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segunda-feira, 4 de agosto de 2025

Lula acerta ao deixar aliança do Holocausto, usada para silenciar críticas a Israel, diz professor


No mês passado, o governo do presidente Lula retirou o Brasil da Aliança Internacional para a Memória do Holocausto (IHRA).

A decisão gerou uma avalanche de críticas, do governo de Israel à Confederação Israelita do Brasil (Conib), que viu no ato um "retrocesso moral".

Professor do programa de História Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde coordena o Núcleo Interdisciplinar de Estudos Judaicos (Niej), e pesquisador de antissemitismo da Universidade Hebraica de Jerusalém, em Israel, onde fez mestrado e já deu aulas, Michel Gherman diz que "acusar Lula de antissemita" por causa da decisão é um "absurdo".

Gherman, que é judeu, critica duramente a entidade, a quem acusa de ser usada por "um lobby evangélico, branco e de direita" que adota definições de antissemitismo que visam criminalizar críticas a Israel e silenciar a mídia e intelectuais em todo o mundo.

"Transformar a maior liderança política da história do Brasil em alguém que odeia os judeus pode interessar a muita gente. Mas não interessa aos judeus do Brasil. É um erro", afirma.

Ele afirma ainda que Israel "pode e precisa ser criticado" e diz que o genocídio em Gaza ameaça a legitimidade do país.

*

GOVERNO E ISRAEL

O governo Lula se retirou da Aliança Internacional para a Memória do Holocausto (IHRA), o que gerou polêmica na comunidade judaica. Foi uma demonstração de antissemitismo?
Setores amplos da comunidade judaica, inclusive progressistas, têm questionado a saída do Brasil da IHRA. Eu acho que isso se deve a um erro na forma como a decisão foi levada [a público pelo governo].

Mas é fundamental, antes de mais nada, entendermos o que significa a IHRA e por que alguns intelectuais e professores universitários, dentro e fora do Brasil, têm questões com essa organização. Eu sou um deles.

Quais seriam essas questões?
O antissemitismo é tão perigoso quanto o racismo. Ele é uma forma de racismo. Com antissemita não se conversa. Com racista não se conversa. Quando o antissemita senta, você se levanta da mesa. Ele não tem direito de expor suas opiniões porque coloca em risco grupos específicos. Tal qual o racista.

O debate sobre o racismo prepondera porque o grupo que está em risco no país é o dos afrodescendentes. Os judeus não estão em risco cotidiano no Brasil. Mas vamos pensar estrategicamente no que significa acusar um presidente [Lula] eleito três vezes pelos brasileiros de ser antissemita. No que significa acusar a liderança do maior partido de esquerda da América Latina de ser antissemita.

E o que significa?
Significa desconsiderá-lo como alguém com quem é possível conversar. Significa deslegitimá-lo, transformá-lo em alguém que você tem que se levantar da mesa quando ele se senta. É muito sério. É muito grave.

Este presidente [Lula] instituiu o Dia do Holocausto no Brasil [em 2024]. Visitou a sinagoga de Recife, a primeira das Américas. Nunca deixou de falar da importância da existência do Estado de Israel e do papel do Brasil em sua criação.

Na década de 1980, este presidente esteve em Israel quando ainda era apenas uma liderança política. Se encontrou com sindicalistas e com partidos progressistas do país.

E por que o acusam de antissemita?
Essa tentativa de dizer que Lula é antissemita já vem de algum tempo. Eu estudava na Universidade Hebraica de Jerusalém quando Lula visitou Israel e disseram que ele se negou a visitar o Museu do Holocausto. Ora! Eu conheço o guia que esteve com o Lula no museu. Tem fotos da visita.

A saída do Brasil da IHRA se transformou em mais uma oportunidade para setores que, antes de serem judeus e de estarem preocupados com o Holocausto, querem produzir um discurso anti-lulista. A quem interessa dizer que Lula é antissemita?

A quem?
Às pessoas que não querem ver uma liderança como ele novamente na Presidência da República. Lula é visto por setores importantes das classes médias brasileiras como alguém que não pode estar onde está.

E aqui, vamos falar a verdade: Lula erra. E erra muito. Quando ele fala que o que ocorre em Gaza só é comparável ao que Hitler fez com os judeus, é um erro. Houve outros genocídios desde então. Dores não são comparáveis. Ele pode ser criticado por isso.

Agora, transformar aquela que, segundo historiadores importantes, é a maior liderança política da história do Brasil, eleito presidente três, talvez até quatro [caso concorra e vença em 2026], em alguém que odeia os judeus pode interessar a muita gente. Mas não interessa aos judeus do Brasil. É um erro.

[Entidades judaicas] Chamam ele de antissemita e depois pedem um encontro? Querem conversar?

Eu queria insistir no questionamento sobre a saída do Brasil da IHRA.
Vamos lá. A IHRA foi criada em 1998 para manter a memória e combater o negacionismo histórico do Holocausto —fruto de um antissemitismo contemporâneo que produz a ideia de que o judeu é tão forte e tão poderoso que domina o mundo a ponto de criar a história de um genocídio contra si.

Ele cria a ideia de que, diante de um grupo tão poderoso, a destruição e o extermínio são as únicas possibilidades.

E por que a IHRA passou a ser questionada?
A partir da segunda década dos anos 2000, a IHRA passou a ser instrumentalizada por grupos conservadores, por lobistas dos EUA que defendiam não só a existência de Israel mas, fundamentalmente, as práticas políticas do governo de Israel. E esses grupos incorporaram na definição de antissemitismo da IHRA elementos que podem controlar o debate público.

O que isso significa?
Significa, por exemplo, que dizer que Israel tem políticos comparáveis aos nazistas será considerado antissemita.

Como historiador, eu digo que há, sim, possibilidade concreta de se comparar discursos de um Ben-Gvir [ministro da Segurança de Israel], de um [Bezalel] Smotrich [ministro das Finanças de Israel], com os [discursos] dos nazistas.

O nazismo é um fenômeno histórico. Ele não existiu para nunca mais se repetir. Ele foi derrotado militarmente, mas segue existindo como ideia. O judeu foi vítima do nazismo não porque era judeu, mas porque o nazismo decidiu que ele seria vítima.

Nada no judeu justifica o preconceito contra ele, e principalmente o seu extermínio. Da mesma maneira, nada no judeu justifica a ideia de que ele não pode produzir-se nazista. Isso é história!

Um judeu pode ser nazista?
É claro. O preconceito, a discriminação, a percepção de que a alteridade [colocar-se no lugar do outro] deve ser exterminada é produto de condições históricas específicas. Da mesma maneira que o judeu pode ser vítima disso, por que ele não pode ser algoz ou elemento? O que o judeu tem de especial que não pode produzir racismo contra outro grupo?

ARMA POLÍTICA

O senhor pode citar exemplos?
Os discursos de Ben-Gvir e de Smotrich afirmando que não há inocentes em Gaza podem, sim, ser comparados aos dos nazistas que produziram a ideia de que não havia inocentes nas aldeias judaicas do leste da Europa.

Eu seria antissemita ao dizer isso? É claro que não. O que as definições da IHRA andam produzindo é a perseguição contra intelectuais. Inclusive intelectuais judeus. E hoje conservadores, inclusive não judeus, são os maiores defensores da IHRA.

No Brasil, quem levou adiante o projeto de lei que implementa [as diretrizes da IHRA] foi o [ex] ministro [da Saúde, Eduardo] Pazuello.

Jair Bolsonaro era candidato em 2017 quando foi a um clube judaico e disse, por exemplo, que os quilombolas são animais e não servem nem para reproduzir. Que há raças boas e ruins. Eu não posso acusá-lo de ter um discurso com gramática nazista? Seria banalização?

Banalização é não falar sobre o nazismo. A sacralização de um fenômeno histórico produz a incapacidade de ele ser relevante. A história não é sagrada. Ela precisa ser estudada e comparada. Se o nazismo nunca mais vai se repetir, por que eu tenho que estudá-lo?

Como se deu o que senhor chama de instrumentalização do antissemitismo?
O antissemitismo é um fenômeno importante, histórico e perene, que segue existindo e ameaça a democracia. Mas setores da direita têm utilizado o antissemitismo como uma espécie de racismo contra brancos. E isso é muito perigoso.

ANTISSEMITISMO

Por que?
É como se fosse possível competir. "Ah, vocês estão falando dos negros, mas os judeus [também] foram perseguidos." A direita pretende, e esse é o risco, dizer que os brancos podem também ser vítimas de racismo colocando, para isso, os judeus como brancos.

A tomada da IHRA pela direita, portanto, tem a ver com dois elementos: o primeiro deles é na perspectiva de uma gramática racista contra brancos - aquilo que chamam de racismo reverso.

O segundo é o vínculo da direita, judaica ou não judaica, com a ideia de que criticar as práticas de Israel, criticar o governo de Israel de maneira radical é antissemitismo. Israel pode e precisa ser criticado. Quem considera que críticas a Israel são não legítimas não entende o que significa a existência de Israel como estado normal para um povo normal que lá vive.

Essa compreensão de que não se pode criticar Israel não só é equivocada, como ela produz antissemitismo. São definições [de antissemitismo da IHRA] que permitem a perseguição a intelectuais. Nos EUA, na Alemanha, isso já está acontecendo com muita frequência.

ALIANÇA DO HOLOCAUSTO

E no Brasil?
O governo brasileiro não poderia entrar na IHRA neste momento, principalmente por causa do uso político que a extrema direita faz da questão judaica e de Israel. Acusar o Lula de antissemita [porque o governo deixou a IHRA) é um absurdo.

Justificar a existência da IHRA como referência única no debate do Holocausto é absurdo. Ela deixou de ser vinculada exclusivamente à memória do Holocausto e é [hoje] vinculada a Israel e a definições questionáveis de antissemitismo.

O que eu estou propondo é que haja a possibilidade de o governo incorporar definições mais democráticas de antissemitismo e de memória do Holocausto que constituem menor risco à democracia. Que não são uma ameaça de silenciamento aos intelectuais e à mídia.

Eu justifico aqui a existência da Declaração de Jerusalém, que é assinada por intelectuais israelenses e palestinos contra o antissemitismo como fenômeno da modernidade.

O lobby que garante a IHRA como referência não é judaico. Ele é evangélico, branco e de direita.

Com raízes nos EUA?
O próprio Netanyahu fala que seus grandes aliados não são mais os judeus. O apoio que os judeus dos EUA dão ao Partido Democrata chega a 80% nas eleições. É histórico e perene.

É claro, portanto, que não estamos falando de um lobby de massas judeu a favor do Partido Republicano [de Donald Trump].Estamos falando de outra coisa.

E qual é a outra coisa?
É o sionismo cristão. É a ideia de Israel ser apoiado por grupos brancos e cristãos. É o famoso nacionalismo cristão citado pelo [teólogo] Ronilson Pacheco, com quem estou escrevendo um livro, e que parte de uma gramática e de uma perspectiva de conversão final dos judeus ao cristianismo.

E, nessa perspectiva do evangélico, se o Holocausto é sagrado, e não produto de um processo histórico, ele é sacrificial. Há uma relação vinculante entre as vítimas e o que aconteceu com elas. Por isso, é fundamental que ele seja separado dos outros genocídios. É isso que produz a ideia de vincular o Holocausto a Israel e ao sionismo.

A ordem pós-Segunda Guerra Mundial está sendo agora ameaçada pelo Trump, que coloca Israel no lugar que ele quer. Que é o lugar dos evangélicos de direita. Dos evangélicos brancos. De uma branquitude, e não dos judeus como povo que tem direito a um território.

GUERRA

O que ocorre em Gaza é um genocídio?
Vou me apropriar das palavras de um intelectual de altíssimo nível, o [professor de estudos sobre Holocausto da Universidade Brown, nos EUA] Omer Bartov: "Eu sou um pesquisador do genocídio, eu reconheço um quando eu vejo". Como disse a historiadora Hannah Yablonka, dos Museus dos Guetos em Israel, uma referência em estudos do genocídio: o que acontece em Gaza é produto de vingança, e não de estratégia. E vingança produz genocídio.

Por que é tão difícil, para muitos judeus, aceitar críticas a Israel sem entendê-las como antissemitas?
É preciso entender a dificuldade que pessoas com vínculos radicais com Israel, como eu, têm de dizer que o país está praticando genocídio.

Nós vivemos a vida inteira falando sobre "nunca mais" e memória do Holocausto. Quando falamos sobre genocídio, nos colocamos num lugar fundamentalmente difícil e dolorido.

Eu reconheço que o que acontece em Gaza é genocídio. Isso não significa que não me dói. Essa geração, e a geração dos meus filhos, que têm família em Israel, vão crescer sendo acusados de que o país com quem têm vínculos profundos praticou um genocídio.

Entender isso é fundamental. Os judeus que estão aqui no Brasil comendo em restaurante kosher, indo em sinagogas, indo para a praia, não são israelenses. Não têm poder de decisão. Essas pessoas precisam ter tempo para entender que nada justifica o tamanho da tragédia que o Exército israelense está produzindo em Gaza.

É como se fosse um negacionismo?
Esse é o risco. Se você começa a negar o genocídio dos outros, o seu genocídio vai ser negado.

Não é um debate político e ideológico. É um debate sério, sociológico, historiográfico e jurídico. E que precisa ser feito. É preciso que se exija de Israel que ele funcione a partir da lógica que o fundou. Israel precisa refazer-se a si próprio. Um país que ocupa territórios produzindo não-cidadania nos ocupantes está sob risco grave de legitimação.

E se isso não acontecer?
Se não funcionar efetivamente a partir da criação de um Estado palestino a seu lado, ou de alguma configuração que permita o retorno de direitos às populações que foram expulsas daquele território, Israel vai seguir existindo. Mas vai perder a sua legitimidade. Com tudo o que está acontecendo agora, a gente vê que isso é absolutamente concreto.


Reprodução parcial da coluna de Mônica Bérgamo na Folha de São Paulo.

quarta-feira, 24 de julho de 2024

Terra prometida, terra sem paz


O Parlamento de Israel rejeitou a criação de um Estado palestino na quinta-feira (18). No dia seguinte, a Corte Internacional de Justiça, em Haia, julgou que a ocupação israelense nos territórios palestinos da Cisjordânia, do Golã e de parte de Jerusalém é ilegal e deve ser encerrada.

E nada aconteceu. Nem palestinos nem israelenses comemoraram ou protestaram. Faz 47 anos que a ocupação da Cisjordânia é considerada ilegal pela Assembleia e pelo Conselho de Segurança da ONU e pelos últimos seis presidentes dos EUA. Mas Israel sempre foi (e vai) em frente: criou 144 colônias nos territórios ocupados em 1967, na Guerra dos Seis Dias, e nelas vivem hoje 500 mil colonos —e mais 220 mil em Jerusalém Oriental. Ainda sobra espaço para um Estado palestino? Não.

O primeiro-ministro, Binyamin Netanyahu, respondeu à Corte de Haia no domingo (21): "O povo de Israel não é um ocupante em sua própria terra e em sua capital eterna, Jerusalém". É a terra prometida por Deus a Abraão, a Judeia e Samaria bíblicas.

A terra prometida foi parcialmente ressuscitada em 1948, pela ONU. Prometida, mas não protegida e imune a ataques desde o primeiro dia de independência —Israel consolidou uma política de ocupação que considera essencial à sua segurança. E que, na prática, inviabiliza um Estado palestino.

A conquista do deserto do Sinai, da Cisjordânia e de Jerusalém Oriental, de Gaza e do Golã, na guerra contra o Egito, Síria e Jordânia, era para ser provisória. Eu vivia ao lado de Gaza, como voluntário, no kibutz Reim, devastado no ataque do Hamas de 7 de outubro de 2023. Arava o deserto à noite, com a escolta de um árabe druso armado, porque o farol aceso do trator poderia atrair atacantes palestinos. Era a época em que o Partido Trabalhista estava no poder, com Levi Eshkol. Foi ele quem criou a primeira colônia nos territórios conquistados, Kfar Etzion, ao sul da Cisjordânia, em setembro de 1967.

A base dos trabalhistas para a colonização foi o Plano Alon, de Yigal Alon, que chegou a ser primeiro-ministro interino. Ele previa a anexação de Jerusalém Oriental, de Gush Etzion e do Vale do Jordão, e funcionou até o governo de Yitzhak Rabin.

Muitas colônias nasceram como Nahal, ou postos militares, e depois foram entregues a civis. Isso porque, para uso militar, as terras podem ser confiscadas.

Com o primeiro-ministro Menachem Begin, em 1977, a colonização deu um salto. Os religiosos e nacionalistas o saudaram como aquele que resgataria toda a "terra prometida" — um novo "messias". Ele só devolveu o Sinai, em troca da paz com o Egito, e a colônia de Yamit, a "nascida do mar".

Acusado de criar "obstáculos à paz", com as colônias que brotavam por todos os territórios sob negociação, com status a definir, o premiê Begin nunca se intimidou. "Provisório", era a sua justificativa, sempre. Israel anexou Jerusalém Oriental e o Golã, da Síria, por leis aprovadas pelo Parlamento, e saiu em 2005 de Gaza, que agora está destruindo em represália ao massacre do Hamas, com mais de 1.500 israelenses e 38 mil palestinos mortos.

O governo atual de Netanyahu está sob pressão do acordo de coalizão feito em 1º de dezembro de 2022, com o partido de extrema direita e ultranacionalista Sionismo Religioso, para estender a soberania israelense sobre a Judeia e Samaria —ou a Cisjordânia, a "terra prometida" pelo presidente Joe Biden aos palestinos.

O ex-presidente Donald Trump transferiu a embaixada dos EUA de Tel-Aviv para Jerusalém e reconheceu a soberania de Israel sobre as colinas sírias do Golã. Lá, desde 2019, ele ganhou, em gratidão, uma comunidade batizada de Ramat Trump, ou Colina de Trump, numa altitude maior que o prédio Trump Tower, em Nova York. O ex-presidente pode ser eleito neste fim de ano, para alegria de Netanyahu, que tem um discurso previsto para as duas Casas do Congresso, em Washington, nesta quarta-feira (24).

Sem Biden e sem os democratas na Casa Branca, o projeto da Palestina pode desaparecer, no Oriente Médio sem paz.


Reprodução de texto de Moises Rabinovici na Folha de São Paulo

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

Lula está certo sobre Gaza e não é antissemita


Desde que Lula evocou o Holocausto para denunciar a destruição de Gaza por Israel, a grande mídia brasileira se uniu, com raras exceções, para condená-lo. Na segunda-feira (19) à noite, o jornalista William Waack afirmou na CNN Brasil que a declaração de Lula "ofende judeus no mundo inteiro".

Deixando de lado a incongruência que é ver William Waack se colocar como vigilante da intolerância e fiscal do que se pode dizer no discurso público, a pergunta que faço é: com base no que ele se coloca como porta-voz dos "judeus no mundo inteiro"?

É verdade que a declaração de Lula enfureceu o governo do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, que declarou Lula "persona non grata" em Israel. Mas equiparar o governo de Israel a "judeus no mundo inteiro" não é só falso, é também antissemitismo.

Como todos os grupos, os judeus não são um monolito. Qualquer pessoa que, como eu, tenha crescido numa família judaica e imersa nessas tradições sabe que o grupo passa longe de ser homogêneo. Há dentre os judeus discussões e divergências sobre os mais diversos assuntos, inclusive o Estado de Israel, o tratamento desumano dispensado aos palestinos e a abjeta imoralidade da destruição de Gaza.

Um mês antes do ataque do Hamas de 7 de outubro, o ex-chefe do Mossad, agência de inteligência israelense, Tamir Pardo —indicado por Netanyahu— afirmou que Israel impõe "uma forma de apartheid aos palestinos". Muitos líderes Israelenses, incluindo o ex-primeiro Ministro Ehud Barak, já disseram o mesmo.

O jornalista judeu brasileiro Breno Altman vem repetidamente comparando as ações de Israel em Gaza ao nazismo, ao ponto de estar sendo investigado pela Polícia Federal por expressar sua visão. Um grupo de judeus brasileiros, conforme relatado pela Folha, emitiu uma nota para defender as declarações de Lula.

Nesta semana, a escritora judia russa Masha Gessen recebeu o Polk Award, o segundo prêmio mais importante no jornalismo dos EUA, por seu brilhante ensaio na revista New Yorker intitulado "Na Sombra do Holocausto". No texto, Gessen aponta como o Holocausto é frequentemente evocado para silenciar as críticas aos crimes de guerra de Israel.

Gessen cita a filósofa Hannah Arendt, judia que em 1948 comparou grupos sionistas extremistas ao Partido Nazista, tanto em sua mentalidade quando em suas táticas —isso tudo menos de três anos depois do fim da Segunda Guerra.

No mesmo ano, o físico judeu Albert Einstein e outros importantes intelectuais judeus publicaram uma carta comparando os métodos de atuação de Menachem Begin, o terrorista sionista que se tornaria depois primeiro-ministro de Israel, aos dos nazistas.

Em seu artigo, Gessen documenta como os intelectuais judeus mais importantes do pós-guerra insistiam que as lições do Holocausto deveriam ser aplicadas universalmente, e que nenhum país ou grupo, sionistas inclusive, deveria se furtar de absorver esse aprendizado.

Gessen então descreve como, visitando os museus do Holocausto pelo mundo, se lembrava do sofrimento da população de Gaza nas mãos de Israel.

Sabendo então dessa enorme pluralidade no seio da comunidade judaica, como explicar a pretensão de uma pessoa como William Waack, que, como a grande maioria da mídia brasileira, se sente no direito falar em nome dos judeus e de impor limites às discussões sobre o Holocausto? E os judeus que rejeitam os ditames dos Netanyahu do mundo, quem falará por nós?

Equiparar as ações do governo de Israel à totalidade dos judeus do mundo é ofensivo. Todas as pesquisas mostram que o público israelense se voltou fortemente contra Netanyahu e espera ansiosamente para depô-lo. Há protestos contra ele, liderados por judeus israelenses, todos as semanas. São judeus muitos dos líderes mais vocais em suas denúncias de que a guerra em Gaza é um genocídio.

Mas há ainda um tema muito mais importante trazido à tona pela controvérsia: a quem pertence a memória do nazismo e da Segunda Guerra? Existe alguém com legitimidade para ditar como o Holocausto pode ser discutido, por quem, e com que agenda política? Existem países específicos cujas ações estão imunes, por algum motivo, às comparações com os piores abusos da Segunda Guerra? Se sim, essa imunidade se baseia em quê?

Quando a Segunda Guerra terminou e a real dimensão do Holocausto foi revelada, os países aliados, uma vez vencedores, decidiram não executar imediatamente os líderes nazistas. Em vez disso, foi realizado um processo jurídico transparente, conhecido como o julgamento de Nuremberg.

O objetivo era publicizar e legitimar o veredito —e, mais que isso, mostrar ao mundo as evidências das atrocidades cometidas pelos nazistas para, acima de tudo, estabelecer os princípios pelos quais os países deveriam se guiar no futuro.

O procurador-chefe dos EUA no julgamento, Robert Jackson, enfatizou em suas colocações iniciais que a maldade nazista se repetiria no futuro. "Esses prisioneiros nazistas representam uma influência sinistra que continuará no mundo mesmo depois que seus corpos retornarem ao pó."

Referindo-se às sentenças contra criminosos nazistas específicos, Jackson disse: "Se esse julgamento for ter alguma utilidade no futuro, deverá servir para condenar também a agressão de outras nações, inclusive as que aqui estão na posição de julgadoras".

Os horrores do Holocausto não foram uma lição sobre a maldade dos alemães ou a vulnerabilidade dos judeus. Foram uma lição sobre a natureza humana e a nossa capacidade para o mal, e como sociedades sofisticadas e educadas podem sucumbir a impulsos genocidas. Por isso, as sentenças proferidas em Nuremberg não podem dar a qualquer país, incluindo Israel, uma justificativa para suas próprias ações. Pelo contrário: os crimes do Holocausto não podem ser repetidos por nenhum país, nunca mais.

Os horrores da destruição de Gaza por Israel já estão visíveis para todos que quiserem ver. O ministro da Defesa israelense, Yoav Gallant, prometeu no início da guerra: "Estamos impondo um cerco total a Gaza. Nem eletricidade, nem comida, nem água, nem combustível. Tudo bloqueado". O motivo: "Estamos lutando contra animais e agimos em conformidade".

Hoje podemos ver que essa promessa, bem como a ideia de que os palestinos são sub-humanos, não era blefe. Segundo relatório da ONU, de todas as pessoas do mundo que enfrentam a fome extrema, 80% estão em Gaza. Trata-de se uma crise humanitária sem paralelo, diz o texto. Há inúmeros casos, incontroversos e amplamente documentados, de crianças à beira da morte por fome.

Ao menos 29 mil pessoas foram mortas em Gaza desde que Israel começou a retaliação aos ataques do Hamas de 7 de outubro: 70% são mulheres e crianças. A destruição da vida civil em Gaza é pior do que qualquer guerra que o mundo tenha visto no século 21.

Mais bombas foram lançadas por Israel em Gaza, um território pequeno e densamente povoado, na primeira semana do conflito armado (cerca de 6.000) do que foram jogadas anualmente pelos EUA no Afeganistão, de 2013 a 2018 (nesse período, nenhum ano registrou mais de 4.400 bombas), segundo dados da Força Aérea israelense e da Central das Forças Aéreas dos EUA.

Ninguém, nem mesmo Lula, está sugerindo que a escala das mortes em Gaza seja comparável ao Holocausto. O que muitas pessoas estão dizendo —inclusive alguns dos intelectuais judeus mais proeminentes do mundo, como Masha Gessen— é que os mesmos princípios de desprezo pela vida e desumanização coletiva que culminaram no Holocausto estão também por trás da destruição de Gaza.


Texto de Glenn Greenwald na Folha de São Paulo

segunda-feira, 4 de setembro de 2023

Embaixada de Israel no Brasil declara que Israel não é estado de apartheid


"(...) a embaixada de Israel no Brasil diz, em nota, que o país não é um "Estado de 'apartheid', nem para seus cidadãos árabes, que estão inseridos em todos os campos da sociedade israelense, nem para os palestinos na Cisjordânia".

"No caso da Cisjordânia, por conta dos riscos para a segurança, precisamos agir para garantir a proteção dos cidadãos israelenses, o que em muitos casos afeta a vida dos palestinos que lá residem. O futuro da Cisjordânia é objeto de diálogo entre Israel e a Autoridade Palestina e sua posição legal é de 'território em disputa', a ser discutida bilateralmente", afirma ainda a nota."


Reprodução de parte da coluna de Mônica Bergamo na Folha de São Paulo

domingo, 31 de outubro de 2021

Onda de violência leva a recorde de assassinatos de árabes-israelenses


Amro Abu Jabareen, 26, dá marcha a ré em um beco sem saída em meio a tiros de fuzil. Acaba batendo em um carro e sai correndo, a pé. Outro veículo o persegue e ouvem-se mais rajadas.

As imagens de uma câmera de segurança da cidade israelense de Umm Al-Fahm, que parecem tiradas de um filme de ação, não mostram o momento exato do homicídio, mas Jabareen entrou para a estatística.

Ele se tornou o morto de número 104, desde janeiro deste ano, entre a minoria árabe de Israel. O assassinato aconteceu às 6h (horário local) do último dia 20, um dia depois de outro homicídio na mesma cidade, o de Khalil Ja’u, 25, baleado ao sair de casa para trabalhar.

Com esses números, 2021 caminha para se tornar o ano mais sangrento de uma onda de homicídios violentos entre a minoria árabe-israelense, que começou há pelo menos cinco anos.

Dados compilados pelo jornal Yedioth Aharonoth mostram que, em 2015, de um universo de 111 crimes desse tipo, 58 vitimaram pessoas de origem árabe (52%).

proporção seguiu em trajetória de alta até o ano passado, quando esse grupo representou 78% dos mortos em 138 homicídios violentos cometidos em Israel. Em 2021, até o dia 1º de outubro, já foram 130 crimes do gênero, com os árabes-israelenses sendo 77% das vítimas.

Não se trata, porém, de uma guerra civil entre a maioria judaica (75% da população) e a minoria árabe (21%), e tampouco há soldados ou policiais envolvidos nos ataques. Quase sempre, a violência é fruto de brigas entre famílias árabes-israelenses ou de disputas relacionadas a gangues locais, cada vez mais equipadas com armamento ilegal contrabandeado ou roubado de bases militares.

As vítimas são, em geral, criminosos conhecidos ou membros das famílias. Mas, às vezes, apenas pessoas que estavam no lugar errado, na hora errada.

"A situação é catastrófica", diz Maisam Jaljuli, ativista política e cofundadora da ONG Sikkuy (chance, em hebraico). "O que se escuta no noticiário é só a ponta do iceberg. Quantas pessoas são feridas todos os dias, quantas casas são baleadas, quantos carros são incendiados? Isso ninguém conta."

Jaljuli diz que o clima na cidade onde vive, Tira (a 30 km de Tel Aviv), é de medo. "Crianças escutam tiros todos os dias e já sabem até diferenciar se são de pistola ou de fuzil. Nossos jovens estão traumatizados."

A maioria dos árabes de Israel (cidadãos israelenses ou palestinos com autorização de residentes) vive em vilarejos próprios, em geral nas periferias ou em cidades mistas como Haifa, Acre e Jerusalém.

Para a ativista, a explosão da criminalidade é resultado da negligência dos governos israelenses em relação a esses locais, que se transformaram no que ela chama de uma espécie de "velho oeste", com gangues atuando como um poder paralelo.

Muitos pedem mais presença policial, apesar da desconfiança em relação às autoridades. Uma pesquisa do site Walla em dezembro de 2020 mostrou que só 17% dos árabes-israelenses disseram confiar na polícia e que pouco mais de 60% não se sentiam seguros.

Para os ativistas, o problema só será resolvido quando Israel encarar questões mais profundas, como a falta de investimento em infraestrutura, educação e emprego nas cidades árabes —além do preconceito.

A sensação, entre os árabes de Israel, é a de que suas vidas valem menos do que as dos judeus. A hashtag #arablivesmatter (vidas árabes importam) explodiu nas redes em setembro para expressar frustração com o desamparo e a inação da polícia local, além da aparente apatia dos judeus do país.

"[Isso é fruto de] dezenas de anos de negligência, de descaso e de medo de enfrentar o cerne do problema, além da predominante suposição de que, ‘enquanto eles matarem uns aos outros, é problema deles’", resumiu o ministro da Segurança Pública de Israel, Omer Barlev, no Twitter.

Mas ele não deixou de apontar para a liderança árabe. "Vamos colocar as cartas na mesa: não são apenas famílias criminosas, é um fenômeno generalizado liderado por extremistas que assumiram o controle das ruas árabes e que se manifesta, entre outras coisas, em armas ilegais."

Há um mês, o primeiro-ministro Naftali Bennett lançou um plano nacional para combater o fenômeno e designou um novo departamento de polícia para lidar com a questão, deslocando duas unidades da polícia de fronteira. "Quem vive em Taybe [cidade árabe] merece a mesma segurança física dos que vivem em Kfar Saba [cidade judaica]'', disse.

Na semana passada, o vice-ministro de Segurança Interna, Yoav Segalovich, apresentou mais um plano para melhorar a situação em apenas seis meses, com o uso de dissuasão e punições mais severas.

Como novo "projector" (espécie de czar) na luta contra a violência no segmento árabe-israelense, ele planeja enviar mais policiais para as cidades árabes e, paralelamente, monitorar o fluxo de dinheiro das gangues e clãs envolvidos.

"Quero fazer algo rápido, uma operação governamental envolvendo vários ministérios e órgãos", explicou Segalovich, um ex-policial que chefiou a Divisão de Investigações e Inteligência da Polícia, à rádio Kan Bet.

"Não ignoro que o nível de confiança dos cidadãos nas instituições é baixo, mas temos que encontrar soluções. As pessoas estão morrendo."

Uma das medidas já aprovadas é a liberação de mandados de busca e apreensão sem necessidade de autorização judicial em casos de "suspeita razoável" de porte de armas ilegais, o que gerou críticas de grupos de defesa dos direitos humanos.

"A decisão indica tratar os cidadãos árabes como ameaças à segurança do país, com tratamento hostil e desigual", afirmou, em comunicado, a ONG Adalah. "Continua a tendência de tratá-los como inimigos estrangeiros."

O Exército não estará envolvido, já que apenas lida com perigos além das fronteiras. Mas a Agência de Segurança de Israel (também conhecida como Shabak ou Shin Bet) poderá compor a operação se acionada —com métodos usados no conflito com os palestinos, que envolvem, entre outros, interrogatórios mais duros e alistamento de informantes.

Para o parlamentar Esawi Frej, do partido de esquerda Meretz, a situação é grave demais para esperar um tratamento profundo, que pode durar anos. "A casa está pegando fogo. A vida é mais importante do que direitos humanos neste momento", disse, em debate sobre o assunto no Knesset, o Parlamento de Israel.


Reportagem de Daniela Kresch, na Folha de São Paulo

sexta-feira, 20 de março de 2020

Combate ao coronavírus sela cooperação entre israelenses e palestinos

Uma trégua improvável está sendo selada entre israelenses e palestinos, que estão colaborando para evitar o aumento da contaminação pelo coronavírus na Terra Santa.
Nas últimas três semanas, representantes dos dois lados têm se encontrado para coordenar medidas em um escritório de monitoramento conjunto —cujo endereço é mantido em segredo.
“A saúde de todos os cidadãos da região está acima de tudo, e é nossa principal prioridade. Continuaremos a agir em colaboração com a Autoridade Palestina em um esforço conjunto", diz o major Yotam Shefer, chefe do departamento internacional da administração civil israelense na Cisjordânia.
Israel anunciou que enviará 20 toneladas de desinfetante para a Cisjordânia, além de 400 kits para realização de testes de detecção do coronavírus, além de outros 500 kits de equipamentos de proteção para as equipes médicas e as forças de segurança palestinas.
Há workshops conjuntos entre as equipes médicas dos dois lados. Também está sendo montado um hospital de campanha na fronteira com a Faixa de Gaza.
A mais recente medida foi o anúncio da permissão para que 70 mil trabalhadores palestinos cruzem a fronteira com Israel para manter seus empregos no país. A maioria trabalha em setores como construção civil, agricultura, indústria e serviços.
O número permitido durante a pandemia é um pouco menor do que o normal —100 mil palestinos costumam trabalhar diariamente em Israel. Mas a crise econômica causada pelo vírus já diminuiu os postos de trabalho.
A rotina também será diferente, porque esses trabalhadores palestinos não poderão voltar para casa no fim do dia —a fronteira com a Palestina será fechada nesta quinta-feira (19), com exceção da passagem de doentes e equipes médicas.
Os palestinos terão que ficar direto em Israel por um ou dois meses e deverão ser hospedados pelos empregadores israelenses em residências temporárias.
Caso haja suspeita de contaminação pelo coronavírus, os empregadores precisam dar condições para que o trabalhador fique em quarentena por 14 dias. Se algum palestino adoecer e precisar ser hospitalizado, será atendido em hospitais locais.
A medida tem como objetivo manter a economia israelense parcialmente em funcionamento para evitar uma crise mais profunda. As autoridades afirmam acreditar que 400 mil pessoas já perderam ou vão perder o emprego nas próximas semanas.
Israel contabiliza, até esta quarta-feira (18), cerca de 500 casos de contaminação, cinco dos quais de pacientes em estado grave. Não houve nenhuma morte atribuída à Covid-19 até o momento.
Para tentar conter a disseminação do vírus, o governo proibiu reuniões com mais de dez pessoas e ordenou a manutenção de apenas 30% da força de trabalho em repartições públicas e empresas privadas.
Lojas, com exceção de supermercados e farmácias, e todo o setor de entretenimento estão fechados.
O anúncio mais polêmico, no entanto, foi o da utilização de tecnologia avançada para rastrear os telefones celulares de pacientes com coronavírus e indivíduos suspeitos de estarem infectados.
Até hoje, o sistema era usado apenas pelo Serviço de Segurança (Shin Bet).
O major Shefer elogiou os esforços dos palestinos para contar a epidemia na região. “Eles estão levando tudo a sério”, afirmou, apontando medidas como a proibição das rezas em mesquitas e igrejas.
Os “muezim” (encarregados de anunciar em voz alta, do alto dos minaretes, o momento das preces) têm repetido as palavras “rezem em casa, rezem em casa”. O vaivém de pessoas diminuiu drasticamente nas cidades palestinas, que mantêm apenas serviços básicos abertos.
O presidente de Israel, Reuven Rivlin telefonou nesta quarta para o presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, para falar sobre os efeitos do coronavírus na região.
"O mundo está lidando com uma crise que não distingue pessoas ou endereços. Nossa capacidade de trabalhar juntos em tempos de crise também é prova de nossa capacidade de trabalhar juntos no futuro para o bem de todos nós", disse Rivlin. Abbas agradeceu a coordenação de esforços.
Até esta quarta-feira (18), o Ministério da Saúde palestino havia registrado 44 doentes com Covid-19, a maioria (40) em Belém. A cidade foi colocada em quarentena e está fechada para turistas, assim como a Igreja da Natividade.
Israelenses e palestinos colaboraram para retirar mil estrangeiros da cidade.
Três infectados com coronavírus são palestinos que voltaram do exterior pela ponte Allenby, na fronteira entre a Cisjordânia e a Jordânia. E há um caso de um trabalhador palestino de construção civil que teria sido contaminado pelo contato com um empreiteiro israelense.
A liderança do grupo islâmico Hamas, que controla a Faixa de Gaza, proibiu a entrada ou saída no enclave, fechando a fronteira com o Egito.
Na Esplanada das Mesquitas, em Jerusalém, onde fica a sagrada mesquita de Al-Aqsa), as orações ainda são realizadas. Mas líderes religiosos da Jordânia —que têm autoridade sobre a esplanada, apesar de ela ficar em Jerusalém— emitiram diversas orientações para que os fieis não fiquem próximos uns dos outros e rezem do lado de fora da mesquita, que tem sido constantemente esterilizada.
Segundo uma pesquisa do Instituto Truman para Paz da Universidade Hebraica de Jerusalém, 63% dos israelenses afirmam que Israel deve ajudar os palestinos durante a crise do coronavírus.
“A maioria dos israelenses acredita que, quando houver necessidade, o governo deve traçar medidas preventivas para ajudar os palestinos durante a epidemia da Covid-19”, disse Vered Vinitsky-Serousse, presidente do Instituto.

Reprodução da Folha de São Paulo.

segunda-feira, 15 de julho de 2019

As lições do 'Senhor Israel'

Há exatos 60 anos, terminava longevo capítulo da carreira de um personagem marcante na diplomacia do século 20. O israelense AbbaEban retornava para casa após cerca de dez anos como embaixador nos EUA e representante junto à ONU; ele comandaria ainda o ministério das Relações Exteriores e se transformaria numa das faces mais célebres de seu país. Ganhou o epíteto de "Senhor Israel".
Para David Ben-Gurion, patriarca da independência, Eban foi "a voz da nação hebraica". O diplomata, que morreu em 2002, aos 87, deixou como legado alicerces da relação entre EUA e Israel, a busca pela convivência pacífica entre países do Oriente Médio e articulação diplomática famosa pelos ingredientes de singular sofisticação intelectual.
Eban enfrentou o fracasso em 1988, quando, após quase trinta anos de mandatos seguidos no Parlamento, não se reelegeu. Dono de fina ironia, disse certa feita que conseguiria chegar ao cargo de primeiro-ministro "se as pessoas de fora do país pudessem votar nas eleições israelenses".
Como a maioria dos líderes sionistas de sua geração, representada por Ben-Gurion e Golda Meir, Eban lia a cartilha do socialismo. Convicções ideológicas, no entanto, não o impediram de construir, em solo norte-americano, diálogos com democratas e republicanos.
Em setembro de 1950, apresentou credenciais ao presidente Harry Truman, do Partido Democrata. Três anos depois, o republicano Dwight Eisenhower chegou à Casa Branca, e, apesar da troca, Eban continuou a circular por Washington e Nova York em busca da consolidação de laços bilaterais, à época, complicados.
Corria a Guerra Fria. Importantes setores do governo norte-americano olhavam para Israel com desconfiança, pois o país, independente em 1948, construía uma sociedade sobre pilares socialistas, com o kibutz (fazenda coletiva) como emblema.
Em 1949, relatório da CIA chegou a sustentar que, num confronto entre Estados Unidos e União Soviética, Israel permaneceria "provavelmente neutro". Moscou também cortejava o Estado judeu e havia lhe oferecido apoio relevante no período pós-independência.
Abba Eban, portanto, precisava convencer as alas anticomunistas mais fervorosas em Washington das credenciais democráticas de Israel. Recorria ao talento como orador e à desenvoltura linguística, com o domínio de diversos idiomas.
Nascido em 1915, na sul-africana Cidade do Cabo, chegou ao Reino Unido na infância. Educou-se em Cambridge, estudou hebraico e árabe e, na universidade, engajou-se no sionismo, movimento nacionalista judaico.
Pendor intelectual e habilidade diplomática levaram-no à ONU, onde trabalhou pela aprovação, em 1947, da resolução responsável pela Partilha da Palestina. Com a persistente rejeição dos vizinhos ao diálogo com Israel, Eban declarou em 1978 que líderes árabes "nunca perdem a chance de perder uma chance".
Além de frases de efeito, o diplomata deixou como herança bases para que, a partir de meados dos anos 1960, EUA e Israel abandonassem desconfianças e construíssem a relação estratégica. Para tanto, dialogou com diversas correntes políticas norte-americanas, como impõe a essência plural da missão de um embaixador.
Eban corresponde a um exemplo de diplomata que, sem abrir mão de suas convicções ideológicas, cumpriu a tarefa de defender os interesses do Estado israelense, e não apenas do governo de plantão, de sinergias familiares ou de agendas partidárias. Ler a biografia do "Senhor Israel" certamente vai ajudar quem se disponha a fazer diplomacia no século 21.

Texto de Jaime Spitzcovsky, na Folha de São Paulo

domingo, 14 de abril de 2019

A morte anunciada da Palestina

O resultado mais significativo da eleição israelense de terça (9) não é a mais que previsível recondução de Binyamin Netanyahu ao posto de primeiro-ministro. É a morte do ainda não nascido Estado Palestino(previsto pela legalidade internacional mas jamais criado).
O atestado de óbito leva a assinatura do Yesha, acrônimo em hebraico para Conselho da Judeia, Samaria (como os judeus chamam a Cisjordânia) e Gaza, territórios que deveriam ser palestinos (só Gaza é, por enquanto).
O Yesha, em seu comunicado sobre a eleição, diz que “o povo expressou sua lealdade à Terra de Israel e escolheu aplicar a soberania de Israel sobre a Judeia, a Samaria e o vale do Jordão”.
Dá para entender essa análise radical: Netanyahu, nos últimos dias da campanha, havia anunciado que, se vencesse, estenderia a soberania israelense aos assentamentos judaicos na Cisjordânia. Logo, se a maioria votou não exatamente por ele, mas pela combinação de partidos de direita e ultra-direita que o apoiam, votou pela anexação pré-anunciada.
Anexar os assentamentos impede formar um Estado palestino minimamente viável.
Até uma liderança palestina relevante, Saeb Erekat, admite e lamenta, ao dizer que, conforme os resultados apurados até a madrugada, “só 18 dos 120 membros eleitos do Parlamento israelense apoiam a solução de dois Estados e nas fronteiras de 1967”, anteriores, portanto, à guerra em que Israel ocupou mais territórios palestinos.
Essa contabilidade mostra que é injusto atribuir apenas a Netanyahu a destruição do sonho palestino. A sociedade israelense foi se movendo paulatina mais firmemente nessa direção. “Bibi”, como é chamado, sentiu essa pulsação e foi avançando sobre os territórios palestinos.
Escreve, por exemplo, David Halbfinger no New York Times desta quarta (10): “A aparente reeleição de Netanyahu como primeiro-ministro atesta a visão conservadora do Estado judeu e de seu povo a respeito de onde estão e para onde caminham”.
Diz muito sobre o conservadorismo o fato de que os partidos religiosos vêm crescendo há anos em peso tanto no Parlamento como nos gabinetes de Netanyahu (o atual e, certamente, o futuro).
Na questão palestina, claro que os religiosos e seu conservadorismo pesam, mas o principal, a meu ver, reside no fato de que a grande maioria dos israelenses desinteressou-se dos palestinos.
Seria necessária uma investigação aprofundada para explicar as razões desse descolamento quase irrestrito. Mas a segurança certamente é um fator determinante. 
O muro que Israel construiu (e continua construindo) para separar as terras palestinas ajudou a conter o terrorismo mais impactante, aquele dos homens-bomba que se explodiam em restaurantes, mercados, pontos de ônibus.
Israel instalou-se em uma zona de conforto e não quer mais se preocupar com os palestinos. Quanto pode durar o conforto ninguém sabe. Mas levar a sério a conclamação do Yesha para tomar a Cisjordânia e Gaza, que os religiosos consideram a Terra de Israel, é armar uma bomba de tempo: os palestinos que vivem na Cisjordânia, na Faixa de Gaza e em Israel são 6,5 milhões —exatamente o mesmo número de judeus em Israel.
Dá para condená-los eternamente a ser um povo sem Estado?

Texto de Clovis Rossi, na Folha de São Paulo