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terça-feira, 7 de junho de 2016

A dupla era trinca

"A Ditadura Acabada" é o fecho augusto do opus magnum de Elio Gaspari sobre o mandarinato militar. No todo, são cinco volumes que somam 3.500 páginas. A bibliografia ultrapassa 700 livros e 200 CDs, com 220 horas de diálogos de Ernesto Geisel com assessores. Cerca de 7.000 notas de pé de rodapé amparam cada informação factual. São mais de 200 os entrevistados.
A abundância dos números é excedida pelos seus predicados: arquivos de figuras-chave da ditadura são contrapostos ao testemunho dos seus opositores e da batelada de neutros que se beneficiou, ou foi vítima, da força militar. Forma-se assim o magma no qual se movem Planalto e Casa Branca; sacristias e sindicatos; cárceres e casernas; células clandestinas e luxuosos gabinetes; a tigrada da direita e o terror da esquerda.
A riqueza do material é fruto da energia plutônica do autor, que há 33 anos rala de madrugada, em fins de semana e férias para escrever os livros. A esse empenho concentrado se somam duas décadas prévias de lida com a ditadura, seja como resistente, réu ou repórter.
Militante do PCB antes de 1964, Gaspari foi preso dois meses na Ilha das Flores (na mesma cela de Darcy Ribeiro). Jornalista, veio a cativar chefes do regime, que lhe franquearam documentos secretos. A vivência particular, a memória de elefante e o gosto pela tecnologia digital lhe permitiram cruzar milhares de dados.
A abundância dificulta a apreciação sumária do trabalho. Os perfis nuançados de centenas de pessoas, a percepção da situação internacional e do seu impacto na cena brasileira, a dialética entre a força do real e os desígnios subjetivos –a complexidade desafia juízos taxativos.
Ainda assim, três afirmações podem ser feitas já no calor da publicação do derradeiro volume. Não há paralelo na historiografia brasileira de uma obra com tal envergadura. É o relato mais abrangente e profundo da ditadura. A série tem a vocação de um clássico.
Fique-se com a definição de Ezra Pound para "clássico", a de uma obra com "juventude eterna e irreprimível". Ela não é a verdade revelada, e sim um ser vivo que é preciso frequentar para entender o passado e o presente. Se somos o que fomos, os que hoje clamam por uma ditadura, e também os que buscam evitá-la, deveriam ler os cinco livros.
Complexidade e abundância não querem dizer barafunda. Uma tese orienta a série: explicar por que dois generais, Geisel e Golbery do Couto e Silva, estiveram à frente do golpe, batalharam para erguer a ditadura e, quando ela estava pronta, desmontaram-na.
Pela equação, exposta no início do primeiro livro, os dois teriam imposto a sua vontade ao país e à política nacional. Terminado o quinto volume, porém, a antítese também se torna válida: o sacerdote e o feiticeiro foram criaturas de forças sociais e históricas.
Fica evidente, igualmente, o papel preponderante de Heitor Ferreira, um capitão de 27 anos quando do golpe. De cultura mais sólida que os seus mentores, ele traduziu Orwell, sabe Churchill de trás para frente, falava sobre música americana com Ivan Lessa de igual para igual.
Foi um conselheiro de uma discrição que quase o tornou invisível. A dupla Geisel-Golbery só pode existir, contudo, porque na verdade foi uma trinca. Mas como a história é incontrolável, os três acharam que João Figueiredo seria um bom presidente. Algo semelhante se deu com Lula e Dilma.



Texto de Mario Sergio Conti, na Folha de São Paulo.

domingo, 8 de novembro de 2015

Avós da Praça de Maio encontram 118º neto tomado pela ditadura

Avós da Praça de Maio encontram 118º neto tomado pela ditadura

Martín Ogando Montesano era procurado pela organização há 39 anos
A organização humanitária Avós da Praça de Maio anunciou nesta quinta-feira a restituição da identidade do 118º neto, em sua campanha para recuperar filhos tomados de casais desaparecidos nas mãos da repressão durante a ditadura argentina (1976-83).

"Oi, vovó, sou seu neto", disse ter ouvido com emoção, nesta quinta-feira, Delia Gianvola, em telefonema de um país que não informou, onde mora o recém-encontrado Martín Ogando Montesano, procurado há 39 anos. Com a voz embargada pela emoção e tentando conter o choro, Gianvola, uma das doze fundadoras das Avós da Praça de Maio, fez o anúncio e coletiva de imprensa, ao lado da presidente da organização, Estela de Carlotto.

O neto encontrado aceitou meses atrás submeter-se a um exame de sangue no consulado argentino do país onde vive, o qual permitiu "comprovar sua identidade em 99,99%", contou Carlotto. Martín é filho de Jorge Oscar Ogando e Stella Marins Montesano, militantes de esquerda sequestrados por um comando de militares em 1976. Stella Marins, grávida de oito meses na época de sua prisão, foi prisioneira no centro clandestino Pozo de Banfield, ao Sul de Buenos Aires, onde seu bebê nasceu. Nunca se soube o destino dela e do marido.

"Anunciamos o feliz encontro do neto 118", disse a organização presidida por Estela de Carlotto, em um comunicado, sem revelar a identidade da pessoa encontrada até que a mesma seja apresentada à sua família de sangue durante coletiva de imprensa. A recuperação da 117ª neta foi anunciada em 31 de agosto, mas foi preciso esperar até 16 de outubro para conhecer Claudia, uma mulher de 37 anos apresentada em entrevista coletiva conjunta com os avós biológicos na cidade de Mendoza, 1.000 quilômetros a oeste de Buenos Aires. Claudia era a filha roubada ado casal Walter Domínguez e Gladys Castro, presos por militares em dezembro de 1977 e desaparecidos desde então.

A maioria dos 118 netos recuperados nasceram quando as mães estavam em cativeiro em um dos mais de 500 centros clandestinos de tortura e extermínio instalados em todo o território argentino. As avós calculam que tenham sido 500 os bebês tirados dos braços das mães. Um forte impacto político e emocional foi registrado em agosto de 2014, quando a presidente das Avós encontrou o seu neto, Ignacio Guido Montoya Carlotto.

Durante a ditadura, dezenas de milhares de ativistas políticos, sindicalistas, profissionais, estudantes e até empresários foram sequestrados, torturados, desapareceram ou foram ameaçados de morte, empurrados ao exílio forçado. Maternidades clandestinas funcionaram em institutos militares e quartéis. A maioria dos filhos dos desaparecidos sequestrados era entregue a famílias vinculadas ao regime.

Reprodução do Correio do Povo.

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Votou contra o arquivamento do caso Riocentro


JÚLIO DE SÁ BIERRENBACH (1917-2015)

Votou contra o arquivamento do caso Riocentro

PEDRO IVO TOMÉDE SÃO PAULO

"Fizeram um show para dizer que eles [militares] foram vítimas. Vítimas uma ova, eles fizeram o atentado."
O pronunciamento do ministro aposentado do STM (Superior Tribunal Militar) Júlio de Sá Bierrenbach, gravado em 2014, refere-se ao caso Riocentro, de 1981, em que um militar morreu na explosão da bomba que seria usada para forjar um ataque terrorista.
Bierrenbach foi almirante de esquadra, a segunda mais alta patente da Marinha, e ficou conhecido por ter votado, enquanto ministro, pelo não arquivamento do caso, um dos mais emblemáticos da ditadura militar (1964-85).
Nascido em Sorocaba, interior paulista, era o quinto dos sete filhos de Júlio e Júlia, ambos professores estaduais.
Foi nomeado guarda-marinha em 1940, após os estudos na Escola Naval do Rio. Segundo a família, os livros de história naval foram responsáveis pelo interesse na carreira, pois não conhecia o mar antes de se tornar aspirante.
Após a nomeação, casou-se com Júlia, e participou de comboios no Atlântico, durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), a bordo do caça-submarinos Guaporé.
Atuou como capitão de mar e guerra no cruzador Tamandaré e foi representante da Marinha nos EUA por dois anos antes de ser nomeado ministro do STM, em 1977.
Morreu de parada cardíaca aos 98 anos, no dia 11, aniversário de 150 anos da Batalha Naval do Riachuelo, da Guerra do Paraguai (1865-1870), data magna da Marinha. Viúvo, deixa três filhos, netos e bisnetos.


Reprodução da Folha de São Paulo

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Uma mulher contra a ditadura


O Brasil deve a Inês Etienne Romeu, a ex-presa política que morreu nesta segunda em Niterói (RJ), um dos relatos mais importantes sobre os crimes da ditadura militar.
Inês foi a única sobrevivente da Casa da Morte de Petrópolis. Graças a ela, sabe-se que o Exército manteve um centro clandestino na região serrana do Rio para torturar e matar adversários do regime. Por lá passaram ao menos 20 desaparecidos, cujos corpos nunca foram localizados.
Presa em 1971, Inês ficou na casa por 96 dias. Oito anos depois, entregou um relatório à OAB em que revelou a existência do local, apontou os codinomes usados pelos torturadores e narrou os suplícios que viveu.
"Fui várias vezes espancada e levava choques elétricos na cabeça, nos pés, nas mãos e nos seios", contou. "Um dos mais brutais torturadores arrastou-me pelo chão, segurando pelos cabelos. Depois tentou estrangular-me e só me largou quando perdi os sentidos. Esbofetearam-me e me deram pancadas na cabeça".
"Fui estuprada duas vezes por Camarão [codinome de um militar] e era obrigada a limpar a cozinha completamente nua, ouvindo gracejos e obscenidades os mais grosseiros".
Abalada pelas sessões de tortura, Inês tentou se matar quatro vezes. Sobreviveu. Foi libertada porque prometeu atuar como infiltrada e delatar colegas. Não cumpriu o acordo e voltou a ser presa até 1979.
Antes do fim da ditadura, voltou a Petrópolis. Identificou a casa e dois algozes. Suas revelações impulsionaram outras descobertas sobre o período. Deixá-la viva foi "uma das maiores mancadas" da repressão, diria o ex-sargento Marival Chaves.
Na última década, Inês conviveu com graves limitações físicas. Falava e se locomovia com dificuldade. Mesmo assim, ainda ajudou a Comissão Nacional da Verdade a identificar mais seis torturadores no ano passado. A contragosto, o coronel Paulo Malhães reconheceu seu papel na história. "Foi a Inês Etienne Romeu que derrubou a Casa de Petrópolis".


Texto de Bernardo Mello Franco na Folha de São Paulo

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Comissão confirma morte de 2 desaparecidos

Comissão confirma morte de 2 desaparecidos

Na véspera de divulgar relatório final, grupo diz ter achado novas pistas sobre o desaparecimento de Stuart Angel
Análise de perito inglês indicou uma 'clara correspondência' entre crânio achado no centro do Rio e o rosto de Angel
DE BRASÍLIA

Na véspera de publicar seu relatório final, a Comissão Nacional da Verdade informou nesta terça-feira (9) ter concluído que dois homens tidos até agora como desaparecidos foram de fato mortos pela ditadura militar (1964-85).
Além disso, foram anunciadas novas pistas sobre um dos casos mais notórios de desaparecimento durante o regime --o de Stuart Angel, filho da estilista Zuzu Angel.
As novidades surgem após 31 meses de trabalho, durante os quais o grupo havia identificado a morte de apenas um outro desaparecido.
As novidades devem constar do relatório a ser entregue à presidente Dilma Rousseff nesta quarta. Ele responsabilizará mais de 300 militares pelas mortes, torturas e desaparecimentos na ditadura.
Diferentemente do lançamento da comissão, em 2012, quando Dilma reuniu todos os presidentes pós-democratização (com exceção de Itamar Franco, já morto), a entrega do relatório nesta quarta deve ser comedida --para não mais que 50 convidados.
Segundo a Folha apurou, os convidados serão parentes das vítimas do regime, como Ivo Herzog, filho do jornalista Vladimir Herzog (1937-75) e Vera Paiva, filha do deputado Rubens Paiva (1929-71).
Com o foco em outros problemas do governo, ficou em segundo plano o planejamento de uma grande cerimônia. Quando auxiliares de Dilma se deram conta que não havia nada programado, resolveram fazer um evento discreto. A ideia é que ela faça um discurso mais simples sem, contudo, reduzir o valor histórico do relatório final.
Para o Planalto, o documento apresentado nesta quarta é fruto de muita divergência no âmbito da própria comissão. Houve um momento em que o Planalto chegou a duvidar que um relatório consensual fosse possível devido a brigas internas.

NOVOS CASOS

O primeiro novo caso apresentado ontem é o de Joel Vasconcelos Santos, militante do PC do B, desaparecido em março de 1971. Por meio de um laudo, terminado na segunda (8), a comissão concluiu que as digitais de Santos coincidem com as de um homem que deu entrada no IML do Rio de Janeiro no mesmo dia da prisão de Santos.
"Diante das circunstâncias das investigações realizadas, conclui-se que Joel Vasconcelos Santos foi submetido a prisão, tortura e desaparecimento nas dependências do DOI-CODI, no Rio de Janeiro, em um contexto de sistemáticas violações aos direitos humanos". Será feita a recomendação para que sua certidão de óbito seja alterada.
O segundo novo caso é de Paulo Torres Gonçalves, que não era militante político e desapareceu em março de 1969, antes ir para o colégio.
O Grupo Tortura Nunca Mais já achara documentos mostrando que ele tinha sido preso por militares. A comissão identificou as digitais de Gonçalves na ficha de uma pessoa enterrada como indigente no cemitério da Cacuia, na Ilha do Governador (RJ).
Sobre Stuart Angel (membro do MR-8 e sequestrado em maio de 1971), a comissão acredita ter se aproximado da localização de seu corpo.
Seguindo depoimentos de militares sobre a prisão de Angel na Base Aérea de Santa Cruz, no Rio, a comissão achou uma imagem de 1976 na qual há um crânio supostamente encontrado num canteiro de obras no centro do Rio, mas da mesma empresa que fez uma reforma na Base Aérea. Uma possibilidade é que o corpo tenha sido levado de um local ao outro.
Uma análise cranofacial feita por um perito inglês indicou uma "clara correspondência morfológica" entre o crânio da imagem e o rosto de Angel.

(JOÃO CARLOS MAGALHÃES, NATUZA NERY, MARIANA HAUBERT)


Reprodução da Folha de São Paulo

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Silêncio mortal

Carlos Alexandre Azevedo tinha um ano e sete meses quando seus pais foram presos, em São Paulo. Chorou de fome diante de policiais da equipe do delegado Sérgio Fleury. Um deles deu um tapa em seu rosto, abrindo-lhe um corte na boca.
A família foi viver, quase clandestinamente, no Rio Grande do Norte. Cacá, como era conhecido, apanhava dos colegas de escola, que o chamavam de "terrorista". Desenvolveu depressão e fobia social.
Sempre dizia à mãe que não conseguia se adaptar ao mundo. Resistiu até a madrugada de 16 de fevereiro de 2013, quando se matou. Tinha 40 anos.
O caso de Cacá é um dos relatados no livro "Infância Roubada ""Crianças Atingidas pela Ditadura Militar no Brasil", produzido pela Comissão da Verdade do Estado de São Paulo "Rubens Paiva".
O volume dá a palavra a quem teve parentes presos, torturados, assassinados, desaparecidos. Alguns tratam seus pais, ex-participantes da luta armada, como heróis. Não é preciso concordar. Basta entender que são pessoas que tiveram suas vidas tão destroçadas quanto os corpos de seus pais e lidam com isso da maneira que conseguem. Filhos de torturadores talvez idolatrem quem espancava, afogava e queimava seres humanos.
Uma das realizações da Comissão Nacional da Verdade, cujo relatório será apresentado na quarta-feira, é tirar das sombras torturados e torturadores, dando-lhes nomes e biografias. Não é revanche, é história.
Se as Forças Armadas, contra as mais óbvias evidências, insistem em negar que transformaram em rotina a tortura e o desaparecimento de compatriotas, deixam clara a vergonha que sentem do papel desempenhado. Preferem silenciar sobre o passado em vez de ajudar a construir um futuro digno para o país. Futuro que Cacá não verá.


Texto de Luiz Fernando Vianna, na Folha de São Paulo

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Forças Armadas silenciam sobre tortura e assassinatos na ditadura

Forças Armadas silenciam sobre tortura e assassinatos na ditadura
Exército, Marinha e Aeronáutica negam ter usado quartéis em desacordo com legislação da época
Comissão da Verdade apontou 24 vítimas em instalações militares que foram objeto de sindicâncias internas
LUCAS FERRAZDE SÃO PAULO

As Forças Armadas silenciaram sobre os assassinatos e casos de tortura ocorridos em suas unidades durante a ditadura militar (1964-1985) em investigação interna realizada a pedido da Comissão Nacional da Verdade.
Exército, Marinha e Aeronáutica afirmaram em relatórios enviados na terça-feira (17) à comissão que não houve desvio de finalidade em suas unidades e que as setes instalações citadas no pedido de investigação funcionaram no período de acordo com a legislação vigente à época, como informou o jornal "O Globo" nesta quarta-feira (18).
Sobre os casos de presos políticos detidos, torturados ou assassinados nas unidades citadas, as três Forças não fizeram qualquer menção.
O Ministério da Defesa e os comandantes militares não se manifestaram sobre a conclusão dos trabalhos. Os membros da comissão informaram que primeiro vão analisar os resultados e que o grupo deve se pronunciar sobre o tema nos próximos dias.
No dia 1º de abril, data que marcou os 50 anos do início da ditadura, as Forças Armadas anunciaram a abertura da investigação para apurar a prática de tortura e mortes ocorridas em sete unidades militares durante o período.
Era, desde a redemocratização, a primeira apuração dos próprios militares sobre os crimes da ditadura.
Céticos desde o início sobre a real disposição das Forças Armadas em investigar os próprios crimes, os comissários queriam, com o pedido, forçar os militares a se posicionar sobre o assunto, ainda hoje um tabu nos quartéis.
Foram sete as instalações analisadas: as unidades dos antigos DOIs (Destacamentos de Operações de Informações do Exército) no Rio, em São Paulo e no Recife; os quartéis da 1ª Companhia da Polícia do Exército da Vila Militar, no Rio, e do 12º Regimento de Infantaria do Exército, em Belo Horizonte; a Base Naval da Ilha das Flores e a Base Aérea do Galeão.
Dezenas de presos foram torturados ou mortos nesses locais. No pedido, a Comissão da Verdade apontou 15 presos torturados e 9 mortos nessas unidades. Em todos esses casos, o Estado brasileiro reconheceu a responsabilidade nos episódios e indenizou vítimas e familiares.
Embora independentes, os relatórios das Forças Armadas são similares no conteúdo. Citam documentos e leis da época, fazem um longo e prolixo histórico sobre as unidades, mas não abordam as mortes e torturas. Exército, Marinha e Aeronáutica alegaram não ter documentos --que dizem terem sido destruídos-- que pudessem "corroborar a afirmação" da comissão de que houve "desvio de finalidade" nas instalações militares. Para as instituições, não houve qualquer irregularidade.
"Não foram encontrados registros formais que permitam comprovar ou mesmo caracterizar o uso das instalações militares para fins diferentes dos que lhes tenham sido prescritos", afirma o relatório do Exército, referindo-se ao DOI de São Paulo, um dos mais violentos da repressão.

Reprodução da Folha de São Paulo

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Rememorar 1964


Qual é o sentido de rememorarmos o meio século do golpe de Estado, militar ou, como o evento de 1964 vem sendo qualificado, civil-militar?
Em primeiro lugar, é preciso rememorar 1964 como ruptura histórica. Um dos objetivos mais claros do golpe era neutralizar uma elite política reformista que então se gestava. Com isso, os novos donos do poder isolaram por décadas o coração do Estado de uma pauta política de esquerda que tentava, apesar de seus eventuais erros políticos, corrigir os efeitos de uma exclusão social secular na sociedade.
Ademais, reprimiram duramente um conjunto incipiente de movimentos sociais e sindicais que se afirmavam como protagonistas da história. O golpe, portanto, destruiu uma frágil, porém inédita, experiência democrática entre nós, a "República de 46". Foi demais para a nossa tradição conservadora e autoritária.
Por outro lado, paradoxalmente, é preciso rememorar 1964 enquanto continuidade histórica. A heterogênea coalizão civil-militar conservadora que saiu vencedora convergia no anticomunismo visceral, o fantasma ameaçador da Guerra Fria. Também queria aprofundar o desenvolvimento capitalista dentro de um dado modelo associado ao grande capital internacional, modelo que, a rigor, foi consolidado por Juscelino Kubitschek.
O golpe, nesse sentido, reforçou tendências ideológicas, políticas de desenvolvimento e posições geopolíticas do Brasil que eram anteriores à tomada de poder pelos militares.
Finalmente, é preciso rememorar 1964 de maneira autorreflexiva, como marco de memória. Todo evento histórico, ainda mais com essa magnitude, conecta-se a outros eventos, anteriores e posteriores, produzindo várias memórias sociais, algumas dominantes e hegemônicas, outras marginalizadas. Nesse processo, grupos sociais veem sentidos diferentes para o mesmo evento.
As formas dominantes da memória social são sempre mutáveis. Lembrar 1964 hoje pode ter um sentido diferente de lembrar o golpe em 1974, em 1984, em 1994, ou em 2004.
O Brasil de 2014 experimenta uma situação paradoxal. A democracia institucional parece consolidada, apesar das fragilidades políticas de sempre, das histerias conservadoras em relação ao "projeto de poder" da esquerda e da incompetência das autoridades para superar problemas sociais graves.
Já os valores democráticos parecem cada vez mais ameaçados por uma opinião pública difusa, porém crescente, ganhando até expressão em setores da mídia. As vozes contra a extensão de direitos sociais e civis, sem falar na crítica pueril aos direitos humanos, estão agressivas e disseminadas mesmo entre a classe média escolarizada, ao contrário de outros aniversários do golpe.
O fantasma da ditadura, ao que parece, mudou de casa, cresceu e continua nos assombrando. Por isso é preciso rememorar, lembrar criticamente como 1964 começou. Nunca esquecer que palavras de ordem que parecem defender a coletividade como "segurança", "liberdade", "moralidade pública" e "família" podem estar preparando uma nova catástrofe se não forem acompanhadas de profunda reflexão do que significa a democracia: direito de manifestação crítica e discordância, igualdade perante a lei e dignidade da pessoa humana.


Texto de Marcos Napolitano, publicado na Folha de São Paulo

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Nunca mais?

Ninguém imaginou que o capitalismo voltasse a imperar na imensidão que perdera, mais de 70 anos antes, para o comunismo da União Soviética e seus domínios posteriores.
Os horrores da chamada Primeira Guerra Mundial, de 1914-18, e as providências para a preservação da paz disseminaram a crença fervorosa de que as nações e a própria humanidade entravam em nova era. Os embates de interesses e poderes só se dariam e se solucionariam em conferências, e nunca mais em campos de batalha. Passados apenas 20 anos, começava a Segunda Guerra Mundial, a das bombas atômicas sobre cidades.
Os exemplos gritantes do mundo alheio, citáveis ao infinito, têm ecos por aqui, para confirmar que a história faz uso de regras universais, não de desarranjos particulares.
O Getúlio ditador foi derrubado em 1945 pelos militares da FEB, lê-se ainda nos livros sobre o período, que voltaram da guerra impregnados das convicções democráticas, absorvidas no convívio com os americanos. Em 1954, Getúlio, presidente por legítima eleição, recusou-se com o suicídio a ser derrubado pelo golpe militar. Eram os mesmos militares guardiães da democracia. Outra vez inspirados pelos americanos, sob o comando do embaixador Berle Jr.
Imposta ao golpismo a posse de Juscelino, eleito com legitimidade, seguiram-se cinco anos em que a dissolução quase pacífica de dois levantes militares consolidara o sentimento de estabilidade institucional e democrática. Não havia mais ambiente para golpes, no país que crescia e se projetava com a pujança sintetizada em sua nova capital. E assim foi --por oito meses. Em agosto de 61, na renúncia de Jânio Quadros, o golpismo militar recusa a posse do vice João Goulart, sendo derrotado pela rebelião gaúcha do governador Brizola.
O golpe de 64 foi a retomada vitoriosa do golpe derrotado em 61, que, por sua vez, tentara continuar o golpe incompleto, em 54, contra o getulismo, suas teses nacionalistas e de menor desigualdade social. Lá estavam, cabelos brancos e barrigudos por trás das armas, aqueles militares jovens e de meia-idade que chegaram da Itália como vanguarda do "Exército pela democracia".
O cinquentenário de 64 mostra-se como um brado uníssono de "ditadura nunca mais". Talvez seja assim. Mas só poderá ser se consumadas duas condições.
O ensino das escolas militares precisaria passar por reformulação total. A do Exército, mais que todas. Nas escolas militares brasileiras não se ensinam apenas as matérias técnicas e acadêmicas apropriadas para os diferentes ramos da carreira militar. Muito acima desse ensino, as escolas militares ocupam-se de forjar mentalidades. Uniformes, planas, infensas à reflexão, e, por aí já está claro, ideológica e politicamente direcionadas. São produtos criados ainda para a Guerra Fria.
É por isso que se vê, há tantos anos, tão igual solidariedade e defesa dos atos e militares que, para a lei e para a democracia, são criminosos, muitos de crimes hediondos e de crimes contra a humanidade.
As escolas militares não preparam militares para a democracia.
Outra condição é que se propague a noção de soberania, tão escassa nos níveis socioeconômicos que influenciam a condução do país. Em seu artigo na Folha de ontem, o embaixador Rubens Ricupero contou de documentos por ele vistos, na Biblioteca Lyndon Johnson, em que os "reformistas" conduzidos por Roberto Campos, no governo Castello Branco, sujeitavam aos americanos até a revisão do currículo escolar. Se a imaginação conseguir projetar a mesma conduta para o sistema financeiro privado, por exemplo, pode-se ter uma ideia dos obstáculos que a construção do desenvolvimento brasileiro enfrenta.
Nunca mais? Pode ser. Ou: depende. O certo é que a história não faz gentilezas.


Texto de Jânio de Freitas, na Folha de São Paulo

Sem segredos


No 50º aniversário do golpe de Estado, João Vicente Goulart apelou ao Senado brasileiro para que este solicite a liberação dos documentos norte-americanos ainda sigilosos sobre as operações clandestinas que contribuíram para a derrubada do governo de seu pai.
Dadas a atual tensão bilateral entre Brasil e Estados Unidos, parece improvável que o governo Obama aceite. Ao menos, não por ora. Mas se há uma oportunidade de usar a liberação de documentos como um instrumento diplomático, o momento é agora e o lugar é o Brasil.
Washington vem praticando a arte da diplomacia via liberação de documentos em diversos países. Como outros instrumentos de política externa, os registros históricos podem ser uma poderosa contribuição para a promoção dos interesses dos Estados Unidos no que tange à estabilidade e à promoção de uma comunidade mundial pacífica.
A despeito das tensões com o governo Rafael Correa, por exemplo, o governo Bush fez um gesto importante ao liberar documentos solicitados pela Comissão da Verdade do Equador. Depois da detenção do general Augusto Pinochet em Londres, o governo Clinton ordenou a revisão e liberação de 23 mil documentos sobre o Chile.
Para seu crédito, o governo norte-americano há quase 40 anos vem liberando documentos secretos sobre seu papel no golpe brasileiro, por meio de reclassificação de confidencialidade. Até mesmo gravações de conversas dos presidentes Kennedy e Johnson com seus assessores sobre as complicadas maquinações do golpe, a mudança de regime e uma intervenção militar no Brasil agora estão disponíveis ao público.
Com base nesses registros, conhecemos detalhes da operação "Brother Sam" --o plano do Pentágono para fornecer armas, gasolina e até mesmo soldados a fim de garantir o sucesso do golpe militar. "Não queremos que as Forças Armadas brasileiras ajam antes que tudo esteja preparado", afirma um memorando da Casa Branca classificado como "top secret" e datado de 30 de março de 1964. No entanto, as ações clandestinas da CIA (Agência Central de Inteligência) no Brasil na época continuam sigilosas.
Para um país orgulhoso e independente como o Brasil, a arrogância imperial e a audácia que esses registros demonstram são ofensivas, para dizer o mínimo. Mas se há um resultado positivo do significativo envolvimento norte-americano no golpe e com os regimes militares que se seguiram é o registro histórico detalhado que isso propiciou.
Os arquivos contêm milhares de cabogramas e memorandos de conversações que podem iluminar, e iluminarão, o acontecido nos anos de repressão no Brasil. Um cabograma de 1973 do Departamento de Estado, liberado recentemente e fornecido à Comissão Nacional da Verdade, por exemplo, revela a existência de uma central de inteligência militar na cidade de Osasco (SP) onde ocorreram violações sistemáticas e grotescas dos direitos humanos.
Um dos torturadores daquele centro se vangloriou a norte-americanos de usar a infame técnica de tortura do pau de arara. Ele também ofereceu um relato de uma técnica de execução que descreveu como "costurar" o suspeito, ou seja, crivá-lo de balas de metralhadora de cima abaixo. A embaixada norte-americana reportou que matar suspeitos de terrorismo era "procedimento padrão" em São Paulo.
Esses documentos se provarão inestimáveis para a Comissão da Verdade, bem como para os cidadãos brasileiros e norte-americanos --especialmente porque as Forças Armadas e os serviços de inteligência brasileiros parecem ter dado fim aos seus arquivos sombrios da mesma forma que punham fim às suas vítimas. O direito de saber continua a ser fundamental para a saúde democrática de nossas sociedades.


Texto de Peter KornBluh, na Folha de São Paulo

Minha história de 1964

Minha história de 1964
Documentos mostravam a proximidade entre a equipe tecnocrática brasileira e os funcionários americanos
Além de Marcos Sá Correa, autor do furo jornalístico da operação "Brother Sam", devo ser dos raros brasileiros que queimaram pestanas sobre os documentos secretos da Biblioteca Lyndon Johnson, em Austin, Texas. Na época, em 1975, eu era conselheiro da embaixada do Brasil em Washington (EUA).
Naquele clima de tímida abertura do general Geisel e incipiente relaxamento da censura, estourara como bomba a revelação, pelo "Jornal do Brasil", de que o governo americano tinha preparado um plano de contingência para apoiar logisticamente os militares rebeldes, caso houvesse luta prolongada em abril de 1964.
Dias depois da publicação, recebi instruções sigilosas para verificar em Austin o que mais continha de comprometedor o arquivo secreto do presidente Johnson. Como a parte espetacular já havia sido divulgada pelo jornal, concentrei-me nos meses de preparação do golpe e, sobretudo, na colaboração que se seguiu.
Despachei ao Itamaraty quilos de documentos. Até hoje não sei se alguém chegou a ler a maçaroca ou se os papéis se juntaram ao mar morto de arquivos nunca lidos.
O que me impressionou de saída foi a intimidade que se criou entre funcionários americanos chefiados pelo embaixador Lincoln Gordon e a equipe tecnocrática incumbida de planejar o governo Castelo Branco, dirigida por Roberto Campos.
Os EUA estavam de fato empenhados em converter o Brasil numa espécie de vitrina de sucesso da experiência anticomunista inspirada nos melhores padrões das instituições ianques.
Talvez tenha sido uma das primeiras tentativas de "nation building", de engenharia social para reconstruir um país desde zero. Chegava-se à ingenuidade de discutir em telegrama qual seria o salário das professoras primárias!
Os americanos de então não se pareciam aos trogloditas da era Reagan ou de Bush filho. Remanescentes da Presidência Kennedy, crentes na Aliança para o Progresso, partilhavam com Johnson a fé no ativismo social das leis contra a segregação, dos programas de saúde e assistência aos pobres da "Great Society."
Mas eram soldados da Guerra Fria, dispostos a pagar, nas fatídicas palavras de Kennedy, qualquer preço e confrontar qualquer adversário para assegurar a liberdade.
Na sua "História da Guerra Fria", André Fontaine vê no golpe brasileiro a primeira manifestação de uma tendência: o apoio dos EUA a movimentos armados contra governos simpáticos à União Soviética.
Logo depois da derrubada de Goulart, ocorreria o incidente do Golfo de Tonquim, começo da trágica escalada da Guerra do Vietnã. No ano seguinte, a intervenção na República Dominicana, o golpe contra Ben Bella na Argélia e o massacre de 300 mil comunistas na Indonésia dariam sequência à série, que culminaria no golpe argentino de 1966 e no dos coronéis gregos de 1967.
Não foram os americanos que provocaram a polarização e a radicalização da sociedade brasileira. Quis, porém, a fatalidade que coincidisse com o acirramento do conflito ideológico mundial um fenômeno nacional que, em condições diversas, talvez não nos tivesse feito perder 20 anos de democracia.

Texto de Rubens Ricupero, na Folha de São Paulo

A luta armada se esqueceu de fazer consulta ao povo


ENTREVISTA - DANIEL AARÃO REIS

TUDO SOBRE A DITADURA MILITAR
A luta armada se esqueceu de fazer consulta ao povo
PARA HISTORIADOR, QUE PARTICIPOU DA RESISTÊNCIA CONTRA A DITADURA, GUERRILHA FRACASSOU POR FALTA DE APOIO POPULAR

BERNARDO MELLO FRANCODO RIO

Falar em ditadura militar esconde a participação de civis no golpe e no regime instalado em 1964, afirma o historiador Daniel Aarão Reis.
Aos 24 anos, ele integrava o comando da Dissidência Universitária da Guanabara, que idealizou o sequestro do embaixador americano Charles Burke Elbrick para libertar presos políticos.
Aos 68 anos, considera que a luta armada fracassou por falta de apoio popular. O professor da UFF (Universidade Federal Fluminense) acaba de lançar "Ditadura e Democracia no Brasil" (Zahar).
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Folha - Por que Jango caiu?
Daniel Aarão Reis - O golpe se instalou com o discurso de defesa da democracia, que estaria sendo ameaçada pelas reformas do governo Jango e pelo comunismo. Havia muito medo, nas classes médias e mesmo em segmentos populares, de que o Brasil estivesse caminhando para uma revolução social.
Lideranças da elite, eclesiásticas, empresariais e políticas, ficaram ao lado dos militares. O golpe foi dado por uma frente muito heterogênea. Havia ali de um tudo, como dizia Guimarães Rosa. Por isso, se tivesse enfrentado uma resistência, essa frente poderia se desmilinguir.

O golpe era evitável?
As esquerdas tinham uma força considerável, poderiam ter lutado. Depois de 1964, construiu-se uma visão de que a vitória da direita era inevitável. É o que a gente chama, em história, de profetas do passado. "O que aconteceu tinha mesmo que acontecer." Não é bem assim.
A fuga do Jango foi importante, mas não faço dele um bode expiatório. A esquerda tinha outras lideranças, que não quiseram lutar. Parte delas tinha medo do povo. Me pergunto se o medo da revolução social não influenciou.

O sr. costuma falar em ditadura civil-militar. Por quê?
O termo ditadura militar era legítimo na luta política, mas é inócuo para compreender a história. Ele joga um manto sobre todos os civis que apoiaram a ditadura. Ao insistir que a ditadura era militar, põe na obscuridade as conexões civis que ela teve ao longo do tempo. A mídia jogou um papel importantíssimo. Os jornais quase unanimemente apoiaram o golpe.
O que se quer, ao resgatar essas conexões civis, não é sair por aí fazendo caça às bruxas. É entender por que essa gente toda entrou na aventura da ditadura. Por muito tempo, falei isso quase sozinho. Na história, devemos nos afastar do militantismo.

Como avalia a luta armada, da qual participou?
Quando a ditadura se instalou, prevaleceu na esquerda a ideia de que o país havia chegado a um impasse. Como não havia alternativas, responderíamos com a guerrilha. A luta armada parecia muito viável. As experiências vitoriosas em Cuba (1959) e na Argélia (1962) enchiam de ânimo aquela geração.
O que nós esquecemos de fazer foi consultar o povo. E o povo brasileiro não estava disposto a tomar o caminho da luta armada. A tortura funcionou, é claro, mas o que nos asfixiou foi a falta de apoio popular, que é o oxigênio de qualquer guerrilha.

Como foi sua prisão?
Passei 50 dias muito duros na tortura do DOI-Codi. Dali fui para a Ilha Grande e, três meses e meio depois da prisão, fui colocado na lista dos 40 presos trocados pelo embaixador alemão.
A prisão é uma experiência-limite. Muito dolorosa, muito infame. A tortura é um inferno. É feita para destruir você, e não só fisicamente. O objetivo é destruir a alma do prisioneiro. É uma vergonha que as Forças Armadas até hoje escondam esse episódio que mancha sua história.
Até hoje, elas omitem, escondem e falsificam a história. Enquanto grande parte das lideranças de esquerda faz autocrítica e reconhece problemas, as Forças Armadas continuam na retranca.
Fui anistiado pelo Ministério da Justiça, e quem me torturou diz que não houve tortura no Brasil. É uma coisa esquizofrênica. Uma parte do Estado pede desculpas por ter me torturado. Outra parte, a que me torturou, diz que aquilo não existiu.

Qual é sua opinião sobre a Comissão da Verdade?
Uma comissão digna desse nome deveria ter o poder para vasculhar os porões das Forças Armadas. Apesar das limitações, ela tem condições de fazer um relatório esclarecedor sobre o comprometimento com a tortura como política de Estado. É importante abrir um debate nacional sobre a tortura como método. Ela não começou, e não acabou, com a ditadura.


Reprodução da Folha de São Paulo

Brasil, 31 de março de 2014

Brasil, 31 de março de 2014
Jango e Salvador Allende, seguidores da letra da lei, viraram os golpistas e os golpistas, os legalistas!
Pergunta: "Quantas pessoas o senhor matou?"
Coronel reformado Paulo Malhães: "Tantas quantas foram necessárias."
P: "Arrepende-se de alguma morte?"
Malhães: "Não."
P: "Quantos torturou?"
Malhães: "Difícil dizer, mas foram muitos."
Criticada pela timidez das investigações, acusada de produzir mais barulho do que resultados, a Comissão Nacional da Verdade redimiu-se, ao menos em parte, ao entrevistar Malhães, torturador assumido e participante ativo da ditadura instalada no Brasil em 1964. O depoimento aconteceu no dia 25 de março passado. O militar já tinha oferecido uma avant-première aos jornais "O Dia" e "O Globo". Na comissão, recuou quanto à sua participação no desaparecimento do ex-deputado Rubens Paiva, assassinado pela ditadura em 1971. Sem convencer, é claro.
O depoimento de Malhães serve como resumo essencial para todos aqueles que não viveram aquele período e agora, 50 anos depois, são bombardeados por análises, balanços e comentários diversos sobre uma época infamante da história brasileira. O grosso do palavrório busca passar a ideia de que havia, em 1964, duas visões golpistas em queda de braço --e a turma do fuzil venceu.
Tudo mentira. A resistência quase inexistente aos soldados de Mourão Filho não atesta um suposto apoio popular aos militares; prova que não havia nenhum esquema alternativo da parte do governo constitucional. Mal ou bem, as manifestações de insatisfação popular e as promessas reformistas de Jango procuravam trilhar o caminho da lei. Que diabo de golpista era este que propõe que o Congresso vote um estado de sítio e depois volta atrás?
Por mais não fosse, Jango estava longe de ser um revolucionário. Assim como o Partido Comunista Brasileiro, stalinista até a medula, não passava de simulacro do grupo que dirigiu a Revolução Russa de 1917. A tal agitação nos quartéis, comprovou-se, vinha de provocadores infiltrados --maiores informações com o cabo Anselmo.
É preciso muito papel, tinta e Gbytes para tentar esconder as digitais do imperialismo americano --isso mesmo, imperialismo até hoje-- na sequência de quarteladas e ditaduras espetadas na América Latina. Por razões sobretudo econômicas --o tal livre mercado, naquela época, funcionava desta maneira (o general Amaury Kruel que o diga). Para subjugar a periferia, "Brother Sam" contou com a adesão, em diferentes graus, de elites locais, das quais era o verdadeiro senhor. A esse respeito, "O Dia que Durou 21 Anos", filme de Camilo Tavares, funciona como uma operação de catarata para quem procura fatos em vez de versões edulcoradas.
Vamos e venhamos, soam patéticas as tentativas de encontrar o "lado bom" de um período que deveria ser lembrado para não ser repetido. No fundo, no fundo, não se diferenciam do coro que creditou a Pinochet o "milagre chileno". Os "Chicago Boys", apelido dos economistas pendurados na ditadura andina, só faltavam dizer: "Morreu um pessoal, mas são os ossos do ofício". Detalhe: tanto Jango quanto Salvador Allende haviam sido eleitos dentro das regras do jogo vigente. O malabarismo revisionista é tamanho que os dois, seguidores da letra da lei, viraram os golpistas e os golpistas, os legalistas!
Um Malhães nessas horas dá um banho de realidade. Ao descrever como se livrar de vítimas durante a ditadura brasileira, exibiu a frieza de um cozinheiro especialista em desossar animais. "Naquela época não existia DNA [...] Quebrava os dentes. As mãos, cortava daqui pra cima."
Muita gente que apoiou os golpistas hoje ensaia um mea-culpa. Ninguém está isento de errar. Reconhecer o erro é direito legítimo, ainda mais se for para melhorar. Agora resta descobrir se há sinceridade na penitência. O próprio Malhães dá uma chance para medir a autenticidade da turma arrependida. Basta responder à pergunta: é normal uma situação em que, depois de tal depoimento, o sujeito vá para casa livre, leve e solto?

Texto de Ricardo Melo, na Folha de São Paulo

Em valores de hoje, dívida externa deixada pela ditadura militar atingiria US$ 1,2 tri, quatro vezes a atual

Iniciado há exatos 50 anos, o regime militar deixou como herança uma dívida externa que permaneceu impagável ao longo da primeira década da redemocratização.
Ao final de 1984, último ano completo sob a ditadura, o Brasil devia a governos e bancos estrangeiros o equivalente a 53,8% de seu Produto Interno Bruto, ou seja, de toda a renda gerada no país.
Eram US$ 102,1 bilhões para um PIB -que indica a capacidade nacional de pagamento- de US$ 189,7 bilhões.
Em proporções de hoje, seria como se o Brasil devesse US$ 1,2 trilhão, o quádruplo da dívida externa atual.
Mas a situação era ainda mais dramática porque, na época, dois terços do endividamento externo era de responsabilidade do governo federal, principalmente, dos Estados e dos municípios.
Hoje, a dívida externa pública, na casa dos US$ 120 bilhões, representa pouco menos de 40% da dívida externa total, enquanto as reservas em dólar do Banco Central superam os US$ 370 bilhões.
No governo militar, a dívida começou a crescer nos anos do crescimento econômico recorde que alimentava o poder político do regime. O desempenho do país, porém, começou a decrescer, como mostram os resultados dos ministros da Fazenda mais longevos desde o golpe de 1964.
Do “milagre econômico” de Delfim Netto à derrocada gerida por Ernane Galvêas, a escalada da riqueza deu lugar à disparada da inflação, e a multiplicação da dívida foi decisiva no processo.
A dívida rondava os 25% do PIB até 1979, quando deu um salto impulsionado pela elevação brusca das taxas de juros internacionais. Na época, o preço do petróleo havia subido muito, e os países ricos tentavam conter a inflação.
O Brasil teve de estimular as exportações para gerar os dólares necessários para o pagamento da dívida. Para isso, deixou as cotações da moeda americana subirem, o que tornava as exportações mais baratas -mas, em compensação, encarecia os produtos importados.
O resultado foi estagflação, a rara e temida combinação de economia estagnada e inflação acelerada, e ajudou a apressar a retirada dos militares.
Os pagamentos da dívida só foram regularizados em 1994, após acordo com os credores para reduzir o montante devido e os juros.

Reprodução parcial do blog Dinheiro Público, na Folha de São Paulo.

domingo, 2 de março de 2014

O coronel Avólio e seu serviço ao Exército

Armando Avólio Filho era um jovem tenente no dia 20 de janeiro de 1971, quando Rubens Paiva chegou preso ao DOI do Rio de Janeiro. Durante 43 anos seu nome foi tangencialmente associado a esse crime. Em 1996, pediu um conselho de justificação para livrar-se da suspeita. Seu pedido foi negado pelo ministro Zenildo de Lucena. Em diversas ocasiões mostrou seu interesse em esclarecer os fatos, mas os chefes da ocasião sempre ordenaram-lhe que ficasse calado, para proteger a instituição. Felizmente, protegendo a instituição, Avólio decidiu contar à Comissão Nacional da Verdade o que viu. Só o que viu.
Desse depoimento, revelado pelo repórter Chico Otávio, resulta que ele viu um tenente (Fernando Hughes de Carvalho) numa sala, com um homem destruído. Mais tarde associou-o a Rubens Paiva. Até aí o caldo é ralo, pois no DOI se apanhava e lá morreu de pancada o ex-deputado. No máximo, a responsabilidade deslizaria para um tenentinho que, além do mais, está morto. A principal revelação de Avólio, hoje um coronel reformado, está no fato de que, naquele dia, contou o estado do preso ao major José Antonio Nogueira Belham, comandante do DOI. Belham sabe o que acontecia no destacamento, mas nunca se meteu com os bicheiros e contrabandistas que bicavam no DOI do Rio. Seguiu sua carreira e chegou a general de divisão. No governo de Lula, já na reserva, ocupava a vice-presidência da Fundação Habitacional do Exército. Encrencou-se com as viúvas dos militares mortos no terremoto do Haiti e foi demitido.
Belham informa que no dia 20 de janeiro de 1971 estava de férias. (Nesse caso, a responsabilidade deslizaria para o vice-comandante, que está morto.) Estava de férias, mas estava lá. Esse fato, mencionado por Avólio, foi formalmente corroborado por um coronel (capitão à época), que morreu em janeiro.
Quem tirou o cadáver de Rubens Paiva de lá? Quem coordenou o teatrinho? (Num caso anterior, fracassado, foi o Centro de Informações do Exército, subordinado diretamente ao gabinete do ministro Orlando Geisel e comandado por seu chefe de gabinete.) Depois da revelação da presença de Belham na cena do DOI, a comissão viu a ponta de dois fios que levam a meada para cima. Afinal, tanto trabalho para responsabilizar um tenente morto seria um novo teatrinho, institucional. Nele, cultiva-se uma narrativa segundo a qual a tortura e os assassinatos eram coisa de agentes desautorizados (de preferência, mortos). Patranha. Eram uma política de Estado, dos presidentes, ministros e generais comandantes das grandes unidades. Para ilustrar: o tenente Hughes ganhou a Medalha do Pacificador no ano da morte de Rubens Paiva. Cada torturador foi um torturador, mas o conjunto dos torturadores foi um plantel formado, disciplinado e premiado por seus superiores, transformando jovens oficiais em assassinos.
Chegaram ao conhecimento de membros da comissão dois fatos. No primeiro, quando começou a operação de retirada do cadáver, durante a madrugada, as luzes foram apagadas. No segundo, contado por um militar, dois oficiais do CIE barraram-no na porta do DOI. Um deles está vivo.
Atitudes como a de Avólio nesse caso servem às Forças Armadas, tirando-lhe das costas a cruz das mentiras desmoralizantes que carregam desde o século passado. Ele tirou de sua biografia uma acusação que carregou em silêncio ao longo de décadas. Negaram-lhe a oportunidade funcional, mas o coronel falou na jurisdição competente. Pode parecer que seja pedir muito, mas se os atuais comandantes militares fizessem um elogio público a todos os oficiais que estão colaborando com as investigações, todo mundo ganharia. Podem até fazer um elogio genérico, abrangendo aqueles que mentem, não faz mal. Basta sinalizar que condutas como a de Avólio servem ao Exército.


Trecho da coluna de Elio Gaspari, na Folha de São Paulo.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

O que é a verdade?

Recebi, semanas atrás, não sei se uma intimação ou um convite, para comparecer à Comissão Municipal da Verdade Vladimir Herzog, de São Paulo.
Não pretendo aceitar o convite e só me darei por intimado se sofrer uma punição de força. Num caso e no outro, tenho opinião formada: Vladimir foi miseravelmente assassinado numa prisão do Estado e Fleury assassinou e mandou assassinar uma centena (ou mais) de opositores da ditadura. Nenhuma comissão da verdade, tenha o nome que tiver, me convencerá do contrário.
E há outros casos igualmente tenebrosos, como o do deputado Rubens Paiva, pai do meu amigo Marcelo Rubens Paiva (grande escritor) e o do ex-bancário Aluísio Palhano, que conheci exilado em Havana. Pressionado pelo próprio governo de Cuba, ele tentou vir ao Brasil para liderar uma guerrilha. Veio num navio cargueiro e, próximo ao litoral de Santa Catarina, tomou uma lancha, tentando chegar a terra. Foi fuzilado e jogado no mar. Há também outras versões sobre seu sumiço nas dependências do DOI-Codi.
Descobrir a verdade não é impossível, mas sempre recordo aquela passagem do Evangelho em que Cristo diz a Pilatos que o reino Dele era o da verdade. O procurador romano, a autoridade máxima na Judeia, que condenaria o réu a morrer no Calvário, pergunta sem tom de deboche: "O que é a verdade?". Não espera resposta e vai tomar as providências para a crucificação.
Provavelmente, Cristo não conhecia a definição de verdade de Aristóteles, mais tarde adotada por Tomás de Aquino: "Adaequatio rei ad intellectum". Pilatos era romano. Por formação, seguia os céticos romanos, ficaria na mesma.
Não sou romano, mas cético. Não entenderia nem Aristóteles nem Cristo, mas não precisaria de um ou de outro para saber o que houve de crime e imoralidade no Brasil.


Texto de Carlos Heitor Cony, na Folha de São Paulo

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

A síndrome de Virgínia Lane

As Comissões da Verdade flertam perigosamente com a síndrome de Virgínia Lane. João Goulart foi envenenado e Juscelino Kubitschek morreu num acidente provocado por um atirador de elite. Daqui a pouco aparecerá alguém sustentando que Carlos Lacerda também foi assassinado pela ditadura. Os três morreram entre agosto de 1976 e maio de 1977. Para quem gosta de romance policial, há aí um prato cheio.
Vive no Rio Grande do Sul, em liberdade condicional, o ex-agente dos serviços de segurança uruguaios Mário Neira Barreiro. Foi condenado por roubo e posse ilegal de armas pela Justiça brasileira e o governo de seu país pede sua extradição, por outros crimes. É dele a formulação implausível de que em 1976 saiu da Presidência da República a ordem para matar João Goulart. Nessa versão, trocaram-se os comprimidos da caixa de remédios de Jango. Cardiopata, ele já tivera dois infartos e morreu na sua fazenda argentina, ao lado da mulher. Os restos mortais do presidente estão sendo examinados por uma equipe de legistas. Será deles a última palavra. Uma coisa é certa: Neira Barreiro é um delinquente.
Noutra denúncia, Juscelino Kubitschek teria morrido porque seu motorista foi baleado com um tiro na cabeça enquanto dirigia na via Dutra. Atravessou a pista e chocou-se com uma carreta. Cena de filme. A advogada Maria de Lourdes Ribeiro, filha do motorista, disse ao repórter Pedro Venceslau: "Foi um acidente. Essa tese do tiro é muito primária para mim, que sou advogada".
Existem hoje no Brasil mais de uma dezena de Comissões da Verdade. Há a federal, as estaduais, as municipais e as autárquicas. Enquanto os comandantes militares não reconhecerem que praticaram-se torturas nas suas masmorras, essas comissões podem fazer bem. Por exemplo: como sumiram dezenas de guerrilheiros que estavam no Araguaia? (Foram assassinados, mesmo quando se entregaram.)
Numa revelação espetacular, saiu da Comissão Nacional da Verdade a prova de que o deputado Rubens Paiva estivera no DOI do 1º Exército em janeiro de 1971, quando desapareceu. A versão oficial da época, desmascarada em 1978 pelos repórteres Fritz Utzeri e Heraldo Dias, dava conta de que Paiva fora resgatado por militantes de esquerda quando era transportado no banco de trás de Volkswagen, escoltado por um capitão e dois soldados da Polícia do Exército. (Paiva era um homem corpulento.) Provou-se assim que um preso dado como fugitivo, preso estivera.
Noutro lance, o ex-policial João Lucena Leal disse em maio à Comissão Nacional da Verdade que existiu um plano para sequestrar João Goulart e Leonel Brizola. Em novembro contou ao repórter Lucas Ferraz que mentira no caso de Jango.
Estão vivos oficiais que sabem como foram assassinados os guerrilheiros do Araguaia e como o cadáver de Paiva foi retirado do DOI. Tão importante quanto conhecer os detalhes de cada crime é a busca dos mecanismos de poder e de persuasão que transformaram oficiais do Exército em assassinos, no cumprimento de ordens de generais, ministros e presidentes.
E Virgínia Lane? Ela tinha o título de A Vedete do Brasil e pernas inesquecíveis para o gosto da época. Nonagenária, revelou como morreu Getúlio Vargas: "Eu estava na cama com ele quando mataram ele". Está no YouTube. É um regalo.


Texto de Elio Gaspari, na Folha de São Paulo.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

RJ: senador diz que foi agredido por Bolsonaro na visita ao Doi-Codi

O senador Randolfe Rodrigues (Psol-AP) diz que foi agredido pelo deputado federal Jair Bolsonaro (PP-RJ) na manhã desta segunda-feira durante a visita ao Destacamento de Operações de Informações-Centro de Defesa Interna (Doi-Codi), que funcionava em um prédio no interior do 1º Batalhão da Polícia do Exército, na Tijuca, zona norte do Rio de Janeiro. Na entrada ao local, os dois discutiram e o deputado acabou desferindo um soco na barriga do senador.

Bolsonaro é militar e defensor do Exército e alega que a ditadura salvou o País do comunismo. A visita é feita por integrantes das comissões Nacional da Verdade (CNV) e Estadual da Verdade do Rio de Janeiro (CEV-RJ), além de outros parlamentares, como a deputada Luiza Erundina (PSB-SP),e do procurador da República Antônio Cabral.
Após o desentendimento, Bolsonaro entrou no local, mas não participa da visita onde os presos foram torturados e nem às celas. A decisão foi tomada em acordo entre os parlamentares e o tenente coronel Luciano, comandante do Batalhão. 
Para a Comissão da Verdade do Rio, o Doi-Codi foi o principal centro de torturas do Rio durante a ditadura militar. A visita ao prédio é o primeiro passo da proposta de transformar o local em um centro de memória, como ocorreu com o antigo Departamento de Ordem Política e Social (Dops) de São Paulo e com os centros de tortura na Argentina, no Uruguai e no Chile.
A visita estava marcada para a sexta-feira, mas de acordo com a Comissão Estadual da Verdade do Rio de Janeiro, foi suspensa por causa de veto do Exército ao nome da deputada Luiza Erundina. A nova data foi acertada em uma reunião na quarta-feira com o ministro da Defesa, Celso Amorim, e os senadores João Capiberibe (PSB-AP), Randolfe Rodrigues e Ana Rita (PT-ES). 

Reprodução do Terra.  Me pergunto como o Exército pode "vetar" o acesso de uma congressista a uma de suas instalações. 

sábado, 14 de setembro de 2013

Jara, a morte do poeta e o triunfo da barbárie

Diz-se que a primeira vítima de uma ditadura é a verdade. É bem verdade que a verdade morre ao primeiro anúncio, o da justificativa de um golpe. A primeira vítima humana da ditadura chilena, implantada em 11 de setembro de 1973, foi o presidente eleito democraticamente Salvador Allende, que se matou depois de ter tentado ser fiel às verdades que defendera como candidato. A segunda vítima foi a democracia, assassinada com ajuda dos Estados Unidos. A terceira vítima foi o povo. Em seguida, os cadáveres se amontoaram no Estádio Chile. Uma vítima inesquecível foi Victor Jara, executado com 44 tiros quatro dias depois da entrada na escuridão.
Victor Jara era perigoso, assustador, temível. As ditadura da América do Sul sempre tiveram horror a esse tipo de gente, que trataram de eliminar. Um inimigo terrível capaz de desestabilizar um regime em poucos segundos. Filho de camponeses, andava sempre armado até os dentes. Cuspia projéteis. A sua arma letal era venenosa, sutil e sinuosa: a palavra. Mais especificamente, o verso. Absolutamente livre. Jara trocou o canto gregoriano do seminário pela canção popular.
O seu maior crime foi querer mudar este mundo.
Os poetas, aparentemente inúteis e inofensivos, podem afetar a ordem. Um país sem poetas tem mais chances de ser obediente. Correu o boato de que as mãos de Jara teriam sido cortadas por seus torturadores. Isso não aconteceu. Elas foram apenas esmagadas por coronhadas. Não eram as mãos do poeta que incomodavam os aliados de Pinochet, mas a língua, os pensamentos, a capacidade de formular versos contestadores, a ideologia. Daí a necessidade de matá-lo bem morto, com mais de quatro dezenas de balas. No estádio transformado em prisão, o poeta produziu o seu epitáfio, que marcou o nascimento da tragédia.
Cantou, antes de morrer, o horror ao vivo.
O Estádio Chile hoje se chama Estádio Victor Jara. Em 2009, chegou-se ao nome do militar que disparou o primeiro tiro, Pedro Barrientos. A família espera que um dia ele seja extraditado dos Estados Unidos para ser julgado. Quando os Estados Unidos pedirão desculpas a todos os países que mergulharam em ditaduras? Claro que não o farão, afinal continuam acreditando que foi pelo “nosso bem”. Em dezembro de 2012, a justiça chilena determinou que os sete militares envolvidos na execução de Jara sejam julgados. Quando o mesmo acontecerá com os torturadores brasileiros?
Até quando serão protegidos pelo STF, que impede a revisão da Lei da Anistia?
No estádio da sua morte, Jara escreveu: ¡Qué espanto produce el rostro del fascismo!/Llevan a cabo sus planes con precisión artera/sin importarles nada./La sangre para ellos son medallas./La matanza es un acto de heroísmo./¿Es este el mundo que creaste, Dios mío?”. A verdade continua sendo massacrada. Os defensores de Pinochet não se entregam. A ditadura teria valido a pena, transformando o Chile num exemplo de êxito econômico. A poesia, a vida e a democracia teriam sido apenas o preço exigido pela economia para colocar o Chile nos trilhos.


quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Aniversário do golpe chileno abre debate sobre futuro do país

Aniversário do golpe chileno abre debate sobre futuro do país
A questão é se, após 40 anos, o Chile deixará para trás erros da ditadura
TANYA HARMERESPECIAL PARA A FOLHA

Alguns aniversários históricos importam mais que a maioria, e o 40º aniversário do golpe chileno está entre os que têm importância profunda. Para começar, é relevante para a política chilena contemporânea.
Com eleições presidenciais marcadas para 17 de novembro, o país se vê forçado a confrontar o passado enquanto escolhe o futuro.
As candidatas presidenciais entre as quais os chilenos podem escolher para fazer essa correlação são filhas de generais da Força Aérea que tomaram posições opostas em 11 de setembro de 1973.
De fato, ao optar por Evelyn Matthei --cujo pai apoiou entusiasticamente o golpe e muito provavelmente desempenhou papel direto na detenção e tortura do pai de Michelle Bachelet--, a direita chilena bizarramente fez de sua associação com o golpe, e com seu 40º aniversário, algo ainda mais pungente e óbvio do que poderia ter feito.
Os protestos de estudantes, trabalhadores, ambientalistas e mapuches (indígenas), desde 2011, também deram início a um diálogo muito mais amplo sobre o legado da ditadura para a identidade, a sociedade e a política do país, que está capturando o imaginário nacional.
Esse diálogo é o mais significativo debate nacional sobre o passado e o futuro do Chile que acontece desde a transição para a democracia.
A maneira pela qual ele se desenvolverá nos dois meses que faltam para a eleição é, portanto, profundamente importante. A educação do país, sua democracia, seu sistema de saúde, sua economia e o papel de seu governo dependem disso.
A questão que a eleição e o aniversário deste ano propõem, portanto, é a de se, 40 anos depois do golpe, o país está finalmente pronto para deixar para trás os mais perniciosos legados da ditadura, para corrigir os desequilíbrios de sua Constituição, para repensar a economia hiperliberal e para oferecer justiça àqueles que sofreram abusos no passado.
Aqueles que lideraram o golpe de 11 de setembro não queriam tão somente derrubar um governo; agiram para refazer e reformular toda a cultura e a sociedade do Chile, e, de muitas maneiras, obtiveram sucesso.
Quando os chilenos recordam o passado, hoje, a questão é em que medida eles estão preparados, passados 40 anos, para reverter esse sucesso e iniciar uma nova era.
É um debate que está consumindo a sociedade chilena e que certamente terá influência significativa sobre o futuro do país.