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quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Acadêmicos correm para salvar documentos coloniais raros em Cuba

Acadêmicos correm para salvar documentos coloniais raros em Cuba

terça-feira, 19 de julho de 2016

Em livro, Pedro Juan Gutiérrez relata perseguição a gays em Cuba

Em livro, Pedro Juan Gutiérrez relata perseguição a gays em Cuba

domingo, 31 de janeiro de 2016

Um esforço tão grande para nada

O consumo de cultura em Cuba sempre foi um fenômeno polêmico e complexo. As eternas dificuldades econômicas da estrutura socialista da ilha raramente possibilitaram que se gastassem os recursos necessários para levar ao cidadão as criações artísticas mais recentes e reconhecidas consumidas no resto do mundo (pelo menos no resto do mundo com possibilidades de fazê-lo).
Mesmo assim, graças a programas culturais e educativos, o espectador cubano teve oportunidade de consumir cultura de alta qualidade oferecida pelas instituições oficiais. Nos últimos tempos, por vias alternativas, também circularam as mais recentes séries da Netflix ou HBO, os últimos filmes de Alejandro González Iñárritu e Woody Allen, e o PDF pirata de algum livro recém-chegado ao mercado.
É algo diferente –ao longo de quase seis décadas, as instituições políticas cubanas decidiram o que o cidadão deve consumir culturalmente.
Assim, desde as proibições ou barreiras ao rock e beat nos anos 1960 até a decisão de não publicar autores cubanos que vivem no exílio, sempre existiu um mecanismo institucional que pensa na melhor educação ideológica, cultural e artística do cidadão, desestimulando ou censurando o que alguém com poder decide ser prejudicial ou impróprio.
Dessa última lista constam desde livros a filmes, de partidas de beisebol profissional a shows de TV de produção local. É o que parece ter acontecido com alguns episódios do programa "Vivir del Cuento", comédia de costumes que tem a maior audiência da televisão nacional cubana (estatal, evidentemente).
Seria possível supor que um sistema tão esmerado de controle educativo e ideológico, praticado por instituições políticas e culturais oficiais, garantiria a criação entre os cubanos de uma alta capacidade de discernimento no consumo cultural, levando-os a dar preferência a produtos de alto nível estético, conceitual, ético e humanista.
Mas os meios de comunicação nem sempre alcançam essas metas previstas, nem sequer nas condições acima descritas. Hoje, em Cuba, por exemplo, a música mais ouvida pelo povo é o chamado reggaeton ou alguma de suas variantes, uma música elementar e cansativa, com letras geralmente de enorme pobreza lírica e, às vezes, obscenas.
E não apenas o reggaeton é consumido, como se adotou o hábito de as pessoas o tocarem em suas casas em volumes altíssimos, para o incômodo de quem preferiria outra música ou o silêncio. E isso é feito com total impunidade, como se fosse sinal de identidade e até de poder.
Algo semelhante ocorre com os programas de televisão. Muitas das pessoas que conseguem acessar programas estrangeiros privilegiam os piores programas da televisão "trash" gerados por alguns dos canais hispânicos do sul da Flórida, como o célebre "Caso Cerrado", em que algumas pessoas levam a público suas misérias éticas, pessoais e familiares diante de uma espécie de juíza.
Mas uma das maiores aberrações foi a recente promoção do "livro do ano" em Cuba. Entre os títulos preferidos pelos cubanos em 2015, o mais destacado e divulgado foi um livro de receitas culinárias! Para escancarar ainda mais a pobreza cultural desse fato, um programa jornalístico da TV oficial cubana difundiu o acontecimento e, segundo pude ler, dedicou vários minutos a uma entrevista com o "escritor" vitorioso.
O que acontece nas entranhas e na inteligência de uma sociedade quando seus cidadãos escolhem como um de seus livros do ano um livro de receitas? E quando sua televisão oficial dá mais destaque a esse fato que a grande parte da produção literária do país? Simplesmente ocorreu um processo de degradação da capacidade intelectual dessa sociedade. Ou então se está manipulando a trama cultural para que um texto sem conflitos alcance essa distinção e seja, além disso, exaltado pela altamente politizada imprensa oficial do país.
Para quem se dedica ao trabalho literário em Cuba, não é apenas ofensivo que tais manifestações se produzam à nossa volta. Os leitores cubanos não puderam encontrar em seu país um único livro ao qual dar sua preferência?
Para onde se encaminha uma sociedade na qual, com certeza, a comida nunca foi suficiente para satisfazer as necessidades da população, e, ao mesmo tempo, um livro de receitas culinárias é o paradigma da leitura que mais e melhor se difunde, consome e promove? Quais são as escolhas possíveis para os leitores cubanos quando sua principal instituição editorial, o Instituto Cubano do Livro, se propõe a editar 624 títulos no ano e só consegue imprimir 231?
Depois de tanto controlar e decidir o que devíamos consumir culturalmente, será que vamos acabar assistindo a televisão "trash", ouvindo baixarias de reggaeton em alto volume e lendo livros de receitas de cozinha em lugar de literatura? Depois de tanto esforço e controle, estaríamos vivendo uma alarmante regressão à banalidade e ao mau gosto?


Texto de Leonardo Padura, na Folha de São Paulo

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Viagem de Yoani: do favelão cubano para o mundo

Os simplificadores pastam nas pradarias do mundo inteiro sem fazer a digestão.
Os ruminantes refletem enquanto ativam seus estômagos.
Já estive duas vezes em Cuba. Tudo o que digo eu vi com estes olhos que, infelizmente, a terra há de comer.
Por onde começo? Não sei. Vi o documentário “A viagem de Yoani”. Fui a Cuba duas vezes. Marquei a minha opinião num texto que circulou muito na internet: “Inferno no paraíso”. Cuba é uma favelão no Caribe. Culpa de quem? Do socialismo dos irmãos Castro ou do bloqueio econômico imposto pelos Estados Unidos? Certamente dos dois. Yoani veio ao Brasil depois de ter penado para conseguir autorização. Foi recebida pela esquerda ainda comunista como mercenária e traidora. Já a direita, com Jair Bolsonaro e Ronaldo Caiado à frente, saudou-a como representante da liberdade contra o totalitarismo.
Yoani Sanchez, a bloqueira cubana de “Geração Y”, mostrou bastante equilíbrio em meio ao fogo cruzado. Num momento interessante do filme, explicou a diferença de olhares sobre Fidel e Che Guevara: se um jovem, em Berlim ou no Rio de Janeiro, quer mostrar sua inconformidade com o “sistema”, veste uma camiseta com uma estampa de Fidel ou de Che Guevara. Em Cuba, no entanto, enfatizou, Fidel e Che são apenas os símbolos do poder. No Brasil, Yoani não ficou apenas entre a apropriação indébita da direita e o ódio da esquerda stalinista. O então senador Eduardo Suplicy acolheu-a em nome dos que acreditaram em socialismo com liberdade. Tudo isso me fez pensar numa conversa que tive, em Havana, num bar, com o grande escritor Pedro Juan Gutiérrez, outro duro crítico do regime. Ele me detalhou o absurdo kafkiano de ter de pedir autorização para viajar ao exterior. Marcas de uma prisão a céu aberto com a população tutelada e mantida sob vigilância permanente.
Desde 2013, os cubanos encontram mais facilidades para sair. O reatamento das relações com os Estados Unidos deve tornar as coisas ainda mais fáceis. Yoani declarou-se “pós-moderna”, sem partido político ou ideologia e moderada. Estou com ela. De resto, na minha modesta situação, lembrei-me de quando briguei com Luis Fernando Verissimo e fui declarado inimigo público pela esquerda. Passei a ser cortejado por pessoas que, pouco antes, nem sabiam da minha existência. Idiota, eu achava que estavam encantadas com o meu talento. Levei anos para perceber que só queriam me usar contra LFV. Eu continuava não existindo para elas. Achavam legal ter um doutor formado na Sorbonne como instrumento contra o “cronista comunista”.
Yoani está noutro patamar. Sabe que a direita quer se aproveitar dela. Vira o jogo. Aproveita-se dos aproveitadores. O seu ponto de vista é inatacável: quer liberdade na ilha. A começar por liberdade de expressão. Em 2015, o paraíso dos Castro bateu recorde de prisões de “contestadores” do regime: 8.899 detenções temporárias segundo a Comissão Cubana de Direitos Humanos e Reconciliação Nacional, aumento de 38% em relação a 2013. Esses números não transformam Caiado e Bolsonaro em democratas no Brasil. Aprendi uma diferença essencial entre mim e Yoani (sou egocêntrico, sempre me coloco no centro do mundo): ela é muito inteligente. Por que digo isso? Driblou as armadilhas com astúcia, firmeza e brandura. A internet vai acabar com a ditadura cubana. Assim como as revistas de mulher e de homens pelados acabarão com o fundamentalismo islâmico.
Nas pradarias, os ruminantes engordam.

quinta-feira, 18 de junho de 2015

EUA não deveriam interferir em Cuba, diz filha de Chomsky

EUA não deveriam interferir em Cuba, diz filha de Chomsky

Para historiadora que lança livro da revolução cubana, reaproximação com ilha não pode supor troca de regime
Aviva Chomsky se diz cética sobre processo de reatamento diplomático devido a resistências do Congresso americano
FABIANO MAISONNAVEDE SÃO PAULO

"Me deixou angustiada o fato de Obama deixar claro que a hostilidade americana contra o governo cubano não está terminando, incluindo o desejo de provocar mudanças internas em Cubaaviva chomsky
Em dezembro de 2014, a versão em inglês do livro "História da Revolução Cubana" já estava sendo impressa quando Havana e Washington anunciaram a reaproximação diplomática. A mudança obrigou a editora a parar a produção para incluir um epílogo da autora, a historiadora Aviva Chomsky.
O rearranjo da relação bilateral, no entanto, não a empolgou. Aviva critica o fato de o presidente Barack Obama ter mantido o tradicional discurso em defesa de mudanças no regime liderado pelos irmãos Castro desde 1959.
Seu livro, que está sendo lançado no Brasil, faz uma abordagem de esquerda da história recente cubana, com ênfase na relação com os EUA e na economia.
Filha do linguista e ativista de esquerda Noam Chomsky, Aviva, 58, é professora da Universidade Estadual de Salem (EUA). Abaixo, os principais trechos da entrevista à Folha, feita por telefone.
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Folha - A sra. expressa ceticismo com a reaproximação Cuba-EUA. Por quê?
Aviva Chomsky - Em primeiro lugar, muito vai depender do Congresso americano, que tem se mostrado refratário para dar prosseguimento [à aproximação]. O embargo é parte da legislação americana e só pode ser revertido pelo Congresso, e aparentemente não há nenhuma possibilidade de que isso ocorra.
Mesmo partes menos importantes da agenda do Obama, como abrir uma embaixada, dependem do Congresso para o financiamento.
Outro ponto importante, e que Obama não pôs na agenda, é a base de Guantánamo. Nos EUA, estamos tão acostumados a ter bases em todo o mundo que não percebemos como isso é assustador. Nenhum país tem base militar nos EUA, muito menos um país comprometido a derrubar o governo dos EUA.
Também me deixou angustiada o fato de Obama deixar claro que a hostilidade americana contra o governo cubano não está terminando, incluindo o desejo de provocar mudanças internas em Cuba. Não é da alçada dos EUA fazer isso em qualquer país.

Como a sra. imagina que Cuba será mencionada na campanha presidencial dos EUA?
Provavelmente, não terá muita importância. Imagino que os candidatos terão mais a perder do que a ganhar ao fazer de Cuba uma plataforma importante. A maioria dos pré-candidatos tem se preocupado com temas domésticos. Eles sentem maior potencial de mobilização aí.
A maioria dos americanos não se importa tanto com Cuba, mas tem demonstrado ser favorável, em pesquisas de opinião, a abrir as relações. O problema é que esses levantamentos não medem o grau de importância do tema.
Para os cubano-americanos, é muito importante, mas eles estão divididos. Os representantes no Congresso são da extrema direita e têm o apoio da primeira geração de imigrantes, dos anos 1960.
Mas a segunda e a terceira gerações e os imigrantes dos anos 1980 e 1990 não compartilham essa animosidade.

A Venezuela atravessa um momento muito difícil. Cuba está preocupada por causa da dependência econômica?
Cuba desenvolveu uma economia dependente de combustível fóssil, embora menor que a dos EUA e de outros países industrializados. Um dos aspectos mais sentidos do fim da União Soviética foi a perda de combustível.
A relação com a Venezuela, porém, não é apenas dar petróleo a Cuba, é o mesmo tipo de comércio justo fora do mercado, em que Cuba se apoia em uma de suas grandes forças, a boa educação de sua população, fazendo um intercâmbio de combustível por médicos. Isso tem sido extremamente importante na recuperação, e suspeito que, se mudar radicalmente, não seria um golpe mortal, mas um revés esmagador.

Seu livro menciona publicações críticas ao governo, mas que têm uma circulação muito limitada a intelectuais e a quem tem acesso à internet. Como a liberdade de expressão tem evoluído em Cuba?
Em Cuba, há espaços com um pensamento muito crítico, mas os participantes não têm necessariamente acesso aos grandes meios de comunicação e à imprensa popular. Isso é verdadeiro tanto para os EUA como para Cuba e qualquer lugar do mundo.
Um segundo aspecto é sobre o que as pessoas podem falar em sua vida cotidiana. Tenho levado estudantes a Cuba há alguns anos, e um dos aspectos com que ficam impressionados é o alto grau de interesse dos cubanos em política e a quantidade de coisas que têm a dizer sobre seu país. E eles percebem que, nos EUA, ninguém se importa com esses temas.

"HISTÓRIA DA REVOLUÇÃO CUBANA"
AUTORA Aviva Chomsky
EDITORA Veneta
QUANTO R$ 49,90
AVALIAÇÃO bom

Reprodução da Folha de São Paulo

sexta-feira, 5 de junho de 2015

Nenhum homem é uma ilha


MINHA HISTÓRIA ERNESTO CANTELLI, 69

Nenhum homem é uma ilha

Impedido de publicar em Cuba, dramaturgo vê abertura com expectativa e diz que Raúl Castro deveria ter assumido o poder antes
Diz a página 331 do livro "José Lezama Lima, Ese Misterio que nos Acompaña": "Ernesto Cantelli nasceu em Guanabacoa, em 28 de dezembro de 1945. Poeta, dramaturgo e diretor teatral. Mantém vários livros inéditos".
Um jogo de palavras: "eu" não mantenho nada. Quem mantém é o governo. Teria publicado 20 livros, entre poesia e peças teatrais, mas o governo não permitiu.
Em 2010, no centenário de nascimento de José Lezama Lima [1910-1976], o Instituto Cubano do Livro e o Festival Internacional de Poesia de Havana compilaram cem composições em homenagem ao poeta. Fui um dos escolhidos. Foi a primeira vez que tive meu nome impresso na ilha.
Não sei o que fiz de "errado" para não ter reconhecimento. Sou de família muito pobre. Vivi em Boyeros, mas estudei em Santiago de Las Vegas. Era engraxate --"limpiabotas", como dizemos. Era 1959 e a revolução triunfou.
A vitória fascinou a nós todos. Eu tinha 14 anos. E quis participar da história: ingressei num acampamento de formação militar na Sierra Madruga, na província de Havana. Quatro meses depois, fui para a Sierra Maestra, no acampamento de Camilo Cienfuegos [1932-1959].
Na época, Che Guevara [1928-1967] estava muito animado com a organização da juventude cubana. Recrutou muitos adolescentes para a AJR, Associação de Jovens Rebeldes [a partir de 1962, União de Jovens Comunistas].
Éramos 40 mil jovens combatentes. Quase 25 mil cumprimos a meta de subir cinco vezes o pico Turquino, a mais alta montanha da Sierra Maestra. Treinamos nas trincheiras de Che e de Camilo, além de outros campos de batalha da revolução. Essa trilha toda dava a impressão de uma história cubana enlouquecedora, mas maravilhosa.
A discussão sobre a história da revolução ainda é muito presente na ilha, pois ainda vivem muitos fundadores. Para Fidel e Raúl [Castro], a revolução é um fato certo. Para outros, mais jovens agora, não é fato "vivo", mas anedota de um passado distante.
Enfim, Havana. Os mais jovens e menos corpulentos, como eu, eram treinados para a artilharia antiaérea. Os mais fortes, para o ataque.
Outros, mais inteligentes ou talvez mais instruídos, foram estudar aviação revolucionária. Fui um dos mais jovens na defesa contra a invasão da Baía dos Porcos --aqui dizemos "Batalla de Girón".

NA GAVETA

Assim, aprendi a não ter medo. Aos 15, já sabia atirar e carregar um fuzil muito maior que eu. Voltei à cidade por volta de 1962 e me graduei na Escola Osvaldo Sánchez Cabrera, que formava instrutores revolucionários, algo como comissários políticos.
Iniciei meus estudos em história na universidade, mas eu era muito impertinente e inquieto. Abandonei o curso. Queria escrever histórias revolucionárias. Livres. Isso deve ter incomodado o governo.
Tornei-me "proscrito", quer dizer, não tive nada publicado. Sou, como dizem, "inédito" [Cantelli faz parte da "geração gaveta", formada por autores cujas obras nunca foram publicadas no país].
Sou um dos últimos "proscritos". Alegra-me muito que não haja mais muitos, pois a liberdade é importante. Mas penso que a liberdade de expressão não é algo que se deve pedir ou se permitir. Considero a liberdade algo transcendental. Nasci livre. Lutei pela liberdade. Quando não se podia dizer tudo, eu dizia. Por que agora, aos 69, teria medo de me expressar?
Fidel tinha uma linha diferente. Raúl já diz que é preferível que se abra tudo, sem segredos ou cochichos. Raúl sempre foi mais radical e crítico. Devia ter assumido, talvez, 15 anos antes. Está conversando agora com Barack Obama, o papa e tal. A expectativa para a abertura é grande, pois a espera é antiga.
Um dia carreguei um fuzil maior que eu. Hoje carrego um manuscrito de uma nova peça, "Martí Vive". E vivo como guia turístico, tentando contar a história de Havana para quem vem nos visitar.
A ilha toda ainda é um país proscrito. Espero que não por muito tempo, não para sempre. O governo pode controlar a publicação de certos livros. Posso não publicar, mas posso escrever, recitar nas ruas e engavetar tudo, para que alguém um dia também conte a minha história.


Reprodução da Folha de São Paulo.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Brasil marcou um golaço ao financiar Mariel

Com o porto de Mariel e outros inúmeros investimentos em Cuba, o Brasil é um dos países que estão mais bem posicionados para se beneficiar da queda do embargo americano à ilha, cuja negociação foi anunciada hoje.
Alvo de críticas ferrenhas, o porto de Mariel, que recebeu cerca de US$ 800 milhões de financiamento do BNDES e foi tocado pela Odebrecht, está a apenas 200 quilômetros da costa da Florida.
Depois da dragagem, poderá receber navios grandes como os Super Post Panamax, que Dilma citou várias vezes durante a cúpula da Celac este ano, e concorrer com o porto do Panamá.
Mesmo sem a dragagem, já será concorrente de portos como o de Kingston, na Jamaica, e das Bahamas, bastante movimentados.
O raciocínio do governo brasileiro sempre foi o de "entrar antes da abertura para já estar lá quando caísse o embargo".
Essa estratégia se provou acertada.


domingo, 7 de dezembro de 2014

Viver de brisa

O programa de maior audiência da televisão cubana é uma comédia de costumes da atualidade, de meia hora de duração, que vai ao ar nas noites de segunda-feira no mais importante dos cinco canais que existem na ilha.
Seu título é "Vivir del cuento" (viver de brisa), e seus protagonistas são um idoso aposentado chamado Pánfilo e um músico de meia-idade, sem trabalho ou sorte, que atende pelo apelido de Chequera (talão de cheques).
Toda semana, Pánfilo e Chequera têm uma aventura que, entre piadas e ironias, mostra alguma das vicissitudes do cotidiano de muitos cubanos, em especial dos que chegaram à terceira idade.
A casa de Pánfilo, num bairro de Havana, costuma ser o cenário principal do conflito, que, nuançado por certos detalhes de absurdo, coloca os protagonistas em situações que geralmente fogem de seu controle e das quais em algumas ocasiões eles saem com alguma satisfação e, de muitas outras, derrotados em seus esforços para melhorar suas vidas ou realizar seus sonhos, por pequenos que estes sejam.
O principal problema que enfrentam os personagens simpáticos e prototípicos costuma estar ligado às carências que os perseguem.
A vida de Pánfilo e Chequera se complica porque eles não têm as roupas de que necessitam (com seu andar característico, Pánfilo se arrasta em chinelos velhos), os meios para consertar suas casas ou aparelhos domésticos e, sobretudo, porque a comida que conseguem comprar a preços subsidiados com o cartão de racionamento não basta.
E tudo isso porque o dinheiro que recebem como aposentados é insuficiente para viver. Eles só têm um alívio (convenientemente complicado pelo roteirista) quando recebem algum valor em dólares enviado por uma quase sobrinha que foi ao Taiti para tentar a sorte como atriz... e, aparentemente, a encontrou --isso mesmo, no Taiti...-- ou quando sonham, como em um capítulo antológico em que os dois se convertem em turistas em um hotel onde tudo está incluído nas despesas e eles podem comer até não mais poder.
Para sobreviver, Pánfilo e Chequera, como quase todos os outros personagens do programa, buscam alternativas picarescas, muitas vezes tiradas da realidade mais cotidiana do país. Como a de montar uma piscina num salão da casa, converter-se em inventores de alimentos, receber visitantes vindos do exterior. Outros personagens traficam madeira, autopeças, objetos falsificados e até água.
Em tom de comédia, os realizadores do programa na realidade narram uma tragédia: a de milhares de cubanos cujos salários e aposentadorias não são suficientes para satisfazer necessidades básicas.
Enquanto isso, os milhões de telespectadores que acompanham suas aventuras se veem mais ou menos refletidos nos avatares de Pánfilo e Chequera, fazendo uma catarse por meio do riso e da cumplicidade com a crítica, uma atitude muito própria dos cubanos.
E vão para a cama na noite de segunda com esse alívio, que de alguma forma os ajuda a enfrentar um novo dia, uma nova aventura, talvez muito semelhante à vivida por Pánfilo e Chequera.


Texto de Leonardo Padura, publicado na Folha de São Paulo

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Programa dos EUA em Cuba é alvo de críticas

Programa dos EUA em Cuba é alvo de críticas

Sob outros pretextos, jovens latino-americanos foram à ilha para identificar opositores
DAS AGÊNCIAS DE NOTÍCIAS

Defensores da saúde pública e legisladores dos EUA criticaram severamente nesta terça (5) o governo de Barack Obama pelo uso político de um programa de prevenção à Aids em Cuba.
Para senadores e agências de ajuda humanitária, esse uso político pode pôr em risco programas de saúde ao redor do mundo.
Na segunda-feira (4), a agência de notícias Associated Press revelou que a Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional (Usaid, na sigla em inglês) contratou latino-americanos para ir a Cuba com o objetivo de identificar possíveis líderes oposicionistas.
De 2009 a 2012, a Usaid enviou jovens da Venezuela, da Costa Rica e do Peru a universidades cubanas para recrutar líderes antigoverno.

SEMINÁRIO ANTI-AIDS

Os jovens chegaram a organizar, em novembro de 2010, um seminário de prevenção à Aids que reuniu 60 pessoas.
O senador democrata Patrick Leahy, chefe de um colegiado que fiscaliza os gastos da Usaid, disse nesta terça que seria mais que irresponsabilidade se a agência inventou um workshop de prevenção à Aids para promover uma agenda política.
A InterAction, aliança de grupos de ajuda humanitária global não governamentais, informou que o uso de uma oficina de combate à Aids para fins de inteligência é inaceitável.
Segundo a aliança, o governo dos EUA nunca deve sacrificar a prestação de serviços básicos de saúde ou programas cívicos para alcançar uma meta de inteligência.

FALSOS PRETEXTOS

Os jovens latino-americanos, cerca de uma dezena, que recebiam US$ 5,41 por hora, atuavam na ilha sob outros pretextos, como ações culturais, ambientais e de saúde.
O programa da Usaid foi lançado na época em que o recém-empossado presidente Barack Obama falava sobre um novo começo das relações com Cuba, após décadas de desconfiança mútua.
Os EUA reconheceram a existência do programa camuflado em Cuba.
"Há programas no mundo orientados a desenvolver uma sociedade civil mais vibrante e capaz, em sintonia com os programas mundiais de promoção da democracia. Obviamente, esse programa estava alinhado a isso", disse a porta-voz do Departamento de Estado americano, Jen Psaki.
Sobre a organização do seminário de prevenção à Aids, Psaki disse que seus objetivos eram "promover a organização da sociedade civil e permitir que as pessoas tivessem acesso a informação que não teriam de outro modo".
Segundo a Associated Press, os jovens não tinham o treinamento adequado para realizar essa operação.

Reprodução da Folha de São Paulo

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Embargo afeta cinema em Cuba


Embargo afeta cinema em Cuba
Por VICTORIA BURNETT

CIDADE DO MÉXICO - Em termos de Hollywood, a mudança seria mínima. No entanto, para o cineasta cubano Miguel Coyula, acostumado a lidar com orçamentos pequenos, os US$ 5.200 (R$ 11.500) obtidos em um site de financiamento foram cruciais para fazer seu filme de ficção científica.
Com o dinheiro, angariado no site de financiamento Indiegogo, ele comprou equipamentos de iluminação, uma Steadicam e um tripé para seu filme, "Blue Heart" [Coração Azul].
O Indiegogo, porém, suspendeu a campanha em agosto e congelou o dinheiro após verificar que transferir fundos para Cuba ou para um residente cubano violaria o embargo econômico imposto pelos Estados Unidos.
"Foi como se puxassem meu tapete", disse Coyula. "Foi aí que percebi que estava realmente sozinho e o quanto é difícil fazer um filme em Cuba, pois tanto o governo cubano quanto o americano criam obstáculos."
Alexandra Halkin, diretora da Iniciativa para Mídia das Américas, disse que o financiamento coletivo havia aberto uma brecha -embora por breve tempo- em um país no qual há poucas fundações sem fins lucrativos para financiar as artes e escasso apoio do governo.
Como há fontes não americanas disponíveis, Cuba produz filmes em parceria com empresas de países como Espanha, França e México, ou com financiamento, por exemplo, da Ibermedia, um programa com patrocínio estatal da Espanha para financiar filmes latinos.
Mas ficou bem mais difícil obter dinheiro da Espanha devido à crise econômica. E os EUA seriam um "financiador natural" do cinema cubano, comentou Halkin, em vista da história partilhada dos dois países.
O cinema cubano mudou muito nos últimos anos. O papel do Estado diminuiu, a tecnologia digital viabilizou produções independentes e a internet abriu vias para o financiamento.
Um número crescente de filmes cubanos selecionados para festivais internacionais é feito com pouca ou nenhuma ajuda financeira de órgãos estatais.
Especialistas em cinema cubano dizem que o embargo está entravando o crescimento de um cinema cada vez mais independente do Estado e que apresenta com frequência uma reflexão realista da vida cubana ou ridiculariza o governo.
Filmes como "Pablo" (2012), de Yosmani Acosta, sobre a violência doméstica, e "Chamaco" (2010), de Juan Carlos Cremata, sobre a prostituição masculina, falam sobre temas debatidos nas ruas, mas raramente na mídia.
O filme "Memories of Overdevelopment" ["Memórias do Superdesenvolvimento"], feito por Coyula em 2010, tem uma cena em que o protagonista fala para uma bengala com cabeça de cão como se estivesse se dirigindo ao ex-ditador Fidel Castro.
"Minta mais para mim", diz. Em uma exibição em Havana, o público irrompeu em aplausos.
A lei americana determina que americanos só podem fazer um filme em Cuba como parte de um projeto de pesquisa. "É absurdo não termos legislação para produtores independentes", disse o diretor Esteban Insausti.
O fato é que a ameaça de ser alvo de um processo do Departamento do Tesouro e a enorme burocracia para obter uma permissão são suficientes para desencorajar muitas organizações.
Ubaldo Huerta, que geriu uma plataforma de financiamento coletivo, disse não acreditar que o embargo visava impedir os projetos. "Nós somos danos colaterais", ponderou.
Segundo especialistas, agora a indústria cinematográfica americana anseia por usar a ilha como locação e pelo contato com cineastas cubanos.
"Aqui nos EUA estamos impossibilitados de ter contato com jovens muito talentosos", disse Ann Marie Stock, diretora de estudos de cinema e mídia no College of William and Mary em Virgínia, autora de um livro sobre cinema cubano independente.
"Esses cineastas irão longe em suas carreiras, mas graças a empresas de produção espanholas e mexicanas, não a empresas americanas. Estamos perdendo oportunidades em termos econômicos e criativos."


Reprodução de notícia do The New York Times, na Folha de São Paulo

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Cuba: o preço da singularidade

Há um país no mundo onde um porteiro de hotel, ou um manobrista, ou até um vendedor de abacates ganha mais dinheiro do que um médico, um engenheiro, um professor universitário. Esse país, é claro, tem que ser extremamente singular, atípico. Para obter uma vida mais digna, os engenheiros tornam-se porteiros ou motoristas de táxi, os professores passam parte do seu tempo revendo a matéria com os alunos para que seu salário oficial triplique, e há médicos que criam porcos ou que dependem de doações de pacientes ou de remessas enviadas de fora do país por um parente.
É um país onde as mudanças têm sido tomadas para restaurar a "normalidade" alterada pela deformação da singularidade, em um processo lento, mas necessário, cujos objetivos e formas (mais um caso de singularidade) são pouco conhecidos por seus habitantes. Nós, que vivemos nesse país.
Desde o início da revolução de Fidel Castro, muito prontamente anunciada como um processo político e econômico socialista, Cuba começou a se tornar esse país singular. Enquanto o governo estava empenhado em praticar uma política internacional de caráter marcadamente terceiromundista (com ênfase na solidariedade internacional, o espírito latino-americano etc.), no interior da sociedade, aplicava benefícios próprios ao Primeiro Mundo, que iam desde o acesso gratuito à medicina, à educação e à prática esportiva de qualidade até o pleno emprego, a ascensão social e intelectual das mulheres e muitos outros.
Para que os cubanos vivêssemos no Primeiro Mundo, sempre faltou, no entanto, a possibilidade de satisfazer certas preferências materiais, ou a possibilidade de viver em uma sociedade aberta para o mundo, para a troca de ideias, a opção de discordar. A combinação de um e outro extremo desse diapasão de possibilidades e impossibilidades colocou-nos em uma espécie de "Segundo Mundo", que teria elementos de ambos, mas ao qual faltariam outros aspectos quase em igual proporção. O resultado --ou um deles-- estava revestido de nossa peculiaridade política e social, mãe da singularidade visível nas vidas e escolhas dos indivíduos.
Nos últimos 20, quase 25 anos, que se sucederam desde o desaparecimento da União Soviética e de seu apoio econômico, a singularidade cubana aumentou: no meio de tanto desabamento, o governo persistiu no modelo socialista já estabelecido, manteve sua projeção internacional terceiromundista, mas dos benefícios de Primeiro Mundo poucos sobreviveram.
Uma educação pública que perdeu qualidade, uma saúde gratuita dispensada em hospitais às vezes em ruínas, uma prática esportiva que, sem se dizer às claras, arriou a bandeira do orgulho do amadorismo, o reconhecimento de que o Estado/governo não pode contratar e pagar salários a todos os cubanos, o renascimento da prostituição e a necessidade de o engenheiro trabalhar como taxista.
Com o processo de mudança empreendido nos últimos cinco, seis anos, a singularidade cubana começa a desvanecer-se em um movimento que nos cerca cada vez mais, e de forma dramática para a maioria da população, com modos de vida mais próximos aos do Terceiro Mundo com os quais comungamos do que com os do Primeiro Mundo com os quais tentamos competir... Ao menos em determinadas áreas.
Embora seja verdade que a mortalidade infantil cubana é menor que a norte-americana, que Cuba forma quantidade suficiente de médicos para enviar à Venezuela, ao Brasil e a dezenas de outros países ao redor do mundo sem que seu sistema de saúde entre em colapso, também é verdade que, lenta, mas inexoravelmente, o país esteja se tornando um lugar onde uns (a minoria dramática) têm mais do que outros (a trágica maioria), e que, para manter seu controle político, o governo teve que empreender uma cruzada contra a corrupção, e que lenta, mas visivelmente, faz renascer a iniciativa privada... Porque tanta singularidade resultava insustentável, mesmo para continuar a fazer parte do Terceiro Mundo.


Texto de Leonardo Padura Fuentes, jornalista e escritor cubano, publicado na Folha de São Paulo. Tradução de Arturo Rivas.

sábado, 24 de agosto de 2013

Médicos cubanos: pode criticar, mas não é trabalho escravo


Se considerarmos que a condição dos médicos cubanos que estão sendo trazidos ao Brasil é de trabalho escravo contemporâneo, como querem fazer crer alguns contrários ao programa Mais Médicos, também teremos que incluir nessa conta milhões de trabalhadores do agronegócio, da construção civil, dos serviços que recebem salários abaixo do piso ou do mercado. O governo cubano deve receber os recursos das bolsas de R$ 10 mil e repassar parte delas aos seus médicos no Brasil.
Renato Bignami, responsável pela fiscalização de casos de escravidão em São Paulo, analisa que, a princípio, os elementos do novo programa do governo federal não caracterizam trabalho análogo ao de escravo. Se considerarmos que configuram a priori, parte do trabalho no Brasil seria escravo. Ou seja, um desconhecimento do artigo 149 do Código Penal, que trata do tema, e da jurisprudência em torno dele.
E os fiscais do trabalho já viram muita gente, inclusive escravos envolvidos em processos do próprio governo federal, como na produção de coletes para recenseadores do IBGE, em obras do Minha Casa, Minha Vida, do Programa de Aceleração do Crescimento, do Luz para Todos…
Ganhar pouco ou mesmo estar em condições precárias de trabalho são coisas diferentes de trabalho escravo. Estampar algo como “trabalho escravo” pode ser útil para dar notoriedade a um argumento, uma vez que é um tema grave e que gera repulsa por parte da sociedade. Mas, por isso mesmo, deve-se tomar muito cuidado ao divulgá-lo, que é o que os jornalistas que cobrem o tema tentam fazer o tempo todo. Saibam que muita coisa fica de fora porque não se sustenta.
De acordo com o artigo 149, são elementos que determinam trabalho análogo ao de escravo: condições degradantes de trabalho (aquelas que excluem o trabalhador de sua dignidade), jornada exaustiva (que impede o trabalhador de se recuperar fisicamente e ter uma vida social), trabalho forçado (manter a pessoa no serviço através de fraudes, isolamento geográfico, ameaças e violências físicas e psicológicas) e servidão por dívida (fazer o trabalhador contrair ilegalmente um débito e prendê-lo a ele).
Não espero que o corporativismo tacanho de alguns representantes de associações médicas entendam isso. Mas o cidadão comum, sim, precisa compreender a diferença.
Uma coisa é a política pública em si, de levar médicos estrangeiros ao interior do Brasil em áreas carentes, que – a meu ver – está correta. Outra é deixar de garantir direitos a grupos de trabalhadores, nacionais ou estrangeiros, o que não pode ser aceito.
Se a lei que sair do Congresso Nacional sobre essa política pública, oriunda da análise da medida provisória encaminhada pelo governo, retirar direitos, ela será inconstitucional. Pois mesmo se o regime de trabalho proposto pela MP for excepcional, ele precisa obedecer à Constituição. Caso contrário, vai naufragar. Simples assim.
Essa adaptação vai acabar ocorrendo via controle de constitucionalidade abstrata, pela Procuradoria Geral da República ou pela Procuradoria Geral do Trabalho, ou via milhares de ações individuais por parte dos próprios médicos envolvidos.
Ao mesmo tempo, é fundamental o Ministério Público do Trabalho monitore qualquer irregularidade que prejudique o trabalhador, fazendo com que o governo respeite a Constituição Federal (principalmente o artigo 7o, que versa sobre os direitos dos trabalhadores), as convenções da Organização Internacional do Trabalho e os tratados de direitos humanos dos quais o país é signatário. Prevenir é melhor que remediar.
“Acho difícil acreditar que a Organização Pan-Americana de Saúde validaria uma experiência com mão de obra escrava”, pondera José Guerra, secretário-executivo da Comissão Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo, vinculado à Secretaria dos Direitos Humanos da Presidência da República, lembrando que a vinda de médicos tem a parceira da Opas.
Marcus Barberino, juiz do trabalho da 15a Região e um dos maiores especialistas jurídicos em trabalho escravo contemporâneo, concorda que não é possível afirmar que o programa incorre em escravidão contemporânea. E que é preciso ter muito cuidado com o conceito. ”A proteção contra tratamentos discriminatórios ao trabalho é de âmbito constitucional e não permite tratamento distinto quanto aos direitos fundamentais. Fora da moldura constitucional, todo programa público será revisto pelo Judiciário naquilo que confrontar com a Constituição, que corresponde ao piso civilizatório universal”, afirma.
Como já disse aqui, a gente perde os cabelos, há anos, tentando fazer a bancada ruralista no Congresso Nacional entender que trabalho escravo contemporâneo não é qualquer coisa, como falta de azulejo no banheiro ou salário baixo, mas um pacote de condições que configura uma gravíssima violação aos direitos humanos. E, de repente, pessoas que desconhecem o tema usam-no em proveito próprio.
Como disse um médico amigo meu que conhece bem a fronteira agrícola amazônica e lá trabalhou: se esse povo todo que fala essas groselhas conhecesse o que é trabalho escravo de verdade ou, pelo menos, a realidade dos trabalhadores rurais do interior do país, não teria coragem de fazer esse paralelo absurdo.
Acima de tudo, isso é falta de contato com a realidade e de respeito com quem realmente está nessas condições e precisa ser resgatado para ter sua liberdade ou dignidade de volta.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Mudanças em Cuba


Em 2010, participei de uma conversa com Fidel Castro, na qual, em resposta a uma pergunta sobre se Cuba ainda estava "exportando" seu "modelo" para a América Latina, ele inadvertidamente provocou uma tempestade na mídia internacional ao responder: "O modelo cubano não funciona mais nem para nós." Era o óbvio para a maioria dos cubanos e uma afirmação de que mudanças reais estavam em curso.
Seguem algumas impressões ainda não digeridas, extraídas de conversas com dezenas de cubanos, do governo e de fora dele, sobre como eles enxergam essas mudanças.
1-) A morte de Hugo Chávez e a incerteza na Venezuela reforçam uma lógica e uma cronologia preexistentes para Cuba aprofundar laços comerciais, diplomáticos e de investimentos com vários parceiros. O Brasil é um exemplo rematado. Somam-se a essa estratégia o restante da América Latina, China, Rússia, Angola, União Europeia e, eventualmente, os próprios EUA.
2-) As remessas de dinheiro e ajuda material de cubanos no exterior exercem papel crescente na microeconomia da ilha e ajudam a lançar pequenas empresas familiares.
Mas os cubanos que buscam prosperar no setor privado ainda aguardam pela ampliação do acesso ao crédito bancário, pela abertura de mercados atacadistas e pela estabilização das taxas de juros. Isso pode soar muito moderado, mas sugere que estão em curso transformações sociais importantes.
3-) O grande passo macroeconômico, a eliminação da moeda dupla, será doloroso e necessário. O Estado não tem condições de subsidiar tudo para todos e já não o faz mais. Mas reduzir os subsídios e desvalorizar a moeda ao mesmo tempo seria mais terapia de choque que a sociedade pode suportar.
4-) A era digital está chegando, enfim. A abertura de cibercafés, neste mês, é a medida principal de uma decisão política de aumentar o acesso à infraestrutura digital. Os cubanos já são loucos pela mídia social --e não me refiro apenas à blogueira Yoani Sánchez, ídolo no Brasil. Fique de olho nesse espaço --é provável que cresça.
5-) Ainda não está claro como a imprensa oficial cubana vai se adaptar. No próximo mês, um congresso de jornalistas vai debater o futuro de seu sindicato. Esperamos que surja mais espaço para os valores de transparência e responsabilidade promovidos pelo governo de Raúl Castro em outras áreas. Mas, para ter uma ideia dos debates reais em Cuba, vá para www.espaciolaical.org ou www.temas.cult.cu.
6-) Por falar em transparência, está em curso uma iniciativa grande para penalizar a corrupção. Empresas estrangeiras estão de sobreaviso: terão que obedecer às regras. Em pouco tempo, a corrupção da qual depende o mercado negro passará a ser examinada legalmente. Os cubanos parecem compreender que o respeito às leis é essencial para uma economia de mercado.
7-) Partidos políticos? Ainda não, mas já não são inconcebíveis.
8-) Também na categoria de algo que já não é inconcebível: uma mulher na Presidência.


Texto de Julia Sweig, publicado na Folha de São Paulo. Tradução de Clara Allain. 

quinta-feira, 6 de junho de 2013

"A instabilidade na Venezuela deve acelerar as reformas em Cuba", diz economista cubano


Carmelo Mesa-Lago (nascido em Havana em 1934) é uma figura indispensável para se interpretar a Cuba de ontem e de hoje. Exilado desde 1961, é professor emérito na Universidade de Pittsburgh (EUA) e publicou mais de 85 livros, muitos deles sobre seu país. Sempre a favor do diálogo e da moderação, chega à Espanha para apresentar - em 6 de junho na Casa de América - "Cuba na era de Raúl Castro: Reformas econômico-sociais e seus efeitos".
El País: Existem realmente uma era Raúl e uma era Fidel?
Carmelo Mesa-Lago: Há elementos chaves que persistem no governo de Raúl, especialmente políticos, como o partido único, as eleições sem oposição, o controle da livre expressão, etc. Por outro lado, as reformas estruturais de Raúl são as mais profundas, sustentadas e voltadas para o mercado realizadas sob a revolução, consideravelmente mais avançadas que as de Fidel nos períodos 1971-1985 e 1991-1996, depois revertidas. Mas a probabilidade de reversão das reformas atuais é muito menor.
El País: É correto falar em uma transição cubana?
Mesa-Lago: Depende de como se defina "transição". Se a usarmos no sentido convencional, ou seja, a mudança para uma economia de mercado e democracia pluralista ocorrida na Europa Oriental depois do colapso da União Soviética, a resposta é não. Mas se compararmos a Cuba de hoje com a que existia em 2006, há uma transição econômica, embora não possa prever para onde.
El País: Cuba avança para o modelo chinês ou o vietnamita?
Mesa-Lago: Cuba ainda está muito longe dos modelos chinês e vietnamita, em que o mercado e a empresa privada são os setores mais dinâmicos da economia, e o plano não é centralizado, senão um guia. A receita proposta em Cuba não deu resultado em países socialistas da Europa Oriental, como Hungria, Polônia e Iugoslávia, embora estivessem melhor que a própria União Soviética.
El País: Que importância o senhor dá às recentes mudanças migratórias?
Mesa-Lago: Não há dúvida de que a lei de migração é um passo importante. A saída de Yoani Sánchez e de outros dissidentes e o impacto que suas viagens tiveram é um indício de mudança política. Aqueles que alegam que é uma medida para mostrar uma face tolerante ao exterior ou estão cegados por sua ideologia ou ignoram as repercussões reais da medida.
El País: Como o fator Venezuela afetará as reformas em Cuba?
Mesa-Lago: A relação econômica de Cuba com a Venezuela é vital: 42% do intercâmbio comercial de mercadorias da ilha, 44% do déficit total da balança comercial, fornecimento de 62% do petróleo consumido por Cuba, compra de serviços profissionais cubanos próxima de 4 bilhões de euros anuais e investimentos diretos substanciais. Ao todo, equivale aproximadamente a 21% do PIB, semelhante à relação com a URSS em seu melhor momento. A aceleração das reformas desde outubro de 2012 pode ter sido influenciada pela grave doença de Chávez. E a polêmica eleição de Nicolás Maduro e a instabilidade política subsequente, agravada pela severa deterioração da economia, poderiam afetar a citada relação com efeitos devastadores para Cuba. Diante desses riscos e problemas, o lógico seria aprofundar e acelerar as reformas.
Entrevista feita por Mauricio Vicent, para o El País, reproduzida no UOL. Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Na Câmara, Yoani Sánchez critica embargo americano contra Cuba


A blogueira cubana Yoani Sánchez criticou nesta quarta-feira o embargo econômico dos Estados Unidos contra Cuba, em vigor desde 1962. Segundo a dissidente, mais do que a gritante ingerência de um país sobre outro, o embargo é utilizado pelo governo cubano para justificar seus problemas econômicos e a repressão política sobre os cidadãos da ilha.
“Minha posição sobre o embargo norte-americano é que deve terminar já, o quanto antes. Não é apenas a minha posição de agora, mas a de sempre. Não funciona mais. A ideia original era criar uma situação em que os cubanos fossem às ruas protestar contra o governo. Isso foi um fracasso. O que acontece, hoje, é que o embargo é a razão fundamental para que nosso governo não explique seu fracasso econômico e a repressão política. Quero que o embargo acabe para ver como o governo cubano vai se explicar”, respondeu a blogueira após ser questionada pelo deputado Glauber Braga (PSB-RJ).
Yoani também criticou a prisão da base naval de Guantánamo, no sudeste de Cuba, controlada pelos Estados Unidos e alvo de protestos contra as práticas de tortura ali realizadas. A cubana se declarou uma pessoa civilizada e, como tal, não pode admitir violência de qualquer país, seja de Cuba, seja dos Estados Unidos.
A blogueira cubana aproveitou para criticar a campanha feita pelo governo de seu país contra o tour de 80 dias que está fazendo por nove países, entre eles Brasil, Holanda, Espanha e Estados Unidos. Para Yoani, o governo comandado por Raúl Castro deveria usar o dinheiro que vem sendo gasto para financiar protestos por onde ela passa em escolas e investimentos na ilha.
“Todo o financiamento da minha viagem é transparente. Minha passagem foi comprada com a ajuda de outros blogueiros. Em Nova York, minhas despesas serão custeadas por universidades nas quais farei palestras. Na Espanha, pelos organizadores de um prêmio que vou receber. Na Flórida, minha irmã vai pagar tudo para me receber. Vou por aí graças à solidariedade de ‘pequenas pessoas’ como eu”, disse.
Tumulto
O convite para a vinda de Yoani Sánchez a Brasília foi feito pelo deputado federal Otávio Leite (PSDB-RJ), após manifestantes terem impedido a exibição do documentário “Conexão Cuba-Honduras”, para o qual foi entrevistada, em Feira de Santana, na Bahia. A cubana desembarcou no Brasil na última segunda-feira, depois de uma longa batalha para conseguir sair de Cuba. Durante seis anos, a dissidente solicitou autorização para viajar para o exterior por 20 vezes, mas teve todos os pedidos negados. 
Dias antes de sua chegada, a revista Veja publicou matéria sobre uma articulação promovida pela embaixada de Cuba no Brasil. Em reunião convocada pelo embaixador Carlos Zamora, foi combinado uma série de protestos contra a blogueira. No encontro também foi distribuído um CD contendo um dossiê contra a cubana. O Palácio do Planalto confirmou que o assessor da Presidência da República, Ricardo Augusto Poppi Martins, participou da reunião.

Notícia do Terra.