terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Em tempos de crise financeira, os lucros corporativos registram recordes nos EUA


A economia americana ainda está, pela maior parte das medidas, profundamente deprimida. Mas os lucros corporativos estão registrando altas recordes. Como isso é possível? Simples: os lucros subiram como parte da receita nacional, enquanto os salários e outras compensações caíram. O bolo não está crescendo da forma que deveria –mas o capital está se saindo bem, abocanhando uma fatia cada vez maior, à custa do trabalho.  

Espere, será que realmente voltamos a falar sobre o capital contra o trabalho? Isso não é antiquado, um tipo de discussão quase marxista, datado em nossa economia de informação moderna? Bem, isso é o que muitos pensavam; na última geração, as discussões sobre a desigualdade se concentraram majoritariamente não no capital contra o trabalho, mas em questões de distribuição entre trabalhadores, seja pelo vão entre trabalhadores com maior ou menor grau de instrução ou pelo grande salto nos ganhos de meia dúzia de astros nas finanças e em outros campos. Mas talvez essa história tenha ficado para trás.   

É verdade que o pessoal das finanças ainda está se dando bem, como se fossem bandidos –em parte porque, como agora sabemos, alguns deles de fato são bandidos- mas o vão salarial entre trabalhadores com ou sem terceiro grau, que cresceu muito nos anos 80 e no início dos anos 90, não mudou muito desde então. De fato, os recém-graduados estão com salários estagnados desde antes da crise financeira. Cada vez mais, os lucros vêm subindo à custa dos trabalhadores em geral, inclusive aqueles com habilidades que supostamente levariam ao sucesso na economia de hoje.

Por que isso está acontecendo? Pelo que vejo, há duas explicações plausíveis, e ambas podem ser verdade até certo ponto. Uma é que a tecnologia tomou um caminho que deixa o trabalho em desvantagem; a outra é que estamos olhando para os efeitos de um forte aumento no poder do monopólio. Essas duas histórias se focam nos robôs, de um lado, e nos barões ladrões, do outro.

Sobre os robôs: não há dúvida que, em algumas indústrias de alto padrão, a tecnologia está substituindo os trabalhadores de todos os tipos, ou quase todos. Por exemplo, uma das razões que a manufatura de alta tecnologia tem voltado para os EUA é que, atualmente, a parte mais importante do computador, a placa-mãe, é basicamente feita por robôs, então o trabalho asiático barato não é mais motivo para produzi-las fora.

Em um livro recente, “Race Against the Machine” (disputa contra a máquina), Erik Brynjolfsson e Andrew McAffee, do MIT, argumentam que histórias similares estão ocorrendo em muitos campos, inclusive em serviços como tradução e pesquisa jurídica. O que é impressionante sobre seus exemplos é que muitos dos empregos sendo suprimidos são de alta capacitação e salário -o lado ruim da tecnologia não se limita aos trabalhadores braçais.

Ainda assim, será que a inovação e o progresso podem de fato prejudicar grandes números de trabalhadores, ou os trabalhadores em geral? Muitas vezes encontro pessoas alegando que isso não pode acontecer. Mas a verdade é que pode, e os economistas sérios estão conscientes dessa possibilidade há quase dois séculos. O economista do início do século 19 David Ricardo é famoso pela teoria da vantagem comparativa, que defende o livre comércio; mas o mesmo livro de 1817 no qual apresentou essa teoria, incluiu um capítulo sobre como as novas tecnologias intensivas em capital da Revolução Industrial poderiam de fato deixar os trabalhadores em pior situação, ao menos por um tempo –e os acadêmicos modernos sugerem que de fato pode ter acontecido por muitas décadas.

E os barões ladrões? Hoje em dia, não se fala muito sobre o poder do monopólio; as ações antitruste praticamente desmoronaram durante os anos Reagan e nunca se recuperaram. Ainda assim, Barry Lynn e Phillip Longman, da New America Foundation, argumentam persuasivamente que a concentração empresarial crescente pode ser um importante fator na estagnação da demanda por trabalho, na medida em que as corporações usam seu crescente poder de monopólio para aumentar os preços sem repassar os ganhos para seus funcionários.  

Eu não sei direito o quanto da desvalorização do trabalho é explicada pelo monopólio ou pela tecnologia, em parte porque há tão pouca discussão do que está havendo. Acho justo dizer que a mudança da renda do trabalho para o capital ainda não entrou no nosso discurso nacional.  
Contudo, essa mudança está ocorrendo –e tem importantes implicações. Por exemplo, há uma campanha grande e generosamente financiada pela redução dos impostos corporativos; será que realmente queremos fazer isso em uma época em que os lucros estão subindo à custa dos trabalhadores? E a campanha para reduzir ou eliminar os impostos sobre as heranças? Se estivermos voltando para um mundo no qual o capital financeiro, e não a capacidade ou a formação, determina a renda, será que realmente queremos tornar ainda mais fácil herdar riqueza?  Como eu disse, essa é uma discussão que mal começou –mas já é hora de começar, antes que os robôs e os barões ladroes tornem nossa sociedade em algo irreconhecível.



 
Tradutor: Deborah Weinberg


Reproduzido do UOL

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Grotescos e malandros alimentam crise entre STF e Congresso


Podemos observar várias reações diante do julgamento do mensalão. Empolgados com as penas duríssimas, que atingem um partido que desde 2002 não conseguem vencer pelo voto, políticos conservadores querem superfaturar a vitória. Não basta, para eles, a decisão do STF.
Torcem para que o Supremo tome decisões radicais e até grotescas. Uma delas é mandar prender os condenados antes da pena transitar em julgado.  A ideia é a execração pública. Consiste em demonstrar que os condenados  não merecem sequer o respeito que a lei garante a cada um dos brasileiros.
Na mesma linha, pretende-se que o Supremo determine a cassação dos mandatos dos três deputados condenados, quando se sabe que o artigo 55 da Constituição define que esta é uma prerrogativa da Câmara e do Senado. Pede-se um ato de brutalidade, ilegal, como prova de força. Em vez de discutir e deliberar – ou não – pela perda de mandato, quer-se transformar o Congresso num poder subordinado ao STF.
É uma postura vergonhosa, de quem conta com a Justiça para obter vantagens que não conseguiu obter nas urnas.
Você acha que esse pessoal estaria tão nervoso se Fernando Haddad tivesse sido derrotado em São Paulo?  Ou se o PT não tivesse crescido tanto num pleito ocorrido em pleno julgamento, na semana em que dirigentes e líderes do partido foram condenados em transmissão ao vivo pela TV? Quem  disse que seria “saudável” se o julgamento se refletisse nas urnas?
A segunda postura é do silêncio. Respalda-se medidas anti-democráticas, porque elas podem trazer vantagens no futuro. Teme-se, no entanto, ficar contaminado com um serviço que pode manchar tantas reputações com colarinhos tão brancos, causar denúncias e prejuízos a imagem no futuro, quem sabe numa Comissão da Verdade dos anos 2020.
A atitude é típica de malandros, embora a maioria desse povo viva no asfalto e não no morro. Evita críticas ao que está acontecendo.  A atitude  é: se der certo, está tudo bem. Mas se não der, não me comprometa!
A única postura coerente, numa hora que pode tornar-se grave, começa pela leitura do artigo 1 da Constituição: “Todo poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição.”
Não se trata, é claro, de um palavrório vazio. A noção de que o “todo poder emana do povo”  percorre toda a Carta, inclusive naquele momento em que os “representantes eleitos” podem perder seu mandato.
Em 1988, quando se escreveu a Constituição em vigor, o país saía de uma ditadura, onde os generais cassaram 176 mandatos parlamentares sem prestar contas a ninguém.
Em 1968, o regime exigiu que a Câmara de Deputados cassasse o mandato de Márcio Moreira Alves. Os parlamentares se recusaram e o governo militar fechou o Congresso. Em 1976, o deputado Chico Pinto fez um discurso onde chamava Augusto Pinochet, general que governava o Chile de forma tenebrosa, de ditador. Foi cassado. Quem fez o serviço desta vez foi o STF.
A ideia básica, em 1988,  era assegurar que apenas representantes eleitos pudessem cassar representantes eleitos. Esta era a distinção entre uma democracia e uma ditadura.
A Constituição assume, de cara, o princípio de que não se deve cassar representantes eleitos. A ideia, essencial, é que serão protegidos sempre. O artigo 15 fala até que a cassação “é vedada.” Este é o espírito da coisa. Admite-se exceções, contudo.
Mas sempre se deixa claro quem pode fazer isso. Não é o Executivo nem o Judiciário.
Está explícito no parágrafo 3o,  artigo 55, que repito a seguir só para destacar:
“a perda do mandato será decidida pela Câmara dos Deputados ou pelo Senado Federal, por voto secreto e maioria absoluta, mediante provocação da respectiva Mesa ou de partido político representado no Congresso Nacional, assegurada ampla defesa.”
E aqui chegamos ao ponto essencial do debate: “voto secreto e maioria absoluta, assegurada ampla defesa.” O que se quer é que o Congresso fique menor, diminuído, que aceite que lhe digam o que pode e o que não pode fazer. Embora sejam representantes eleitos pelo povo, não podem ser soberanos. Será que isso tem a ver com a hemorragia eleitoral das grandes esperanças conservadoras? Até Gilberto Kassab está negociando uma vaga no imenso Aero-Dilma, não é?
Será que essa gente anda triste por que não consegue ganhar uma eleição há muito tempo?
Não vou retomar as sentenças do mensalão. Cada um tem uma opinião a respeito. Mas é consenso que  os ministros aceitaram noções que prejudicaram os réus. A ideia de que era possível flexibilizar provas  foi anunciada sem maiores ressalvas. A noção básica de direito penal, de que todo réu é inocente até que se prove o contrário foi colocada em questão desde o primeiro dia, pelo método do fatiamento, altamente favorável a acusação. No debate sobre as penas, ficou clara a preocupação em garantir de todas as maneiras que elas fossem longas para impedir casos em que pudesse haver prescrição. Ou seja: mais do que a pena correta, fosse qual fosse, tentou-se garantir a mais  dura.
Você pode até achar que isso era necessário, que a política “não tem jeito” e os políticos “são todos ladrões…” Mas aí estamos fazendo um julgamento político de um grupo político, correto?
Também pode fazer cara de inteligente e pensar assim: agora vamos ao mensalão do PSDB-MG e ao mensalão do DEM-DF. Aí vai ficar claro que o país está mudando e essas críticas ao julgamento é coisa de quem enxerga conspiração em tudo.
É bom estar preparado. Não haverá reprise neste show. A sociedade do espetáculo tem dono. Tanto que nenhum empresário que poderia ser enquadrado como corruptor privado foi para o banco dos réus, numa tradição que também havia ocorrido no julgamento do esquema de Collor.
Os dois mensalões seguintes foram desmembrados e vão seguir seu curso, vagaroso, na Justiça comum. Os réus terão direito a um segundo julgamento, o que foi negado aos 35 condenados do mensalão Delúbio-Marcos Valério. Isenção? Só se o julgamento fosse remembrado, o que eu acho sinceramente que seria um erro.
Resta, então, entender o debate sobre as cassações.
Muitas pessoas tem dito que é esquisito imaginar um político condenado – e até preso – que foi capaz de preservar seu mandato. Vai votar por email? Por telefone?
Terá autorização da direção do presídio para dar comparecer a uma votação mais importante?
Poderá usar celulares do PCC? (Aí depende da polícia do Alckmin, né…Piadinha, piadinha…)
Minha visão é que isso não é o mais importante. Nem é tão estranho assim, na verdade. Em 1992, o Congresso votou o impeachment de Fernando Collor, que renunciou antes de ser condenado. O Senado cassou seus direitos políticos por oito anos. Sim. O Congresso.
Em 1994, o Supremo absolveu o ex-presidente por falta de provas válidas. Estranho? Anormal? Ninguém achou. Era normal considerar que o julgamento político de Collor fora feito no Congresso e o criminal, no Supremo. As atribuições estavam claríssimas e ninguém precisou debater o artigo 55…
O estranho, o esquisito, o delirante, o vergonhoso, é desrespeitar a Constituição. O resto se explica e se entende, pois tem a legitimidade de nossa democracia.
E aí chegamos a um ponto essencial. Ninguém pode prever, agora, qual será o voto dos deputados no julgamento dos colegas condenados pelo Supremo.  Em 2005, Dirceu, Jefferson e Pedro Correa foram cassados por votação ampla. O que pode acontecer em 2012?
Ninguém sabe. Vai depender, essencialmente, do ambiente político da época. Para começar, muito possivelmente a Câmara terá um novo presidente, Henrique Alves, do PMDB, no lugar de Marco Maia, do PT. Este é o acordo entre os maiores partidos da casa. O que isso muda na ordem das coisas? Ninguém pode antecipar.
O certo é que os parlamentares condenados têm direito constitucional a uma “ampla defesa”. Isso quer dizer que poderão subir a tribuna e dar sua versão dessa história. Negar este direito é assumir, descaradamente, que se quer diminuir o artigo 1 da Constituição, que diz que “todo poder emana do povo, que o exerce através de representantes eleitos.”
Como explica Luiz Moreira Junior, doutor em Direito pela UFMG e diretor acadêmico da Faculdade de Direito de Contagem, é possível cassar o mandato de um político mas para isso  é preciso “autorização do Congresso. Ele foi investido de poder pelo povo, só o povo pode tirar. Se a gente relativiza isso, relativiza a própria democracia.”
Nos sabemos quem gostava de democracia relativa. Era aquele general que prendeu Chico Pinto e mandou o STF cassar seu mandato.


sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Velório de Niemeyer é aberto ao público no Rio de Janeiro


Velório de Niemeyer é aberto ao público no Rio de Janeiro

Corpo do arquiteto chegou ao Palácio da Cidade no fim da noite dessa quinta


O corpo do arquiteto Oscar Niemeyer, que morreu na quarta-feira aos 104 anos, será velado até as 17h desta sexta-feira no Palácio da Cidade, a sede oficial da Prefeitura do Rio, em Botafogo, na zona sul. O velório foi restrito a familiares ao longo da madrugada e aberto ao público às 8h30min. Até as 15h, o público poderá se despedir do arquiteto.

Por enquanto, poucas pessoas estão no local do velório para dar o último adeus ao mestre da arquitetura moderna. A estudante de arquitetura Gisela Aguiar aguardava às 7h45min a abertura do velório ao público. “Sou de Brasília e vim prestar a última homenagem. As obras de Niemeyer são únicas e pioneiras, como os palácios do Planalto e da Alvorada. Minha preferida é a Catedral de Brasília.” Pouco antes da liberação da entrada do público, o governador fluminense, Sérgio Cabral, e o prefeito do Rio, Eduardo Paes, foram ao velório.

Das 15h às 17h o velório será novamente fechado para a família. O cortejo seguirá, então, para o cemitério São João Batista, onde o enterro deve ocorrer às 17h30min.

Nessa quinta-feira, o corpo de Niemeyer foi velado no Palácio do Planalto, em Brasília. Ao todo, 44 coroas de flores foram dispostas no salão - de Marisa Letícia e Lula, do governo da Bolívia, de Fidel Castro, da Ambev, do PC do B (uma homenagem ao "grande camarada comunista") e até do Comando da Aeronáutica.

Um avião da Força Aérea Brasileira (FAB) levou o corpo do arquiteto Oscar Niemeyer até o Aeroporto Santos Dumont, no Rio, no final da noite dessa quinta-feira e um veículo por militares do 3º Comando Aéreo Regional (3º Comar) da Aeronáutica e transportou até o Palácio.


Notícia do Correio do Povo

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Condenados ao eterno passado




A Câmara dos Deputados vai homenagear os Deputados Federais cassados pelo regime militar, com ato simbólico de devolução de seus mandatos.
Foram 173 deputados afastados entre 1964 e 1977. A maior parte deles foi atingida pelo Ato Institucional nº 5, de 13 de dezembro de 1968, considerado o documento formal de implantação da ditadura no Brasil.
A motivação final para edição do AI-5 foi a recusa da Câmara dos Deputados em conceder autorização para que o Deputado Márcio Moreira Alves fosse processado por discurso que havia feito em plenário. Assim, deixando claro que a ditadura não podia conviver com a autonomia dos Poderes, o AI-5 autorizava o Presidente da República a cassar os parlamentares.

A Constituição de 1988, escrita no processo de redemocratização do País, resgatou o princípio da independência dos Poderes, considerando-o uma das cláusulas pétreas, parte fundamental da República
É exatamente por isso que, em seu art. 55, 3º, o Texto Constitucional estabelece que apenas as Mesas da Câmara dos Deputados e do Senado Federal podem declarar a perda dos mandatos de seus membros, inclusive quando em decorrência de condenação criminal transitada em julgado. Dessa forma, fica garantido que um Poder não deve se submeter ao outro.
Nos últimos 24 anos, esse tem sido o procedimento adotado em todos os casos de parlamentares condenados judicialmente.
Agora, na onda de inovações jurídicas provocadas pelo julgamento do mensalão, levanta-se o debate de que o Supremo Tribunal Federal deve ter a prerrogativa de determinar e declarar a perda de mandato dos Deputados condenados, independente da declaração da Mesa da Câmara.
A determinação de que apenas o próprio Legislativo pode declarar a perda do mandato de um de seus membros não foi resultado de uma reserva corporativista, mas sim do aprendizado histórico de que a independência dos Poderes é requisito da democracia.
Mas precisamos lembrar que a democracia, pela qual tanto lutamos, não é uma conquista eterna e inatacável. Manter a democracia é um desafio cotidiano.
Como disse George Santayna, "quem não conhece seu passado está condenado a repeti-lo".
Enfrequecer o Legislativo e submetê-lo unilateralmente às decisões de outro Poder, ainda que às do Judiciário, é um ataque ao equilíbrio dos Poderes e um risco para o Estado Democrático. O oportunismo e o casuísmo dos que querem a solução rápida para a cassação de parlamentares, à revelia do Legislativo, coloca-nos no rumo do desequilíbrio dos Poderes e da ameaça à democracia. Nosso passado recente já nos mostrou isso, e esquecê-lo pode nos levar de volta ao autoritarismo.
A democracia exige o Legislativo forte e o reconhecimento de que o voto livre e periódico é o melhor instrumento de legitimação do poder.

Gustavo Ponce de Leon, historiador e advogado, é consultor legislativo do Senado Federal e exerce o cargo de Secretário de Estado de Governo do Governo do Distrito Federal.

Texto visto no blog do Luís Nassif

Com emoção, no Congresso


COM EMOÇÃO

A sessão solene prevista para logo mais na Câmara promete ser a mais bela de todas, até hoje, no âmbito do Congresso. A devolução simbólica dos mandatos cassados a 173 deputados, na ditadura militar, é um ato grandioso, do ponto de vista político como do humano.
Os 29 sobreviventes dos deputados cassados são remanescentes, todos por testemunho e vários por bravura, do custo que a ditadura teve para o crescimento institucional do país. Em uma ou em outra medida, todos os 173 também pagaram com a vida, por não se incorporarem à opressão covarde e proveitosa.
A devolução simbólica dos mandatos roubados é uma ideia brilhante da deputada Luiza Erundina.



Regulamentação da profissão de historiador


Regulamentação da profissão de historiador

A recente aprovação do projeto de regulamentação da profissão de historiador no Senado Federal, no último dia 7, tem gerado algumas controvérsias que, do nosso ponto de vista, derivam de certas incompreensões e até mesmo do desconhecimento do texto do projeto.
Alguns têm alegado que a regulamentação conduzirá ao cerceamento da liberdade de expressão daqueles que, mesmo não sendo historiadores de formação, escrevem sobre o passado.
Neste sentido, citam, inclusive, nomes de grandes intelectuais que produziram e continuam produzindo verdadeiros clássicos da historiografia brasileira.
Outros afirmam que a necessidade de formação específica levará à falta de professores de história no ensino fundamental, já que hoje muitos ministrantes desta disciplina realizaram outros cursos de graduação, como pedagogia, ciências sociais e filosofia.
Sobre o primeiro argumento contra o projeto, ele só é manifestado por quem não conhece o seu teor. Em nenhum momento foi proposto que historiadores profissionais tenham exclusividade na formulação e divulgação de narrativas históricas.
Jornalistas, cientistas sociais, diplomatas, juristas, economistas e todos os cidadãos poderão continuar a produzir conhecimento histórico -e esperamos que isso aconteça, pois só a partir de perspectivas diferentes e multidisciplinares conseguiremos fazer avançar a historiografia brasileira que, por sinal, é bastante consistente e tem grande reconhecimento internacional.
Além disso, advogar esta exclusividade aos historiadores profissionais seria atentar contra as liberdades democráticas, o que não é o caso aqui. Prova disso é que o projeto foi apoiado por todas as lideranças partidárias do Senado, demonstrando que ele não tem um viés político-partidário específico.
Quanto ao segundo argumento, defendemos sim que os professores de história realizem alguma etapa de sua formação em história (na graduação ou na pós-graduação), já que acreditamos que nossos alunos do ensino básico devem ter o direito de aprender com docentes qualificados e possuidores de conhecimentos e habilidades específicas nas áreas que lecionam.
Isso não é desmerecer professores de outras disciplinas, mas reconhecer que cada campo disciplinar implica a aquisição de saberes específicos, mesmo que em diálogo com outros âmbitos de conhecimento.
(No caso dos professores de história, por exemplo, a atenção às múltiplas temporalidades, a crítica e a interpretação dos documentos, a atualização historiográfica, a atenção às relações entre história acadêmica e história ensinada etc.)
De qualquer forma, esta especialização do corpo docente não se dará de uma hora para outra. Afinal, a própria Lei das Diretrizes e Bases da Educação prevê que, quando não há professores formados nas disciplinas específicas, devem ser aproveitados professores com outras formações e só, em último caso, professor sem nenhum formação.
Isso não impede, contudo, que, a médio e longo prazo, continuemos lutando pela qualificação e especialização de nossos professores, sem deixar de estimular, é claro, o saudável diálogo interdisciplinar.
Ou seja, o projeto não veda a ninguém o direito de escrever sobre história nem pretende impor de uma hora para outra a especialização a todos os docentes. Apenas quer assegurar a presença de historiadores profissionais em espaços dedicados ao ensino e à pesquisa científica em história, para que esses possam, em colaboração com outros estudiosos, contribuir para o avanço da área.

PAULO PAIM, 62, é senador pelo PT-RS, presidente da Comissão de Direitos Humanos do Senado e autor do projeto de lei citado no artigo
BENITO BISSO SCHMIDT, 42, é professor de história da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e presidente da Associação Nacional de História (ANPUH-Brasil)



quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Oscar Niemeyer, expoente internacional da arquitetura moderna, morre aos 104



O arquiteto Oscar Niemeyer, ícone da arquitetura moderna e um dos brasileiros mais reconhecidos no mundo, morreu nesta quarta-feira (5), aos 104 anos. Ele estava internado há 33 dias no Hospital Samaritano, em Botafogo, zona sul do Rio de Janeiro, por causa de uma infecção urinária. Ele também teve uma infecção respiratória e respirava com a ajuda de aparelhos.
Niemeyer foi um dos principais expoentes da arquitetura moderna e projetou o Brasil internacionalmente. O carioca ganhou reconhecimento a partir da exploração das possibilidades plásticas e construtivas do concreto armado, produzindo obras grandiosas e inventivas, marcadas pelo abuso de curvas em detrimento das linhas e ângulos retos.
Suas obras --prédios públicos e privados, monumentos, esculturas e igrejas-- marcam a paisagem das principais cidades brasileiras e espalham-se por vários países do mundo, como Estados Unidos, França, Espanha, Alemanha, Itália, Argélia, Israel e Cuba, entre outros.
Niemeyer projetou grande parte das obras de Brasília, entre elas a praça dos Três Poderes, os prédios do Congresso Nacional, do STF (Supremo Tribunal Federal) e o Palácio do Planalto.
Em São Paulo, projetou o Memorial da América Latina, o edifício Copan e as construções do Parque do Ibirapuera; no Rio, concebeu o Museu de Arte Contemporânea de Niterói e a Marquês de Sapucaí; em Belo Horizonte, projetou todo o Conjunto Arquitetônico da Pampulha.
O arquiteto desenhou também esculturas e mobílias, escreveu livros e, depois do centenário, lançou até um disco de samba. Marxista convicto, militou no PCB (Partido Comunista Brasileiro) durante várias décadas, mudou-se para a França durante a ditadura militar e manteve amizade com Luís Carlos Prestes e Fidel Castro.

Juventude e começo da carreira

Niemeyer nasce em 15 de dezembro de 1907 no Rio, filho de Oscar Niemeyer Soares e Delfina Ribeiro da Almeida. Sua família tinha ascendência portuguesa, árabe e alemã. Cresceu no bairro de Laranjeiras, onde se casou com Annita Baldo em 1928.
Em 1929, iniciou os estudos na Escola Nacional de Belas Artes, dirigida pelo também arquiteto Lucio Costa, com quem Niemeyer começou a trabalhar em 1932.
“Gostava de desenhar, e o desenho levou-me à arquitetura. Lembro-me que ficava com o dedo no ar desenhando. Minha mãe perguntava: 'o que está fazendo menino?' 'Desenhando', respondia com a maior naturalidade. Realmente, fazia formas no espaço, formas que guardava de memória, corrigia e ampliava, como se as tivesse mesmo a desenhar”, afirmou o arquiteto, em declaração publicada na página do Instituto Oscar Niemeyer.
Em 1934, obteve diploma de engenheiro e arquiteto. Dois anos depois, conheceu o arquiteto modernista Le Corbusier. A obra do francês o influenciou de forma decisiva.
Viajou aos Estados Unidos em 1938 e elaborou o projeto do Pavilhão do Brasil na Feira Mundial de Nova York.
Em 1945, ingressou no PCB e iniciou sua amizade com Prestes, a quem na velhice ajudaria a sustentar. "Fui sempre um revoltado. Da família católica eu esquecera os velhos preconceitos, e o mundo parecia-me injusto, inaceitável. A miséria a se multiplicar como se fosse coisa natural e aceitável. Entrei para o Partido Comunista abraçado pelo pensamento de Marx."
Regressou a Nova York em 1947, onde participou, ao lado de arquitetos do mundo todo, do projeto da sede da ONU (Organização das Nações Unidas).
Em 1950, foi publicada a obra “The Work of Oscar Niemeyer” (“O Trabalho de Oscar Niemeyer”), do arquiteto e historiador grego Stamo Papadaki, que ajudou a divulgar o arquitetura de Niemeyer no exterior.
Em 1954, fez sua primeira viagem à Europa, onde conheceu França, Itália, Alemanha, República Tcheca e a União Soviética.
No ano seguinte, fundou a revista "Módulo", que circulou, em edições mensais, até 1965, quando sua publicação foi interrompida pelo governo militar –a revista foi retomada em 1975 e editada até 1987.

Brasília e golpe militar

Em 1956, Niemeyer foi convidado pelo presidente e amigo Juscelino Kubitschek para projetar a nova capital do país e organizar o concurso para a escolha do plano piloto, vencido por Lucio Costa. Dois anos depois, Niemeyer mudou-se para Brasília.
“E ali ficamos durante vários anos. Longe de tudo. Cobertos dessa poeira vermelha que durante os períodos de seca se incrustava na pele e, na estação das chuvas, paralisados pelas águas torrenciais que caíam sem controle sobre essa terra sem defesa.”
Em 1962, foi nomeado coordenador da Escola de Arquitetura da recém-fundada UnB (Universidade de Brasília), após convite do reitor Darcy Ribeiro. No ano seguinte, ganhou o Prêmio Lênin da Paz, concedido pela União Soviética.
Em 1964, quando estava em Lisboa, recebeu a notícia do golpe que instaurou a ditadura militar. Retornou ao país no final do ano, após passagem por Israel. “Levei um grande susto com a notícia do golpe. Durante três dias, não descolava o ouvido do rádio, na expectativa de uma boa notícia qualquer. Nada se passava e nós estávamos aflitos, temendo um novo período de opressão e obscurantismo. Foi em abril de 1964”, recordou Niemeyer.
Em 1965, demitiu-se da UnB assim como outros 200 professores, em protesto contra a influência militar na universidade. Na época, a sede da revista "Módulo" foi parcialmente destruída, e o escritório de Niemeyer, saqueado.

Vida no exterior

No ano seguinte, Niemeyer viajou a Paris para acompanhar exposição da sua obra no Museu do Louvre. Dois anos depois, impedido de trabalhar no Brasil e depois de os militares embargarem seu projeto para o aeroporto de Brasília, mudou-se para a capital francesa.
Em 1968, mudou-se para a Argélia para dedicar-se a vários projetos, a convite do presidente do Conselho Revolucionário Argelino, Houari Boumediène, líder da independência do país. Quatro anos depois, Niemeyer voltou a Paris, abrindo um escritório na famosa avenida Champs-Élysées.
No ano de 1975, publicou, em Milão, na Itália, seu primeiro livro (“Oscar Niemeyer”), que traz uma retrospectiva de sua obra e trajetória. Em 1978, de volta ao Brasil, participou da fundação e foi eleito presidente do Cebrade (Centro Brasil Democrático). Em 1988, recebeu o Prêmio Pritzker de arquitetura, e, no ano seguinte, foi condecorado na Espanha com o prêmio Príncipe de Astúrias.
Na década de 90, Niemeyer foi premiado com a medalha do Colégio de Arquitetos de Catalunha (em 90), com o Prêmio Leão de Ouro da Bienal de Veneza (em 96) e com a tradicional Royal Gold Medal (em 98), concedida pelo Instituto Real dos Arquitetos Britânicos. No mesmo ano, publicou um livro de memórias: “As Curvas do Tempo”. Em 1999, lançou sua primeira obra de ficção, “Diante do Nada”.

Últimos anos

A mulher do arquiteto, Annita, morreu em 2004; dois anos depois, Niemeyer casou-se com Vera Lúcia, que era sua secretária.
Em 2007, ao completar cem anos de idade, Niemeyer recebeu diversas homenagens e foi tema de muitas exposições e eventos. No ano seguinte, fundou no Rio a revista “Nosso Caminho”. Dois anos depois, aventurou-se no mundo da música, com o disco de samba de raiz “Tranquilo com a Vida”, gravado em parceria com seu enfermeiro Caio Almeida e com o músico Edu Krieger.
Também em 2008 foi inaugurada uma escultura do brasileiro em homenagem ao povo cubano na Universidade de Ciências Informáticas de Havana; um presente de Niemeyer ao líder Fidel Castro.
Em 25 de março de 2011 foi inaugurado em Avilés, na Espanha, o Centro Cultural Oscar Niemeyer, mas o espaço foi fechado nove meses depois, por determinação do governador da província. O fechamento irritou Niemeyer e provocou protestos na cidade.
No dia 8 de fevereiro de 2012, em sua última grande aparição em público, o arquiteto acompanhou a inauguração do sambódromo do Rio, que havia passado por reformas de ampliação e adequação da obra ao projeto original.
Na ocasião, Niemeyer foi aplaudido por operários da obra e agradeceu: "Estou muito feliz. Essa obra não é só minha, é do grupo que trabalha comigo. Estou muito contente e entusiasmado em ver um trabalho como esse, que foi feito para alegrar o povo."
Niemeyer deixa uma filha netos, bisnetos e trinetos. Sua filha, Anna Maria, morreu em junho, aos 82 anos, por complicações decorrentes de um enfisema pulmonar.

Reprodução do UOL Notícias





terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Conflito no Congo é ignorado pelo mundo


A retirada dos rebeldes congoleses tutsi da estratégica cidade oriental de Goma, que ocuparam em 20 de novembro em uma operação relâmpago, é só um episódio menor no tabuleiro de uma guerra colossal no centro da África, que deixou mais de cinco milhões de mortos e que nunca se extinguiu, apesar de ser dada como terminada em 2003. A permanente desestabilização da região não pode ser entendida sem enraizá-la no genocídio da minoria tutsi ocorrido em Ruanda há quase duas décadas. Mas, além dos profundos agravos étnicos e políticos, o temor de Ruanda de que seus inimigos hutus se fortaleçam do outro lado da fronteira, está o fato de que o Congo oriental, a região de Kivu, da qual Goma é o centro nevrálgico, abriga uma concentração incomparável de minérios estratégicos cujo controle implica poder e riqueza e provoca a cobiça de Ruanda, mas também de Uganda.
O Congo, com as dimensões da Europa Ocidental, é um gigante com pés de barro. A corrupção generalizada, a discutida legitimidade do presidente Joseph Kabila, apesar de ter ganhado as eleições no ano passado, e a indisciplina de suas forças armadas agravam a situação e explicam que seu pequeno vizinho Ruanda, sob o punho de ferro do presidente Paul Kagame e com um exército organizado, tenha se transformado no cérebro e sustentáculo direto das milícias rebeldes congolesas, segundo evidência incontestável de um informe recente da ONU que Kigali rejeita furiosamente. O deslizamento para o abismo do Congo Oriental é favorecido pela inoperância das forças da ONU ali mobilizadas, mais de 8.000 soldados, em suposta e caríssima missão pacificadora, humilhados pela fulgurante tomada de Goma (1 milhão de habitantes) pelos insurgentes tutsi congoleses do M23, agora simbolicamente afastados a 20 quilômetros.
A explosiva situação acarreta o risco inadmissível de provocar uma nova guerra em grande escala em uma região onde ocorreram, em meio a uma pavorosa indiferença ocidental, algumas das maiores atrocidades de nossa era. Não basta que alguns países desenvolvidos congelem sua ajuda a Kigali. O Conselho de Segurança da ONU, no qual Ruanda tem agora um assento, é obrigado a abandonar sua complacência.

A lei vs. a "vontade" de Israel


Foi inútil, como se poderia antecipar, a pressão de um punhado de países europeus para que Israel abandone o projeto de construir mais 3.000 residências para colonos judeus na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental, territórios que pertencem aos palestinos, de acordo com a legislação internacional.
Na semana passada, o primeiro-ministro Binyamin Netanyahu já havia dado uma solene bofetada na legalidade internacional, com a sua frase sobre a decisão da Assembleia Geral das Nações Unidas de conceder à Palestina o status de Estado observador.
Disse Netanyhau: "Não há decisão da ONU que possa romper 4.000 anos de vínculos entre o povo de Israel e a terra de Israel".
Dane-se a legalidade internacional. O que vale é exclusivamente a vontade "do povo de Israel".
Uma frase com esse desprezo pela única legalidade global disponível (as decisões da ONU), se pronunciada por um líder muçulmano, mais ainda se fosse iraniano, provocaria uma tempestade de condenações no Ocidente (e em Israel).
E seria justo porque, se se desrespeita o que decide a organização internacional mais legítima de que o planeta dispõe, resta apenas a lei do mais forte --e os judeus já experimentaram em carne própria o que significa a lei do mais forte.
Pena que Israel se dedique nos últimos muitos anos a adotar o seu próprio arbítrio. Não cumpre resoluções da ONU desde 1967, pelo menos, quando a organização internacional determinou que deveria devolver os territórios ocupados na guerra daquele ano.
Despreza também uma das convenções de Genebra, que veda a implantação de populações em territórios conquistados.
O número de colonos que Israel foi implantando em território palestino beira os 350 mil, sem contar os 200 mil instalados na parte oriental de Jerusalém, legalmente árabe.
Pior ainda: boa parte desses colonos dedica-se ao exercício de hostilizar os palestinos, conforme recente relatório do Comitê de Política e de Segurança da União Europeia. "Os ataques são cada vez mais severos e, em algumas áreas, mais coordenados", diz o texto, além de mais frequentes (aumentaram 32% em 2011 sobre 2010).
As hostilidades afetam homens, mulheres, crianças, campos agrícolas (10 mil árvores já foram arrancadas) e lugares de culto (só este ano, dez mesquitas foram destruídas). Não cabe aqui o argumento israelense de que, como Israel é atacada por foguetes lançados de Gaza, não pode ficar de braços cruzados. Ao contrário de Gaza, na Cisjordânia ocupada, os palestinos não disparam foguetes contra judeus.
A frase de Netanyahu torna inútil qualquer peroração legalista ou moralista a respeito da ocupação.
O que conta, na prática, é apenas o seguinte: a violação da legalidade internacional funciona para Israel?
Por enquanto, está funcionando. Mas o crescente isolamento internacional do país e o crescente alcance dos foguetes do Hamas/Jihad Islâmica sugerem que a "terra de Israel" não pode indefinidamente impor sua vontade imperial.


Reprodução da coluna de Clóvis Rossi, na Folha de São Paulo. Destaque do blogueiro. 

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Poeta e tradutor Décio Pignatari morre em São Paulo, aos 85 anos


Poeta e tradutor Décio Pignatari morre em São Paulo, aos 85 anos

Ele estava internado desde a sexta-feira no Hospital Universitário da USP, com pneumonia

Ao lado dos irmãos Augusto e Haroldo de Campos, foi um dos principais nomes da poesia concretista

DE SÃO PAULO

O poeta, ensaísta e tradutor Décio Pignatari morreu na manhã deste domingo (2), aos 85 anos. Ele, que era portador do Mal de Alzheimer e estava internado no Hospital Universitário da USP desde a última sexta (30), teve insuficiência respiratória e pneumonia aspirativa (infecção pulmonar).
Pignatari foi um dos principais nomes do movimento concretista no Brasil ao lado dos irmãos Haroldo (1929-2003) e Augusto de Campos.
Os três fundaram e editaram, na década de 1950, a revista "Noigandres", importante meio de difusão da poesia concreta. Também com os Campos, publicou "Teoria da Poesia Concreta", em 1965.
Nascido em Jundiaí, em 1927, Pignatari publicou os seus primeiros poemas em 1949 na "Revista Brasileira de Poesia". No ano seguinte, lançou o seu primeiro livro de poemas, "Carrossel".
Lançou, em 1956, o movimento da poesia concreta com o grupo Noigandres, que mantinha a formação da revista publicada em 1952.
Em 1956, o grupo publicou "Plano-Piloto para a Poesia Concreta". Lançou "Poesia Pois é Poesia" em 1977.
Também teórico da comunicação, Pignatari ajudou a fundar a Associação Brasileira de Semiótica, nos anos 1970. Autor de "Informação, Linguagem e Comunicação" (1968), traduziu obras de Marshall McLuhan, como "Os Meios de Comunicação como Extensões do Homem".


Leia mais na Folha de São Paulo.

Natal da Crise - 2012





Folha de São Paulo, 30/11/2012.

Cresce a demanda mundial pelo carvão


Cresce a demanda mundial pelo carvão

Disponibilidade e custo do carvão o deixam atrativo

Por PETER GALUSZKA

O carvão continua sendo um componente crítico da matriz energética mundial, apesar de sua imagem negativa. Na China, a demanda por carvão em 2010 provocou um engarrafamento de 120 quilômetros formado por mais de 10 mil caminhões carregando suprimentos para a Mongólia Interior (região autônoma chinesa).
A Índia, que depende do carvão para 55% de sua energia elétrica, luta para manter os suprimentos e está aumentando as importações. O mesmo vale para a Europa, onde o gás natural é mais caro, gerando demanda por mais importações de carvão dos EUA.
O carvão pode parecer um estranho candidato em um mundo onde as fontes de energia renovável, como a solar, a eólica e a hidrelétrica, chamam a atenção. Uma heresia para os ambientalistas, porque gera muita poluição, o carvão ainda tem as vantagens inegáveis de estar amplamente disponível e ser fácil de transportar e de queimar.
Mas sua maior atração é o baixo custo. Segundo muitas estimativas, queimar carvão ainda custa cerca de um terço do valor de energias renováveis.
O carvão facilmente supre a demanda básica de eletricidade dos consumidores, sem interrupção. O mesmo acontece com a energia nuclear, mas esta ainda sofre as consequências do desastre de março de 2011 na central de Fukushima Daichi, no Japão.
A demanda por carvão deverá alcançar 8,1 bilhões de toneladas até 2016, contra 7,2 bilhões de toneladas neste ano, com a maior parte da nova demanda vinda da China, segundo a companhia de carvão Peabody Energy. Em quatro anos, a China deverá ganhar o equivalente a 160 novas usinas movidas a carvão, além das 620 que operam hoje. A Índia acrescentará 46.
Além da grande demanda por carvão térmico, que é queimado em usinas de energia, o uso de carvão siderúrgico (o coque), usado nos altos-fornos, também deverá mais que duplicar na China, para cerca de 1,7 bilhão de toneladas em 2016, enquanto as siderúrgicas do país produzem mais aço para automóveis, arranha-céus e produtos de exportação, segundo um estudo da Peabody.
O coque terá demanda crescente em outros centros produtores de aço, como o Brasil e a Índia, levando as empresas a explorar novas reservas em lugares como Botsuana, Mongólia e Moçambique.
Ao todo, o uso do carvão deverá aumentar 50% até 2035, diz Milton Catelin, executivo-chefe da Associação Mundial do Carvão, em Londres. "No ano passado, o carvão representou 30% da energia mundial. Esta foi a mais alta porcentagem atingida desde 1969", disse.
Dentro de um ou dois anos, o carvão vai superar o petróleo como o principal combustível do planeta, prevê Catelin.
Por enquanto, o carvão parece ter evitado um sério empecilho potencial para sua utilização: os acordos internacionais que restringem as emissões de gases do efeito estufa. Até agora, os acordos para evitar a mudança climática foram ineficazes.
A China pretende colocar equipamentos de redução de emissões de carbono em novas usinas.
Mas a China e outros grandes produtores de carvão ainda têm um longo caminho a seguir em segurança de minas. Em média, cerca de 2.500 mineiros de carvão chineses morrem em acidentes todos os anos. Autoridades da indústria dizem que a segurança vai melhorar com o desenvolvimento de novas tecnologias.
Analistas do setor estão procurando novas fontes de carvão, notadamente o coque. A Shenhua Energy, da China, a Peabody Energy e outras empresas japonesas, russas e sul-coreanas são as principais interessadas em desenvolver o depósito de Tolgoi, na Mongólia.
Grandes planos de exportação estão em curso na Colômbia e na África do Sul. O Grupo Abhijeet da Índia tem um novo contrato de US$ 7 bilhões para o "carvão vapor" de Kentucky e da Virgínia Ocidental.
Mas os planos de expansão enfrentam desafios. Na Mongólia, os depósitos estão em áreas remotas e em condições climáticas extremas. A África do Sul tem tendência a inquietações trabalhistas.
A Austrália é o maior exportador de carvão do mundo, mas novos regulamentos poderão aumentar seus preços, diz Jimmy Brock, o principal diretor operacional da Consol Energy, sediada em Pittsburgh, na Pensilvânia.
Os reguladores australianos temem que a Grande Barreira de Recifes possa ser danificada pela passagem de navios. Os portos também estão sujeitos a danos de tempestades e inundações.
As companhias de carvão americanas querem exportar o produto das minas de Wyoming e Montana, mas não há como despachar o carvão. Planos de enviar o minério a 2.400 quilômetros de distância por trem para cinco portos planejados no noroeste do Pacífico e no Canadá enfrentam intensa oposição ambientalista.
Mas, em longo prazo, o futuro do carvão depende da China e da Índia. Suas perspectivas parecem excelentes, principalmente porque ele é mais barato que seus concorrentes.