sábado, 13 de maio de 2017

Por você, meu futuro filho, tive que falar em espermograma

Por você, meu filho, mudei totalmente a minha vida. Há exatos oito meses tenho uma dor horrível no primeiro molar inferior esquerdo, mas achei melhor não fazer raio-x. Vai que te faz mal. Amo ansiolítico mais do que minha própria existência, mas nunca mais encostei em um. Por você, que nem existe, que ainda é só uma promessa de um amontoadinho de células todo dia 20 de cada mês, deixei de lado uma das coisas mais maravilhosas que pode acontecer na vida de uma mulher: ser solteira.
Por você, pequeno Felipe ou pequena Joana. Pequena Marieta ou Rita ou Anita. Meu pequeno João ou Nuno. Pequena Olímpia? Por você, minha gaveta de joias virou depósito de exames de gravidez. Minha espontânea vida sexual virou dia e hora certos (certos pra você, nunca pra mim). Por você fui capaz do maior milagre de todos: sou uma taurina histérica, carente e com pouca autoestima que aprendeu a guardar dinheiro. Sim, uso blusas com um pequeno furo remendado no sovaco e calças com a bunda puída. Você insiste em adiar nosso amor e eu já garanti parte do seu futuro.
Por você tive que falar em espermograma com um homem que estava há mais de 20 anos sem chegar perto de um laboratório. Por você enfiei um troço fosforescente no meu útero (ou era ovário?). Por você fiz um exame estranho que mede a idade do meu ovário (ou era útero?). Por você tomo Endofolim como se fosse 7Belo.
Já orcei a transformação do meu escritório em seu quarto. Já aumentei pra três vezes por semana as sessões de terapia (pra garantir que eu não surte e precise de ansiolíticos quando você aparecer dentro de mim). Por você eu parei de contar parceiros e desencantos e passei a contar óvulos e metros quadrados.
Parei de levar choques no fisioterapeuta, parei de fazer laser nas manchas de sol, parei de fazer botox, preenchimento, luzes, corrente russa, clareamento nos dentes e progressivas. Parei de fazer intrigas, divórcios e DSTs. Você ainda nem existe, mas eu sempre penso "e se ele já existe há dois segundos?". Ainda não.
Todo dia 20 você me pede mais um tempo. E eu sigo babando nos 784 filhos de amigos. O Instagram inteiro tem filhos. O Facebook inteiro tem filhos. Os vizinhos, as pessoas nas ruas, nas lojas, nas filas duplas. O mundo inteiro está grávido, meu filho, menos mamãe.
Por você eu perdi o medo de avião (não quero te passar nenhum trauma), estou estudando psicanálise (não quero te passar nenhum trauma) e joguei fora minha coleção de pênis de pelúcia (não quero te passar nenhum trauma). Eu levo a minha cachorra para brincar no parquinho do prédio e coloco ela sentadinha no gira-gira. Sim, ela já aprendeu a descer sozinha no escorregador. Eu sei, dá medo me conhecer, mas vai valer a pena.
Por você, meu filho, parei de ver graça em toda a sorte de piores espécimes masculinos do universo. Casados, misóginos, mitômanos, mendigos, publicitários. E passei a amar alguém que fica pra dormir por uma noite e também por quatro anos.
Até os 37 anos eu tive 17 anos. Por você, pela primeira vez na vida, ao fazer 38 anos, eu fiz 38 anos. Você esqueceu de aparecer no dia do meu aniversário, não tem problema. Faltará também nesse Dia das Mães, te perdoo. Mas Natal é Natal.


Tati Bernardi, na Folha de São Paulo

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