu túmulo de Santo Antônio, encontraram sua língua “incorrupta”.
Deve ser por isso que não há mais santos hoje. Intelectuais áridos costumam ver só ignorância e superstição nesse culto a tantos santos.
Há mais do que isso. Nessas devoções aparecem vários sintomas: necessidade de uma relação mais “palpável” com o metafísico, aceitação de nossa pequenez no mundo, declaração de nossa impotência, solidão e desejo de amparo, abertura para o maravilhoso, para o incomensurável e para o desejo de justiça, de compensação, de reorganização da vida a partir da superação das suas mazelas. Eu não sei se os santos falam com Deus ou se, de fato, atuam como nossos porta-vozes. Espero que sim. Sei que na devoção a eles há uma sinceridade que torna a humanidade mais humana. A religiosidade é essa capacidade de estar aquém e além do verdadeiro e do falso.
Uma janela para a eternidade.
Ou uma maneira de enfrentar a realidade.


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