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sexta-feira, 30 de setembro de 2022

Morre Paul Veyne, historiador francês especialista em Antiguidade


O historiador e arqueólogo francês Paul Veyne morreu nesta quinta-feira, aos 92 anos, em Vaucluse. A informação foi publicada no site do jornal francês Le Monde. A causa da morte não foi revelada.

Conhecido por sua especialidade em Antiguidade grego-romana, Veyne publicou livros como "Sêneca e o Estoicismo", "Elegia Erótica Romana", "Os Gregos Acreditavam em seus Mitos?" e "Pão e Circo: Sociologia Histórica de um Pluralismo Político".

Veyne publicou também livros relacionados a filosofia. Em "Foucault - Seu Pensamento, Sua Pessoa", por exemplo, o historiador se debruça sobre o pensamento de Michel Foucault, filósofo que o citava para rebater a ideia do cristianismo como marco da repressão sexual.

Veyne dizia que a história é a história das práticas e das crenças. Ele repudiava qualquer ideia de racionalidade da história, de ser movida por fatores profundos como progresso ou luta de classes. Para ele, "não se pode tirar nenhuma lição da história", como contou à Folha, em 2009.

Nascido em 1930, em Aix-en-Provence, Veyne começou a se interessar pelo Império Romano aos oito anos de idade, ao ver uma ânfora em um sítio celta.

Além de historiador, arqueólogo e escritor, Veyne foi também professor na Escola Francesa de Roma e Universidade Sorbonne. Em 1975, se tornou titular da cadeira de história romana do Colégio da França, cargo que ocupou até 1998.


Reprodução de notícia da Folha de São Paulo

sábado, 24 de abril de 2021

Por que Marc Ferro foi crucial para a lupa que investiga o cinema

 

Marc Ferro, historiador francês que morreu nesta quarta-feira, aos 96 anos, vítima da Covid-19, em Paris, é conhecido no Brasil por seus trabalhos sobre a Revolução Russa e as relações entre a história e o cinema. Mas se voltou ainda a inúmeros temas. Em comum, a reflexão sobre a escrita da história e seus usos e abusos na legitimação de ações no presente.

Nascido em 1924, ele perdeu o pai aos cinco anos. Sua mãe, modista de uma casa de alta costura, foi uma influência fundamental em sua vida. Ela tinha um sobrenome judeu, mas não tinha consciência disso. A ocupação nazista os tornou judeus.

Ferro fugiu de Paris graças ao conselho de seu professor de filosofia, Merleau-Ponty. Em 1944, participou da resistência, mas na volta, não reencontrou sua mãe, que fora executada em Auschwitz.

Vivenciou esses e outros acontecimentos que moldaram sua visão sobre a história, em que pesquisa e erudição, as experiências de vida, a intuição e a coragem de contrariar o estabelecido permitiram percepções iluminadoras e engajadas, até o fim de sua vida.

Prova disso é a relação íntima que estabeleceu com as tecnologias audiovisuais. Não foram apenas objeto de estudo, ou de difusão do conhecimento.

Especialista e orientador de estudos sobre a Rússia, aproveitou o surgimento das antenas parabólicas e conseguiu, de seu escritório na École des Hautes Études en Sciences Sociales, em Paris, instalar uma televisão para acompanharem a difusão das mudanças que ocorriam com a Perestroika. À sua maneira, em 1985, antecipava a conexão direta em tempo real da internet.

A vasta obra, que se inicia nos anos 1970, abrange a história da Rússia, da França, das colonizações, a Segunda Guerra. Essa bagagem de pesquisas acompanha e se enriquece no seminário sobre cinema e história, com temáticas trazidas por estudantes de vários países.

A partir do embate constante entre textos e imagens —usados em seus livros com a mesma legitimidade—escreve sobre as "Falsificações e Tabus da História" e, em 2015, "A Cegueira"—, muito oportuno, porque estuda o motivo de "nos recusarmos a ver a realidade”.

Ao se voltar de forma pioneira para o estudo das imagens audiovisuais, vistas com desconfiança e desprezo pelos historiadores até então, podemos entender sua postura em relação a tudo o que escreveu e aos vários filmes e programas de televisão que realizou ao longo de sua carreira.

Em 1964, enquanto redigia sua tese de doutorado sobre a Revolução Russa, participou da realização de um documentário sobre a Primeira Guerra. Diante das imagens dos arquivos, observou que traziam informações diferentes daquelas que a história escrita consagrara.

Ora, há uma história escrita pelas imagens que é diferente da história dos livros. Desafiar essa certeza, esse paradigma dos historiadores rendeu muitas críticas a ele. Afinal, o cinema não é sério como a história; ele manipula.

Ora, a escrita da história não manipula? O cinema mandava essa questão de volta para a história. O cinema escreve, sim, a história. “Documentário ou ficção é história.”

Com esse pensamento, Ferro abriu aos historiadores esse vasto campo de estudos que se espalhou pelo mundo, incluindo o Brasil, onde Ferro se apresentou várias vezes, numa delas conforme sua memória, teve o seu maior público, mil historiadores.

De seus ex-alunos no Brasil, há o livro "Cinematógrafo", um olhar sobre a história.

A constatação crítica sobre a escrita da história já vinha de sua experiência como professor em Orâ, na Argélia, entre 1948 a 1956. A história do colonizador que ele trazia como verdadeira e universal não era aceita pelo colonizado. “Não é essa a nossa história.”

Ele passa a aprender com os alunos outras histórias e paradigmas. Descoloniza sua visão de mundo, assim como tantos outros que passaram pela experiência colonial. Como Fernand Braudel que o leva para os Annales, a revista que desde 1929 vinha revolucionando os estudos de história.

Em sua tese de doutorado, Ferro pôs em questão dogmas sobre a Revolução Russa. Uma revolução feita pelos proletários conforme dizem os livros, o poder? Não era o que diziam as fontes que pesquisara, as imagens fotográficas e fílmicas tomadas da própria revolução.

Foram os soldados que voltavam da guerra, as mulheres e os camponeses que fizeram a Revolução Russa. Desafiava, assim, a imagem e a história que o Partido Comunista construíra.

Novas visões sobre a história da Segunda Guerra Mundial se estabeleceriam de forma profunda e partilhada com o público, durante 12 anos —entre os anos de 1989 e 2001— no programa semanal Histoire Parallèle.

Após a queda do Muro de Berlim, no prenúncio da União Europeia, no canal de televisão franco-alemão La Sept, conhecido posteriormente como Arte, selando a amizade dos antigos países rivais, Marc Ferro e um segundo historiador mostravam e comentavam os cinejornais produzidos em seus países durante a guerra.

Como as imagens construíam a guerra? Como as populações a deviam vivenciar? O que essas imagens não mostravam? Exercício de compreensão histórica e compaixão. Um humanismo que marcou as inquietações e contribuições de Marc Ferro, e que nosso tempo parece ter perdido.


Texto de Sheila Schvarzman, na Folha de São Paulo. A autora é doutora em História pela Unicamp, e foi aluna de seminários com Marc Ferro. 

quarta-feira, 7 de abril de 2021

Ainda não me convenci de que existam generais democratas no Brasil


Conheci um bom pedaço da ditadura (já estava grandinho no governo Geisel).

Nem vou falar dos horrores, das violências, dos desastres e das injustiças do período. Trato de uma coisa menor, mas que me deixa bem irritado ao ver repetida agora: o puxa-saquismo dos civis em relação aos militares.

Apareceu por toda parte nestes dias. “O general Fulano se recusa a participar de um golpe”: parabéns ao general Fulano. “Como nunca, os militares estão conscientes de suas funções constitucionais.” Que bom. Ainda bem. “O comandante Beltrano reafirma seu compromisso com a ordem vigente.” Nossa. Muito obrigado.

Quando chegamos a esse ponto, ponho as mãos na cabeça. É sinal de que nós, os civis, vamos deixando de ser sujeitos do processo político —e que depende deles, militares, a decisão de aderir ou rejeitar um projeto golpista.

“Não há clima para uma intervenção”, diz o general A; mas e se houvesse? Aí, imagino que não haveria declaração nenhuma —os tanques já estariam nas ruas. Parece evidente que, se não todos, muitos militares trabalham com essa hipótese. “Se tiver que haver, haverá”, disse o general Mourão em 2017.

Em 2018, o general Villas-Boas postou seu famoso tuíte alertando, por assim dizer, contra uma possível decisão do Supremo Tribunal Federal, o STF, em favor de Lula, falando de “repúdio à impunidade” e de um Exército “atento às suas missões institucionais”.

Dois anos depois, o general Augusto Heleno esbravejava contra outra decisão do STF, que possibilitava que Bolsonaro tivesse seu celular apreendido para investigações: haveria “consequências imprevisíveis para a estabilidade nacional”.

Ainda em 2020, o general Luiz Eduardo Ramos descartava um movimento militar: declarou que os comandantes militares achavam “ultrajante” essa hipótese. Mas logo acrescentou: “Agora o outro lado tem de entender também o seguinte: não estica a corda”.

Não são militares da ativa, certo. Pertencem à cúpula do bolsonarismo —ironicamente, à vertente “moderada” de um “freak show” de milicianos, malucos da conspiração, videntes e incendiários.

Não quero cometer injustiças com os três militares demitidos por Bolsonaro. Tudo indica que não quiseram aderir à demência presidencial.

Mas até hoje não tive notícia de chefe militar brasileiro visceralmente democrático. Só mudarei de ideia quando algum criticar o golpe de 1964.

Ao contrário, todo ano, no dia 31 de março, vemos pronunciamentos celebrando o movimento. Por quê? Afinal, não é feriado nacional, não é data religiosa, não é Dia Internacional da Mulher, Dia da Consciência Negra, aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Em 1964, os militares puseram tanques nas ruas sem que nenhum poder constitucional requisitasse a sua intervenção. Diante do fato consumado, a maioria do Congresso se curvou. O nome disso é golpe.

Passaram-se mais de 50 anos, e não sei de nenhum militar que tenha feito a autocrítica dessa violência, ponto de partida para todas aquelas que se seguiram.

É o que disse Janio de Freitas, na Folha de domingo passado: “Enquanto faltar a coragem moral de reconhecer que antecessores seus cometeram crimes bárbaros e estrangularam as liberdades e demais direitos universais, os militares não estarão a serviço legítimo da sua função de Estado”.

Mas o que mais se vê é um movimento de reverência aos militares supostamente democratas. É a mesma auto-hipnose de quem repete que “as instituições estão sólidas”.

Estivessem sólidas, não estaríamos dando graças a Deus pelo fato de haver militares sem disposição para dar o golpe. Estivessem sólidas, não estariam parados os processos investigando o golpismo do presidente. Um dia acordaremos percebendo que as instituições que “eram sólidas” deixaram de ser.

Muita coisa diferencia o momento atual do que acontecia em 1964. Naquela época, o golpe não foi feito em favor de um projeto individual. As Forças Armadas, como um todo, tomaram o poder; não é a mesma coisa do que entregar o comando a um psicopata.

Além disso, não estamos vivendo um momento de agitação social, de “caos”, de “baderna”, como os militares gostavam de classificar os movimentos de esquerda.

Esses dois fatores correspondem, creio, à “falta de clima” para uma intervenção agora. Mas nada me convence de que os militares descartam a hipótese. Provavelmente, quem os elogia agora também irá elogiá-los nessa ocasião.


Texto de Marcelo Coelho, na Folha de São Paulo

Destaque do blogueiro. 

quarta-feira, 9 de setembro de 2020

Por que quarta-feira?

 Criança, em Portugal, causavam-me estranheza os nomes dos dias da semana. Segunda-feira, terça-feira, quarta-feira… Que feiras são essas? Por que "terça" e não "terceira"? E por que não há primeira-feira? Dona Isaura, minha professora e mãe, não sabia as respostas, mas ponderava feliz que “é melhor do que nas outras línguas que dão nomes de deuses pagãos”.

Em inglês, alemão e demais idiomas germânicos, os dias da semana levam nomes de divindades: Sol, Lua, Tiw, Woden (Odin), Thor, Frigga e Saturno. Nas línguas latinas, como o francês, o espanhol e várias outras, "domingo" tem origem cristã ("dies dominicus", o dia do senhor), e "sábado" provém da tradição judaica ("Shabbath"). Mas em quase todas essas, os demais dias continuam com nomes de deuses: Lua, Marte, Mercúrio, Júpiter e Vênus. A única exceção é o português, e essa particularidade é atribuída a um indivíduo notável, que viveu no século 6: São Martinho de Dume.

À época, após a queda do império romano, a Península Ibérica era ocupada por dois grupos de povos germânicos: os suevos, na região noroeste, atualmente ocupada pela Galiza e norte de Portugal, e os visigodos, no restante do território. A capital sueva era a velha Bracara Augusta dos romanos, hoje a cidade de Braga.

Nascido na atual Hungria, Martinho estudou na Terra Santa, Roma e Paris, de onde se deslocou para o reino suevo. Lá, fundou diversos conventos, o primeiro deles no povoado de Dume, próximo a Braga. Evidência de sua extraordinária influência, em 556 esse convento tornou-se por si só uma diocese, tendo Martinho como bispo, caso único na história da Igreja. Três anos depois, ele acumulou Dume com a diocese da capital Braga.

Seu maior êxito foi a conversão do reino do arianismo ao catolicismo, o que lhe valeu a denominação de "apóstolo dos suevos". Certo de que era indigno de um bom cristão invocar nomes de deuses pagãos, impôs a terminologia eclesiástica para os dias da semana: "dies dominicus", "secunda feria", "tertia feria", "quarta feria", "quinta feria", "sexta feria" e "sabath". Aqui "feria" significa "dia livre" (tal como nas nossas férias) —e não feira. Também fica explicado o "terça", derivado do latim "tertia".

É um tributo à notável força de Martinho que sua vontade tenha prevalecido até os nossos dias, de tal modo que não restam praticamente vestígios dos nomes dos dias da semana em português antigo ("domingo", "lues", "martes", "mércores", "joves", "vernes", "sábado"). Já a língua galega, que na época de Martinho estava unida à portuguesa e, portanto, adotou os novos nomes, ao longo dos séculos acabaria voltando às velhas denominações.

Martinho tentou ir mais longe e mudar também os nomes dos planetas, mas nisso não teve êxito. Morreu em 20 de março de 579, deixando diversos escritos religiosos.


Texto de Marcelo Viana, na Folha de São Paulo

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Aos 77 anos, morre filósofo e historiador Tzvetan Todorov

Aos 77 anos, morre filósofo e historiador Tzvetan Todorov

Autor era referência na intelectualidade europeia desde anos 1960
O filósofo Tzvetan Tódorov, vencedor do Prêmio Príncipe de Asturias em Ciências Sociais e um dos intelectuais mais reconhecidos do mundo, morreu em um hospital em Paris nesta terça-feira, segundo informaram seus editores. O filósofo, linguista, sociólogo, historiador, crítico e teórico literário nasceu em Sofía, em 1939, e era um destacado pensador da literatura e historiador das ideias, assim como analista teórico da cultura.
Entre suas obras mais recentes, ele destacou tendências totalitárias em democracias contemporâneas: a xenofobia, a falta de pluralismo e a repulsa a imigrantes. "Este medo dos imigrantes, do outro, dos 'bárbaros', será nosso primeiro grande conflito do século 21", disse em uma entrevista em 2010. Ele tinha cadeiras nas faculdades da École Pratique des Hautes Études e na Universidade de Yale, e também deu aulas em Nova Iorque, Columbia, Harvard e na Califórnia.
Foi autor de títulos como "A Teoria da Literatura dos Formalistas Russos" (1965), "A Conquista da América" (1984) e "Os Abusos da Memória" (1995). Em 2008, venceu na Espanha o Prêmio Príncipe das Asturias como referência indiscutível no pensamento europeu contemporâneo. Ele também era detentor da Ordem das Artes e das Letras, na França, entre muitos outros reconhecimentos.

Reprodução do Correio do Povo

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Acadêmicos correm para salvar documentos coloniais raros em Cuba

Acadêmicos correm para salvar documentos coloniais raros em Cuba

sábado, 14 de janeiro de 2017

Romance de Patrick Deville, 'Viva!' celebra a revolução e a vida

Romance de Patrick Deville, 'Viva!' celebra a revolução e a vida

Livro de Patrick Deville investiga últimos anos de Trótski no México

Livro de Patrick Deville investiga últimos anos de Trótski no México

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Centenário da revolução de 17 merece mais história e menos propaganda

Em outubro de 1917, os bolcheviques (maioria, em russo) lideraram uma revolução, invadiram o palácio do czar, subiram pelas escadarias e derrubaram séculos de absolutismo, instalando um governo de operários e camponeses.
Tudo mentira. Os bolcheviques não eram maioria, o czar não morava no palácio de Inverno (ele abdicara em março e estava preso a quilômetros de distância). Em outubro de 1917, não havia mais monarquia e a Rússia era uma república mambembe. Os poucos revoltosos entraram no palácio por janelas laterais, e o prédio não estava guarnecido por tropa capaz de defendê-lo.
A cena da tomada do palácio, com uma heroica multidão subindo sua escadaria, foi um invenção do cineasta Sergei Eisenstein. Ele teve a ajuda de 5.000 figurantes e a filmagem, em 1928, causou mais danos ao palácio que a sua tomada em 1917. (A grandiosidade de Eisenstein fez com que suas cenografias engolissem a realidade. O massacre da escadaria de Odessa, do "Encouraçado Potemkin", também não aconteceu.) Multidão no palácio só houve no dia seguinte, quando saquearam, e beberam, a adega real.
O ano do centenário da revolução de 1917 será boa oportunidade para que os acontecimentos daquele ano sejam revisitados, com menos influência da propaganda.
As revoluções foram duas: a primeira deu-se em fevereiro, em Petrogrado (depois Leningrado, hoje São Petersburgo). Nela misturaram-se as ansiedades de uma guerra na qual 1,5 milhão de soldados já haviam desertado, um inverno brabo que afetou o abastecimento, mais uma onda de greves e protestos. Contra essa revolta, estava Nicolau 2º, um autocrata medíocre metido numa corte de intrigantes. (O monge Rasputin, guru e marqueteiro da família real, havia sido assassinado em dezembro.)
No dia de hoje, há cem anos, Petrogrado parecia em paz. Estava na Rússia o príncipe herdeiro Carol da Romênia, e a czarina Alexandra aproveitara um jantar em sua homenagem para apresentar à nobreza sua filha de 17 anos, a grã-duquesa Maria.
Lênin estava em Zurique e admitia que a revolução poderia ficar para a próxima geração. (Outro hóspede da cidade era o escritor James Joyce.) Trótski estava encantando socialistas em Nova York. Stálin estava exilado no círculo Ártico. Ele só pensava na revolução, mas nos próximos meses teria um problema: nasceria o filho de sua namorada adolescente. (Alexandre morreu em 1987. Seu filho, a quem revelara a identidade do avô, comprovou-a com um teste de DNA.)
Quando Petrogrado estava com as ruas tomadas, a czarina Alexandra acreditava que com alguns dias de frio as pessoas voltariam para casa, e um dos líderes bolcheviques na cidade duvidava do futuro da revolta. Ele achava que a coisa se acalmaria se os trabalhadores recebessem algum pão.
Pode-se discutir até onde a revolução de Petrogrado foi um movimento operário ou derivou de um motim da soldadesca. Como a efeméride será lembrada até o fim do ano, seria injusto que tudo parecesse ter começado com o golpe de outubro de Lênin e dos comunistas.
Em março, nasceu a república russa. Podia ter dado certo mas, tendo tudo para dar errado, durou oito meses. Em outubro, nasceu o que parecia ser uma aventura, sem a menor possibilidade de dar certo. Durou 74 anos.


Texto de Elio Gaspari, na Folha de São Paulo

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Morre aos 93 anos controvertido historiador alemão Ernst Nolte

Morre aos 93 anos controvertido historiador alemão Ernst Nolte

Em seus livros, autor tentou demonstrar interdependência entre comunismo, fascismo e nazismo

Ernst Nolte, um dos mais célebres e controvertidos historiadores da Alemanha, que tentou demonstrar a interdependência entre o comunismo, o fascismo e o nazismo, morreu nesta quinta-feira, aos 93 anos, anunciou a família.
Nolte iniciou nos anos 80 a famosa "guerra dos historiadores" alemães ao publicar um artigo, "Um passado que não quer passar", no jornal Frankfurter Allgemeine Zeitung. Sua tese, segundo a qual o nacional-socialismo seria uma reação à "ameaça existencial" da revolução russa e seus crimes em massa, provocou indignação de alguns especialistas, incluindo o filósofo Jürgen Habermas, e marcou o início de uma longa polêmica a respeito. O vínculo causal que Nolte estabeleceu entre o Gulag e Auschwitz valeu a ele críticas acusando-o de minimizar os crimes nazistas e suspeitas de revisionismo, das quais sempre se defendeu.
Nascido em Witten (Oeste), Ernst Nolte ensinou durante anos na Universidade Livre de Berlim. Entre suas obras mais destacadas, figura "O fascismo em sua época", uma análise da natureza do fascismo graças à qual ficou conhecido nos anos 60, e "A guerra civil europeia, 1917-1945. Nacional-socialismo e bolchevismo", lançado no final dos anos 80.

Reprodução do Correio do Povo

quinta-feira, 7 de julho de 2016

Conheça a bizarra história do suposto 'evangelho da mulher de Jesus'

Conheça a bizarra história do suposto 'evangelho da mulher de Jesus'


REINALDO JOSÉ LOPES
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA


O "Evangelho da Mulher de Jesus" –um misterioso fragmento de papiro de 1.300 anos de idade no qual o próprio Cristo afirma ser casado– provavelmente é uma fraude, admitiu a historiadora da Universidade Harvard (EUA) responsável por publicar o texto pela primeira vez.
Revelações sobre o proprietário do papiro, Walter Fritz, um empresário alemão radicado na Flórida, vieram a público num artigo que estará na edição de julho da revista americana "The Atlantic". A investigação da revista revelou fortes indícios de que Fritz tinha tanto capacidade técnica quanto motivação para forjar o texto.
"Ele basicamente mentiu para mim", declarou à publicação Karen King, especialista em história do cristianismo primitivo que concordou em analisar o fragmento a pedido do empresário, sob a condição de não revelar o nome dele, e que divulgou seu conteúdo durante uma conferência em Roma, em 2012.
Como era de se esperar, o "Evangelho da Mulher de Jesus" chamou a atenção de milhões de pessoas mundo afora. Em copta, o idioma nativo do Egito na época do Império Romano, o texto (do tamanho de um cartão de crédito) continha frases como "Jesus disse a eles: 'Minha mulher'" e "Quanto a mim, habito com ela". Com base em outros textos cristãos antigos, especulou-se que a mulher seria Maria Madalena.
Parecia ser um manuscrito tardio demais para trazer informações relevantes sobre a figura história de Jesus, tendo sido escrito centenas de anos depois de sua morte. Mesmo assim, Karen defendia que a existência do fragmento poderia influenciar o debate sobre sexualidade e celibato nos primeiros séculos do cristianismo.
Para ela, o papiro era um indício de que ao menos algumas correntes cristãs não viam incompatibilidade entre casamento (e sexo) e liderança religiosa.
Logo que imagens do fragmento vieram a público, porém, especialistas questionaram sua autenticidade. Havia esquisitices na caligrafia e no aspecto "limpo" do papiro. E trechos pareciam ter sido simplesmente copiados de outro manuscrito copta famoso, o Evangelho de Tomé, que contém enigmáticos ensinamentos atribuídos a Jesus.
Em 2014, essas dúvidas receberam um golpe quando a Universidade Harvard anunciou o resultado de testes de carbono-14 (método padrão de datar matéria orgânica antiga, o que inclui o papiro) e de análises da tinta. O papiro em si teria sido produzido por volta do ano 750 da Era Cristã, e a tinta era semelhante à encontrada em manuscritos típicos da época entre os anos 400 e 800 d.C.
Isso, porém, não calou os críticos: não seria impossível que um falsificador tivesse comprado um papiro antigo e criasse uma tinta caseira com características semelhantes às usadas entre o fim da Antiguidade e o começo da Idade Média para tentar enganar os especialistas.

COPTA E PORNÔ

Disposto a desfazer o mistério, o repórter Ariel Sabar, da "Atlantic", passou a rastrear como o papiro teria sido passado de mão em mão ao longo das décadas, e o resultado foi uma trama bizarra envolvendo egiptologia, misticismo e pornografia caseira que parece ter saído do best-seller "O Código da Vinci".
Walter Fritz dissera ter comprado o papiro de seu conterrâneo Hans-Ulrich Laukamp, dono de uma pequena fábrica de peças automotivas que também se mudara para os EUA. Laukamp, por sua vez, teria mostrado o fragmento, nos anos 1980, a dois egiptologistas da Universidade Livre de Berlim, que assinaram cartas dizendo ter identificado trechos de antigos textos cristãos no papiro.
Acontece que Fritz não guardou os originais de nenhum desses documentos – só cópias ou fotografias. Além disso, ele declarou à historiadora que era só um colecionador curioso e que não tinha ligações com a comunidade acadêmica.
Não era verdade, descobriu o repórter do "Atlantic" após viagens para a Alemanha e para a Flórida. Fritz fizera mestrado em egiptologia na Universidade Livre de Berlim (poderia, portanto, forjar o texto).
Laukamp, suposto dono original, era um sujeito simples que nunca se interessou por antiguidades ou cristianismo primitivo, segundo seus parentes –mas foi sócio de Fritz, que poderia ter forjado a assinatura do ex-sócio no contrato de venda.
Como se não bastasse, a mulher de Fritz é autora de um livro de "escrita automática" no qual afirma receber revelações místicas de anjos, e os dois mantiveram durante anos um site pornô caseiro no qual o alemão exibia filmes dela fazendo sexo com outros homens (cerimônias com sexo grupal teriam sido parte das tradições de antigos grupos cristãos não ortodoxos, segundo seus detratores).
Em entrevista à "Atlantic", Fritz alegou ter sido abusado sexualmente por um padre na infância e defendeu que os Evangelhos gnósticos –que costumam dar papel de destaque a Maria Madalena– seriam historicamente mais confiáveis do que os da Bíblia, opinião que quase nenhum especialista adota hoje. Fritz ainda convidou o repórter da revista a escrever um romance no estilo de "O Código da Vinci" em parceria com ele.
Tudo isso levou Karen King a admitir que "a balança agora pende a favor da ideia de falsificação", já que Fritz omitiu todas as informações relevantes sobre si mesmo. "Nunca mais concordarei em fazer esse tipo de estudo com base num doador anônimo. Aprendi minha lição", declarou ao jornal "Boston Globe".
Para o frei Jacir de Freitas, franciscano que é um dos principais especialistas do Brasil em textos cristãos apócrifos –que não foram incluídos na Bíblia–, o aparecimento de falsificações desse tipo é natural, considerando o imenso interesse do público sobre o que teria realmente acontecido durante a vida de Jesus.
Por outro lado, isso não altera o fato de que a participação das mulheres na Igreja primitiva provavelmente foi muito intensa, lembra. "Certamente havia mulheres com papel de liderança ativa, e Maria Madalena se tornou uma espécie de símbolo para elas", afirma.


Reprodução da Folha de São Paulo

terça-feira, 7 de junho de 2016

A dupla era trinca

"A Ditadura Acabada" é o fecho augusto do opus magnum de Elio Gaspari sobre o mandarinato militar. No todo, são cinco volumes que somam 3.500 páginas. A bibliografia ultrapassa 700 livros e 200 CDs, com 220 horas de diálogos de Ernesto Geisel com assessores. Cerca de 7.000 notas de pé de rodapé amparam cada informação factual. São mais de 200 os entrevistados.
A abundância dos números é excedida pelos seus predicados: arquivos de figuras-chave da ditadura são contrapostos ao testemunho dos seus opositores e da batelada de neutros que se beneficiou, ou foi vítima, da força militar. Forma-se assim o magma no qual se movem Planalto e Casa Branca; sacristias e sindicatos; cárceres e casernas; células clandestinas e luxuosos gabinetes; a tigrada da direita e o terror da esquerda.
A riqueza do material é fruto da energia plutônica do autor, que há 33 anos rala de madrugada, em fins de semana e férias para escrever os livros. A esse empenho concentrado se somam duas décadas prévias de lida com a ditadura, seja como resistente, réu ou repórter.
Militante do PCB antes de 1964, Gaspari foi preso dois meses na Ilha das Flores (na mesma cela de Darcy Ribeiro). Jornalista, veio a cativar chefes do regime, que lhe franquearam documentos secretos. A vivência particular, a memória de elefante e o gosto pela tecnologia digital lhe permitiram cruzar milhares de dados.
A abundância dificulta a apreciação sumária do trabalho. Os perfis nuançados de centenas de pessoas, a percepção da situação internacional e do seu impacto na cena brasileira, a dialética entre a força do real e os desígnios subjetivos –a complexidade desafia juízos taxativos.
Ainda assim, três afirmações podem ser feitas já no calor da publicação do derradeiro volume. Não há paralelo na historiografia brasileira de uma obra com tal envergadura. É o relato mais abrangente e profundo da ditadura. A série tem a vocação de um clássico.
Fique-se com a definição de Ezra Pound para "clássico", a de uma obra com "juventude eterna e irreprimível". Ela não é a verdade revelada, e sim um ser vivo que é preciso frequentar para entender o passado e o presente. Se somos o que fomos, os que hoje clamam por uma ditadura, e também os que buscam evitá-la, deveriam ler os cinco livros.
Complexidade e abundância não querem dizer barafunda. Uma tese orienta a série: explicar por que dois generais, Geisel e Golbery do Couto e Silva, estiveram à frente do golpe, batalharam para erguer a ditadura e, quando ela estava pronta, desmontaram-na.
Pela equação, exposta no início do primeiro livro, os dois teriam imposto a sua vontade ao país e à política nacional. Terminado o quinto volume, porém, a antítese também se torna válida: o sacerdote e o feiticeiro foram criaturas de forças sociais e históricas.
Fica evidente, igualmente, o papel preponderante de Heitor Ferreira, um capitão de 27 anos quando do golpe. De cultura mais sólida que os seus mentores, ele traduziu Orwell, sabe Churchill de trás para frente, falava sobre música americana com Ivan Lessa de igual para igual.
Foi um conselheiro de uma discrição que quase o tornou invisível. A dupla Geisel-Golbery só pode existir, contudo, porque na verdade foi uma trinca. Mas como a história é incontrolável, os três acharam que João Figueiredo seria um bom presidente. Algo semelhante se deu com Lula e Dilma.



Texto de Mario Sergio Conti, na Folha de São Paulo.

terça-feira, 17 de maio de 2016

Mergulhadores acham estátuas e moedas da época romana em Israel

Um conjunto de estátuas, moedas e outros objetos com 1.600 anos de antiguidade foi encontrado na área do antigo porto de Cesareia, na mais importante descoberta do tipo em 30 anos, anunciaram as autoridades israelenses.
Os israelenses Ran Feinstein e Ofer Raanan encontraram por acaso objetos de bronze quando praticavam mergulho em abril, informou a Autoridade de Antiguidades de Israel.
Os dois alertaram o governo e outros mergulhos permitiram encontrar vários objetos do período romano tardio, vestígios da carga de um navio mercante que aparentemente transportava metal destinado a ser reciclado ou derretido.
Foram encontrados no porto mediterrâneo uma lâmpada de bronze com a imagem do deus Sol, uma estátua da deusa Lua, uma lâmpada com a efígie de um escravo africano, fragmentos de estátuas de bronze e peças com o formato de animais, assim como âncoras e diversos objetos de navegação. A carga também contava com antigas peças de moeda que pesam 20 kg.
Estas peças têm a imagem do imperador Constantino, que reinou primeiro na parte ocidental e depois em todo o império romano até sua morte no ano 337, e a de Licínio, seu rival que reinou na parte oriental e foi derrotado em 324.
Jacob Sharvit, diretor da unidade marítima da Autoridade de Antiguidades, afirmou que o navio aparentemente foi surpreendido por uma tempestade na entrada do porto. Depois ficou à deriva até bater contras as rochas e o dique, após uma tentativa de usar as âncoras, que se romperam pela força das ondas e do vento.
"Não encontramos em Israel uma carga marítima como esta há 30 anos", afirmaram Jacob Sharvit e seu auxiliar Dror Planer, citados em um comunicado. "As descobertas de estátuas de metal são raras porque na Antiguidade eram derretidas", destacam.
Cesareia foi construída pelo rei da Judeia, Herodes, no século I antes de Cristo. Seus importantes vestígios das épocas romana e medieval fazem desta localidade uma das grandes atrações de Israel.


Reprodução da Folha de São Paulo

segunda-feira, 7 de março de 2016

A Itália contra as sete irmãs do petróleo


Das grandes economias europeias do pós guerra, a Itália era a única que não tinha sua empresa de petróleo, elemento essencial para reerguimento da economia saída da guerra.
 
Em 1953, mesmo ano de fundação da Petrobras, foi criado o ENTE NAZIONALI IDROCARBURI-ENI, uma empresa estatal para explorar, refinar e distribuir petróleo. O homem que criou e estruturou a ENI foi Enrico Mattei, funcionário do governo italiano, pai da ideia e chefe único da ENI até o dia de sua morte. um idealista que a partir do zero e com vontade que teve a paixão por iniciar essa grande obra até sua morte em um inexplicado explosão de jatinho  em 1962, acidente que na época despertou graves suspeitas de assassinato e foi enredo um um famoso filme, O CASO MATTEI.
 
A economia italiana é de industrialização tardia, como a alemã, mas com características muito específicas. É uma economia de alianças e compadrios políticos, de arranjos entre o público e o privado, onde ao contrário da transparência tão essencial ao capitalismo estruturado anglo-americano, o segredo, a palavra empenhada, o domínio do "capo" são as alavancas que fazem esse economia funcionar e não a construção institucional tão própria de corporações anglo-americanas, uma economia muito parecida com a economia brasileira pré-Lava Jato, uma ação mais entre amigos do que de organograma.
 
A criação da ENI e sua operação internacional foram consideradas uma agressão ao cartel mundial de petróleo, conhecido como as SETE IRMÃS: Royal Dutch Shell, Anglo Persian Oil Co. (hoje BP), Standard Oil Co.of New Jersey (hoje Exxon), Standard Oil Co. of Califronia (hoje CHEVRON), Standard Oil Co.of New York (depois MOBIL OIL e hoje parte da EXXON), TEXACO (hoje parte da CHEVRON)  e GULF OIL (também parte da CHEVRON).
 
A regra internacional do cartel era dar aos países onde estavam as jazidas um royalty de 27.5% sobre o lucro bruto da exploração, todas davam o mesmo percentual. A ENI chegou oferecendo 50% de royalty, seu primeiro alvo foi a Líbia, depois o Egito, Nigéria, e fez um grande acordo com a SONATRACH, estatal do gás da Argélia. A ENI construiu gasodutos sob o mar Mediterrâneo para trazer gás para a Itália, tinha sua própria empresa de projetos (a SNAM PROGETTI), de consrução (SAIPEM), de gás (LIQUIGAS).
 
A ação da ENI irritou profundamente as Sete Irmãs que tiveram que acompanhar a ENI, diminuindo seus lucros.
 
A ENI foi o detonador mas o conjunto do capitalismo italiano que operava com alianças secretas e acordos nunca muito claros sempre irritou profundamente as corporações anglo-americanas que não conseguiam entender como uma economia aparentemente desorganizada conseguia tanto sucesso que na superfície parecia improvável.  A Itália tinha excelência em automóveis, tratores, motores diesel (FIAT, Lancia, Ferrari, Alfa Romeo), química (Montecatini), siderurgia (Dalmine), material bélico (Oto Melara), farmacêuticos (Carlo Erba) seguros (Assicurazioni Generali di Triestre i Venezia), helicópteros (Agusta), sem falar nos domínios tradicionais de alimentação, tecidos, moda.
 
Um exemplo do modelo de capitalismo italiano foi o MEDIOBANCA, um banco de investimentos de Milão montado pelos grandes grupos italianos com participação do Estado, seu fundador foi Enrico Cuccia, um siciliano, tornou-se o mais poderoso banqueiro italiano, nenhum grande negócio se fazia na Itália sem seu apadrinhamento. Assim como Mattei não era dono da ENI, Cuccia não era dono do Mediobanca, mas era o "capo" que todos respeitavam. Foi obrigado a se aposentar aos 70 anos, uma semana depois a esposa implorou que lhe dessem alguma coisa para fazer no banco para que ele não ficasse em casa mofando, deram-lhe a chefia do setor de expedição e correio, o mais humilde do banco.
 
Dois depois todos se dirigiam a ele e nenhum grande negócio se fechava sem seu consentimento. Porque? No sistema italiano, que vem do Renascimento, o "capo" é um atributo da pessoa e não da instituição, o capitalismo italiano não é institucional e sim pessoal, algo incompreensível para os anglo-americanos, que não suportam um sistema onde não se sabe quem manda pelo cartão de visitas, não é o cargo formal, é o atributo pessoal que faz o poder.
 
Esse capitalismo dinâmico precisava ser desmontado porque era um ponto fora da curva no sistema global.
 
Na sequencia veio a operação Mãos Limpas, para colocar o capitalismo italiano  nos trilhos do sistema global, com o fim do antigo modelo de "capitalismo pessoal" que serviu a Itália por cinco séculos, a Itália teve o primeiro banco da História, criado pelos Medici em Florença e foi a Itália quem inventou o sistema de partidas dobradas, base da contabilidade até hoje.
 
A ENI foi privatizada assim como todos os bancos italianos, que eram estatais, a eletricidade, a Montecatini, a navegação, os estaleiros, as holdings poderosíssimas FINMECANICA, com 400 faáricas e a  ITLSIDER.
 
A Mãos Limpas no processo também desmontou o sistema político que sustentava esse capitalismo, deixando a Itália vulnerável a absorção de sua economia pelas grandes corporações anglo-americanas. Depois disso a Itália praticamente estagnou, entrou em decadência política, social e econômica, perdeu importância relativa, o surgimento de um tipo vulgar como Berlusconi no mesmo Parlamento onde despontaram vultos como De Gasperi e Giulio Andreotti (perseguido pelas Mãos Limpas) é um sinal simbólico desse tempos novos de um capitalismo que perdeu sua identidade nacional.


Texto de André Araújo, publicado no Jornal GGN

domingo, 6 de março de 2016

Orgulho, preconceito e zumbis

Assisti a "Orgulho e Preconceito e Zumbis", de Burr Steers.
Eu não tinha lido o livro com o mesmo título, de Seth Grahame-Smith. Também tinha achado o trailer hilário: involuntariamente cômico. Entrei no cinema, portanto, perguntando-me: o que estou fazendo aqui? Eu logo saberia.
Jane Austen publicou "Orgulho e Preconceito" em 1813. É um grande romance de costumes, que revela os pensamentos e os valores dos (mais ou menos) privilegiados na Inglaterra de 1800. A moral da história ainda vale: por orgulho e preconceito, podemos desperdiçar nossa vida, renunciando a amores verdadeiros.
Apesar dos zumbis, o filme de Burr Steers é fiel ao espírito do livro de Austen. Aliás, diante da ameaça zumbi, algumas personagens adquirem dimensões interessantes: Mr. Darcy e Elizabeth Bennet têm em comum um espirito guerreiro –o qual, aliás, torna inesquecível a famosa "discussão" entre eles.
A Inglaterra de Grahame-Smith e do filme (também ao redor de 1800) deve se defender contra a invasão dos mortos-vivos. Londres é protegida por uma muralha, e quem reside no campo fortificou seu chalé ou seu castelo. Baboseira?
Tempo. Construir uma muralha ao redor da cidade para impedir a entrada dos zumbis? Inventar controles rigorosos para identificá-los? Isso é na Inglaterra de 1800 ou na Europa de 2016? São refugiados ou zumbis se pendurando no trem que atravessa o canal da Mancha? Ou derrubando portões entre Grécia e Macedônia?
Você dirá que os refugiados, à diferença dos zumbis, não mordem. Eu concordo com você, mas não sei se os europeus concordam conosco.
Primeiro, é sempre difícil fazer a diferença entre os que querem entrar para participar do baile e aqueles que, ressentidos, querem acabar mesmo com a festa.
Segundo, faz 1500 anos que os europeus se defendem de zumbis de todo tipo, e a memória coletiva é um tipo de herança genética –ela age em nós, mesmo que a ignoremos.
Em suma, eu fui assistir ao filme porque "sabia"(sem me dar conta) que ele era, para mim, estranhamente familiar –e não penso só na metáfora genérica dos abastados se protegendo dos famintos.
A Europa dos Estados centralizados que protegem seus cidadãos existe só após 1848. E antes disso?
Por que, desde o começo da Idade Média, torres e campanários surgem tão numerosos na paisagem europeia, tanto na costa quanto no interior? Para dar a alerta com sinos que fossem ouvidos de longe. Alerta contra o quê?
Desde o século 7, os europeus sobrevivem numa terra por onde passam hordas e gangues: são normandos, restos de exércitos dispersos, pestilentos sem nada a perder, bandidos. Todos querem saquear, queimar, estuprar, escravizar, matar.
Entre esses zumbis, depois que o Islã ocupou o Norte da África, no século 7, os mais ativos eram os piratas da costa berbere, ligados ao império Otomano. Eles matavam os inúteis e pobres, sequestravam os ricos (para pedir resgate) e vendiam os restantes como escravos.
Só no período final, de 1500 a 1800, na Europa (incluindo Islândia e Inglaterra), os piratas berberes capturaram mais ou menos 1 milhão de cidadãos (cerca de 1% da população de 90 milhões). Miguel de Cervantes, por exemplo, passou cinco anos sequestrado em Argel, esperando que seu resgate fosse pago.
Foram criadas ordens de religiosos, como os Trinitários, que se ofereciam para tomar o lugar dos sequestrados.
A partir de 1096, centenas de milhares de europeus participaram das Cruzadas. Queriam o perdão de seus pecados? Queriam retomar Jerusalém e o Santo Sepulcro? Queriam aventura e saque? Sim, tudo isso, mas o camponês do vilarejo talvez quisesse sobretudo o fim da precariedade de seu destino, ou seja, dos piratas.
O Canavese, de onde minha família é originária, está no norte do Piemonte, longe do mar, perto das montanhas entre Itália e França. Por mais de meio século, desde 911, cada passagem que permitia a travessia dos Alpes era controlada pelos piratas berberes. Grenoble e Sisteron, do outro lado, foram ocupadas por eles; mais perto da costa, foi o caso de Marselha, Narbonne, Carcassonne...
Agora, é verdade: comparados com os zumbis do passado, os refugiados são fichinha. Enfim, veja o filme e divirta-se, enquanto der.
Para saber mais, sugiro começar por Robert Davis, "Christian Slaves, Muslim Masters", da editora Palgrave MacMillan.


Texto de Contardo Calligaris, na Folha de São Paulo