terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Jesus não é só um objeto de fé, mas também um campo acadêmico de estudos


Jesus existiu? Essa pergunta, hoje, não é só ultrapassada, ela é cafona. Até o século 19, existiam autores que tentaram pôr em dúvida a existência histórica de Jesus Cristo, mas, hoje, ninguém sério mais faz isso.

Claro que uma coisa é você saber que houve um judeu chamado Jesus no período do segundo templo de Jerusalém, no qual a Israel antiga estava sob o domínio romano. Outra é você crer que ele ressuscitou. Este relato já não faz parte do conjunto de evidências que sustentam a existência histórica de Jesus de Nazaré.

Por outro lado, narrativas como aquela em que o discípulo cético Tomé pede a Jesus que mostre a ele suas chagas para que ele as toque, a fim de provar que Jesus havia voltado da morte com seu próprio corpo, é orgânica com o conjunto de crenças judaicas da época.

Para os judeus, vencer a morte era voltar dela com o corpo —e não apenas vagar por aí como uma alma penada. Espíritos de mortos vagando no mundo tinham em toda esquina. Quem criou essa narrativa conhecia esse conjunto de crenças da época.

A fortuna crítica sobre Jesus é vastíssima e de alto nível. Para quem estuda religiões, é sabido que o substantivo "religião" tem vários sentidos. Por exemplo, religião é uma coisa para uma senhorinha católica que reza o terço e vai à missa. É outra coisa para o rabino estudioso e responsável pela vida espiritual de uma comunidade judaica. E ainda outra para um estudioso do fenômeno histórico que costumamos chamar de religião para facilitar o entendimento entre nós.

Em português, temos alguns volumes excelentes sobre o personagem histórico e o seu contexto social, político e espiritual.

O livro "Jesus Fora do Novo Testamento: Uma Introdução às Evidências Primitivas" de Robert R. Van Voorst, da editora Biblioteca Teológica, é rico no tratamento do personagem histórico Jesus a partir de fontes clássicas, judaicas, canônicas e pós-canônicas.

O livro "Jesus", do historiador israelense David Flusser, pela editora Perspectiva, é indispensável. Entre outras características, um dos eixos argumentativos centrais é a constatação de que o que está descrito nos evangelhos sinóticos —Marcos, Mateus e Lucas— é historicamente consistente com a época, seja em suas estruturas de poder dentro da sociedade israelita de então, seja no tocante ao ensino de um judeu típico da sua época, como era Jesus.

Aquele mais tarde chamado de "O Cristo" —o ungido—, ao contrário do que muita gente pensou e pensa por aí, era um judeu "liberal" que nunca pensou em inventar nenhuma religião nova.

Vale lembrar que, naquele tempo, o judaísmo era uma religião como qualquer outra. Isto é, qualquer um poderia se tornar judeu sem toda a questão da linhagem matrilinear tão conhecida atualmente. A rigor, a ideia de partida era trazer novos convertidos para o messias judeu recém-chegado.

Outro fator importante é que o termo "o Cristo", ou "o ungido", era uma categoria política. Por isso, os romanos olhavam com desconfiança —ungido era o rei de Israel, visto naquele momento como um possível inimigo do imperador. Não foi à toa que colocaram na cruz, em forma de deboche, que Jesus era o rei dos judeus.

Outro título, esse escrito por especialistas do Brasil na área, é o volume "Jesus de Nazaré: Uma Outra História", da editora Anna Blume, com apoio da Fapesp, organizado por André Leonardo Chevitarese, Gabrielle Cornelli e Mônica Selvatici. Distante de qualquer tratamento teológico ou movido pela fé, a coletânea traz um olhar "outro", ou mesmo "estranho", para o personagem histórico antigo, o "homem divino da Galileia".

Um volume essencial que temos traduzido no Brasil é "O Jesus Histórico: Um Manual", organizado por Gerd Theissen e Annette Merz, pela editora Loyola. Este volume enfrenta todos os campos de estudos acadêmicos sobre a figura histórica de Jesus: as fontes cristãs e não cristãs, a avaliação dessas fontes, o contexto da época, as relações políticas, as diversas figuras do Cristo, o messias judeu para alguns, herege para outros, o curador de doenças e milagreiro, o profeta, o líder político, o rebelde, o mestre de sabedoria, o Jesus histórico como fonte da cristologia nos primórdios do cristianismo.

Há estudos também da igreja primitiva em tradução no Brasil, como os três volumes magistrais de James D. G. Dunn, "O Cristianismo em seus Começos", pela editora Paulus.

Enfim, Jesus não é só um objeto de fé, ele é um campo acadêmico de estudos de peso, que exige uma vasta erudição e muito folego. Um campo atravessado por polêmicas ricas, estimulantes e intermináveis.


Reprodução de texto de Luiz Felipe Pondé na Folha de São Paulo

quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

Derrota de Lula ou vitória do Congresso desnaturado?


derrubada dos vetos do Planalto ao projeto apelidado de PL da Devastação, que deu origem à lei 15.190, oferece prova cabal de que o Brasil está em surto. Após todo o oba-oba da COP30, bastaram cinco dias para o Congresso rifar as florestas da potência verde e com isso turbinar a crise do clima.

Analistas políticos só fazem destacar as derrotas de Lula. É como se, diante dos incêndios que mataram ao menos 128 em Hong Kong, os jornais privilegiassem espaço para responsabilizar Xi Jinping, pois o fogo não se propagaria se ele tivesse proibido os andaimes de bambu usados há séculos no antigo enclave britânico.

Os bambus incendiários, aqui, vicejam no latifúndio ruralista do Congresso, cuja milícia manteve o meio ambiente sequestrado a ferro e fogo pelos últimos 525 anos. Uma chusma de parlamentares do ogronegócio que, não por acaso, tem alto grau de intersecção com o centrão e a extrema direita bolsonarista.

Não se trata só de retaliação de políticos com a folha corrida de Davi Alcolumbre e Hugo Motta. OK, eles estão de mal com o presidente. O primeiro porque Lula indicou o chapa Jorge Messias para o Supremo, e não o seu chapa; o outro, porque se magoou com a reação à escolha de um ex-policial investigado por 16 homicídios para relatar o PL Antifacções.

Tal é a estatura dos presidentes das casas, que se deixaram rebaixar ao nível de chantagistas. Inebriados com o poder e a corrupção das emendas clandestinas do orçamento secreto instituído por Jair Bolsonaro, Senado e Câmara pretendem encurralar um Executivo que —queiram os analistas ou não— tentava evitar o pior das duas legislações irresponsáveis que o Legislativo ousou emplacar.

Há borbotões de absurdos nas propostas parlamentares sobre licenciamento e organizações criminosas que, no frenesi da crônica política rasteira, deixaram de ser debatidos a fundo. As más intenções se evidenciam num elemento comum, o aumento de autonomia de estados e municípios em detrimento do governo federal.

Permitir que níveis inferiores de administração criem suas próprias normas de licenciamento ensejaria um liberou geral para fazendeiros e garimpeiros acelerarem máquinas compradas com emendas parlamentares. Teriam autorização garantida para devastar, mesmo sem aderir ao cadastro ambiental rural (CAR) cujos sucessivos adiamentos lograram até aqui impor.

Na segurança pública, Guilherme Derrite pretendia que a Polícia Federal pedisse licença a Tarcísio de Freitas, Cláudio Castro, Romeu Zema e Ronaldo Caiado para atuar contra organizações criminosas que esses governadores preferem ter sob seu controle eleitoreiro. De quebra, propôs desviar-lhes recursos financeiros da corporação que pôs na cadeia o presidente golpista que os promoveu e elegeu.

Nada se aprendeu com o resultado devastador da licença para matar consagrada durante a ditadura militar, com seus correntões e esquadrões da morte. Nem o desmatamento nem o domínio territorial das facções sobre comunidades foram eliminados por essa política de terra arrasada e chacinas em favelas.

Mas tudo bem, Lula sofreu duas derrotas. Ou foi o Congresso desnaturado que mais uma vez achacou e mutilou o futuro?


Reprodução de texto de Marcelo Leite na Folha de São Paulo

quinta-feira, 4 de setembro de 2025

Anistia não é pacificação; é medo


Anistia é negação da justiça. Em graves violações de direitos humanos ou atentados contra a democracia, anistia não é pacificação, é medo. É o medo que a democracia tem, às vezes, de chamar tortura pelo nome, de chamar invasão do Parlamento de golpe, de chamar morte pela polícia de assassinato.

Guardadas as devidas proporções de cada momento histórico, a função que a anistia executa é a mesma: impunidade certeira.

Torturadores da ditadura não deveriam ter sido anistiados em 1979. Não estaríamos no imbróglio em que o bolsonarismo nos jogou se o time de Ustra e quem o aplaude estivessem na cadeia. A persistência da anistia de 1979 é ilegal porque viola compromissos internacionais do Brasil, apesar de o STF já ter decidido erroneamente sobre o tema. A anistia da ditadura não gerou pacificação alguma (a estrutura militarizada da polícia que o diga). A pacificação que a anistia de 1979 gerou foi o medo do Exército que temos.

Anistia, tampouco, não deveria ser aplicada aos crimes de maio de 2006, por meio da prescrição da indenização de vítimas mortas ou feridas por agentes do Estado. Enquanto a direita flerta com a anistia por golpe, nesta semana o STJ (Superior Tribunal de Justiça) debate se é favorável a outro golpe longe dos holofotes do noticiário: se o Estado e seus agentes devem ser punidos —de forma imprescritível, como são as violações de direitos— por executar civis. A pacificação que a anistia aos crimes de 2006 gera é o medo da polícia.

Anistia não deveria, por fim, ser aplicada em 2025 para conceder impunidade àqueles que buscaram reverter na marra o resultado das eleições e prender opositores. Colocar impunidade em termos de pacificação —como fez Tarcísio de Freitas— implica reencenar a velha prática brasileira de varrer a bomba do autoritarismo para baixo do tapete esperando que ela não exploda eventualmente.

A pacificação que a anistia de 2025 geraria será a certeza de impunidade por novos golpes. Anistia não foi uma boa ideia em 1979 ou em 2006 e não será em 2025.


Reprodução de texto de Thiago Amparo na Folha de São Paulo

No julgamento histórico do golpe, correm no esgoto da história planos de arruinar democracia


Enquanto se espera a sentença do julgamento do golpe, "histórico", continua a correr no esgoto da história o projeto de depredação da República. A extrema-direita e o centrão direitão conspiram para cancelar o Supremo por meio também da anistia. Mas a razia antidemocrática vai além.

A tentativa de reanimar o golpismo teria ganhado força também por meio da articulação política do governador de São PauloTarcísio de Freitas, que diz não confiar na Justiça. Recorde-se que entre os golpistas há integrantes de uma célula terrorista que planejava sequestrar ou assassinar Luiz Inácio Lula da Silva, Geraldo Alckmin e Alexandre de Moraes. A célula chegou a ir às ruas a fim de pelo menos sequestrar Moraes.

Está difícil de discernir os interesses finais dos líderes do centrão direitão. Pretenderiam apenas ("apenas") trocar uma anistia parcial (sem cadeia) por uma retirada dos Bolsonaro da corrida. O objetivo seria arrumar a casa para 2026.

Quanto a Tarcísio, estaria apenas ("apenas") pagando pedágio para Jair Bolsonaro e beijando a mão do padrinho, preço para manter votos no eleitorado bolsonarista. Não é bem ou apenas isso. Tarcísio conversa inclusive com ministros do STF, além dos bolsonaristas.

De qualquer modo, a turma da anistia não se incomoda de dar aval para a transformação do Parlamento em casa de tolerância do golpe.

Diz-se que a anistia não passa no Senado. Que o STF a derruba, ao menos em 2026. Em 2027, poderia haver arranjo, a depender de quem for presidente da República e de quem tiver maioria no Senado, que pode "impichar" ministros do STF. No país de acordões, golpes e insurreição permanente da extrema-direita, convém não ficar confiante.

É fato que o projeto de anistia teve mais adesões. A massa parlamentar está irritada, o que facilita ideias de quebra-quebra institucional. O pagamento de emendas, aquém daquele do ano passado, afeta a massa do Congresso. Parece banal, mas é obviamente importante, basta ouvir anônimos parlamentares. Além disso, massa e seus cabeças se sentem inseguros. Querem votar emendas constitucionais ("PEC da blindagem") a fim de evitar polícia e Justiça. Querem mudança de foro; querem impedir processos e medidas judiciais que não sejam autorizados pelo Congresso, em votações secretas.

Além de se concederem imunidade, criariam incentivos para que o Parlamento se torne refúgio de bandidos candidatos à imunidade. No fundo, trata-se reação a uma década de decisões do STF. A motivação mais recente, que vem de 2024, é o receio de ser pilhado em roubança de emendas ou em lavagem de dinheiro. Líderes do centrão direitão acreditam que Lula mandou a Polícia Federal atrás deles.

Nesse clima de cobiça insatisfeita e medo, a cara de pau fica mais dura. Vicejou a ideia de cancelar a autonomia do Banco Central. Seus diretores ficariam sujeitos a demissão pela Câmara, sem motivos especificados. O motivo imediato seria fazer pressão no BC a fim de favorecer lobbies do negócio da venda do Banco Master para o BRB. Seja lá o que se pense da autonomia do BC, trata-se de projeto oportunista com cara de chantagem. Por falar nisso, os proponentes do monstrengo são adeptos de Tarcísio, o liberal e futuro condutor do "Ponte para o Futuro 2" (o plano de reformas de Michel Temer). Além de acreditar em Bolsonaro e de desacreditar a Justiça, o liberal Tarcísio apoia o sufoco do BC?


Reprodução de texto de Vinicius Torres Freire na Folha de São Paulo

terça-feira, 2 de setembro de 2025

O julgamento do Brasil


No dia seguinte à eleição de Bolsonaro, muitos entre nós acordaram com uma ressaca moral que durou quatro anos. Ninguém anotou a placa do caminhão que nos atropelou com a notícia de que escolhemos o verdugo no lugar do professor.

Era doloroso demais ver o país no espelho representado por essa escolha. Uma eleição honesta, como têm sido todas as eleições pós-ditadura neste país, mostrou a verdadeira face do Brasil, majoritariamente autoritário e afeito a ignorar a própria história.

Numa desconfiança quase paranoica, nos perguntávamos quem na rua, na academia, na fila do supermercado estaria feliz e quem estaria contrariado com o desfecho da campanha. No consultório, o pânico era geral. De um lado, temiam os que esperavam que o presidente cumprisse as atrocidades prometidas nos palanques e entrevistas, de outro, os que imaginavam uma retaliação da oposição, receosos de uma guerra civil.

A esquerda, historicamente demonizada neste país, se calou diante da eloquência das urnas, revelando pendor democrático misturado com estupefação.

A urna eletrônica que elegeu Bolsonaro era a mesma que ele e seus comparsas insistiam em vilipendiar com a intenção de preparar o golpe, imitando o presidente que pensa que América é o nome do seu país, não de um continente. É esse megalomaníaco que serve de farol para a família B., sem escrúpulos de prejudicar uma nação inteira para fugir das consequências dos próprios atos.

A gestão indecente da pandemia, que atravessou boa parte do governo Bozo, foi crucial para que ele não fosse reeleito. A escalada autocrática a que assistimos na maior democracia do mundo nos dá uma boa noção do que nos esperava (espera?) caso seu desgoverno não revelasse tamanha incompetência. Mas é claro que esse projeto não aceita um não como resposta, porque foi feito para transformar cidadãos em súditos.

Nesta terça, 2 de setembro de 2025, o Brasil vai a julgamento. Sua memória, a frágil democracia, as mortes pela Covid que poderiam ter sido evitadas, a ascendência dos militares sobre o Executivo, a impunidade histórica. Tudo isso estará em questão pela primeira vez.

Mais do que julgar um governante desqualificado e seus comparsas pegos com a boca na botija, trata-se de voltar a olhar no espelho para saber se tivemos algum ganho de consciência depois de tanto padecimento. Porque a dor não ensina nada, só embrutece, salvo se nos dedicarmos a encontrar suas causas e enfrentá-las.

Assumir uma posição de resistência diante da ambiguidade nacional é o voto dos otimistas incorrigíveis.

Encontro-me nesse grupo, talvez porque já tenha visto grandes transformações na vida das pessoas comuns, talvez porque o nosso pessimismo é a matéria-prima da qual se alimentam nossos inimigos.

Em geral, é difícil dimensionar um acontecimento histórico enquanto o estamos vivendo. Mas não será simples naturalizar um evento de repercussões internacionais que pode representar o início de uma guinada contra as pretensões da extrema direita mundial.

De minha parte, espero acordar no dia 13 de setembro com a sensação de que venceu nossa versão mais digna.


Reprodução de texto de Vera Iaconelli na Folha de São Paulo

Luis Fernando Verissimo falava muito pouco, mas fazia o Brasil inteiro rir


Luis Fernando Verissimo surgiu no Caderno B do Jornal do Brasil ao mesmo tempo em que, nos Estados Unidos, Woody Allen, já famoso no cinema, se revelava como humorista pela New Yorker. O ano era 1974 e, para alguns, a identidade de estilos era óbvia.

Assim como Woody, Verissimo se punha na posição do observador que via o ridículo ou o absurdo com grande naturalidade. Também como Woody, ele não buscava a gargalhada, mas o riso silencioso. E seus personagens, assim como os de Woody, eram homens e mulheres nascidos não para, mas um contra o outro.

O texto era elegante e conciso, bem diferente do coloquialismo barroco de Nelson Rodrigues e da ferina objetividade de Millôr Fernandes, os dois cronistas mais ativos da época.

Mas Verissimo não devia nada a Woody Allen. A semelhança entre eles se dava por terem em comum as mesmas matrizes —os também americanos Robert Benchley, morto há 80 anos, e S. J. Perelman, que morreu em 1979.

Apesar de vigente nos Estados Unidos desde princípios do século 20, ninguém fazia esse humor no Brasil. Verissimo foi pioneiro —ele próprio se definia como um brasileiro que escrevia "em americano traduzido". Hoje, esse tipo de humor está presente, sem a mesma qualidade, na maioria dos que praticam a comédia stand-up por aqui.

Sem querer, e justamente por admirar o autor, atrasei em um ano a consagração de Verissimo. Em fins de 1975, o Jornal do Brasil criou a Domingo, a primeira revista semanal colorida dentro de um jornal, e seu editor-executivo —eu— quis Verissimo em suas páginas.

Com isso, ele deixou de publicar no jornal, de alcance nacional, e passou a sair só na revista, que, no começo, circulava apenas nos exemplares que se destinavam ao Rio de Janeiro. E assim, durante algum tempo, Verissimo foi um privilégio dos cariocas. Quando foi reincorporado ao jornal, o Brasil o descobriu —e se apaixonou.

Ele conseguiu a proeza de fazer o país rir com um personagem de forte sabor regional, o analista de Bagé. Outra de suas criações, a velhinha de Taubaté —a última pessoa no Brasil a continuar acreditando no regime militar— nos lavava semanalmente a alma. Minha favorita, no entanto, era uma que ele explorava pouco, a ravissante Dorinha Doravante, a socialite socialista, que escrevia ao cronista cartas deliciosamente cínicas.

Verissimo também desenhava (na minha opinião, muito bem) e construiu pequenas grandes sagas em quadrinhos.

A melhor delas, a da família Brasil, com aquele pai perplexo e sem chão, às voltas com a filha moderninha e com o genro hippie e parasita —um porta-voz de muitos de sua geração, que já não se reconheciam muito bem no mundo. Com seus toques de Jules Feiffer no desenho e Neil Simon nos diálogos, a família Brasil teria feito bonito em qualquer jornal do mundo.

Fomos colegas e contemporâneos no Jornal do Brasil, em O Estado de S. Paulo e na revista Playboy e, no decorrer de 40 anos, nos encontramos dezenas de vezes. Mas tudo que dissemos um para o outro, sobre jazz, futebol ou literatura, caberia numa única página.

Verissimo falava pouco. Eu o entendia —com a quantidade de material que tinha de escrever diariamente para jornais e revistas, falar devia parecer a ele uma queima de energia. E ele não abria mão da qualidade, como se pode ver em seus livros —em quase 100% saídos do que produzia para a imprensa.

Adepto de primeira hora do Partido dos Trabalhadores, Verissimo vinha sofrendo ultimamente com seu partido —assunto de que evitava tratar nas colunas. Sofria também cobranças, às vezes agressivas, dos que não pensavam como ele.

Esses agressores não entendiam que, com seu jeito único e intransferível de enxergar a fragilidade humana, Verissimo, na verdade, nunca pensou como ninguém.


Reprodução de texto de Ruy Castro na Folha de São Paulo.

terça-feira, 12 de agosto de 2025

Fãs, amigos e familiares lotam velório de Arlindo Cruz, na Império Serrano


Até as 17h deste sábado, só se ouvia Ludmilla e o seu "Numanice" nos rádios em frente à Império Serrano, na zona norte do Rio de Janeiro. Até que sintonizaram em "O Show Tem Que Continuar", e os fãs espremidos na entrada da escola de samba entoaram o clássico de Arlindo Cruz, sambista morto nesta sexta, aos 66 anos, enquanto aguardavam a abertura do velório do músico, às 18h. Em poucos minutos, o espaço lotou.

gurufim de Arlindo —uma homenagem com música, festa, bebida e dança— acontece na sua escola do coração, que por 11 vezes levou um samba de sua autoria para a avenida e está previsto para virar a madrugada, até 10h do domingo. Depois, às 11h, o sepultamento será no Cemitério Jardim da Saudade, em Sulacap, zona oeste da capital fluminense, numa cerimônia restrita a parentes e amigos próximos.

Além das dezenas de fãs —que cantavam e batiam palmas, acompanhando os atabaques em cânticos de candomblé, religião de Arlindo—, foram lá familiares e amigos próximos, como seus filhos Arlindinho e Flora, Regina Casé, Zeca Pagodinho, Hélio de la Peña, Marcelo D2, Marcos Salles, seu biógrafo e a escritora Conceição Evaristo. Alguns deles participaram de uma despedida mais reservada, antes da abertura para o público.

Arlindinho é requisitado pela imprensa e pelos fãs, que puxam selfies mesmo com o rosto abatido do filho. "Meu pai me ensinou que, desde o momento que colocamos o pé do lado de fora de casa, a gente está trabalhando. Essa é a vida do artista. Então, hoje é um dia de dor, mas também de trabalho. A cerimônia está do tamanho que ele merece, de tudo que ele plantou. Agora é seguir esse legado."

Babi, viúva do músico, chegou por volta das 19h, quando Arlindinho empunhou seu banjo e iniciou o gurufim. Ele e sua filha Maria Helena, neta de Arlindo, entoaram alguns sucessos do sambista, como "O Show Tem que Continuar", "Meu Lugar" e "O Bem".

"É a primeira vez que eu entro na quadra do Império Serrano. Eu desfilei no ano da homenagem, mas não vim para nenhum ensaio", diz Kauan Felipen, filho de Arlindo em outro relacionamento. "E é meio nostálgico, mesmo não tendo vivido aqui. Aqui é o lugar de origem dele, então é um lugar meio místico para mim, bem forte".

O gurufim, porém, não encobre a dor com alegria —desata o nó da garganta através da música. Em volta da grade, os fãs cantam com olhos marejados e narizes fungando na noite fria do Rio.

Uma roda de samba —ou pagode, já que nunca existiu diferença entre os gêneros para Arlindo— começou por volta das 19h30, seguindo com alguns clássicos da rua, como "Agora Viu Que Me Perdeu e Chora", "Pra Ser Minha Musa" e "Meu Poeta".

"Arlindo era o elo entre gerações", diz o cantor e compositor Mosquito. "Era um cara muito antenado, estava na rua o tempo inteiro. Um cara que conhecia a molecada e tinha um respeito pelos grandes. Era um cara generoso, sensível e sagaz ao mesmo tempo".

Perto das 21h, o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes também foi ao velório com Cristina, sua esposa. Eles se juntaram à roda de samba e cantaram abraçados aos familiares do sambista. Com um copo de cerveja na mão, o prefeito atendeu os imperianos. Também esboçou um samba no pé quando a bateria da escola entra na quadra, às 22h20. "Não preciso falar nada. Arlindo é isso aqui, a alma do carioca", disse.

Um pouco antes, por volta das 22h, a viúva Babi voltou ao pé do caixão. Entre lágrimas, recebeu alguns amigos, como André Diniz, Milton Cunha e o músico Leandro Sapucahy, que produziu dois álbuns de Cruz. Para ele, os últimos anos, desde que o sambista sofreu um AVC em 2017, foram de sofrimento pela ausência de uma perspectiva de melhora no quadro de saúde dele.

"Apesar de achar que estávamos nos preparando, quando chega esse momento é difícil. O Arlindo foi muito generoso e importante na minha vida", disse Sapucahy. "Todo mundo fala do Arlindo Cruz poeta, mas acho que as pessoas hoje não tem noção do tamanho da perda. Arlindo era um amigo, que me confortava, que ligava todo dia, que trazia as pessoas para perto."

"O mestre descansou", diz Salles, o biógrafo. "E deixa uma obra e uma trajetória das mais importantes da história da música, da história do samba. Que todos aprendam e prestem atenção nas canções deixadas por Arlindo."

Como pedido pela família, a maioria das pessoas veste roupas claras, em sinal de luz, alegria e da energia positiva que o músico espalhou ao longo de sua vida.

O caixão foi posicionado em frente ao palco da quadra, onde foram espalhadas mais de uma dezena de coroas de flores —com mensagens de nomes como o presidente Lula e da primeira-dama Janja da Silva, além da Beija-flor de Nilópolis—, enquanto um telão mostra imagens do sambista. Sobre o caixão, bandeiras da Mocidade, Grande Rio, Império Serrano e do Flamengo.

Arlindo morreu por falência múltiplos dos órgãos. O sambista estava internado no Hospital Barra D’Or, na Barra da Tijuca. Desde 2017, lidava com as complicações de um acidente vascular cerebral.

Em 2023, Arlindo foi o homenageado da Império Serrano durante o Carnaval. Em um dos carros, havia uma imensa alegoria do artista, tocando banjo e usando uma coroa imperiana, símbolo da escola. O próprio músico participou, acompanhado da família e de uma equipe médica –ele sofreu um acidente vascular cerebral em 2017, que o deixou com graves sequelas.


Reprodução de reportagem de Gabriel Dias na Folha de São Paulo.

segunda-feira, 4 de agosto de 2025

Lula acerta ao deixar aliança do Holocausto, usada para silenciar críticas a Israel, diz professor


No mês passado, o governo do presidente Lula retirou o Brasil da Aliança Internacional para a Memória do Holocausto (IHRA).

A decisão gerou uma avalanche de críticas, do governo de Israel à Confederação Israelita do Brasil (Conib), que viu no ato um "retrocesso moral".

Professor do programa de História Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde coordena o Núcleo Interdisciplinar de Estudos Judaicos (Niej), e pesquisador de antissemitismo da Universidade Hebraica de Jerusalém, em Israel, onde fez mestrado e já deu aulas, Michel Gherman diz que "acusar Lula de antissemita" por causa da decisão é um "absurdo".

Gherman, que é judeu, critica duramente a entidade, a quem acusa de ser usada por "um lobby evangélico, branco e de direita" que adota definições de antissemitismo que visam criminalizar críticas a Israel e silenciar a mídia e intelectuais em todo o mundo.

"Transformar a maior liderança política da história do Brasil em alguém que odeia os judeus pode interessar a muita gente. Mas não interessa aos judeus do Brasil. É um erro", afirma.

Ele afirma ainda que Israel "pode e precisa ser criticado" e diz que o genocídio em Gaza ameaça a legitimidade do país.

*

GOVERNO E ISRAEL

O governo Lula se retirou da Aliança Internacional para a Memória do Holocausto (IHRA), o que gerou polêmica na comunidade judaica. Foi uma demonstração de antissemitismo?
Setores amplos da comunidade judaica, inclusive progressistas, têm questionado a saída do Brasil da IHRA. Eu acho que isso se deve a um erro na forma como a decisão foi levada [a público pelo governo].

Mas é fundamental, antes de mais nada, entendermos o que significa a IHRA e por que alguns intelectuais e professores universitários, dentro e fora do Brasil, têm questões com essa organização. Eu sou um deles.

Quais seriam essas questões?
O antissemitismo é tão perigoso quanto o racismo. Ele é uma forma de racismo. Com antissemita não se conversa. Com racista não se conversa. Quando o antissemita senta, você se levanta da mesa. Ele não tem direito de expor suas opiniões porque coloca em risco grupos específicos. Tal qual o racista.

O debate sobre o racismo prepondera porque o grupo que está em risco no país é o dos afrodescendentes. Os judeus não estão em risco cotidiano no Brasil. Mas vamos pensar estrategicamente no que significa acusar um presidente [Lula] eleito três vezes pelos brasileiros de ser antissemita. No que significa acusar a liderança do maior partido de esquerda da América Latina de ser antissemita.

E o que significa?
Significa desconsiderá-lo como alguém com quem é possível conversar. Significa deslegitimá-lo, transformá-lo em alguém que você tem que se levantar da mesa quando ele se senta. É muito sério. É muito grave.

Este presidente [Lula] instituiu o Dia do Holocausto no Brasil [em 2024]. Visitou a sinagoga de Recife, a primeira das Américas. Nunca deixou de falar da importância da existência do Estado de Israel e do papel do Brasil em sua criação.

Na década de 1980, este presidente esteve em Israel quando ainda era apenas uma liderança política. Se encontrou com sindicalistas e com partidos progressistas do país.

E por que o acusam de antissemita?
Essa tentativa de dizer que Lula é antissemita já vem de algum tempo. Eu estudava na Universidade Hebraica de Jerusalém quando Lula visitou Israel e disseram que ele se negou a visitar o Museu do Holocausto. Ora! Eu conheço o guia que esteve com o Lula no museu. Tem fotos da visita.

A saída do Brasil da IHRA se transformou em mais uma oportunidade para setores que, antes de serem judeus e de estarem preocupados com o Holocausto, querem produzir um discurso anti-lulista. A quem interessa dizer que Lula é antissemita?

A quem?
Às pessoas que não querem ver uma liderança como ele novamente na Presidência da República. Lula é visto por setores importantes das classes médias brasileiras como alguém que não pode estar onde está.

E aqui, vamos falar a verdade: Lula erra. E erra muito. Quando ele fala que o que ocorre em Gaza só é comparável ao que Hitler fez com os judeus, é um erro. Houve outros genocídios desde então. Dores não são comparáveis. Ele pode ser criticado por isso.

Agora, transformar aquela que, segundo historiadores importantes, é a maior liderança política da história do Brasil, eleito presidente três, talvez até quatro [caso concorra e vença em 2026], em alguém que odeia os judeus pode interessar a muita gente. Mas não interessa aos judeus do Brasil. É um erro.

[Entidades judaicas] Chamam ele de antissemita e depois pedem um encontro? Querem conversar?

Eu queria insistir no questionamento sobre a saída do Brasil da IHRA.
Vamos lá. A IHRA foi criada em 1998 para manter a memória e combater o negacionismo histórico do Holocausto —fruto de um antissemitismo contemporâneo que produz a ideia de que o judeu é tão forte e tão poderoso que domina o mundo a ponto de criar a história de um genocídio contra si.

Ele cria a ideia de que, diante de um grupo tão poderoso, a destruição e o extermínio são as únicas possibilidades.

E por que a IHRA passou a ser questionada?
A partir da segunda década dos anos 2000, a IHRA passou a ser instrumentalizada por grupos conservadores, por lobistas dos EUA que defendiam não só a existência de Israel mas, fundamentalmente, as práticas políticas do governo de Israel. E esses grupos incorporaram na definição de antissemitismo da IHRA elementos que podem controlar o debate público.

O que isso significa?
Significa, por exemplo, que dizer que Israel tem políticos comparáveis aos nazistas será considerado antissemita.

Como historiador, eu digo que há, sim, possibilidade concreta de se comparar discursos de um Ben-Gvir [ministro da Segurança de Israel], de um [Bezalel] Smotrich [ministro das Finanças de Israel], com os [discursos] dos nazistas.

O nazismo é um fenômeno histórico. Ele não existiu para nunca mais se repetir. Ele foi derrotado militarmente, mas segue existindo como ideia. O judeu foi vítima do nazismo não porque era judeu, mas porque o nazismo decidiu que ele seria vítima.

Nada no judeu justifica o preconceito contra ele, e principalmente o seu extermínio. Da mesma maneira, nada no judeu justifica a ideia de que ele não pode produzir-se nazista. Isso é história!

Um judeu pode ser nazista?
É claro. O preconceito, a discriminação, a percepção de que a alteridade [colocar-se no lugar do outro] deve ser exterminada é produto de condições históricas específicas. Da mesma maneira que o judeu pode ser vítima disso, por que ele não pode ser algoz ou elemento? O que o judeu tem de especial que não pode produzir racismo contra outro grupo?

ARMA POLÍTICA

O senhor pode citar exemplos?
Os discursos de Ben-Gvir e de Smotrich afirmando que não há inocentes em Gaza podem, sim, ser comparados aos dos nazistas que produziram a ideia de que não havia inocentes nas aldeias judaicas do leste da Europa.

Eu seria antissemita ao dizer isso? É claro que não. O que as definições da IHRA andam produzindo é a perseguição contra intelectuais. Inclusive intelectuais judeus. E hoje conservadores, inclusive não judeus, são os maiores defensores da IHRA.

No Brasil, quem levou adiante o projeto de lei que implementa [as diretrizes da IHRA] foi o [ex] ministro [da Saúde, Eduardo] Pazuello.

Jair Bolsonaro era candidato em 2017 quando foi a um clube judaico e disse, por exemplo, que os quilombolas são animais e não servem nem para reproduzir. Que há raças boas e ruins. Eu não posso acusá-lo de ter um discurso com gramática nazista? Seria banalização?

Banalização é não falar sobre o nazismo. A sacralização de um fenômeno histórico produz a incapacidade de ele ser relevante. A história não é sagrada. Ela precisa ser estudada e comparada. Se o nazismo nunca mais vai se repetir, por que eu tenho que estudá-lo?

Como se deu o que senhor chama de instrumentalização do antissemitismo?
O antissemitismo é um fenômeno importante, histórico e perene, que segue existindo e ameaça a democracia. Mas setores da direita têm utilizado o antissemitismo como uma espécie de racismo contra brancos. E isso é muito perigoso.

ANTISSEMITISMO

Por que?
É como se fosse possível competir. "Ah, vocês estão falando dos negros, mas os judeus [também] foram perseguidos." A direita pretende, e esse é o risco, dizer que os brancos podem também ser vítimas de racismo colocando, para isso, os judeus como brancos.

A tomada da IHRA pela direita, portanto, tem a ver com dois elementos: o primeiro deles é na perspectiva de uma gramática racista contra brancos - aquilo que chamam de racismo reverso.

O segundo é o vínculo da direita, judaica ou não judaica, com a ideia de que criticar as práticas de Israel, criticar o governo de Israel de maneira radical é antissemitismo. Israel pode e precisa ser criticado. Quem considera que críticas a Israel são não legítimas não entende o que significa a existência de Israel como estado normal para um povo normal que lá vive.

Essa compreensão de que não se pode criticar Israel não só é equivocada, como ela produz antissemitismo. São definições [de antissemitismo da IHRA] que permitem a perseguição a intelectuais. Nos EUA, na Alemanha, isso já está acontecendo com muita frequência.

ALIANÇA DO HOLOCAUSTO

E no Brasil?
O governo brasileiro não poderia entrar na IHRA neste momento, principalmente por causa do uso político que a extrema direita faz da questão judaica e de Israel. Acusar o Lula de antissemita [porque o governo deixou a IHRA) é um absurdo.

Justificar a existência da IHRA como referência única no debate do Holocausto é absurdo. Ela deixou de ser vinculada exclusivamente à memória do Holocausto e é [hoje] vinculada a Israel e a definições questionáveis de antissemitismo.

O que eu estou propondo é que haja a possibilidade de o governo incorporar definições mais democráticas de antissemitismo e de memória do Holocausto que constituem menor risco à democracia. Que não são uma ameaça de silenciamento aos intelectuais e à mídia.

Eu justifico aqui a existência da Declaração de Jerusalém, que é assinada por intelectuais israelenses e palestinos contra o antissemitismo como fenômeno da modernidade.

O lobby que garante a IHRA como referência não é judaico. Ele é evangélico, branco e de direita.

Com raízes nos EUA?
O próprio Netanyahu fala que seus grandes aliados não são mais os judeus. O apoio que os judeus dos EUA dão ao Partido Democrata chega a 80% nas eleições. É histórico e perene.

É claro, portanto, que não estamos falando de um lobby de massas judeu a favor do Partido Republicano [de Donald Trump].Estamos falando de outra coisa.

E qual é a outra coisa?
É o sionismo cristão. É a ideia de Israel ser apoiado por grupos brancos e cristãos. É o famoso nacionalismo cristão citado pelo [teólogo] Ronilson Pacheco, com quem estou escrevendo um livro, e que parte de uma gramática e de uma perspectiva de conversão final dos judeus ao cristianismo.

E, nessa perspectiva do evangélico, se o Holocausto é sagrado, e não produto de um processo histórico, ele é sacrificial. Há uma relação vinculante entre as vítimas e o que aconteceu com elas. Por isso, é fundamental que ele seja separado dos outros genocídios. É isso que produz a ideia de vincular o Holocausto a Israel e ao sionismo.

A ordem pós-Segunda Guerra Mundial está sendo agora ameaçada pelo Trump, que coloca Israel no lugar que ele quer. Que é o lugar dos evangélicos de direita. Dos evangélicos brancos. De uma branquitude, e não dos judeus como povo que tem direito a um território.

GUERRA

O que ocorre em Gaza é um genocídio?
Vou me apropriar das palavras de um intelectual de altíssimo nível, o [professor de estudos sobre Holocausto da Universidade Brown, nos EUA] Omer Bartov: "Eu sou um pesquisador do genocídio, eu reconheço um quando eu vejo". Como disse a historiadora Hannah Yablonka, dos Museus dos Guetos em Israel, uma referência em estudos do genocídio: o que acontece em Gaza é produto de vingança, e não de estratégia. E vingança produz genocídio.

Por que é tão difícil, para muitos judeus, aceitar críticas a Israel sem entendê-las como antissemitas?
É preciso entender a dificuldade que pessoas com vínculos radicais com Israel, como eu, têm de dizer que o país está praticando genocídio.

Nós vivemos a vida inteira falando sobre "nunca mais" e memória do Holocausto. Quando falamos sobre genocídio, nos colocamos num lugar fundamentalmente difícil e dolorido.

Eu reconheço que o que acontece em Gaza é genocídio. Isso não significa que não me dói. Essa geração, e a geração dos meus filhos, que têm família em Israel, vão crescer sendo acusados de que o país com quem têm vínculos profundos praticou um genocídio.

Entender isso é fundamental. Os judeus que estão aqui no Brasil comendo em restaurante kosher, indo em sinagogas, indo para a praia, não são israelenses. Não têm poder de decisão. Essas pessoas precisam ter tempo para entender que nada justifica o tamanho da tragédia que o Exército israelense está produzindo em Gaza.

É como se fosse um negacionismo?
Esse é o risco. Se você começa a negar o genocídio dos outros, o seu genocídio vai ser negado.

Não é um debate político e ideológico. É um debate sério, sociológico, historiográfico e jurídico. E que precisa ser feito. É preciso que se exija de Israel que ele funcione a partir da lógica que o fundou. Israel precisa refazer-se a si próprio. Um país que ocupa territórios produzindo não-cidadania nos ocupantes está sob risco grave de legitimação.

E se isso não acontecer?
Se não funcionar efetivamente a partir da criação de um Estado palestino a seu lado, ou de alguma configuração que permita o retorno de direitos às populações que foram expulsas daquele território, Israel vai seguir existindo. Mas vai perder a sua legitimidade. Com tudo o que está acontecendo agora, a gente vê que isso é absolutamente concreto.


Reprodução parcial da coluna de Mônica Bérgamo na Folha de São Paulo.