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segunda-feira, 13 de dezembro de 2021

Monarco encarou a derrota como se ela fosse o caminho da vitória


Na juventude Monarco era rápido na hora de fazer uma segunda parte. Foi assim que, sem dar chance aos compositores mais experientes, tornou-se parceiro dos velhos bambas de Osvaldo Cruz, continuando a tradição e ao mesmo tempo modernizando o samba de terreiro na Portela.

Com Alcides Dias Lopes, o Malandro Histórico, fez "Amor de Malandro ("Você não foi meu primeiro amor/ Nem tampouco o segundo/ A sentir saudade nesse mundo"). Com Chico Santana, o Chico Traidor, "Lenço" ("Seguirei a ordem do meu coração/ Não me fale de amor/ Nem tampouco me peça perdão"). Com Oswaldo dos Santos, o Alvaiade, "Vida de Rainha" ("Felicidade/ É o que mais lhe desejo/ Muito embora não queira/ Mais saber do teu beijo"), sua primeira música gravada, pelo ritmista Risadinha.

Neles, Monarco definiu seu estilo à moda antiga, com o uso constante das tonalidades menores e, como notou Henriques Cazes no livro-perfil que escreveu sobre o artista, "sem empregar notas repetidas", desenhando "a melodia mais como instrumentista do que como um compositor intuitivo". Daí que suas ricas modulações sempre agradaram aos sambistas como também aos músicos de choro.

Quando Paulinho da Viola reuniu, em 1970, os veteranos da escola —além de Chico Traidor e Alvaiade, Manaceia, Aniceto, Caetano, Rufino, Mijinha, Alvarenga, Ventura —para o LP "Portela, Passado de Glória", Monarco era o caçula turma. É de sua autoria a faixa-título, uma homenagem ao pioneiro Paulo da Portela: "Em Osvaldo Cruz/ Bem perto de Madureira/ Todos só falavam/ Paulo Benjamin de Oliveira".

Mais do que um simples disco, a gravação de "Portela, Passado de Glória" plasmou um conceito, o das velhas guardas, depois adotado por outras escolas e que foi fundamental para a ideia de que é preciso olhar para trás e só então seguir adiante. Monarco, que aparece na contracapa, não canta no LP. Preso ao trabalho como peixeiro na praça Quinze, não conseguiu ir ao estúdio.

Sua voz abaritonada, metálica e dolente, que muita gente considera "a voz do samba", só começou a ser notada a partir do primeiro disco individual, gravado em 1976, que tinha Dino no violão de sete cordas, Abel Ferreira no clarinete e uma cozinha espetacular: Marçal, Gordinho, Neném. O caricaturista Lan —que o cantor e compositor conhecia dos tempos em que guardou carros no estacionamento do Jornal do Brasil— desenhou a capa.

Com a participação dos companheiros da Velha Guarda da Portela, o LP "Terreiro", de 1980, mereceu um título provocador numa matéria assinada pelo crítico José Ramos Tinhorão: "Quem não gostar de Monarco ou é surdo ou já morreu". Nesse disco surge seu lado de historiador e pesquisador do samba, revelando composições desconhecidas, como "Chuva", de Hortênsio Rocha.

O curioso é que Monarco, que nunca deu sorte como autor de samba-enredo, tirou de um deles seu maior sucesso. A melodia de "Coração em Desalinho" nasceu para a Unidos do Jacarezinho, mas a ideia não vingou até surgir a parceria com Ratinho, que fez uma surpreendente segunda parte sem rima e métrica não usual: "Tamanha desilusão/ Me deste, ó flor/ Me enganei redondamente/ Pensando em te fazer um bem/ Eu me apaixonei/ Foi meu mal".

Ratinho é o apelido do português Alcino Correia Ferreira, nascido na região do Alto Douro e que aos quatro anos veio morar em Pilares, subúrbio carioca. Além de "Coração em Desalinho", Zeca Pagodinho gravou mais de dez sambas da dupla, entre aos quais "Falsa Alegria", "Presença Incerta", o esplêndido "Nunca Vi Você Tão Triste Assim" e outro enorme sucesso, "Vai Vadiar" ("Eu quis te dar um grande amor/ Mas você não se acostumou").

Monarco era o último dos integrantes da Velha Guarda original ainda vivo. Morto no sábado (11), aos 88 anos, Hildemar Diniz, como muitos brasileiros pobres, enfrentou o trabalho infantil, o subemprego, a má alimentação e a doença, superou o vício da bebida e viu o crime de perto. Sempre encarou a derrota como se fosse o caminho da vitória, a exemplo do que fazem os componentes da escola do seu coração, a Portela.


Texto de Álvaro Costa e Silva, na Folha de São Paulo

quarta-feira, 28 de julho de 2021

Orlando Drummond deu rosto a um personagem icônico e voz a dezenas de outros


“Te dou o maiorrr apoio!”, dizia o Seu Peru, quando queria agradar a algum colega da Escolinha do Professor Raimundo. Cheio de trejeitos e usando roupas coloridíssimas, o personagem tinha orgulho de suas origens – “Peru com mel, de Vila Isabel!” – e, na ânsia da paquera, chegava a ser inconveniente – “Use-me e abuse-me!”. Na maior parte do tempo, era um doce de pessoa: “Peru é cultura, cheio de ternura!”. De vez em quando, também se enfurecia: “Estou porrr aqui!”.

Esses bordões estão marcados na memória de quem assistiu à televisão brasileira nos últimos 30 anos. Mas o Seu Peru, na verdade, surgiu no rádio, em 1952, na primeiríssima versão da Escolinha. É sintomático que o único personagem marcante de Orlando Drummond na TV tenha começado pela voz, antes de ganhar um visual. Dono de uma garganta elástica, o ator e dublador deu alma a criaturas tão díspares como o cachorro Scooby-Doo, o alienígena Alf e o vilão Vingador, de “Caverna do Dragão”.

Orlando Drummond Cardoso nasceu no Rio de Janeiro, em 18 de outubro de 1919. Entrou na carreira artística pela beirada, em 1942, como contrarregra na Rádio Tupi. Não demorou para ter sua voz percebida por Paulo Gracindo (1911-1995), um dos maiores atores brasileiros de todos os tempos. Começou a fazer participações em programas de humor até que, em 1946, passou a trabalhar como radioator em tempo integral.

Naquela época, a dublagem era incipiente no Brasil. Apenas os longas em animação da Disney ganhavam vozes nacionais, além de um ou outro filme voltado ao público infantil. Mas a chegada da TV, em 1950, fez com que a demanda por conteúdo dublado explodisse. E foi nesse novo mercado que Orlando Drummond encontrou as maiores oportunidades de sua carreira.

Seu currículo é longuíssimo e impressionante. Drummond foi o primeiro dublador contratado pela Herbert Richers, que, de produtora de cinema, tornou-se o maior estúdio de dublagem do país. Seu primeiro trabalho lá foi o sargento Garcia, o atrapalhado antagonista da série “Zorro”.

Seguiram-se clássicos da Hanna-Barbera: Pepe Legal, Bibo Pai, Dum-Dum (o comparsa da Tartaruga Touché). Mais tarde, entre 1988 e 1995, Drummond também dublou duas figuras fundamentais dos desenhos da Warner: Patolino e o gato Frajola.

Durante muito tempo, foi a voz do marinheiro Popeye. Na série em animação “Os Smurfs”, fez o vilão Gargamel. Nos filmes baseados na série, o Papai Smurf.

Sem falar na Lebre de Março (“Alice no País das Maravilhas”), no Gato Guerreiro (“He-Man”), no Professor Girassol (“As Aventuras de Tintim”), no sr. Wilson (“Dennis, o Pimentinha”), no Atchim (na segunda dublagem de “Branca de Neve e os Sete Anões”). Ou no papel-título de “Alf, O ETeimoso”, uma das sitcoms de maior sucesso da década de 1980.

Mas foi com Scooby-Doo que Orlando Drummond entrou para o Livro Guiness dos Recordes, como o dublador que por mais tempo deu voz ao cão: nada menos do que 35 anos.

Também dublou centenas de atores de carne e osso, como Gary Cooper, Cary Grant e Gene Hackman. Era uma unanimidade entre os colegas de ofício: todos o adoravam.

Na televisão, Orlando Drummond participou de diversos humorísticos desde os anos 1960. Construiu inúmeros tipos, e um deles fez história: Seu Peru, um homossexual espalhafatoso e de bem com a vida. Na nova versão do programa, em que atores mais jovens reinterpretam os personagens clássicos, Seu Peru caiu com Marcos Caruso, e Drummond aprovou: “agora eu tenho um sucessor”.

Casado desde 1951 com Glória, teve com ela dois filhos, cinco netos e três bisnetos. E fundou uma dinastia de dublagem: seus netos Alexandre, Eduardo e Felipe também são dubladores.

Orlando Drummond nasceu no final da pandemia da gripe espanhola e se foi durante outra, a da Covid-19, sem ser atingido por nenhuma delas. Foi o primeiro idoso carioca a ser vacinado contra o novo coronavírus, e chegou a tomar a segunda dose. Deixa um legado imenso, admirado por diversas gerações.


Texto de Tony Goes, na Folha de São Paulo.

segunda-feira, 24 de maio de 2021

Aprendi desde cedo que, quando algo é muito especial, dá pena de usar

 

“Esse copo aí, não. Ele é das visitas. Pega o de requeijão.” Se você nunca ouviu uma frase assim, desconfie. Pode estar faltando uma peça essencial —e intocável— ao acervo afetivo da sua família.

Desde cedo, aprendi a regra de ouro da classe média: quando algo é muito bonito ou especial, dá pena de usar. Então você guarda, “que é para não juntar poeira”, numa caixa ou dentro de um móvel, ao lado do sofá. Qual sofá? Aquele que ninguém jamais viu sem capa de plástico, o que vira tobogã de uma tia suada.

Debaixo de redomas, por cima de paninhos de crochê, a vida transcorre sem grandes arranhões, esperando pelo depois que não chega. Mas, olha só, com a maçã foi diferente.

Ao se casar, em 1962, minha mãe ganhou um balde de gelo em forma de maçã. Pode “googlar”, ele era indispensável às senhoras que davam jantares dançantes e coquetéis retrô. Filha temporã, nasci após tudo isso ter saído de moda. A maçã, porém, fez parte da minha criação, ainda que inalcançável.

Nos eventos domésticos, mamãe não deixava seu item favorito se misturar aos comes nem aos bebes. A maçã se mantinha dourada e longínqua. Passou duas décadas exilada no topo do refrigerador, dando um gelo na gente. “Mona Lisa” dos itens nunca usados.

Já adulta e dona de meus próprios cacarecos, vira e mexe eu jogava um verde, na esperança de ganhar a maçã. As repostas eram sempre: “um dia, quem sabe” ou “vou pensar no seu caso”. O eterno depois.

Até que veio a doença da minha mãe. E, com ela, a angústia de quem não reconhecia mais o apartamento de anos, bem como os pertences de toda uma vida. Nada à sua volta fazia sentido. Então, durante uma visita, com o coração vacilante, fiz o teste.

“E aí, mãe? Cadê a maçã? Vai me dar quando?”, perguntei. “Pode levar.” Assim, de bate-pronto. “É sua.” Quase desabei.

Pouco tempo depois, mamãe morreu. Mas, se você quer saber por onde anda a maçã, eu digo —está solta por aí. Apesar da nostalgia, frequentou churrascos e piqueniques. Recheada de balas numa festa infantil, escapou ilesa. Fez até participação em cenário de novela. Linda e útil, toda de época.

Agora, enquanto escrevo de madrugada, eu a observo na tarefa banal de manter as pedras de gelo da minha Coca-Cola. Acho que o depois, enfim, chegou. Um brinde, mãe. Em copo de requeijão, para não perder a ternura.


Texto de Bia Braune, na Folha de São Paulo

domingo, 16 de maio de 2021

Paulo Gustavo foi Cazuza, Renato, Cacilda e Leila, e por isso viva Paulo Gustavo

 

Artistas não são mais nem menos importantes do que médicos, políticos, garis ou professores. Mas sua profissão consiste em espelhar aquilo que reconhecemos como humano, em nos irmanar no gozo e na aflição. Daí o luto coletivo que experimentamos quando um deles nos deixa.

Eu ainda era criança quando um derrame cerebral tirou a vida de Cacilda Becker. A inconformidade com a morte de uma mulher daquela envergadura, aos 48 anos, no auge de sua potência, suscitou o brado "viva Cacilda Becker!".

Caetano Veloso o lançou, em meio a vaias, no Festival da Canção de 1968, e ainda hoje o repetimos como afirmação tanto da imortalidade da atriz quanto da arte.

Dentre todos os acasos funestos que vez por outra nos assombram, nenhum se compara ao trágico desaparecimento de Leila Diniz, aos 27 anos, vítima de acidente aéreo.

Leila era todas as mulheres do mundo: a namorada, a mulher e a mãe, eternizada na barriga imensa exposta pelo biquíni. Leila foi o Carnaval e a praia, o amor carnal e o romântico. Não há teoria, palavra ou prece que dê conta de tão absurda ausência. Todos os que a amaram morreram, um pouco, com ela.

Leila encarnou a revolução de costumes que, finda a ditadura, eu e os meus poríamos em prática, não fosse a aparição de um vírus hediondo. Quando completei 18 anos, a Aids se abateu sobre o planeta, transformando o sexo em risco e paranoia.

A peste levou Agenor de Miranda Araújo Neto, o Cazuza, em 7 de julho de 1990. No mesmo dia, a Legião Urbana fez um show, no Jockey Club do Rio, para 60 mil espectadores. Eu estava entre eles e testemunhei a homenagem de Renato Russo ao amigo e colega.

"Eu vou falar de mim. Eu tenho mais ou menos 30 anos. Eu sou do signo de Áries. Eu nasci no Rio de Janeiro. Eu gosto da Billie Holiday e dos Rolling Stones. Eu gosto de beber pra caramba de vez em quando. [...] Eu gosto de meninas, mas eu também gosto de meninos. Todo mundo diz que eu sou meio louco. Eu sou um cantor numa banda de rock'n'roll. Eu sou letrista e algumas pessoas dizem que eu sou poeta."

"Agora eu vou falar de um carinha. Ele tem 30 anos. Ele é do signo de Áries. Ele nasceu no Rio de Janeiro. Ele gosta da Billie Holiday e dos Rolling Stones. Ele é meio louco. Ele gosta de beber pra caramba. Ele é cantor numa banda de rock. Ele é letrista. E eu digo, ele é poeta."

Renato já sabia, ali, ser portador do HIV. Seis anos depois, seria a sua vez de partir.

Assim como com Cacilda e Leila, parte de Dado e de Bonfá, dos Paralamas, dos Titãs, do Barão, dos 60 mil presentes e de todos os que viveram aquela hora, feneceu com os dois.

Felipe Pinheiro não era astro de rock, não possuía a nobreza de Cacilda nem a divindade mundana de Leila.

Ator, roteirista e escritor, Felipe foi o grande parceiro de palco de Pedro Cardoso e o meu maior amigo. Ele fez parte do movimento apelidado de besteirol, o BRock das artes cênicas, e morreu em 1993, com a idade de Cristo.

A morte dele marca o fim da minha mocidade. Considero contemporâneos todos aqueles que a ele assistiram. Os que não ou eram velhos demais para entendê-lo ou jovens demais para entrar na sessão de meia-noite de "Bar Doce Bar", no Teatro Cândido Mendes.

Não tenho como traduzi-lo e, até hoje, sinto uma falta incurável dele. Para os que quiserem conhecer a inteligência vira-lata desse espírito do meu tempo, aconselho a leitura da compilação de seus textos, editada pela e-galáxia, no recém lançado "O Demitido".

morte de Paulo Gustavo se reflete em todas as ausências aqui descritas. Para os herdeiros do besteirol, Porchat, Adnet, Gregorio, Majella, Lobianco, Ingrid, Mônica, Caruso, Katiuscia, Raphael e Tabet, Paulo é o que Felipe foi para mim.

Sua partida marca a entrada deles na maturidade, na consciência da brevidade da vida e da fragilidade humana.

Para a legião urbana de fãs que conquistou, Paulo foi Cazuza e foi Renato, o ídolo pop do pedaço, o senhor de mil Jockeys. Para o teatro, a despedida de Paulo é o vazio de Cacilda em cena. Para os meninos que gostam de meninos e meninas, para o marido, Thales, e os filhos, Romeu e Gael, Paulo foi e sempre será Leila.

Para o Brasil, que deveria tê-lo vacinado, sua morte é o retrato triste de um país que desistiu de ser alegre e cordial.

Dona Déa Lúcia, obrigada por esse filho. Ele era mesmo fascinação.

Viva Cacilda Becker, viva Leila, viva Cazuza e Renato, viva Felipe Pinheiro e, para sempre, viva Paulo Gustavo!

P.S.: Carlito Carvalhosa, amigo imenso, artista imenso, o sujeito mais doce e inteligente, mais delicado e amado, a alma mais nobre que eu já conheci, acaba de partir. Não tenho palavras para dizer do orgulho de tê-lo conhecido. Levo comigo a sua eterna presença.


Texto de Fernanda Torres, na Folha de São Paulo

sábado, 24 de abril de 2021

Por que Marc Ferro foi crucial para a lupa que investiga o cinema

 

Marc Ferro, historiador francês que morreu nesta quarta-feira, aos 96 anos, vítima da Covid-19, em Paris, é conhecido no Brasil por seus trabalhos sobre a Revolução Russa e as relações entre a história e o cinema. Mas se voltou ainda a inúmeros temas. Em comum, a reflexão sobre a escrita da história e seus usos e abusos na legitimação de ações no presente.

Nascido em 1924, ele perdeu o pai aos cinco anos. Sua mãe, modista de uma casa de alta costura, foi uma influência fundamental em sua vida. Ela tinha um sobrenome judeu, mas não tinha consciência disso. A ocupação nazista os tornou judeus.

Ferro fugiu de Paris graças ao conselho de seu professor de filosofia, Merleau-Ponty. Em 1944, participou da resistência, mas na volta, não reencontrou sua mãe, que fora executada em Auschwitz.

Vivenciou esses e outros acontecimentos que moldaram sua visão sobre a história, em que pesquisa e erudição, as experiências de vida, a intuição e a coragem de contrariar o estabelecido permitiram percepções iluminadoras e engajadas, até o fim de sua vida.

Prova disso é a relação íntima que estabeleceu com as tecnologias audiovisuais. Não foram apenas objeto de estudo, ou de difusão do conhecimento.

Especialista e orientador de estudos sobre a Rússia, aproveitou o surgimento das antenas parabólicas e conseguiu, de seu escritório na École des Hautes Études en Sciences Sociales, em Paris, instalar uma televisão para acompanharem a difusão das mudanças que ocorriam com a Perestroika. À sua maneira, em 1985, antecipava a conexão direta em tempo real da internet.

A vasta obra, que se inicia nos anos 1970, abrange a história da Rússia, da França, das colonizações, a Segunda Guerra. Essa bagagem de pesquisas acompanha e se enriquece no seminário sobre cinema e história, com temáticas trazidas por estudantes de vários países.

A partir do embate constante entre textos e imagens —usados em seus livros com a mesma legitimidade—escreve sobre as "Falsificações e Tabus da História" e, em 2015, "A Cegueira"—, muito oportuno, porque estuda o motivo de "nos recusarmos a ver a realidade”.

Ao se voltar de forma pioneira para o estudo das imagens audiovisuais, vistas com desconfiança e desprezo pelos historiadores até então, podemos entender sua postura em relação a tudo o que escreveu e aos vários filmes e programas de televisão que realizou ao longo de sua carreira.

Em 1964, enquanto redigia sua tese de doutorado sobre a Revolução Russa, participou da realização de um documentário sobre a Primeira Guerra. Diante das imagens dos arquivos, observou que traziam informações diferentes daquelas que a história escrita consagrara.

Ora, há uma história escrita pelas imagens que é diferente da história dos livros. Desafiar essa certeza, esse paradigma dos historiadores rendeu muitas críticas a ele. Afinal, o cinema não é sério como a história; ele manipula.

Ora, a escrita da história não manipula? O cinema mandava essa questão de volta para a história. O cinema escreve, sim, a história. “Documentário ou ficção é história.”

Com esse pensamento, Ferro abriu aos historiadores esse vasto campo de estudos que se espalhou pelo mundo, incluindo o Brasil, onde Ferro se apresentou várias vezes, numa delas conforme sua memória, teve o seu maior público, mil historiadores.

De seus ex-alunos no Brasil, há o livro "Cinematógrafo", um olhar sobre a história.

A constatação crítica sobre a escrita da história já vinha de sua experiência como professor em Orâ, na Argélia, entre 1948 a 1956. A história do colonizador que ele trazia como verdadeira e universal não era aceita pelo colonizado. “Não é essa a nossa história.”

Ele passa a aprender com os alunos outras histórias e paradigmas. Descoloniza sua visão de mundo, assim como tantos outros que passaram pela experiência colonial. Como Fernand Braudel que o leva para os Annales, a revista que desde 1929 vinha revolucionando os estudos de história.

Em sua tese de doutorado, Ferro pôs em questão dogmas sobre a Revolução Russa. Uma revolução feita pelos proletários conforme dizem os livros, o poder? Não era o que diziam as fontes que pesquisara, as imagens fotográficas e fílmicas tomadas da própria revolução.

Foram os soldados que voltavam da guerra, as mulheres e os camponeses que fizeram a Revolução Russa. Desafiava, assim, a imagem e a história que o Partido Comunista construíra.

Novas visões sobre a história da Segunda Guerra Mundial se estabeleceriam de forma profunda e partilhada com o público, durante 12 anos —entre os anos de 1989 e 2001— no programa semanal Histoire Parallèle.

Após a queda do Muro de Berlim, no prenúncio da União Europeia, no canal de televisão franco-alemão La Sept, conhecido posteriormente como Arte, selando a amizade dos antigos países rivais, Marc Ferro e um segundo historiador mostravam e comentavam os cinejornais produzidos em seus países durante a guerra.

Como as imagens construíam a guerra? Como as populações a deviam vivenciar? O que essas imagens não mostravam? Exercício de compreensão histórica e compaixão. Um humanismo que marcou as inquietações e contribuições de Marc Ferro, e que nosso tempo parece ter perdido.


Texto de Sheila Schvarzman, na Folha de São Paulo. A autora é doutora em História pela Unicamp, e foi aluna de seminários com Marc Ferro. 

quinta-feira, 8 de abril de 2021

Bosi fez do acordo entre o verbo e a carne o norte de sua existência


Numa mesa redonda sobre a obra de Machado de Assis, realizada em 1980, e com nomes de proa, como Antonio Callado e Roberto Schwarz, Alfredo Bosi tomou a palavra e, em vez de expor erudição intimidadora ou elaborar teorias inteligentes, propôs uma pergunta que condensa a singularidade de seu olhar e a potência de sua contribuição à cultura brasileira. “É uma curiosidade minha saber como é que vocês responderam vitalmente a Machado.”

Autorretrato involuntário. Para Alfredo Bosi, cultura nunca foi sinônimo de acúmulo rigoroso de dados dissociado da vida. Pelo contrário, segundo ele, o conhecimento era parte de uma ética que vinculava intrinsecamente a formação à roda da biblioteca com o saber forjado nas experiências do cotidiano.

Circula no YouTube uma notável conferência do crítico, "Cultura ou Culturas Brasileiras?", de 2015. A fim de explicar o conceito de cultura, além de recorrer às noções grega e romana, ele lançou mão de sua experiência em Florença, nos anos de 1961 e 1962.

Bolsista do governo italiano, o jovem Bosi converteu seus contratempos diários numa fascinante reflexão acerca da ambiguidade do conceito latino –cultura implica tanto trabalhar a terra com as mãos quanto moldar o espírito.

Ambiguidade tornada dilema que ainda hoje aprisiona a civilização brasileira, como descortinado no fundamental “Dialética da Colonização”, de 1992. Polos opostos se confrontam há séculos –de um lado, se “aproxima cultura e culto, utopia e tradição”. De outro, tendência dominante, se “amarra firmemente a escrita à eficiência da máquina econômica articulando cultura e colo”. A defesa incondicional da vida pouco vale nos manifestos de banqueiros preocupados com a economia e nada pesa na desfaçatez de políticos e empresários que desejam legalizar o contrabando vergonhoso de vacinas.

Doutor em literatura italiana, com tese dedicada ao “Itinerário da Narrativa Pirandelliana”, defendida em 1964, e livre-docente na mesma disciplina, com o trabalho “Mito e Poesia em Leopardi”, de 1970, Bosi dominava como poucos a tradição da literatura clássica, numa das mais completas vocações de comparatista da universidade brasileira.

Em 1970, ele realizou uma mudança importante. Passou a ensinar literatura brasileira, se tornando professor titular em 1985 e professor emérito em 2009.

Não se pense, contudo, que este foi um movimento inesperado. Fiel ao compromisso com o próprio tempo, Bosi sempre se interessou pela literatura nacional. Em 1962 organizou “José Bonifácio, o Moço – Poesias”. Em 1966, publicou sua primeira obra de referência na disciplina, “O Pré-Modernismo”, estudo incontornável do período imediatamente anterior à eclosão da Semana de Arte Moderna em 1922.

Na verdade, o rito de passagem foi celebrado com um livro-monumento, saído no mesmo ano de 1970 –“História Concisa da Literatura Brasileira”, título obrigatório e incomum best-seller acadêmico.

Em primeiro lugar, Bosi aceitou o desafio de analisar a produção contemporânea, recusando o abrigo cômodo de lidar somente com o cânone. Em novas edições, acrescentou uma seção sobre a ficção produzida entre os anos 1970 e 1990. De igual modo, estudou a poesia concreta, poetas posteriores e ainda destacou, tópico inédito em histórias literárias, as traduções de poesia.

Outro gesto que não se encontra em títulos do gênero –Bosi concluiu o livro com uma seção em que sublinhou a importância de outros críticos, seus pares e, por vezes, vozes divergentes. Generosidade intelectual que reitera o elo entre vida e obra.

As últimas páginas homenageiam um austríaco naturalizado brasileiro, conferindo pleno sentido a uma das dedicatórias do livro. “Para Otto Maria Carpeaux, mestre de cultura e de vida.” Eis aí o acordo entre verbo e carne, biblioteca e pólis –norte da existência de Alfredo Bosi.

Por fim, publicar “História Concisa da Literatura Brasileira” foi um relevante ato de resistência nem sempre bem compreendido. Leiamos a nota adicionada em 1979 –“Quanto à crítica produzida nos anos de 1970, registre-se a tendência formalista e estruturalista”. Portanto, escrever uma história da literatura em 1970, momento mais sanguinário da ditadura militar durante o governo do general Médici, foi uma atitude ousada –dentro e fora da universidade.

Resistir foi o verbo central na vida e na obra do autor de “Literatura e Resistência”, de 2002. No Brasil de hoje, em plena incapacidade de um governo negacionista de enfrentar a crise da Covid-19, resistir também é viver com coerência e dignidade. Lição definitiva, que afirma a atualidade perene do pensamento-ação de Alfredo Bosi.


O texto é de João Cezar de Castro Rocha, professor da UERJ, publicado na Folha de São Paulo

terça-feira, 30 de março de 2021

Morre Contardo Calligaris, o psicanalista italiano que soube levar o Brasil ao divã


O estilo de se expressar de Contardo Calligaris, morto nesta terça (30), aos 72 anos, em decorrência de um câncer, era bastante particular. Gestual envolvente, olhar sedutor, tiradas irônicas e um sotaque que embaralhava italiano, inglês e português eram a marca de sua presença tanto num debate profissional como no hábito de que ele tanto gostava, o da tertúlia com os amigos.

A morte de Calligaris foi confirmada por seu filho, o cineasta Maximilien Calligaris, numa rede social. Segundo ele, diante da proximidade da morte, seu pai disse que esperava "estar à altura". O psicanalista, escritor e dramaturgo se firmou nas duas últimas décadas no Brasil como um fino observador da cultura e do comportamento do país.

O diretor de Redação da FolhaOtavio Frias Filho, morto em 2018, gostava de provocar Calligaris, dizendo que, no fundo, ele devia ser um argentino que tinha inventado uma vivência por vários países só para justificar o sotaque que virou sua marca.

Calligaris, de bom humor, sempre ria dessa brincadeira. Aliás, não era pequena a admiração de Frias Filho por ele. Ambos compartilhavam um gosto semelhante no que diz respeito a cinema e teatro e um interesse por entender a sexualidade humana.

O sotaque, expliquemos logo, era resultado do fato de Calligaris ser italiano, porém de ter sido alfabetizado em inglês. Vinha de uma família que havia lutado contra o fascismo de Mussolini e este era justamente o idioma da resistência, como conta Calligaris em "Hello, Brasil", escrito nos anos 1990.

Na reedição desse livro, em 2017, Calligaris afirmava que já não poderia mais escrever sobre o país com o olhar de um estrangeiro, já que se sentia cada vez mais brasileiro. Ele nasceu em Milão, em 2 de junho de 1948. Escritor, psicanalista e dramaturgo, manteve uma coluna neste jornal desde 1999, às quintas-feiras, dedicadas a temas da psicanálise, filmes, peças e livros.

“Nascido em Milão, cidadão do mundo e tradutor do Brasil, Contardo Calligaris elevou o patamar do colunismo de cultura no Brasil. Foi testemunha ocular das principais mudanças de comportamento dos últimos 50 anos. Deixará uma lacuna gigante”, afirmou Sérgio Dávila, diretor de Redação da Folha.

Com o tempo, certa rigidez das abordagens iniciais se reduziu. Os temas deixaram de ser mais acadêmicos ou mais relacionados a seu consultório. Calligaris passou a se sentir mais à vontade —talvez mais brasileiro— para tratar de acontecimentos de sua vida cotidiana em São Paulo, virando um cronista da cidade, com um olhar ácido e divertido, transformando acontecimentos prosaicos em peças sobre o comportamento humano.

Como numa das colunas, em que ele contou estar dirigindo numa madrugada na avenida Sapopemba, na zona leste, e, ao ver um cão prestes a tentar atravessar a via, e assim se arriscar à morte, desceu do carro e, para o seduzir a ficar onde estava, comprou para ele um faustoso churrasco numa barraquinha e o tranquilizou.

Sua relação com a capital paulista teve início em 1986, depois de lançar seu livro "Hipótese sobre o Fantasma na Cura Psicanalítica"". Calligaris veio ao Brasil para fazer palestras, e recebeu a proposta de um grupo de psicanalistas para que passasse 15 dias a cada dois meses em São Paulo, para serem analisados por ele. Aceitou.

Depois de várias viagens, acabou se instalando num apartamento nos Jardins. E passou a ter o hábito de jantar quase todos os dias no restaurante Tatini, na rua Batataes. Quando ia sozinho, levava um livro ou anotações. Mas também era ali que gostava de levar amigos para papear até altas horas.

Calligaris gostava muito de escrever e ler em cafés —hábito mais europeu do que paulistano— e sentia falta de locais para fazer isso em São Paulo. Mesmo assim, o cultivava, e várias vezes se pegou fazendo anotações na calçada mesmo. Por isso, era normal o ver sempre com uma ou duas canetas no bolso.

Ler e escrever em aviões também eram parte de seu hábito. E, como viajava muito, chegava a ler dois livros por voo entre São Paulo e Nova York, contando o tempo que passava no que chamava de "limbo", os aeroportos e salões de embarque.

Calligaris teve uma formação católica, filho de um cardiologista e de uma tenista. Na sua adolescência, na Itália, conta que havia vivido "paixões ideais contraditórias". Eram os anos 1960, e ele contava ter sido logo influenciado pela obra do jornalista liberal e antifascista Piero Gobetti. Depois disso, leu Antonio Gramsci e passou a se considerar um socialista. Por outro lado, ia se apaixonando também pela contracultura americana.

Tinha uma relação complicada com sua origem italiana, que não negava mas com a qual mantinha certa distância —achava que a imagem de seu país no exterior estava demasiado ligada ao fascismo ou à estridência de sua cultura popular.

Trabalhou, ainda na juventude, num jornal mensal de cultura, o "Utopia". Depois de passar uma temporada no Reino Unido, foi estudar em Genebra e em Paris. Na Suíça, foi aluno do historiador Jean Starobinski e do crítico literário George Steiner. Na França, ele se aprofundou no estudo da psicanálise, estudando com Jacques Lacan e Michel Foucault. Sua tese em semiologia foi orientada por Roland Barthes.

Contava que se sentia "um peixe fora d'água", na França dos anos 1970, por ter uma formação psicanalítica lacaniana, estudando na escola freudiana de Paris, mas, ao mesmo tempo, interessado na obra de culturalistas americanos como Karen Horney e Erich Fromm.

Seu ímpeto contraditório fez com que o pai, quando Calligaris ainda era criança, dissesse ao filho que tinha dado a ele um nome errado. Que o deveria ter chamado de Contrário, e não de Contardo.

"Não que eu fosse permanentemente do contra, mas, desde pequeno, parecia que eu só sabia começar minhas frases por um 'mas'", ele dizia.

Nos Estados Unidos, foi professor de antropologia na Universidade da Califórnia e de e estudos culturais na New School, em Nova York. No Brasil, começou a atuar como psicanalista e, aos poucos, a construir uma personalidade pública constantemente chamada a falar em público sobre temas sobre amor, relações humanas, sexualidade e questões existenciais. Sua relação com São Paulo foi se tornando mais intensa e seu personagem, mais popular. Vieram, então, suas obras para teatro, romances e uma série para a televisão.

Teve oito casamentos e explicava essa cifra afirmando que era porque, quando se apaixonava, não queria "ver a pessoa apenas de vez em quando", mas sim que gostava da convivência e do desafio de construir uma relação. Seu interesse pela sexualidade humana também fez dele um explorador nessa área, que o levou a se interessar pelo que se passava no submundo sexual paulistano.

Entre suas aventuras, uma das que fez pública, foi o caso com uma malabarista de trânsito de São Paulo. Mas sua busca e seu interesse eram contínuos. Dizia aos amigos que precisava fazer sexo todos os dias, senão não dormia direito.

Calligaris teve um filho, Maximilien, nascido na França. Até recentemente, ainda lutava boxe, o esporte que praticou na juventude e que rendeu a ele uma bolsa de estudos quando vivia na Suíça.

Numa entrevista a um meio gaúcho, em maio de 2020, Calligaris falou sobre a pandemia do coronavírus e sobre o medo que sentia de que alguns hábitos e cenas do passado não voltassem mais.

Entre eles, dois dos quais gostava tanto, como ir ao cinema ou entrar num avião sem medo. E, para exemplificar sua tristeza com a pandemia, que logo de início afetou tanto o seu país-natal, falou de uma imagem que viu da Piazza del Campo, de Siena, deserta por causa do confinamento. Era ali, disse, que, além dos turistas, os jovens caminhavam e buscavam flertar ou iniciar uma aventura amorosa. E se isso não voltasse nunca mais?


Contardo Calligaris (1948-2021). O texto é de Sylvia Colombo, publicado na Folha de São Paulo


Uma perda imensa. Eu estou bastante abalado. 

domingo, 28 de março de 2021

Jogadores do Maracanazo, como Barbosa, não são festejados ao completarem um século


O lateral direito Augusto completaria 100 anos em outubro passado e a data passou em branco.

O zagueiro Danilo também, em dezembro de 2020.

Assim como Jair Rosa Pinto, lembrado, é verdade, aqui e ali no último domingo (21), provavelmente mais pelos caçadores de efemérides em tempos de pandemia.

Neste sábado (27) Barbosa faria 100 anos.

Em setembro que vem será a vez de Zizinho, o Mestre Ziza, ídolo do Rei Pelé, dia 14.

Em 2022, Bigode, Ademir de Menezes, o Queixada e Chico.

Juvenal fica para 2023 e Bauer só em 2025. Entre um e outro, em 2024, Friaça, o autor do solitário gol brasileiro, o do 1 a 0 no fatídico 2 a 1 para o Uruguai.

De todos os brasileiros participantes da final da Copa do Mundo de 1950 no Maracanã com lendários 200 mil torcedores, o goleiro negro Barbosa é o protagonista mais dramático, bode expiatório da derrota dolorosa.

Moacyr Barbosa Nascimento morreu culpado irremediavelmente em 2000, condenado à prisão perpétua como lamentava nos últimos anos de vida.

Não por coincidência, a culpa é até hoje dividida com outro negro, o lateral esquerdo Bigode, acusado de covardia por não ter reagido à suposta bofetada no rosto desferido pelo capitão uruguaio Obdulio Varela, e em cima de quem Gigghia fez o gol da virada.

Obdulio, também negro, negou a agressão até morrer e para sempre é tido como o grande herói daquela Copa, pelos brasileiros inclusive, como se os negros uruguaios valessem mais que os nacionais.

A injustiça com Bigode, no entanto, não produziu restrição aos laterais pretos, diferentemente do que se deu em relação aos goleiros, a ponto de a seleção brasileira só voltar a ter um como titular em 2006, na Alemanha, 56 anos depois do Maracanazo.

Nunca ninguém admitiu o preconceito, nem precisava.

O centenário de Barbosa não é comemorado. No máximo, é lembrado como desagravo, tardio, sem o testemunho dele, cuja entrada na concentração da seleção, em 1993, antes do jogo contra o mesmo Uruguai que definiu a classificação para a Copa nos Estados Unidos, teria sido negada (há quem desminta) para não dar azar.

Tivesse mesmo tomado o tapa, Bigode, caso o Brasil saísse vencedor, seria elogiado pela maturidade, pelo sangue frio, por não ter caído na provocação e desfalcado o time.

Também entre o 2 a 1, marcado aos 34 minutos do segundo tempo, e o fim do jogo, houve tempo suficiente para o empate que significaria o título.

Não importa: a culpa é de Barbosa, pela falha no gol.

No dia 1º de janeiro de 2046, Roberto Rivellino, um dos heróis do tricampeonato em 1970, completará 100 anos e será devidamente festejado.

Apesar de, em 1974, ter sido responsabilizado injustamente pela derrota do Corinthians contra o Palmeiras, na decisão estadual que acabaria com o jejum de 20 anos sem títulos.

Três dias antes, no primeiro jogo das finais, empate em 1 a 1, ele recebeu milhões de elogios por ter jogado para o time, sem um pingo de estrelismo.

Pois repetiu sem tirar nem por a atuação no jogo definitivo, derrota alvinegra por 1 a 0.

O mundo caiu sobre sua cabeça, tronco e membros e, por exigência da torcida, o melhor jogador da história corintiana acabou vendido para o Fluminense.

Melhor prova impossível de que a voz do povo nem sempre é divina.

Melhor prova, não! A melhor segue sendo a da injustiça cometida com Barbosa.


Texto de Juca Kfouri, na Folha de São Paulo

domingo, 1 de novembro de 2020

Morre Sean Connery, o mais memorável intérprete de James Bond, aos 90 anos

 Talvez seja um engano típico de necrológios dizer que Sean Connery ficou famoso por ter sido o primeiro intérprete de James Bond no cinema. Talvez seja mais certo dizer que James Bond ficou famoso porque seu primeiro intérprete foi Sean Connery, que morreu neste sábado, aos 90 anos.

Sim, há tudo mais —a abertura, as “Bond girls”, começando por Ursula Andress, os “gadgets”, os carros, as armas inesperadas. Mas vale perguntar o que teria sido de 007 se em vez de Connery estivesse na tela o simpático Roger Moore, como queria o criador do personagem, Ian Fleming.

É verdade que Moore já tinha uma carreira consolidada àquela altura, em especial na TV, em que brilhou como “Ivanhoé” e depois em “Maverick”, tudo na virada dos anos 1950 para os 1960, enquanto Connery ainda tateava o cinema.

Mas tomemos o que veio depois. Em 1971, Connery se encheu de fazer o papel e passou o bastão a Moore, que foi Bond sete vezes e só parou porque, beirando os 60 anos, já não tinha as qualidades atléticas que o papel requeria. Não há por que desfazer de Moore, longe disso. Mas no período em que foi James Bond o 
filme que mais chamou a atenção foi mesmo “007 – 
Nunca Mais Outra Vez”, um Bond meio pirata em que o ator era, justamente, Connery.

Mesmo no tempo em que foi 007, Sean Connery deixou claro que não se acomodaria ao papel. Tanto que topou ser o ricaço Mark Rutland do hitchcockiano “Marnie, Confissões de uma Ladra”, de 1964. Não só ricaço como aparentemente tolo, porque o imbatível sedutor de “O Satânico Dr. No” de repente se arrastava aos pés da ladra Tippi Hedren e, em vez de a mandar para a cadeia, como sugeriria qualquer bolsonarista, tentava entender o que se passava naquela cabeça tão bela quanto estranha.

Da tensão entre os dois resultou essa obra-prima de sexualidade reprimida, de tensão sem fim entre dois amantes paradoxais. Mas isso não bastaria para Sean Connery.

Pouco depois ele estava na Líbia, mais precisamente em “A Colina dos Homens Perdidos”de 1965. Era plena Segunda Guerra e, no filme de Sidney Lumet, ele não era o herói imbatível —estava numa prisão britânica, onde foi parar por desobediência a ordens de cima (que ele achava absurdas, o que é outra história).

Mais um pouco e ele se arriscava no Velho Oeste e, em companhia de Brigitte 
Bardot, fazia “Shalako”, de 1968, um faroeste menos que mais ou menos do então 
decadente Edward Dmytrik. Em 1970 ele virava mineiro na Pensilvânia e líder dos Molly McGuires, organização secreta de autodefesa dos irlandeses que ali trabalhavam.

Como se vê, o glamour de James Bond não embaçou sua visão ou limitou seus horizontes. Pouco depois, em 1973, ele estava no futuro, bem futuro, na pele de Zed, em “Zardoz”, belo filme de John Boorman que fracassou nas bilheterias.

Com tudo isso, admitamos, entre bons filmes e outros nem tanto, a carreira de Sean Connery até certo ponto patinava. E voltar a James Bond em 1983 parece ter sido uma bela decisão. Não só por o levar de novo à linha de frente, em matéria de exposição, como por exorcizar de vez o velho herói de sua juventude.

É a partir daí que começa uma formidável série de sucessos. Por vezes pessoais, como “O Nome da Rosa”, de 1986. Ali ele foi William de Baskerville, o frade franciscano e detetive que investiga uma série de mortes num convento beneditino. O filme saiu do romance de Umberto Eco, e a escolha de Connery para o papel foi perfeita. Ele é uma espécie de 007 que tinha o formidável intelecto como arma para combater a Inquisição.

Há razão para perguntar de novo o que seria de “O Nome da Rosa” sem Sean Connery. Talvez uma ruína orquestrada pelos mil equívocos de Jean-Jacques Annaud ao adaptar o inteligentíssimo, belíssimo romance. Mas Annaud acertou na escolha de seu ator central —o resto estava salvo.

De “Os Intocáveis”, de 1987, não se poderá dizer que Connery salvou o filme. O trabalho de Brian De Palma podia destoar de seus grandes momentos, parece mesmo uma encomenda, nem por isso deixa de ser admirável ponto por ponto. Ainda assim, o grupo do incorruptível porém ingênuo Eliot Ness, papel de Kevin Costner, precisava de um comparsa cascudo para combater os mafiosos da Chicago.

Esse comparsa cascudo era um guarda de rua, honesto e intratável, de origem irlandesa, Jim Malone, isto é, Sean Connery. E o resultado é que Malone acabou por se tornar o grande personagem do filme, maior que Eliott Ness, maior que o Al Capone de De Niro.

O fenômeno se repetiria dois anos depois, quando Steven Spielberg introduziu Connery, na pessoa, do professor Henry Jones, o pai de Indiana Jones, papel de Harrison Ford, em “Indiana Jones e a Última Cruzada”, de 1989. E a série que ameaçava cair em decadência ganhou uma nova (embora efêmera) existência.

De certa forma, o círculo se fechava. “Os Intocáveis” rendeu a ele um Oscar de melhor ator coadjuvante; em 1991, recebeu a Legião de Honra do governo francês. Nove anos depois, a rainha da Inglaterra teve de se deslocar até a Escócia para conceder ao ator o título de “sir”. Muito justo pelos serviços prestados a Sua Majestade como James Bond.

Connery se vestiu com o típico kilt para receber a honraria. Que ficasse claro, para Elizabeth 2ª e para o mundo que ele continuaria a defender a independência da Escócia.

O mito de Sean Connery triunfou sobre o mito de 007. Desde então, aos poucos, discretamente, já podia se afastar de um cinema que já não tinha papéis para um ator como ele e viver sua aposentadora nas Bahamas, onde morreu em sua casa, em 31 de outubro de 2020, enquanto dormia.


Texto de Inácio Araújo, na Folha de São Paulo

segunda-feira, 5 de outubro de 2020

Zuza Homem de Mello deixa MPB sem um de seus principais cronistas

 O imenso conhecimento de Zuza Homem de Mello sobre música era comparável a sua simpatia e sua infindável paciência para discutir os rumos da MPB. Quando alguém dizia a ele que fulana era “a nova Elis Regina” ou que beltrano poderia ser um “novo Milton Nascimento”, ele sorria. Não contrariava o interlocutor, preferia contar histórias que apontavam Elis e Milton como geniais. E insubstituíveis.

Histórias da MPB são entrelaçadas com a vida do jornalista e musicólogo José Eduardo Homem de Mello, paulistano nascido em 20 de setembro de 1933. Desde o final da década de 1950, ele testemunhou e protagonizou uma viagem musical encerrada neste domingo (4). Aos 87 anos, Zuza morreu de infarto enquanto dormia, em seu apartamento no bairro de Pinheiros.

Foi fundamental para a formação do mais influente pesquisador musical brasileiro a decisão de ir para os Estados Unidos em 1957. Depois de começar a escrever sobre jazz nos jornais Folha da Noite e Folha da Manhã, o jovem contrabaixista foi estudar música na renomada Juilliard School, em Nova York. Retornou ao Brasil em 1959, trazendo na bagagem uma apreciação técnica refinada do melhor jazz, além de uma devoção enorme a Duke Ellington.

Ele trabalharia durante uma década na TV Record, inicialmente contratado como técnico de som. Justamente no período em que a música e a televisão tiveram no Brasil seu maior e mais intenso congraçamento. Zuza participou de programas seminais para a MPB, como “O Fino da Bossa” e “Jovem Guarda”, e dos empolgantes festivais da emissora, que lançaram ao público Caetano Veloso, Gilberto Gil, Mutantes, Edu Lobo e tantos outros.

Por duas vezes, pelo menos, Zuza esteve nos melhores lugares do planeta para se aproximar de momentos únicos da história da música. Nos anos 1950, teve chance de assistir e conhecer pessoalmente em Nova York gigantes como Ellington, Miles Davis, John Coltrane e Thelonious Monk, numa efervescência jazzística ímpar.

Na década seguinte, viu de perto a exportação da bossa nova para o mundo e ajudou a popularizar uma geração que iria unir como nunca antes qualidade e popularidade na música brasileira, com artistas que até hoje contribuem para a melhor produção do país.

Depois dos festivais da Record, que magnetizavam fãs pelo Brasil inteiro, poucos organizadores de eventos semelhantes deixaram de recorrer a Zuza. O currículo de colaborações é praticamente um mapa de boa música: O Fino da Música, Festival de Verão do Guarujá, Festival de Jazz de São Paulo, Free Jazz Festival, Tim Festival, além da direção de inúmeras turnês históricas de Elis, Milton, Gil e outros medalhões.

Enquanto ajudava a lançar novos valores, como Chico César, Lenine e Zélia Duncan, ou a consolidar carreiras de prestígio, Zuza não parou de transmitir seu conhecimento e sua sensibilidade musical. Conhecido por promover audições diárias em sua casa, muitas vezes para amigos célebres como Gil ou Caetano, ou apenas para sua família, ele foi um professor obstinado nas últimas seis décadas.

Seus meios para propagar música de qualidade e, principalmente, educar os outros no discernimento dessa qualidade, foram o trabalho como jornalista e crítico musical, os programas de rádio e de TV que criou e apresentou, e seus livros.

A biblioteca completa dos volumes escritos por Zuza praticamente não deixa de fora nada relevante na MPB. Além de bom humor e um texto encantador, a característica mais poderosa dos livros do autor é o didatismo impecável. Uma geração inteira de críticos e apreciadores deve sua formação aos fascículos da grandiosa coleção “História da Música Popular Brasileira”, que ele criou em parceria com Tárik de Souza no início dos anos 1980, lançada em bancas pela Editora Abril.

Zuza publicou seu primeiro livro em 1976, “Música Popular Brasileira Cantada e Contada”. Em 1997, lançou em dois volumes “A Canção no Tempo”, uma obra de fôlego. Ao lado do cearense Jairo Severiano, outro nome gigante como historiador musical, o livro oferece uma análise das músicas que fizeram sucesso no Brasil entre 1901 e 1985.

Em 2001, escreveu o volume sobre João Gilberto na Coleção Folha Explica, editada pelo Publifolha. Sua admiração pelo cantor baiano que lançou a bossa nova ao mundo era tanta que Zuza decidiu escrever mais um livro sobre ele. No mês passado, Zuza deu ponto final na nova versão da vida de João Gilberto, agora à espera de publicação póstuma.

Entre 2003 e 2014, Zuza publicou livros em que suas memórias pessoais se misturam a acontecimentos cruciais da MPB. A maior repercussão foi com “A Era dos Festivais” (2003), obra fundamental para entender a ascensão da geração de Chico, Caetano e Gil.

“Música nas Veias: Memórias e Ensaios” (2007), “Eis Aqui os Bossa Nova” (2008) e “Música com Z” (2014) trazem mais doses do encantamento literário que Zuza provoca em sua condição de testemunha ocular da vida musical brasileira. Em 2017, retornou a um trabalho extenso e de pesquisa detalhada em “Copacabana: A Trajetória do Samba-Canção”.

Produzido pelo Canal Curta! e dirigido por Janaina Dalri, “Zuza Homem de Jazz” foi lançado no ano passado. Concebido por Zuza e sua mulher, Ercília Lobo, o documentário usa a trajetória pessoal do musicólogo para conduzir uma discussão sobre a influência do jazz na música brasileira.

Saindo de cena numa fase ainda muito produtiva, Zuza Homem de Mello deixa a MPB sem um de seus principais cronistas. Gerações de alunos vão sentir sua falta.


Texto de Thales de Menezes, na Folha de São Paulo.