quinta-feira, 13 de junho de 2013

Estados Unidos agem como a China ao monitorar cidadãos, diz Ai Weiwei


Embora saibamos que os governos fazem coisas de todo tipo, fiquei chocado com a informação sobre a operação americana de monitoramento Prism.
Vivi 12 anos nos Estados Unidos. Este abuso do poder de Estado se choca completamente com minha visão do que significa ser uma sociedade civilizada, e será chocante para mim se os cidadãos americanos permitirem que isto continue.
Os Estados Unidos têm uma grande tradição de individualismo e privacidade. Em nossa experiência na China, basicamente não existe privacidade. É por isso que a China está tão atrasada em termos de engajamento, imaginação e criatividade.
É claro que vivemos sob condições legais de tipos diferentes. No Ocidente e nos países desenvolvidos, há outras leis que podem contrabalançar ou limitar o uso de informações, se o governo as possui.
Não é o caso na China, e o resultado disso é que os indivíduos são completamente desnudados.
Mesmo assim, se estamos falando de interferência abusiva nos direitos individuais, o Prism faz a mesma coisa.
Ele põe os indivíduos em posição muito vulnerável. Não existe garantia de que a China, os EUA ou qualquer outro governo não façam uso indevido da informação.
Antes da era da informação, o governo chinês podia decidir que uma pessoa era contrarrevolucionária simplesmente por um vizinho ter relatado algo que entreouviu.
Milhares ou até milhões de vidas foram arruinadas pelo uso prejudicial de informações desse tipo.
Hoje, graças às suas capacidades técnicas, o Estado pode facilmente entrar na conta bancária de qualquer um, em sua correspondência particular, suas conversas e suas contas de mídia social.
Quando Estados opressores prendem pessoas, eles frequentemente já estão de posse dessas informações.
Elas podem ser usadas como maneira de controlar você, de lhe dizer "sabemos exatamente o que você anda pensando ou fazendo".
Isso pode levar as pessoas à loucura.
Quando ficamos com medo e sentimos que tudo está exposto ao governo, nos censuramos para nos impedirmos de pensar livremente. Isso é perigoso para o desenvolvimento humano.
Na União Soviética no passado, na China hoje e até mesmo nos Estados Unidos, as autoridades sempre pensam que o que fazem é necessário, acreditando com firmeza fazer o que é melhor para o Estado e o povo.
Mas a lição que as pessoas deveriam aprender com a história é a necessidade de limitar o poder de Estado.
Se um governo é eleito pelo povo e está genuinamente trabalhando pelo povo, não deve ceder a essas tentações.
Limitar o poder é proteger a sociedade. Não se trata apenas de proteger os direitos de indivíduos, mas de tornar o poder mais salutar.
A civilização é construída sobre essa confiança, e todos precisamos lutar para defendê-la e proteger nossos aspectos vulneráveis --nossos sentimentos interiores, nossas famílias.
Não devemos entregar nossos direitos a outras pessoas. Esse tipo de confiança não deve ser dada a nenhum poder de Estado.
Não à China. Não aos Estados Unidos.


Texto de Ai Weiwei, artista chinês, para o The Guardian, reproduzido na Folha de São Paulo. Tradução de Clara Allain.

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