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segunda-feira, 17 de junho de 2024

Como uma empresa dos EUA moldou imagem pejorativa da América Latina


Houve um tempo em que a United Fruit Company decidia quem morria e quem vivia nas duras vidas que seus trabalhadores enfrentavam nas plantações de frutas na América Latina. Horários de trabalho desregulados, jornadas extenuantes, condições insalubres. Um tempo em que juízes e políticos eram comprados para defender os interesses da empresa em vários países.

A UFC punha e tirava caudilhos do comando dos países cujos mercados queria dominar. Quando havia revoltas de trabalhadores, a empresa intervinha ao lado dos governos para que suas forças de segurança contivessem, muitas vezes com violência, os protestos por melhores salários e condições de vida.

Assim era a United Fruit Company, uma empresa americana criada em 1899 que moldou uma imagem pejorativa da América Latina para o planeta nos séculos 19 e 20.

Essa mesma imagem se manifesta até hoje no imaginário que o mundo tem sobre a região. Dela dependeram gerações de trabalhadores. E a ela se pode atribuir uma dura herança deixada por essas terras: a de que somos uma região de mão de obra barata, quase escrava, destinada a produzir complementos à economia mundial e exposta a uma intempérie política constante.

Foi por causa da UFC que os países do sul das Américas ficaram conhecidos com a infeliz expressão depreciativa "repúblicas das bananas", sinônimo de imaturidade política, corrupção e pobreza.

Nesta semana, uma notícia alentadora veio à tona. Um júri da Flórida decidiu que a Chiquita Brands (nome atual da UFC) é responsável por oito assassinatos cometidos por um grupo paramilitar de direita que a empresa ajudou a financiar em uma região fértil de cultivo de bananas entre 1997 e 2004. Isso mesmo, para defender terrenos de cultivo, a empresa deu dinheiro para as Autodefesas Unidas da Colômbia (AUC), um grupo conhecido por terríveis massacres no interior do país.

A literatura da região tem sido um território fértil para a reflexão sobre os aspectos negativos que a United Fruit Company deixou em nossas culturas. Nada menos que quatro prêmios Nobel se dedicaram a chamar a atenção para as consequências de suas ações nos países latino-americanos.

No celebrado "Cem Anos de Solidão", Gabriel García Márquez romanceou a terrível repressão da empresa em La Ciénaga, em 1928, ocorrida quando ele tinha apenas um ano, mas cuja história amedrontava sua geração.

Em "Tempos Ásperos", o peruano Mario Vargas Llosa mostra como a UFC, aliada aos EUA —e por sua vez auxiliados pela ditadura do sangrento ditador dominicano Rafael Trujillo—, derrubaram o governo progressista de Jacobo Árbenz, em 1954.

Outros dois Nobel tratariam do tema. O guatemalteco Miguel Ángel Asturias, em sua "Trilogia Bananera", integrada pelas obras "Viento Fuerte", "El Papa Verde" e "Los Ojos de Los Enterrados", e o chileno Pablo Neruda, em "Calero, Trabajador del Banano".

Outras penas se dedicaram a expor os avanços da UFC na vida econômica e social das Américas. A do costa-riquenho Carlos Luis Fallas ("Mamita Yunai" e "Limón Blues"), a do mexicano Francisco Martín Moreno ("Las Cicatrices del Viento"), a do colombiano Álvaro Cepeda Samudio ("A Casa Grande") e a do hondurenho Ramón Amaya Amador ("Prisión Verde").

A leitura dessas obras traz a reflexão: a América Latina seria diferente se não tivesse passado tanto tempo sob a influência de uma empresa bananeira de tamanho poderio?


Reprodução de texto de Sylvia Colombo na Folha de São PauloFolha de São Paulo

quarta-feira, 3 de julho de 2013

EUA iniciam por Honduras fortalecimento da presença militar na América Central

Para o ano fiscal de 2014, os Estados Unidos preveem uma ligeira diminuição nos fundos destinados para a “luta contra as drogas” no México e na Colômbia, em troca de um aumento para a CARSI (Iniciativa Regional de Segurança para a América Central, por sua sigla em inglês), para a qual o Departamento de Estado solicitou 162 milhões de dólares, ou seja, 26 milhões a mais do que o orçamento de 2012. Apesar de não ser fácil saber exatamente que quantidade de recursos vai chegar a Honduras através de diferentes vias e programas, é lógico pensar que esse país vai gozar de uma atenção privilegiada.

Recentemente, o Congresso Nacional de Honduras aprovou a criação de mil novas praças para soldados do exército e para a formação do corpo de elite Tigres (Tropa de Inteligência e Grupos de Resposta Especial). “Querem fazer crescer o poderio militar à custa da segurança pública”, declarou à imprensa local o vice-presidente do congresso, Marvin Ponce.
Em 2011, o Pentágono incrementou seu gasto militar do país em 71% em relação ao ano anterior. Mesmo levando em conta a grave crise de Estado, política, institucional e social que se abateu sobre Honduras desde o golpe de Estado, as repetidas denúncias de corrupção, violação de direitos humanos e de conluio com o crime organizado dirigidas à Polícia Nacional, e o fracasso do processo de depuração policial, os EUA seguem enviando fundos para continuar com seus programas.
Em declarações a Opera Mundi, a diretora do Programa das Américas do CPI (Centro para a Política Internacional), Laura Carlsen, diz que os EUA “querem ter mais controle sobre as estratégias de segurança interna dos países centro-americanos, sobretudo agora que vários governos progressistas ou de esquerda se instalaram na América Latina”.
“Nesse sentido” – continuou – “os EUA buscam fortalecer sua presença militar para enfrentar o que veem como uma ameaça contra a sua tradicional hegemonia na região”, disse.
Segundo o jornalista e comunicador social hondurenho Félix Molina, já há sinais visíveis que mostram a progressividade de tal intervenção no cenário hondurenho.
“Começou com a assinatura de um intercâmbio de inteligência e de experiências entre o regime de Porfirio Lobo e da Colômbia e depois veio a autorização para criar novas bases militares dos EUA em La Mosquitia e no Caribe. Assim mesmo, estamos assistindo à chegada de altos funcionários do Departamento de Estado e à intervenção direta no processo de avaliação do Ministério Público, de depuração da policia e da criação de várias leis”, assegura o jornalista.

Entre as leis questionadas, Molina citou, entre outras, a Lei Antiterrorista, a Lei de Intervenção de Comunicações Privadas, a Lei de Inteligências Nacional e a Lei de Extradição para Hondurenhos. Em março passado, o subsecretário-adjunto de Estados do Escritório Antinarcóticos dos EUA, William Brownfied, anunciou a aprovação de um financiamento de US$ 16,3 milhões para criar uma força-tarefa policial para combater os crimes mais graves.
"Duplo discurso"

Manter Honduras nas primeiras páginas dos jornais e dos noticiários como o país mais violento do mundo e como um Estado falido seria, então, parte da estratégia norte-americana para justificar uma possível intervenção factual. “Os EUA mantêm um duplo discurso para garantir seus objetivos e prioridades estratégicas. Estamos vendo um incremento de sua presença e de suas bases militares na região, assim como de seus projetos sociais e de cooperação, que ocultam seus verdadeiros interesses”, explica a ex-diretora de Assuntos Internos da Policia Nacional, Maria Luisa Borjas.
Um protagonismo silencioso e sutil em sua aparência, mas muito eficaz na prática, que de acordo com Molina busca fortalecer institucionalmente o aparato de segurança de Honduras, mas que na realidade “mira fortalecer o Exército, isto é, o aparato que monopoliza a violência no Estado hondurenho, e em garantir seu controle hegemônico.”
Recentemente, 21 senadores norte-americanos enviaram uma carta ao Secretário de Estado, John Kerry, assinalando como um “fracasso decepcionante” o processo de depuração. Assim mesmo, exigiram uma “prestação de contas” dos fundos desembolsados pelos EUA e destinados ao Exército e à polícia hondurenha. “Devemos nos assegurar de que os fundos norte-americanos não estejam permitindo violações desenfreadas dos direitos humanos, incluindo por membros das forças armadas de segurança de Honduras que atuam amparadas pela impunidade”, diz a carta.

Reprodução do Opera Mundi

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Reino Unido pede perdão por repressão violenta no Quênia


Reino Unido pede perdão por repressão violenta no Quênia
Governo promete indenizar sobreviventes de revolta que matou 12 mil; avô de Obama, que morreu em 1979, foi um dos torturados

Depois de mais de meio século, o governo do Reino Unido fez um pedido formal de desculpas e anunciou ontem que vai indenizar 5.228 sobreviventes da repressão violenta ao movimento pela independência do Quênia.
A revolta dos Mau Mau se arrastou de 1952 a 1963. A reação do Império Britânico deixou ao menos 12 mil mortos e uma das mais profundas cicatrizes do processo de descolonização da África.
Tropas britânicas mantiveram milhares de quenianos em campos de trabalhos forçados, semelhantes aos gulags soviéticos, e usaram a tortura de forma disseminada para sufocar a guerrilha.
Entre as vítimas de maus-tratos estava Hussein Onyango Obama, avô paterno do presidente dos EUA, Barack Obama. Ele sobreviveu ao conflito e morreu em 1979.
O chanceler britânico, William Hague, afirmou que o Reino Unido pagará 19,9 milhões de libras (cerca de R$ 65 milhões) a sobreviventes que pediram reparação.
"O governo britânico reconhece que quenianos foram vítimas de tortura e maus-tratos nas mãos da administração colonial. Lamentamos que os abusos tenham ocorrido e prejudicado a independência do Quênia", disse.
"Tortura e maus-tratos são violações abomináveis da dignidade humana, que condenamos integralmente", acrescentou o ministro.
O anúncio representa uma guinada do governo britânico, que sempre negou culpa pelos crimes e alegava que as vítimas deveriam pedir reparação ao governo do Quênia.
O premiê David Cameron foi obrigado a negociar após um tribunal superior em Londres dar ganho de causa, em 2011, a quatro sobreviventes que processaram o Reino Unido pelos maus-tratos.
O grupo incluía um idoso que foi castrado e uma senhora abusada sexualmente por soldados britânicos. Uma das vítimas morreu antes do anúncio das indenizações.
"Não é suficiente diante dos abusos que nós sofremos, mas aceitamos porque é melhor do que nada", disse o sobrevivente Mathenge Wa Ireri, entrevistado pela BBC.
A pressão sobre o governo britânico teve apoio do arcebispo sul-africano e Nobel da Paz Desmond Tutu e de entidades de direitos humanos.


Reportagem de Bernardo Mello Franco, para a Folha de São Paulo.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Os ingleses e a morte de Lumumba


A CENA não podia ser mais chique. Em 2010, Lord Lea de Crondall tomava chá com a baronesa Park de Monmouth e comentou um trecho de um livro que discutia o envolvimento do serviço secreto britânico no assassinato do primeiro-ministro congolês Patrice Lumumba, em 1961. O mistério completaria meio século. Lumumba tinha 35 anos e parecia um Fidel Castro (versão 1.0) africano. Vencera uma eleição e mal completara três meses como primeiro-ministro quando foi deposto e preso. Fugiu e foi capturado. Seu assassinato foi um crime que superou, de longe, a execução do Che Guevara. Primeiro, porque estava no seu país. Ademais, porque foi filmado apanhando, até mesmo quando soldados tentavam fazê-lo comer um documento que assinara. A imagem de sua altaneira resignação, com as mãos amarradas, está no YouTube. Tropas da ONU que policiavam o Congo poderiam tê-lo libertado. Lumumba foi martirizado durante duas semanas. Apanhou de soldados, generais e até mesmo do presidente de uma província rebelada. Finalmente, no dia 17 de janeiro de 1961, militares congoleses e mercenários europeus encostaram-no numa arvore e fuzilaram-no.
A execução foi uma espécie de Assassinato no Expresso Oriente da Guerra Fria. Os americanos tentaram envenená-lo, os belgas tratavam-no pelo codinome de Satan e planejaram seu assassinato. O primeiro-ministro inglês discutira sua "eliminação" com o presidente americano Eisenhower, mas o dedo de Londres só apareceu durante o chá dos lordes. Faltava uma peça: quem armou a cena final?
"Fomos nós. Eu organizei a coisa", disse a octogenária baronesa de Monmouth. Aos 39 anos ela era Daphne Park e chefiava a estação da inteligência inglesa no Congo. Para quem se habituou com a cenografia de James Bond, Park encarnava o anticlímax. Com jeitão de missionária gorda, dirigia um Citroën velho. Até chegar à Câmara dos Lordes, passaria por Moscou, Zâmbia e Hanói. Nunca falou de sua carreira, ria do Bond de Ian Fleming e não gostava das tramas de John Le Carré. Daphne morreu aos 88 anos, poucos meses depois de seu breve comentário com Lord Crondall. Ele narrou a conversa numa carta recente ao London Review of Books.
Recompondo-se os fatos de janeiro de 1961, é possível que Daphne tenha organizado e instruído a ida de um ex-assessor de Lumumba à prisão onde ele estava, transferindo-o para a capital de uma província rebelada, onde seu fim estaria selado. Semanas antes, ela salvara a vida desse novo colaborador escondendo-o na porta-malas de seu carro.
Passados 52 anos do assassinato de Lumumba, ficou o saldo. De 1961 a 1997, o Congo foi governado por Joseph Mobutu, um policial transformado em coronel, queridinho da Central Intelligence Agency americana. O embaixador inglês achava-o incapaz de se tornar ditador. Foi um arquétipo dos cleptocratas africanos, intitulando-se Messias, Supremo Combatente e O Grande Leopardo. Juntou algo como US$ 5 bilhões, mais um castelo na França. Desde então o Congo viveu meio século de guerras civis (numa das quais se meteu Che Guevara) e nelas morreram milhões de pessoas. País de imensos recursos naturais, o Congo é um dos mais pobres e corruptos do mundo.


Texto de Elio Gaspari, na Folha de São Paulo.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

A lei vs. a "vontade" de Israel


Foi inútil, como se poderia antecipar, a pressão de um punhado de países europeus para que Israel abandone o projeto de construir mais 3.000 residências para colonos judeus na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental, territórios que pertencem aos palestinos, de acordo com a legislação internacional.
Na semana passada, o primeiro-ministro Binyamin Netanyahu já havia dado uma solene bofetada na legalidade internacional, com a sua frase sobre a decisão da Assembleia Geral das Nações Unidas de conceder à Palestina o status de Estado observador.
Disse Netanyhau: "Não há decisão da ONU que possa romper 4.000 anos de vínculos entre o povo de Israel e a terra de Israel".
Dane-se a legalidade internacional. O que vale é exclusivamente a vontade "do povo de Israel".
Uma frase com esse desprezo pela única legalidade global disponível (as decisões da ONU), se pronunciada por um líder muçulmano, mais ainda se fosse iraniano, provocaria uma tempestade de condenações no Ocidente (e em Israel).
E seria justo porque, se se desrespeita o que decide a organização internacional mais legítima de que o planeta dispõe, resta apenas a lei do mais forte --e os judeus já experimentaram em carne própria o que significa a lei do mais forte.
Pena que Israel se dedique nos últimos muitos anos a adotar o seu próprio arbítrio. Não cumpre resoluções da ONU desde 1967, pelo menos, quando a organização internacional determinou que deveria devolver os territórios ocupados na guerra daquele ano.
Despreza também uma das convenções de Genebra, que veda a implantação de populações em territórios conquistados.
O número de colonos que Israel foi implantando em território palestino beira os 350 mil, sem contar os 200 mil instalados na parte oriental de Jerusalém, legalmente árabe.
Pior ainda: boa parte desses colonos dedica-se ao exercício de hostilizar os palestinos, conforme recente relatório do Comitê de Política e de Segurança da União Europeia. "Os ataques são cada vez mais severos e, em algumas áreas, mais coordenados", diz o texto, além de mais frequentes (aumentaram 32% em 2011 sobre 2010).
As hostilidades afetam homens, mulheres, crianças, campos agrícolas (10 mil árvores já foram arrancadas) e lugares de culto (só este ano, dez mesquitas foram destruídas). Não cabe aqui o argumento israelense de que, como Israel é atacada por foguetes lançados de Gaza, não pode ficar de braços cruzados. Ao contrário de Gaza, na Cisjordânia ocupada, os palestinos não disparam foguetes contra judeus.
A frase de Netanyahu torna inútil qualquer peroração legalista ou moralista a respeito da ocupação.
O que conta, na prática, é apenas o seguinte: a violação da legalidade internacional funciona para Israel?
Por enquanto, está funcionando. Mas o crescente isolamento internacional do país e o crescente alcance dos foguetes do Hamas/Jihad Islâmica sugerem que a "terra de Israel" não pode indefinidamente impor sua vontade imperial.


Reprodução da coluna de Clóvis Rossi, na Folha de São Paulo. Destaque do blogueiro. 

terça-feira, 31 de julho de 2012

Guerra às drogas migra para a África


Guerra às drogas migra para a África

Por CHARLIE SAVAGE e THOM SHANKER

WASHINGTON - Numa expansão significativa da guerra às drogas, os Estados Unidos começaram a treinar uma unidade de elite da polícia antinarcóticos de Gana e unidades de planejamento na Nigéria e no Quênia, como parte dos esforços para combater os cartéis latino-americanos que cada vez mais usam a África para contrabandear cocaína para a Europa.
O crescente envolvimento na África ocorre após uma escalada dos esforços antidrogas na América Central.
Em ambas as regiões, as autoridades americanas reagem à preocupação de que a repressão em pontos mais diretos do contrabando -como México e Espanha- tenha levado os traficantes a atuarem em Estados menores e com governos mais fracos.
Mais atenção e recursos estão sendo mobilizados para o combate ao narcotráfico agora que as guerras do Iraque e do Afeganistão estão em fase de desmantelamento.
"Vemos a África como a nova fronteira em termos das questões de contraterrorismo e contranarcóticos", disse Jeffrey Breeden, chefe da seção da DEA (agência antidrogas dos EUA) para a Europa, a Ásia e a África.
As iniciativas ocorrem num momento em que várias apreensões foram feitas em Honduras desde maio, mas autoridades americanas tiveram de se justificar depois que agentes da DEA, acompanhando policiais hondurenhos, se envolveram em três operações que resultaram em mortes.
Na África, o esforço para combater o narcotráfico estaria cerca de três anos atrasado em relação à América Central.
Em maio, William Brownfield, secretário-assistente de Estado para questões de drogas e polícia, viajou a Gana e à Libéria para concluir a Iniciativa Cooperativa de Segurança da África Ocidental, que tentará replicar em 15 países as medidas previamente adotadas contra os cartéis na América Central e no México.
Brownfield disse que a intenção em ambas as regiões é melhorar a capacidade das nações para lidar com o narcotráfico, pela construção de instituições próprias e pela cooperação entre elas, partilhando inteligência e operando centros regionais de treinamento para agentes legais.
Mas, acrescentou ele, como os traficantes já se mudaram para a África, há também a necessidade imediata de unidades policiais de elite, já treinadas e submetidas a testes.
Bruce Bagley, professor da Universidade de Miami que se concentra na América Latina e no combate às drogas, disse que o que aconteceu na África Ocidental nos últimos anos foi o mais recente exemplo de um problema de interdição.
"Conforme eles [autoridades] pressionam, eles [traficantes] desviam as rotas, mas não vão parar o fluxo, porque as instituições são incrivelmente fracas -não me importa quantos testes eles façam", disse Bagley. "E sempre há a contrapartida disso. Você começa a matar pessoas em países estrangeiros -sejam elas criminosas ou não- e haverá consequências."
Funcionários do governo americano dizem que, embora a intervenção leve a um aumento na violência ao desafiar organizações que antes operavam impunes, a alternativa a isso é pior. Segundo Brownfield, países de trânsito das drogas acabam por se tornar grandes consumidores.
A ONU afirma que o tráfico e o consumo de cocaína na África Ocidental dispararam nos últimos anos, contribuindo para a instabilidade. Há vários anos, uma quadrilha sul-americana tentou subornar o filho da presidente liberiana para liberar o país para o tráfico de drogas.
Ainda mais preocupante, segundo autoridades americanas, foi um caso em que o grupo Al Qaeda no Magreb Islâmico ofereceu três dos seus militantes para ajudar na transferência de toneladas de cocaína através do norte da África até a Europa -tudo para arrecadar fundos para atentados terroristas.
O processo foi encerrado em maio passado, com a condenação e anúncio da sentença numa corte federal de Nova York.
A ajuda antidrogas dos Estados Unidos à África Ocidental totalizou cerca de US$ 50 milhões em cada um dos dois últimos anos, diante de apenas US$ 7,5 milhões em 2009, segundo o Departamento de Estado.
O Pentágono trabalhou com Cabo Verde para estabelecer um centro regional de detecção de navios com drogas.
É a primeira vez que a DEA patrocina a criação de unidades na África Ocidental, mas a agência já fez isso em outros países com forças de segurança assoladas pela corrupção, como a República Dominicana, El Salvador, a Guatemala e o Panamá.
William Wechsler, principal autoridade antinarcóticos do Pentágono, disse que observar os avanços do narcotráfico na África Ocidental é como assistir a uma repetição da guerra às drogas nas Américas.
"A África Ocidental está agora enfrentando uma situação análoga à do Caribe na década de 1980, em que países em desenvolvimento pequenos e vulneráveis, no meio de rotas do narcotráfico para consumidores ricos, estão amplamente carentes de recursos para lidar com a onda de dinheiro sujo vindo na sua direção."



quarta-feira, 13 de junho de 2012

Cresce ação antidroga americana


Cresce ação antidroga americana

Por Damien Cave, Charlie Savage e Thom Shanker

WASHINGTON - Após a morte de quatro moradores de uma aldeia hondurenha durante a ação de agentes do governo e americanos contra narcotraficantes em Honduras, no mês passado, a reação local gerou preocupações de que os esforços antidrogas dos EUA na América Central estejam indo longe demais. Mas as autoridades americanas pensam diferente.
Ao longo de 2011, agentes hondurenhos se sentiram impotentes ao ver mais de cem pequenos aviões cruzarem as telas dos seus radares, voando da América do Sul para pistas de pouso em lugares isolados de Honduras. Mas, após a adoção de uma nova estratégia que enfatiza a cooperação entre departamentos e agências dos EUA, dois aviões foram interceptados em menos de uma semana, em maio, o que explica por que as autoridades em Washington se dizem determinadas a manter essa abordagem.
"Meu palpite é que os traficantes de narcóticos apertaram o botão de pausa", disse William Brownfield, secretário-assistente de Estado para narcóticos e imposição da lei.
"Pela primeira vez em uma década, os carregamentos aéreos estão sendo interceptados imediatamente ao pousarem."
Com a atenção dos EUA se desviando do Iraque e Afeganistão -e com os dólares do orçamento igualmente indo em outras direções -, os EUA estão ampliando e unificando seus esforços antidrogas na América Central, onde a violência disparou à medida que a repressão na Colômbia, México e parte do Caribe empurrou o tráfico para países menores, com forças de segurança mais fracas.
Os EUA pressionam os governos centro-americanos a cooperarem na partilha de informações e na autorização para que forças de segurança de uma nação operem em território alheio, a abordagem que foi vista na operação polêmica mencionada acima, já que guatemaltecos pilotavam helicópteros americanos cheios de soldados hondurenhos.
O governo de Honduras, eleito num controverso pleito meses depois de um golpe de Estado em 2009, apoia fortemente a assistência americana, mas céticos argumentam que o entusiasmo se deve em parte ao fato de a parceria reforçar o seu frágil domínio sobre o poder.
Há descontentamento na América Latina com os esforços americanos, que alguns líderes e especialistas independentes dizem ser focado demais em apreensões dramáticas de carregamentos com destino à América do Norte, e não nos casos locais de homicídio e corrupção ligados ao narcotráfico.
"A violência cresceu muito, crimes conectados ao tráfico continuam aumentando -essa é a grande queixa da América Central", disse o presidente da Guatemala, Otto Pérez Molina. Ele acrescentou que os cartéis estão mais bem organizados do que há 20 anos, e que "se não virmos algo realmente diferente do que temos feito, essa guerra está no caminho da derrota."
Na costa dos Mosquitos de Honduras, onde as duas operações ocorreram, os moradores têm reivindicações simples.
"Se vocês vêm para a costa dos Mosquitos, venham para investir", disse Terry Martínez, diretor de programas de desenvolvimento para a área. "Ajudem-nos a colocar nossos produtos legítimos no mercado. Isso ajudará a proteger a área."
As autoridades americanas dizem ter ciência de que só reprimir não basta. O número de funcionários americanos em programas voltados ao fortalecimento dos sistemas judiciais e criminais da América Central quadruplicou nos últimos cinco anos, chegando a 80. E a Agência de Desenvolvimento Internacional dos EUA ajudou desde 2009 a inaugurar mais de 70 centros de qualificação profissional para jovens, dizem as autoridades.
"É preciso haver um lado positivo: fornecer subsistências econômicas alternativas, clínicas, estradas -o tipo de coisa que realmente dá às comunidades pobres um poder sobre o seu futuro, para que elas não participem do tráfico de narcóticos", disse Brownfield, ex-embaixador na Colômbia.
Mas a maior parte das verbas para a Iniciativa de Segurança Regional Centro-Americana se destinou a trabalhos de segurança e repressão, segundo um recente relatório do Congresso. Funcionários americanos dizem que os esforços de repressão incluem programas para aumentar o profissionalismo das unidades policiais locais. E, cada vez mais, os governos centro-americanos se ajudam mutuamente a treinar suas forças.
As agências dos EUA também estão combinando seus esforços de novas maneiras. Autoridades dizem que a ação de 11 de maio perto da localidade de Ahuas -e outra dias antes em Honduras, na qual também houve um tiroteio, mas aparentemente ninguém morreu -ilustrava esse esforço conjunto. O incidente de 11 de maio continua sob investigação.
Mas questões mais amplas permanecem. Mesmo que a rota aérea para Honduras seja interrompida, enquanto os EUA -e a África e a Europa- continuarem sendo um mercado lucrativo para a cocaína, os traficantes vão continuar buscando formas de levar seu produto.
Funcionários dos EUA dizem que já estão reforçando seus esforços no Caribe, antecipando-se a outra mudança na direção das drogas.


quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Milhares celebram retirada de tropas norte-americanas em Falluja


Milhares celebram retirada de tropas norte-americanas em Falluja

Iraquianos queimaram bandeiras dos EUA e agitaram cartazes.
Cidade de 3 mil moradores, de maioria sunita, já foi reduto da al-Qaeda.



Iraquianos queimaram bandeiras dos Estados Unidos, agitaram cartazes e lotaram as ruas de Falluja, no oeste do Iraque, para celebrar a retirada das tropas norte-americanas do país.
Falluja, de maioria sunita, já foi reduto da al-Qaeda e registrou algumas das mais violentas batalhas em quase nove anos de guerra. Cerca de 3.000 moradores participaram de uma passeata levando cartazes com os dizeres "Falluja, cidade da resistência" e fotos de moradores mortos pelos ocupantes.
"As celebrações marcam um dia histórico para a cidade de Falluja, e devemos lembrar com orgulho dos mártires que sacrificaram seu sangue por esta cidade", disse Dhabi al-Arsan, vice-governador da província de Anbar, dirigindo-se à multidão.
Os combatentes da insurgência iraquiana fizeram de Falluja a sua base ao longo do conflito, e em 2004 a cidade registrou duas batalhas importantes. Forças dos EUA usaram a força bruta, incluindo tanques, caças e helicópteros, para esmagar a resistência, em combates que deixaram centenas de mortos e milhares de desabrigados.
"Estou contente por ver os norte-americanos deixando o Iraque. Só agora sentimos realmente o gosto da liberdade e da independência", disse o taxista Ahmed Jassim, de 30 anos, agitando uma bandeira iraquiana. "Não vamos mais ver as forças norte-americanas. Elas nos evocam conflito e destruição."
Depois de chegar a ter cerca de 170 mil soldados no país, os EUA hoje mantêm apenas cerca de 5.500, que devem sair até o final do mês. Só um pequeno contingente de instrutores civis e cerca de 200 adidos militares devem permanecer.
Muitos iraquianos aguardam com alívio e esperança o fim da ocupação, apesar do temor de recrudescimento da violência sectária. Em geral, a violência já diminuiu bem desde o auge do conflito entre sunitas e xiitas, mas atentados e assassinatos continuam sendo comuns.
"Depois que os norte-americanos saírem, queremos ver um Iraque unido, não queremos disputas", disse o clérigo sunita Hameed Jadou à multidão. "Quem diz que se trata de um iraquiano sunita, xiita, curdo ou turcomeno está usando termos trazidos pelo ocupante."

Notícia da Reuters, no G1

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

A Corrida do Ouro na Líbia

O retorno da corrida do ouro na Líbia

Empresas ocidentais querem ganhar com a gratidão dos líbios

Por SCOTT SHANE

WASHINGTON - Novos invasores já tramam desembarque em Trípoli, a capital líbia.
Empresas ocidentais de segurança, construção e infraestrutura, cujas oportunidades de lucrar no Iraque e no Afeganistão diminuíram, voltam suas atenções para a Líbia, que acaba de se livrar de quatro décadas de ditadura. Empresários estão empolgados com o potencial para negócios em um país com carências enormes e petróleo para pagar as contas.
Uma semana antes da morte do coronel Muammar Gaddafi em 20 de outubro, uma delegação de 80 empresas francesas chegou a Trípoli para conversar com autoridades do Conselho Nacional de Transição, o governo provisório. O novo ministro da Defesa britânico, Philip Hammond, exortou empresas britânicas a "fazerem as malas" e irem para Trípoli.
Quando o corpo do coronel Gaddafi ainda estava exposto ao público, a empresa britânica Trango Special Projects ofereceu seus serviços de apoio a empresas a fim de faturar na Líbia. "Enquanto continua a especulação sobre como Gaddafi foi morto", postou a Trango em seu website, "você e seu negócio estão prontos para retornar à Líbia?".
A Trango ofereceu quartos em sua vila em Trípoli e transporte "a cargo de nossa discreta equipe de segurança formada por britânicos e líbios". Essa discrição custa caro. O preço para um percurso de 10 minutos saindo do aeroporto, que é de cerca de US$ 5 em um táxi comum, sobe para 500 libras britânicas, o que equivale a aproximadamente US$ 800.
"Neste momento está havendo uma espécie de corrida do ouro", disse David Hamod, presidente da Câmara Nacional de Comércio EUA-Países Árabes. "E os europeus e asiáticos estão claramente na dianteira. Todo dia recebo telefonemas da comunidade empresarial na Líbia. Eles dizem, 'Volte, não queremos que os americanos fiquem para trás'".
Há hesitação de ambos os lados. A fim de evitar qualquer resquício da corrupção da época de Gaddafi, o Conselho Nacional de Transição afirmou que não haverá assinatura de contratos de longo prazo até que um governo eleito tome posse. E os empresários temem atuar em cidades ainda repletas de armas e jovens desempregados.
Assim como a França e o Reino Unido, os EUA podem se beneficiar da gratidão das autoridades líbias pelo apoio aéreo crucial da OTAN para a revolução. Empresas ocidentais esperam ter uma certa vantagem em relação, por exemplo, à China, que ainda em julho se oferecia para vender armas ao coronel Gaddafi.
Empresas ocidentais de segurança anseiam fechar contratos de treinamento com um governo inexperiente para domar suas caóticas forças armadas. Empresários do ramo dizem que o trabalho aqui talvez não se equipare à escala colossal de ganhos no Iraque e no Afeganistão, mas, diante dos cortes de gastos dos governos europeus e americano, vale a pena.
Foi em 2004 que empresas ocidentais começaram a ter oportunidades de negócios na Líbia, graças à decisão do coronel Gaddafi de desistir do seu programa de armas nucleares, o que deu fim ao status de pária da Líbia.
A situação do país era péssima após muitos anos de sanções econômicas. A Líbia "precisava de tudo", relatou Hamod: bancos, hospitais, estradas e infraestrutura para a indústria petrolífera.
Agora, após meses de combates, há novas carências enormes, como reconstruir conjuntos habitacionais destruídos por granadas, proteger estruturas petrolíferas enquanto se recuperam ou ampliam a produção e treinar e equipar novas forças armadas.
Hamod disse que empresas americanas hesitam mais do que as chinesas e algumas europeias quanto a operar em ambientes instáveis. "Há relutância para voltar a investir pesadamente na Líbia", ele observou. "Historicamente, empresas americanas preferem que haja um Estado de direito no país em questão, com tudo o que isso significa para um investimento de muitos milhões de dólares."
A excitação e a confusão das pessoas em busca de oportunidades na Líbia ficam evidentes no número crescente de grupos sobre a Líbia no Linkedin, a rede social da internet voltada a negócios.
"Alguém do grupo pode me dizer se há voos para Trípoli?", postou Peter Murphy, um topógrafo irlandês atualmente trabalhando em um projeto eólico marítimo, em uma página de bate-papo no LinkedIn chamada Anglo Libyan Business Group. "Além disso, qual é a situação para vistos de trabalho para estrangeiros?"
Ele obteve uma resposta de Mabruk Swayah, que se identificou como um líbio que trabalha com prospecção de negócios. "Olá, amigos, todos vocês são bem-vindos na Líbia", escreveu Swayah. "Só é preciso buscar os canais adequados para seus contratos de trabalho e não se envolver com subornos, persuasões ou agrados indevidos para as autoridades."

Contribuíram Adam Nossiter e David D. Kirkpatrick reportando de Trípoli, na Líbia


Texto do The New York Times, reproduzido na Folha de São Paulo, de 10 de novembro de 2011.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Ação entre amigos (sobre a Líbia)


Ação entre amigos

OS RELATOS MENOS ligeiros da conferência "Amigos da Líbia", em Paris, proporcionam o primeiro esclarecimento documental das discutidas motivações, entre princípios humanitários e suspeitados interesses gananciosos, para a ação de potências ocidentais no país africano e tanta passividade ante os massacres da população pelas ditaduras na Síria, no Iêmen, no Barein e outras.
Como aperitivo para a reunião dos governantes e representantes de 63 países, o jornal parisiense "Libération" divulgou uma carta, datada de abril, em que o Conselho Nacional de Transição da Líbia rebelde se compromete a destinar à França, em troca do seu reconhecimento como governo legítimo, 35% da produção de petróleo líbio. Ao que o ministro do Exterior francês, Alain Juppé, anexa palavras talvez distraídas, mas definitivas: "A operação na Líbia é muito dispendiosa. É também um investimento no futuro".
Ficou explicado o pronto reconhecimento recebido do presidente Sarkozy pelos integrantes e pelo próprio conselho, assim como sua condição de governo nos 18 meses seguintes à esperada queda real de Gaddafi. Reino Unido (Inglaterra) e Itália fizeram o mesmo reconhecimento rápido, logo, é presumível que tenham também recebido cartas permutando a riqueza petrolífera da Líbia.
Mas a divisão do legado transferiu para a conferência o clima de disputa que estava só na Líbia. Ingleses, franceses e italianos disputaram com garra o espólio pós-guerra. O bravo ministro do Exterior do Reino Unido foi tão belicamente determinado, com sua proclamação de que "as empresas britânicas não ficarão para trás" na disputa com as francesas e italianas, que não tardou um rateio inaugural para a atividade imediata de meia dúzia de petrolíferas na Líbia.
Enquanto for possível transgredir impunemente decisões e princípios da ONU, como ingleses e franceses fazem na Líbia, será ingênua toda crença de que as potências ajam, em algum caso, por menos do que ambição de domínio e das riquezas alheias.
Entre os "Amigos da Líbia" (alguns tão amigos que já eram muito amigos nos tempos de Gaddafi), quem não saiu da conferência com seu butim, ou com a promessa de tê-lo, lá ganhou ao menos uma frase de Hillary Clinton que deveria ser lembrada a cada dia: "Vencer uma guerra não traz nenhuma garantia de preservação da paz".

terça-feira, 6 de setembro de 2011

'Há diferença entre o autorizado pela ONU e o feito pela Otan'

'Há diferença entre o autorizado pela ONU e o feito pela Otan'

Ex-relator da ONU para direitos humanos, Richard Falk vê um precedente perigoso no uso de resolução para mudar regime

Professor de Princeton diz ser "inaceitável" que Tribunal Penal Internacional indicie apenas um dos lados
MARINA MESQUITA 
DE SÃO PAULO

"Não é um precedente muito proveitoso permitir que, por meio de um mandato insuficiente, se intervenha da forma como se interveio." 
Esse é o diagnóstico de Richard Falk, 81, professor emérito da Universidade de Princeton e ex-relator da Organização das Nações Unidas para os direitos humanos, sobre a ação militar da Otan (aliança militar atlântica) na Líbia. 
"Houve uma lacuna entre o que foi autorizado [pelo Conselho de Segurança] e o que foi realmente feito", disse Falk àFolha, em entrevista por telefone. 
 

Folha - Como o senhor vê a afirmação de que o humanitarismo é o "ismo" do século 21? 
Richard Falk -
 É uma distorção da realidade. As ponderações humanitárias são utilizadas pelos países interventores e organizações internacionais para justificar o uso da força. Mas, geralmente, as motivações principais são poder e interesse. O humanitarismo é um fator marginal da forma como as relações internacionais são conduzidas. Países que têm muito petróleo são mais suscetíveis à intervenção.
Como avalia a aplicação das Convenções de Genebra às "novas guerras"? 
É difícil estabelecer a aplicação dessas convenções -que regem o direito internacional humanitário e são base da aplicação do direito internacional penal- quando um dos combatentes não é um ente estatal, não usa uniforme adequado e não respeita a ideia de proteger civis. A aplicação das Convenções de Genebra às novas guerras é complexa, pois cada conflito tem suas características.
No caso da Líbia? 
As convenções devem orientar tanto a conduta da Otan, como a do regime de Muammar Gaddafi e a dos rebeldes. De acordo com as informações que temos, todos são suscetíveis a serem acusados de crimes de guerra. 
A Otan bombardeou civis; Gaddafi usou armamentos contra sua própria população, cometeu um crime contra a humanidade, e os rebeldes também são acusados de ter violado as leis de guerra.
Por que foi emitida ordem de prisão apenas contra Gaddafi? 
É inaceitável que o TPI tenha indiciado o inimigo no meio de uma guerra que é conduzida pela Otan. 
Para mim, essa iniciativa é um julgamento político. Na Guerra de Kosovo, [Slobodan] Milosevic também foi indiciado enquanto a Otan bombardeava. Tenho a impressão de que os indiciamentos são a favor do Ocidente e as violações cometidas pela Otan não são submetidas ao mesmo rigor. Isso prejudica a legitimidade do TPI. É preciso haver igualdade de tratamento.
A intervenção na Líbia respeitou os limites da Resolução 1973 do Conselho de Segurança da ONU? 
A resolução pretendia proteger os civis líbios. No entanto, o objetivo da Otan foi equilibrar uma guerra civil e concretizar uma mudança no regime. Houve uma lacuna entre o que foi autorizado e o que foi feito. 
Quando países como Rússia e Brasil se abstiveram na votação, estavam apenas demonstrando suas dúvidas sobre o limite da resolução. 
É provável que a Rússia e a China, se soubessem o que estava sendo planejado, teriam usado seu poder de veto.
Mas parece ter chegado ao fim uma ditadura. Neste caso, os fins não justificam os meios?
Do ponto de vista legal, acabar com um regime ditatorial contrariando o direito internacional é prejudicial. Não é um precedente muito proveitoso permitir que, por meio de um mandato insuficiente, se intervenha da forma como se interveio sob a justificativa de evitar o que se disse ser um massacre iminente em Benghazi. 
Mas se o país não for transformado para favorecer as companhias de petróleo e as empresas europeias, pode ser um exemplo.
Há chances de que a Líbia se torne um Estado falido [sem autoridade central]?
Sim. O futuro da Líbia é tão incerto que é muito possível que o CNT [Conselho Nacional de Transição] não consiga o controle e a coesão política.


sábado, 27 de agosto de 2011

A História do Iraque se repetirá na Líbia?


Condenados sempre a travar a guerra passada, voltamos a cometer o mesmo velho pecado na Líbia. Muammar Kadafi desaparece logo depois de prometer lutar até a morte? Não é a mesma coisa que fez Saddam Hussein? Quando Hussein desapareceu e as tropas estadunidenses sofreram suas primeiras baixas ante à insurgência iraquiana, em 2003, foi nos dito – pela boca do pró-cônsul estadunidense Paul Brenner, dos generais, dos diplomatas e dos decadentes especialistas da televisão – que os combatentes da resistência eram fanáticos, desesperados que não se davam conta de que a guerra havia terminado.

E se Kadafi e seu filho sabichão seguem em fuga – e se a violência não termina – quanto tempo vai levar para que outra vez nos apresentem aos desesperados que não entenderam que os rapazes de Bengasi estão no poder agora e que a guerra terminou? De fato, não menos do que 15 minutos – literalmente – depois de ter escrito as palavras acima (às 14 horas de quarta-feira), um repórter da Sky News reinventou a palavra “fanáticos” para definir os homens de Kadafi.

Inútil dizer que tudo é para o bem no melhor dos mundos possíveis, no que diz respeito ao Ocidente. Ninguém descarta o exército líbio e ninguém proscreve os kadafistas de um papel futuro no país. Ninguém cometerá os mesmos erros que cometemos no Iraque. E não há tropas em terra.

Nenhum zumbi encerrado em uma zona verde ocidental, cercada por muralhas, tenta dirigir o futuro da Líbia. “É assunto dos líbios” tornou-se o refrão de toda manifestação do Departamento de Estado/Escritório de Política Exterior/Quai d’Orsay. “Nós não temos nada a ver com isso”.

Mas, desde logo, a presença massiva de diplomatas ocidentais, representantes de magnatas do petróleo, mercenários ocidentais de altos salários e obscuros militares britânicos e francês – todos simulando ser conselheiros e não participantes – conforma a Zona Verde de Bengasi.

Pode ser que não estejam (ainda) rodeados de muralhas, mas o fato é que eles governam por meio dos distintos heróis e pilantras locais que se estabeleceram como senhores políticos. Podemos passar por cima do assassinato de seu próprio comandante – por alguma razão, ninguém menciona mais o nome de Abdul Fatá Yunes, apesar de ele ter sido liquidado há apenas um mês em Bengasi -, mas eles só podem sobreviver se permanecerem com o cordão umbilical preso ao Ocidente.

Esta guerra, é preciso dizer, não é a mesma que nossa perversa invasão do Iraque. A captura de Saddam só levou a resistência a multiplicar os ataques contra as forças ocidentais porque aqueles que, até então, se recusavam a participar da insurgência por medo de que os EUA voltassem a colocar Saddam no governo, perderam essas inibições. Na verdade, a prisão de Kadafi, junto com a de Saif, precipitaria sem dúvida o final da resistência dos seguidores do ditador. O verdadeiro temor do Ocidente neste momento – ainda que isso possa mudar à noite ou amanhã – é a possibilidade de que o autor do Livro Verde tenha conseguido chegar até Sirte, onde a lealdade tribal pode ser mais forte que o medo de uma força líbia respaldada pela OTAN.

Sirte – onde Kadafi, no início de sua ditadura, converteu os campos de petróleo da região no primeiro dividendo internacional para os investidores logo depois de sua revolução de 1969 – não é Tikrit. É a sede da primeira grande conferência da União Africana, a escassos 30 quilômetros da cidade natal de Kadafi: uma cidade e uma região que receberam enormes benefícios de seu governo de 41 anos. Strabo, o geógrafo grego, escreveu que os pontos dos assentamentos no deserto, ao sul de Sirte, converteram a Líbia em uma pele de leopardo. Kadafi deve ter gostado dessa metáfora.
Quase dois mil anos depois, Sirte era o ponto de união entre as colônias italianas de Tripolitania e Cirenaica.

Em Sirte os rebeldes foram derrotados pelas forças leais a Kadafi na guerra de seis meses travada este ano. Sem dúvida, teremos que mudar essas ridículas etiquetas: os que apoiam o pró-Ocidente Conselho Nacional de Transição terão que ser chamados de leais e os rebeldes partidários de Kadafi se tornarão os terroristas que poderão atacar a nossa amiga nova administração líbia. Seja como for, Sirte, cujos habitantes se supõe estejam negociando agora com os inimigos de Kadafi, poderia rapidamente aparecer entre as cidades mais interessantes da Líbia.

O que Kadafi deverá estar pensando agora? Acreditamos que está desesperado, mas, será que está mesmo? No passado, escolhemos muitos adjetivos para qualificá-lo: irascível, demente, perturbado, magnético, incansável, obstinado, estranho, estadista (Jack Straw descreveu-o assim), críptico, exótico, louco, idiossincrático e – em datas mais recentes – tirano, assassino e selvagem. Mas com sua visão enviesada e astuta do mundo líbio, Kadafi poderia sobreviver – para prosseguir um conflito civil-tribal e assim consumir os novos amigos líbios do Ocidente no pântano da guerra de guerrilhas – e debilitar pouco a pouco a credibilidade do novo poder do governo de transição.

A natureza imprevisível da guerra na Líbia implica que as palavras raramente sobrevivam ao momento em que são escritas. Talvez Kadafi esteja escondido em um túnel debaixo do hotel Rixos ou esteja relaxando em uma das casas de campo de Robert Mugabe. Duvido. Enquanto isso, a ninguém ocorre travar a guerra anterior a esta.

Tradução: Marco Aurélio Weissheimer

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Porto Rico

Porto Rico pode ter seu atual status modificado

Obama fará uma visita na semana que vem
NEWTON CARLOS
ESPECIAL PARA A FOLHA

No dia 14 de junho, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, fará uma visita a Porto Rico.
Desde 1961, a ilha no mar do Caribe não é visitada por um presidente americano no exercício do cargo.
Obama levará estudos que talvez possam dar a Porto Rico status que se sobreponha ao de colônia dos Estados Unidos, condição real que já dura 112 anos.
"É tempo de Porto Rico dar um novo passo à frente em sua história e em suas relações com o restante dos Estados Unidos", diz relatório preparado pela Casa Branca.
Seria um processo em duas etapas. Primeiro, em 2012, os porto-riquenhos diriam que tipo de "status" querem, entre tornar-se Estado americano, país independente ou manter-se como território associado aos EUA.
A opção vencedora disputaria novo plebiscito, em 2013, com a situação atual de estrutura colonialista.
Por parte de Obama, há interesses eleitorais. Os porto-riquenhos residentes na ilha não podem votar para presidente dos EUA, e seu único representante no Congresso tampouco tem direito a voto.
Mas os que vivem nos EUA têm cada vez mais peso eleitoral e influência.

São mais ou menos 4 milhões, sobretudo na Flórida. Já começam a rivalizar com os cubanos-americanos.

Notícia publicada na Folha de São Paulo, de 9 de junho de 2011. Destaques no texto do blogueiro.

terça-feira, 26 de abril de 2011

O Império Colonial Britânico e repressão no Quênia

Guerra suja

Em Londres, um caso em julgamento pelo tribunal de última instância continua a revelar detalhes chocantes da guerra muito suja dos britânicos contra o movimento insurgente Mau Mau, do Quênia -onde, nos anos 50, surgiu um levante muito violento contra o domínio britânico, alimentado, em parte, pela perda de terras aráveis por africanos em benefício de colonos europeus.
No Quênia, como na Palestina, na Malásia, em Áden [Iêmen] e em Chipre, os britânicos contra-atacaram com espantosa brutalidade.
O caso foi apresentado por quatro quenianos idosos que alegam ter sofrido abusos sexuais e sido chicoteados, espancados e castrados, quando prisioneiros dos britânicos. A defesa britânica não nega, mas diz que, quando da independência queniana, em 1963, a responsabilidade judicial pelo ocorrido foi transferida à nova República do Quênia.
Mas 1.500 arquivos removidos do país nove dias antes da sua independência foram localizados dois meses atrás em um depósito secreto da Secretaria do Exterior em Hanslope Park, na zona rural de Buckinghamshire, no Reino Unido.
Os documentos revelados ao tribunal demonstram de que maneira as autoridades britânicas encobriram o que estava acontecendo em campos de detenção que chegaram a ter 100 mil prisioneiros quenianos.
Três mil membros do movimento Mau Mau foram julgados por tribunais especiais, 1.574 foram condenados e 1.090, enforcados. "Se devemos pecar", escreveu Eric Griffiths-Jones, secretário da Justiça da administração colonial do Quênia, "precisamos fazê-lo discretamente".
Até 2010, a Secretaria do Exterior negava a existência desses arquivos. Mas um jovem funcionário de seu departamento africano, Edward Inglett, insistiu em visitar Hanslope Park com um advogado e procurar pelos documentos.
Três dias mais tarde, eles foram "localizados". Fizeram parte das provas apresentadas ao tribunal por David Anderson, professor de política africana na Universidade de Oxford e perito depondo em favor dos queixosos. Ele alegou que os documentos incluíam "descrições detalhadas dos métodos usados, entre os quais tortura física severa".
Nenhum funcionário britânico, civil ou militar, foi investigado ou processado em função disso. Em resposta, William Hague, o secretário do Exterior britânico, prometeu "completa transparência".
Os arquivos também cobrem 37 outros territórios colonizados pelo Reino Unido. Parentes das vítimas de um suposto massacre cometido por soldados britânicos na Malásia colonial requisitaram todos os documentos sobre o caso. Hague declarou em seu comunicado que "a lei não vale apenas em nosso território".


KENNETH MAXWELL escreve às quintas-feiras nesta coluna.

Tradução de PAULO MIGLIACCI

Texto publicado na Folha de São Paulo, de 14 de abril de 2011

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Urânio empobrecido, uma estranha forma de proteger os civis líbios

Urânio empobrecido, uma estranha forma de proteger os civis líbios

Nas primeiras 24 horas de bombardeios a Libia, os aliados gastaram 100 milhões de libras esterlinas em munição dotada de ponta de urânio empobrecido. Trata-se de um resíduo do processo de enriquecimento de urânio que é utilizado nas armas e reatores nucleares, sendo uma substância muito valorizada no exército por sua capacidade para atravessar veículos blindados e edifícios. Esse urânio empobrecido pode causar danos renais, câncer de pulmão, câncer ósseo, problemas de pele, transtornos neurocognitivos, danos genéticos em bebês e síndromes de imunodeficiência, entre outras doenças. O artigo é de David Wilson.

Stop the War Coalition

“Os mísseis que levam pontas dotadas de urânio empobrecido se ajustam à perfeição à descrição de uma bomba suja...Eu diria que é a arma perfeita para assassinar um monte de gente”.
Marion Falk, especialista em física e química (aposentada), Laboratório Lawrence Livermore, Califórnia (EUA).

Nas primeiras vinte e quatro horas do ataque contra a Líbia, os B-2 dos EUA lançaram 45 bombas de 2 mil libras de peso cada uma (um pouco menos de uma tonelada). Estas enormes bombas, junto com os mísseis de cruzeiro lançados desde aviões e navios britânicos e franceses, continham ogivas de urânio empobrecido.

O DU (urânio empobrecido, na sigla em inglês) é um resíduo do processo de enriquecimento de urânio que é utilizado nas armas e reatores nucleares. Trata-se de uma substância muito pesada, 1,7 vezes mais densa que o chumbo, muito valorizada no exército por sua capacidade para atravessar veículos blindados e edifícios. Quando uma arma que leva uma ponta de urânio empobrecido golpeia um objeto sólido, como uma parte de um tanque, penetra através dele e depois explode formando uma nuvem quente de vapor. Esse vapor se transforma em um pó que desce ao solo e que é não só venenoso, mas também radioativo.

Um míssil com urânio empobrecido quando impacta algo sólido queima a 10.000°C. Quando alcança um objetivo, 30% dele fragmentam-se em pequenos projéteis. Os 70% restantes se evaporam em três óxidos altamente tóxicos, incluído o óxido de urânio. Este pó negro permanece suspenso no ar, e dependendo do vento e das condições atmosféricas pode viajar a grandes distâncias. Se vocês pensam que Iraque e Líbia estão muito distantes, lembrem-se que a radiação de Chernobyl chegou até Gales.

É muito fácil inalar partículas de menos de 5 micra de diâmetro, que podem permanecer nos pulmões ou em outros órgãos durante anos. Esse urânio empobrecido inalado pode causar danos renais, câncer de pulmão, câncer ósseo, problemas de pele, transtornos neurocognitivos, danos genéticos, síndromes de imunodeficiência e estranhas enfermidades renais e intestinais. As mulheres grávidas expostas ao urânio empobrecido podem dar à luz a bebês com deformações genéticas. Uma vez que o pó se vaporiza, não cabe esperar que o problema desapareça. Como emissor de partículas alfa, o DU tem uma vida média de 4,5 milhões de anos.

No ataque da operação “choque e pavor” contra o Iraque foram lançadas, somente sobre Bagdá, 1.500 bombas e mísseis. Seymour Hersh afirmou que só o terceiro comando de aviação dos Marines dos EUA lançou mais de “quinhentas mil toneladas de munição”. E tudo isso carregava pontas de urânio empobrecido.

A Al Jazeera informou que as forças invasoras estadunidenses dispararam 200 toneladas de material radioativo contra edifícios, casas, ruas e jardins de Bagdá. Um jornalista do Christian Science Monitor levou um contador Geiger até zonas da cidade que sofreram uma dura chuva de artilharia das tropas dos EUA. Encontrou níveis de radiação entre 1.000 e 1.900 vezes acima do normal em zonas residenciais. Com uma população de 26 milhões de habitantes, isso significa que os EUA lançaram uma bomba de uma tonelada para cada 52 cidadãos iraquianos, ou seja, uns 20 quilos de explosivos por pessoa.

William Hague, Secretário de Estado de Assuntos Exteriores britânico, disse que estávamos indo a Líbia “para proteger os civis e as zonas habitadas por civis”. Vocês não têm que olhar muito longe para ver a quem e o que está se “protegendo”.

Nas primeiras 24 horas, os aliados gastaram 100 milhões de libras esterlinas em munição dotada de ponta de urânio empobrecido. Um informe sobre controle de armamento realizado na União Europeia afirmava que seus estados membros concederam, em 2009, licenças para a venda de armas e sistemas de armamento a Líbia no valor de 333.357 milhões de euros. A Inglaterra concedeu licenças às indústrias bélicas para a venda de armas a Líbia no valor de 24,7 milhões de euros e o coronel Kadafi pagou também para que a SAS (sigla em inglês do Serviço Especial Aéreo) para treinar sua 32ª Brigada.

Eu aposto que nos próximos 4,5 milhões de anos, William Hague não irá de férias ao Norte da África.

Tradução: Katarina Peixoto



quarta-feira, 6 de abril de 2011

Guerra na África é nova corrida imperialista, diz Fiori

Guerra na África é nova corrida imperialista, diz Fiori

ELEONORA DE LUCENA
DE SÃO PAULO

A guerra na Líbia faz parte de uma nova corrida imperialista que vai se aprofundar, diz José Luís Fiori, coordenador do programa de pós-graduação em economia política internacional da UFRJ. Para ele, potências disputam recursos estratégicos na África, mas os conflitos não têm a ver apenas com o petróleo. Nesta entrevista, Fiori fala também sobre o poder dos EUA, que ele enxerga vivendo uma crise se crescimento. A seguir a íntegra da entrevista.
Folha -Como o sr. analisa a guerra na Líbia?
*José Luís Fiori-" É evidente que não se trata de uma discussão sobre o direito a vida dos líbios, ou sobre os chamados direitos humanos, e menos ainda, sobre democracia. Nesta, como em todas as demais intervenções deste tipo, de europeus e dos EUA, feitas neste último século, jamais se esclarece a questão central de quem tem o direito de julgar e arbitrar a existência ou não de desrespeito aos direitos humanos em algum país em particular, e quem determina o lugar em que a "comunidade internacional" deve ou não intervir para defender vidas e direitos. Com relação a quem arbitra, são sempre os mesmos países que Samuel Huntington chamou de "diretório militar" do mundo, ou seja, EUA, Inglaterra e França. E, com relação aos critérios da arbitragem, é óbvio que este diretório jamais intervém contra um país, ou contra um governante aliado, por mais autoritário e anti-democrático que ele seja, e por mais que ele desrespeite os direitos defendidos pelos europeus e pelos norte-americanos. Independentemente do que se pense sobre o fundamento e a universalidade dos direitos humanos, não há a menor dúvida que, do ponto de vista das relações entre os Estados dentro do sistema mundial, eles sempre são esgrimidos e utilizados como instrumento de legitimação das decisões geopolíticas e geo-economicas das grandes potencias. Por isto, as decisões sobre este assunto nos foros internacionais são sempre políticas e instrumentais e variam segundo a vontade e segundo os interesses estratégicos destas grandes potências.
A guerra é sobre o petróleo?
O que está em jogo na Líbia não é apenas Petróleo. Nem tudo no mundo da geopolítica e da luta de poder entre as grandes e médias potências tem a ver com energia, ou mesmo, com economia. Neste caso, está em jogo o controle de uma região fronteiriça da Europa, parte importante do Império Romano, e território privilegiado do alterego civilizatório da "cristandade". Foi por onde começou o colonialismo europeu, no século 15 e depois, de novo, no século 19. Acho que já estamos assistindo uma nova corrida imperialista na África, e que não é impossível que se volte a cogitar de alguma forma renovada de colonialismo.
Como seria essa corrida imperialista? O que deve acontecer por lá? As revoltas árabes em curso terão algum impacto no poder dos Estados Unidos na região e no mundo?
Durante a década de 90, generalizou-se a convicção de que a África seria um continente inviável e marginal dentro do processo vitorioso da globalização econômica. Tratava-se de um continente que não interessaria às grandes potências nem às suas corporações e bancos privados. Mas a África não é tão simples nem homogênea, com seus 53 Estados, cinco grandes regiões e seus quase 800 milhões de habitantes. Um mosaico gigantesco e fragmentado de Estados, onde não existe um verdadeiro sistema estatal competitivo, nem tampouco se pode falar de uma economia regional integrada De fato, o atual sistema estatal africano foi criado pelas potências coloniais europeias e só se manteve integrado, até 1991, graças à guerra fria e à sua disputa bipolar. Depois da guerra fria e do fracasso da intervenção dos Estados Unidos na Somália, em 1993, os EUA redefiniram sua estratégia para o continente negro: propondo, como objetivo central, o crescimento econômico, através dos mercados, da globalização e da democracia. Mas de fato, a preocupação dos Estados Unidos com a África se restringiu até o fim do século 20, quase exclusivamente, à disputa das regiões petrolíferas e ao controle e repressão das forças islâmicas e dos grupos terroristas do Chifre da África. Mas deverá ocorrer uma mudança radical, nas próximas duas décadas, do comportamento norte-americano e dos europeus, graças à invasão econômica da China da Rússia, da Índia e, inclusive, do Brasil. A África será de novo um ponto central da nova corrida imperialista que já está em curso e que deverá se aprofundar ainda mais na próxima década Neste período, não é improvável, inclusive, que as velhas e novas potências do sistema mundial, envolvidas na disputa pelos recursos estratégicos da África, voltem a pensar na possibilidade de conquista e dominação colonial de alguns dos atuais países africanos que foram criados pelos próprios colonialistas europeus. E é nesta perspectiva que acho que deve refletir sobre a reação européia e norte-americana frente às revoltas árabes. E, em particular, no caso da intervenção militar na Líbia, comandada pela Otan e liderada pelos EUA, Inglaterra e França.
Os EUA estão ameaçados de perder poder no Oriente Médio?
Sempre existe o risco de perda do controle que já tinham conquistado na situação anterior à rebelião. Mas, neste caso, não vejo este risco. Pelo contrário, acho que são os mesmos de sempre que estão redistribuindo as cartas e manipulando as divisões internas dentro dos governos e dos envolvidos nas rebeliões. Quando houver risco real, reprimirão como fizeram no Bahrein. Sempre que possível através das mãos de terceiros.
Para o sr. não há perda da hegemonia norte-americana?
Os EUA estão enfrentando neste momento os problemas, contradições e incertezas produzidas pela sua mudança de status _ da condição de "potência hegemônica do mundo capitalista, até a década de 1980, para a condição de "potência imperial", assumida progressivamente depois de 1991. Poderia até se chamar de uma "crise de crescimento", e não uma "crise terminal". E o seu "declínio relativo", de que tanto se fala na imprensa, com relação à expansão asiática e à sua provável ultrapassagem econômica pela China ,não atingirá a posição dos EUA, como pivot do sistema mundial, nas próximas duas décadas, pelo menos.
Este novo estatuto imperial dos EUA deve fazer com que mudem sua forma de administrar o seu poder global. Esta mudança será lenta e complicada, dentro e fora dos EUA. Muitos analistas confundem a trepidação própria deste processo de mudança com uma "crise terminal" do poder americano no mundo. A partir de agora, e cada vez mais, os EUA deverão adotar uma posição mais distante e arbitral com relação às lutas de poder em todos os tabuleiros geopolíticos do mundo. Só intervindo em última instância e, de preferência, através das mãos de terceiros países. E deverão promover ativamente todo tipo de divisões internas, dentro e fora dos principais países dentro de cada um destes tabuleiros. Seguindo o modelo clássico da administração imperial da Grã-Bretanha, durante o século 19. Isso não acontecerá sem conflitos. Mas este será o jogo que estará sendo jogado nas próximas duas décadas: de um lado, os EUA atuando como cabeça de império, se distanciando, e só intervindo em última instância, e, do outro, as demais potências regionais tentando escapar do cerco americano, através de coalizões de poder que neutralizem o divisionismo estimulado pelos EUA.
Quais as diferenças em relação ao império britânico?
Trata-se de um sistema imperial muito mais complexo e instável do que foi o império britânico, porque ele é supra-nacional sem ser colonial. E envolve, potencialmente, 195 Estados e economias nacionais, que são ou se consideram soberanos. As fronteiras deste império não são fixas nem territoriais e podem ser redefinidas a cada momento pelo poder global militar e financeiro dos EUA. E, dentro deste sistema, a expansão contínua do poder e da riqueza americana promovem e fortalecem algumas novas potências emergentes que deverão competir com os EUA, nas próximas décadas, pelas hegemonias regionais do mundo. É importante sublinhar que este novo tipo de império não exclui a possibilidade de derrotas ou fracassos militares localizados dos EUA. Pelo contrário: é a própria expansão vitoriosa dos EUA - e não o seu declínio_ que vai promovendo os conflitos e as guerras. E, do ponto de vista estritamente militar, o essencial para o novo poder imperial americano é impedir que alguma potência regional ameace a sua supremacia naval em qualquer região do mundo. E, é óbvio, impedir que ocorra uma guerra hegemônica capaz de atingir a sua supremacia militar global.
Não há limites para este poder?
É óbvio que este novo poder imperial não é absoluto nem será eterno. Como já foi dito, sua expansão contínua cria e fortalece poderes concorrentes. E desestabiliza e destrói os equilíbrios e as instituições, criadas pelos próprios EUA, estimulando a formação de coalizões de poder regionais que acabarão desmembrando aos poucos o seu poder imperial, como aconteceu com o império romano. Por outro lado, a nova engenharia econômica mundial deslocou o centro da acumulação capitalista e transformou a China numa economia com poder de gravitação quase equivalente ao dos Estados Unidos. Esta nova geo-economia internacional intensifica a competição capitalista e já deu início à uma "corrida imperialista", cada vez intensa na África e na América do Sul, aumentando a possibilidade e o número dos conflitos localizados entre as grandes potências. Além disso, o poder imperial norte-americano deverá enfrentar uma perda de legitimidade crônica dentro dos EUA, porque a diversidade e a complexidade nacional, étnica e civilizatória do seu império é absolutamente incompatível com a defesa e a preservação de qualquer tipo ou sistema de valores universais, como pretendem os norte-americanos. Daí o aumento das divisões, cada vez mais profundas, dentro do establishment da política externa dos EUA, e também dentro da sociedade americana, com aumento da radicalização das posições e conflitos, como no caso do Tea Party, e das manifestações Madison, Wisconsin etc. De qualquer forma, é possível dizer, com relação ao futuro, que não existe nenhuma lei que defina a sucessão obrigatória e a data do fim da supremacia americana. Mas é absolutamente certo que a simples ultrapassagem econômica dos EUA não transformará automaticamente a China numa potência global nem, muito menos, no líder do sistema mundial. Além disso, é possível afirmar que terminou definitivamente o tempo dos pequenos países conquistadores. O futuro do sistema mundial envolverá, daqui para frente, uma espécie de guerra de posições permanente entre grandes países continentais, como é o caso pioneiro dos EUA, e agora é também o caso da China, Rússia, Índia e Brasil.
O sr. tem afirmado que a partir dos anos 1970, depois da consolidação do novo sistema monetário internacional "dólar flexível", os EUAs conquistaram um poder sem precedentes no capitalismo. Mas a crise financeira recente não expôs fragilidades desse sistema? Não há um declínio nessa hegemonia?
É verdade que depois da crise dos anos 70, a política monetária dos EUA, junto com a desregulação dos seus mercados financeiros, contribuíram decisivamente para o nascimento do novo sistema monetário internacional dólar-flexível, que já dura mais do que o sistema de Bretton Woods. E não há dúvida de que esse novo sistema transferiu para os Estados Unidos um poder monetário e financeiro sem precedente na história da economia mundial. Simplesmente porque, segundo as novas regras que não foram consagradas por nenhum tipo de acordo internacional, os EUA passaram a arbitrar simultaneamente o valor da sua moeda, que é nacional e internacional a um só tempo, junto com o valor dos seus títulos da dívida, que absorvem a poupança de todo o mundo e servem de âncora para o próprio sistema liderado pela moeda norte-americana. E finalmente, como consequência, os EUA podem redefinir, a cada momento, o valor das suas próprias dívidas, sem que seus credores possam reclamar sem sair perdendo. Nesse sistema, toda crise financeira da economia americana acaba afetando, em maior ou menor grau, a economia mundial, através da própria corrente financeira global do dólar flexível. Estas crises se repetirão mas elas não são necessariamente um sinal de fragilidade. Ás vezes, podem ser até um sinal de poder e o início de um novo ciclo expansivo. De qualquer maneira, estas crises não deverão alterar a hierarquia econômica internacional, enquanto o governo e os capitais americanos puderem repassar os seus custos, para as demais potências econômicas do sistema.
Aí, o conceito de hegemonia é extremante amplo e gelatinoso. Vai desde o exercício puro e simples da supremacia militar até a ideia de liderança econômica e moral dos povos. Acho que o poder global dos EUA, hoje, já não tem a ver com o sentido gramsciano de hegemonia. Trata-se de um poder imperial global, militar e financeiro. Ele inclui a possibilidade e a necessidade destas crises, que inclusive podem acabar resultando numa escalada ainda mais ampla de poder e riqueza _como aconteceu com os EUA, depois da crise dos anos 70 do século passado. Com exceção de um pequeno período de alguns poucos anos na década de 1990, nunca ninguém acreditou que o mundo fosse unipolar. Do meu ponto de vista, dentro do sistema inter-estatal em que vivemos, o conceito de multipolaridade é rebarbativo e tem pouco relevância do ponto de vista teórico. A despeito de que seja um termo útil no mundo diplomático.
O dinamismo da China não trará necessariamente consequências geopolíticas? Ela não deverá abandonar paulatinamente sua posição de fragilidade diplomática por uma ação mais enfática na diplomacia mundial? É possível enxergar a China como potência hegemônica mundial?
Hoje não há duvida que a grande novidade dentro do sistema mundial é a expansão econômica da China, e a sua disposição crescente de lutar pela hegemonia política e militar regional, na Ásia e no Pacífico Sul. Mas do ponto de vista geopolítico, o mais provável - nas próximas duas décadas pelo menos _ é que a China se restrinja à esta luta pela hegemonia regional, mantendo-se fiel à sua estratégia atual de não provocar nem aceitar nenhum tipo de confronto fora dessa sua zona de influência. Mas se a China seguir o caminho de todas as grandes potências do sistema inter-estatal capitalista, em algum momento futuro, terá que combinar a sua nova centralidade econômica mundial com algum tipo de projeção do seu poder político e militar para fora da sua própria região imediata. Mas há que ter em conta que a China tem uma posição geopolítica desfavorável, com um território interior amplo e cercado e uma fronteira marítima muito extensa, não contando ainda com um poder naval capaz de se impor ao controle norte-americano do Pacífico Sul. Sem poder naval, a China não irá muito longe. E tomarão muitos anos ainda para que a China venha a ter uma capacidade naval capaz de ameaçar o controle marítimo global da marinha norte-americana. O próprio Japão tem uma capacidade naval maior do que a China. E, com certeza, os EUA deverão incentivar o aumento do poder militar do Japão e da Coréia, com vistas a um equilíbrio de poder regional, que contenha a China dentro de sua própria região.
Como o sr. observa a posição europeia nesse jogo de poder?
Depois de 1991, aumentou o número de sócios da União Europeia e a extensão territorial coberta pela Otan. Mas a União Europeia está cada vez mais fraca, dividida e desorientada sobre como conduzir seus assuntos internos e sobre como se reinserir no novo sistema internacional, depois do fim da guerra fria e da reunificação da Alemanha. Está ficando cada vez mais claro qual a verdadeira causa desta perda de rumo: a União Europeia não dispõe de um poder central unificado e homogêneo, capaz de definir e impor objetivos e prioridades estratégicas, ao conjunto dos seus associados. Além disto, ela está cada vez mais dividida entre os diferentes projetos para a Europa: da França, Grã-Bretanha e Alemanha, que são seus Estados líderes e que têm entre si divergências estratégicas seculares. Divergências que ficaram adormecidas até o fim da Guerra Fria, mas que reapareceram depois com a reunificação da Alemanha e o ressurgimento da velha Rússia dentro do cenário geopolítico europeu. Com a sua reunificação, a Alemanha se transformou na maior potência demográfica e econômica do continente e passou a ter uma política externa mais autônoma, centrada nos seus próprios interesses nacionais. E, nesta linha, vem se envolvendo cada vez mais com a hegemonia da Europa Central. Ao mesmo tempo, vem estabelecendo laços cada vez mais extensos com a Rússia. Uma estratégia que recoloca a Alemanha no epicentro da luta pela hegemonia dentro de toda a Europa, ofusca o papel da França e desafia o americanismo da Grã Bretanha.
Nos próximos anos, não é impossível que Alemanha e Rússia busquem uma aproximação mais estreita, uma vez que a Rússia é a maior fornecedora de energia da Alemanha e de toda a Europa, além de ser a segunda maior potência atômica do mundo. E a Alemanha tem condições de fornecer à Rússia a tecnologia e os capitais de que necessita para recuperar o dinamismo econômico indispensável à uma grande potência. Esta aproximação afetará radicalmente o futuro da União Européia e de suas relações com os Estados Unidos. Não é improvável que traga de volta a competição geopolítica dos Estados europeus que foram os fundadores do atual sistema mundial.
E a atual crise econômica na Europa? O sr. acha que o euro sobreviverá?
A atual crise econômica européia não é apenas financeira nem se restringe à insolvência de alguns Estados de menor importância econômica dentro da comunidade. Do meu ponto de vista, se trata de uma crise monetária e de insolvência do próprio euro, uma moeda que é emitida por um Banco Central metafísico, que não pertence a nenhum Estado nem está associado a nenhum Tesouro Central. O novo sistema monetário europeu começou a ser construído com o Tratado de Maastricht, em 1992, e culminou com a criação do Euro, em 2002. Baseado na suposição dos dirigentes europeus de que esta nova moeda global conduziria à criação de um poder central capaz de geri-la. Mas até hoje o euro funcionou como uma espécie peculiar de moeda semi-privada e inconclusa, sendo aceita com base na crença privada e na certeza pública de que o BCE e a Alemanha cobririam todas as dívidas emitidas pelos 16 Estados membros da eurozona. Como ocorreu até 2008, permitindo que todos estes países praticassem taxas de juros quase iguais às da Alemanha, apesar da sua imensa desigualdade de poder e riqueza. Esta situação mudou depois do colapso financeiro de 2008, quando a primeira-ministra alemã, Ângela Merkel, estabeleceu o novo princípio de que cada país europeu teria que ser responsável, a partir daquele momento, pelos seus próprios bancos e pela cobertura de suas dividas soberanas. A consequência imediata da nova posição alemã foi a crise de insolvência de alguns governos da Europa Central, no ano de 2009, contornada pela intervenção do FMI. No início de 2010, entretanto, a denúncia do novo governo socialista da Grécia, de que o déficit orçamentário grego do ano anterior havia sido maior do que o publicado inicialmente, serviu como estopim de uma nova crise. Essa crise foi magnificada pelo veto alemão, durante seis meses, a qualquer tipo de ajuda comunitária ao governo grego. Até o momento em que a situação da Grécia ameaçou se estender a outros países endividados e acabou atingindo a própria credibilidade do euro. Isso obrigou a Alemanha a aceitar a aprovação apressada do Fundo Europeu de Estabilização Financeira, com capacidade anual de mobilização de até 750 bilhões de euros. Valor suficiente para contornar a crise imediata, mas incapaz de reverter a desmoralização do sistema monetário europeu, que foi criado em 2002, sob a tutela alemã. Para corrigir esta "falha de fabricação" do euro, a França propôs a criação de um governo econômico europeu, que não foi aceito pela Alemanha. O governo alemão, por sua vez, propõe, sem o apoio francês, a criação de um Fundo Monetário Europeu, para exercer o controle rigoroso da disciplina fiscal da eurozona, com o poder de expulsão dos faltosos. O impasse permanece, mas, assim mesmo, no curto prazo, se impôs a posição alemã, favorável a um ajuste fiscal draconiano de todos os países incorporados à zona do euro. Como o ajuste está sendo aplicado em economias que já estão estagnadas e com altas taxas de desemprego, é como colocar gasolina na fogueira e apostar numa profunda e prolongada recessão como fizeram os EUA no início da crise da década de 1930. Mas nada disto resolverá o problema da insolvência do euro, porque a moeda europeia só terá valor efetivo no momento em que for lastreada por um poder e por um tesouro central capazes de assumir a responsabilidade permanente pela sua sustentação, com base na sua capacidade de tributação e endividamento. Se isto não acontecer, e se os pequenos estados europeus não aceitarem a condição de províncias fiscais da Alemanha, o sistema monetário europeu e o próprio euro_ estão com seus dias contados.
Como o sr. avalia a aproximação entre EUA e Rússia?
Qualquer discussão sobre o futuro desta relação entre EUA e Rússia tem que partir do fato que os EUA seguirão sendo o pivot militar da Europa por muito tempo. Pelo menos enquanto mantiverem o controle das forças da Otan e dos arsenais atômicos da Alemanha, Itália, Bélgica, Holanda e Turquia. Neste sentido, a iniciativa ainda está nas mãos dos EUA. E os EUA têm pelo menos duas grandes alternativas estratégias possíveis com relação a como se conduzir com a Rússia. A primeira alternativa é manter a estratégia clássica, definida por Alfred Mackinder, no final do século 19. A mesma estratégia que foi seguida pela Grã-Bretanha, durante o século 19, e que foi mantida pelos EUA, depois do fim da Segunda Guerra Mundial: cercar e Rússia e impedir de todas as maneiras a sua aproximação da Alemanha. Esta foi de novo a opção dos EUA, depois do fim da guerra fria, com a incorporação militar da Europa Central à Otan e o estabelecimento de bases militares americanas nos territórios da Ásia Central, como forma de apoio às guerras do Iraque e do Afeganistão. Mas existe a possibilidade de uma segunda alternativa, mais inovadora e ousada, que poderia redesenhar o mapa geopolítico da Europa e do mundo, com efeitos imediatos sobre a geopolítica da Ásia Central e do Oriente Médio. Nesse caso, os EUA promoverão uma acordo de médio prazo de pacificação da fronteira russa, junto com uma acomodação negociada com o Irã, envolvendo o apoio da Rússia e a simpatia implícita da Alemanha. Sendo assim, a Rússia daria uma contribuição decisiva para a estabilização da Ásia Central e do Oriente Médio. Neste caso, através de uma negociação envolvendo o Irã e a Turquia, com vistas à construção de um novo equilíbrio de poder regional. Em troca disto, a Rússia teria o apoio norte-americano para retomar sua zona de influencia, e reconstruir sua hegemonia nos territórios perdidos depois da guerra fria. Desde que fosse sem o uso das armas, pelo caminho do mercado e das pressões diplomáticas, como lhes foi permitido e aconteceu com a Alemanha e o Japão, a partir da década de 1950. Esta aliança estratégica com a Rússia ajudaria a bloquear a expansão chinesa, e envolveria o apoio econômico americano ao desenvolvimento do capitalismo russo, com vistas à sua superação do seu viés atual, de natureza primário-exportadora. Mas não há que esquecer que Roosevelt tentou levar à frente uma estratégia parecida de incorporação da URSS, em 1945. Mas sua proposta foi atropelada pela sua morte e pela estratégia desenhada por Churchill e Truman, que levou à guerra fria. De novo, o projeto de Barack Obama pode revolucionar a geopolítica mundial, mas também pode ser atropelado pelas mudanças presidenciais que ocorrerão nos EUA e na Rússia, no ano de 2012. Mas, antes disso, o grande jogo de Barack Obama pode escapar-lhe ao controle, porque os EUA podem não conseguir conter ou controlar todas as forças sociais e políticas despertas, ou estimuladas, por esta gigantesca mudança geopolítica, dentro de cada um dos países envolvidos, na Ásia Central, no Oriente Médio e no Norte da África.
As crises capitalistas têm muitas vezes desaguado em guerras de grandes proporções. O sr. enxerga essa possibilidade?
Acho que devem multiplicar-se os conflitos localizados dentro do sistema mundial, envolvendo sempre os EUA, de uma forma ou outra. Mas não vejo no horizonte a possibilidade de uma grande guerra hegemônica do tipo das duas grandes guerras mundiais do século 20.
A América Latina poderá deixar sua condição tradicional de periferia exportadora para as grandes potências?
Na segunda década do século 21, depois de ultrapassados os efeitos imediatos da crise de 2008, o mais provável é que a América do Sul se mantenha na sua condição tradicional de periferia econômica exportadora. Mesmo quando se ampliem e diversifiquem seus mercados na direção da Ásia e da China. Para mudar essa rota, seria necessário uma decisão de Estado e uma capacidade coletiva de manter em pé o projeto integracionista, independentemente dos conflitos e divergências locais e das próprias mudanças futuras de governo. Além disso, seria preciso levar à frente a integração da infraestrutura física energética do continente e desenvolver cada vez mais o seu mercado interno, com a redução da sua dependência macroeconômica às flutuações dos mercados compradores e dos preços internacionais. Nesse ponto, não existe meio termo: os países dependentes da exportação de produtos primários, mesmo no caso do petróleo, serão sempre países periféricos, incapazes de comandar sua própria política econômica, e incapazes de comandar sua participação soberana na economia mundial. De qualquer maneira, o futuro da América do Sul será cada vez mais dependente das escolhas e decisões tomadas pelo Brasil. E o tempo urge porque se o Brasil seguir submetido aos desígnios dos mercados internacionais se transformará, inevitavelmente, numa economia exportadora de alta intensidade, de petróleo, alimentos e commodities, uma espécie de periferia de luxo das grandes potências compradoras do mundo. Como foram, no seu devido tempo, a Austrália e Argentina ou o Canadá, mesmo depois de industrializado. E se isto acontecer, o Brasil estará condenando o resto da América do Sul à sua condição histórica secular, de periferia primário-exportadora da economia mundial.
Como deverá evoluir a relação do Brasil com os EUA?
Hoje, o Brasil é o único país da América do Sul que tem capacidade e possibilidade de construir um caminho novo dentro do continente, combinando indústrias de alto valor agregado com a produção de alimentos e commodities de alta produtividade, sendo, ao mesmo tempo, auto-suficiente do ponto de vista energético. Entretanto, esta não é uma escolha puramente técnica ou econômica. Ela supõe uma decisão preliminar, de natureza política e estratégica, sobre os objetivos do Estado e da inserção internacional do Brasil. E, neste caso, existem duas alternativas para o Brasil: manter-se como sócio preferencial dos Estados Unidos na administração da sua hegemonia continental, ou lutar para aumentar sua capacidade de decisão estratégica autônoma, no campo da economia e da sua própria segurança, através de uma política hábil e determinada de complementaridade e competitividade crescente com os Estados Unidos, envolvendo também as demais potências do sistema mundial, no fortalecimento da sua relação de liderança e solidariedade com os países da América do Sul. Seja como for, é absolutamente certo que as escolhas brasileiras serão decisivas para o futuro da América do Sul.
Por outro lado, entre as chamadas potencias emergentes ou continentais, como a China, Índia e, talvez, Turquia, Irã e Indonésia, o Brasil é o país com maior potencial de expansão pacífica, dentro da sua própria região. Com a diferença essencial de que seu principal competidor na América do Sul são os próprios Estados Unidos. Mas, ao mesmo tempo, a expansão do Brasil, dentro e fora da América do Sul, contou até aqui com a vantagem de ser uma potência desarmada, porque de fato está situado na zona de proteção atômica incondicional dos Estados Unidos. Além disso, Brasil também usufruiu da condição de país ou nação formada dentro da mesma matriz cultural e civilizatória que os EUA. Mas chegará o momento em que o Brasil terá que tomar algumas decisões fundamentais com relação a estes dois pontos que favoreceram até aqui a expansão da sua influencia internacional. Em primeiro lugar, terá que definir o seu próprio projeto mundial e sua especificidade com relação aos valores, diagnósticos, e posições dos europeus e norte-americanos, com relação aos grandes temas e conflitos da agenda internacional. E, em seguida, o Brasil terá que decidir se aceita ou não a condição militar de aliado estratégico dos Estados Unidos, da Grã-Bretanha e da França, com direito de acesso à tecnologia de ponta como no caso da Turquia ou de Israel, por exemplo mas mantendo-se na zona de influência, proteção e decisão estratégica e militar dos Estados Unidos e de seus principais aliados europeus. Ou seja, o Brasil terá que decidir o seu lugar no mundo, a partir do seu pertencimento originário à tradição européia e cristã, que o distingue e distancia inevitavelmente, das outras tradições e potências continentais que deverão estar competindo com os Estados Unidos e entre si pela liderança mundial nas próximas décadas. E terá que decidir se quer ou não, ter algum dia a capacidade de sustentar suas posições fora da América do Sul com seu próprio poder militar.
Qual a importância do Mercosul?
O Brasil controla atualmente metade da população e do produto sul-americano, é hoje o player regional mais importante no tabuleiro geopolítico da América do Sul. Vem tendo uma presença cada vez mais afirmativa, mesmo na América Central e no Caribe. O Brasil aceitou o comando da missão de paz das Nações Unidas, no Haiti, tomou uma posição decidida a favor da reintegração de Cuba na comunidade americana e tem defendido, em todos os foros internacionais, o fim do bloqueio econômico à Cuba. Ao mesmo tempo, tem exercido uma razoável influência ideológica sobre alguns governos de esquerda da América Central e tomou uma posição rápida e dura frente ao golpe de Estado militar de Honduras, em junho de 2009, e na tensão com os Estados Unidos, com respeito à coordenação da ajuda ao Haiti, no terremoto de Porto Príncipe, no início de 2010. Mas apesar do seu maior ativismo diplomático, o Brasil ainda não tem possibilidade de competir ou questionar o poder americano, no seu mar interior caribenho. Na América do Sul, entretanto, o Brasil tem demonstrado, nestes últimos anos, vontade e decisão de defender seus interesses e o seu próprio projeto de segurança e de integração econômica do continente. Com a expansão do Mercosul, a criação da Unasul e do Conselho Sul-Americano de Defesa, o Brasil contribuiu para o engavetamento do projeto da Alca e reduziu a importância do Tratado Interamericano de Assistência Recíproca e da Junta Interamericana de Defesa, que contam com o aval dos Estados Unidos. Além disto, o Brasil teve uma participação ativa e pacificadora nos conflitos entre Equador e Colômbia e entre Colômbia e Venezuela. E fez uma intervenção discreta e eficiente para impedir que o conflito interno da Bolívia se transformasse numa guerra de secessão territorial na sua própria fronteira e bem no coração da América do Sul. Além disto, em 2009, o Brasil assinou um acordo estratégico militar com a França, que deverá alterar a relação do Brasil com os EUA e transformar o país, em alguns anos mais, na maior potência naval da América do Sul, com capacidade simultânea de construir submarinos convencionais e atômicos e de produzir os seus próprios caças bombardeiros. Essa decisão não caracteriza uma corrida armamentista entre o Brasil e seus vizinhos do continente nem, muito menos, com os EUA. Mas sinaliza uma mudança da posição internacional brasileira e uma decisão brasileira de aumentar sua capacidade político-militar de veto, dentro da América do Sul, com relação às posições norte-americanas..
Nos momentos de crise forte não faltam os que afirmam vislumbrar a "crise final do capitalismo". Immanuel Wallerstein, por exemplo, acha que "a civilização capitalista chegou ao outono de sua existência". Por que o sr. discorda dessa tese?
Acho que já expus meu ponto de vista nas respostas anteriores. Mas podemos voltar ao assunto de forma mais direta e clara. É verdade que na crise dos anos 70 do século passado falou-se muito de fim da hegemonia americana e, inclusive, em alguns casos, em crise estrutural ou final do próprio capitalismo. E, no entanto, hoje está claro que a crise dos anos 70 não enfraqueceu o poder americano. Muito pelo contrário, transformou-se no ponto de partida de uma escalada no processo de acumulação vitoriosa do poder e da riqueza dos EUA, em escala planetária. E, agora, de novo, neste início do século 21, voltou-se a falar de uma crise terminal do poder americano e do capitalismo. Mas não existem evidências convincentes de que este colapso esteja ocorrendo ou vá ocorrer nos próximos tempos. A crise hipotecária e financeira americana, de 2007/2008 não se transformou numa crise econômica global. E não é provável que ela possa repetir, a médio prazo, a crise da década de 1930 ou, mesmo, a da década de 1970. O fracasso político norte-americano no Iraque não diminuiu o poder militar dos Estados Unidos, que segue sendo muito superior ao de todas as demais potências juntas. A economia norte-americana segue sendo a mais poderosa do mundo e mantém sua capacidade de inovação. Os Estados Unidos seguem controlando cerca de 70% de toda a informação produzida e distribuída ao redor do mundo. A moeda internacional segue sendo o dólar. O déficit externo não ameaça os Estados Unidos neste novo padrão monetário internacional dólar-flexível. E os Estados Unidos não parecem estar sem os "os meios e a vontade de continuar conduzindo o sistema de Estados na direção que seja percebida como expandindo não apenas o seu poder, mas o poder coletivo dos grupos dominantes do sistema", como pensava Giovanni Arrighi. As dificuldades políticas e econômicas dos Estados Unidos, no final da primeira década do século 21, poderão se prolongar e aprofundar. Mas, do nosso ponto de vista, com certeza não se trata do fim do poder americano nem, muito menos, da economia capitalista.
De qualquer maneira, o problema de fundo de todas estas profecias terminais não está na sua leitura imediata da conjuntura internacional deste início do século 21. Seu ponto fraco está na confusão que fazem entre planos e tempos históricos diferentes. O historiador francês Fernand Braudel falava da existência de pelo menos três tempos históricos diferentes: o tempo breve, da vida política imediata, do tempo cíclico, da vida econômica, e da longa duração, das grandes estruturas históricas. Sem distinguir estes planos e estes tempos diferentes pode-se confundir, com facilidade, o fim de um ciclo normal da economia capitalista com uma crise estrutural ou terminal do próprio capitalismo. E pode se considerar catastrófico um declínio relativo de um país que tenha acumulado uma quantidade excepcional poder, após uma guerra vitoriosa, como foi o caso dos Estados Unidos, depois de 1945, e depois de 1991. A partir deste momento vitorioso, é inevitável que a potência ganhadora perca posições relativas dentro da hierarquia mundial do poder e da riqueza, na medida em que avança a reconstrução dos Estados e das demais economias que foram derrotadas ou foram destruídas pela guerra. Nestes períodos de recuperação, a velocidade da reconstrução física e militar e do crescimento econômico dos derrotados ou destruídos tende ser maior do que o da potência líder. O que não se percebe, muitas vezes, é que a reconstrução e aceleração do crescimento destes países é, ao mesmo tempo, indispensável, para a acumulação de poder e riqueza da potência que está em "declínio relativo". E que esta potência em declínio é indispensável para o ascenso relativo das outras potências que estão se aproximando ou ultrapassando a potência líder. Por isso, se pode falar de um "declínio relativo" do poder americano, com relação à China, como já se falou do declínio do poder econômico norte-americano, com relação ao Japão e à Alemanha, na década de 1970. Mas esse declínio relativo dos Estados Unidos não significa, necessariamente, um colapso do seu poder econômico e da sua supremacia mundial. De qualquer maneira, por trás da visão de Wallerstein, como da minha própria, existem teorias diferentes sobre a origem e a dinâmica do sistema mundial. Wallerstein e Arrighi vêem a história mundial como uma sucessão de ciclos hegemônicos ou de acumulação de capital. Enquanto eu vejo este mesmo sistema como um "universo" em expansão contínua. Onde todos os Estados que lutam pelo poder global, em particular as grandes potências, estão sempre criando, ao mesmo tempo, ordem e desordem, expansão e crise, paz e guerra, sem perder sua preeminência hierárquica dentro do sistema. A visão deles está mais próxima da biologia e dos seus ciclos vitais. Enquanto a minha está mais próxima da física termodinâmica e da teoria das estruturas dissipativas.
Qual sua avaliação da vista de Obama ao Brasil?
Teria sido uma visita irrelevante, quase um passeio de fim de semana da família Obama, se não tivesse sido usado para fazer uma demonstração imperial do poder americano. Ao encenar uma decisão de guerra, que já tinha sido tomada e que foi deixada para ser anunciada em território brasileiro, antes de um almoço festivo do Itamaraty. Deixando nosso país numa posição rebaixada e colocando nossos governantes na posição de pró-cônsules de uma província imperial, na hora em que faziam o ridículo de anunciar um novo "tratamento entre iguais". Faltou um mínimo de altivez aos nossos governantes e ex-governantes presentes na confraternização do Itamaraty. Para nem falar das autoridades cariocas que se comportaram como se fosse apenas tietes de auditório.
 


Origem: Folha.com .