terça-feira, 18 de junho de 2013

China colhe benefícios do petróleo no Iraque


BAGDÁ - Desde a invasão liderada pelos Estados Unidos em 2003, o Iraque se tornou um dos maiores produtores de petróleo do mundo. Hoje, a China é seu maior cliente.
A China compra quase a metade do petróleo produzido no Iraque, cerca de 1,5 milhão de barris por dia, e está querendo uma parcela ainda maior, com uma proposta de participação na Exxon Mobil em um dos maiores campos de petróleo do Iraque.
"Os chineses são os maiores beneficiários do boom do petróleo pós-Saddam", disse Denise Natali, especialista em Oriente Médio na Universidade de Defesa Nacional em Washington.
As companhias estatais chinesas levaram centenas de trabalhadores para o Iraque e despejaram no país mais de US$ 2 bilhões por ano. Elas se mostraram dispostas a seguir as regras do novo governo iraquiano e aceitar lucros mais baixos para conseguir contratos.
"Nós perdemos", disse Michael Makovsky, ex-autoridade do Departamento de Defesa dos EUA no governo Bush que trabalhou na política do petróleo no Iraque. "Os chineses não tiveram nada a ver com a guerra, mas, do ponto de vista econômico, eles estão lucrando com ela e nossa Quinta Frota e a força aérea ajudam a garantir seu abastecimento."
No deserto perto da fronteira do Iraque, a China construiu recentemente um aeroporto para levar trabalhadores para os campos de petróleo no sul do país. Há planos de começar em breve voos diretos de Pequim e Xangai para Bagdá. Os executivos chineses impressionam seus anfitriões falando árabe com sotaque iraquiano.
A China aceita as condições do Iraque, o que gera lucros mínimos, porque está mais interessada em energia para alimentar sua economia do que em lucros para enriquecer suas gigantes do petróleo.
As empresas chinesas não têm de responder a acionistas, pagar dividendos ou mesmo gerar lucros. Elas são ferramentas da política de Pequim para garantir o suprimento de energia à sua enorme população.
No final do ano passado, a Corporação Nacional de Petróleo da China fez uma proposta de participação de 60% no campo de petróleo de West Qurna I. A Exxon Mobil resistiu à pressão para vender, e, em março, a companhia chinesa disse que estaria interessada em formar uma parceria com a americana no campo de petróleo.
A produção iraquiana aumentada, grande parte da qual é bombeada por trabalhadores chineses, protegeu a economia mundial de uma alta nos preços do petróleo resultante das sanções ocidentais às exportações do produto pelo Irã.
O interesse da China pelo Iraque também poderá ajudar a estabilizar o país, que enfrenta um grave conflito sectário.
"Do ponto de vista geopolítico, isso desenvolve laços estreitos entre a China e o Iraque, embora a China não se envolva na política", disse David Goldwyn, coordenador do Departamento de Estado para assuntos internacionais de energia no primeiro governo Obama. "Agora que eles estão lá, têm interesse em garantir a continuidade do regime que facilita seu investimento."
A China tornou-se recentemente o maior importador mundial de petróleo. Ela está investindo em campos de petróleo e gás em todo o mundo -US$ 12 bilhões em 2011, segundo o Departamento de Energia dos EUA.
O Iraque estima que seus campos, gasodutos e refinarias precisam de US$ 30 bilhões em investimentos anuais para que o país se torne uma das maiores potências energéticas das próximas décadas.
Mas empresas estrangeiras nem sempre são entusiásticas sobre as condições nacionalistas desfavoráveis do Iraque ou a instável situação de segurança que pode colocar funcionários em perigo. Algumas, como a Statoil da Noruega, deixaram o país ou reduziram suas operações.
Os chineses, frequentemente como sócios de companhias europeias como BP e Turkish Petroleum, ocuparam o vazio.
"Eles oferecem muito capital e disposição para entrar rapidamente e com grande apetite por risco", disse Badhr Jafar, presidente da Crescent Petroleum, companhia independente sediada nos Emirados Árabes Unidos.


Reportagem de Tim Arango e Clifford Krauss para o The New York Times, reproduzido na Folha de São Paulo

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