terça-feira, 19 de novembro de 2019

Uma consulta ginecológica

No já clássico “A Ordem Médica”, do psicanalista Jean Clavreul (Brasiliense, 1983), encontramos uma avaliação muito precisa das condições a que estão submetidos médicos e pacientes na atualidade.
Segundo o autor, não se trata de uma relação entre dois sujeitos nas posições cuidador/cuidado, respectivamente. Trata-se da pretensão de uma relação asséptica entre o saber da medicina e a doença.
Nem médico, nem paciente comparecem como sujeitos, pois a ciência almeja eliminar a subjetividade. É óbvio que toda essa assepsia não existe e resulta, de um lado, na baixa adesão aos tratamentos por parte dos pacientes e, de outro, no famoso “burnout” da classe médica, cuja taxa de suicídio e drogadição é assustadora.
Por quê? Porque “tumor” tem nome, sobrenome, sexualidade, história e o “saber médico”, por sua vez, é encarnado por um sujeito, que tem suas paixões, medos, fantasias. A busca por tamanha isenção é nociva e vem sendo denunciada pela psicanálise desde sua fundação.
E como isso aparece nos excruciantes exames ginecológicos?
Logo de cara a jovem descobre que os exames clínicos femininos requerem uma dose considerável de estoicismo. Deitada de pernas para o alto, passará por uma rotina de coleta de material e apalpação que é tão necessária, quanto desagradável. Calvário de toda mulher que tem o privilégio de receber assistência ginecológica precoce e periódica.
A vida segue e ela terá doenças mais ou menos sérias, filhos, abortos, mais exames, mais invasivos, mais precisos, mais excruciantes. Existe alternativa para o que é necessário? Alguns ginecologistas apostam que sim.
Nesse caso, o ginecologista convida a paciente a acompanhar ativamente o exame —o mesmo que algumas fazem resignadas há tantas décadas, que chegam a esquecer como é grotesco. Começa com a oferta de um espelhinho para que a paciente veja o que se passa com seu corpo durante o processo.
O espéculo, objeto que é desconfortavelmente introduzido para retirada de material do colo do útero, é entregue à paciente para que ela mesma o insira, respeitando sua propriocepção. A vagina, de difícil visualização no dia a dia, lhe é apresentada e todas as explicações lhe são dadas, não para sobrecarregá-la de informações científicas, mas para aproximá-la do próprio corpo. Todos os toques são acompanhados do incentivo para que ela participe ativamente em sua avaliação. Essa pequena revolução atende pelo nome de medicina entre seres humanos.
Essa “nova” forma de clinicar tem sido discutida por coletivos feministas e por profissionais antenados e sensíveis, que se preocupam com a relação da mulher com seu próprio corpo e em como interferir positivamente nessa relação. Não se trata de mais um protocolo a ser reproduzido mecanicamente.
Sabemos como a impessoalidade no método canguru, na assistência ao aleitamento e ao parto vem transformando boas iniciativas em novas imposições à mulher e ao profissional. A “revolução” se resume ao considerar que mulheres não são simples corpos a serem examinados e médicos não são máquinas de fazer exames e aplicar protocolos. Pode parecer pouco, mas tem um efeito surpreendente nas subjetividades.
Depois de décadas, em plena menopausa, com mais horas de consulta ginecológica do que urubu de voo, algumas mulheres se mostram claramente afetadas pelo respeito e consideração despendidos. A frase “nunca esperei me emocionar em uma consulta ginecológica” pode sair da boca de pacientes, mas não sem afetar seus médicos.

Texto de Vera Iaconelli, na Folha de São Paulo

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