Mostrando postagens com marcador falecimentos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador falecimentos. Mostrar todas as postagens

domingo, 8 de março de 2026

Morre António Lobo Antunes, um dos maiores escritores de Portugal, aos 83


O romancista português António Lobo Antunes, um dos escritores lusófonos mais lidos e traduzidos do mundo, morreu aos 83 anos nesta quinta-feira, segundo sua editora.

O autor recebeu em 2007 o Prêmio Camões, a distinção literária mais importante da língua portuguesa, e era um dos poucos de seu país a ser cotado ao prêmio Nobel de Literatura.

Nos 43 anos entre 1979 e 2022, Lobo Antunes escreveu 32 romances, nunca algo curto e leve, sempre livros longos e impactantes. Cada um parece ter levado dez anos para ser escrito e demandar um ano para ser lido —ele nos deu tudo de si e exigiu tudo de nós.

Lobo Antunes nasceu em 1942, formou-se em medicina e serviu como médico de campanha na guerra colonial de Angola, de 1971 a 1973, na experiência definidora de sua vida.

Graças ao inesperado sucesso de seus primeiros livros a partir do final daquela década, largou a medicina e, desde então, não fez mais nada além de escrever romances. "Não se pode escrever a biografia de um escritor porque ele é muita gente", disse.

Seus livros não têm enredo bem definido nem personagens marcantes, o que colabora para aumentar sua fama de difícil e inacessível. Mas poucas obras literárias recentes valem tanto o esforço de explorá-las. "Não estou no mundo para ajudar meus admiradores a atravessar a rua", disse ele.

Quem lê um romance de Lobo Antunes sai arrebatado por vozes, por situações, por atmosferas. Na verdade, pela forma em si, por palavras transformadas elas mesmas em protagonistas.

Seu estilo fragmentado e polifônico, inefável e absurdo, não pode ser separado da experiência fundante da guerra. Assim como as repetições quase hipnóticas de palavras e frases em seus livros, também é da natureza do trauma parecer que volta a acontecer o tempo todo.

Como descrever um horror existencial que transcende o tempo e as palavras? Lobo Antunes criou um novo estilo porque os que estavam à sua disposição não davam conta de expressar tamanha entropia.

Então, como ler sua obra? Abdicando da necessidade de entender o que está acontecendo. Como em uma iluminação instantânea depois de décadas de meditação, o efeito de seus romances é ao mesmo tempo súbito e cumulativo. De repente, cenas e falas aparentemente esparsas e desconexas se unem para formar um único painel humano, impactante e coerente.

Se poesia é o que se perde na tradução, um romance de Lobo Antunes é aquilo que se perde na tentativa de resumo. Nas palavras dele, "enquanto se lê por vezes pode ter-se a sensação de não se estar a entender nada, mas depois, subitamente, entende-se tudo: o escuro torna-se claro".

É possível separar seus romances em três ciclos: autobiográfico, português e intimista.

O ciclo autobiográfico é formado pelas três primeiras obras, "Memória de Elefante" e "Os Cus de Judas", ambos de 1979, e "Conhecimento do Inferno", de 1980. O protagonista é um alter ego do autor, um médico psiquiatra que participou da guerra colonial em Angola.

Embora já ensaiem o caráter polifônico dos romances posteriores, ainda são obras de uma só voz. Podem servir como excelente porta de entrada, com uma ressalva: são apenas a ponta de um vasto iceberg.

O segundo ciclo inclui obras que dialogam diretamente com a história de Portugal. São romances como "Fado Alexandrino", de 1983, em que veteranos da guerra colonial se reúnem para conversar sobre os velhos tempos, e "Manual dos Inquisidores", de 1996, que mostra a decadência de uma rica família salazarista depois da Revolução dos Cravos.

Há também "O Esplendor de Portugal", de 1997, sobre as difíceis escolhas de uma família portuguesa na Angola pós-independência, e "Exortação aos Crocodilos", de 1999, história de um grupo de militares terroristas inconformados com a revolução.

Destaca-se o realismo mágico luso-tropical de "As Naus", de 1988, no qual, junto com os retornados —portugueses nascidos nas colônias que regressam, após a independência, a um país que muitas vezes nem conheciam –, voltam também algumas das maiores figuras históricas do império ultramarino, como Camões, Cabral e são Francisco Xavier.

Uma progressiva complexificação, nos últimos 20 anos, culmina no terceiro ciclo de Lobo Antunes, o intimista.

"Não existe narrativa no sentido comum do termo", afirma ele. "Apenas longos círculos concêntricos que se estreitam e aparentemente nos sufocam. E sufocam-nos aparentemente para melhor respirarmos."

Suas obras vão se tornando difíceis de distinguir uma das outras, como se cada uma fosse um novo capítulo do mesmo romance infinito.

Os romances do segundo ciclo são mais experimentais que os do primeiro e menos abstratos que os do terceiro. Os fatos históricos oferecem uma estrutura que quase se aproxima de um enredo formal, funcionando como uma rede de segurança para o salto de fé que a leitura exige.

Seu 32º e último romance, "O Tamanho do Mundo", publicado em Portugal em 2022 e ainda inédito no Brasil, seria recebido como revolucionário em qualquer contexto onde já não existissem 31 romances anteriores de Lobo Antunes para comparação.

Seu tema é outro horror inefável: a solidão da velhice. Verdadeiro "Memorial de Aires" do autor, é um réquiem digno de se ombrear entre as demais obras de uma carreira literária que parece uma catedral medieval —gigantesca e imponente, repleta de detalhes impressionantes que raramente reparamos ao primeiro contato.

Nas últimas décadas, o leitorado português se acostumou a esperar um novo livro de Lobo Antunes sempre em outubro. Em 2024, a segunda edição expandida do livro de entrevistas "Uma Longa Viagem com António Lobo Antunes", de João Céu e Silva, ajudou a explicar a ausência do escritor.

Ele estaria incapaz de escrever por estar sofrendo de demência desde 2021, agravada pelo isolamento durante a pandemia. A revelação provocou polêmica: tinha Céu e Silva o direito de divulgar uma condição médica que a própria família mantinha em segredo?

Seu último livro publicado em vida foi "As Outras Crônicas", volume editado em 2024. Sua editora, a Dom Quixote, prepara uma coletânea de poemas do autor ainda para este ano.

"Uma obra de arte boa é uma vitória sobre a morte," escreveu Lobo Antunes. Hoje, no dia de sua morte, cabe a nós reconhecer essa vitória.


Reprodução de texto de Alex Castro na Folha de São Paulo. 

terça-feira, 12 de agosto de 2025

Fãs, amigos e familiares lotam velório de Arlindo Cruz, na Império Serrano


Até as 17h deste sábado, só se ouvia Ludmilla e o seu "Numanice" nos rádios em frente à Império Serrano, na zona norte do Rio de Janeiro. Até que sintonizaram em "O Show Tem Que Continuar", e os fãs espremidos na entrada da escola de samba entoaram o clássico de Arlindo Cruz, sambista morto nesta sexta, aos 66 anos, enquanto aguardavam a abertura do velório do músico, às 18h. Em poucos minutos, o espaço lotou.

O gurufim de Arlindo —uma homenagem com música, festa, bebida e dança— acontece na sua escola do coração, que por 11 vezes levou um samba de sua autoria para a avenida e está previsto para virar a madrugada, até 10h do domingo. Depois, às 11h, o sepultamento será no Cemitério Jardim da Saudade, em Sulacap, zona oeste da capital fluminense, numa cerimônia restrita a parentes e amigos próximos.

Além das dezenas de fãs —que cantavam e batiam palmas, acompanhando os atabaques em cânticos de candomblé, religião de Arlindo—, foram lá familiares e amigos próximos, como seus filhos Arlindinho e Flora, Regina Casé, Zeca Pagodinho, Hélio de la Peña, Marcelo D2, Marcos Salles, seu biógrafo e a escritora Conceição Evaristo. Alguns deles participaram de uma despedida mais reservada, antes da abertura para o público.

Arlindinho é requisitado pela imprensa e pelos fãs, que puxam selfies mesmo com o rosto abatido do filho. "Meu pai me ensinou que, desde o momento que colocamos o pé do lado de fora de casa, a gente está trabalhando. Essa é a vida do artista. Então, hoje é um dia de dor, mas também de trabalho. A cerimônia está do tamanho que ele merece, de tudo que ele plantou. Agora é seguir esse legado."

Babi, viúva do músico, chegou por volta das 19h, quando Arlindinho empunhou seu banjo e iniciou o gurufim. Ele e sua filha Maria Helena, neta de Arlindo, entoaram alguns sucessos do sambista, como "O Show Tem que Continuar", "Meu Lugar" e "O Bem".

"É a primeira vez que eu entro na quadra do Império Serrano. Eu desfilei no ano da homenagem, mas não vim para nenhum ensaio", diz Kauan Felipen, filho de Arlindo em outro relacionamento. "E é meio nostálgico, mesmo não tendo vivido aqui. Aqui é o lugar de origem dele, então é um lugar meio místico para mim, bem forte".

O gurufim, porém, não encobre a dor com alegria —desata o nó da garganta através da música. Em volta da grade, os fãs cantam com olhos marejados e narizes fungando na noite fria do Rio.

Uma roda de samba —ou pagode, já que nunca existiu diferença entre os gêneros para Arlindo— começou por volta das 19h30, seguindo com alguns clássicos da rua, como "Agora Viu Que Me Perdeu e Chora", "Pra Ser Minha Musa" e "Meu Poeta".

"Arlindo era o elo entre gerações", diz o cantor e compositor Mosquito. "Era um cara muito antenado, estava na rua o tempo inteiro. Um cara que conhecia a molecada e tinha um respeito pelos grandes. Era um cara generoso, sensível e sagaz ao mesmo tempo".

Perto das 21h, o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes também foi ao velório com Cristina, sua esposa. Eles se juntaram à roda de samba e cantaram abraçados aos familiares do sambista. Com um copo de cerveja na mão, o prefeito atendeu os imperianos. Também esboçou um samba no pé quando a bateria da escola entra na quadra, às 22h20. "Não preciso falar nada. Arlindo é isso aqui, a alma do carioca", disse.

Um pouco antes, por volta das 22h, a viúva Babi voltou ao pé do caixão. Entre lágrimas, recebeu alguns amigos, como André Diniz, Milton Cunha e o músico Leandro Sapucahy, que produziu dois álbuns de Cruz. Para ele, os últimos anos, desde que o sambista sofreu um AVC em 2017, foram de sofrimento pela ausência de uma perspectiva de melhora no quadro de saúde dele.

"Apesar de achar que estávamos nos preparando, quando chega esse momento é difícil. O Arlindo foi muito generoso e importante na minha vida", disse Sapucahy. "Todo mundo fala do Arlindo Cruz poeta, mas acho que as pessoas hoje não tem noção do tamanho da perda. Arlindo era um amigo, que me confortava, que ligava todo dia, que trazia as pessoas para perto."

"O mestre descansou", diz Salles, o biógrafo. "E deixa uma obra e uma trajetória das mais importantes da história da música, da história do samba. Que todos aprendam e prestem atenção nas canções deixadas por Arlindo."

Como pedido pela família, a maioria das pessoas veste roupas claras, em sinal de luz, alegria e da energia positiva que o músico espalhou ao longo de sua vida.

O caixão foi posicionado em frente ao palco da quadra, onde foram espalhadas mais de uma dezena de coroas de flores —com mensagens de nomes como o presidente Lula e da primeira-dama Janja da Silva, além da Beija-flor de Nilópolis—, enquanto um telão mostra imagens do sambista. Sobre o caixão, bandeiras da Mocidade, Grande Rio, Império Serrano e do Flamengo.

Arlindo morreu por falência múltiplos dos órgãos. O sambista estava internado no Hospital Barra D’Or, na Barra da Tijuca. Desde 2017, lidava com as complicações de um acidente vascular cerebral.

Em 2023, Arlindo foi o homenageado da Império Serrano durante o Carnaval. Em um dos carros, havia uma imensa alegoria do artista, tocando banjo e usando uma coroa imperiana, símbolo da escola. O próprio músico participou, acompanhado da família e de uma equipe médica –ele sofreu um acidente vascular cerebral em 2017, que o deixou com graves sequelas.


Reprodução de reportagem de Gabriel Dias na Folha de São Paulo.

segunda-feira, 14 de abril de 2025

Morre Mario Vargas Llosa, que venceu o Prêmio Nobel de Literatura, aos 89 anos


Um dos últimos nomes representativos do chamado "boom latino-americano" da literatura, Mario Vargas Llosa morreu neste domingo, aos 89 anos, em Lima. A morte foi informada por seu filho, Álvaro Vargas Llosa, nas redes sociais, no fim da noite.

"Com profunda tristeza, tornamos público que nosso pai, Mario Vargas Llosa, morreu hoje em Lima, cercado por sua família e em paz. Sua partida entristecerá seus parentes, amigos e seus leitores ao redor do mundo, mas esperamos que você encontre conforto, como nós, no fato de que ele gozou de uma vida longa, múltipla e fecunda, e deixa um trabalho que sobreviverá", afirmou Álvaro, em nota assinada junto dos irmãos, Morgana e Gonzalo.

Ainda em nota, a família informou que não haverá velório ou sepultamento abertos ao público. "Nossa mãe, nossos filhos e nós mesmos confiamos que teremos o espaço e a privacidade que necessitamos para se despedir dele. Seus restos mortais, como era seu desejo, serão cremados."

Nascido em 1936, Vargas Llosa construiu uma obra imensa, que conquistou leitores pelo mundo todo. Em 2010, ele venceu o Prêmio Nobel de Literatura, não sem antes ter abocanhado o Princesa de Astúrias, o Cervantes e o PEN. Sua obra é marcada por uma combinação obstinada entre ficção e política, em contraposição à de Gabriel García Márquez, seu colega de geração, que abandonou o realismo para mergulhar no universo do maravilhoso.

Habilidoso com as palavras, Vargas Llosa cativa o leitor desde a primeira página de seus romances. Com uma enorme facilidade de mesclar ficção e elementos da realidade, ele pôde abordar questões políticas e sociais latentes e atuais de modo literário. Em suas páginas, estão as ditaduras, a corrupção política e os conflitos sociais de toda a América Latina.

Um de seus livros mais conhecidos é "A Festa do Bode", publicado em 2000, que retrata os anos de ditadura de Rafael Trujillo na República Dominicana. Nessa obra, Vargas Llosa habilmente entrelaça a história do ditador com a vida de personagens fictícios, inspirados nas histórias de suas vítimas que não sobreviveram para contar a história. Cria-se, no livro, um retrato vívido e perturbador da tirania e suas consequências.

Outro livro, que figurava entre seus preferidos particulares, é "A Guerra do Fim do Mundo", para onde o escritor voltou as atenções e criou uma obsessão pela revolta de Canudos, no Brasil.

Além de seu trabalho como romancista, Vargas Llosa foi um prolífico ensaísta e jornalista, usando sua voz para expressar opiniões sobre diversos assuntos. Ficou conhecido por sua defesa da liberdade de expressão e dos direitos humanos e se envolveu ativamente em campanhas políticas. Meteu-se, em vários países da região, em debates locais, ao defender a eleição de um ou de outro candidato a presidente no Brasil, na Argentina e no Chile.

Curiosamente, em contraposição a suas ideias políticas nos últimos anos, mais à direita, Vargas Llosa começou a atuar na literatura e na política ao lado da Revolução Cubana. Era um aliado do castrismo até o caso de Herberto Padilla, um poeta e escritor cubano que, em 1971, começou a fazer críticas à revolução. Preso, o autor ensejou que vários intelectuais e escritores se mobilizassem por ele, inclusive Jean-Paul Sartre e Simone de Beauviour.

Vargas Llosa também foi um deles. A partir da desilusão causada por esse episódio, o peruano começou a se afastar da esquerda. Nas décadas seguintes, o escritor se viu muito envolvido na política de seu instável país, o Peru, a partir de então sempre se posicionando contra soluções consideradas populistas. Foi candidato à presidência em 1990 contra quem viria a se tornar o ditador do país, Alberto Fujimori, mas acabou perdendo a eleição.

Em 2010, Vargas Llosa recebeu o Prêmio Nobel de Literatura, em reconhecimento à sua contribuição excepcional para a literatura mundial. Esse prestigioso prêmio solidificou ainda mais sua posição como um dos grandes escritores contemporâneos e trouxe maior visibilidade para as suas obras. O estilo de escrita de Vargas Llosa é caracterizado por uma prosa elegante, rica em detalhes e profundamente reflexiva. Seus personagens são, em sua maioria, complexos e realistas.

Embora muitos de seus livros se passem no Peru, como "La Ciudad y Los Perros", "La Casa Verde" e "Conversación en La Catedral", a influência de Vargas Llosa transcende de forma ampla as fronteiras de seu país natal.

O impacto literário de Vargas Llosa alcança leitores em todo o mundo. Uma das disputas literárias mais conhecidas e significativas do século 20, aliás, foi a briga entre ele e García Márquez. A amizade desses dois renomados escritores teve início na década de 1960, quando faziam parte do chamado "boom latino americano". No entanto, a relação deu uma reviravolta dramática nos anos 1970, por causa de um conflito pessoal e político.

O imbróglio foi multifacetado, enraizado tanto em diferenças artísticas quanto em desacordos políticos. Seus estilos de escrita e abordagens narrativas contrastantes se tornaram fonte de contenda, com Vargas Llosa favorecendo uma abordagem mais analítica e estruturada, enquanto García Márquez abraçava o realismo mágico e um estilo que era mais lírico e expansivo.

No entanto, a disputa entre os dois autores foi além das diferenças literárias. Suas posições políticas opostas também contribuíram para a tensão em seu relacionamento. Vargas Llosa inclinava-se para a ideologia liberal, defendendo a democracia e os mercados livres, enquanto García Márquez mantinha uma afinidade maior com a política de esquerda e os princípios socialistas.

O clímax da disputa ocorreu quando eles se envolveram em uma briga física num encontro público. A razão teria sido um desentendimento por conta da mulher do peruano, Patricia Llosa, que havia sido namorada de Gabo anteriormente. Terminou com Gabo levando uma bofetada de Vargas Llosa em um cinema, diante de todos. Esse evento marcou o fim definitivo da amizade e deixou um impacto duradouro no mundo literário.

Em uma entrevista à Folha, ao ser questionado sobre a relação entre ambos, Vargas Llosa disse que jamais voltaria a falar de Gabo no plano pessoal, mas que seguiria elogiando a magnitude de suas obras. Isso seguiu fazendo depois da morte do colombiano.

A vida amorosa de Vargas Llosa foi outro elemento tão vibrante e dinâmico quanto sua carreira literária. Ao longo da vida, ele se envolveu em diversos relacionamentos românticos, alguns dos quais receberam grande atenção pública, como o affair com Isabel Preysler. Notavelmente, na década de 1950, ele se casou com sua primeira mulher, Julia Urquidi, com quem teve dois filhos. No entanto, o casamento deles terminou em divórcio, e Vargas Llosa teve outros relacionamentos.

Um dos casos de amor mais notáveis foi com sua prima por casamento, Patricia Llosa, com quem ele posteriormente se casou. O relacionamento levantou sobrancelhas e atraiu escrutínio público devido à sua natureza não convencional. Apesar das controvérsias em torno da união, Mario Vargas Llosa e Patricia Llosa permaneceram juntos e compartilharam uma vida repleta de interesses intelectuais em comum e apoio mútuo. O escritor, no entanto, se separou de Patricia há uma década e morreu solteiro. Ele deixa os seus três filhos.


Reprodução de texto se Sylvia Colombo na Folha de São Paulo.

sexta-feira, 30 de setembro de 2022

Morre Paul Veyne, historiador francês especialista em Antiguidade


O historiador e arqueólogo francês Paul Veyne morreu nesta quinta-feira, aos 92 anos, em Vaucluse. A informação foi publicada no site do jornal francês Le Monde. A causa da morte não foi revelada.

Conhecido por sua especialidade em Antiguidade grego-romana, Veyne publicou livros como "Sêneca e o Estoicismo", "Elegia Erótica Romana", "Os Gregos Acreditavam em seus Mitos?" e "Pão e Circo: Sociologia Histórica de um Pluralismo Político".

Veyne publicou também livros relacionados a filosofia. Em "Foucault - Seu Pensamento, Sua Pessoa", por exemplo, o historiador se debruça sobre o pensamento de Michel Foucault, filósofo que o citava para rebater a ideia do cristianismo como marco da repressão sexual.

Veyne dizia que a história é a história das práticas e das crenças. Ele repudiava qualquer ideia de racionalidade da história, de ser movida por fatores profundos como progresso ou luta de classes. Para ele, "não se pode tirar nenhuma lição da história", como contou à Folha, em 2009.

Nascido em 1930, em Aix-en-Provence, Veyne começou a se interessar pelo Império Romano aos oito anos de idade, ao ver uma ânfora em um sítio celta.

Além de historiador, arqueólogo e escritor, Veyne foi também professor na Escola Francesa de Roma e Universidade Sorbonne. Em 1975, se tornou titular da cadeira de história romana do Colégio da França, cargo que ocupou até 1998.


Reprodução de notícia da Folha de São Paulo. 

quarta-feira, 28 de julho de 2021

Orlando Drummond deu rosto a um personagem icônico e voz a dezenas de outros


“Te dou o maiorrr apoio!”, dizia o Seu Peru, quando queria agradar a algum colega da Escolinha do Professor Raimundo. Cheio de trejeitos e usando roupas coloridíssimas, o personagem tinha orgulho de suas origens – “Peru com mel, de Vila Isabel!” – e, na ânsia da paquera, chegava a ser inconveniente – “Use-me e abuse-me!”. Na maior parte do tempo, era um doce de pessoa: “Peru é cultura, cheio de ternura!”. De vez em quando, também se enfurecia: “Estou porrr aqui!”.

Esses bordões estão marcados na memória de quem assistiu à televisão brasileira nos últimos 30 anos. Mas o Seu Peru, na verdade, surgiu no rádio, em 1952, na primeiríssima versão da Escolinha. É sintomático que o único personagem marcante de Orlando Drummond na TV tenha começado pela voz, antes de ganhar um visual. Dono de uma garganta elástica, o ator e dublador deu alma a criaturas tão díspares como o cachorro Scooby-Doo, o alienígena Alf e o vilão Vingador, de “Caverna do Dragão”.

Orlando Drummond Cardoso nasceu no Rio de Janeiro, em 18 de outubro de 1919. Entrou na carreira artística pela beirada, em 1942, como contrarregra na Rádio Tupi. Não demorou para ter sua voz percebida por Paulo Gracindo (1911-1995), um dos maiores atores brasileiros de todos os tempos. Começou a fazer participações em programas de humor até que, em 1946, passou a trabalhar como radioator em tempo integral.

Naquela época, a dublagem era incipiente no Brasil. Apenas os longas em animação da Disney ganhavam vozes nacionais, além de um ou outro filme voltado ao público infantil. Mas a chegada da TV, em 1950, fez com que a demanda por conteúdo dublado explodisse. E foi nesse novo mercado que Orlando Drummond encontrou as maiores oportunidades de sua carreira.

Seu currículo é longuíssimo e impressionante. Drummond foi o primeiro dublador contratado pela Herbert Richers, que, de produtora de cinema, tornou-se o maior estúdio de dublagem do país. Seu primeiro trabalho lá foi o sargento Garcia, o atrapalhado antagonista da série “Zorro”.

Seguiram-se clássicos da Hanna-Barbera: Pepe Legal, Bibo Pai, Dum-Dum (o comparsa da Tartaruga Touché). Mais tarde, entre 1988 e 1995, Drummond também dublou duas figuras fundamentais dos desenhos da Warner: Patolino e o gato Frajola.

Durante muito tempo, foi a voz do marinheiro Popeye. Na série em animação “Os Smurfs”, fez o vilão Gargamel. Nos filmes baseados na série, o Papai Smurf.

Sem falar na Lebre de Março (“Alice no País das Maravilhas”), no Gato Guerreiro (“He-Man”), no Professor Girassol (“As Aventuras de Tintim”), no sr. Wilson (“Dennis, o Pimentinha”), no Atchim (na segunda dublagem de “Branca de Neve e os Sete Anões”). Ou no papel-título de “Alf, O ETeimoso”, uma das sitcoms de maior sucesso da década de 1980.

Mas foi com Scooby-Doo que Orlando Drummond entrou para o Livro Guiness dos Recordes, como o dublador que por mais tempo deu voz ao cão: nada menos do que 35 anos.

Também dublou centenas de atores de carne e osso, como Gary Cooper, Cary Grant e Gene Hackman. Era uma unanimidade entre os colegas de ofício: todos o adoravam.

Na televisão, Orlando Drummond participou de diversos humorísticos desde os anos 1960. Construiu inúmeros tipos, e um deles fez história: Seu Peru, um homossexual espalhafatoso e de bem com a vida. Na nova versão do programa, em que atores mais jovens reinterpretam os personagens clássicos, Seu Peru caiu com Marcos Caruso, e Drummond aprovou: “agora eu tenho um sucessor”.

Casado desde 1951 com Glória, teve com ela dois filhos, cinco netos e três bisnetos. E fundou uma dinastia de dublagem: seus netos Alexandre, Eduardo e Felipe também são dubladores.

Orlando Drummond nasceu no final da pandemia da gripe espanhola e se foi durante outra, a da Covid-19, sem ser atingido por nenhuma delas. Foi o primeiro idoso carioca a ser vacinado contra o novo coronavírus, e chegou a tomar a segunda dose. Deixa um legado imenso, admirado por diversas gerações.


Texto de Tony Goes, na Folha de São Paulo.

domingo, 16 de maio de 2021

Paulo Gustavo foi Cazuza, Renato, Cacilda e Leila, e por isso viva Paulo Gustavo

 

Artistas não são mais nem menos importantes do que médicos, políticos, garis ou professores. Mas sua profissão consiste em espelhar aquilo que reconhecemos como humano, em nos irmanar no gozo e na aflição. Daí o luto coletivo que experimentamos quando um deles nos deixa.

Eu ainda era criança quando um derrame cerebral tirou a vida de Cacilda Becker. A inconformidade com a morte de uma mulher daquela envergadura, aos 48 anos, no auge de sua potência, suscitou o brado "viva Cacilda Becker!".

Caetano Veloso o lançou, em meio a vaias, no Festival da Canção de 1968, e ainda hoje o repetimos como afirmação tanto da imortalidade da atriz quanto da arte.

Dentre todos os acasos funestos que vez por outra nos assombram, nenhum se compara ao trágico desaparecimento de Leila Diniz, aos 27 anos, vítima de acidente aéreo.

Leila era todas as mulheres do mundo: a namorada, a mulher e a mãe, eternizada na barriga imensa exposta pelo biquíni. Leila foi o Carnaval e a praia, o amor carnal e o romântico. Não há teoria, palavra ou prece que dê conta de tão absurda ausência. Todos os que a amaram morreram, um pouco, com ela.

Leila encarnou a revolução de costumes que, finda a ditadura, eu e os meus poríamos em prática, não fosse a aparição de um vírus hediondo. Quando completei 18 anos, a Aids se abateu sobre o planeta, transformando o sexo em risco e paranoia.

A peste levou Agenor de Miranda Araújo Neto, o Cazuza, em 7 de julho de 1990. No mesmo dia, a Legião Urbana fez um show, no Jockey Club do Rio, para 60 mil espectadores. Eu estava entre eles e testemunhei a homenagem de Renato Russo ao amigo e colega.

"Eu vou falar de mim. Eu tenho mais ou menos 30 anos. Eu sou do signo de Áries. Eu nasci no Rio de Janeiro. Eu gosto da Billie Holiday e dos Rolling Stones. Eu gosto de beber pra caramba de vez em quando. [...] Eu gosto de meninas, mas eu também gosto de meninos. Todo mundo diz que eu sou meio louco. Eu sou um cantor numa banda de rock'n'roll. Eu sou letrista e algumas pessoas dizem que eu sou poeta."

"Agora eu vou falar de um carinha. Ele tem 30 anos. Ele é do signo de Áries. Ele nasceu no Rio de Janeiro. Ele gosta da Billie Holiday e dos Rolling Stones. Ele é meio louco. Ele gosta de beber pra caramba. Ele é cantor numa banda de rock. Ele é letrista. E eu digo, ele é poeta."

Renato já sabia, ali, ser portador do HIV. Seis anos depois, seria a sua vez de partir.

Assim como com Cacilda e Leila, parte de Dado e de Bonfá, dos Paralamas, dos Titãs, do Barão, dos 60 mil presentes e de todos os que viveram aquela hora, feneceu com os dois.

Felipe Pinheiro não era astro de rock, não possuía a nobreza de Cacilda nem a divindade mundana de Leila.

Ator, roteirista e escritor, Felipe foi o grande parceiro de palco de Pedro Cardoso e o meu maior amigo. Ele fez parte do movimento apelidado de besteirol, o BRock das artes cênicas, e morreu em 1993, com a idade de Cristo.

A morte dele marca o fim da minha mocidade. Considero contemporâneos todos aqueles que a ele assistiram. Os que não ou eram velhos demais para entendê-lo ou jovens demais para entrar na sessão de meia-noite de "Bar Doce Bar", no Teatro Cândido Mendes.

Não tenho como traduzi-lo e, até hoje, sinto uma falta incurável dele. Para os que quiserem conhecer a inteligência vira-lata desse espírito do meu tempo, aconselho a leitura da compilação de seus textos, editada pela e-galáxia, no recém lançado "O Demitido".

A morte de Paulo Gustavo se reflete em todas as ausências aqui descritas. Para os herdeiros do besteirol, Porchat, Adnet, Gregorio, Majella, Lobianco, Ingrid, Mônica, Caruso, Katiuscia, Raphael e Tabet, Paulo é o que Felipe foi para mim.

Sua partida marca a entrada deles na maturidade, na consciência da brevidade da vida e da fragilidade humana.

Para a legião urbana de fãs que conquistou, Paulo foi Cazuza e foi Renato, o ídolo pop do pedaço, o senhor de mil Jockeys. Para o teatro, a despedida de Paulo é o vazio de Cacilda em cena. Para os meninos que gostam de meninos e meninas, para o marido, Thales, e os filhos, Romeu e Gael, Paulo foi e sempre será Leila.

Para o Brasil, que deveria tê-lo vacinado, sua morte é o retrato triste de um país que desistiu de ser alegre e cordial.

Dona Déa Lúcia, obrigada por esse filho. Ele era mesmo fascinação.

Viva Cacilda Becker, viva Leila, viva Cazuza e Renato, viva Felipe Pinheiro e, para sempre, viva Paulo Gustavo!

P.S.: Carlito Carvalhosa, amigo imenso, artista imenso, o sujeito mais doce e inteligente, mais delicado e amado, a alma mais nobre que eu já conheci, acaba de partir. Não tenho palavras para dizer do orgulho de tê-lo conhecido. Levo comigo a sua eterna presença.


Texto de Fernanda Torres, na Folha de São Paulo. 

sábado, 24 de abril de 2021

Por que Marc Ferro foi crucial para a lupa que investiga o cinema

 

Marc Ferro, historiador francês que morreu nesta quarta-feira, aos 96 anos, vítima da Covid-19, em Paris, é conhecido no Brasil por seus trabalhos sobre a Revolução Russa e as relações entre a história e o cinema. Mas se voltou ainda a inúmeros temas. Em comum, a reflexão sobre a escrita da história e seus usos e abusos na legitimação de ações no presente.

Nascido em 1924, ele perdeu o pai aos cinco anos. Sua mãe, modista de uma casa de alta costura, foi uma influência fundamental em sua vida. Ela tinha um sobrenome judeu, mas não tinha consciência disso. A ocupação nazista os tornou judeus.

Ferro fugiu de Paris graças ao conselho de seu professor de filosofia, Merleau-Ponty. Em 1944, participou da resistência, mas na volta, não reencontrou sua mãe, que fora executada em Auschwitz.

​Vivenciou esses e outros acontecimentos que moldaram sua visão sobre a história, em que pesquisa e erudição, as experiências de vida, a intuição e a coragem de contrariar o estabelecido permitiram percepções iluminadoras e engajadas, até o fim de sua vida.

Prova disso é a relação íntima que estabeleceu com as tecnologias audiovisuais. Não foram apenas objeto de estudo, ou de difusão do conhecimento.

Especialista e orientador de estudos sobre a Rússia, aproveitou o surgimento das antenas parabólicas e conseguiu, de seu escritório na École des Hautes Études en Sciences Sociales, em Paris, instalar uma televisão para acompanharem a difusão das mudanças que ocorriam com a Perestroika. À sua maneira, em 1985, antecipava a conexão direta em tempo real da internet.

A vasta obra, que se inicia nos anos 1970, abrange a história da Rússia, da França, das colonizações, a Segunda Guerra. Essa bagagem de pesquisas acompanha e se enriquece no seminário sobre cinema e história, com temáticas trazidas por estudantes de vários países.

A partir do embate constante entre textos e imagens —usados em seus livros com a mesma legitimidade—escreve sobre as "Falsificações e Tabus da História" e, em 2015, "A Cegueira"—, muito oportuno, porque estuda o motivo de "nos recusarmos a ver a realidade”.

Ao se voltar de forma pioneira para o estudo das imagens audiovisuais, vistas com desconfiança e desprezo pelos historiadores até então, podemos entender sua postura em relação a tudo o que escreveu e aos vários filmes e programas de televisão que realizou ao longo de sua carreira.

Em 1964, enquanto redigia sua tese de doutorado sobre a Revolução Russa, participou da realização de um documentário sobre a Primeira Guerra. Diante das imagens dos arquivos, observou que traziam informações diferentes daquelas que a história escrita consagrara.

Ora, há uma história escrita pelas imagens que é diferente da história dos livros. Desafiar essa certeza, esse paradigma dos historiadores rendeu muitas críticas a ele. Afinal, o cinema não é sério como a história; ele manipula.

Ora, a escrita da história não manipula? O cinema mandava essa questão de volta para a história. O cinema escreve, sim, a história. “Documentário ou ficção é história.”

Com esse pensamento, Ferro abriu aos historiadores esse vasto campo de estudos que se espalhou pelo mundo, incluindo o Brasil, onde Ferro se apresentou várias vezes, numa delas conforme sua memória, teve o seu maior público, mil historiadores.

De seus ex-alunos no Brasil, há o livro "Cinematógrafo", um olhar sobre a história.

A constatação crítica sobre a escrita da história já vinha de sua experiência como professor em Orâ, na Argélia, entre 1948 a 1956. A história do colonizador que ele trazia como verdadeira e universal não era aceita pelo colonizado. “Não é essa a nossa história.”

Ele passa a aprender com os alunos outras histórias e paradigmas. Descoloniza sua visão de mundo, assim como tantos outros que passaram pela experiência colonial. Como Fernand Braudel que o leva para os Annales, a revista que desde 1929 vinha revolucionando os estudos de história.

Em sua tese de doutorado, Ferro pôs em questão dogmas sobre a Revolução Russa. Uma revolução feita pelos proletários conforme dizem os livros, o poder? Não era o que diziam as fontes que pesquisara, as imagens fotográficas e fílmicas tomadas da própria revolução.

Foram os soldados que voltavam da guerra, as mulheres e os camponeses que fizeram a Revolução Russa. Desafiava, assim, a imagem e a história que o Partido Comunista construíra.

Novas visões sobre a história da Segunda Guerra Mundial se estabeleceriam de forma profunda e partilhada com o público, durante 12 anos —entre os anos de 1989 e 2001— no programa semanal Histoire Parallèle.

Após a queda do Muro de Berlim, no prenúncio da União Europeia, no canal de televisão franco-alemão La Sept, conhecido posteriormente como Arte, selando a amizade dos antigos países rivais, Marc Ferro e um segundo historiador mostravam e comentavam os cinejornais produzidos em seus países durante a guerra.

Como as imagens construíam a guerra? Como as populações a deviam vivenciar? O que essas imagens não mostravam? Exercício de compreensão histórica e compaixão. Um humanismo que marcou as inquietações e contribuições de Marc Ferro, e que nosso tempo parece ter perdido.


Texto de Sheila Schvarzman, na Folha de São Paulo. A autora é doutora em História pela Unicamp, e foi aluna de seminários com Marc Ferro. 

quinta-feira, 8 de abril de 2021

Bosi fez do acordo entre o verbo e a carne o norte de sua existência


Numa mesa redonda sobre a obra de Machado de Assis, realizada em 1980, e com nomes de proa, como Antonio Callado e Roberto Schwarz, Alfredo Bosi tomou a palavra e, em vez de expor erudição intimidadora ou elaborar teorias inteligentes, propôs uma pergunta que condensa a singularidade de seu olhar e a potência de sua contribuição à cultura brasileira. “É uma curiosidade minha saber como é que vocês responderam vitalmente a Machado.”

Autorretrato involuntário. Para Alfredo Bosi, cultura nunca foi sinônimo de acúmulo rigoroso de dados dissociado da vida. Pelo contrário, segundo ele, o conhecimento era parte de uma ética que vinculava intrinsecamente a formação à roda da biblioteca com o saber forjado nas experiências do cotidiano.

Circula no YouTube uma notável conferência do crítico, "Cultura ou Culturas Brasileiras?", de 2015. A fim de explicar o conceito de cultura, além de recorrer às noções grega e romana, ele lançou mão de sua experiência em Florença, nos anos de 1961 e 1962.

Bolsista do governo italiano, o jovem Bosi converteu seus contratempos diários numa fascinante reflexão acerca da ambiguidade do conceito latino –cultura implica tanto trabalhar a terra com as mãos quanto moldar o espírito.

Ambiguidade tornada dilema que ainda hoje aprisiona a civilização brasileira, como descortinado no fundamental “Dialética da Colonização”, de 1992. Polos opostos se confrontam há séculos –de um lado, se “aproxima cultura e culto, utopia e tradição”. De outro, tendência dominante, se “amarra firmemente a escrita à eficiência da máquina econômica articulando cultura e colo”. A defesa incondicional da vida pouco vale nos manifestos de banqueiros preocupados com a economia e nada pesa na desfaçatez de políticos e empresários que desejam legalizar o contrabando vergonhoso de vacinas.

Doutor em literatura italiana, com tese dedicada ao “Itinerário da Narrativa Pirandelliana”, defendida em 1964, e livre-docente na mesma disciplina, com o trabalho “Mito e Poesia em Leopardi”, de 1970, Bosi dominava como poucos a tradição da literatura clássica, numa das mais completas vocações de comparatista da universidade brasileira.

Em 1970, ele realizou uma mudança importante. Passou a ensinar literatura brasileira, se tornando professor titular em 1985 e professor emérito em 2009.

Não se pense, contudo, que este foi um movimento inesperado. Fiel ao compromisso com o próprio tempo, Bosi sempre se interessou pela literatura nacional. Em 1962 organizou “José Bonifácio, o Moço – Poesias”. Em 1966, publicou sua primeira obra de referência na disciplina, “O Pré-Modernismo”, estudo incontornável do período imediatamente anterior à eclosão da Semana de Arte Moderna em 1922.

Na verdade, o rito de passagem foi celebrado com um livro-monumento, saído no mesmo ano de 1970 –“História Concisa da Literatura Brasileira”, título obrigatório e incomum best-seller acadêmico.

Em primeiro lugar, Bosi aceitou o desafio de analisar a produção contemporânea, recusando o abrigo cômodo de lidar somente com o cânone. Em novas edições, acrescentou uma seção sobre a ficção produzida entre os anos 1970 e 1990. De igual modo, estudou a poesia concreta, poetas posteriores e ainda destacou, tópico inédito em histórias literárias, as traduções de poesia.

Outro gesto que não se encontra em títulos do gênero –Bosi concluiu o livro com uma seção em que sublinhou a importância de outros críticos, seus pares e, por vezes, vozes divergentes. Generosidade intelectual que reitera o elo entre vida e obra.

As últimas páginas homenageiam um austríaco naturalizado brasileiro, conferindo pleno sentido a uma das dedicatórias do livro. “Para Otto Maria Carpeaux, mestre de cultura e de vida.” Eis aí o acordo entre verbo e carne, biblioteca e pólis –norte da existência de Alfredo Bosi.

Por fim, publicar “História Concisa da Literatura Brasileira” foi um relevante ato de resistência nem sempre bem compreendido. Leiamos a nota adicionada em 1979 –“Quanto à crítica produzida nos anos de 1970, registre-se a tendência formalista e estruturalista”. Portanto, escrever uma história da literatura em 1970, momento mais sanguinário da ditadura militar durante o governo do general Médici, foi uma atitude ousada –dentro e fora da universidade.

Resistir foi o verbo central na vida e na obra do autor de “Literatura e Resistência”, de 2002. No Brasil de hoje, em plena incapacidade de um governo negacionista de enfrentar a crise da Covid-19, resistir também é viver com coerência e dignidade. Lição definitiva, que afirma a atualidade perene do pensamento-ação de Alfredo Bosi.


O texto é de João Cezar de Castro Rocha, professor da UERJ, publicado na Folha de São Paulo. 

terça-feira, 30 de março de 2021

Morre Contardo Calligaris, o psicanalista italiano que soube levar o Brasil ao divã


O estilo de se expressar de Contardo Calligaris, morto nesta terça (30), aos 72 anos, em decorrência de um câncer, era bastante particular. Gestual envolvente, olhar sedutor, tiradas irônicas e um sotaque que embaralhava italiano, inglês e português eram a marca de sua presença tanto num debate profissional como no hábito de que ele tanto gostava, o da tertúlia com os amigos.

A morte de Calligaris foi confirmada por seu filho, o cineasta Maximilien Calligaris, numa rede social. Segundo ele, diante da proximidade da morte, seu pai disse que esperava "estar à altura". O psicanalista, escritor e dramaturgo se firmou nas duas últimas décadas no Brasil como um fino observador da cultura e do comportamento do país.

O diretor de Redação da Folha, Otavio Frias Filho, morto em 2018, gostava de provocar Calligaris, dizendo que, no fundo, ele devia ser um argentino que tinha inventado uma vivência por vários países só para justificar o sotaque que virou sua marca.

Calligaris, de bom humor, sempre ria dessa brincadeira. Aliás, não era pequena a admiração de Frias Filho por ele. Ambos compartilhavam um gosto semelhante no que diz respeito a cinema e teatro e um interesse por entender a sexualidade humana.

O sotaque, expliquemos logo, era resultado do fato de Calligaris ser italiano, porém de ter sido alfabetizado em inglês. Vinha de uma família que havia lutado contra o fascismo de Mussolini e este era justamente o idioma da resistência, como conta Calligaris em "Hello, Brasil", escrito nos anos 1990.

Na reedição desse livro, em 2017, Calligaris afirmava que já não poderia mais escrever sobre o país com o olhar de um estrangeiro, já que se sentia cada vez mais brasileiro. Ele nasceu em Milão, em 2 de junho de 1948. Escritor, psicanalista e dramaturgo, manteve uma coluna neste jornal desde 1999, às quintas-feiras, dedicadas a temas da psicanálise, filmes, peças e livros.

“Nascido em Milão, cidadão do mundo e tradutor do Brasil, Contardo Calligaris elevou o patamar do colunismo de cultura no Brasil. Foi testemunha ocular das principais mudanças de comportamento dos últimos 50 anos. Deixará uma lacuna gigante”, afirmou Sérgio Dávila, diretor de Redação da Folha.

Com o tempo, certa rigidez das abordagens iniciais se reduziu. Os temas deixaram de ser mais acadêmicos ou mais relacionados a seu consultório. Calligaris passou a se sentir mais à vontade —talvez mais brasileiro— para tratar de acontecimentos de sua vida cotidiana em São Paulo, virando um cronista da cidade, com um olhar ácido e divertido, transformando acontecimentos prosaicos em peças sobre o comportamento humano.

Como numa das colunas, em que ele contou estar dirigindo numa madrugada na avenida Sapopemba, na zona leste, e, ao ver um cão prestes a tentar atravessar a via, e assim se arriscar à morte, desceu do carro e, para o seduzir a ficar onde estava, comprou para ele um faustoso churrasco numa barraquinha e o tranquilizou.

Sua relação com a capital paulista teve início em 1986, depois de lançar seu livro "Hipótese sobre o Fantasma na Cura Psicanalítica"". Calligaris veio ao Brasil para fazer palestras, e recebeu a proposta de um grupo de psicanalistas para que passasse 15 dias a cada dois meses em São Paulo, para serem analisados por ele. Aceitou.

Depois de várias viagens, acabou se instalando num apartamento nos Jardins. E passou a ter o hábito de jantar quase todos os dias no restaurante Tatini, na rua Batataes. Quando ia sozinho, levava um livro ou anotações. Mas também era ali que gostava de levar amigos para papear até altas horas.

Calligaris gostava muito de escrever e ler em cafés —hábito mais europeu do que paulistano— e sentia falta de locais para fazer isso em São Paulo. Mesmo assim, o cultivava, e várias vezes se pegou fazendo anotações na calçada mesmo. Por isso, era normal o ver sempre com uma ou duas canetas no bolso.

Ler e escrever em aviões também eram parte de seu hábito. E, como viajava muito, chegava a ler dois livros por voo entre São Paulo e Nova York, contando o tempo que passava no que chamava de "limbo", os aeroportos e salões de embarque.

Calligaris teve uma formação católica, filho de um cardiologista e de uma tenista. Na sua adolescência, na Itália, conta que havia vivido "paixões ideais contraditórias". Eram os anos 1960, e ele contava ter sido logo influenciado pela obra do jornalista liberal e antifascista Piero Gobetti. Depois disso, leu Antonio Gramsci e passou a se considerar um socialista. Por outro lado, ia se apaixonando também pela contracultura americana.

Tinha uma relação complicada com sua origem italiana, que não negava mas com a qual mantinha certa distância —achava que a imagem de seu país no exterior estava demasiado ligada ao fascismo ou à estridência de sua cultura popular.

Trabalhou, ainda na juventude, num jornal mensal de cultura, o "Utopia". Depois de passar uma temporada no Reino Unido, foi estudar em Genebra e em Paris. Na Suíça, foi aluno do historiador Jean Starobinski e do crítico literário George Steiner. Na França, ele se aprofundou no estudo da psicanálise, estudando com Jacques Lacan e Michel Foucault. Sua tese em semiologia foi orientada por Roland Barthes.

Contava que se sentia "um peixe fora d'água", na França dos anos 1970, por ter uma formação psicanalítica lacaniana, estudando na escola freudiana de Paris, mas, ao mesmo tempo, interessado na obra de culturalistas americanos como Karen Horney e Erich Fromm.

Seu ímpeto contraditório fez com que o pai, quando Calligaris ainda era criança, dissesse ao filho que tinha dado a ele um nome errado. Que o deveria ter chamado de Contrário, e não de Contardo.

"Não que eu fosse permanentemente do contra, mas, desde pequeno, parecia que eu só sabia começar minhas frases por um 'mas'", ele dizia.

Nos Estados Unidos, foi professor de antropologia na Universidade da Califórnia e de e estudos culturais na New School, em Nova York. No Brasil, começou a atuar como psicanalista e, aos poucos, a construir uma personalidade pública constantemente chamada a falar em público sobre temas sobre amor, relações humanas, sexualidade e questões existenciais. Sua relação com São Paulo foi se tornando mais intensa e seu personagem, mais popular. Vieram, então, suas obras para teatro, romances e uma série para a televisão.

Teve oito casamentos e explicava essa cifra afirmando que era porque, quando se apaixonava, não queria "ver a pessoa apenas de vez em quando", mas sim que gostava da convivência e do desafio de construir uma relação. Seu interesse pela sexualidade humana também fez dele um explorador nessa área, que o levou a se interessar pelo que se passava no submundo sexual paulistano.

Entre suas aventuras, uma das que fez pública, foi o caso com uma malabarista de trânsito de São Paulo. Mas sua busca e seu interesse eram contínuos. Dizia aos amigos que precisava fazer sexo todos os dias, senão não dormia direito.

Calligaris teve um filho, Maximilien, nascido na França. Até recentemente, ainda lutava boxe, o esporte que praticou na juventude e que rendeu a ele uma bolsa de estudos quando vivia na Suíça.

Numa entrevista a um meio gaúcho, em maio de 2020, Calligaris falou sobre a pandemia do coronavírus e sobre o medo que sentia de que alguns hábitos e cenas do passado não voltassem mais.

Entre eles, dois dos quais gostava tanto, como ir ao cinema ou entrar num avião sem medo. E, para exemplificar sua tristeza com a pandemia, que logo de início afetou tanto o seu país-natal, falou de uma imagem que viu da Piazza del Campo, de Siena, deserta por causa do confinamento. Era ali, disse, que, além dos turistas, os jovens caminhavam e buscavam flertar ou iniciar uma aventura amorosa. E se isso não voltasse nunca mais?


Contardo Calligaris (1948-2021). O texto é de Sylvia Colombo, publicado na Folha de São Paulo. 


Uma perda imensa. Eu estou bastante abalado.