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sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Velório de Niemeyer é aberto ao público no Rio de Janeiro


Velório de Niemeyer é aberto ao público no Rio de Janeiro

Corpo do arquiteto chegou ao Palácio da Cidade no fim da noite dessa quinta


O corpo do arquiteto Oscar Niemeyer, que morreu na quarta-feira aos 104 anos, será velado até as 17h desta sexta-feira no Palácio da Cidade, a sede oficial da Prefeitura do Rio, em Botafogo, na zona sul. O velório foi restrito a familiares ao longo da madrugada e aberto ao público às 8h30min. Até as 15h, o público poderá se despedir do arquiteto.

Por enquanto, poucas pessoas estão no local do velório para dar o último adeus ao mestre da arquitetura moderna. A estudante de arquitetura Gisela Aguiar aguardava às 7h45min a abertura do velório ao público. “Sou de Brasília e vim prestar a última homenagem. As obras de Niemeyer são únicas e pioneiras, como os palácios do Planalto e da Alvorada. Minha preferida é a Catedral de Brasília.” Pouco antes da liberação da entrada do público, o governador fluminense, Sérgio Cabral, e o prefeito do Rio, Eduardo Paes, foram ao velório.

Das 15h às 17h o velório será novamente fechado para a família. O cortejo seguirá, então, para o cemitério São João Batista, onde o enterro deve ocorrer às 17h30min.

Nessa quinta-feira, o corpo de Niemeyer foi velado no Palácio do Planalto, em Brasília. Ao todo, 44 coroas de flores foram dispostas no salão - de Marisa Letícia e Lula, do governo da Bolívia, de Fidel Castro, da Ambev, do PC do B (uma homenagem ao "grande camarada comunista") e até do Comando da Aeronáutica.

Um avião da Força Aérea Brasileira (FAB) levou o corpo do arquiteto Oscar Niemeyer até o Aeroporto Santos Dumont, no Rio, no final da noite dessa quinta-feira e um veículo por militares do 3º Comando Aéreo Regional (3º Comar) da Aeronáutica e transportou até o Palácio.


Notícia do Correio do Povo. 

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Oscar Niemeyer, expoente internacional da arquitetura moderna, morre aos 104



O arquiteto Oscar Niemeyer, ícone da arquitetura moderna e um dos brasileiros mais reconhecidos no mundo, morreu nesta quarta-feira (5), aos 104 anos. Ele estava internado há 33 dias no Hospital Samaritano, em Botafogo, zona sul do Rio de Janeiro, por causa de uma infecção urinária. Ele também teve uma infecção respiratória e respirava com a ajuda de aparelhos.
Niemeyer foi um dos principais expoentes da arquitetura moderna e projetou o Brasil internacionalmente. O carioca ganhou reconhecimento a partir da exploração das possibilidades plásticas e construtivas do concreto armado, produzindo obras grandiosas e inventivas, marcadas pelo abuso de curvas em detrimento das linhas e ângulos retos.
Suas obras --prédios públicos e privados, monumentos, esculturas e igrejas-- marcam a paisagem das principais cidades brasileiras e espalham-se por vários países do mundo, como Estados Unidos, França, Espanha, Alemanha, Itália, Argélia, Israel e Cuba, entre outros.
Niemeyer projetou grande parte das obras de Brasília, entre elas a praça dos Três Poderes, os prédios do Congresso Nacional, do STF (Supremo Tribunal Federal) e o Palácio do Planalto.
Em São Paulo, projetou o Memorial da América Latina, o edifício Copan e as construções do Parque do Ibirapuera; no Rio, concebeu o Museu de Arte Contemporânea de Niterói e a Marquês de Sapucaí; em Belo Horizonte, projetou todo o Conjunto Arquitetônico da Pampulha.
O arquiteto desenhou também esculturas e mobílias, escreveu livros e, depois do centenário, lançou até um disco de samba. Marxista convicto, militou no PCB (Partido Comunista Brasileiro) durante várias décadas, mudou-se para a França durante a ditadura militar e manteve amizade com Luís Carlos Prestes e Fidel Castro.

Juventude e começo da carreira

Niemeyer nasce em 15 de dezembro de 1907 no Rio, filho de Oscar Niemeyer Soares e Delfina Ribeiro da Almeida. Sua família tinha ascendência portuguesa, árabe e alemã. Cresceu no bairro de Laranjeiras, onde se casou com Annita Baldo em 1928.
Em 1929, iniciou os estudos na Escola Nacional de Belas Artes, dirigida pelo também arquiteto Lucio Costa, com quem Niemeyer começou a trabalhar em 1932.
“Gostava de desenhar, e o desenho levou-me à arquitetura. Lembro-me que ficava com o dedo no ar desenhando. Minha mãe perguntava: 'o que está fazendo menino?' 'Desenhando', respondia com a maior naturalidade. Realmente, fazia formas no espaço, formas que guardava de memória, corrigia e ampliava, como se as tivesse mesmo a desenhar”, afirmou o arquiteto, em declaração publicada na página do Instituto Oscar Niemeyer.
Em 1934, obteve diploma de engenheiro e arquiteto. Dois anos depois, conheceu o arquiteto modernista Le Corbusier. A obra do francês o influenciou de forma decisiva.
Viajou aos Estados Unidos em 1938 e elaborou o projeto do Pavilhão do Brasil na Feira Mundial de Nova York.
Em 1945, ingressou no PCB e iniciou sua amizade com Prestes, a quem na velhice ajudaria a sustentar. "Fui sempre um revoltado. Da família católica eu esquecera os velhos preconceitos, e o mundo parecia-me injusto, inaceitável. A miséria a se multiplicar como se fosse coisa natural e aceitável. Entrei para o Partido Comunista abraçado pelo pensamento de Marx."
Regressou a Nova York em 1947, onde participou, ao lado de arquitetos do mundo todo, do projeto da sede da ONU (Organização das Nações Unidas).
Em 1950, foi publicada a obra “The Work of Oscar Niemeyer” (“O Trabalho de Oscar Niemeyer”), do arquiteto e historiador grego Stamo Papadaki, que ajudou a divulgar o arquitetura de Niemeyer no exterior.
Em 1954, fez sua primeira viagem à Europa, onde conheceu França, Itália, Alemanha, República Tcheca e a União Soviética.
No ano seguinte, fundou a revista "Módulo", que circulou, em edições mensais, até 1965, quando sua publicação foi interrompida pelo governo militar –a revista foi retomada em 1975 e editada até 1987.

Brasília e golpe militar

Em 1956, Niemeyer foi convidado pelo presidente e amigo Juscelino Kubitschek para projetar a nova capital do país e organizar o concurso para a escolha do plano piloto, vencido por Lucio Costa. Dois anos depois, Niemeyer mudou-se para Brasília.
“E ali ficamos durante vários anos. Longe de tudo. Cobertos dessa poeira vermelha que durante os períodos de seca se incrustava na pele e, na estação das chuvas, paralisados pelas águas torrenciais que caíam sem controle sobre essa terra sem defesa.”
Em 1962, foi nomeado coordenador da Escola de Arquitetura da recém-fundada UnB (Universidade de Brasília), após convite do reitor Darcy Ribeiro. No ano seguinte, ganhou o Prêmio Lênin da Paz, concedido pela União Soviética.
Em 1964, quando estava em Lisboa, recebeu a notícia do golpe que instaurou a ditadura militar. Retornou ao país no final do ano, após passagem por Israel. “Levei um grande susto com a notícia do golpe. Durante três dias, não descolava o ouvido do rádio, na expectativa de uma boa notícia qualquer. Nada se passava e nós estávamos aflitos, temendo um novo período de opressão e obscurantismo. Foi em abril de 1964”, recordou Niemeyer.
Em 1965, demitiu-se da UnB assim como outros 200 professores, em protesto contra a influência militar na universidade. Na época, a sede da revista "Módulo" foi parcialmente destruída, e o escritório de Niemeyer, saqueado.

Vida no exterior

No ano seguinte, Niemeyer viajou a Paris para acompanhar exposição da sua obra no Museu do Louvre. Dois anos depois, impedido de trabalhar no Brasil e depois de os militares embargarem seu projeto para o aeroporto de Brasília, mudou-se para a capital francesa.
Em 1968, mudou-se para a Argélia para dedicar-se a vários projetos, a convite do presidente do Conselho Revolucionário Argelino, Houari Boumediène, líder da independência do país. Quatro anos depois, Niemeyer voltou a Paris, abrindo um escritório na famosa avenida Champs-Élysées.
No ano de 1975, publicou, em Milão, na Itália, seu primeiro livro (“Oscar Niemeyer”), que traz uma retrospectiva de sua obra e trajetória. Em 1978, de volta ao Brasil, participou da fundação e foi eleito presidente do Cebrade (Centro Brasil Democrático). Em 1988, recebeu o Prêmio Pritzker de arquitetura, e, no ano seguinte, foi condecorado na Espanha com o prêmio Príncipe de Astúrias.
Na década de 90, Niemeyer foi premiado com a medalha do Colégio de Arquitetos de Catalunha (em 90), com o Prêmio Leão de Ouro da Bienal de Veneza (em 96) e com a tradicional Royal Gold Medal (em 98), concedida pelo Instituto Real dos Arquitetos Britânicos. No mesmo ano, publicou um livro de memórias: “As Curvas do Tempo”. Em 1999, lançou sua primeira obra de ficção, “Diante do Nada”.

Últimos anos

A mulher do arquiteto, Annita, morreu em 2004; dois anos depois, Niemeyer casou-se com Vera Lúcia, que era sua secretária.
Em 2007, ao completar cem anos de idade, Niemeyer recebeu diversas homenagens e foi tema de muitas exposições e eventos. No ano seguinte, fundou no Rio a revista “Nosso Caminho”. Dois anos depois, aventurou-se no mundo da música, com o disco de samba de raiz “Tranquilo com a Vida”, gravado em parceria com seu enfermeiro Caio Almeida e com o músico Edu Krieger.
Também em 2008 foi inaugurada uma escultura do brasileiro em homenagem ao povo cubano na Universidade de Ciências Informáticas de Havana; um presente de Niemeyer ao líder Fidel Castro.
Em 25 de março de 2011 foi inaugurado em Avilés, na Espanha, o Centro Cultural Oscar Niemeyer, mas o espaço foi fechado nove meses depois, por determinação do governador da província. O fechamento irritou Niemeyer e provocou protestos na cidade.
No dia 8 de fevereiro de 2012, em sua última grande aparição em público, o arquiteto acompanhou a inauguração do sambódromo do Rio, que havia passado por reformas de ampliação e adequação da obra ao projeto original.
Na ocasião, Niemeyer foi aplaudido por operários da obra e agradeceu: "Estou muito feliz. Essa obra não é só minha, é do grupo que trabalha comigo. Estou muito contente e entusiasmado em ver um trabalho como esse, que foi feito para alegrar o povo."
Niemeyer deixa uma filha netos, bisnetos e trinetos. Sua filha, Anna Maria, morreu em junho, aos 82 anos, por complicações decorrentes de um enfisema pulmonar.

Reprodução do UOL Notícias. 





segunda-feira, 16 de julho de 2012

O arquiteto-chefe do Império Otomano


O arquiteto-chefe do Império Otomano


Fui à Turquia numa peregrinação arquitetônica. Embora o design e a arte contemporânea estejam em alta por lá, eu ansiava por saber mais sobre o trabalho de Sinan (1490-1588), chefe dos arquitetos e engenheiros civis do Império Otomano. Seus patrões, o sultão Suleyman, o Magnífico, e seus descendentes, eram os homens mais poderosos da Terra.
Os guias costumam compará-lo ao seu contemporâneo Michelangelo, mas Michelangelo fez contribuições espetaculares a alguns poucos prédios em Roma e Florença, enquanto Sinan construiu cerca de 300 estruturas no Leste Europeu e Oriente Médio, das quais centenas continuam em uso.
"Como na [praça] São Pedro, em Roma, seu olho é atraído para a própria cúpula", disse Dogan Kuban, autor de muitos livros sobre arquitetura islâmica. "As cúpulas rasas de Sinan, porém, com sua decoração abstrata pintada, parecem flutuar magicamente. Em vez da estrutura, você contempla o espaço."
Visitei mais de uma dúzia dos seus edifícios em Istambul, uma cidade com quase 3.000 mesquitas, para melhor compreender como a sua experimentação com composições geométricas complexas transformou grossas paredes de pedra em colunas, arcos e abóbadas -e em coisas chamadas trompas e tímpanos- na hora de fazer a transição vertical do piso quadrado das mesquitas para os seus tetos redondos.
A mesquita Sehzade, em Edirnekapi, foi concluída em 1548, no começo da carreira de Sinan. Nas paredes exteriores da mesquita, Sinan organizou habilmente os contrafortes que sustentam a cúpula sobre as colunas. Para criar simetria, ele posicionou portas no centro delas. Mas, dentro da mesquita, as portas faziam os fiéis entrarem e saírem no meio da sala, e não pelo fundo. "Um local sagrado destinado à oração e contemplação se tornou um corredor", disse meu guia, "um erro que ele nunca mais repetiria".
Perto dali fica a mais importante mesquita de Sinan em Istambul. Encomendada por Suleyman para ser a sua própria tumba, e concluída em 1558, a mesquita Suleymaniye está entre os monumentos mais visíveis da cidade. Sinan modulou a altura dos quatro minaretes, reforçando a ilusão de que a mesquita flutua sobre a cidade.
A mesquita Rustem Pasha fica no movimentado mercado de especiarias da cidade. Sinan enfrentou os desafios de construir neste lugar não exatamente pacato elevando todo o complexo acima do nível da rua.
Uma serena praça flutua sobre a algazarra. No interior, os brilhantes azulejos de Iznik, do século 16, criam um jardim de tulipas encarnadas, turquesas e cobalto.
A mesquita Mihrimah Sultan, em Edirnekapi, foi encomendada por Mihrimah, filha de Suleyman. Decoradas com vitrais e vidros translúcidos, as paredes são uma maravilha da alvenaria.
Dizem que Sinan estava apaixonado por Mihrimah, mas, como ela se casou com o grão-vizir de Suleyman, ele se contentou em fazer a mesquita ser a mais luminosa possível, de modo a refletir o nome dela, que significa "sol e lua".
Meu guia, adequadamente chamado Sinan Yalcin, também me contou que, no dia em que um novo sultão era proclamado, seus irmãos eram mortos, para evitar disputas de poder.
A mesquita Sokollu Pasha também é famosa por seus azulejos. A chegada oferece uma vista impressionante do amplo teto que protege a fonte das abluções, em primeiro plano, e a repetição aparentemente infinita de cúpulas e arcos da mesquita.
No outro lado do Bósforo, no lado asiático de Istambul, fica a mesquita Semsi Pasha, versão em miniatura de templos enormes como a famosa Mesquita Azul. Seu discreto interior é uma elegante e comedida evocação do paraíso terrestre.
A três horas de carro de Istambul, em Edirne, ex-capital otomana perto da fronteira com a Bulgária e a Grécia, fica a mesquita Selimiye. Com seus quatro esguios minaretes, ela coroa o centro da cidade. Sinan a considerava a sua obra-prima.
Em 2011, o conjunto foi tombado pela Unesco como Patrimônio Mundial da Humanidade.
À primeira vista, ela parece uma tensa mistura de esferas, cones e cilindros, nas cores bege ou cinza escuros.
Mas a complexidade artística das paredes externas aparentemente impenetráveis se dissolve em um bordado de colunas e arcos de pedra que abraçam um espaço vasto e harmonioso.
Apesar da sua escala impressionante -a cúpula ultrapassa em alguns centímetros a da Hagia Sófia, em Istambul-, nenhum detalhe era pequeno demais para escapar à atenção de Sinan.