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segunda-feira, 14 de abril de 2025

Morre Mario Vargas Llosa, que venceu o Prêmio Nobel de Literatura, aos 89 anos


Um dos últimos nomes representativos do chamado "boom latino-americano" da literatura, Mario Vargas Llosa morreu neste domingo, aos 89 anos, em Lima. A morte foi informada por seu filho, Álvaro Vargas Llosa, nas redes sociais, no fim da noite.

"Com profunda tristeza, tornamos público que nosso pai, Mario Vargas Llosa, morreu hoje em Lima, cercado por sua família e em paz. Sua partida entristecerá seus parentes, amigos e seus leitores ao redor do mundo, mas esperamos que você encontre conforto, como nós, no fato de que ele gozou de uma vida longa, múltipla e fecunda, e deixa um trabalho que sobreviverá", afirmou Álvaro, em nota assinada junto dos irmãos, Morgana e Gonzalo.

Ainda em nota, a família informou que não haverá velório ou sepultamento abertos ao público. "Nossa mãe, nossos filhos e nós mesmos confiamos que teremos o espaço e a privacidade que necessitamos para se despedir dele. Seus restos mortais, como era seu desejo, serão cremados."

Nascido em 1936, Vargas Llosa construiu uma obra imensa, que conquistou leitores pelo mundo todo. Em 2010, ele venceu o Prêmio Nobel de Literatura, não sem antes ter abocanhado o Princesa de Astúrias, o Cervantes e o PEN. Sua obra é marcada por uma combinação obstinada entre ficção e política, em contraposição à de Gabriel García Márquez, seu colega de geração, que abandonou o realismo para mergulhar no universo do maravilhoso.

Habilidoso com as palavras, Vargas Llosa cativa o leitor desde a primeira página de seus romances. Com uma enorme facilidade de mesclar ficção e elementos da realidade, ele pôde abordar questões políticas e sociais latentes e atuais de modo literário. Em suas páginas, estão as ditaduras, a corrupção política e os conflitos sociais de toda a América Latina.

Um de seus livros mais conhecidos é "A Festa do Bode", publicado em 2000, que retrata os anos de ditadura de Rafael Trujillo na República Dominicana. Nessa obra, Vargas Llosa habilmente entrelaça a história do ditador com a vida de personagens fictícios, inspirados nas histórias de suas vítimas que não sobreviveram para contar a história. Cria-se, no livro, um retrato vívido e perturbador da tirania e suas consequências.

Outro livro, que figurava entre seus preferidos particulares, é "A Guerra do Fim do Mundo", para onde o escritor voltou as atenções e criou uma obsessão pela revolta de Canudos, no Brasil.

Além de seu trabalho como romancista, Vargas Llosa foi um prolífico ensaísta e jornalista, usando sua voz para expressar opiniões sobre diversos assuntos. Ficou conhecido por sua defesa da liberdade de expressão e dos direitos humanos e se envolveu ativamente em campanhas políticas. Meteu-se, em vários países da região, em debates locais, ao defender a eleição de um ou de outro candidato a presidente no Brasil, na Argentina e no Chile.

Curiosamente, em contraposição a suas ideias políticas nos últimos anos, mais à direita, Vargas Llosa começou a atuar na literatura e na política ao lado da Revolução Cubana. Era um aliado do castrismo até o caso de Herberto Padilla, um poeta e escritor cubano que, em 1971, começou a fazer críticas à revolução. Preso, o autor ensejou que vários intelectuais e escritores se mobilizassem por ele, inclusive Jean-Paul Sartre e Simone de Beauviour.

Vargas Llosa também foi um deles. A partir da desilusão causada por esse episódio, o peruano começou a se afastar da esquerda. Nas décadas seguintes, o escritor se viu muito envolvido na política de seu instável país, o Peru, a partir de então sempre se posicionando contra soluções consideradas populistas. Foi candidato à presidência em 1990 contra quem viria a se tornar o ditador do país, Alberto Fujimori, mas acabou perdendo a eleição.

Em 2010, Vargas Llosa recebeu o Prêmio Nobel de Literatura, em reconhecimento à sua contribuição excepcional para a literatura mundial. Esse prestigioso prêmio solidificou ainda mais sua posição como um dos grandes escritores contemporâneos e trouxe maior visibilidade para as suas obras. O estilo de escrita de Vargas Llosa é caracterizado por uma prosa elegante, rica em detalhes e profundamente reflexiva. Seus personagens são, em sua maioria, complexos e realistas.

Embora muitos de seus livros se passem no Peru, como "La Ciudad y Los Perros", "La Casa Verde" e "Conversación en La Catedral", a influência de Vargas Llosa transcende de forma ampla as fronteiras de seu país natal.

O impacto literário de Vargas Llosa alcança leitores em todo o mundo. Uma das disputas literárias mais conhecidas e significativas do século 20, aliás, foi a briga entre ele e García Márquez. A amizade desses dois renomados escritores teve início na década de 1960, quando faziam parte do chamado "boom latino americano". No entanto, a relação deu uma reviravolta dramática nos anos 1970, por causa de um conflito pessoal e político.

O imbróglio foi multifacetado, enraizado tanto em diferenças artísticas quanto em desacordos políticos. Seus estilos de escrita e abordagens narrativas contrastantes se tornaram fonte de contenda, com Vargas Llosa favorecendo uma abordagem mais analítica e estruturada, enquanto García Márquez abraçava o realismo mágico e um estilo que era mais lírico e expansivo.

No entanto, a disputa entre os dois autores foi além das diferenças literárias. Suas posições políticas opostas também contribuíram para a tensão em seu relacionamento. Vargas Llosa inclinava-se para a ideologia liberal, defendendo a democracia e os mercados livres, enquanto García Márquez mantinha uma afinidade maior com a política de esquerda e os princípios socialistas.

O clímax da disputa ocorreu quando eles se envolveram em uma briga física num encontro público. A razão teria sido um desentendimento por conta da mulher do peruano, Patricia Llosa, que havia sido namorada de Gabo anteriormente. Terminou com Gabo levando uma bofetada de Vargas Llosa em um cinema, diante de todos. Esse evento marcou o fim definitivo da amizade e deixou um impacto duradouro no mundo literário.

Em uma entrevista à Folha, ao ser questionado sobre a relação entre ambos, Vargas Llosa disse que jamais voltaria a falar de Gabo no plano pessoal, mas que seguiria elogiando a magnitude de suas obras. Isso seguiu fazendo depois da morte do colombiano.

A vida amorosa de Vargas Llosa foi outro elemento tão vibrante e dinâmico quanto sua carreira literária. Ao longo da vida, ele se envolveu em diversos relacionamentos românticos, alguns dos quais receberam grande atenção pública, como o affair com Isabel Preysler. Notavelmente, na década de 1950, ele se casou com sua primeira mulher, Julia Urquidi, com quem teve dois filhos. No entanto, o casamento deles terminou em divórcio, e Vargas Llosa teve outros relacionamentos.

Um dos casos de amor mais notáveis foi com sua prima por casamento, Patricia Llosa, com quem ele posteriormente se casou. O relacionamento levantou sobrancelhas e atraiu escrutínio público devido à sua natureza não convencional. Apesar das controvérsias em torno da união, Mario Vargas Llosa e Patricia Llosa permaneceram juntos e compartilharam uma vida repleta de interesses intelectuais em comum e apoio mútuo. O escritor, no entanto, se separou de Patricia há uma década e morreu solteiro. Ele deixa os seus três filhos.


Reprodução de texto se Sylvia Colombo na Folha de São Paulo.

segunda-feira, 17 de junho de 2024

Como uma empresa dos EUA moldou imagem pejorativa da América Latina


Houve um tempo em que a United Fruit Company decidia quem morria e quem vivia nas duras vidas que seus trabalhadores enfrentavam nas plantações de frutas na América Latina. Horários de trabalho desregulados, jornadas extenuantes, condições insalubres. Um tempo em que juízes e políticos eram comprados para defender os interesses da empresa em vários países.

A UFC punha e tirava caudilhos do comando dos países cujos mercados queria dominar. Quando havia revoltas de trabalhadores, a empresa intervinha ao lado dos governos para que suas forças de segurança contivessem, muitas vezes com violência, os protestos por melhores salários e condições de vida.

Assim era a United Fruit Company, uma empresa americana criada em 1899 que moldou uma imagem pejorativa da América Latina para o planeta nos séculos 19 e 20.

Essa mesma imagem se manifesta até hoje no imaginário que o mundo tem sobre a região. Dela dependeram gerações de trabalhadores. E a ela se pode atribuir uma dura herança deixada por essas terras: a de que somos uma região de mão de obra barata, quase escrava, destinada a produzir complementos à economia mundial e exposta a uma intempérie política constante.

Foi por causa da UFC que os países do sul das Américas ficaram conhecidos com a infeliz expressão depreciativa "repúblicas das bananas", sinônimo de imaturidade política, corrupção e pobreza.

Nesta semana, uma notícia alentadora veio à tona. Um júri da Flórida decidiu que a Chiquita Brands (nome atual da UFC) é responsável por oito assassinatos cometidos por um grupo paramilitar de direita que a empresa ajudou a financiar em uma região fértil de cultivo de bananas entre 1997 e 2004. Isso mesmo, para defender terrenos de cultivo, a empresa deu dinheiro para as Autodefesas Unidas da Colômbia (AUC), um grupo conhecido por terríveis massacres no interior do país.

A literatura da região tem sido um território fértil para a reflexão sobre os aspectos negativos que a United Fruit Company deixou em nossas culturas. Nada menos que quatro prêmios Nobel se dedicaram a chamar a atenção para as consequências de suas ações nos países latino-americanos.

No celebrado "Cem Anos de Solidão", Gabriel García Márquez romanceou a terrível repressão da empresa em La Ciénaga, em 1928, ocorrida quando ele tinha apenas um ano, mas cuja história amedrontava sua geração.

Em "Tempos Ásperos", o peruano Mario Vargas Llosa mostra como a UFC, aliada aos EUA —e por sua vez auxiliados pela ditadura do sangrento ditador dominicano Rafael Trujillo—, derrubaram o governo progressista de Jacobo Árbenz, em 1954.

Outros dois Nobel tratariam do tema. O guatemalteco Miguel Ángel Asturias, em sua "Trilogia Bananera", integrada pelas obras "Viento Fuerte", "El Papa Verde" e "Los Ojos de Los Enterrados", e o chileno Pablo Neruda, em "Calero, Trabajador del Banano".

Outras penas se dedicaram a expor os avanços da UFC na vida econômica e social das Américas. A do costa-riquenho Carlos Luis Fallas ("Mamita Yunai" e "Limón Blues"), a do mexicano Francisco Martín Moreno ("Las Cicatrices del Viento"), a do colombiano Álvaro Cepeda Samudio ("A Casa Grande") e a do hondurenho Ramón Amaya Amador ("Prisión Verde").

A leitura dessas obras traz a reflexão: a América Latina seria diferente se não tivesse passado tanto tempo sob a influência de uma empresa bananeira de tamanho poderio?


Reprodução de texto de Sylvia Colombo na Folha de São PauloFolha de São Paulo

terça-feira, 20 de fevereiro de 2024

Hipócritas gentis infantilizam minorias porque elas são um bom negócio


Guerras culturais são sempre um bom negócio. Amadores discordam. São questões de vida ou morte, dizem eles, defendendo ou atacando pronomes neutros.

Os profissionais riem. Um deles, meu colega, explicou-me anos atrás que deixara temas clássicos —Espinosa e Leibniz— para se dedicar a temas de "interseccionalidade". No ranking das publicações, subiu ao pódio. Caso contrário, ainda estaria comendo pó.

É o mercado, estúpido! E o que é válido para a academia é válido para qualquer ramo de atividade. Se você pensa que a multinacional "X" ou "Y" tem convicções profundas quando abraça os temas "woke", você precisa fazer um exame neurológico. Sério.

É por isso que "American Fiction", o filme indicado ao Oscar, vem na altura certa. Suspeito que várias cabeças vão explodir quando assistirem à obra. Muitas explodiram quando leram o livro.

Mas, antes, uma confissão: sempre que alguém filma um romance de que gosto muito, eu tremo um bocadinho. Raramente me engano. Basta pensar no vandalismo a que foram submetidos todos os livros de Philip Roth pelo cinema.

Felizmente, isso não acontece com "American Fiction". O livro que inspirou o filme —"Erasure", de Percival Everett— está no top dez dos melhores romances americanos do século 21. O filme, pelo menos, não estraga. Para mim, basta.

No centro da história —atenção, spoilers— está Thelonious Ellison, que todos tratam por Monk, em homenagem ao grande pianista de jazz. Thelonious é um professor universitário e escritor. Também é negro, mas isso é secundário, pensa ele.

Pensa mal. Nas livrarias, os seus livros estão sempre na seção de estudos afro-americanos. Furioso, ele faz questão de os remover dessas estantes para os devolver, sem rótulos, à de ficção americana. Chega de segregação.

Além disso, o seu agente não consegue vender para nenhuma editora o mais recente romance de Ellison. Demasiado erudito. Escrito em inglês perfeito. Quem ele julga que é?

Um escritor branco?

As editoras, devidamente chefiadas por brancos, não admitem que um negro escreva livros sem os clichês do gueto. Querem linguagem chula, querem crack, querem rappers. Querem pobreza, querem polícia, querem mortes. Como diz o agente porto-riquenho, "querem se sentir absolvidos".

Ellison despreza esse fascínio mórbido dos brancos. É uma nova forma de exploração que persiste em reduzir os negros a uma caricatura tão insultuosa como as caricaturas dos tempos das leis de Jim Crow.

"Eu nem acredito em raça", diz ele. "O problema é que todos acreditam", responde o agente.

Thelonious medita nessas últimas palavras. E, só por piada, escreve o tipo de livro que faz sucesso entre os "racistas do bem". Sob pseudônimo, claro, porque o homem tem uma reputação a preservar.

Bingo! Uma grande editora faz uma proposta milionária para comprar os direitos. A piada virou coisa séria. O que fazer?

O agente, numa das melhores sequências do filme, põe três garrafas de uísque Johnnie Walker sobre a mesa. E explica: existe Johnnie Walker Red, Johnnie Walker Black e Johnnie Walker Blue.

Ele, Thelonious, será sempre um Johnnie Walker Blue, o melhor, o mais caro.

Mas as massas, para matarem a sede, compram Johnnie Walker Red, mais barato. Que mal tem ser um Johnnie Walker Red de vez em quando?

O livro é publicado com o belíssimo título de "Fuck". Bestseller imediato. Hollywood vem a seguir.

"American Fiction", tal como o romance de Percival Everett, é uma sátira primorosa ao paternalismo dos brancos. Conheço casos: hipócritas gentis que infantilizam as minorias porque são um bom negócio.

Que as supostas minorias tenham vidas normais, com alegrias normais, angústias normais ou amores normais, eis um pormenor demasiado burguês para quem prefere ver o mundo transformado em jardim zoológico. Cada um na sua jaula. Que pensarão as minorias disso?

Não posso falar por elas. Mas posso falar por Thelonious "Monk" Ellison, que supera a sua justa indignação e decide lucrar com a estupidez dos brancos. O cliente tem sempre razão, no fim das contas.

E, mesmo quando não tem, é ele quem paga as contas.


Texto de João Pereira Coutinho na Folha de São Paulo

terça-feira, 19 de outubro de 2021

'Luxúria', romance de estreia de Raven Leilani, é o melhor livro que li este ano


Poucas coisas me emocionam mais do que a incongruência demasiadamente humana de personagens que abusam de acidez e cinismo para pedir afeto e acolhimento. A brilhante Edie, uma jovem negra, pobre e cheia de metáforas mordazes, pensa demais sobre tudo e, sobretudo, em sexo —ainda que o ato, boa parte em parceria com homens idiotas e evasivos, lhe sirva apenas para sentir que alguém toca seu corpo.

Na mesma intensidade com a qual exibe seu potencial garotinha explicitada: “os homens perdem o interesse por mim quando abro a boca. No começo tudo sempre vai bem, depois eu falo da minha torção ovariana ou do valor do meu aluguel de um jeito explícito demais”, Edie desconstrói os clássicos tipinhos urbanos vigentes: “a dona do meu apartamento, que tem vinte e três anos, é uma influencer safada de chá detox seca-barriga no Instagram e herdou o prédio do avô”.

“Luxúria” é um livro sobre a falta de prazer, o que torna seu título ainda mais atraente. A protagonista transou, no passado, com muitos colegas do trabalho, mas nada disso foi para a frente ou lhe trouxe alguma satisfação real. Por conta da negligência e do desamparo na infância e de uma sociedade altamente deficitária e preconceituosa, ela aprendeu a gozar ao ser maltratada e abandonada, mas o vazio e a dor desse vício sobressaem a qualquer narrativa de fetiche.

No presente, Edie narra seu encantamento por Erick, um homem branco de meia-idade que conheceu na internet e que vive um relacionamento aberto com a esposa (com quem ele já até comprou “um túmulo lado a lado”). Contudo, após vários “primeiros encontros” pouco eróticos com o sujeito travado, a jovem se vê obrigada a recorrer a horas infinitas de masturbação.

A única coisa que poderia lhe trazer algum deleite ou mesmo propósito de vida é a pintura, mas ela não consegue se enxergar como artista (tenta se ver compulsivamente em autorretratos), tampouco ser reconhecida assim pelos outros: “com meio grau de diferença eu poderia ter tudo o que eu quero. Sou boa, mas não boa o bastante, e isso é pior do que ser ruim. É quase”.

A ironia do título também pode ser apreciada no quartinho em que a protagonista dorme antes de ser despejada: infestado de baratas e ratos. E também no ambiente moderninho e entojado da editora na qual trabalha até ser demitida: com pessoas que sempre deixam bem claro que ela está ali por uma questão de cota, mas isso não significa que ela será chamada para almoçar com eles.

Um dia, cansada de ter suas mensagens ignoradas por Erick, resolve aparecer na casa dele. Se vê então em meio a uma festa, ajudando Rebecca, a esposa, a levar um bolo até a mesa. A proximidade curiosa com a mulher, a obsessão amorosa, a situação financeira, a solidão atroz (não consegue estabelecer vínculo nem com outras garotas negras) e o horror de seguir ralando em subempregos, acabam fazendo com que Edie tope morar com o casal, um convite que parte somente de Rebecca, “uma mulher disposta a resolver problemas a qualquer custo, tão competente que qualquer fracasso ao seu redor se torna dela”. Quando ela conhece Akila, a filha adotiva de pais inaptos e que cresce sem nenhuma referência de pessoas negras no bairro ou na escola, fica mais claro o motivo da sua presença por ali.

Órfã de uma mãe viciada que cometeu suicídio (“Talvez as mulheres da minha família não devessem ser mães [...]. Elas estavam morrendo por dentro do próprio corpo, e agora todas essas partes mortas são a minha herança [...]”) e de um pai cujo falecimento ela descobriu pelas redes sociais, é comovente ver o modo como se desenvolve a relação entre Edie e as mulheres da nova e improvável família.

Bem, até aqui eu tentei resumir a excepcional história criada no romance de estreia desse fenômeno chamado Raven Leilani (eleito um dos melhores do ano pelo “New York Times” e pelo “The Guardian”), mas faltou dizer o mais importante: prepare a sua canetinha para grifar uma infinidade de frases definitivas sobre racismo, sobre ser mulher, ser jovem, sobre tesão, amor, angústia, solidão, engano, fragilidade e muita coragem. 


Texto de Tati Bernardi, na Folha de São Paulo

Quem é Mahmud Darwich, poeta palestino que ganha destaque agora no Brasil


O narrador quer passar um café, mas a manhã chegou queimando com uma febre de metal. Do lado de fora, escreve, o ferro uiva enquanto Israel bombardeia Beirute. A cidade vive um inferno, naquele dia de agosto de 1982, um dos ápices da guerra civil libanesa. Ele quer passar um café.

A abertura de “Memória para o Esquecimento” impacta o leitor já nas primeiras páginas. Serve de lembrete da força do autor, Mahmud Darwich, um mestre nessa fusão entre rotina e política.

No mundo de fala árabe, Darwich dispensa introduções. Ele é o autor palestino de maior renome —e um dos símbolos de sua causa nacional. Darwich, porém, é ainda bastante desconhecido no Brasil. Em parte, porque até recentemente não havia uma tradução sistemática dele para o português.

O cenário está mudando depressa desde que a recém-fundada editora Tabla assumiu a missão de introduzir Darwich no país. No ano passado, essa casa lançou “Da Presença da Ausência”, com tradução de Marco Calil. Veio no ano seguinte “Onze Astros”, vertido por Michel Sleiman.

“Memória para o Esquecimento”, traduzido por Safa Jubran, é a terceira obra de Darwich a chegar ao Brasil num período de pouco mais de um ano. A Tabla tem planos de ir adiante, com outros volumes que ainda não foram anunciados. “O que a gente tem pelo Darwich é um fervor”, diz a editora Laura di Pietro “Ele não é um poeta de quem a gente quer fazer só um livro.”

Darwich nasceu na vila palestina Al-Birwa em 1941. Testemunhou, em 1948, a criação do Estado de Israel e a expulsão de centenas de milhares de palestinos. Por seu ativismo na Organização para a Libertação da Palestina, acabou associado à causa palestina. Morreu em 2008.

Seus poemas, como “Carteira de Identidade”, ainda tocam fundo na região. O texto repete, como um refrão, a frase “anote aí, sou um árabe”. No passado, políticos israelenses protestaram contra esses versos.

“Memória para o Esquecimento”, que acabou de sair no Brasil, narra um único dia de 1982 sob os bombardeios israelenses em Beirute, algo que Darwich viveu durante o exílio. Àquela época, Israel cercava a capital libanesa como maneira de pressionar a Organização para a Libertação da Palestina, ali presente.

O drama de passar o café em tal contexto é um exemplo do valor do prosaico na obra de Darwich. “Essa narrativa mostra que continuar com a rotina do cotidiano é um ato de resistência”, diz Jubran, professora da Universidade de São Paulo . Veterana das letras árabes, ela assina há anos algumas das principais traduções daquela língua para o português. O café aparece em outros textos de Darwich, como no poema “Para Minha Mãe”, em que ele descreve a saudade do bule materno.

Jubran afirma que “Memória para o Esquecimento” é o texto em prosa mais maduro de Darwich. É uma narrativa ímpar do cerco e dos ataques israelenses, afirma, costurada com textos bíblicos, crônicas medievais e a saga do povo palestino. O texto pode não estar em versos, mas “exala poesia”.

Outro elemento que chama a atenção, no livro, é como Darwich consegue costurar sua memória individual com aquela do coletivo palestino —um dos papéis da literatura. “Ele faz isso de maneira inédita e magistral”, Jubran afirma. “A meu ver, é um livro que mereceria um curso.”

Foi exatamente em um curso de Jubran, aliás, que Darwich cativou Calil. O tradutor de “Da Presença da Ausência” ouviu essa professora declamar em sala de aula o poema “Serás Esquecido”. “Aquilo me tomou por completo”, diz. Tomado, ele começou a traduzir o palestino. Enquanto Jubran é uma veterana, Calil é um novato. Mas, com 26 anos, esse jovem já desponta como uma das promessas de sua geração —e com um trabalho marcado por evidente erudição.

Calil parece ter menos interesse nas questões políticas e identitárias e mais nos temas históricos e literários. Fala sobre a não filosofia de Darwich, sobre como ele não resvala no que chama de “formas fracas do realismo”. “Vejo uma tensão entre o Darwich ativista e o transcendental”, afirma.

Essa tensão é importante. Há tempos, críticos reclamam de como autores de zonas marginais do mundo são reduzidos a representantes de seus povos. Até pouco tempo atrás o próprio Darwich costumava aparecer como uma voz fundamentalmente palestina, agrilhoada à causa nacional—enquanto escritores europeus são tidos como vozes universais que falam sobre a humanidade.

Na tradução de Calil, não é a identidade ou a política que se destacam —mas a língua. Ele captura de maneira excepcional as particularidades do árabe. Essa língua semítica existe em dois registros. Há o árabe formal, escrito, como o utilizado por Darwich. Há também o árabe oral, do cotidiano. É uma situação difícil de traduzir, porque o português não vive essa dualidade. A situação mais parecida é a do latim, que por algum tempo conviveu com as línguas latinas.

“No árabe, temos essa mordaça e, ao mesmo tempo, um estilhaçamento dos jeitos de dizer", diz. "Por isso, quis encontrar um português que pudesse exprimir essa remoção do tempo e da própria língua.”

MEMÓRIA PARA O ESQUECIMENTO

  • Preço R$ 63 (216 págs.)
  • Autor Mahmud Darwich
  • Editora Tabla
  • Tradução Safa Jubran


Texto de Diogo Bercito, na Folha de São Paulo.

sábado, 18 de setembro de 2021

Bolsonaro é um personagem cuspido e escarrado de Shakespeare


Um crítico literário ilustre, cuja modéstia fora do lugar impede que se lhe decline o nome, disse que os insultos exuberantes contra Bolsonaro obscurecem os argumentos que os fundamentam. Trazem adjetivos para a ribalta e deixam substantivos no breu. É verdade.

Embora xingamentos aliviem a repulsa de quem os profere, não abalam em um milímetro o poder do presidente. Agora o chamam até de corno, o que não é motivo para derrubá-lo —e é isso o que importa aos milhões de miseráveis que ele destroça todo santo dia.

Além de válvula de escape, vitupérios podem beneficiar seu alvo. Muito do que Jair Bolsonaro fala é para causar, fingir-se de mártir, arrebanhar a canalha. É difícil acossar com o verbo uma víbora ou um gambá revestidos de teflon. Eles contra-atacam com peçonha toda própria.

O problema levantado pelo crítico é pertinente porque não dá para engolir sem revide a crapulice presidencial. Há que se achar uma linguagem política para se contrapor à sua paranoia. Um modo de dizer que não desande para as baixarias nas quais refocila como um javali.

Para tanto, Shakespeare pode ajudar. A conspiração gaiata de barões paulistas, na qual um bobo da corte fez palhaçadas adulatórias, poderia estar em “Macbeth”. A santa aliança dos três reis torpes —Collor, Temer e Bolsonaro— é puro “Rei Lear”. Mourão tem algo da bufonaria de Falstaff.

Já Ricardo 3º é o presidente cuspido e escarrado. Ao arrancá-lo do ventre da mãe, a parteira gritou: “Nasceu com dentes!”. Adulto, o rei disse que isso “era prova acabada que rosnaria, morderia e seria um cão completo” pela vida afora.

Atenção para a fake news espetacular: Bolsonaro também nasceu com dentes. Por isso é um mastim que rosna e morde. Aquilo que Ricardo 3º diz de si —“quando passo, coxeando, os cachorros latem para mim”— deve se aplicar ao presidente mal encarado e de ódio à flor da pele.

O parto violento e “antes da hora” —foi abortado— fez com que o fidalgo inglês ficasse corcunda e manco. Sua deformidade exterior correspondia à perfídia interior. A monstruosidade do capitão brasileiro se atém à alma má, aos grunhidos grotescos, ao gestual rude e à carranca horripilante.

Ambos são dissimulados e hostis. Suspeitam da própria sombra. Simulam uma coisa e fazem o contrário. Jogam uns contra os outros. Atiram no lixo aliados dos quais não precisam mais. Foi o que fizeram com dois arrivistas, o duque de Buckingham e o marquês Sergio Moro, vitais para que empalmassem o poder.

Ricardo 3º lutou na Guerra das Rosas, que opôs os Lancaster aos York. Vencedor da guerra civil, seguiu de armas na mão e matou o irmão, a mulher e sobrinhos. Chegou ao trono por meio da força e da manipulação das leis de hereditariedade, pelos Augusto Aras e Kássio Nunes.

Seu reinado, de apenas dois anos, no final do século 15, foi uma sucessão de revoltas sufocadas em rios de sangue. Exerceu o poder à Bolsonaro, confrontando, ferindo, sem construir nada que preste. Morreu na batalha de Bosworth como viveu, solitário e colérico.

Segundo Shakespeare, gritou “um cavalo, um cavalo, meu reino por um cavalo!”. Sua exumação, em 2012, constatou que o jogaram numa vala anônima sem mortalha nem caixão: foi enterrado como um cão. Bolsonaro disse que vencerá ou será morto. Ricardo 3º teve os dois destinos.

A única que o afronta é a rainha Margaret, cujo marido e o filho foram assassinados por ele. É quando Shakespeare transforma insultos e maldições em grande arte, encontrando palavras exatas para desnudá-lo. Numa nova tradução, eis o que ela diz a Ricardo 3º e Bolsonaro.

“Cala-te, cão, e escuta.
Se o céu tem pragas mais
cruéis que as minhas,
que teus pecados te
apodreçam antes que
a peste tombe sobre ti,
algoz da paz deste
pobre mundo! Que o
verme da consciência
te corroa a alma e
enquanto viveres
suspeite que teus
amigos te traem,
e tome por amigos
traidores de verdade!
Que o sono jamais
feche teus olhos fatais,
exceto para que
pesadelos te torturem
como um enxame de
demônios medonhos!
Tu, porco, ogro, aborto!
Tu, ferido a ferro e fogo
no parto, escravo do
teu corpo torto, filho do
inferno! Tu, vergonha no
ventre da tua mãe! Tu, fruto
podre do escroto do teu pai!
Tu, trapo da virtude, vil!”


Texto de Mario Sergio Conti, na Folha de São Paulo

domingo, 5 de setembro de 2021

Clássico conservador mostra que Bolsonaro é a carcaça do conservadorismo


Este texto só tem uma pergunta a responder: ainda é válido discutir o conservadorismo em um país em que o patriarca maior, o presidente da República, se orgulha de se afirmar um seguidor desse tipo de pensamento, enquanto também é responsável, direta e indiretamente, pela morte de quase 600 mil pessoas?

Para isso, precisamos analisar o livro tido como Bíblia para os integrantes desse movimento, lançado recentemente no Brasil, em meio à pandemia do coronavírus. Trata-se de “A Mentalidade Conservadora” (1953), do norte-americano Russell Kirk, publicado pela É Realizações em uma luxuosa edição, com tradução de Márcia Xavier de Brito que captura com precisão o elaborado estilo do autor.

A história dessa obra, cujo título original era “A Diáspora do Conservadorismo”, é curiosa. O livro é resultado de uma tese acadêmica de dois volumes feita por Kirk quando ele estudava para um doutorado na Universidade de St. Andrews, no condado de Fife, na Escócia.

O então jovem pesquisador (1918-1994) vinha do estado do Michigan e nunca se sentiu à vontade diante das instituições de ensino do seu país. Por causa da Segunda Guerra Mundial, na qual serviu no Exército como um soldado administrativo, foi obrigado a terminar os estudos na Europa.

O ambiente europeu o marcou para sempre (até influenciou o cenário de seu romance, “Old House of Fear”, de 1962). Ali, ele começou a analisar em detalhes os escritos de Edmund Burke (1729-1797), um estadista irlandês, mas atuante no Parlamento do Império Britânico, que criou polêmica entre seus pares ao atacar diretamente o grande evento histórico a seduzir todos os políticos da época: a Revolução Francesa.

Kirk viu em Burke uma espécie de “alma gêmea”, um espelho das suas inquietações políticas e existenciais. Ambos olhavam o mundo onde viviam imerso na decadência religiosa, no desprezo pela comunidade, atacado de todos os lados pelo crescimento do Estado moderno —o qual, combinado com a paixão pelo progresso da técnica, dava proeminência aos intelectuais que defendiam acima de tudo a abstração filosófica. Com isso, esses intelectuais se esqueciam de um componente muito importante da natureza humana: a imaginação.

Para Burke, o fato que detonou todo esse processo histórico inevitável foi a Queda da Bastilha (1789); para Kirk, a sua própria época era filhote desse desastre —e cabia a ele impedir que a degeneração vista por seus olhos invadisse os seus semelhantes.

Portanto, a redação da tese “A Diáspora do Conservadorismo” não era somente um belo estudo de erudição (o que, de fato, sempre foi); era também um manifesto de defesa daquilo que chamava de “as coisas permanentes”.

“A Diáspora do Conservadorismo” se transformou em “A Mentalidade Conservadora” quando o editor Henry Regnery decidiu publicá-la, desde que Kirk cortasse o manuscrito pela metade e aceitasse a troca de título, considerado mais comercial.

O autor concordou. Em 1953, a primeira edição foi um sucesso inesperado. Era um livro que sintetizava algo já articulado por outros autores que participavam dessa sensibilidade no mesmo período, como Richard Weaver (“As Ideias Têm Consequências”), Whittaker Chambers (a autobiografia “Witness”) e o futuro Nobel de Economia Friedrich Hayek (“O Caminho da Servidão”).

Kirk, porém, fez algo que esses outros escritores não conseguiram realizar. Ele criou uma tradição. A partir de Burke, considerado a matriz da “mentalidade conservadora”, o livro mostra que há uma “diáspora” desse pensamento específico em relação à tirania do progressismo (algo diferente das virtudes do progresso humano).

A contraposição feita por Kirk é a crença em uma ordem eterna que se reflete em uma ordem espiritual, manifestada por uma política baseada na “prudência”, que tenta resistir à avalanche comandada pelos revolucionários radicais e os “intelectuais de gabinete”.

Entre os representantes mais célebres dessa oposição, Kirk elenca pensadores variados, como John Adams, Samuel Taylor Coleridge, Henry Adams, John Henry Newman, Irving Babbitt e T.S. Eliot.
Essa diversidade de referências foi apontada por críticos como a maior falha metodológica de Kirk. Afinal de contas, Edmund Burke nunca foi um tory (membro do antigo partido inglês de tendência conservadora), mas sim um whig (atuante do partido de linha liberal).

Além disso, o americano Henry Adams, com seu pessimismo assustador, não poderia ter muita relação com a busca desesperada por redenção de um Eliot. Contudo, para Kirk, é aí que se encontra a unidade na “diáspora”: justamente por causa dessa pluralidade de ideias, essas mentes tinham algo em comum —a procura incessante pela “imaginação moral”.

Para entendermos melhor o que significa esse termo, e porque ele é diferente da nossa mera imaginação, é necessário compararmos o livro de Kirk com uma outra obra, também lançada recentemente —a da historiadora americana Jill Lepore, “Estas Verdades: a História da Formação dos Estados Unidos” (Intrínseca).

Partindo de uma perspectiva explicitamente progressista, mas sem transformá-la em uma ideia fixa, Lepore relata uma América que é um duplo invertido da história narrada por Kirk. Se, para ele, John Adams foi um presidente magistral, para Lepore não passava de um político resmungão; se, na visão de Kirk, Andrew Jackson foi um bom presidente, na da historiadora representa o protótipo do populista que depois resultaria em Donald Trump. E se, em “A Mentalidade Conservadora”, Ronald Reagan é considerado um “estadista supremo”, em “Estas Verdades” o mesmo papel cabe a Barack Obama.

Contudo, em um movimento surpreendente para uma acadêmica que faz parte do mesmo establishment ao qual Kirk sempre se opôs, Lepore chega às mesmas conclusões do pensador conservador.

De fato, segundo sua perspectiva, a sociedade americana foi dominada pelos “intelectuais de gabinete”, os ideólogos disfarçados de publicitários, marqueteiros políticos e colecionadores de previsões equivocadas, que culminaram na morte da possibilidade de “navegar o navio do estado somente pelas estrelas”.

Assim, guardadas as devidas proporções na metáfora, isso seria o fim da mesma imaginação moral defendida por Kirk. Os diagnósticos convergem, mas Lepore tem uma vantagem: ela articulou o “abismo epistemológico” ocorrido no universo da política nesses últimos 40 anos.

“A nação [os EUA] se perdeu na política de destruição epistemológica mutuamente assegurada”, escreve a historiadora. “Não havia verdade, apenas insinuações, boatos e preconceitos. Não havia explicações razoáveis; apenas conspiração.”

Com o surgimento da direita alternativa (alt-right), em paralelo com a esquerda alternativa (alt-left), decorrentes da histeria provocada pelas redes sociais, tanto o conservadorismo de Kirk como o progressismo de Lepore dão as mãos na certeza de que a Declaração de Independência e a Constituição americanas estão completamente despedaçadas.

Enquanto esse “abismo epistemológico” começava a contagiar a sociedade ocidental, Kirk percebia que o seu tão querido conservadorismo não era mais suficiente para analisar o mundo.

Os últimos livros dele —suas verdadeiras obras-primas, como “A Era de T.S. Eliot” (1971), “The Roots of American Order” (1974) e a autobiografia “The Sword of Imagination” (1995)— mostram que, pouco a pouco, o estadista deveria ser semelhante a um poeta que articula os dilemas de se viver em um lugar em que seu fundamento filosófico, a imaginação moral, simplesmente desapareceu, substituído pela imaginação apocalíptica das teorias conspiratórias.

Nessa reviravolta, Kirk chega ao coração do dilema. Entende, no final da vida, que a imaginação moral não é apenas um modo de aceitar a falibilidade humana, mas também, e principalmente, a única forma necessária para encarar o grande problema que atormenta a todos nós, a despeito de nossa situação política: a morte o sofrimento.

Nesse sentido, a imaginação moral é mais do que “discernir acerca do que a pessoa humana pode ser, apreendendo, por alegorias, a correta ordem da alma e a justa ordem da sociedade, diferenciando o verdadeiro e o falso, o bem e o mal, o belo e o feio, além de oferecer uma correta visão da lei natural e da natureza humana”, como definiu Cleaves Whitney, estudioso da obra do autor. Ela é, de fato, a preparação filosófica para o nosso derradeiro fim.

Kirk explicita isso em uma carta datada de 1993, um ano antes de sua morte, endereçada à sua filha Andrea. “Estou de fato com a saúde debilitada; talvez eu consiga uma boa ajuda na clínica onde me trato, mas é também possível, entre nós, que o meu septuagésimo-quinto ano provavelmente seja o último em que estarei contigo. Escrevo isto não para alarmá-la, mas sim para prepará-la. Mas como você foi afortunada, Andrea, e eu também! Se este for o meu derradeiro ano neste planeta, eu e você estaremos juntos para isso, a escrever e a plantar flores no jardim e a caminhar e a ler e a conversarmos juntos, sempre contigo —a mais afetuosa das filhas.”

“Escrevo isto não para alarmá-la, mas sim para prepará-la.” Nesta singela frase está sintetizada toda a imaginação moral da obra de Russell Kirk —e o verdadeiro conservadorismo que ele tanto defendeu.

Já nosso presidente, mesmo orgulhoso de se afirmar conservador, fez o oposto de tudo isso. Jamais preparou o cidadão para a fatalidade da Covid-19, somente o alarmou, diminuindo a gravidade da doença e lançando conspirações atrás de conspirações.

Como se não bastasse, simboliza a permanência da total incapacidade do brasileiro de viver segundo os ditames da liberdade interior, a que edifica as instituições democráticas da liberdade exterior, o que contamina até mesmo nossas melhores mentes —é o caso do brilhante, porém antiquado, José Camilo de Oliveira Torres (1915-1973).

Segundo a ideia de liberdade interior, articulada por Platão e Santo Agostinho, antes de conquistarmos a ordem do mundo, precisamos dominar as paixões que perturbam a ordem da alma, para sermos, assim, indivíduos completos.

Bolsonaro, portanto, não é conservador, não é um indivíduo —e muito menos alguém completo. O pouco caso de seu governo, para dizer o mínimo, em relação a vacinas e à pandemia em geral exemplifica que ele fez com a “mentalidade conservadora” a mesma coisa dita pelo general francês Turenne, antes de ir para uma batalha decisiva em 1660, em uma frase que Nietzsche adorava citar: “Carcaça, tu tremes? Tremerias ainda mais, se soubesses aonde te levo”.

Daí que chegamos à resposta da pergunta que motivou este artigo: ainda vale a pena falar de conservadorismo com quase 600 mil mortes nas suas costas? Na verdade, o que temos no país não tem nada a ver com o que Russell Kirk ensinou aos leitores —e à filha Andrea, antes de falecer.

Temos somente uma carcaça, e ela é nossa. Seremos obrigados a carregá-la até o momento em que atravessarmos o vale em que estamos e, enfim, imaginarmos que há algum horizonte moral diante de nossos olhos.


Texto de Martim Vasques da Cunha, na Folha de São Paulo

quarta-feira, 12 de maio de 2021

Ler Patricia Highsmith, que faria cem anos, ainda causa um mal-estar

 

Conhecia alguns filmes baseados em histórias de Patricia Highsmith, como o excelente “Pacto Sinistro”, de Hitchcock, mas nunca tinha lido seus livros e aproveitei o centenário de seu nascimento para fazer uma espécie de “intensivão” nessa verdadeira escola de perversidade psicológica.

Sou mais a linha dos detetives clássicos, encarregados de resolver um crime como uma charada ou problema de xadrez.

Há quem diga que as histórias de Agatha Christie ou Dorothy Sayers são profundamente conservadoras: acontece um crime (a perturbação da ordem) e, uma vez encontrado o criminoso, o status quo se restabelece.

A interpretação é um bocado mecânica, a meu ver. O leitor desse tipo de romances não se importa muito em ver o assassino punido; há um famoso caso em que Poirot decide esconder da polícia a solução do mistério. A pessoa assassinada, concluía o detetive, merecera o seu destino.

Natural que seja assim. Para que existam cinco ou dez suspeitos de um assassinato, cada qual com seus motivos, é preciso que a vítima seja altamente detestável. Nenhum leitor lamenta o crime, portanto, nem se sente apaziguado quando o criminoso vai para a cadeia.

A única “desordem” que os policiais clássicos tratam de consertar é de ordem intelectual. Havia quatro penas de pavão na cena do crime; o assassinado usava meias de cores diferentes; o anel roubado tinha sido engolido por seu cachorrinho de estimação. O que aconteceu?

É como uma colagem surrealista, em que o detetive se encarrega de restaurar, não a ordem, mas o sentido da cena.

Os livros de Patricia Highsmith não têm nada disso. Nos que eu li, se aparece um detetive, ele é incapaz de atinar com nada (veja-se “O Talentoso Ripley”, por exemplo).

E, se nas histórias clássicas o criminoso é movido pelo autointeresse (quer dinheiro ou vingança), no mundo de Highsmith o que prevalece é o mal sem maiores explicações.

Em “Resgate de um Cão”, por exemplo, tudo poderia reduzir-se a um golpezinho desimportante. O cachorro de um rico casal nova-iorquino é sequestrado e, por US$ 1.000, seria devolvido. Seria pouco para produzir um romance, mas Patricia Highsmith mantém o interesse (e a repugnância) do leitor construindo um personagem doente, obcecado em destruir a vida do policial que o investiga.

O policial, por sua vez, não é menos obcecado; por alguma razão psicanalítica, ele quer se aproximar ao máximo do casal rico, esquecendo os próprios pais nesse processo.

O famoso Ripley, no primeiro romance da série, vive o mesmo complexo, como se quisesse ser adotado pelos pais de Dickie Greenleaf, seu amigo milionário.

Patricia Plangman adotou o sobrenome de seu padrasto, Stanley Highsmith. Conta que desde pequena alimentava a fantasia de matar o padrasto; quando adulta, o seu comportamento tornou-se famosamente agressivo, com bebedeiras tremendas e uma longa sequência de relacionamentos abusivos.

Ela dizia ser uma lésbica profundamente misógina —mas não odiava apenas as mulheres; a humanidade toda, segundo ela, era composta majoritariamente de débeis mentais.

Preferia criar lesmas e as guardava na bolsa, para apresentá-las aos incautos.Também criador de lesmas é o pacato (?) marido de “Em Águas Profundas” —história quase dostoievskiana de crueldade conjugal.

O escritor russo talvez esteja ainda presente em “O Grito da Coruja”, romance em que, a troco de nada, o protagonista começa a espionar uma jovem que mora sozinha em casa. O namorado da moça, por sua vez, desenvolve a monomania inversa, e passa a perseguir o herói da história.

Há sempre a obsessão de um homem por outro. Em vez de se liberar num relacionamento homossexual, tudo se traduz em pulsão destrutiva.

A psicanálise desse esquema narrativo pode ser banal hoje em dia, mas são histórias escritas nas décadas de 1950 e 1960, no ambiente falsamente normal da classe média americana.

Se a sexualidade se reprime, o assassinato se torna, nesses livros, absolutamente inevitável. O personagem principal não tem outra saída senão matar quem o persegue. As circunstâncias dos livros são muitas vezes implausíveis, mas o crime é cometido com fatalidade de relojoaria.

Highsmith não se preocupa com a resolução de enigmas, com a restauração da ordem, ou com a punição do criminoso; o problema, aqui, é de doença —talvez sem cura.


Texto de Marcelo Coelho, na Folha de São Paulo

segunda-feira, 3 de maio de 2021

Paixões que pervertem e convertem

 

Em 1957, Lúcio Cardoso (1913-68) pediu emprego numa agência de propaganda. Para ser contratado, teve de submeter-se a uma redação. Foi reprovado. O profissional que o avaliou não sabia quem ele era. Ou talvez soubesse muito bem, razão pela qual achou que ele não serviria —e teria razão. Não seria preciso ler “Crônica da Casa Assassinada”, o romance que Lúcio estava escrevendo naquele ano, para saber que ele não se daria bem entre anúncios de sabão de coco ou palha de aço.

Há anos, em meu livro “Ela é Carioca”, arrisquei que, se o Brasil um dia acordar para Lúcio Cardoso, haverá quem se pergunte sobre onde estávamos com a cabeça. Lúcio foi ignorado por não ser “realista”, nem de “esquerda”, nem de “vanguarda” ou qualquer exigência então em moda. Era um autor de livros com mais reflexão que ação, passados nos quartos escuros da alma, num ritmo que não se media por relógios.

E não poupava a si mesmo. Veja essa amostra de suas frases que recolhi em crônicas e entrevistas.
“Não sou um escritor, sou uma atmosfera”. “Escrevo porque não tenho olhos verdes”. “Todas as paixões me pervertem, todas as paixões me convertem”. “Sou da raça dos que se alimentam de venenos”. “A política é um modo de organizar e dirigir os homens. Mas, a mim, eles só interessam livres e desorganizados”. “Tenho o Rio nas minhas veias como uma doença”. “O que mais me agrada nas litografias é o silêncio. Silêncio do preto, silêncio do branco. Silêncio do preto e do branco unindo-se para compor essa pausa imensa —o cinza”. [Sobre o dinheiro]: “Vivo de ganhar aquilo de que eu morro”. “‘O Diário de Anne Frank’ é um modelo de como deve ser a existência de um escritor —como um prisioneiro”. “Escrever é um modo de agonizar de olhos abertos”.

“Crônica da Casa Assassinada” está de volta às livrarias depois de longa ausência. A literatura brasileira, subitamente mais adulta, agradece.


Texto de Ruy Castro, na Folha de São Paulo

quinta-feira, 8 de abril de 2021

Bosi fez do acordo entre o verbo e a carne o norte de sua existência


Numa mesa redonda sobre a obra de Machado de Assis, realizada em 1980, e com nomes de proa, como Antonio Callado e Roberto Schwarz, Alfredo Bosi tomou a palavra e, em vez de expor erudição intimidadora ou elaborar teorias inteligentes, propôs uma pergunta que condensa a singularidade de seu olhar e a potência de sua contribuição à cultura brasileira. “É uma curiosidade minha saber como é que vocês responderam vitalmente a Machado.”

Autorretrato involuntário. Para Alfredo Bosi, cultura nunca foi sinônimo de acúmulo rigoroso de dados dissociado da vida. Pelo contrário, segundo ele, o conhecimento era parte de uma ética que vinculava intrinsecamente a formação à roda da biblioteca com o saber forjado nas experiências do cotidiano.

Circula no YouTube uma notável conferência do crítico, "Cultura ou Culturas Brasileiras?", de 2015. A fim de explicar o conceito de cultura, além de recorrer às noções grega e romana, ele lançou mão de sua experiência em Florença, nos anos de 1961 e 1962.

Bolsista do governo italiano, o jovem Bosi converteu seus contratempos diários numa fascinante reflexão acerca da ambiguidade do conceito latino –cultura implica tanto trabalhar a terra com as mãos quanto moldar o espírito.

Ambiguidade tornada dilema que ainda hoje aprisiona a civilização brasileira, como descortinado no fundamental “Dialética da Colonização”, de 1992. Polos opostos se confrontam há séculos –de um lado, se “aproxima cultura e culto, utopia e tradição”. De outro, tendência dominante, se “amarra firmemente a escrita à eficiência da máquina econômica articulando cultura e colo”. A defesa incondicional da vida pouco vale nos manifestos de banqueiros preocupados com a economia e nada pesa na desfaçatez de políticos e empresários que desejam legalizar o contrabando vergonhoso de vacinas.

Doutor em literatura italiana, com tese dedicada ao “Itinerário da Narrativa Pirandelliana”, defendida em 1964, e livre-docente na mesma disciplina, com o trabalho “Mito e Poesia em Leopardi”, de 1970, Bosi dominava como poucos a tradição da literatura clássica, numa das mais completas vocações de comparatista da universidade brasileira.

Em 1970, ele realizou uma mudança importante. Passou a ensinar literatura brasileira, se tornando professor titular em 1985 e professor emérito em 2009.

Não se pense, contudo, que este foi um movimento inesperado. Fiel ao compromisso com o próprio tempo, Bosi sempre se interessou pela literatura nacional. Em 1962 organizou “José Bonifácio, o Moço – Poesias”. Em 1966, publicou sua primeira obra de referência na disciplina, “O Pré-Modernismo”, estudo incontornável do período imediatamente anterior à eclosão da Semana de Arte Moderna em 1922.

Na verdade, o rito de passagem foi celebrado com um livro-monumento, saído no mesmo ano de 1970 –“História Concisa da Literatura Brasileira”, título obrigatório e incomum best-seller acadêmico.

Em primeiro lugar, Bosi aceitou o desafio de analisar a produção contemporânea, recusando o abrigo cômodo de lidar somente com o cânone. Em novas edições, acrescentou uma seção sobre a ficção produzida entre os anos 1970 e 1990. De igual modo, estudou a poesia concreta, poetas posteriores e ainda destacou, tópico inédito em histórias literárias, as traduções de poesia.

Outro gesto que não se encontra em títulos do gênero –Bosi concluiu o livro com uma seção em que sublinhou a importância de outros críticos, seus pares e, por vezes, vozes divergentes. Generosidade intelectual que reitera o elo entre vida e obra.

As últimas páginas homenageiam um austríaco naturalizado brasileiro, conferindo pleno sentido a uma das dedicatórias do livro. “Para Otto Maria Carpeaux, mestre de cultura e de vida.” Eis aí o acordo entre verbo e carne, biblioteca e pólis –norte da existência de Alfredo Bosi.

Por fim, publicar “História Concisa da Literatura Brasileira” foi um relevante ato de resistência nem sempre bem compreendido. Leiamos a nota adicionada em 1979 –“Quanto à crítica produzida nos anos de 1970, registre-se a tendência formalista e estruturalista”. Portanto, escrever uma história da literatura em 1970, momento mais sanguinário da ditadura militar durante o governo do general Médici, foi uma atitude ousada –dentro e fora da universidade.

Resistir foi o verbo central na vida e na obra do autor de “Literatura e Resistência”, de 2002. No Brasil de hoje, em plena incapacidade de um governo negacionista de enfrentar a crise da Covid-19, resistir também é viver com coerência e dignidade. Lição definitiva, que afirma a atualidade perene do pensamento-ação de Alfredo Bosi.


O texto é de João Cezar de Castro Rocha, professor da UERJ, publicado na Folha de São Paulo