Mostrando postagens com marcador Palestina. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Palestina. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 4 de agosto de 2025

Lula acerta ao deixar aliança do Holocausto, usada para silenciar críticas a Israel, diz professor


No mês passado, o governo do presidente Lula retirou o Brasil da Aliança Internacional para a Memória do Holocausto (IHRA).

A decisão gerou uma avalanche de críticas, do governo de Israel à Confederação Israelita do Brasil (Conib), que viu no ato um "retrocesso moral".

Professor do programa de História Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde coordena o Núcleo Interdisciplinar de Estudos Judaicos (Niej), e pesquisador de antissemitismo da Universidade Hebraica de Jerusalém, em Israel, onde fez mestrado e já deu aulas, Michel Gherman diz que "acusar Lula de antissemita" por causa da decisão é um "absurdo".

Gherman, que é judeu, critica duramente a entidade, a quem acusa de ser usada por "um lobby evangélico, branco e de direita" que adota definições de antissemitismo que visam criminalizar críticas a Israel e silenciar a mídia e intelectuais em todo o mundo.

"Transformar a maior liderança política da história do Brasil em alguém que odeia os judeus pode interessar a muita gente. Mas não interessa aos judeus do Brasil. É um erro", afirma.

Ele afirma ainda que Israel "pode e precisa ser criticado" e diz que o genocídio em Gaza ameaça a legitimidade do país.

*

GOVERNO E ISRAEL

O governo Lula se retirou da Aliança Internacional para a Memória do Holocausto (IHRA), o que gerou polêmica na comunidade judaica. Foi uma demonstração de antissemitismo?
Setores amplos da comunidade judaica, inclusive progressistas, têm questionado a saída do Brasil da IHRA. Eu acho que isso se deve a um erro na forma como a decisão foi levada [a público pelo governo].

Mas é fundamental, antes de mais nada, entendermos o que significa a IHRA e por que alguns intelectuais e professores universitários, dentro e fora do Brasil, têm questões com essa organização. Eu sou um deles.

Quais seriam essas questões?
O antissemitismo é tão perigoso quanto o racismo. Ele é uma forma de racismo. Com antissemita não se conversa. Com racista não se conversa. Quando o antissemita senta, você se levanta da mesa. Ele não tem direito de expor suas opiniões porque coloca em risco grupos específicos. Tal qual o racista.

O debate sobre o racismo prepondera porque o grupo que está em risco no país é o dos afrodescendentes. Os judeus não estão em risco cotidiano no Brasil. Mas vamos pensar estrategicamente no que significa acusar um presidente [Lula] eleito três vezes pelos brasileiros de ser antissemita. No que significa acusar a liderança do maior partido de esquerda da América Latina de ser antissemita.

E o que significa?
Significa desconsiderá-lo como alguém com quem é possível conversar. Significa deslegitimá-lo, transformá-lo em alguém que você tem que se levantar da mesa quando ele se senta. É muito sério. É muito grave.

Este presidente [Lula] instituiu o Dia do Holocausto no Brasil [em 2024]. Visitou a sinagoga de Recife, a primeira das Américas. Nunca deixou de falar da importância da existência do Estado de Israel e do papel do Brasil em sua criação.

Na década de 1980, este presidente esteve em Israel quando ainda era apenas uma liderança política. Se encontrou com sindicalistas e com partidos progressistas do país.

E por que o acusam de antissemita?
Essa tentativa de dizer que Lula é antissemita já vem de algum tempo. Eu estudava na Universidade Hebraica de Jerusalém quando Lula visitou Israel e disseram que ele se negou a visitar o Museu do Holocausto. Ora! Eu conheço o guia que esteve com o Lula no museu. Tem fotos da visita.

A saída do Brasil da IHRA se transformou em mais uma oportunidade para setores que, antes de serem judeus e de estarem preocupados com o Holocausto, querem produzir um discurso anti-lulista. A quem interessa dizer que Lula é antissemita?

A quem?
Às pessoas que não querem ver uma liderança como ele novamente na Presidência da República. Lula é visto por setores importantes das classes médias brasileiras como alguém que não pode estar onde está.

E aqui, vamos falar a verdade: Lula erra. E erra muito. Quando ele fala que o que ocorre em Gaza só é comparável ao que Hitler fez com os judeus, é um erro. Houve outros genocídios desde então. Dores não são comparáveis. Ele pode ser criticado por isso.

Agora, transformar aquela que, segundo historiadores importantes, é a maior liderança política da história do Brasil, eleito presidente três, talvez até quatro [caso concorra e vença em 2026], em alguém que odeia os judeus pode interessar a muita gente. Mas não interessa aos judeus do Brasil. É um erro.

[Entidades judaicas] Chamam ele de antissemita e depois pedem um encontro? Querem conversar?

Eu queria insistir no questionamento sobre a saída do Brasil da IHRA.
Vamos lá. A IHRA foi criada em 1998 para manter a memória e combater o negacionismo histórico do Holocausto —fruto de um antissemitismo contemporâneo que produz a ideia de que o judeu é tão forte e tão poderoso que domina o mundo a ponto de criar a história de um genocídio contra si.

Ele cria a ideia de que, diante de um grupo tão poderoso, a destruição e o extermínio são as únicas possibilidades.

E por que a IHRA passou a ser questionada?
A partir da segunda década dos anos 2000, a IHRA passou a ser instrumentalizada por grupos conservadores, por lobistas dos EUA que defendiam não só a existência de Israel mas, fundamentalmente, as práticas políticas do governo de Israel. E esses grupos incorporaram na definição de antissemitismo da IHRA elementos que podem controlar o debate público.

O que isso significa?
Significa, por exemplo, que dizer que Israel tem políticos comparáveis aos nazistas será considerado antissemita.

Como historiador, eu digo que há, sim, possibilidade concreta de se comparar discursos de um Ben-Gvir [ministro da Segurança de Israel], de um [Bezalel] Smotrich [ministro das Finanças de Israel], com os [discursos] dos nazistas.

O nazismo é um fenômeno histórico. Ele não existiu para nunca mais se repetir. Ele foi derrotado militarmente, mas segue existindo como ideia. O judeu foi vítima do nazismo não porque era judeu, mas porque o nazismo decidiu que ele seria vítima.

Nada no judeu justifica o preconceito contra ele, e principalmente o seu extermínio. Da mesma maneira, nada no judeu justifica a ideia de que ele não pode produzir-se nazista. Isso é história!

Um judeu pode ser nazista?
É claro. O preconceito, a discriminação, a percepção de que a alteridade [colocar-se no lugar do outro] deve ser exterminada é produto de condições históricas específicas. Da mesma maneira que o judeu pode ser vítima disso, por que ele não pode ser algoz ou elemento? O que o judeu tem de especial que não pode produzir racismo contra outro grupo?

ARMA POLÍTICA

O senhor pode citar exemplos?
Os discursos de Ben-Gvir e de Smotrich afirmando que não há inocentes em Gaza podem, sim, ser comparados aos dos nazistas que produziram a ideia de que não havia inocentes nas aldeias judaicas do leste da Europa.

Eu seria antissemita ao dizer isso? É claro que não. O que as definições da IHRA andam produzindo é a perseguição contra intelectuais. Inclusive intelectuais judeus. E hoje conservadores, inclusive não judeus, são os maiores defensores da IHRA.

No Brasil, quem levou adiante o projeto de lei que implementa [as diretrizes da IHRA] foi o [ex] ministro [da Saúde, Eduardo] Pazuello.

Jair Bolsonaro era candidato em 2017 quando foi a um clube judaico e disse, por exemplo, que os quilombolas são animais e não servem nem para reproduzir. Que há raças boas e ruins. Eu não posso acusá-lo de ter um discurso com gramática nazista? Seria banalização?

Banalização é não falar sobre o nazismo. A sacralização de um fenômeno histórico produz a incapacidade de ele ser relevante. A história não é sagrada. Ela precisa ser estudada e comparada. Se o nazismo nunca mais vai se repetir, por que eu tenho que estudá-lo?

Como se deu o que senhor chama de instrumentalização do antissemitismo?
O antissemitismo é um fenômeno importante, histórico e perene, que segue existindo e ameaça a democracia. Mas setores da direita têm utilizado o antissemitismo como uma espécie de racismo contra brancos. E isso é muito perigoso.

ANTISSEMITISMO

Por que?
É como se fosse possível competir. "Ah, vocês estão falando dos negros, mas os judeus [também] foram perseguidos." A direita pretende, e esse é o risco, dizer que os brancos podem também ser vítimas de racismo colocando, para isso, os judeus como brancos.

A tomada da IHRA pela direita, portanto, tem a ver com dois elementos: o primeiro deles é na perspectiva de uma gramática racista contra brancos - aquilo que chamam de racismo reverso.

O segundo é o vínculo da direita, judaica ou não judaica, com a ideia de que criticar as práticas de Israel, criticar o governo de Israel de maneira radical é antissemitismo. Israel pode e precisa ser criticado. Quem considera que críticas a Israel são não legítimas não entende o que significa a existência de Israel como estado normal para um povo normal que lá vive.

Essa compreensão de que não se pode criticar Israel não só é equivocada, como ela produz antissemitismo. São definições [de antissemitismo da IHRA] que permitem a perseguição a intelectuais. Nos EUA, na Alemanha, isso já está acontecendo com muita frequência.

ALIANÇA DO HOLOCAUSTO

E no Brasil?
O governo brasileiro não poderia entrar na IHRA neste momento, principalmente por causa do uso político que a extrema direita faz da questão judaica e de Israel. Acusar o Lula de antissemita [porque o governo deixou a IHRA) é um absurdo.

Justificar a existência da IHRA como referência única no debate do Holocausto é absurdo. Ela deixou de ser vinculada exclusivamente à memória do Holocausto e é [hoje] vinculada a Israel e a definições questionáveis de antissemitismo.

O que eu estou propondo é que haja a possibilidade de o governo incorporar definições mais democráticas de antissemitismo e de memória do Holocausto que constituem menor risco à democracia. Que não são uma ameaça de silenciamento aos intelectuais e à mídia.

Eu justifico aqui a existência da Declaração de Jerusalém, que é assinada por intelectuais israelenses e palestinos contra o antissemitismo como fenômeno da modernidade.

O lobby que garante a IHRA como referência não é judaico. Ele é evangélico, branco e de direita.

Com raízes nos EUA?
O próprio Netanyahu fala que seus grandes aliados não são mais os judeus. O apoio que os judeus dos EUA dão ao Partido Democrata chega a 80% nas eleições. É histórico e perene.

É claro, portanto, que não estamos falando de um lobby de massas judeu a favor do Partido Republicano [de Donald Trump].Estamos falando de outra coisa.

E qual é a outra coisa?
É o sionismo cristão. É a ideia de Israel ser apoiado por grupos brancos e cristãos. É o famoso nacionalismo cristão citado pelo [teólogo] Ronilson Pacheco, com quem estou escrevendo um livro, e que parte de uma gramática e de uma perspectiva de conversão final dos judeus ao cristianismo.

E, nessa perspectiva do evangélico, se o Holocausto é sagrado, e não produto de um processo histórico, ele é sacrificial. Há uma relação vinculante entre as vítimas e o que aconteceu com elas. Por isso, é fundamental que ele seja separado dos outros genocídios. É isso que produz a ideia de vincular o Holocausto a Israel e ao sionismo.

A ordem pós-Segunda Guerra Mundial está sendo agora ameaçada pelo Trump, que coloca Israel no lugar que ele quer. Que é o lugar dos evangélicos de direita. Dos evangélicos brancos. De uma branquitude, e não dos judeus como povo que tem direito a um território.

GUERRA

O que ocorre em Gaza é um genocídio?
Vou me apropriar das palavras de um intelectual de altíssimo nível, o [professor de estudos sobre Holocausto da Universidade Brown, nos EUA] Omer Bartov: "Eu sou um pesquisador do genocídio, eu reconheço um quando eu vejo". Como disse a historiadora Hannah Yablonka, dos Museus dos Guetos em Israel, uma referência em estudos do genocídio: o que acontece em Gaza é produto de vingança, e não de estratégia. E vingança produz genocídio.

Por que é tão difícil, para muitos judeus, aceitar críticas a Israel sem entendê-las como antissemitas?
É preciso entender a dificuldade que pessoas com vínculos radicais com Israel, como eu, têm de dizer que o país está praticando genocídio.

Nós vivemos a vida inteira falando sobre "nunca mais" e memória do Holocausto. Quando falamos sobre genocídio, nos colocamos num lugar fundamentalmente difícil e dolorido.

Eu reconheço que o que acontece em Gaza é genocídio. Isso não significa que não me dói. Essa geração, e a geração dos meus filhos, que têm família em Israel, vão crescer sendo acusados de que o país com quem têm vínculos profundos praticou um genocídio.

Entender isso é fundamental. Os judeus que estão aqui no Brasil comendo em restaurante kosher, indo em sinagogas, indo para a praia, não são israelenses. Não têm poder de decisão. Essas pessoas precisam ter tempo para entender que nada justifica o tamanho da tragédia que o Exército israelense está produzindo em Gaza.

É como se fosse um negacionismo?
Esse é o risco. Se você começa a negar o genocídio dos outros, o seu genocídio vai ser negado.

Não é um debate político e ideológico. É um debate sério, sociológico, historiográfico e jurídico. E que precisa ser feito. É preciso que se exija de Israel que ele funcione a partir da lógica que o fundou. Israel precisa refazer-se a si próprio. Um país que ocupa territórios produzindo não-cidadania nos ocupantes está sob risco grave de legitimação.

E se isso não acontecer?
Se não funcionar efetivamente a partir da criação de um Estado palestino a seu lado, ou de alguma configuração que permita o retorno de direitos às populações que foram expulsas daquele território, Israel vai seguir existindo. Mas vai perder a sua legitimidade. Com tudo o que está acontecendo agora, a gente vê que isso é absolutamente concreto.


Reprodução parcial da coluna de Mônica Bérgamo na Folha de São Paulo.

quarta-feira, 24 de julho de 2024

Terra prometida, terra sem paz


O Parlamento de Israel rejeitou a criação de um Estado palestino na quinta-feira (18). No dia seguinte, a Corte Internacional de Justiça, em Haia, julgou que a ocupação israelense nos territórios palestinos da Cisjordânia, do Golã e de parte de Jerusalém é ilegal e deve ser encerrada.

E nada aconteceu. Nem palestinos nem israelenses comemoraram ou protestaram. Faz 47 anos que a ocupação da Cisjordânia é considerada ilegal pela Assembleia e pelo Conselho de Segurança da ONU e pelos últimos seis presidentes dos EUA. Mas Israel sempre foi (e vai) em frente: criou 144 colônias nos territórios ocupados em 1967, na Guerra dos Seis Dias, e nelas vivem hoje 500 mil colonos —e mais 220 mil em Jerusalém Oriental. Ainda sobra espaço para um Estado palestino? Não.

O primeiro-ministro, Binyamin Netanyahu, respondeu à Corte de Haia no domingo (21): "O povo de Israel não é um ocupante em sua própria terra e em sua capital eterna, Jerusalém". É a terra prometida por Deus a Abraão, a Judeia e Samaria bíblicas.

A terra prometida foi parcialmente ressuscitada em 1948, pela ONU. Prometida, mas não protegida e imune a ataques desde o primeiro dia de independência —Israel consolidou uma política de ocupação que considera essencial à sua segurança. E que, na prática, inviabiliza um Estado palestino.

A conquista do deserto do Sinai, da Cisjordânia e de Jerusalém Oriental, de Gaza e do Golã, na guerra contra o Egito, Síria e Jordânia, era para ser provisória. Eu vivia ao lado de Gaza, como voluntário, no kibutz Reim, devastado no ataque do Hamas de 7 de outubro de 2023. Arava o deserto à noite, com a escolta de um árabe druso armado, porque o farol aceso do trator poderia atrair atacantes palestinos. Era a época em que o Partido Trabalhista estava no poder, com Levi Eshkol. Foi ele quem criou a primeira colônia nos territórios conquistados, Kfar Etzion, ao sul da Cisjordânia, em setembro de 1967.

A base dos trabalhistas para a colonização foi o Plano Alon, de Yigal Alon, que chegou a ser primeiro-ministro interino. Ele previa a anexação de Jerusalém Oriental, de Gush Etzion e do Vale do Jordão, e funcionou até o governo de Yitzhak Rabin.

Muitas colônias nasceram como Nahal, ou postos militares, e depois foram entregues a civis. Isso porque, para uso militar, as terras podem ser confiscadas.

Com o primeiro-ministro Menachem Begin, em 1977, a colonização deu um salto. Os religiosos e nacionalistas o saudaram como aquele que resgataria toda a "terra prometida" — um novo "messias". Ele só devolveu o Sinai, em troca da paz com o Egito, e a colônia de Yamit, a "nascida do mar".

Acusado de criar "obstáculos à paz", com as colônias que brotavam por todos os territórios sob negociação, com status a definir, o premiê Begin nunca se intimidou. "Provisório", era a sua justificativa, sempre. Israel anexou Jerusalém Oriental e o Golã, da Síria, por leis aprovadas pelo Parlamento, e saiu em 2005 de Gaza, que agora está destruindo em represália ao massacre do Hamas, com mais de 1.500 israelenses e 38 mil palestinos mortos.

O governo atual de Netanyahu está sob pressão do acordo de coalizão feito em 1º de dezembro de 2022, com o partido de extrema direita e ultranacionalista Sionismo Religioso, para estender a soberania israelense sobre a Judeia e Samaria —ou a Cisjordânia, a "terra prometida" pelo presidente Joe Biden aos palestinos.

O ex-presidente Donald Trump transferiu a embaixada dos EUA de Tel-Aviv para Jerusalém e reconheceu a soberania de Israel sobre as colinas sírias do Golã. Lá, desde 2019, ele ganhou, em gratidão, uma comunidade batizada de Ramat Trump, ou Colina de Trump, numa altitude maior que o prédio Trump Tower, em Nova York. O ex-presidente pode ser eleito neste fim de ano, para alegria de Netanyahu, que tem um discurso previsto para as duas Casas do Congresso, em Washington, nesta quarta-feira (24).

Sem Biden e sem os democratas na Casa Branca, o projeto da Palestina pode desaparecer, no Oriente Médio sem paz.


Reprodução de texto de Moises Rabinovici na Folha de São Paulo

terça-feira, 21 de novembro de 2023

Guerra transforma Gaza em cemitério para crianças


Descalço e chorando, Khaled Joudeh, de 9 anos, corre em direção às dezenas de corpos envoltos em lençóis brancos, cobertores e tapetes do lado de fora da necrotério superlotado em Deir al-Balah, na Faixa de Gaza.

"Onde está minha mãe? Eu quero ver minha mãe", chora ele. "Onde está Khalil?" continua, entre soluços, enquanto pergunta pelo seu irmão de 12 anos. Um funcionário, então, abre um sudário branco para que Khaled possa beijar seu irmão pela última vez.

Depois, ele se despede de sua irmã de 8 meses. Outro lençol é puxado e revela o rosto ensanguentado de uma bebê. Khaled começa a soluçar novamente ao identificá-la para a equipe do hospital. Seu nome era Misk, almíscar em árabe.

"Mamãe estava tão feliz quando teve você", sussurra ele, tocando gentilmente a testa da bebê enquanto lágrimas escorrem do seu rosto para o dela.

Khaled se despediu de sua mãe, seu pai, seu irmão mais velho e sua irmã —os corpos de todos eles alinhados ao seu redor. Apenas ele e seu irmão mais novo, Tamer, de 7 anos, sobreviveram ao que parentes e jornalistas locais disseram ter sido um ataque aéreo em 22 de outubro que derrubou dois prédios onde sua família estendida se abrigava.

Um total de 68 membros da família foram mortos naquele dia enquanto dormiam em suas camas em Deir al-Balah, no centro da Faixa de Gaza, relataram três parentes de Khaled. Segundo os familiares, vários ramos e gerações dos Joudehs estavam se reunindo antes do ataque, incluindo alguns que haviam fugido do norte de Gaza, conforme Israel havia ordenado aos moradores. O exército israelense diz que não pode responder a perguntas sobre o bombardeio.

Os membros da família foram enterrados juntos, lado a lado, em uma longa sepultura, disseram parentes.

Gaza, adverte a ONU, tornou-se "um cemitério para milhares de crianças". Autoridades de saúde no território afirmam que 5.000 crianças palestinas foram mortas desde o início dos ataques israelense. Muitos funcionários internacionais e especialistas familiarizados com a forma como os números de mortos são compilados em Gaza dizem que os números são geralmente confiáveis.

Se estiverem realmente precisos, mais crianças foram mortas em Gaza nas últimas seis semanas do que as 2.985 crianças mortas nas principais zonas de conflito do mundo combinadas, em duas dezenas de países, durante todo o ano passado, de acordo com contagens verificadas de mortes em conflitos armados da ONU.

O exército israelense afirma que, diferentemente do "ataque assassino contra mulheres, crianças, idosos e deficientes" promovido pelo Hamas em 7 de outubro, as forças israelenses tomam "todas as precauções viáveis" para "mitigar danos" a civis.

Mas o ritmo furioso dos bombardeios —mais de 15 mil até o momento, segundo o exército israelense, incluindo no sul de Gaza também— torna a campanha aérea israelense no território palestino uma das mais intensas do século 21. E está acontecendo em um território urbano denso e sob cerco, com alta concentração de civis.

Depois de questionar inicialmente o número de mortos relatado pelas autoridades de saúde em Gaza, a administração Biden agora diz que "muitos" palestinos foram mortos, admitindo que os números reais de vítimas civis podem ser "ainda maiores do que estão sendo citados".

Na sala de emergência do Hospital Al-Shifa, na Cidade de Gaza, o doutor Ghassan Abu-Sittah diz que muitas crianças foram trazidas de escombros sozinhas e em estado de choque, com queimaduras, ferimentos por estilhaços ou lesões graves causadas por esmagamento. Em muitos casos, segundo ele, ninguém sabia quem eram.

"Elas recebem uma designação —'Criança traumatizada desacompanhada'— até que alguém os reconheça", diz ele. "A coisa paralisante é que alguns deles são os únicos sobreviventes de suas famílias, então ninguém nunca vem", continua. "Cada vez mais, parece uma guerra contra crianças."

O exército israelense afirma que "lamenta qualquer dano causado a civis (especialmente crianças)", e acrescenta que está examinando "todas as suas operações" para garantir que elas sigam suas próprias regras e cumpram o direito internacional.

Um número crescente de grupos de direitos humanos e autoridades, porém, argumenta que Israel já violou essa lei.

Depois de condenar os ataques "hediondos, brutais e chocantes" do Hamas como crimes de guerra, Volker Türk, alto comissário da ONU para os direitos humanos, disse neste mês que "a punição coletiva de Israel aos civis palestinos também equivale a um crime de guerra, assim como a evacuação forçada ilegal de civis".

"Os bombardeios massivos de Israel mataram, mutilaram e feriram especialmente mulheres e crianças", acrescentou. "Tudo isso tem um preço insuportável."

Muitas crianças estão mostrando sinais claros de trauma, incluindo terrores noturnos, afirma Nida Zaeem, uma oficial de saúde mental do Comitê Internacional da Cruz Vermelha em Gaza.

"Eles acordam gritando e chorando", diz Zaeem de um abrigo da Cruz Vermelha, em Rafah. Todas as noites, acrescenta, as crianças no abrigo acordam gritando: "Vamos morrer, vamos morrer". "Eles gritam, imploram: 'Por favor, me proteja, por favor, me esconda. Eu não quero morrer'", conta ela.

Gaza, uma faixa costeira no Mediterrâneo, costumava ter uma cultura de praia animada. Yasser Abou Ishaq, 34, lembra como costumava ensinar suas três filhas pequenas a nadar. "Elas sempre me pediam para ir à praia, ao parque de diversões, aos parques", conta ele. "Eu adorava vê-las brincar."

Amal, a mais velha, de 7 anos, foi nomeada em homenagem à sua mãe. Na escola, ela era uma boa aluna com uma caligrafia excelente, lembra ele. Em casa, ela se tornava a professora que fazia sua irmã mais nova, Israa, de 4 anos, que adorava chocolate e brinquedos Kinder, brincar de ser sua aluna.

Ele conta que, quando sua casa foi destruída por um ataque aéreo, perdeu ambas, além de sua mulher. No total, 25 membros de sua família, 15 deles crianças, foram mortos, diz ele. O exército israelense afirma que não pode responder a perguntas sobre o ataque.

Abou Ishaq conta que ele e sua filha de 1 ano, Habiba, foram feridos e levados para o hospital. A maioria de sua família, incluindo sua esposa e sua outra filha, foi retirada dos escombros no mesmo dia e enterrada por parentes, enquanto ele ainda estava sendo tratado.

No dia seguinte, o corpo de Israa foi retirado dos escombros, diz ele. Abou Ishaq conseguiu vê-la na sala do hospital e segurá-la pela última vez. "Eu a abracei e beijei. Me despedi e chorei", diz ele. "Só Deus sabe o quanto eu chorei."


Reportagem de Raja Abdulrahim, Samar Abu Elouf e Yousef Masoud para o New York Times, reproduzida na Folha de São Paulo

segunda-feira, 4 de setembro de 2023

Embaixada de Israel no Brasil declara que Israel não é estado de apartheid


"(...) a embaixada de Israel no Brasil diz, em nota, que o país não é um "Estado de 'apartheid', nem para seus cidadãos árabes, que estão inseridos em todos os campos da sociedade israelense, nem para os palestinos na Cisjordânia".

"No caso da Cisjordânia, por conta dos riscos para a segurança, precisamos agir para garantir a proteção dos cidadãos israelenses, o que em muitos casos afeta a vida dos palestinos que lá residem. O futuro da Cisjordânia é objeto de diálogo entre Israel e a Autoridade Palestina e sua posição legal é de 'território em disputa', a ser discutida bilateralmente", afirma ainda a nota."


Reprodução de parte da coluna de Mônica Bergamo na Folha de São Paulo

terça-feira, 19 de outubro de 2021

Quem é Mahmud Darwich, poeta palestino que ganha destaque agora no Brasil


O narrador quer passar um café, mas a manhã chegou queimando com uma febre de metal. Do lado de fora, escreve, o ferro uiva enquanto Israel bombardeia Beirute. A cidade vive um inferno, naquele dia de agosto de 1982, um dos ápices da guerra civil libanesa. Ele quer passar um café.

A abertura de “Memória para o Esquecimento” impacta o leitor já nas primeiras páginas. Serve de lembrete da força do autor, Mahmud Darwich, um mestre nessa fusão entre rotina e política.

No mundo de fala árabe, Darwich dispensa introduções. Ele é o autor palestino de maior renome —e um dos símbolos de sua causa nacional. Darwich, porém, é ainda bastante desconhecido no Brasil. Em parte, porque até recentemente não havia uma tradução sistemática dele para o português.

O cenário está mudando depressa desde que a recém-fundada editora Tabla assumiu a missão de introduzir Darwich no país. No ano passado, essa casa lançou “Da Presença da Ausência”, com tradução de Marco Calil. Veio no ano seguinte “Onze Astros”, vertido por Michel Sleiman.

“Memória para o Esquecimento”, traduzido por Safa Jubran, é a terceira obra de Darwich a chegar ao Brasil num período de pouco mais de um ano. A Tabla tem planos de ir adiante, com outros volumes que ainda não foram anunciados. “O que a gente tem pelo Darwich é um fervor”, diz a editora Laura di Pietro “Ele não é um poeta de quem a gente quer fazer só um livro.”

Darwich nasceu na vila palestina Al-Birwa em 1941. Testemunhou, em 1948, a criação do Estado de Israel e a expulsão de centenas de milhares de palestinos. Por seu ativismo na Organização para a Libertação da Palestina, acabou associado à causa palestina. Morreu em 2008.

Seus poemas, como “Carteira de Identidade”, ainda tocam fundo na região. O texto repete, como um refrão, a frase “anote aí, sou um árabe”. No passado, políticos israelenses protestaram contra esses versos.

“Memória para o Esquecimento”, que acabou de sair no Brasil, narra um único dia de 1982 sob os bombardeios israelenses em Beirute, algo que Darwich viveu durante o exílio. Àquela época, Israel cercava a capital libanesa como maneira de pressionar a Organização para a Libertação da Palestina, ali presente.

O drama de passar o café em tal contexto é um exemplo do valor do prosaico na obra de Darwich. “Essa narrativa mostra que continuar com a rotina do cotidiano é um ato de resistência”, diz Jubran, professora da Universidade de São Paulo . Veterana das letras árabes, ela assina há anos algumas das principais traduções daquela língua para o português. O café aparece em outros textos de Darwich, como no poema “Para Minha Mãe”, em que ele descreve a saudade do bule materno.

Jubran afirma que “Memória para o Esquecimento” é o texto em prosa mais maduro de Darwich. É uma narrativa ímpar do cerco e dos ataques israelenses, afirma, costurada com textos bíblicos, crônicas medievais e a saga do povo palestino. O texto pode não estar em versos, mas “exala poesia”.

Outro elemento que chama a atenção, no livro, é como Darwich consegue costurar sua memória individual com aquela do coletivo palestino —um dos papéis da literatura. “Ele faz isso de maneira inédita e magistral”, Jubran afirma. “A meu ver, é um livro que mereceria um curso.”

Foi exatamente em um curso de Jubran, aliás, que Darwich cativou Calil. O tradutor de “Da Presença da Ausência” ouviu essa professora declamar em sala de aula o poema “Serás Esquecido”. “Aquilo me tomou por completo”, diz. Tomado, ele começou a traduzir o palestino. Enquanto Jubran é uma veterana, Calil é um novato. Mas, com 26 anos, esse jovem já desponta como uma das promessas de sua geração —e com um trabalho marcado por evidente erudição.

Calil parece ter menos interesse nas questões políticas e identitárias e mais nos temas históricos e literários. Fala sobre a não filosofia de Darwich, sobre como ele não resvala no que chama de “formas fracas do realismo”. “Vejo uma tensão entre o Darwich ativista e o transcendental”, afirma.

Essa tensão é importante. Há tempos, críticos reclamam de como autores de zonas marginais do mundo são reduzidos a representantes de seus povos. Até pouco tempo atrás o próprio Darwich costumava aparecer como uma voz fundamentalmente palestina, agrilhoada à causa nacional—enquanto escritores europeus são tidos como vozes universais que falam sobre a humanidade.

Na tradução de Calil, não é a identidade ou a política que se destacam —mas a língua. Ele captura de maneira excepcional as particularidades do árabe. Essa língua semítica existe em dois registros. Há o árabe formal, escrito, como o utilizado por Darwich. Há também o árabe oral, do cotidiano. É uma situação difícil de traduzir, porque o português não vive essa dualidade. A situação mais parecida é a do latim, que por algum tempo conviveu com as línguas latinas.

“No árabe, temos essa mordaça e, ao mesmo tempo, um estilhaçamento dos jeitos de dizer", diz. "Por isso, quis encontrar um português que pudesse exprimir essa remoção do tempo e da própria língua.”

MEMÓRIA PARA O ESQUECIMENTO

  • Preço R$ 63 (216 págs.)
  • Autor Mahmud Darwich
  • Editora Tabla
  • Tradução Safa Jubran


Texto de Diogo Bercito, na Folha de São Paulo.

sexta-feira, 20 de março de 2020

Combate ao coronavírus sela cooperação entre israelenses e palestinos

Uma trégua improvável está sendo selada entre israelenses e palestinos, que estão colaborando para evitar o aumento da contaminação pelo coronavírus na Terra Santa.
Nas últimas três semanas, representantes dos dois lados têm se encontrado para coordenar medidas em um escritório de monitoramento conjunto —cujo endereço é mantido em segredo.
“A saúde de todos os cidadãos da região está acima de tudo, e é nossa principal prioridade. Continuaremos a agir em colaboração com a Autoridade Palestina em um esforço conjunto", diz o major Yotam Shefer, chefe do departamento internacional da administração civil israelense na Cisjordânia.
Israel anunciou que enviará 20 toneladas de desinfetante para a Cisjordânia, além de 400 kits para realização de testes de detecção do coronavírus, além de outros 500 kits de equipamentos de proteção para as equipes médicas e as forças de segurança palestinas.
Há workshops conjuntos entre as equipes médicas dos dois lados. Também está sendo montado um hospital de campanha na fronteira com a Faixa de Gaza.
A mais recente medida foi o anúncio da permissão para que 70 mil trabalhadores palestinos cruzem a fronteira com Israel para manter seus empregos no país. A maioria trabalha em setores como construção civil, agricultura, indústria e serviços.
O número permitido durante a pandemia é um pouco menor do que o normal —100 mil palestinos costumam trabalhar diariamente em Israel. Mas a crise econômica causada pelo vírus já diminuiu os postos de trabalho.
A rotina também será diferente, porque esses trabalhadores palestinos não poderão voltar para casa no fim do dia —a fronteira com a Palestina será fechada nesta quinta-feira (19), com exceção da passagem de doentes e equipes médicas.
Os palestinos terão que ficar direto em Israel por um ou dois meses e deverão ser hospedados pelos empregadores israelenses em residências temporárias.
Caso haja suspeita de contaminação pelo coronavírus, os empregadores precisam dar condições para que o trabalhador fique em quarentena por 14 dias. Se algum palestino adoecer e precisar ser hospitalizado, será atendido em hospitais locais.
A medida tem como objetivo manter a economia israelense parcialmente em funcionamento para evitar uma crise mais profunda. As autoridades afirmam acreditar que 400 mil pessoas já perderam ou vão perder o emprego nas próximas semanas.
Israel contabiliza, até esta quarta-feira (18), cerca de 500 casos de contaminação, cinco dos quais de pacientes em estado grave. Não houve nenhuma morte atribuída à Covid-19 até o momento.
Para tentar conter a disseminação do vírus, o governo proibiu reuniões com mais de dez pessoas e ordenou a manutenção de apenas 30% da força de trabalho em repartições públicas e empresas privadas.
Lojas, com exceção de supermercados e farmácias, e todo o setor de entretenimento estão fechados.
O anúncio mais polêmico, no entanto, foi o da utilização de tecnologia avançada para rastrear os telefones celulares de pacientes com coronavírus e indivíduos suspeitos de estarem infectados.
Até hoje, o sistema era usado apenas pelo Serviço de Segurança (Shin Bet).
O major Shefer elogiou os esforços dos palestinos para contar a epidemia na região. “Eles estão levando tudo a sério”, afirmou, apontando medidas como a proibição das rezas em mesquitas e igrejas.
Os “muezim” (encarregados de anunciar em voz alta, do alto dos minaretes, o momento das preces) têm repetido as palavras “rezem em casa, rezem em casa”. O vaivém de pessoas diminuiu drasticamente nas cidades palestinas, que mantêm apenas serviços básicos abertos.
O presidente de Israel, Reuven Rivlin telefonou nesta quarta para o presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, para falar sobre os efeitos do coronavírus na região.
"O mundo está lidando com uma crise que não distingue pessoas ou endereços. Nossa capacidade de trabalhar juntos em tempos de crise também é prova de nossa capacidade de trabalhar juntos no futuro para o bem de todos nós", disse Rivlin. Abbas agradeceu a coordenação de esforços.
Até esta quarta-feira (18), o Ministério da Saúde palestino havia registrado 44 doentes com Covid-19, a maioria (40) em Belém. A cidade foi colocada em quarentena e está fechada para turistas, assim como a Igreja da Natividade.
Israelenses e palestinos colaboraram para retirar mil estrangeiros da cidade.
Três infectados com coronavírus são palestinos que voltaram do exterior pela ponte Allenby, na fronteira entre a Cisjordânia e a Jordânia. E há um caso de um trabalhador palestino de construção civil que teria sido contaminado pelo contato com um empreiteiro israelense.
A liderança do grupo islâmico Hamas, que controla a Faixa de Gaza, proibiu a entrada ou saída no enclave, fechando a fronteira com o Egito.
Na Esplanada das Mesquitas, em Jerusalém, onde fica a sagrada mesquita de Al-Aqsa), as orações ainda são realizadas. Mas líderes religiosos da Jordânia —que têm autoridade sobre a esplanada, apesar de ela ficar em Jerusalém— emitiram diversas orientações para que os fieis não fiquem próximos uns dos outros e rezem do lado de fora da mesquita, que tem sido constantemente esterilizada.
Segundo uma pesquisa do Instituto Truman para Paz da Universidade Hebraica de Jerusalém, 63% dos israelenses afirmam que Israel deve ajudar os palestinos durante a crise do coronavírus.
“A maioria dos israelenses acredita que, quando houver necessidade, o governo deve traçar medidas preventivas para ajudar os palestinos durante a epidemia da Covid-19”, disse Vered Vinitsky-Serousse, presidente do Instituto.

Reprodução da Folha de São Paulo.

domingo, 14 de abril de 2019

A morte anunciada da Palestina

O resultado mais significativo da eleição israelense de terça (9) não é a mais que previsível recondução de Binyamin Netanyahu ao posto de primeiro-ministro. É a morte do ainda não nascido Estado Palestino(previsto pela legalidade internacional mas jamais criado).
O atestado de óbito leva a assinatura do Yesha, acrônimo em hebraico para Conselho da Judeia, Samaria (como os judeus chamam a Cisjordânia) e Gaza, territórios que deveriam ser palestinos (só Gaza é, por enquanto).
O Yesha, em seu comunicado sobre a eleição, diz que “o povo expressou sua lealdade à Terra de Israel e escolheu aplicar a soberania de Israel sobre a Judeia, a Samaria e o vale do Jordão”.
Dá para entender essa análise radical: Netanyahu, nos últimos dias da campanha, havia anunciado que, se vencesse, estenderia a soberania israelense aos assentamentos judaicos na Cisjordânia. Logo, se a maioria votou não exatamente por ele, mas pela combinação de partidos de direita e ultra-direita que o apoiam, votou pela anexação pré-anunciada.
Anexar os assentamentos impede formar um Estado palestino minimamente viável.
Até uma liderança palestina relevante, Saeb Erekat, admite e lamenta, ao dizer que, conforme os resultados apurados até a madrugada, “só 18 dos 120 membros eleitos do Parlamento israelense apoiam a solução de dois Estados e nas fronteiras de 1967”, anteriores, portanto, à guerra em que Israel ocupou mais territórios palestinos.
Essa contabilidade mostra que é injusto atribuir apenas a Netanyahu a destruição do sonho palestino. A sociedade israelense foi se movendo paulatina mais firmemente nessa direção. “Bibi”, como é chamado, sentiu essa pulsação e foi avançando sobre os territórios palestinos.
Escreve, por exemplo, David Halbfinger no New York Times desta quarta (10): “A aparente reeleição de Netanyahu como primeiro-ministro atesta a visão conservadora do Estado judeu e de seu povo a respeito de onde estão e para onde caminham”.
Diz muito sobre o conservadorismo o fato de que os partidos religiosos vêm crescendo há anos em peso tanto no Parlamento como nos gabinetes de Netanyahu (o atual e, certamente, o futuro).
Na questão palestina, claro que os religiosos e seu conservadorismo pesam, mas o principal, a meu ver, reside no fato de que a grande maioria dos israelenses desinteressou-se dos palestinos.
Seria necessária uma investigação aprofundada para explicar as razões desse descolamento quase irrestrito. Mas a segurança certamente é um fator determinante. 
O muro que Israel construiu (e continua construindo) para separar as terras palestinas ajudou a conter o terrorismo mais impactante, aquele dos homens-bomba que se explodiam em restaurantes, mercados, pontos de ônibus.
Israel instalou-se em uma zona de conforto e não quer mais se preocupar com os palestinos. Quanto pode durar o conforto ninguém sabe. Mas levar a sério a conclamação do Yesha para tomar a Cisjordânia e Gaza, que os religiosos consideram a Terra de Israel, é armar uma bomba de tempo: os palestinos que vivem na Cisjordânia, na Faixa de Gaza e em Israel são 6,5 milhões —exatamente o mesmo número de judeus em Israel.
Dá para condená-los eternamente a ser um povo sem Estado?

Texto de Clovis Rossi, na Folha de São Paulo

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Aos poucos e discretamente, acabou sonho palestino de Estado próprio

Passo a passo, sem que explodam manchetes a respeito, acabou o sonho palestino de ter Estado próprio.
O mais recente prego no caixão dessa já remota esperança veio na terça (16), quando Donald Trump anunciou que cortou pela metade a verba à agência da ONU que cuida dos refugiados palestinos.
Cria "a mais severa crise de financiamento na história da agência", segundo o porta-voz da organização, Chris Gunness.
Ela cuida de cerca de 5 milhões de refugiados palestinos, atendendo saúde, educação e alimentação. Logo, "cortar verba para comida e educação para refugiados vulneráveis não proporciona um duradouro e abrangente processo de paz", comentou o governo palestino.
Antes do corte, outro prego importante já havia sido martelado no caixão do diálogo: no fim do ano, o Comitê Central do Likud, principal partido governista de Israel, votara para estender a jurisdição de Israel aos assentamentos na Cisjordânia.
"É um prelúdio para a anexação", analisou Steven Cook, especialista em Oriente Médio e África do Council on Foreign Relations.
De fato, se a Cisjordânia é um território que a comunidade internacional reservou para os palestinos, como parte de seu futuro Estado, não faz sentido que valha para ela a legislação israelense. A menos que Israel pretenda anexá-la.
A análise de Cook coincide com informações que os palestinos repassam a jornalistas, depois de recebê-las de interlocutores egípcios e sauditas: o plano de paz que Trump diz repetidamente que está preparando incluiria criar cantões desconectados na Cisjordânia, com um governo supramunicipal e atribuir a Abu Dis, nos confins de Jerusalém, o caráter de capital palestina.
Esse pedaço de território poderia, ainda por cima, "ser vinculado a uma Jordânia vulnerável e que não o quer", na versão de David Gardner no jornal britânico "Financial Times" desta quarta-feira (17).
Morreria, pois, o sonho palestino de um Estado próprio que, porém, tem o respaldo da legalidade internacional: em 1948, a ONU determinou a criação de dois Estados na área, Israel e o que seria a Palestina.
É verdade que os países árabes não aceitaram Israel, foram à guerra e perderam. Esse fato não muda a determinação da ONU, seguidamente reafirmada, de dois Estados.
O problema é que nenhum país tem força suficiente para impor a Israel a solução internacionalmente reconhecida. Os EUA desde sempre —e mais ainda com Trump— sempre respaldaram Israel, ao passo que os palestinos recebem apoio apenas retórico do mundo árabe e do Ocidente em geral.
Depois que Trump reconheceu Jerusalém como capital de Israel, Mahmoud Abbas, presidente da Autoridade Nacional Palestina, resolveu decretar que os EUA estão fora do jogo no processo de paz, que, aliás, é um cadáver insepulto.
Vale, pois, o comentário para o "Guardian" de Ian Black (Centro do Oriente Médio da London School of Economics): "A solução dos dois Estados para o conflito com Israel tem tido um longo desfalecimento. Mas o discurso de Abbas poderá ser visto algum dia como o seu epitáfio".


Texto de Clovis Rossi, na Folha de São Paulo

sexta-feira, 28 de abril de 2017

Israel é o único a negar que colonizou terra estrangeira, diz historiador

Israel é o único a negar que colonizou terra estrangeira, diz historiador