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terça-feira, 25 de novembro de 2014

Transição energética desafia Dinamarca

Transição energética desafia Dinamarca

País tenta evitar blecautes em dias sem sol ou vento
Por JUSTIN GILLIS

COPENHAGUE - A Dinamarca segue a política de combate às mudanças climáticas mais ambiciosa do mundo. Até 2050 o país pretende acabar com a queima de combustíveis fósseis -não apenas na produção de eletricidade, mas também nos transportes.
Se alguém considera impossível uma transição tão ampla, a Dinamarca discorda. Os dinamarqueses basicamente inventaram o setor moderno de produção de energia eólica e o estão levando adiante com mais afinco que qualquer outro país. Mais de 40% da energia de sua rede elétrica é renovável, e o objetivo é que até 2020 seja 50%. O consenso político em favor de continuar nesse rumo é praticamente uma unanimidade.
Por isso, os problemas com a transição para a energia limpa já não podem ser ignorados.
As fontes de energia renováveis, como a energia dos ventos e solar, uma vez instaladas, não custam nada para ser operadas. É um benefício enorme no longo prazo. Mas, à medida que mais fontes energéticas desse tipo ganham espaço na rede elétrica, elas levam os preços da energia a cair nos horários que antes eram os mais lucrativos.
Com isso, pode se tornar antieconômico operar as usinas elétricas convencionais, à base de gás, carvão ou urânio. Só que essas usinas são necessárias para fornecer a energia para os momentos em que não está ventando e o sol não está brilhando.
Fornecedores de eletricidade na Alemanha e na Dinamarca vêm pedindo autorizações para fechar algumas usinas elétricas que recentemente deixaram de ser lucrativas. Mas os governos estão resistindo, temendo que falte eletricidade em alguma noite gelada de inverno com pouco vento. Os governos ofereceram subsídios de curto prazo às usinas, cientes de que, se forçarem as empresas a operá-las mesmo tendo prejuízos, será apenas uma questão de tempo até a falência.
Governos em toda a Europa perceberam que os mercados de eletricidade terão que ser reformulados para fazer frente à nova era. Mas eles não estão encarando a tarefa com urgência. Afinal, uma reformulação malfeita pode deixar os consumidores no escuro.
A Dinamarca tem sorte geográfica. Ela tem ligações elétricas fortes com a vizinha Suécia, dotada de farta capacidade de energia nuclear, e com a Noruega, que tem eletricidade disponível graças às suas barragens. Mas políticos suecos estão prometendo fechar as usinas nucleares do país e apostar na energia renovável, enquanto cresce a demanda pela energia hidrelétrica barata da Noruega e se estuda a construção de uma linha de transmissão para o Reino Unido, sedento de energia.
"Estamos preocupados", disse Anders Stouge, vice-diretor geral da Associação Energética Dinamarquesa. "Se não fizermos algo, enfrentaremos um risco crescente de blecautes no futuro."
Portanto, é crucial acertar na reformulação do mercado.
Uma reforma modesta basicamente atribuiria um valor de mercado -logo, um preço- à capacidade que ficaria de reserva.
Mas Rasmus Helveg Petersen, ministro dinamarquês do Clima, busca uma abordagem mais ambiciosa. Esta envolveria preços da eletricidade definidos em tempo real.
Quando o vento estivesse soprando forte ou o sol brilhando intensamente, os preços cairiam vertiginosamente, mas, em momentos de escassez, subiriam de modo igualmente abrupto.
À medida que fossem instalados mais medidores inteligentes de consumo e mais aplicativos capazes de rastrear esses preços, seria possível imaginar um sistema em que a demanda se ajustaria bem à oferta disponível. Mas, mesmo que a Dinamarca consiga criar uma boa solução para o mercado de eletricidade, ela ainda terá outro grande desafio para poder alcançar sua meta para 2050: tirar os combustíveis fósseis dos transportes.
O país abraçou um sistema de carros elétricos no qual as baterias gastas seriam trocadas por novas em questão de minutos, mas só foram vendidas algumas centenas de carros antes de o plano cair por terra. Petersen ainda pensa que a eletrificação dos carros é a melhor opção.
"Precisamos de carros com autonomia maior e preços mais baixos para que essa possa ser uma boa opção", disse o ministro. "A tecnologia precisa nos salvar aqui."


Reportagem do The New York Times, reproduzida na Folha de São Paulo

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Profetas do apocalipse


Há dois anos, a presidenta Dilma Rousseff prometeu reduzir as tarifas de energia. Cumpriu. Desde o fim do ano passado, profetas do apocalipse anunciam um racionamento. Erram. Agora, travestidos de analistas de videoteipe, realinham suas baterias e acusam: o setor elétrico foi desorganizado. Erram novamente.
Continuam confundindo a opinião pública --ao misturar conceitos e dados-- e distorcendo a realidade, na tentativa de emprestar alguma sustentação às teses que formulam. A quem interessa essa desinformação?
A medida provisória 579, recepcionada e convertida em lei pelo Congresso, proporcionou uma redução estrutural na tarifa de energia. Isso significa queda permanente da tarifa devido à apropriação pelo consumidor de parte do bônus oferecido por um parque gerador e transmissor amortizado e à retirada da tarifa de custos de políticas públicas (Luz para Todos, subsídios à baixa renda).
Como os livros de economia ensinam, tais custos devem ser debatidos pelo Parlamento e, portanto, suportados preferencialmente pelo Orçamento da União.
Não se confunda essa queda estrutural com variações conjunturais de custo devidas à escassez de chuva. Sem a medida provisória, a tarifa de energia seria igualmente afetada pelo aumento do custo de produção imposto pela conjuntura climática adversa --basicamente, aumento da geração térmica, fato característico de um sistema hidrotérmico como o brasileiro.
Teríamos um impacto tarifário de efeitos nefastos, já que os reajustes necessários ao custeio das térmicas se dariam sobre uma base 20% mais alta. A normalização da hidrologia restabelecerá as condições operativas do sistema e inverterá o sinal das variações conjunturais de custo.
Argumentam os ex-profetas, agora analistas, que a MP 579 quebrou um dos pilares do modelo implantado em 2004, cujo sucesso, saliente-se, tem reconhecimento internacional. Nada mais falacioso.
De fato, a partir de 2013, com a decisão das geradoras Cesp, Cemig e Copel de não aderir às condições da MP 579 e de não participar dos leilões daquele ano, uma parte da demanda das distribuidoras ficou sem cobertura, ou, no jargão do setor, exposta.
Isso gerou custos altos porque a energia não contratada teve de ser comprada no mercado de curto prazo, onde os preços se elevaram em razão da escassez de chuvas. Foi uma aposta arriscada. Se não fosse a medida provisória, o nível de exposição seria muito maior. Afinal, outras geradoras também não ofereceriam sua energia nos leilões. Ou seja, a MP evitou aumento de custo ainda maior!
Toda essa situação será normalizada no próximo ano, quando vencerão as concessões das usinas das três geradoras e as respectivas produções serão alocadas às distribuidoras ao preço de custo.
Isso traz um viés de baixa à tarifa, em sinal contrário à elevação devida à exposição e à geração térmica. Nessas situações, a solução natural é fazer uma "ponte", de modo que um aumento de custo transitório possa ser absorvido sem maiores traumas pela sociedade.
A redução da tarifa não deve ser confundida com os aportes do Tesouro Nacional e o financiamento do pool de bancos às distribuidoras, que visou mitigar um forte impacto tarifário de curto prazo ocasionado por seca extraordinária.
O prolongamento da seca não foi apenas mais um detalhe, mas, sim, fator capital na elevação dos custos de produção. Pago de uma vez ou amenizado no tempo em razão dos empréstimos, o aumento dos custos de produção será repassado ao consumidor.
Como se vê, ao contrário do que querem fazer crer, a MP 579 evitou um custo social ainda mais alto. Definitivamente, uma medida corajosa e acertada!


Texto de Maurício Tolmasquim, publicado na Folha de São Paulo

Maurício Tolmasquim é presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE)

domingo, 25 de agosto de 2013

Uma riqueza a ser protegida

Uma riqueza a ser protegida
A tecnologia para exploração do gás de xisto é invasiva. Os impactos ambientais, embora ainda sejam desconhecidos, podem ser irreversíveis
Em meio à escassez de água em quase todo o planeta, o Brasil tem o privilégio de contar com uma das maiores reservas de água doce do mundo, o aquífero Guarani. Em vez de tratar esse recurso como riqueza a ser protegida, o governo pretende começar uma empreitada que pode, ao contrário, comprometê-lo.
A exploração do gás de xisto atingirá profundamente o aquífero Guarani, sob o qual jaz, a centenas de metros, a rocha a ser fraturada --o folhelho Irati.
Localizado sob o solo do Brasil, da Argentina, do Uruguai e do Paraguai, o aquífero tem 1,1 milhão de quilômetros quadrados e profundidade de 1.500 metros. Tem a capacidade de abastecer milhões de habitantes anualmente com trilhões de metros cúbicos de água doce.
Como observa o geólogo Luiz Fernando Scheibe, há grande pressão para que o Brasil, assim como os Estados Unidos, explore o gás de xisto. Existem companhias interessadas na extração e outras, na despoluição da água e das áreas afetadas.
O governo brasileiro manifestou intenção de incluir o gás de xisto na matriz energética do país e agendou o primeiro leilão de áreas a serem exploradas para o final de 2013.
Pesquisadores propuseram uma moratória de cinco anos, tempo para realizarem estudos sobre a viabilidade, a sustentabilidade e as consequências ambientais dessa forma de extrair combustíveis fósseis.
Mas, afinal, por que a ameaça do gás de xisto é tão assustadora?
Sua exploração contamina a água. O xisto se encontra aprisionado em pequenas bolhas de formações rochosas altamente impermeáveis. Diferentemente do gás natural já utilizado e do petróleo, que ocorrem em nichos próprios, o xisto está impregnado na formação geológica.
Sua extração tornou-se eficiente devido a avanços tecnológicos. Um deles é conhecido como "fracking". Consiste na fratura da rocha e injeção sob alta pressão de grande quantidade de água, explosivos e substâncias químicas, que podem causar vazamentos.
Essa tecnologia baseia-se em processos invasivos da camada geológica, causando impactos ambientais que, embora ainda sejam desconhecidos, podem ser irreversíveis.
A exploração do xisto vem sendo apontada como sucesso tecnológico e econômico nos Estados Unidos. Bilhões de dólares devem ser movimentados, o que pode soar bom para a economia, mas insano para a sustentabilidade ambiental.
A atividade, porém, não é unânime. França, Bulgária e alguns Estados norte-americanos proibiram a extração. O Canadá passa por avaliação criteriosa de sua viabilidade.
Existem pactos de cooperação entre os países que compartilham o aquífero Guarani, mas o Brasil não parece se lembrar dos compromissos assumidos. Pretende abrir concessões para a extração do gás de xisto sem nem mesmo consultar a comunidade científica de forma adequada. Prudente seria aprofundar a discussão com os estudiosos do tema para embasar futuras decisões.

Texto de Suzana Pádua, publicado na Folha de São Paulo.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Cresce a demanda mundial pelo carvão


Cresce a demanda mundial pelo carvão

Disponibilidade e custo do carvão o deixam atrativo

Por PETER GALUSZKA

O carvão continua sendo um componente crítico da matriz energética mundial, apesar de sua imagem negativa. Na China, a demanda por carvão em 2010 provocou um engarrafamento de 120 quilômetros formado por mais de 10 mil caminhões carregando suprimentos para a Mongólia Interior (região autônoma chinesa).
A Índia, que depende do carvão para 55% de sua energia elétrica, luta para manter os suprimentos e está aumentando as importações. O mesmo vale para a Europa, onde o gás natural é mais caro, gerando demanda por mais importações de carvão dos EUA.
O carvão pode parecer um estranho candidato em um mundo onde as fontes de energia renovável, como a solar, a eólica e a hidrelétrica, chamam a atenção. Uma heresia para os ambientalistas, porque gera muita poluição, o carvão ainda tem as vantagens inegáveis de estar amplamente disponível e ser fácil de transportar e de queimar.
Mas sua maior atração é o baixo custo. Segundo muitas estimativas, queimar carvão ainda custa cerca de um terço do valor de energias renováveis.
O carvão facilmente supre a demanda básica de eletricidade dos consumidores, sem interrupção. O mesmo acontece com a energia nuclear, mas esta ainda sofre as consequências do desastre de março de 2011 na central de Fukushima Daichi, no Japão.
A demanda por carvão deverá alcançar 8,1 bilhões de toneladas até 2016, contra 7,2 bilhões de toneladas neste ano, com a maior parte da nova demanda vinda da China, segundo a companhia de carvão Peabody Energy. Em quatro anos, a China deverá ganhar o equivalente a 160 novas usinas movidas a carvão, além das 620 que operam hoje. A Índia acrescentará 46.
Além da grande demanda por carvão térmico, que é queimado em usinas de energia, o uso de carvão siderúrgico (o coque), usado nos altos-fornos, também deverá mais que duplicar na China, para cerca de 1,7 bilhão de toneladas em 2016, enquanto as siderúrgicas do país produzem mais aço para automóveis, arranha-céus e produtos de exportação, segundo um estudo da Peabody.
O coque terá demanda crescente em outros centros produtores de aço, como o Brasil e a Índia, levando as empresas a explorar novas reservas em lugares como Botsuana, Mongólia e Moçambique.
Ao todo, o uso do carvão deverá aumentar 50% até 2035, diz Milton Catelin, executivo-chefe da Associação Mundial do Carvão, em Londres. "No ano passado, o carvão representou 30% da energia mundial. Esta foi a mais alta porcentagem atingida desde 1969", disse.
Dentro de um ou dois anos, o carvão vai superar o petróleo como o principal combustível do planeta, prevê Catelin.
Por enquanto, o carvão parece ter evitado um sério empecilho potencial para sua utilização: os acordos internacionais que restringem as emissões de gases do efeito estufa. Até agora, os acordos para evitar a mudança climática foram ineficazes.
A China pretende colocar equipamentos de redução de emissões de carbono em novas usinas.
Mas a China e outros grandes produtores de carvão ainda têm um longo caminho a seguir em segurança de minas. Em média, cerca de 2.500 mineiros de carvão chineses morrem em acidentes todos os anos. Autoridades da indústria dizem que a segurança vai melhorar com o desenvolvimento de novas tecnologias.
Analistas do setor estão procurando novas fontes de carvão, notadamente o coque. A Shenhua Energy, da China, a Peabody Energy e outras empresas japonesas, russas e sul-coreanas são as principais interessadas em desenvolver o depósito de Tolgoi, na Mongólia.
Grandes planos de exportação estão em curso na Colômbia e na África do Sul. O Grupo Abhijeet da Índia tem um novo contrato de US$ 7 bilhões para o "carvão vapor" de Kentucky e da Virgínia Ocidental.
Mas os planos de expansão enfrentam desafios. Na Mongólia, os depósitos estão em áreas remotas e em condições climáticas extremas. A África do Sul tem tendência a inquietações trabalhistas.
A Austrália é o maior exportador de carvão do mundo, mas novos regulamentos poderão aumentar seus preços, diz Jimmy Brock, o principal diretor operacional da Consol Energy, sediada em Pittsburgh, na Pensilvânia.
Os reguladores australianos temem que a Grande Barreira de Recifes possa ser danificada pela passagem de navios. Os portos também estão sujeitos a danos de tempestades e inundações.
As companhias de carvão americanas querem exportar o produto das minas de Wyoming e Montana, mas não há como despachar o carvão. Planos de enviar o minério a 2.400 quilômetros de distância por trem para cinco portos planejados no noroeste do Pacífico e no Canadá enfrentam intensa oposição ambientalista.
Mas, em longo prazo, o futuro do carvão depende da China e da Índia. Suas perspectivas parecem excelentes, principalmente porque ele é mais barato que seus concorrentes.


sábado, 6 de agosto de 2011

Preocupações com segurança obscurecem renascimento nuclear dos EUA

Preocupações com segurança obscurecem renascimento nuclear dos EUA

Ullrich Fichtner

A Watts Bar 2, a mais nova usina nuclear dos EUA, está sendo construída no Tennessee e deve começar a funcionar no ano que vem. Ela tem um histórico de preocupações com a segurança que já vem de décadas atrás. Entretanto, muitos moradores locais apoiam a usina nuclear e estão recebendo o reator de braços abertos.

Mansour Guity foi a testemunha principal do caso contra a indústria nuclear norte-americana. Ele parou usinas nucleares inteiras quase sozinho. Mas agora a guerra de 30 anos que ele vem lutando está chegando ao fim.

Estão dando os retoques finais no segundo reator da Estação de Geração de Energia Nuclear Watts Bar no vale do rio Tennessee, a menos de 50 quilômetros da casa de Guity. Depois que a construção foi impedida há mais de duas décadas e retomada em 2007, o reator deve agora entrar em funcionamento no ano que vem. Mansour Guity não está muito feliz no momento.

Há alguns dias, um tornado massivo varreu o Tennessee e deixou um rastro de destruição até o Alabama. Centenas de tornados quebraram postes de telefonia como se fossem palitos de fósforo e obrigaram as autoridades a fechar temporariamente a usina nuclear de Browns Ferry, irmã gêmea da usina de Fukushima. Ela entrou em operação emergencial durante a noite tempestuosa e desligou-se automaticamente.

Guity conhece bem essas questões, e sabe o que se passa dentro das usinas nucleares quando isso acontece. Engenheiro nuclear nascido no Irã em 1942, Guity é um norte-americano desapontado hoje. “Bombas-relógio”, diz ele, num tom muito amargo. “Estamos sentados sobre um punhado de bombas-relógio ligadas”.


Perda de fé


A mesa de jantar em sua casa grande, de cor creme, próxima de Knoxville, à beiras das Montanhas Smoky, está coberta de pilhas grandes e pequenas de papel, artigos de jornal, antigas atas de reunião, e relatórios técnicos sobre cabos, rejuntes e concreto. São necessárias muitas peças de quebra-cabeça para montar um quadro coerente da vida de Guity, e para entender como um homem, com uma mistura de honra profissional e integridade, enfrentou a maior companhia de energia dos Estados Unidos e desistiu no processo.

Guity diz que ainda precisa tomar 26 comprimidos por dia para manter sua depressão e outras condições de saúde sob controle. Certamente seria muito simplista culpar a indústria nuclear por seus problemas de saúde. Guity é alguém para quem o sonho americano não deu certo. Ele diz que costumava ter muita fé no país, mas que agora não sabe mais em que acreditar.

Nos anos 60, 70 e 80, ele descobriu gradualmente que muitos atalhos haviam sido tomados, e partes boa parte do trabalho eram de tão má qualidade, durante a construção das usinas nucleares ao longo do rio Tennessee, que zombavam de qualquer noção de segurança nuclear.

Guity foi engenheiro nuclear da Tennessee Valley Authority (TVA), uma grande e antiga companhia estatal que opera as usinas nucleares de Browns Ferry, Sequoyah, Bellefonte e Watts Bar. Quando as usinas foram construídas, correu o boato de que havia violações claras aos planos e normas de construção, sendo que as infrações mais sérias estavam em Watts Bar.


Fora dos padrões


As duas unidades da usina foram construídas simultaneamente nos anos 70 e 80. Só a Unidade 1 foi colocada em operação, depois de um atraso dramático, enquanto a Unidade 2 continuou inacabada até que a construção fosse retomada há alguns anos. Se Guity tivesse conseguido o que queria, toda a usina, incluindo as duas unidades e tudo mais associado a ela, teria desaparecido do mapa o quanto antes.

Dentro da usina, fileiras de grossos cabos elétricos eram dobradas em ângulos tão abruptos que poderiam falhar a qualquer momento. Os rejuntes ao longo de segmentos longos não estavam dentro dos padrões. As paredes de concreto eram muito finas. Guity viu tudo isso com os próprios olhos, em sua função de gerente de qualidade do projeto do reator. O motivo pelo qual Guity ainda tem problemas para dormir à noite é sua crença de que todos esses velhos erros e violações nunca poderão ser totalmente corrigidos.

Um dos motivos pelo qual Guity está tão frustrado é que não há debate público nos Estados Unidos sobre a Watts Bar, ou sobre a energia nuclear em geral. É um tema que não se levanta no país, muito embora, de acordo com Guity, existam motivos suficientes para ele ser discutido. Os Estados Unidos têm 104 reatores nucleares em operação, mais do que qualquer outro país do mundo. Muitas usinas estão perigosamente datadas – algumas têm 40 anos ou mais. Cerca de 65 mil toneladas de lixo nuclear se acumularam ao longo das décadas. Por incrível que pareça, o país não tem um plano a longo prazo para o armazenamento e destinação do lixo nuclear gerado todos os dias.

Se a segunda unidade da Watts Bar, o mais recente reator norte-americano em construção, de fato começar a funcionar no ano que vem, quase 40 anos depois que a construção começou, partes da unidade ainda datarão da época em que tantos critérios foram violados. Na verdade, ninguém, nem mesmo a TVA, sabe exatamente a natureza e a extensão dessas violações.


Carreira estagnada


A sede da TVA fica no ponto mais alto de Knoxville, em dois edifícios pálidos de 12 andares que se parecem com caixas de sapato colocadas em pé. A cidade em volta tem um ar aconchegante e provinciano.

Quando Mansour Guity chegou a Knoxville como estudante, a cidade era bem mais pobre do que hoje. Seus pais haviam fugido do Irã no início dos anos 60, durante o regime do xá, trazendo seus quatro filhos e uma filha consigo.

Guity estudou engenharia elétrica em Knoxville, e quando se formou as companhias estavam ansiosas por contratá-lo, bem como outros engenheiros recém-formados. Guity começou a trabalhar para a TVA, em sua divisão de usinas nucleares. Era o ano de 1969, e a energia nuclear ainda estava em sua infância. Só alguns esquerdistas extravagantes e sonhadores temerosos tinham medo dela. Mas Guity reconhecia o seu potencial.

Uma década mais tarde, sua fé na tecnologia e no poder dos engenheiros foi destruída. A partir de 1979, quando o trabalho estava a pleno vapor na Watts Bar, ele não conseguiu mais ignorar os defeitos de construção e começou a registrar o que via. Sua carreira começou a estagnar naquela época.

Guity, a quem os colegas de trabalho se referiam como “o Ás” até então, foi rejeitado numa promoção. Ele não recebeu aumentos, e seus relatórios não eram respondidos, desaparecendo nas entranhas da companhia. Pediram que ele rescrevesse um relatório particularmente dramático sobre o cabeamento irregular na Watts Bar. Primeiro disseram para ele transformar o relatório de 200 páginas num de 20 páginas, e depois disseram que 20 páginas ainda era muito. Isso foi no início dos anos 80, e foi um processo agonizante para Guity, que continuou citando os problemas da fiação defeituosa.

Mas os cabos, diz Guity, são “o sistema nervoso de uma usina nuclear”. Há facilmente cerca de 3 mil quilômetros de fios passando por uma usina grande como a Watts Bar. No fim das contas, o funcionamento correto desses cabos determinará se a situação na usina nuclear pode sair do controle no caso de um problema. Os relatórios de Guity mostraram que centenas de cabos foram instalados incorretamente na Watts Bar. Eles demonstraram que a TVA não ligava muito para as normas.

Uma situação problemática de proporções históricas

Guity usou os canais oficiais inúmeras vezes para chamar a atenção para os problemas, mas quando todos os seus esforços não deram em nada, ele foi a público com suas descobertas. Ao fazer isso, ele desencadeou um dos maiores escândalos da história industrial norte-americana, um que praticamente continua até hoje.

Na época, em 1985, a TVA sentiu-se compelida a fechar todas as suas usinas nucleares durante anos. A Watts Bar 1, cujos construtores estavam convencidos que estava pronta para funcionar em 1985, continuou fechada e só pode ser reiniciada 12 anos mais tarde, 23 anos depois que sua permissão inicial de construção foi concedida. Uma comissão investigadora do Congresso dos EUA avaliou todo o processo.

Quando as audiências começaram em fevereiro de 1986, e Guity e um punhado de colegas que pensavam parecido foram para Washington para testemunhar na sala 2322 do Rayburn House Office Building, a TVA teve que fechar – ou melhor, foi obrigada a fechar – usinas nucleares no valor de US$ 15 bilhões. E isso foi, pelo menos em parte, culpa de Guity ou, dependendo do ponto de vista, sua conquista.

O presidente do comitê do Congresso falou em um gerenciamento grosseiro e numa “situação problemática” de proporções monumentais. O “desastre histórico” consistia no fato de que a TVA, por motivos de custo, havia supostamente planejado suas usinas nucleares de forma incorreta e as construído com defeitos. Mas na época argumentou-se que seria muito difícil determinar se essas usinas eram seguras ou não. A questão ainda não pode ser respondida hoje, 25 anos depois.


Um idílio americano


É importante lembrar onde essa história se desenrolou. Visto da perspectiva de suas estreitas estradas interioranas, o Tennessee é um livro ilustrado dos Estados Unidos rural.

Pequenos caminhões normais e caminhões de contêineres abrem caminho por uma paisagem vasta e agradável em meio a florestas. Casas de madeira recém-construídas são cercadas por gramados perfeitos e jardins bem cuidados onde a bandeira norte-americana é exibida com orgulho. Forasteiros podem imaginar todos os tipos de coisas quando visitam a região, mas é pouco provável que cheguem à ideia de que há usinas nucleares obsoletas escondidas atrás da floresta.

Os moradores locais estão mais ou menos no mesmo barco. Sua região é tão grande e vasta que mesmo as usinas nucleares parecem brinquedos no meio disso. Parece impossível imaginar que elas possam representar uma ameaça existencial.

Esta visão de mundo está representada totalmente no Museu Americano de Ciência e Energia em Oak Ridge. O museu, que não fica longe da Watts Bar, é uma estrutura de concreto desgastada pelo tempo que conta a história da superioridade técnica de tempos passados.


Fé nuclear


Oak Ridge abrigava o Projeto Manhattan, talvez o mais ousado projeto de pesquisa de todos os tempos, que reuniu físicos importantes e dezenas de milhares de técnicos para construir secretamente a bomba atômica durante a 2ª Guerra Mundial. Os grandes complexos que cercam o museu hoje são chamados de “Y-12”, “K-25” e “X-10”. O urânio era enriquecido nessas instalações, a bomba que foi lançada em Hiroshima foi concebida aqui, e os cientistas mais tarde também desenvolveram as bombas de hidrogênio em Oak Ridge.

Mísseis e bombas são exibidos nas câmaras do museu, onde modelos destinados às crianças explicam os maravilhosos benefícios da energia nuclear. Uma das mensagens do museu é: nós construímos a bomba, então porque deveríamos temer a energia nuclear civil? A segunda mensagem é: os EUA estão à frente da tecnologia e representam o progresso.

A usina nuclear de Watts Bar fica a uma hora de carro de Oak Ridge, cercada por uma paisagem ribeirinha serena, num lugar onde o peixe-gato é notoriamente maior do que o normal. James Fry, 55, que passou 13 anos dirigindo caminhões para Nova York e Montreal, agora administra um camping na área.

Ele vem para Watts Bar para pescar há sete anos. Durante esse tempo, diz ele, houve duas ocasiões em que ele viu um pedaço de papel no quadro de avisos do estacionamento em frente à usina nuclear. Era um aviso alertando as pessoas para não comerem peixes do rio, por causa do risco de radiação.

Fry não se preocupa se a usina pode representar um perigo para as pessoas. “A usina é uma boa vizinha”, diz ele. “Nós não tempos problemas.”


Segura, limpa, confiável e barata”


Uma vez, no fim de abril, a Comissão de Regulação Nuclear (NRC, na sigla em inglês) realizou um evento de informação sobre o progresso da construção da Watts Bar num hotel em Athens, não longe do reator. Um cartaz no lobby, escrito com caneta hidrográfica, identificava o evento público. Mais parecia um cartaz anunciando um mercado de pulgas.

A coisa mais evidente em relação aos presentes no encontro foi que não havia oponentes à energia nuclear. Ninguém estava do lado de fora com panfletos ou cartazes de protesto, não havia megafones, e a presença da polícia não foi necessária. As três ou quatro dúzias de homens de ternos escuros ficaram juntos, homens da NRC e da TVA. Parecia o encontro de um clube cujos membros se conhecem há anos.

“A energia nuclear é uma forma segura, limpa, confiável e barata de produção de energia”, disse Ashok Bhatnagar, 55, vice-presidente sênior de operações nucleares, alguns dias depois. Ele tinha 11 anos quando seus pais deixaram sua Índia nativa. Bhatnagar foi para a faculdade nos Estados Unidos e trabalhou na Duke Energy na Carolina do Norte por muitos anos. Ele ficou intrigado com a TVA, diz ele, porque, como uma companhia estatal, ela não precisava ter lucro mas só fazer um trabalho que fizesse sentido para o bem público.

Durante nossa conversa no centro de visitantes da usina, Bhatnagar, que usava uma camisa polo azul-escura com o logo da TVA, perguntou educadamente sobre a situação do debate nuclear na Alemanha. Ele também fez algumas observações interessantes sobre Fukushima.

“O tsunami”, diz Bhatnagar, “ou seja, a onda em si, matou 15 mil pessoas. Mas a radiação de Fukushima não matou ninguém ainda, até onde sabemos. A verdade é que os sistemas essencialmente fizeram exatamente o que deveriam fazer. Acho que precisamos nos perguntar quanto risco estamos dispostos a assumir. Se quisermos risco zero, teremos que transferir metade das cidades costeiras da Ásia por causa dos tsunamis.”


Defendendo a energia atômica na noite das mulheres


Bhatnagar não faz menção a cabos, rejuntes ou concreto. Um assessor de imprensa da TVA depois enviou à Spiegel algumas informações sobre o assunto em resposta a um pedido. E o assessor confirma, de certa forma, as preocupações de Guity – de que ainda existe material muito velho instalado e em uso em ambas as unidades da Watts Bar.

Os cabos instalados antes de 1986, escreveu o assessor, foram substituídos “ou testados para cumprir com padrões e normas”. No que diz respeito ao concreto, o assessor acrescentou, as estruturas da Watts Bar 2 “estavam na maioria concluídas” quando o trabalho atual começou em 2007. Mas isso significa que a Watts Bar 2 é essencialmente o mesmo reator que Guity acredita deveria ser derrubado, se as questões de segurança fossem levadas a sério.

O Tennessee fica numa parte do país onde os tornados são comuns e os principais rios têm uma tendência a cheias. Não há nenhuma indicação desses perigos às sextas-feiras, que são as noites “das mulheres” no The Joker, um bar a cinco minutos da usina de Watts Bar. O bar ocupa um longo prédio perto de um estacionamento no meio dos bosques. Dentro dele, homens sentam-se com os cotovelos sobre o balcão, bebendo canecas de cerveja. Muitos são funcionários e ex-funcionários da TVA, e alguns usam a camisa polo com o logo da empresa.

Um deles, um homem alto e com barba, tem algumas coisas a dizer sobre a usina nuclear. Ela é finalmente uma escolha entre a eletricidade e a luz de vela, diz ele. Qualquer um que seja seriamente contra a energia nuclear deveria se acostumar com a ideia de viver nas cavernas novamente, diz ele, acrescentando que os alemães descobrirão isso cedo ou tarde.

Às 21h, a Noite das Mulheres começa e um grupo de mulheres acima do peso liga o aparelho de karaokê e começa a cantar baladas melosas.


Bagunçado”


Qualquer um que pense diferente no Tennessee, talvez alguém com inclinações ambientalistas, precisa arrumar argumentos melhores do que o famoso slogan do movimento anti-nuclear: “Energia nuclear? Não, obrigado!”. Os norte-americanos no geral não têm medo da tecnologia nuclear, e ainda acreditam firmemente que a energia nuclear é uma parte razoável da sociedade moderna que tolera uma certa quantidade de risco.

“Tudo está completamente bagunçado”, diz Stephen Smith, um homem enérgico, de boa aparência, e com ar de garoto aos 49 anos. “Mas é assim que as coisas são nos EUA. Nós enchemos o Golfo do México de petróleo, e depois nem achamos que há um motivo para debate”. Smith tem três filhos, dois netos, um cachorro e uma casa nos arredores de Knoxville que produz tanta energia quanto consome durante o ano.

A luz da cozinha de Smith vem de aberturas espelhadas no teto, e a água é aquecida com a eletricidade gerada por 36 painéis solares Sharp no telhado.

Há apenas dois anos, um senador do Tennessee revelou um plano para construir 100 novas usinas nucleares. Poucas semanas depois do desastre de Fukushima, o presidente Barack Obama anunciou que o governo permitiria a construção de novos reatores. “Parece uma piada, não é?”, diz Smith. “Mas não é. É nossa loucura diária nesse país.”


A ruína industrial mais cara da história dos EUA


Nos anos 80, depois de Chernobyl, Smith e alguns outros ativistas anti-nucleares periodicamente agitavam as coisas no museu de Oak Ridge, andando por lá com contadores Geiger e levando consigo sobreviventes de Hiroshima, e eram chamados de traidores por seus compatriotas.

Smith não é nenhum traidor – bem o contrário. Ele tem uma clínica veterinária em Knoxville há 10 anos, mas seu ativismo ambientalista continuou a se expandir até que ele decidiu fazer disso uma atividade de tempo integral em 1999. Hoje ele é diretor executivo da Aliança do Sul pela Energia Limpa, uma espécie de centro de estudos com 35 funcionários e um orçamento anual de US$ 4 milhões. “Agora o mundo é meu paciente”, diz ele, “e ele não está nada bem.”

Smith não é mais o tipo de ativista que luta por um planeta melhor com apitos e cartazes. Ele se transformou num lobista sério, um que também é convidado para as reuniões da diretoria da TVA. Ele conhece Ashok Bhatnagar, sabe quais são seus argumentos e nem os utiliza contra ele. “Quando ouço Bhatnagar falando sobre a Watts Bar hoje, sempre penso: é exatamente isso que os engenheiros nucleares no Japão estavam dizendo – duas semanas antes do tsunami.”

A Watts Bar, diz Smith, é a ruína industrial mais cara da história dos EUA. Para piorar as coisas, ela também é um escândalo de implicações políticas globais. Isso porque além da eletricidade, a Watts Bar também produz trício, que é usado para fabricar ogivas nucleares. “É hipocrisia pura”, diz Smith. “O que estamos fazendo aqui é exatamente o que queremos proibir que todos os outros países façam. Estamos misturando o uso civil com o militar. Nós, e não os outros, estamos violando os tratados internacionais.”


Nunca acaba”


Muitos aspectos da história do Tennessee são difíceis de acreditar. Nos anos 80, quando Guity estava discutindo se ia a público com seus resultados assustadores, uma agência externa entrevistou 5.200 funcionários da TVA que haviam trabalhado ou ainda trabalhavam no projeto de construção da Watts Bar. Os funcionários relataram 5.081 problemas, incluindo 1.868 com implicações de segurança, dos quais 79% mais tarde foram comprovados. Por exemplo, cerca de 18 toneladas de material impróprio foram usadas na usina para preencher rejuntes. Na Alemanha, essa infração provavelmente teria levado à demolição de toda a usina.

Nos Estados Unidos, por outro lado, a construção chegou ao fim na Watts Bar nas semanas seguintes. A Unidade 1 foi o último reator nuclear licenciado no século 20, e a Unidade 2 será o primeiro no século 21. Mansour Guity acompanha todas as notícias sobre o progresso da usina. Ele tem dificuldades para abandonar a causa, principalmente porque sempre há alguma coisa nova acontecendo na Watts Bar.

Em março, um funcionário de uma empresa terceirizada foi indiciado por acusações de ter inventado resultados de testes sobre os problemas dos cabos. Em janeiro, o gerente líder do projeto, um iraniano, desapareceu da noite para o dia, supostamente por causa de “problemas pessoais”.

Alguns dias antes, O NRC havia enviado uma carta dura para a TVA, citando problemas com sistemas de prevenção de incêndio e a má qualidade geral dos relatórios da TVA. “Isso simplesmente continua acontecendo”, diz Guity. “Nunca acaba. Nunca.”

Guity, que está mal de saúde, diz que quando a Watts Bar 2 for concluída, ele sentirá que eles construíram um memorial à derrota de sua vida.


Traduzido do alemão por Christopher Sultan.


Tradução: Eloise De Vylder





terça-feira, 12 de julho de 2011

Fé nuclear no Japão


Fé nuclear com base em fantasia

O líder global em robôs não tinha nenhum no acidente

Por NORIMITSU ONISHI

SHIKA, Japão - Perto de uma usina nuclear de frente para o mar do Japão, uma série de exposições enaltece as virtudes dessa fonte de energia com uma certa ajuda de "Alice no País das Maravilhas".
"É terrível, simplesmente terrível", diz o Coelho Branco na primeira exposição. "Estamos ficando sem energia, Alice." A figura de um robô-pássaro Dodo declara que há uma forma de energia "incrível" chamada nuclear. Ela é limpa, segura e renovável se você reprocessar urânio e plutônio, diz o Dodo.
"Puxa, você pode até fazer isso!", diz Alice sobre a energia nuclear. "Poderíamos dizer que é ótima para o Japão, pobre em recursos!" Por décadas, o setor nuclear do Japão dedicou verbas enormes para convencer o público sobre a segurança e a necessidade da energia nuclear.
O resultado foi a adoção generalizada da crença de que as usinas nucleares japonesas eram absolutamente seguras. O Japão perseguiu a energia nuclear sem hesitação, mesmo enquanto os países ocidentais se afastavam dela.
Essa crença ajuda a explicar por que, no único país que foi atacado com bombas atômicas, a aceitação da energia nuclear era tão forte que os acidentes em Three Mile Island e Tchernobil quase não tiveram registro. Mesmo com a crise na usina nuclear de Fukushima Daiichi, a reação contra essa energia foi muito mais forte na Europa e nos EUA do que no Japão.
Alguns japoneses estão escavando o fundo da psique nacional e examinando a propensão nacional a adotar uma crença hoje amplamente considerada irracional. Por causa dessa crença generalizada na absoluta segurança das usinas japonesas, as operadoras e os reguladores nucleares deixaram de adotar medidas de segurança adequadas e avanços tecnológicos.
"No Japão, temos uma coisa chamada 'mito da segurança'", disse, em 20 de junho, Banri Kaieda, o ministro da Economia, do Comércio e da Indústria, que supervisiona a indústria nuclear. "Existe um excesso de confiança irracional na tecnologia de geração de energia nuclear no Japão."
Em consequência, ele disse, "o pensamento sobre a segurança da indústria nuclear era frágil".
Enquanto a crença cuidadosamente cultivada na segurança nuclear se dissipa depois do desastre de 11 de março, os japoneses culpam cada vez mais o setor nuclear por Fukushima. Em um país politicamente apático, dezenas de milhares de pessoas realizaram protestos contra a energia nuclear. Jovens japoneses usaram mídias sociais para organizar e divulgar manifestações.
Nos dias seguintes ao tsunami que desligou o sistema de resfriamento de Fukushima Daiichi, o gabinete do premiê e a Companhia de Energia Elétrica de Tóquio (Tepco), a operadora da usina, debateram se deveriam injetar água do mar para resfriar os prédios do reator, para evitar fusões catastróficas, e depois como fazer isso.
Com os níveis de radiação altos demais para que os trabalhadores se aproximassem dos reatores, as autoridades japonesas vacilaram.
Enviaram caminhões de polícia armados de canhões de água para borrifar água nos prédios dos reatores. Helicópteros militares despejaram água que se espalhou com os ventos fortes em um "espetáculo, uma espécie de circo" destinada a tranquilizar a população cada vez mais alarmada e o governo americano, segundo Kenichi Matsumoto, assessor do primeiro-ministro Naoto Kan.
O que ficou claro foi que o Japão não tinha alguns equipamentos básicos para reagir a uma crise nuclear. O ponto baixo ocorreu em 31 de março, quando teve de usar uma bomba de água enviada da China para injetar 91 toneladas métricas de água doce no prédio do reator número 1. Mas a ausência de uma tecnologia em particular foi profundamente perturbadora: robôs de emergência. Afinal, o Japão é o líder mundial em robótica.
"Os operadores disseram que os robôs, que atuariam em caso de acidente, não eram necessários", disse Hiroyuki Yoshikawa, 77, engenheiro e ex-presidente da Universidade de Tóquio, a instituição acadêmica mais influente do Japão. "Em vez disso, adotá-los causaria medo, eles disseram."
Depois de Fukushima, o Japão foi obrigado a contar com uma remessa de emergência da iRobot, empresa situada em Bedford, Massachusetts, mais conhecida por fabricar o aspirador de pó Roomba. Em 24 de junho, a Tepco utilizou o primeiro robô feito no Japão, que foi adaptado para lidar com acidentes nucleares, mas ele apresentou defeito.
A rejeição aos robôs, disse Yoshikawa, fazia parte da relutância geral da indústria a aperfeiçoar a manutenção e investir em novas tecnologias.
"É por isso que o mito da segurança não era apenas um clichê vazio", disse Yoshikawa, hoje diretor do Centro para Pesquisa e Desenvolvimento Estratégicos da Agência de Ciência e Tecnologia do Japão. "Era uma espécie de mentalidade que rejeitava o progresso através da adoção de novas tecnologias."
No início da era atômica, a energia nuclear tornou-se a solução para os japoneses -uma maneira de o Japão, cuja falta de recursos naturais havia levado à Segunda Guerra e à derrota, se tornar mais independente no plano energético. O domínio nuclear também abriria a possibilidade de desenvolver armas nucleares.
O responsável pela divisão de energia nuclear do ministério orçou em US$ 12 milhões sua publicidade e os programas educacionais para este ano. Mitsuhiro Yokote, 67, diretor-gerente executivo da Organização de Relações de Energia Atômica do Japão, um dos grupos criados para promover o programa nuclear japonês, admitiu que os especialistas transmitiram a mensagem de que as usinas nucleares eram seguras. Yokote disse que "lamentava" que sua organização tivesse contribuído para esse mito.
No Japão, as pessoas tendem a confiar reflexivamente no governo. "O que poderíamos fazer senão acreditar no que o governo nos dizia?", disse Masaru Takahashi, 67, membro do sindicato de pescadores em Oma, uma cidade pesqueira no norte do Japão onde está sendo construída uma usina. "Disseram-nos que elas eram absolutamente seguras."
Depois de Tchernobil, as instalações de relações-públicas das usinas nucleares foram transformadas em parques temáticos voltados para jovens mães, o grupo que, segundo a pesquisa, mais se preocupa com usinas nucleares e radiação, segundo Noriya Sumihara, antropólogo da Universidade Tenri. Mulheres em idade de ter filhos foram contratadas como guias tranquilizadoras.
Em Higashidori, norte do Japão, um dos mais novos edifícios de relações-públicas do país foi construído com base no tema de Tonttu, uma floresta com moradores anões. O edifício também apresenta eventos com personagens de quadrinhos para atrair crianças e jovens pais, disse Yoshiki Oikawa, porta-voz da Companhia de Energia Elétrica Tohoku, que administra o local com a Tepco.
Aqui no prédio de relações-públicas Shika, que teve 100 mil visitantes no ano passado, as pessoas começam a questionar a segurança da energia nuclear depois do desastre de Fukushima, disse Asuka Honda, 27, um guia local. Muitas eram mulheres grávidas.
O establishment nuclear também garantiu que os manuais escolares produzidos pelo governo não enfatizem informações que possam projetar dúvidas sobre a segurança da energia nuclear. No Parlamento, a campanha foi liderada por Tokio Kano, um vice-presidente da Tepco que se tornou deputado em 1998. Kano voltou à Tepco como assessor depois de deixar o Parlamento.
Resultados de pesquisas indicaram que os jovens japoneses são os mais fortes defensores da energia nuclear.
O Japão passou a acreditar em seu próprio mito da segurança, disse Hitoshi Yoshioka, autor de um livro sobre a história da energia nuclear no Japão e membro de um painel criado pelo primeiro-ministro para investigar as causas do desastre de Fukushima. O establishment nuclear, ele disse, "ficou preso em sua própria teia".
Colaborou Kantaro Suzuki


terça-feira, 26 de abril de 2011

Assim se armou o Japão nuclear

Por Gavan McCormack*, no Le Monde Diplomatique francês | Tradução: Antonio Martins

Março de 2011 poderia marcar na história japonesa, uma ruptura comparável à de agosto de 1945, assinalando a morte de um modelo particular de organização do Estado e da economia. Em agosto de 1945, os cogumelos atômicos explodidos no céu de Hiroshima e Nagasaky haviam selado o fim da guerra em que os jovens oficiais do exército de Kwantung haviam envolvido o Japão nos quinze anos anteriores. Da mesma maneira, o medo de um novo apocalipse nuclear, nascido do caos engendrado pelos tremores de terraami de 11 de março, deveriam marquer uma ruptura com as escolhas feitas ano a ano pela oligarquia empresarial desde o imediato pós-guerra. O Estado nuclear é obra desta gente.
Diferente do desastre de 1945, que teve causas puramente humanas, o de 2011 teve com origem fenômenos naturais, muito agravados pelas decisões dos homens. De qualquer forma, as duas catástrofes têm em comum o fato de terem abalado o mundo.
Durante várias décadas, a “síndrome de Hiroshima”, ou, em outras palavras, o medo e a repulsa do povo japonês a tudo que tem traços nucleares, havia conduzido as autoridades nipônicas a manter a maior discrição possível sobre sua cooperação militar com os Estados Unidos, no quadro de uma estratégia de dissuasão militar. A tal ponto que os “tratados secretos” (mitsuyouku), expressão deste compromisso, e mais particularmente os acordos fechados nos anos 1960 e 1970, só foram publicados há dois anos, por ocasição de uma mudança de poder.
Também foi em regime de total opacidade, e sem jamais ser submetida à sanção das urnas, que se tomou a decisão de adotar uma política energética nacional centrada principalmente no nuclear. A catástrofe de Fukushima faz explodir as manipulações de todo tipo que foram necessárias para a instalação de tal programa: campanhas publicitárias repetidas, dissimulação, mentiras, em particular em casos de acidente, e desinformação quanto aos riscos envolvidos, e sobre a segurança .
Agora, quando nenhum caminho de saída para a crise atual parece surgir, constata-se que a democracia japonesa terá de repensar os mecanismos que permitiram a seus governantes esmacar toda a oposição e conduzir o país ao ponto de ruptura em que se encontra. Além do assombro de uma fusão nuclear, de suas consequências sobre a saúde humana e o ambiente, dos problemas causados pelos cortes de eletricidade, trata-se de uma crise da capacidade de governo e da democracia. Parece ter chegado o momento em que os cidadãos precisam encontrar uma forma de reassumir o controle, tirando-o de uma classe dirigente constituída de altos funcionários, políticos profissionais e economistas e inventando um modo responsável e sustentável de gestão dos serviços públicos. A busca de novas formas de geração de energia e de desenvolvimento socioeconômico emerge como o mote que poderá mobilizar a sociedade japonesa. O fato de que um país mártir do nuclear tenha adotado esta energia com um fervor próximo à obsessão é um paradoxo real. Gozando de uma posição privilegiada e protegido pelos Estados Unidos, o país tornou-se, nos últimos cinquenta anos, um Estado fortemente nuclearizado e uma superpotência do plutônio. É o único país não-nuclear, em termos militares, a se envolver com o desenvolvimento de usinas de enriquecimento e retratamento de urânio e com o projeto de um super-reator. Seus governantes fizeram uma escolha: viram no mineral mais perigoso que a humanidade conhece uma solução mágica para assegurar a segurança energética do país. Enquanto a comunidade internacional concentrava atenção sobre a ameaça representada pela Coreis do Norte, o Japão fugia à vigilância internacional e perseguia seu destino nuclear.
Vale a pena conhecer a história. Só dez anos após Hiroshima e Nagasaki, na época dos “átomos para a paz” do presidente norte-americano Dwight Eisenhower, a comissão japonesa de energia atômica começou a arregaçar as mangas. O programa nuclear de longo prazo lançado em 1967 já incluia o ciclo de combustão e o projeto de super-gerador. A produção de energia nuclear nunca deixou de aumentar, desde então, alimentando uma parte cada vez mais importante da rede nacional de distribuição. Responsável por 3% da energia produzida em 1973, no momento do promeiro choque de petróleo, ela passou a 26% em 2008 e atinge hoje 29%. Em 2006, o ministério da Economia, Comério e Indústria (METI) inaugurou uma “nova política energética”, que tinha por objetivo fazer do Japão uma potência nuclear (genshiryoku rikkoku). O caminho previa o desenvolvimento do nuclear (destacadamente), da hidreletricidade e de outras formas de energia renováveis. Juntas, elas deveriam suprir 50% das necessidades energéticas do país em 2020, chegando a 70%, em 2030. O plano para necessidades energéticas de base, concebido em 2010, previa construir nove novos reatores até 2020 e catorze até 2030. Ao mesmo tempo, a utilização da capacidade dos reatores existentes deveria passar de 60% em 2008 a 85% em 2020 e 90% em 2030.
O sonho de uma energia eterna e infinita inspirou gerações de burocratas japonseses. Próximo ao reator de plutônio de Monju, o parque temático Tsuruga, dedicado ao nuclear (“Aquatom Nuclear Theme Park-Science Museum”) acolhe os visitantes com estas palavres: “O Japão é pobre em recursos naturais. É por isso que Monju, um reator de plutônio, é neceessário. Porque o plutônio pode ser utilizado durante milhares de anos”.
Bilhões e bilhões de ienes foram investidos nos programas de pesquisa e desenvolvimento, enquanto orçamentos adicionais formidáveis foram consagrados à construção de gigantescos complexos industriais. Se são confiáveis as cifras fornecidas pela muito oficial Federação das Companhias de Eletricidade, a central de Rokkasho, no norte da província de Honshu, teria custado, ao final de seus quarenta anos de vida, a soma de 19 trilhões de ienes (360 bilhões de reais) – o que a transformaria na instalação nuclear civil mais cara do Japão, e talvez do mundo.
O país domina o ciclo completo da combustão nuclear. Constroi usinas de tratamento de dejetos, queima uma mistura de plutônio (como ocorre, desde o dim de 2010, no reator 3 da central de Fukushima, Dai-ich) e estoca grandes volumes de dejetos de baixa atividade. Engaja-se no desenvolvimento da supergeração, uma tecnologia tão difícil de controlar e tão cara que todos os outros países a deixaram temporariamente de lado, considerando-a como um sonho cuja hora não chegou. Da preparação do combustível à construção e operação dos reatores; da extração de dejetos a seu retratamento e estocagem, cada etapa do ciclo representava um problema – mesmo antes que o tsunami inundasse a central de Fukushima.

Uma memória dos desastres

Até 11 de março de 2011, o Japão contava com 54 reatores em atividade. A opção por estocar dejetos muito tóxicos, de atividade futura muito longa, em piscinas localizadas ao lado dos reatores, revelou-se um erro fatal. Segundo Robert Alvarez, as piscinas de descontaminação emitem uma radiotividade de cinco a dez vezes maior que a do núcleo do reator. “Cada uma delas”, afirma ele, contém uma concentração de césio 137 superior à liberada pelo conjunto dos testes nucleares realizados no hemisfério Norte”. E continua: “As emissões de césio 137 que poderiam se seguir a um incêndio tornariam inabitável uma região mais vasta que a de Tchernobyl”. Deslocamento ocorrido sob o impacto do terremoto ou vazamentos causados pelo desabamento da estrutura? O que quer que seja, os bastões de combustíveis de diversas usinas foram parcialmente expostos e houve incêndios, cujas consequências ainda é preciso avaliar. O trabalho de resfriamento só foi feito após imensos esforços, e com resultados limitados, utilizando a água do mar despejada em meio ao incêndio, a partir de helicópteros e mais tarde, finalmente, após o religamento, in extremis, das bombas.
Assim que a crise for superada, as usinas precisarão ser descontaminadas e desmanteladas. É um trabalho que se anuncia, desde já, difícil e caro. O processo poderá se estender por vários anos, ao menos uma década. Ao mesmo tempo, será preciso encontrar uma forma de compensar a perda em geração elétrica. As centrais serão recobertas por um sarcófago de cimento, como em Chernobyl? Em qualquer caso, parece claro que elas se converterão num memorial dos erros devastadores cometidos pelo Japão nuclear do pós-guerra.
Antes de Fukushima, outres complexos, entre os mais conhecidos, já haviam suscitado inquietudes. Em julho de 2007, a central nuclear de Kashiwazaki (em Niigata), a maior do mundo, cujos reatores geram 8 mil megawatts (Mw), havia resistido a um terremoto de magnitude 6,8, embora não tivesse sido concebida para enfrentar um abalo de tal força. O incidente revelou que as estruturas foram edificadas sobre uma falha nunca antes detectadas. O pior foi evitado, mas maus funcionamentos foram constatados: conduítes aparentes, incêndios e despejo de partículas radioativas no mar e na atmosfera. A usina Hamaoka, de Shizuoka,190 quilômetros a sudoeste de Tókio, tem cinco reatores. Também foi construída em zona sísmica (a junção das placas eurasiana, pacífico-filipina e norte-americana), que, segundo os sismólogos, poderia tremer num futuro próximo. A todas estas inquietações, o operador da usina responde que a usina pode resistir a um terremoto de 8,5 – a maior magnitude já resgistrada na região. O tremor de intensidade 9 que abalou Fukushima tornou, em poucos minutos, as instalações caducas. Se um evento semelhante se produziesse em Hamaoka, seria preciso evacuar 30 milhões de pessoas.
Nos dias de hoje, outro projeto desperta controvérsias. Dois reatores deveriam ter sido instalados em Kaminoseki, uma pequena comuna de 3.700 habitantes, situada ao sul do Parque Natural do Mar Interior, a 80 quilômetros de Hiroshima. O começo da operação está previsto para 2018, para um, e 2022, para o segundo. Depois de trinta anos de debates e adiamentos, devidos à forte oposição da população local – especialmente a pequena comunidade de pescadores da ilha de Iwaishima, situada a quatro quilômentros da futura central – a aplainagem do terreno e o aterramento de áreas marítimas começaram em 2010. Desde então, incidentes envolvendo barcos de pesca ou dos moradores, canoas e caiaques multiplicaram-se. À luz dos eventos recentes, parece dícil imaginar que o governo seja capaz de intervir para calar os que protestam. Ao contrário: o prefeito da região manifestou-se há pouco, para pedir a paralisação dos trabalhos.

Agência Internacional de Energia pede moratória — e é ignorada

Os reatores nucleares geram grandes quantidades de dejetos que devem ser estocados e reprocessados. Desde 1992, os dejetos de alto teor de reatividade são reprocessados em usinas como a de Sellafield, na Inglaterra, e La Hague, na Normandia. Cada carregamento encaminhado a estes destinos contém uma concentração de plutôpnio equivalente a dezessete bombas atômicas. Mohammad El-Baradei, antigo diretor da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), considerava o reprocessamento um processo muito perigoso, que deveria ser efetuado sob rígidas regras internacionais. Ele pediu ao Japão uma moratória de cinco anos no enriquecimento e reprocessamento. Uma recomendação que o Japão ignorou, alegando que a medida deveria se aplicar a novos projetos, e não às centrais que já operavam há décadas
A central de Rokkasho, a norte de Fukushima, no departamento de Aoumori, reúne no mesmo espaço produção de energia, reprocessamento, enriquecimento e estocagem de dejetos. Isso faz dela a maior central nuclear civil do mundo. Sua unidade de reprocessamento pode converter 800 toneladas de dejetos por ano. A isso, acrescentam-se, todos os anos, oito toneladas de plutônio puro, utilizável para fins militares (o equivalente a mil ogivas de mísseis nucleares). Após diversos contratempos, o reprocessamento começou em 2006, em caráter experimental, sem atingir, até o momento, o regime de pleno funcionamento comercial. Uma outra unidade de reprocessamento, a de Tokaimura, está paralisada desde 1999, após um acidente ocorrido no supergerador, que causou a irradiação de centenas de pessoas e matou dois operários. Desde então, os dejetos se acumulam. A maior parte é estocada, como em Fukushima, ao lado do reator de que é extraída.
No caso de Rokkasho, mesmo que o reprocessamento serja retomado em breve, ele só poderá beneficiar uma ínfima parte dos resíduos que se acumulam por anos. O estoque foi estimado em 12,6 mil toneladas, em 2006. A questão dos dejetos japoneses, incluído o plutônio (um quinto dos estoques mundiais de uso civil), continuará a exigir providências.
Os dejetos de baixa atividade são conservados em recipientes de 200 litros. Em alguns casos, estão armazenados no mesmo local dos reatores; em outros, são encaminhados ao depósito subterrâneo de Rokkasho, projetado para receber três milhões de recipientes. As quarenta cavidades, com capacidade de 10 mil recipientes cada uma, serão mais tarde recobertas de terra e vigiadas por 300 anos. As montanhas artificiais formadas serão como imensos cogumelos venenosos, num reduto tranquilo da região de Aomori.
Os dejetos de alta atividade são vitrificados e depositados em recipientes antes de retornarem a Rokkasho, onde são estocados por 30 a 50 anos, até que sua temperatura baixe lentamente, de 500 a 200 graus. Apenas ao atingir esta condição, poderão ser sepultados – a mais de 300 metros de profundidade. Suas radiações só se dissiparão após alguns milênios.
O combustível misto de óxido de urânio e plutônio (MOX), utilizado no rator 3 da central de Fukushima, constitui uma maneira de reutilizar o plutônio sem convertê-lo em dejeto – integrando-o ativamente, ao contrário, num ciclo energético eterno. Os supergeradores oferecem também uma solução ao problema do acúmulo de plutônio. Permitem “gerar” um plutônio puro de altíssima qualidade. Ou seja, o processo produzir uma quantidade deste mineral maior que a inicial. Os riscos e custos ligados a esta tecnologia são tão relevantes que o Japão é hoje o único país a seguir em tal caminho tecnológicos, apesar dos pobres resultados alcançados. O protótipo de supergerador de Monju, implantado em Tsuruga, no departamento de Fukui (costa ocidental) precisou ser fechado em 1995, em sequência a uma tentativa de camuflar incêndio por negligência, ocorrido após fugas de sódio. Em 2003, o julgamento, pela Corte Suprema, de um processo originado na sequência autorizou a reabertura das instalações, mas dificuldades técnicas impediram a retomada da operação. Segundo as previsões atuais, o supergerador poder operar em 2050 – ou seja, com 70 anos de atraso, em relação à meta oficial. Elas sugeriam que Monju fosse substituído por uma nova central, por volta de 2030. Tudo isso, com um custo de um trilhão de ienes (R$ 19 bilhões).

Erros humanos e práticas fraudulentas

O Japão é hoje vítima de erros de avaliação desastrosos e práticas fraudulentas, que se entrelaçam ao longo de meio século. Incluem falsificação de documentos, fabricação de relatórios, mistificação dos inspetores de segurança nuclear, minimização dos riscos e falta total de transparência na apuração de incidentes e paralisações. Nenhuma abuso foi evitado, no esforço para alcançar a meta estabelecida. Ao perceber seu país, um dos mais avançados científica e tecnologicamente, reduzido à tentativa de interromper um processo de fusão nuclear por meio de métodos tão grosserios como o uso de mangueiras d’água, a sociedade japonesa (e o resto do mundo) se questiona. Que nação – entre elas os Estados Unidos, que se lançam a um “renascimento nuclear” – seria capaz de reagir melhor, em tais circunstâncias?

Apesar da catástrofe que continua a ameaçar, abandonar a energia nuclear não seria tarefa para amanhã. A classe dirigente continuará a perseguir seus sonhos de liderança mundial. Continuará, portanto, a vislumbrar no nuclear uma energia limpa e ilimitada, capaz de rsolver o problema do aquecimento climático. Desejará manter uma força nuclear de dissuasão (braço armado dos Estados Unidos no Pacífico). Para boa parte da população, os objetivos são outros. Cada vez mais vozes se erguem em favor de um processo realmente democrático de decisão envolvendo as fontes de energia. Sugerem o fim do programa nuclear militar e o planejamento de uma alternativa ao nuclear civil. As aspirações incluem o desenvolvimento de energias renováveis, o fim das emissões de gases do efeito-estuva, a reciclagem dos materiais existentes.
Na queda de braços que opõe uma burocracia firmemente aferrada a um Japão nuclear e uma sociedade civil impaciente pela emergência de um novo padrão social, econômico e ecológico, haverá um antes e um depois do 11 de Março.

Gavan McCormack é professor emérito na Universidade da Austrália e autor de diversos livros, entres os quais Client State: Japan in the American embrace [“Estado-Cliente: o Japão na órbita dos Estados Unidos], Verso, Nova York, 2007

http://www.outraspalavras.net/2011/04/13/assim-se-armou-o-japao-nuclear/


Via blog do Luís Nassif

sexta-feira, 25 de março de 2011

José Simão vê a Hora do Planeta

E a Hora do Planeta! No sábado vários monumentos serão apagados por uma hora. Para salvar o planeta! Então a Eletropaulo é a maior adepta da Hora do Planeta. São váááárias horas de luzes apagadas! Em São Paulo, toda hora é Hora do Planeta! Rarará!
E tem monumentos que deveriam ser apagados. Pra sempre! Ou melhor, derrubados! Como aquele monumento do Borba Gato em Santo Amaro. Não apaga, derruba! Tem um leitor de Pindamonhangaba que quer derrubar aquele monumento que fica no trevo: Monumento ao Jeca Tatu!
E derruba também aquele monumento de Niterói: Monumento a Arariboia. Que fica de bunda pra cidade. Tira o monumento que fica de bunda pra cidade e faz logo um Monumento da Mulher Filé! Rarará. E se derrubarem toda as estátuas, onde as pombas vão cagar? Rarará! E sabe o que o planeta falou sobre essa Hora do Planeta? "Não me encham o saco! Me deixem morrer em paz!". Rarará!

Da coluna dele, José Simão, o Macaco Simão, na Folha de São Paulo, de 23 de março de 2011.

Atualização - 28/03/2011: Notícia da Folha.com tenta dar uma perspectiva do ue foi a "Hora do Planeta" em 2011.