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terça-feira, 20 de fevereiro de 2024

EUA são hipócritas ao atacar Rússia por violação de direitos humanos

 

Os seres humanos são tribais. O tribalismo moldou nossa evolução e, por isso, poucas coisas nos trazem mais prazer do que nos unirmos em torno de traços comuns —a nação, os partidos, a ideologia. Um de nossos prazeres é apontar os erros de tribos inimigas.

Esse tribalismo ficou em evidência nos Estados Unidos na última sexta-feira (16). A morte do opositor russo Alexei Navalni em uma prisão na Sibéria foi condenada por líderes norte-americanos de ambos os partidos: dos liberais Joe Biden, Hillary Clinton e Bernie Sanders à presidenciável republicana Nikki Haley e muitos senadores de direita.

A mensagem era clara: os EUA podem não ser perfeitos, mas pelo menos não perseguem e matam seus dissidentes como faz a Rússia. Essa é uma ilusão sedutora, que permite aos EUA se sentirem superiores.

A reação não foi de todo despropositada. Quando uma pessoa saudável é presa, fica doente na prisão e morre, é razoável imputar a culpa ao governo responsável pela prisão. Faria bem, aliás, que as autoridades brasileiras adotassem essa régua.

É, porém, difícil crer que as elites norte-americanas creiam nesses princípios elevados. Os EUA não só têm aprovado o assassinato de seus cidadãos por seus aliados estrangeiros como vêm fazendo de tudo para calar seus críticos mais ferozes.

Em maio de 2023, Gonzalo Lira, um cidadão chileno-americano, foi preso pela segunda vez por autoridades ucranianas. Lira morava na Ucrânia desde 2016, tendo-se casado com uma mulher ucraniana. O crime de Lira? Suas críticas ao presidente ucraniano Volodimir Zelenski e sua insistência em dizer que a Ucrânia e seu maior apoiador, os EUA, mentem sobre a guerra.

Ele foi preso acusado do crime de "disseminar desinformação pró-Rússia". Semanas antes de sua prisão, Lira publicou um vídeo implorando pela ajuda de seu governo, alertando que seria mandado para a prisão e que poderia ser morto pelos ucranianos.

No início do mês passado, o consulado dos EUA em Kiev informou que Lira, até então saudável, havia morrido em 11 de janeiro, de pneumonia, na prisão.

O pai de Lira, um economista chileno, me disse em entrevista na semana passada que os funcionários consulares se recusaram a ajudar seu filho e a dar qualquer informação sobre sua morte, tendo tampouco cobrado o estado ucraniano pela liberdade e vida de seu filho.

As semelhanças entre os casos de Navalni e Lira são gritantes. Ambos eram críticos dos governos que os prenderam e os deixaram morrer na prisão. No entanto, nenhum dos políticos americanos que agora condenam ruidosamente a Rússia mencionaram a morte de seu concidadão por seu aliado Zelenski.

Há também os inúmeros casos de cidadãos dos EUA mortos por Israel: um país financiado e armado, mas raramente criticado, pelos EUA. No ano passado, o Exército israelense matou a jornalista americana Shireen Abu Akleh, que vestia um colete de imprensa em Gaza.

As Forças de Defesa de Israel negaram qualquer relação com a morte, até que uma investigação atestou sua culpa. No mês passado, o Exército israelense matou um adolescente americano na Cisjordânia, Tawfic Abdel Jabbar. Nenhum representante americano condenou Israel pela morte de seus compatriotas.

Não se pode esquecer dos ataques dos EUA contra seus próprios Navalnis. Julian Assange está há quase quatro anos apodrecendo numa prisão inglesa, batalhando pela vida porque o governo dos EUA —primeiro sob Trump, e agora Biden— insiste na sua extradição e prisão pelo "crime" de expor crimes de guerra cometidos por Washington.

E, é claro, Edward Snowden, que continua sem poder sair da Rússia, procurado pelo crime de expor espionagem ilegal e inconstitucional por parte do governo do EUA.

Ainda que os norte-americanos prefiram continuar cegos, o resto do mundo pode ver que o governo dos EUA não segue os princípios que impõe ao resto do mundo.

Sempre que algum líder mundial é cobrado por jornalistas dos EUA ou do Reino Unido por ataques à liberdade de imprensa que teriam cometido, a réplica sempre lembra dos casos de Assange e Snowden para dizer que os EUA não têm credibilidade para criticar os outros países.

No Ocidente, a propaganda nos ensina que é uma cortina de fumaça quando os líderes estrangeiros apontam as hipocrisias dos EUA a respeito de direitos humanos. Argumentam que os EUA devem sim cobrar os outros países, mesmo que internamente pratiquem os mesmos abusos e violações de direitos.

No entanto, o que se convencionou chamar de cortina de fumaça é o verdadeiro teste. É sempre fácil criticar um governo estrangeiro do outro lado do mundo. Difícil é criticar o seu próprio lado.


Texto de Glenn Greenwald na Folha de São Paulo

domingo, 1 de outubro de 2023

Ucranianos morrem para satisfazer elite americana pró-guerra


Há mais de 70 anos, as guerras travadas pelos EUA seguem um mesmo padrão: cada vez que uma nova guerra é proposta, o bombardeio de propaganda midiática e estatal é tão grande que a maioria do público se une em apoio.

Inevitavelmente, esse apoio vai se erodindo. Enquanto o conflito se arrasta, as promessas vão deixando de ser cumpridas e as previsões de uma vitória fácil são desmentidas pela realidade; a população começa a perceber que a guerra foi um erro, repensa o apoio e começa a exigir o seu fim.

Assim foi no Vietnã, no Iraque, no Afeganistão, na Síria e na Líbia. Aos poucos, esse padrão lamentável se repete na Ucrânia. Enquanto um terço da população americana se dizia favorável a apoiar a Ucrânia nos meses seguintes à invasão russa, uma pesquisa recentemente realizada pela CNN traz um cenário diferente: "Maioria dos americanos são contra mais ajuda à Ucrânia na guerra com a Rússia".

Já o presidente Joe Biden segue comprometido com a manutenção do envolvimento dos EUA no conflito, tendo em agosto solicitado ao Congresso o envio de um novo pacote de US$ 24 bilhões —além dos mais de US$ 100 bilhões que os EUA já empenharam na manutenção desse conflito.

A participação no conflito na Ucrânia também obedece a outro padrão histórico nos EUA a respeito de guerras: não há diferença nenhuma entre os establishments republicano e democrata.

Todos os democratas —desde Bernie Sanders, senador independente de Vermont, à congressista "de esquerda" Alexandria Ocasio-Cortez, de Nova York— vêm sendo unânimes em seu apoio à política de Biden de envio de bilhões e bilhões de dólares para fabricantes de armas como Raytheon e Boeing (o chamado complexo industrial-militar), para a CIA e para o notoriamente corrupto sistema político ucraniano.

O mesmo é verdade quando se trata dos setores tradicionais do Partido Republicano, que vem apoiando Biden de forma igualmente fervorosa, postura que pode ser exemplificada pelo líder do Senado, Mitch McConnell, político conservador tradicional e histórico no partido. Não se ouve nenhuma sinalização, por superficial que seja, no sentido de resolver o conflito diplomaticamente.

Mas, se é possível identificar a repetição de velhas dinâmicas, há desta vez uma novidade: o surgimento de uma ala populista e, ao menos pretensamente, antiguerra no Partido Republicano, liderada pelo ex-presidente Donald Trump, que vem sendo o único setor na política dos EUA a se colocar contra esse conflito desde o princípio.

Cerca de 70 republicanos, na Câmara e no Senado —de modo geral, os que se colocam como alinhados a Trump— vêm manifestando sua oposição ao envolvimento na guerra, um número que só deve crescer à medida que mais e mais americanos comecem a se opor ao envio de mais recursos.

Essa estranha dinâmica política dos EUA pode ser vista no posicionamento dos candidatos presidenciais. Dois dos candidatos concorrendo à esquerda de Biden se opõem veementemente ao envio de mais armamentos e recursos para a Ucrânia: o desafiante democrata Robert F. Kennedy Jr. e o ativista e candidato independente Cornel West.

Por outro lado, os candidatos republicanos tradicionais, como o antigo vice de Trump, Mike Pence, e a governadora e ex-embaixadora na ONU Nikki Haley, apoiam fervorosamente a política de Biden.

Não é só na opinião pública que se pode perceber mudanças: a realidade da guerra em si mudou radicalmente desde a invasão russa. Desde o início de 2023, cerca de 20% do território ucraniano vem sendo ocupado pela Rússia, inclusive a península da Crimeia, ocupada pela Rússia desde 2014.

Para manter o apoio da opinião pública nos EUA e na Europa, "especialistas" insistiram que os ucranianos provavelmente reconquistariam grande parte de seu território neste ano. Porém, o que se vê é o oposto: "as linhas de frente na Ucrânia não mudaram quase nada no último inverno", reporta o New York Times, acrescentando que, "apesar de nove meses de conflito sangrento, menos de 1.300 km2 de território mudaram de lado desde o início do ano".

Enquanto o Ocidente estava soterrado em propaganda inspiradora sobre os bravos ucranianos ansiosos por lutar por sua liberdade, mais e mais homens ucranianos vêm tentando fugir do país desesperadamente para evitar uma guerra em que sabem que podem ser mortos.

O presidente do país, Volodimir Zelenski, luta não com um exército de voluntários, mas com um exército de conscritos. Ou seja: dezenas de milhares de jovens ucranianos que nunca quiseram participar da guerra foram mortos só neste ano em troca de nenhum benefício estratégico.

Os apoiadores da guerra nos EUA já nem se preocupam mais em fingir que essa é uma guerra virtuosa, visando defender a democracia: já se fala, cada vez mais abertamente, que a Ucrânia não está sendo salva, mas destruída, mas que isso deve ser apoiado assim mesmo porque ajuda no objetivo de enfraquecer a Rússia.

Em outras palavras, essa guerra é igual a todas as outras em sua dimensão mais importante: uma quantidade enorme de pessoas sem nenhum poder é levada a lutar e morrer, tudo para satisfazer os objetivos de uma parcela mínima das elites americanas, para quem a quantidade de mortos e os rastros de destruição não passam de uma nota de rodapé inconveniente.


Texto de Glenn Greenwald na Folha de São Paulo

segunda-feira, 15 de julho de 2019

As lições do 'Senhor Israel'

Há exatos 60 anos, terminava longevo capítulo da carreira de um personagem marcante na diplomacia do século 20. O israelense AbbaEban retornava para casa após cerca de dez anos como embaixador nos EUA e representante junto à ONU; ele comandaria ainda o ministério das Relações Exteriores e se transformaria numa das faces mais célebres de seu país. Ganhou o epíteto de "Senhor Israel".
Para David Ben-Gurion, patriarca da independência, Eban foi "a voz da nação hebraica". O diplomata, que morreu em 2002, aos 87, deixou como legado alicerces da relação entre EUA e Israel, a busca pela convivência pacífica entre países do Oriente Médio e articulação diplomática famosa pelos ingredientes de singular sofisticação intelectual.
Eban enfrentou o fracasso em 1988, quando, após quase trinta anos de mandatos seguidos no Parlamento, não se reelegeu. Dono de fina ironia, disse certa feita que conseguiria chegar ao cargo de primeiro-ministro "se as pessoas de fora do país pudessem votar nas eleições israelenses".
Como a maioria dos líderes sionistas de sua geração, representada por Ben-Gurion e Golda Meir, Eban lia a cartilha do socialismo. Convicções ideológicas, no entanto, não o impediram de construir, em solo norte-americano, diálogos com democratas e republicanos.
Em setembro de 1950, apresentou credenciais ao presidente Harry Truman, do Partido Democrata. Três anos depois, o republicano Dwight Eisenhower chegou à Casa Branca, e, apesar da troca, Eban continuou a circular por Washington e Nova York em busca da consolidação de laços bilaterais, à época, complicados.
Corria a Guerra Fria. Importantes setores do governo norte-americano olhavam para Israel com desconfiança, pois o país, independente em 1948, construía uma sociedade sobre pilares socialistas, com o kibutz (fazenda coletiva) como emblema.
Em 1949, relatório da CIA chegou a sustentar que, num confronto entre Estados Unidos e União Soviética, Israel permaneceria "provavelmente neutro". Moscou também cortejava o Estado judeu e havia lhe oferecido apoio relevante no período pós-independência.
Abba Eban, portanto, precisava convencer as alas anticomunistas mais fervorosas em Washington das credenciais democráticas de Israel. Recorria ao talento como orador e à desenvoltura linguística, com o domínio de diversos idiomas.
Nascido em 1915, na sul-africana Cidade do Cabo, chegou ao Reino Unido na infância. Educou-se em Cambridge, estudou hebraico e árabe e, na universidade, engajou-se no sionismo, movimento nacionalista judaico.
Pendor intelectual e habilidade diplomática levaram-no à ONU, onde trabalhou pela aprovação, em 1947, da resolução responsável pela Partilha da Palestina. Com a persistente rejeição dos vizinhos ao diálogo com Israel, Eban declarou em 1978 que líderes árabes "nunca perdem a chance de perder uma chance".
Além de frases de efeito, o diplomata deixou como herança bases para que, a partir de meados dos anos 1960, EUA e Israel abandonassem desconfianças e construíssem a relação estratégica. Para tanto, dialogou com diversas correntes políticas norte-americanas, como impõe a essência plural da missão de um embaixador.
Eban corresponde a um exemplo de diplomata que, sem abrir mão de suas convicções ideológicas, cumpriu a tarefa de defender os interesses do Estado israelense, e não apenas do governo de plantão, de sinergias familiares ou de agendas partidárias. Ler a biografia do "Senhor Israel" certamente vai ajudar quem se disponha a fazer diplomacia no século 21.

Texto de Jaime Spitzcovsky, na Folha de São Paulo

quarta-feira, 27 de março de 2019

Um profeta americano centenário

Aí por 1955 ou um pouco mais tarde, tudo indicava que o mundo estava próximo do fim. O perigo de uma guerra nuclear preocupava as pessoas com uma intensidade que o aquecimento global, hoje em dia, nem de longe possui.
A proximidade do apocalipse estimula, claro, o aparecimento de profetas. Para que eles surjam, entretanto, outras condições são necessárias. Eles têm de circular sem rumo pelas cidades e pelos povoados, sem vínculos com a família, com as igrejas e as instituições.
Num mundo burguês, industrial e secularizado, essa gente sem eira nem beira passou a responder pelo nome de "bohème", os "boêmios", os artistas como Baudelaire, Verlaine e Rimbaud.
Os profetas viraram poetas, músicos e pintores "malditos", até que o mercado de arte, o mundo editorial e as universidades passassem a apostar neles.
O quadro mudou. Hoje, o que se tem é um "precariado" intelectual, no qual o jovem ou o velho de talento se marcam menos por rejeitar a cultura estabelecida (que tolera praticamente tudo) e mais pela falta de emprego fixo.
O problema do "precariado", em oposição à antiga "boêmia artística", é excesso de oferta, não falta de demanda.
Os "malditos" de hoje correm mais o risco de ter o nome no Serasa do que de serem presos ou de terem suas obras proibidas, como acontecia no passado.
Nesta semana, o poeta americano Lawrence Ferlinghetti alcançou a idade bíblica de cem anos. É o último sobrevivente do movimento "beatnik", que, na Califórnia e na Nova York dos anos 1950, inaugurou a sensibilidade pacifista, ecológica, libertária e contracultural até hoje presente no pensamento progressista.
Ferlinghetti comemorou seu centenário publicando um livro autobiográfico, "Little Boy", que mais uma vez afirma seu imenso amor pela vida e pelo mundo.
Ele passou os primeiros anos de vida na França, criado por uma tia (a mãe não tinha dinheiro para criá-lo).
Ferlinghetti foi parar num orfanato, foi adotado por um casal de ricaços americanos, fez serviço militar no final da Segunda Guerra, estudou na Sorbonne, e finalmente abriu uma livraria e editora em San Francisco, a City Lights, que seria o foco da literatura alternativa americana na década de 1950.
Os "beats" a que Ferlinghetti se associou (Jack Kerouac, Allen Ginsberg, William Burroughs) adotaram esse nome não porque estivessem pensando em alguma "batida" de rock, mas porque buscavam um novo tipo de "beatitude" na existência material, com a ajuda de drogas, álcool e sexo.
Contavam também, e sobretudo, com a contemplação maravilhada das coisas. No seu livro mais importante, "Um Parque de Diversões na Cabeça" (muito bem traduzido por Eduardo Bueno e Leonardo Fróes para a L&PM), Ferlinghetti transmite essa experiência de um modo adorável, despretensioso e coloquial.
Veja-se o poema número 20. "Na confeitaria barata para além do El [o elevado do metrô]/ foi onde pela primeira vez/ me apaixonei/ pela irrealidade/ Os drops reluziam na semi-obscuridade/ daquele entardecer de setembro/ Um gato deslizava sobre o balcão entre pirulitos/ e pães de forma/ e Oh chicletes de bola (...)"
As cores falsas da sociedade de consumo se fundem, em outros poemas, ao "amarelo varrido" pelo "último sol", enquanto "gaivotas quase caem na terra firme". Ou aos "campos da infância", onde "o arco-íris se mistura na memória com a palha" e "cada coisa viva/ lança na eternidade a sua sombra."
Com versos quebrados, espalhados pela página, Ferlinghetti expressa uma vivência de vagabundagem, de boêmia, em que a certeza do fim do mundo algumas vezes leva ao puro prazer pela vida presente, e outras vezes às esperanças de transformação.
O problema dos poetas que se recusam a seguir os limites do formalismo, buscando uma lírica mais espontânea e calorosa, é que terminam frequentemente presos na armadilha da retórica. O impulso poético se expande para fora do sentimento pessoal, tornando-se invocação, discurso, profecia.
A saída de Ferlinghetti é temperar isso com ironia, como se desfizesse criticamente o êxtase verbal a que se entrega. "Estou esperando", diz ele num longo poema, "que a vida comece (...) e estou esperando/ soltar velas e zarpar para felicidade/ e estou esperando/ um Mayflower reconstruído/ que chegue à América/ com os direitos de sua epopeia para quadrinhos e para TV/ já vendidos antecipadamente/ para os nativos"...
Aos cem anos de idade, a vida de Ferlinghetti está apenas começando.

Texto de Marcelo Coelho, na Folha de São Paulo

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Sob Obama, o antirracismo viveu dias gloriosos

Impor um presidente negro a um país ainda hoje tão racista como são os Estados Unidos - este o maior feito de Barack Obama.
Impor-se ao respeito inabalado de todo esse país durante os oito anos na presidência - este o segundo maior feito de Barack Obama. O revertério que leva um primata patético a sucedê-lo sugere a dimensão gigantesca daqueles feitos.
O primeiro êxito e a decência cativante de Obama fizeram esperar-se dele mais do que fez. Ou, no mínimo, o principal dos seus compromissos de candidato: a retirada americana das áreas de guerra, a redução da presença militar dos EUA no mundo, o fim do crime imoral que é a prisão de Guantánamo, apesar de sem importância na opinião dos americanos, mas humilhante para o mundo que, acovardado, o testemunha.
Obama não apenas deixa forte presença militar no mundo, por muitos dita maior do que a encontrada. Foi da sua presidência a autorização para uso da nova arma que são os pequenos aviões não tripulados, ou drones, transformados em objetos assassinos.
Chefes ou suspeitos de ação anti-americana são assassinados do ar em países sem guerra com os EUA. O colar de bases americanos em torno da então URSS, que fez os soviéticos instalarem foguetes em Cuba para barganhá-los pela retirada das bases, ganhou com Obama nova versão. Os EUA montam, na Ásia e na Oceania, um arco de bases e arsenais em volta da China. Com Obama, as ânsias beligerantes dos EUA ficaram apenas menos ostensivas e mais educadas, sem troca de desaforos.
Do mesmo lote de compromissos principais do candidato, Obama fez três grandes realizações. Duas notórias: a economia em colapso foi oxigenada, com efeitos sociais ainda em progressão; e a persistente batalha que conseguiu vergar o Congresso para implantar um sistema público de saúde, o Obamacare já sob as picaretas dos republicanos.
A terceira foi a ação contra o racismo. Antecessor de Kennedy, o general Eisenhower usou contra o racismo agressivo a Guarda Nacional. Kennedy, como em quase tudo, dividiu-se entre a força e a demagogia.
Obama teve a inteligência e a originalidade de usar uma das armas mais raras entre os ditos civilizados: a naturalidade. Assim como para eleger-se não fez do racismo um tema de combate, na Casa Branca dirigiu-lhe poucas palavras: enfrentou-o com o seu dia a dia, com sua cara. Com a simbiose Barack-Michelle. Conscientizada ou não, a evidência penetrou fundo no país: nenhuma diferença entre brancos e negros.
O racismo não se extinguiu, talvez nem tenha se retraído em porção significativa, a Ku Klux Klan é sempre uma das bandeiras nacionais. Mas o antirracismo viveu dias gloriosos, para um futuro em que será difícil retrocedê-lo.
Mas um legado especial Barack Obama leva amanhã consigo: Michelle Obama, imagem consagrada, oradora brilhante, opinião e firmeza, potencial presidente dos Estados Unidos.


Texto de Jânio de Freitas, na Folha de São Paulo

sábado, 14 de janeiro de 2017

Fim do mundo como conhecemos

Donald Trump assume, em uma semana, a Presidência da maior economia do mundo, com um agenda que provavelmente estará velha e sem sentido antes mesmo que ele termine o mandato.
Examinemos apenas o aspecto mais midiático dessa agenda, qual seja a sua cruzada para atrair de volta aos Estados Unidos os empregos perdidos para, por exemplo, México e China.
Um amigo diplomata, um dos talentos que o Brasil desperdiça, me lembra, em brilhante análise sobre as mudanças que se avizinham, o seguinte dado: o Banco Mundial calcula que o comércio internacional (outro alvo da agenda Trump) e as transferências de fábricas são responsáveis por apenas 20% das perdas de emprego no mundo.
A tecnologia responde pelos outros (esmagadores) 80%.
Desnecessário dizer que não está à vista alguma solução mágica que permita punir a tecnologia para que ela devolva os empregos que estão sendo perdidos.
Pergunta meu amigo diplomata que pede reserva do nome: alguém em sã consciência acha que voltaremos a ter agências de turismo como no passado? Alguém acha que a contabilidade vai voltar a ser feita em livros, a mão?
Completa: a verdadeira reflexão teria que ser sobre o que fazer em um mundo em que praticamente não há mais empregos ou muito poucos ou muito especializados ou de baixa renda. Bingo. A destruição do emprego faz parte da chamada "Quarta Revolução Industrial".
Trata-se do "auge de uma onda de descobertas ligadas à conectividade: robôs, drones, cidades inteligentes, inteligência artificial, pesquisas sobre o cérebro", como diz Klaus Schwab, criador do Fórum Econômico Mundial, a instituição que, todo janeiro, reúne em Davos a quintessência do mundo político, acadêmico e principalmente empresarial. É sintomático que 27 sessões do encontro 2017 tenham como tema, direta ou indiretamente, a tal de 4ª Revolução Industrial.
Começa, aliás, justamente com emprego: "Promessa ou perigo —decodificando o futuro do trabalho".
O problema é saber se o trabalho terá mesmo futuro. É sintomático, como lembra ainda meu amigo diplomata, que a Juventude Socialista da Suíça, certamente por antecipar que não haverá trabalho para todos (ou talvez nem sequer para a maioria), conseguiu assinaturas suficientes para um plebiscito sobre a instituição de uma renda mínima para todos, tenham ou não trabalho (o ex-senador Eduardo Suplicy ficaria feliz). A proposta não foi aprovada, mas, de qualquer forma, o debate está lançado pelo menos em alguns países.
Das 27 sessões de Davos-2017 sobre a nova revolução industrial, a última, cronologicamente, discutirá "além do possível", partindo de epígrafe de um futurologista de fama como Arthur Clarke:
"O único modo de descobrir os limites do possível é ir além deles, rumo ao impossível". É uma boa aposta, mas parece utópica num mundo em que não parece haver lideranças políticas com pegada suficiente para superar limites. No Brasil, então, a elite, inclusive a acadêmica, não consegue nem explorar os limites do possível, quanto mais superá-los.


Texto de Clóvis Rossi, na Folha de São Paulo

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Ao custo de sangue inocente, próximos cem dias serão cruciais para a Síria

O imobilismo político que marcou a reunião em Lausanne, Suíça, deu a impressão que o encontro foi realizado mais para tentar dar satisfação à comunidade internacional do que propriamente focado em busca de conclusões.
O que está em jogo, no momento, é como cada lado procurará manipular a validade das cartas do outro. Russos e americanos estão entrincheirados em suas estratégias e, sobretudo, em suas inflexibilidades.
Enquanto o regime e seus aliados preparam a ofensiva final para conquistar a parte oriental de Aleppo, o eixo EUA-Arábia Saudita, em desvantagem no tabuleiro, demonstra disposição para protelar possíveis soluções políticas à espera da nova administração americana.
Da perspectiva do eixo Moscou-Teerã, o regime retomou o controle dos principais pontos estratégicos do território à exceção da parte oriental de Aleppo, tem total controle sobre a capital Damasco e preservou a unidade das Forças Armadas.
Ademais, Bashar al-Assad segue visto como o principal líder do país. Para russos e iranianos, portanto, a realidade do terreno é que serve de fator determinante para o curso de quaisquer negociações diplomáticas.
Já o bloco antirregime utiliza a importância estratégica de Aleppo para inflar a importância de suas cartas, além de manipular, convenientemente, a composição de quem seriam os grupos armados tipificados, fantasiosamente, de "rebeldes moderados".
O principal impasse entre Moscou e Washington recai, precisamente, sobre a classificação da organização terrorista Jabhat Al-Nusra que, recentemente, alterou o seu nome para Jabhat Fateh Al-Sham.
No fundo, sem a inclusão da organização terrorista Jabhat Al-Nusra —que à cada período transmuta de nome— no grupo denominando de "rebeldes moderados", as cartas de sauditas e qataris, defensores desse posicionamento, se tornam inúteis —paradoxalmente, os americanos os endossam.
Os grupos armados que poderiam, talvez, ser tipificados como "rebeldes moderados" sequer chegariam a 10% da força militar de resistência ao regime.
Além disso, qual seria o conceito utilizado para definir o que é um "rebelde moderado"? Essa "moderação" é comparada a que ou a quem? Esmagadora maioria desses grupos utiliza fortes caracteres e denominações religiosas em suas flâmulas, como o próprio Estado Islâmico e a Al-Nusra —seriam estes "moderados"? Indivíduos radicalizados na ortodoxia do salafismo-wahabita poderiam ser "moderados"? Pois, é essa a matriz de EI e Al-Nusra.
Ao cabo, o encontro de Lausanne revelou o antagonismo existente entre os países presentes.
Os sauditas impõem como pré-condição a saída de Assad. Os americanos reafirmam a necessidade de não haver vácuo de poder, mas sem oferecer proposições concretas. Os iranianos defendem a conservação intacta do regime.
Os egípcios defendem a integridade territorial da Síria e das instituições. Os turcos advogam pela constrição do poder dos curdos e exclusão da Al-Nusra da lista dos "rebeldes moderados". Os russos concordam com parte dos pontos anteriores, mas fazem a ressalva de que o futuro de Assad e de qualquer rearranjo governamental pertencem ao povo sírio.
Desse imbróglio pode se extrair algumas conclusões.
Primeiro, confluência de interesses entre Moscou-Ancara. Segundo, a discrepância de visões entre os dois principais países árabes, Egito e Arábia Saudita. Terceiro, a incapacidade do eixo antirregime de forjar, após cinco anos, uma liderança crível e legitima para o povo sírio.
Os próximos cem dias serão cruciais e podem diluir a força das cartas de um dos lados. Resta saber quem irá determinar o formato do novo status quo —tudo isso, é claro, ao custo de sangue de gente inocente.


Texto de Hussein Kalout, na Folha de São Paulo.

terça-feira, 16 de agosto de 2016

General francês revela como método de tortura do país virou referência


"Eu vou atravessar uma porta, e diante dessa porta tem um espelho, vou olhar para esse espelho e não quero ver um canalha", assim falava o general francês Paul Aussaresses, em suas últimas entrevistas antes de morrer, em 2013, aos 95.
Desde que deu as primeiras declarações ao jornal "Le Monde", em 2000, até pouco antes de sua morte, Aussaresses rompeu de forma incômoda um silêncio que dominava as Forças Armadas francesas sobre os métodos abusivos utilizados contra os integrantes da Frente de Libertação Nacional durante a guerra de independência da Argélia, entre 1954 e 1962. O país era, desde 1830 e até então, uma colônia francesa.
Na França, que sempre se orgulhou de seu apreço pela defesa dos direitos humanos, as declarações de Aussaresses causaram intensa repercussão. Era a primeira vez que um militar de alta patente reconhecia que o Exército francês praticara torturas na Argélia.
Mas, para o próprio, foi como acertar contas consigo mesmo. "Creio que ele estava pensando no que aconteceria depois de sua morte, e imaginava que, ao dizer a verdade, poderia se livrar de um julgamento negativo. Mas em nenhum momento ele se disse arrependido", conta a jornalista e pesquisadora Leneide Duarte-Plon em seu recém-lançado "A Tortura como Arma de Guerra".
Baseado nas entrevistas que realizou com Aussaresses a partir de 2008, o livro detalha as técnicas usadas pelos franceses para obtenção de informações, assim como o modo como foram executados ou "desaparecidos" vários líderes do FLN.
Aussaresses foi um ex-combatente da Segunda Guerra Mundial, das guerras da Indochina (1946-1954) e da Argélia (1954-1962).
Depois disso, foi enviado aos EUA para ensinar militares americanos e latino-americanos a como atuar contra a insurgência em forma de guerrilha, ou, em suas palavras, com os "terroristas".
"Quando se estuda as ditaduras na América Latina, fala-se muito da ação dos EUA, e esse vínculo com a França é pouco estudado, mas ele foi muito forte. Passaram por esses cursos dos veteranos franceses nos fortes Bragg e Benning, nos EUA, muitos militares sul-americanos, como o argentino Jorge Videla (1925-2013) e o chileno Augusto Pinochet (1915-2006), que depois se transformariam em ditadores", diz a autora.
Nesses encontros, segundo o relato de Aussaresses, os militares franceses ensinaram suas técnicas de interrogatório sob tortura.
O vínculo de Aussaresses com a América Latina se fortaleceria entre 1973 e 1975, quando atuou como adido militar da França em Brasília. Nesta época, teria tido como amigo na capital brasileira o general João Batista Figueiredo (1918-1999), enquanto este ainda era chefe do SNI (Serviço Nacional de Informações) –depois assumiria o cargo de último presidente da ditadura militar brasileira (1964-1985).
"Falou-me de Figueiredo como um amigo, alguém com quem compartilhava várias afinidades. Os dois eram enfaticamente anti-comunistas, gostavam de cavalos e de mulheres", conta Duarte-Plon.
Mas a relação entre os dois chefes militares não terminou muito bem. À jornalista, Aussaresses relembra um caso que já havia relatado em seu livro "Je N'ai Pas Tout Dit", em que contava que o próprio Figueiredo havia mandado interrogar sob tortura uma mulher que tinha tido um breve "affair" com o francês, mas que o então chefe do SNI acreditava ser uma espiã do "Leste". Aussaresses tentou fazer com que Figueiredo a libertasse, mas não conseguiu. Ao final, depois de muito insistir, o brasileiro lhe teria dito: "Paul, aquela mulher era frágil fisicamente. Ela foi levada ao hospital e morreu."
Com base nas descrições do general torturador, Duarte-Plon sugere que algumas mortes famosas da ditadura brasileira teriam sido inspiradas no modo de executar prisioneiros dos militares franceses na Argélia. O caso mais emblemático seria o do jornalista Vladimir Herzog, cuja morte após sofrer tortura tentou-se camuflar alegando que ele teria se suicidado por enforcamento, produzindo uma das imagens mais simbólicas da tortura no Brasil.
Duarte-Plon conta que um dos chefes do FLN, Larbi Ben M'Hidi, teve a morte apresentada da mesma forma, como suicídio por enforcamento, mas que Aussaresses lhe confessara que, na verdade, ele tinha sido morto por tortura antes. "Nós o ajudamos", teria dito o ex-general.
As polêmicas declarações de Aussaresses não foram dadas apenas em entrevistas a jornais e a emissoras de TV. O ex-general também lançou livros, após a primeira revelação, nos quais defendeu seus métodos, além de relatar como foi a execução de vários líderes do FLN.
Acabou sendo levado à Justiça francesa, mas não foi condenado devido à lei de Anistia de 1968. Em sua defesa, dizia que "uma informação obtida a tempo poderia salvar dezenas de vidas humanas", caso o torturado fosse de fato um "terrorista". Justificava as execuções, também, dizendo que era preciso "não sobrecarregar o sistema Judiciário".

'GENTLEMAN'

Duarte-Plon diz ter se impressionado com a facilidade com que o general falava de detalhes muito técnicos das torturas e mortes sem parecer se incomodar. Também conta que se comportava como "um gentleman" e que tinha "gostos requintados". De fato, em entrevistas disponíveis no YouTube, pode-se ver Ausseresses confessando torturas, dizendo não ter remorsos, mas portando-se sempre de modo elegante e educado.
As únicas punições que recebeu foi ter perdido o direito de usar a Legião de Honra como herói da Segunda Guerra, retirada em 2005 pelo então presidente Jacques Chirac, e ter de pagar uma multa de 7.500 euros por fazer "apologia de crimes de guerra".


Reportagem de Sylvia Colombo para a Folha de São Paulo

sexta-feira, 25 de março de 2016

Obama diz "nunca mais" no aniversário de 40 anos do golpe militar na Argentina

Obama diz "nunca mais" no aniversário de 40 anos do golpe militar na Argentina

Presidente afirmou no evento que ´os Estados Unidos devem analisar o passado´

Quarenta anos após o golpe militar na Argentina, Barack Obama disse nesta quinta-feira "nunca mais" às ditaduras em uma histórica homenagem às vítimas do sangrento regime apoiado por Washington entre 1976 e 1983 neste país e em seus vizinhos Chile, Uruguai, Bolívia e Brasil.
Obama pediu para que "se cumpra a promessa do nunca mais", duas palavras que expressou em espanhol e que encerraram o caso contra as juntas militares do regime ditatorial no julgamento de 1985, que condenou à prisão perpétua dois comandantes. O presidente americano prestou homenagem às vítimas da ditadura no Parque da Memória, à beira do Rio de la Plata, onde foram jogados drogados e milhares de opositores.Ao lado de seu colega argentino Mauricio Macri, percorreu o parque e jogou flores brancas na água.

"Os Estados Unidos devem analisar o passado", afirmou Obama em tom cerimonioso no memorial com os nomes de 9.000 mortos e desaparecidos. Nenhuma organização de defesa dos direitos humanos participou do ato, desconfortáveis com a visita do presidente americano em uma data sensível para o país.
"Estamos aqui em um parque em homenagem à coragem e perseverança. Um tributo aos cônjuges, irmãos e filhos que não abandonaram os esforços para alcançar a justiça e a verdade", declarou Obama.
Ele também fez alusão à luta de organizações como as Mães e Avós da Praça de Maio em busca da verdade sobre o terrorismo de Estado, ao qual atribuem cerca de 30.000 desaparecimentos, incluindo de 500 bebês, dos quais apenas 119 foram encontrados até hoje.
"Essas famílias, suas incessantes e constantes ações, fizeram a diferença. Vocês fizeram incríveis esforços para responsabilizar aqueles que perpetraram esses crimes", disse Obama. "Sei que há controvérsias sobre as políticas dos Estados Unidos naqueles dias obscuros. As democracias devem ter a coragem de admitir quando não está à altura dos ideais que defendemos, quando tardamos em defender os direitos Humanos. Esse foi o caso da Argentina", ressaltou.
Marchas pela Memória
O dia 24 de março é conhecido como o Dia da Memória na Argentina, e marchas foram convocadas para dizer "nunca mais" em várias partes do país. Em um exercício de diminuir as tensões nesta nação de fortes sentimentos anti-americanos, Washington antecipou a desclassificação de arquivos militares e de inteligência que podem ajudar na busca pela verdade sobre pessoas desaparecidas.
Obama declarou nesta quinta-feira que, "a pedido do presidente Macri, desclassificaremos mais documentos da ditadura". "Foi um gesto positivo", consideraram em uníssono líderes como Estela de Carlotto, presidente das Avós da Praça de Maio, e o Nobel da Paz argentino Adolfo Pérez Esquivel.
Na quarta-feira, Obama disse que seu país fez um exercício de "auto-crítica". "Na década de 70 a nossa abordagem sobre os direitos Humanos era tão importante como a luta contra o comunismo", disse ele.
"Um novo começo"
Obama destacou a nova era nas relações com a Argentina, em um jantar de Estado no Centro Cultural Kirchner, em um imponente edifício histórico inaugurado no ano passado pela ex-presidente Cristina Kirchner (2007-2015). Durante o jantar, Obama chegou a ensaiar passos de tango.
A última visita de um presidente dos Estados Unidos à Argentina foi a de Bill Clinton em 1997, quando os militares contavam com a proteção de duas leis de anistia e a questão da ditadura não foi incluída na agenda. O ex-presidente Nestor Kirchner (2003/2007) impulsionou a anulação das leis de anistia e a retomada dos julgamentos por crimes contra a Humanidade, o que levou a centenas de condenações vinculadas a este período negro na história da Argentina.
A visita oficial de Obama se encerra nesta quinta-feira, após uma visita a Bariloche, 1.650 km ao sudoeste da capital. Ele retorna a Buenos Aires para pegar o avião que o levará de volta a Washington depois da meia-noite.

Reprodução do Correio do Povo

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Harper Lee, ganhadora do Pulitzer por 'O Sol É para Todos', morre aos 89

A escritora Harper Lee, que ganhou o prêmio Pulitzer de ficção em 1961 por seu livro "O Sol É para Todos", morreu aos 89 anos, informou o "The New York Times" e outras publicações americanas nesta sexta-feira (19).
A autora nasceu em 1926, em Monroeville, no Alabama. Se mudou em 1949 para Nova York, onde trabalhou como auxiliar em companhias aéreas enquanto seguia com a carreira de escritora.
Oito anos mais tarde, apresentou o manuscrito do romance sobre o racismo e a injustiça no sul dos Estados Unidos para a editora americana J. B. Lippincott & Co., que lhe pediu para reescrevê-lo.
Lançada em 1960, a obra foi um sucesso comercial —vendeu mais de 40 milhões de cópias— e de crítica.
Já no ano seguinte, o romance recebeu o Pulitzer, principal prêmio literário americano, transformando-a em uma celebridade literária. Reclusa, sempre fez poucas aparições —mas nas poucas entrevistas que deu costumava se dizer surpresa com o sucesso de "O Sol...".
O livro conta a história de Atticus Finch, um advogado de uma cidadezinha que vai defender um homem negro acusado injustamente de estuprar uma mulher. O livro é narrada por Scout, filha do advogado.
O romance se tornou filme em 1962, com Gregory Peck no papel do advogado engajado Atticus Finch. Foi adaptado para o teatro em várias cidades norte-americanas e em Londres e ganhará versão na Broadway na temporada 2017-2018.
Até ano passado, Lee era considerada autora de livro só —até que um manuscrito inédito com alguns do mesmos personagens de "O Sol..." ser encontrado e publicado no ano passado. No Brasil, a obra recebeu o título de "Vá, Coloque Um Vigia" (José Olympio).
O novo romance não chegou às prateleiras sem controvérsias. Como Harper Lee costumava garantir que nunca mais publicaria um novo livro, os advogados da autora começaram a ser acusados de publicar a obra à sua revelia —uma vez que, com a idade avançada, a escritora não poderia mais decidir sobre si.
Alguns críticos apontaram que a obra não passava de um rascunho de "O Sol é Para Todos". Um dos motivos é o fato de Atticus Finch, advogado que defende os negros no livro mais famoso da autora, surgir em "Vá, Coloque Um Vigia" como um racistas que apóia a segregação dos negros.
Harper Lee era amiga de infância de outro escritor crucial nas letras americanas, Truman Capote. O pai dele chegou a presentear a dupla com uma máquina de escrever —e eles começaram a ditar narrativas um ao outro. Não à toa, Capote escreveu a orelha de "O Sol É Para Todos" —e ela foi assistente do autor na apuração da reportagem que virou o livro "A Sangue Frio".
Na faculdade, a Huntingdon College, a escritora começou escrever artigos para jornais literários. Depois de lá, ela foi estudar direito na Universidade do Alabama, para agradar seu pai, que também era advogado. Ali, ela chegou a editora-chefe de uma revista de humor do campus.
Depois de uma temporada no Reino Unido, ela se mudou para Nova York, em 1949. Chegou a trabalhar como livreira e em uma companhia aérea.
No começo, Harper Lee escrevia contos, mas recebeu conselho de um agente literária que escrevesse um romance. "Vá, Coloque Um Vigia", era o primeiro nome da obra, que só mais tarde ganhou o título "O Sol É Para Todos".


Reprodução parcial do necrológio da escritora Harper Lee, na Folha de São Paulo

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Cooperação internacional: o interesse dos EUA e do Brasil

Provavelmente a intenção da Folha, ao entrevistar a brasilianista Barbara Weisntein – da Universidade de Nova York – foi mostrar o estado deplorável de corrupção que assola o Brasil
Mas a boa entrevistadora, Sylvia Colombo, arrancou uma informação que reforça o que se tem dito aqui sobre a geopolítica da cooperação internacional (o acordo de parceria entre órgãos de investigação dos diversos países).
Perguntou sobre as comparações entre Brasil e EUA:
“Os EUA têm uma particularidade. Muita coisa que acontece aqui não conta como corrupção porque está dentro da lei, mas é moralmente errado e isso tem impacto na situação de pessoas menos privilegiadas”, respondeu a brasilianista.
Há tempos vimos alertando para o fato de que a cooperação internacional se transformou em território da geopolítica norte-americana.
Os Estados Unidos são historicamente uma sociedade organizada em torno de interesses corporativos explícitos. O Departamento de Estado, de Justiça e o próprio FMI sempre estiverem atrelados à lógica corporativa do país. Desde sempre as grandes multinacionais se constituíram no braço externo do poder nacional.
Esse pragmatismo norte-americano criou uma regulação permissiva para as formas de relacionamento corporações-poderes públicos. O lobby é regulamentado, assim como as contribuições de campanha. Aceita-se como natural até a retribuição dos presidentes eleitos aos grupos econômicos aliados, que chega ao limite das guerras nacionais. É só lembrar a guerra do Iraque e as empreiteiras da era Bush.
Em 1952, o Secretário do Tesouro norte-americano George Humphrey só concordou em liberar um financiamento ao Brasil depois que a Hanna Mining foi compensada da perda da exploração do manganês do Amapá.
O pragmatismo norte-americano chega ao ponto de permitir ao presidente da República conceder o indulto a empresários acusados de corrupção, em nome do chamado interesse nacional.

O conceito de corrupção nos EUA

Quando o narcotráfico e o terrorismo obrigaram a um cerco econômico sobre o crime organizado, houve restrições à ação corruptora de empresas norte-americanas, mas limitadas ao pagamento de propinas. Todos os demais instrumentos de guerra comercial continuaram sendo empregados à larga, principalmente o exercício do poder de Estado da nação mais poderosa do planeta.
Dia desses, uma fonte do MPF admitiu a um colunista da Folha haver interesses econômicos por trás da cooperação internacional (ufa!). Mas explicou que os EUA apenas querem igualdade de condições, depois que a legislação antiterror obrigou a restringir a ação corruptora de suas multinacionais.
Igualdade de condições? Como haver igualdade de condições se as mesmas práticas são  toleradas por lá e colocadas sob investigação por aqui?
Nesses tempos de Lava Jato, os vazamentos tentaram criminalizar de tudo, de ações diplomáticas na África até financiamentos às exportações, financiamentos do BNDES, incentivos regionais.
Nem lhes chamou a atenção o fato do Departamento de Justiça, sem que fosse solicitado, passasse dados sobre a corrupção na Eletronuclear.
A insensibilidade em relação ao destino das empresas, dos empregos e da tecnologia investida é espantosa. A ideia de criminalizar pessoas jurídicas – e não pessoas físicas – não encontra respaldo em nenhuma legislação moderna. Não é racional.
A visão conspiratória de que, salvando as empresas, salvam-se os acionistas, já que os negócios são  todos imbricados, não resiste a um mero exercício de lógica:
1.     Os acordos de leniência pressupõem o ressarcimento ao Estado de valores identificados com a corrupção. Tem que haver pagamento.
2.     Se tem que haver pagamento, e se o governo recebe, o dinheiro ou sai do controlador (vendendo a empresa) ou da empresa.
Na medida em que o combate à corrupção se torna um valor maior, o MPF tem que desenvolver uma jurisprudência interna, uma discussão mais objetiva sobre disputas comerciais, para diferenciar a corrupção propriamente dita das estratégias comerciais e do chamado interesse nacional. A Lei de Leniência é um primeiro passo.
Não faltam no MPF grandes procuradores especializados em direito econômico para enriquecer a discussão.

Reprodução do Blog do Luís Nassif

domingo, 3 de janeiro de 2016

Ta-Nehisi Coates emociona em carta ao filho sobre racismo

Ta-Nehisi Coates emociona em carta ao filho sobre racismo