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domingo, 8 de março de 2026

Morre António Lobo Antunes, um dos maiores escritores de Portugal, aos 83


O romancista português António Lobo Antunes, um dos escritores lusófonos mais lidos e traduzidos do mundo, morreu aos 83 anos nesta quinta-feira, segundo sua editora.

O autor recebeu em 2007 o Prêmio Camões, a distinção literária mais importante da língua portuguesa, e era um dos poucos de seu país a ser cotado ao prêmio Nobel de Literatura.

Nos 43 anos entre 1979 e 2022, Lobo Antunes escreveu 32 romances, nunca algo curto e leve, sempre livros longos e impactantes. Cada um parece ter levado dez anos para ser escrito e demandar um ano para ser lido —ele nos deu tudo de si e exigiu tudo de nós.

Lobo Antunes nasceu em 1942, formou-se em medicina e serviu como médico de campanha na guerra colonial de Angola, de 1971 a 1973, na experiência definidora de sua vida.

Graças ao inesperado sucesso de seus primeiros livros a partir do final daquela década, largou a medicina e, desde então, não fez mais nada além de escrever romances. "Não se pode escrever a biografia de um escritor porque ele é muita gente", disse.

Seus livros não têm enredo bem definido nem personagens marcantes, o que colabora para aumentar sua fama de difícil e inacessível. Mas poucas obras literárias recentes valem tanto o esforço de explorá-las. "Não estou no mundo para ajudar meus admiradores a atravessar a rua", disse ele.

Quem lê um romance de Lobo Antunes sai arrebatado por vozes, por situações, por atmosferas. Na verdade, pela forma em si, por palavras transformadas elas mesmas em protagonistas.

Seu estilo fragmentado e polifônico, inefável e absurdo, não pode ser separado da experiência fundante da guerra. Assim como as repetições quase hipnóticas de palavras e frases em seus livros, também é da natureza do trauma parecer que volta a acontecer o tempo todo.

Como descrever um horror existencial que transcende o tempo e as palavras? Lobo Antunes criou um novo estilo porque os que estavam à sua disposição não davam conta de expressar tamanha entropia.

Então, como ler sua obra? Abdicando da necessidade de entender o que está acontecendo. Como em uma iluminação instantânea depois de décadas de meditação, o efeito de seus romances é ao mesmo tempo súbito e cumulativo. De repente, cenas e falas aparentemente esparsas e desconexas se unem para formar um único painel humano, impactante e coerente.

Se poesia é o que se perde na tradução, um romance de Lobo Antunes é aquilo que se perde na tentativa de resumo. Nas palavras dele, "enquanto se lê por vezes pode ter-se a sensação de não se estar a entender nada, mas depois, subitamente, entende-se tudo: o escuro torna-se claro".

É possível separar seus romances em três ciclos: autobiográfico, português e intimista.

O ciclo autobiográfico é formado pelas três primeiras obras, "Memória de Elefante" e "Os Cus de Judas", ambos de 1979, e "Conhecimento do Inferno", de 1980. O protagonista é um alter ego do autor, um médico psiquiatra que participou da guerra colonial em Angola.

Embora já ensaiem o caráter polifônico dos romances posteriores, ainda são obras de uma só voz. Podem servir como excelente porta de entrada, com uma ressalva: são apenas a ponta de um vasto iceberg.

O segundo ciclo inclui obras que dialogam diretamente com a história de Portugal. São romances como "Fado Alexandrino", de 1983, em que veteranos da guerra colonial se reúnem para conversar sobre os velhos tempos, e "Manual dos Inquisidores", de 1996, que mostra a decadência de uma rica família salazarista depois da Revolução dos Cravos.

Há também "O Esplendor de Portugal", de 1997, sobre as difíceis escolhas de uma família portuguesa na Angola pós-independência, e "Exortação aos Crocodilos", de 1999, história de um grupo de militares terroristas inconformados com a revolução.

Destaca-se o realismo mágico luso-tropical de "As Naus", de 1988, no qual, junto com os retornados —portugueses nascidos nas colônias que regressam, após a independência, a um país que muitas vezes nem conheciam –, voltam também algumas das maiores figuras históricas do império ultramarino, como Camões, Cabral e são Francisco Xavier.

Uma progressiva complexificação, nos últimos 20 anos, culmina no terceiro ciclo de Lobo Antunes, o intimista.

"Não existe narrativa no sentido comum do termo", afirma ele. "Apenas longos círculos concêntricos que se estreitam e aparentemente nos sufocam. E sufocam-nos aparentemente para melhor respirarmos."

Suas obras vão se tornando difíceis de distinguir uma das outras, como se cada uma fosse um novo capítulo do mesmo romance infinito.

Os romances do segundo ciclo são mais experimentais que os do primeiro e menos abstratos que os do terceiro. Os fatos históricos oferecem uma estrutura que quase se aproxima de um enredo formal, funcionando como uma rede de segurança para o salto de fé que a leitura exige.

Seu 32º e último romance, "O Tamanho do Mundo", publicado em Portugal em 2022 e ainda inédito no Brasil, seria recebido como revolucionário em qualquer contexto onde já não existissem 31 romances anteriores de Lobo Antunes para comparação.

Seu tema é outro horror inefável: a solidão da velhice. Verdadeiro "Memorial de Aires" do autor, é um réquiem digno de se ombrear entre as demais obras de uma carreira literária que parece uma catedral medieval —gigantesca e imponente, repleta de detalhes impressionantes que raramente reparamos ao primeiro contato.

Nas últimas décadas, o leitorado português se acostumou a esperar um novo livro de Lobo Antunes sempre em outubro. Em 2024, a segunda edição expandida do livro de entrevistas "Uma Longa Viagem com António Lobo Antunes", de João Céu e Silva, ajudou a explicar a ausência do escritor.

Ele estaria incapaz de escrever por estar sofrendo de demência desde 2021, agravada pelo isolamento durante a pandemia. A revelação provocou polêmica: tinha Céu e Silva o direito de divulgar uma condição médica que a própria família mantinha em segredo?

Seu último livro publicado em vida foi "As Outras Crônicas", volume editado em 2024. Sua editora, a Dom Quixote, prepara uma coletânea de poemas do autor ainda para este ano.

"Uma obra de arte boa é uma vitória sobre a morte," escreveu Lobo Antunes. Hoje, no dia de sua morte, cabe a nós reconhecer essa vitória.


Reprodução de texto de Alex Castro na Folha de São Paulo

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2025

Livro reflete sobre morte assistida ao narrar suicídio de filósofa brasileira aos 74


"O Dia em que Eva Decidiu Morrer" traz, pela primeira vez no país, a história de uma brasileira que viajou à Suíça para exercer o direito de morrer com dignidade. O caso que aconteceu há cerca de dois anos é narrado pelo jornalista Adriano Silva em um livro-reportagem que não se furta a assumir uma posição sobre o assunto. Daí seu subtítulo: "Uma Reflexão sobre Autodeterminação e Direitos de Fim de Vida". A obra será lançada em março.

Eva —nome fictício de uma filósofa real, de 74 anos, cuja família preferiu manter no anonimato— não tinha uma doença terminal. Mas, em 2023, sofreu um AVC (acidente vascular cerebral) que lhe trouxe sequelas físicas, psíquicas e intelectuais.

Ao compreender que seria incapaz de continuar a trabalhar e a viver da forma que estava acostumada, ela tomou a decisão de buscar ajuda para sua morte. Informou ao filho, que tentou convencê-la do contrário por alguns meses, mas sem desrespeitar a autodeterminação da mãe.

No fim, ele a acompanhou à Suíça, onde, com a ajuda de uma organização pelo direito à morte com dignidade, a Dignitas, Eva acionou a válvula na cânula conectada à veia de seu braço, liberando 15 gramas de sódio pentobarbital, um poderoso sedativo, em sua corrente sanguínea.

"Essa substância a conduziria ao sono profundo em poucos segundos", escreveu Silva. "Nesse estado de anestesia, sem dor nem agonia, em poucos minutos seu coração pararia de bater. Em mais alguns minutos, seu cérebro cessaria todas as funções vitais. E Eva deixaria de existir." Foi o que aconteceu.

O relato com a história de Eva —contado do ponto de vista de seu filho, Guido— está dividido em duas partes no livro e não se resume ao momento final. O autor levanta a vida da filósofa, detalha o momento em que ela teve o AVC e narra cada uma das derrotas diárias que foram mostrando para ela a impossibilidade de uma existência que considerasse digna.

Ex-diretor de redação na editora Abril, de revistas como SuperInteressante e Vida Simples, e ex-editor sênior da Exame, Silva também foi chefe de redação do Fantástico, da Rede Globo.

Com sensibilidade para descrever pessoas e sentimentos complexos, o jornalista vai além das obviedades e do maniqueísmo e apresenta personagens reais profundos, com qualidades e defeitos, tal qual seres humanos.

É uma característica que vem a calhar numa obra que discute um tabu da sociedade, como o da MVA (morte voluntária assistida), o nome que se dá quando uma pessoa decide terminar a própria vida de forma segura e com supervisão médica de modo a encerrar o sofrimento intolerável. Ela também é chamada de suicídio assistido por médico ou ajuda médica para morrer.

"Nós não estamos falando aqui, em nenhum momento, do suicídio comum ou do suicídio irracional, como é chamado. Ou seja, nós não estamos falando de uma dor existencial de uma pessoa jovem e fisicamente saudável. Isso é uma outra discussão, tem um outro encaminhamento, tem um outro tratamento. O que nós estamos falando aqui, quando se fala em direito de fim de vida, em MVA, diz respeito a três tipos de pessoa", afirma Silva, em entrevista.

"A primeira delas é que tem doença terminal ou incurável. Muitas dessas pessoas já estão num processo em que o sedativo não funciona mais, o analgésico não funciona. Então, tudo que ela tem pela frente é sofrimento bárbaro, é tortura."

"O segundo grupo de pessoas é daquelas que não têm a terminalidade, mas têm uma incapacitação grave e irreversível. É o caso da Eva, que teve esse AVC que acabou com tudo que ela sabia e gostava de fazer na vida. E a ponto de ela entender que daquele jeito não vale a pena. Aí também entram os 40 tipos de demência, que, no caso do Alzheimer, tem a sua camada extra de complexidade, porque o paciente tem que tomar a decisão enquanto ele ainda tem a consciência."

"E tem um terceiro grupo, que é o grupo do padecimento por envelhecimento avançado. Existem pessoas que, em determinado momento, 90 e muitos anos, 80 e muitos anos, 100 e poucos anos, depende de cada um, a pessoa sente que perdeu todas as condições de viver uma vida com uma qualidade que ela considera mínima, minimamente aceitável. Há dor, fadiga, cegueira, uma série de questões que podem advir com a idade. Quando a gente vive uma situação de uma população que envelhece no mundo e no Brasil, cada vez mais nós vamos ter mais pessoas nessa situação."

Segundo Silva conta no capítulo "As Palavras Certas e Como Usá-las", a MVA pode ser autoadministrada —caso de Eva, que acionou a válvula com o pentobarbital— ou administrada por terceiros, ato também chamado de eutanásia, quando a pessoa solicita que outra pessoa ministre a substância —muitas vezes por não poder fazê-lo, caso do marinheiro espanhol Ramón Sampedro, que ficou tetraplégico aos 25 e enfrentou uma batalha legal de 29 anos para ter a permissão de morrer.

Sua história, filmada por Alejandro Amenábar em "Mar Adentro", com Javier Bardem em seu papel, venceu o Oscar de filme estrangeiro em 2005. O livro elenca outros casos importantes para a causa, como a do botânico e ecologista britânico David Godall, que realizou a MVA aos 104 anos, sem doença letal, alegando "cansaço de viver". A mesma razão embasou o procedimento do cineasta francês Jean-Luc Godard, aos 91.

No Brasil, há de se lembrar do caso de Nelson Irineu Golla que, em 2014, aos 74, atendendo a pedido da esposa, Neusa, de 72, que definha após sofrer dois AVCs, abraça-se a ela com uma bomba de fabricação caseira entre os dois e a detona, em uma clínica para idosos na zona leste de São Paulo. A história está no livro-reportagem "O Último Abraço - Uma história real sobre eutanásia no Brasil", do jornalista Vitor Hugo Brandalise.

Além do capítulo "Os Fatos e Argumentos", nos quais o autor discorre a respeito de posições contrárias à MVA —como as de diversas religiões—, a legislação brasileira é dissecada em "A autodeterminação no Brasil e no mundo".

"No Brasil, a gente considera a morte uma derrota", diz Silva. "O médico sente assim, a família sente assim, e essa pessoa fica ali, sofrendo barbaramente, porque a gente não deixa a morte acontecer. Então, há o primeiro caminho, que é a distanásia, ou obstinação terapêutica, estendendo a vida a todo custo, sem se importar com as consequências para o paciente. O segundo caminho é o da ortotanásia: eu não antecipo a morte, mas eu não prolongo o processo de morrer também. Aí também entram os cuidados paliativos. Eu posso dizer que não quero intubação, não quero ressuscitamento, não quero hemodiálise. Recusar determinados tratamentos."

"O que nós não temos no Brasil? A terceira hipótese, que é você dizer o seguinte: eu não quero o tratamento, nem o paliativismo, quero ir embora agora, eu não aguento mais. Chegou. Deu. Assim eu não quero. Eu não quero ficar aqui na morfina, esperando a falência dos meus órgãos. Pô, eu já tomei essa decisão, minha existência se tornou insuportável, me deixa ir rápido e de maneira indolor."

Hoje, há 14 países nos quais a MVA é legalizada, com uma série de matizes, como a exigência ou não de terminalidade, se pode ou não ser administrada por terceiros e ainda o acolhimento ou não a estrangeiros —razão pela qual a Suíça se tornou um destino para a maioria das pessoas atrás do procedimento.

São eles: Holanda, Bélgica, Luxemburgo, Alemanha, Áustria, Suíça, Espanha, Portugal, EUA (onze estados), Canadá, Equador, Colômbia, Austrália e Nova Zelândia. Outros quatro estão em vias de legalizar: Reino Unido, Itália, Cuba e Peru.

Sobre o fato de assumir uma posição sobre o assunto, Silva afirma que "não quis fazer um livro isento, no sentido de não me colocar". "Procuro ser justo e, para bem contar uma história, busco olhar por todos os ângulos. Mas eu parto do pressuposto de que uma história como essa demonstra claramente a tremenda importância de a gente não ser obrigado a morrer de forma horrível."

"Isso toca ainda numa questão minha de sempre ter sido um defensor dos direitos civis e das liberdades individuais. Então, essa me pareceu uma causa suficientemente grande para eu me engajar aos 54 anos."

Para tanto, o autor criou o site boamorte.org, num esforço de oferecer conteúdo em português sobre o tema. "Tentei colocar os principais personagens, os principais livros, os principais filmes, as principais legislações."

Ao lado da advogada Luciana Dadalto, que atua na área e direito médico, Silva está criando uma associação civil chamada Eu Decido. "Vamos montar a entidade para estruturar, não apenas a discussão sobre esse tema, mas também estruturar um pedido, uma conclamação para que o Brasil reveja sua legislação.

"A julgar pela experiência dos países que já aprovaram legislações relativas à MVA, os direitos de fim de vida costumam tomar duas ou três décadas de discussão em sociedade até ganharem força jurídica. É trabalho para uma geração", escreve o autor.

Silva, portanto, não acredita que viverá para colher os frutos de seu trabalho. Ou, melhor dizendo, não morrerá colhendo esses frutos. "Precisamos inaugurar essa conversa com urgência no país", afirma.


Reprodução de reportagem de Ivan Finotti na Folha de São Paulo

terça-feira, 20 de fevereiro de 2024

Hipócritas gentis infantilizam minorias porque elas são um bom negócio


Guerras culturais são sempre um bom negócio. Amadores discordam. São questões de vida ou morte, dizem eles, defendendo ou atacando pronomes neutros.

Os profissionais riem. Um deles, meu colega, explicou-me anos atrás que deixara temas clássicos —Espinosa e Leibniz— para se dedicar a temas de "interseccionalidade". No ranking das publicações, subiu ao pódio. Caso contrário, ainda estaria comendo pó.

É o mercado, estúpido! E o que é válido para a academia é válido para qualquer ramo de atividade. Se você pensa que a multinacional "X" ou "Y" tem convicções profundas quando abraça os temas "woke", você precisa fazer um exame neurológico. Sério.

É por isso que "American Fiction", o filme indicado ao Oscar, vem na altura certa. Suspeito que várias cabeças vão explodir quando assistirem à obra. Muitas explodiram quando leram o livro.

Mas, antes, uma confissão: sempre que alguém filma um romance de que gosto muito, eu tremo um bocadinho. Raramente me engano. Basta pensar no vandalismo a que foram submetidos todos os livros de Philip Roth pelo cinema.

Felizmente, isso não acontece com "American Fiction". O livro que inspirou o filme —"Erasure", de Percival Everett— está no top dez dos melhores romances americanos do século 21. O filme, pelo menos, não estraga. Para mim, basta.

No centro da história —atenção, spoilers— está Thelonious Ellison, que todos tratam por Monk, em homenagem ao grande pianista de jazz. Thelonious é um professor universitário e escritor. Também é negro, mas isso é secundário, pensa ele.

Pensa mal. Nas livrarias, os seus livros estão sempre na seção de estudos afro-americanos. Furioso, ele faz questão de os remover dessas estantes para os devolver, sem rótulos, à de ficção americana. Chega de segregação.

Além disso, o seu agente não consegue vender para nenhuma editora o mais recente romance de Ellison. Demasiado erudito. Escrito em inglês perfeito. Quem ele julga que é?

Um escritor branco?

As editoras, devidamente chefiadas por brancos, não admitem que um negro escreva livros sem os clichês do gueto. Querem linguagem chula, querem crack, querem rappers. Querem pobreza, querem polícia, querem mortes. Como diz o agente porto-riquenho, "querem se sentir absolvidos".

Ellison despreza esse fascínio mórbido dos brancos. É uma nova forma de exploração que persiste em reduzir os negros a uma caricatura tão insultuosa como as caricaturas dos tempos das leis de Jim Crow.

"Eu nem acredito em raça", diz ele. "O problema é que todos acreditam", responde o agente.

Thelonious medita nessas últimas palavras. E, só por piada, escreve o tipo de livro que faz sucesso entre os "racistas do bem". Sob pseudônimo, claro, porque o homem tem uma reputação a preservar.

Bingo! Uma grande editora faz uma proposta milionária para comprar os direitos. A piada virou coisa séria. O que fazer?

O agente, numa das melhores sequências do filme, põe três garrafas de uísque Johnnie Walker sobre a mesa. E explica: existe Johnnie Walker Red, Johnnie Walker Black e Johnnie Walker Blue.

Ele, Thelonious, será sempre um Johnnie Walker Blue, o melhor, o mais caro.

Mas as massas, para matarem a sede, compram Johnnie Walker Red, mais barato. Que mal tem ser um Johnnie Walker Red de vez em quando?

O livro é publicado com o belíssimo título de "Fuck". Bestseller imediato. Hollywood vem a seguir.

"American Fiction", tal como o romance de Percival Everett, é uma sátira primorosa ao paternalismo dos brancos. Conheço casos: hipócritas gentis que infantilizam as minorias porque são um bom negócio.

Que as supostas minorias tenham vidas normais, com alegrias normais, angústias normais ou amores normais, eis um pormenor demasiado burguês para quem prefere ver o mundo transformado em jardim zoológico. Cada um na sua jaula. Que pensarão as minorias disso?

Não posso falar por elas. Mas posso falar por Thelonious "Monk" Ellison, que supera a sua justa indignação e decide lucrar com a estupidez dos brancos. O cliente tem sempre razão, no fim das contas.

E, mesmo quando não tem, é ele quem paga as contas.


Texto de João Pereira Coutinho na Folha de São Paulo

quarta-feira, 17 de novembro de 2021

Poesia de Caleb Femi discute racismo e guerra entre polícia e tráfico


A foto poderia ser de uma superquadra de Brasília, mas é de um conjunto habitacional azaradíssimo num bairro pobre de Londres. Claro, aquilo está longe de ser uma favela. Mas racismo policial, guerra de traficantes e pencas de adolescentes assassinados fazem parte do cotidiano dali, como em qualquer grande cidade brasileira.

Uma diferença é que, na Inglaterra, há dezenas de prêmios para escritores, e Caleb Femi, britânico nascido na Nigéria em 1990, acaba de ganhar o de melhor livro de estreia para poesia neste ano.

"Poor", ou pobre, foi editado pela Penguin, e entremeia os poemas com fotografias tiradas pelo próprio autor. Retratam a vida e o ambiente dos jovens negros do bairro de Peckham, famoso pela precariedade econômica e social de seus habitantes.

Mas o livro poderia também se chamar "Concreto". Questiona seguidamente a cegueira do urbanismo modernista, que em Londres como em outros lugares construiu mega edifícios de aparência presidiária, achando que criava soluções "humanas" para a habitação popular.

Do que é feito o concreto? O poeta responde, enumerando muitas coisas: cimento, areia, chiclete, cordão de isolamento policial, Ovomaltine derramado, água sanitária... Quais suas propriedades? Recolho duas respostas: a capacidade de resistir ao peso de um cortejo fúnebre, capacidade de absorver o som dos socos de uma mãe desesperada.

Essa ligação entre maternidade e gueto aparece ainda com maior força imagética em outro poema, onde o sangue de um adolescente assassinado escorre pelo concreto do conjunto habitacional; é como se fosse um parto, diz Femi, e a dor dessa morte é um dente podre "que tem de ser arrancado".

Quem gostaria, afinal, de ter um filho para que dali a uns 15 anos ele seja assassinado pela polícia ou por traficantes? Terrivelmente, surge a ideia de que cada mãe é uma criadora de mortos, e de mortes.

Em "A Primeira Vez em que Você Pega numa Arma", Caleb Femi descreve uma sensação de segurança e acolhimento. O cabo do revólver "era suave/ como o seio da minha mãe. Minhas gengivas/ ainda se lembravam daquela sensação/ e transmitiram para minha mão essa memória."

É assim, nessa ideia de perpétuo nascimento para a morte, que a sucessão de chefes de gangue assassinados se traduz em linguagem bíblica: Fulano, que gerou Beltrano, que gerou Sicrano...

O livro apresenta então uma sequência de retratos dos "durões", "duronas" e das vítimas da vizinhança, um pouco como as letras de milonga em que Jorge Luis Borges homenageava ironicamente os malfeitores da velha Buenos Aires.

É o caso de um tal Marlon: "quando a polícia finalmente/ pegou ele, dizem/ que tinha munição/ suficiente para dar cabo de Deus."

Em "Agricultura do Concreto", Caleb Femi conta como se faz para arar o seu território: "juntamos revólveres/ e facas/ e pedras/ e chamamos eles de ferramentas/ para trabalhar a terra."

É um mundo de ameaças, antros de crack e execuções simuladas. "Dois segundos antes do tiro", o menino a ser executado "inspira fundo um bocado de ar/ na esperança de que o ar o mate antes do que o revólver".

Em "O Negro de Schrödinger", Caleb Femi faz referência ao conhecido paradoxo da física quântica, em que se imagina um gato, preso dentro de uma caixa, sobre o qual não se pode dizer se está vivo ou morto. Nessa teoria, o "gato de Schrödinger" deve ser descrito como "vivo-morto", ou "vivorto", ou "morvivo".

Pois bem. O poeta descreve então outra caixa —a de um aparelho de TV— em que são transmitidas notícias sobre um episódio de saque e vandalismo na cidade. Aparecem imagens de um ônibus pegando fogo, de garotos usando agasalho com capuz, e de um céu "que se recusa a trazer chuva e se recusa a mostrar o sol", uma vez que "resolveu cuidar da própria vida".

Aí a televisão mostra o rosto de um jovem negro, Mark Duggan, assassinado pela polícia no conflito. "Era uma foto de mim mesmo, ainda que eu não estivesse morto", diz o poeta, e continua: "é assim que é ser negro por aqui: tipo estar morto e vivo ao mesmo tempo".

E o capuz de um agasalho parece, para ele, o botão de uma flor que vai desabrochar, em garotos "bonitos como o medo", dormindo não mais num prédio de concreto, mas em outro lugar, "verde, eternamente verde". Longa vida a Caleb Femi.


Texto de Marcelo Coelho, na Folha de São Paulo

terça-feira, 19 de outubro de 2021

'Luxúria', romance de estreia de Raven Leilani, é o melhor livro que li este ano


Poucas coisas me emocionam mais do que a incongruência demasiadamente humana de personagens que abusam de acidez e cinismo para pedir afeto e acolhimento. A brilhante Edie, uma jovem negra, pobre e cheia de metáforas mordazes, pensa demais sobre tudo e, sobretudo, em sexo —ainda que o ato, boa parte em parceria com homens idiotas e evasivos, lhe sirva apenas para sentir que alguém toca seu corpo.

Na mesma intensidade com a qual exibe seu potencial garotinha explicitada: “os homens perdem o interesse por mim quando abro a boca. No começo tudo sempre vai bem, depois eu falo da minha torção ovariana ou do valor do meu aluguel de um jeito explícito demais”, Edie desconstrói os clássicos tipinhos urbanos vigentes: “a dona do meu apartamento, que tem vinte e três anos, é uma influencer safada de chá detox seca-barriga no Instagram e herdou o prédio do avô”.

“Luxúria” é um livro sobre a falta de prazer, o que torna seu título ainda mais atraente. A protagonista transou, no passado, com muitos colegas do trabalho, mas nada disso foi para a frente ou lhe trouxe alguma satisfação real. Por conta da negligência e do desamparo na infância e de uma sociedade altamente deficitária e preconceituosa, ela aprendeu a gozar ao ser maltratada e abandonada, mas o vazio e a dor desse vício sobressaem a qualquer narrativa de fetiche.

No presente, Edie narra seu encantamento por Erick, um homem branco de meia-idade que conheceu na internet e que vive um relacionamento aberto com a esposa (com quem ele já até comprou “um túmulo lado a lado”). Contudo, após vários “primeiros encontros” pouco eróticos com o sujeito travado, a jovem se vê obrigada a recorrer a horas infinitas de masturbação.

A única coisa que poderia lhe trazer algum deleite ou mesmo propósito de vida é a pintura, mas ela não consegue se enxergar como artista (tenta se ver compulsivamente em autorretratos), tampouco ser reconhecida assim pelos outros: “com meio grau de diferença eu poderia ter tudo o que eu quero. Sou boa, mas não boa o bastante, e isso é pior do que ser ruim. É quase”.

A ironia do título também pode ser apreciada no quartinho em que a protagonista dorme antes de ser despejada: infestado de baratas e ratos. E também no ambiente moderninho e entojado da editora na qual trabalha até ser demitida: com pessoas que sempre deixam bem claro que ela está ali por uma questão de cota, mas isso não significa que ela será chamada para almoçar com eles.

Um dia, cansada de ter suas mensagens ignoradas por Erick, resolve aparecer na casa dele. Se vê então em meio a uma festa, ajudando Rebecca, a esposa, a levar um bolo até a mesa. A proximidade curiosa com a mulher, a obsessão amorosa, a situação financeira, a solidão atroz (não consegue estabelecer vínculo nem com outras garotas negras) e o horror de seguir ralando em subempregos, acabam fazendo com que Edie tope morar com o casal, um convite que parte somente de Rebecca, “uma mulher disposta a resolver problemas a qualquer custo, tão competente que qualquer fracasso ao seu redor se torna dela”. Quando ela conhece Akila, a filha adotiva de pais inaptos e que cresce sem nenhuma referência de pessoas negras no bairro ou na escola, fica mais claro o motivo da sua presença por ali.

Órfã de uma mãe viciada que cometeu suicídio (“Talvez as mulheres da minha família não devessem ser mães [...]. Elas estavam morrendo por dentro do próprio corpo, e agora todas essas partes mortas são a minha herança [...]”) e de um pai cujo falecimento ela descobriu pelas redes sociais, é comovente ver o modo como se desenvolve a relação entre Edie e as mulheres da nova e improvável família.

Bem, até aqui eu tentei resumir a excepcional história criada no romance de estreia desse fenômeno chamado Raven Leilani (eleito um dos melhores do ano pelo “New York Times” e pelo “The Guardian”), mas faltou dizer o mais importante: prepare a sua canetinha para grifar uma infinidade de frases definitivas sobre racismo, sobre ser mulher, ser jovem, sobre tesão, amor, angústia, solidão, engano, fragilidade e muita coragem. 


Texto de Tati Bernardi, na Folha de São Paulo

Quem é Mahmud Darwich, poeta palestino que ganha destaque agora no Brasil


O narrador quer passar um café, mas a manhã chegou queimando com uma febre de metal. Do lado de fora, escreve, o ferro uiva enquanto Israel bombardeia Beirute. A cidade vive um inferno, naquele dia de agosto de 1982, um dos ápices da guerra civil libanesa. Ele quer passar um café.

A abertura de “Memória para o Esquecimento” impacta o leitor já nas primeiras páginas. Serve de lembrete da força do autor, Mahmud Darwich, um mestre nessa fusão entre rotina e política.

No mundo de fala árabe, Darwich dispensa introduções. Ele é o autor palestino de maior renome —e um dos símbolos de sua causa nacional. Darwich, porém, é ainda bastante desconhecido no Brasil. Em parte, porque até recentemente não havia uma tradução sistemática dele para o português.

O cenário está mudando depressa desde que a recém-fundada editora Tabla assumiu a missão de introduzir Darwich no país. No ano passado, essa casa lançou “Da Presença da Ausência”, com tradução de Marco Calil. Veio no ano seguinte “Onze Astros”, vertido por Michel Sleiman.

“Memória para o Esquecimento”, traduzido por Safa Jubran, é a terceira obra de Darwich a chegar ao Brasil num período de pouco mais de um ano. A Tabla tem planos de ir adiante, com outros volumes que ainda não foram anunciados. “O que a gente tem pelo Darwich é um fervor”, diz a editora Laura di Pietro “Ele não é um poeta de quem a gente quer fazer só um livro.”

Darwich nasceu na vila palestina Al-Birwa em 1941. Testemunhou, em 1948, a criação do Estado de Israel e a expulsão de centenas de milhares de palestinos. Por seu ativismo na Organização para a Libertação da Palestina, acabou associado à causa palestina. Morreu em 2008.

Seus poemas, como “Carteira de Identidade”, ainda tocam fundo na região. O texto repete, como um refrão, a frase “anote aí, sou um árabe”. No passado, políticos israelenses protestaram contra esses versos.

“Memória para o Esquecimento”, que acabou de sair no Brasil, narra um único dia de 1982 sob os bombardeios israelenses em Beirute, algo que Darwich viveu durante o exílio. Àquela época, Israel cercava a capital libanesa como maneira de pressionar a Organização para a Libertação da Palestina, ali presente.

O drama de passar o café em tal contexto é um exemplo do valor do prosaico na obra de Darwich. “Essa narrativa mostra que continuar com a rotina do cotidiano é um ato de resistência”, diz Jubran, professora da Universidade de São Paulo . Veterana das letras árabes, ela assina há anos algumas das principais traduções daquela língua para o português. O café aparece em outros textos de Darwich, como no poema “Para Minha Mãe”, em que ele descreve a saudade do bule materno.

Jubran afirma que “Memória para o Esquecimento” é o texto em prosa mais maduro de Darwich. É uma narrativa ímpar do cerco e dos ataques israelenses, afirma, costurada com textos bíblicos, crônicas medievais e a saga do povo palestino. O texto pode não estar em versos, mas “exala poesia”.

Outro elemento que chama a atenção, no livro, é como Darwich consegue costurar sua memória individual com aquela do coletivo palestino —um dos papéis da literatura. “Ele faz isso de maneira inédita e magistral”, Jubran afirma. “A meu ver, é um livro que mereceria um curso.”

Foi exatamente em um curso de Jubran, aliás, que Darwich cativou Calil. O tradutor de “Da Presença da Ausência” ouviu essa professora declamar em sala de aula o poema “Serás Esquecido”. “Aquilo me tomou por completo”, diz. Tomado, ele começou a traduzir o palestino. Enquanto Jubran é uma veterana, Calil é um novato. Mas, com 26 anos, esse jovem já desponta como uma das promessas de sua geração —e com um trabalho marcado por evidente erudição.

Calil parece ter menos interesse nas questões políticas e identitárias e mais nos temas históricos e literários. Fala sobre a não filosofia de Darwich, sobre como ele não resvala no que chama de “formas fracas do realismo”. “Vejo uma tensão entre o Darwich ativista e o transcendental”, afirma.

Essa tensão é importante. Há tempos, críticos reclamam de como autores de zonas marginais do mundo são reduzidos a representantes de seus povos. Até pouco tempo atrás o próprio Darwich costumava aparecer como uma voz fundamentalmente palestina, agrilhoada à causa nacional—enquanto escritores europeus são tidos como vozes universais que falam sobre a humanidade.

Na tradução de Calil, não é a identidade ou a política que se destacam —mas a língua. Ele captura de maneira excepcional as particularidades do árabe. Essa língua semítica existe em dois registros. Há o árabe formal, escrito, como o utilizado por Darwich. Há também o árabe oral, do cotidiano. É uma situação difícil de traduzir, porque o português não vive essa dualidade. A situação mais parecida é a do latim, que por algum tempo conviveu com as línguas latinas.

“No árabe, temos essa mordaça e, ao mesmo tempo, um estilhaçamento dos jeitos de dizer", diz. "Por isso, quis encontrar um português que pudesse exprimir essa remoção do tempo e da própria língua.”

MEMÓRIA PARA O ESQUECIMENTO

  • Preço R$ 63 (216 págs.)
  • Autor Mahmud Darwich
  • Editora Tabla
  • Tradução Safa Jubran


Texto de Diogo Bercito, na Folha de São Paulo.

quarta-feira, 12 de maio de 2021

Ler Patricia Highsmith, que faria cem anos, ainda causa um mal-estar

 

Conhecia alguns filmes baseados em histórias de Patricia Highsmith, como o excelente “Pacto Sinistro”, de Hitchcock, mas nunca tinha lido seus livros e aproveitei o centenário de seu nascimento para fazer uma espécie de “intensivão” nessa verdadeira escola de perversidade psicológica.

Sou mais a linha dos detetives clássicos, encarregados de resolver um crime como uma charada ou problema de xadrez.

Há quem diga que as histórias de Agatha Christie ou Dorothy Sayers são profundamente conservadoras: acontece um crime (a perturbação da ordem) e, uma vez encontrado o criminoso, o status quo se restabelece.

A interpretação é um bocado mecânica, a meu ver. O leitor desse tipo de romances não se importa muito em ver o assassino punido; há um famoso caso em que Poirot decide esconder da polícia a solução do mistério. A pessoa assassinada, concluía o detetive, merecera o seu destino.

Natural que seja assim. Para que existam cinco ou dez suspeitos de um assassinato, cada qual com seus motivos, é preciso que a vítima seja altamente detestável. Nenhum leitor lamenta o crime, portanto, nem se sente apaziguado quando o criminoso vai para a cadeia.

A única “desordem” que os policiais clássicos tratam de consertar é de ordem intelectual. Havia quatro penas de pavão na cena do crime; o assassinado usava meias de cores diferentes; o anel roubado tinha sido engolido por seu cachorrinho de estimação. O que aconteceu?

É como uma colagem surrealista, em que o detetive se encarrega de restaurar, não a ordem, mas o sentido da cena.

Os livros de Patricia Highsmith não têm nada disso. Nos que eu li, se aparece um detetive, ele é incapaz de atinar com nada (veja-se “O Talentoso Ripley”, por exemplo).

E, se nas histórias clássicas o criminoso é movido pelo autointeresse (quer dinheiro ou vingança), no mundo de Highsmith o que prevalece é o mal sem maiores explicações.

Em “Resgate de um Cão”, por exemplo, tudo poderia reduzir-se a um golpezinho desimportante. O cachorro de um rico casal nova-iorquino é sequestrado e, por US$ 1.000, seria devolvido. Seria pouco para produzir um romance, mas Patricia Highsmith mantém o interesse (e a repugnância) do leitor construindo um personagem doente, obcecado em destruir a vida do policial que o investiga.

O policial, por sua vez, não é menos obcecado; por alguma razão psicanalítica, ele quer se aproximar ao máximo do casal rico, esquecendo os próprios pais nesse processo.

O famoso Ripley, no primeiro romance da série, vive o mesmo complexo, como se quisesse ser adotado pelos pais de Dickie Greenleaf, seu amigo milionário.

Patricia Plangman adotou o sobrenome de seu padrasto, Stanley Highsmith. Conta que desde pequena alimentava a fantasia de matar o padrasto; quando adulta, o seu comportamento tornou-se famosamente agressivo, com bebedeiras tremendas e uma longa sequência de relacionamentos abusivos.

Ela dizia ser uma lésbica profundamente misógina —mas não odiava apenas as mulheres; a humanidade toda, segundo ela, era composta majoritariamente de débeis mentais.

Preferia criar lesmas e as guardava na bolsa, para apresentá-las aos incautos.Também criador de lesmas é o pacato (?) marido de “Em Águas Profundas” —história quase dostoievskiana de crueldade conjugal.

O escritor russo talvez esteja ainda presente em “O Grito da Coruja”, romance em que, a troco de nada, o protagonista começa a espionar uma jovem que mora sozinha em casa. O namorado da moça, por sua vez, desenvolve a monomania inversa, e passa a perseguir o herói da história.

Há sempre a obsessão de um homem por outro. Em vez de se liberar num relacionamento homossexual, tudo se traduz em pulsão destrutiva.

A psicanálise desse esquema narrativo pode ser banal hoje em dia, mas são histórias escritas nas décadas de 1950 e 1960, no ambiente falsamente normal da classe média americana.

Se a sexualidade se reprime, o assassinato se torna, nesses livros, absolutamente inevitável. O personagem principal não tem outra saída senão matar quem o persegue. As circunstâncias dos livros são muitas vezes implausíveis, mas o crime é cometido com fatalidade de relojoaria.

Highsmith não se preocupa com a resolução de enigmas, com a restauração da ordem, ou com a punição do criminoso; o problema, aqui, é de doença —talvez sem cura.


Texto de Marcelo Coelho, na Folha de São Paulo

segunda-feira, 3 de maio de 2021

Paixões que pervertem e convertem

 

Em 1957, Lúcio Cardoso (1913-68) pediu emprego numa agência de propaganda. Para ser contratado, teve de submeter-se a uma redação. Foi reprovado. O profissional que o avaliou não sabia quem ele era. Ou talvez soubesse muito bem, razão pela qual achou que ele não serviria —e teria razão. Não seria preciso ler “Crônica da Casa Assassinada”, o romance que Lúcio estava escrevendo naquele ano, para saber que ele não se daria bem entre anúncios de sabão de coco ou palha de aço.

Há anos, em meu livro “Ela é Carioca”, arrisquei que, se o Brasil um dia acordar para Lúcio Cardoso, haverá quem se pergunte sobre onde estávamos com a cabeça. Lúcio foi ignorado por não ser “realista”, nem de “esquerda”, nem de “vanguarda” ou qualquer exigência então em moda. Era um autor de livros com mais reflexão que ação, passados nos quartos escuros da alma, num ritmo que não se media por relógios.

E não poupava a si mesmo. Veja essa amostra de suas frases que recolhi em crônicas e entrevistas.
“Não sou um escritor, sou uma atmosfera”. “Escrevo porque não tenho olhos verdes”. “Todas as paixões me pervertem, todas as paixões me convertem”. “Sou da raça dos que se alimentam de venenos”. “A política é um modo de organizar e dirigir os homens. Mas, a mim, eles só interessam livres e desorganizados”. “Tenho o Rio nas minhas veias como uma doença”. “O que mais me agrada nas litografias é o silêncio. Silêncio do preto, silêncio do branco. Silêncio do preto e do branco unindo-se para compor essa pausa imensa —o cinza”. [Sobre o dinheiro]: “Vivo de ganhar aquilo de que eu morro”. “‘O Diário de Anne Frank’ é um modelo de como deve ser a existência de um escritor —como um prisioneiro”. “Escrever é um modo de agonizar de olhos abertos”.

“Crônica da Casa Assassinada” está de volta às livrarias depois de longa ausência. A literatura brasileira, subitamente mais adulta, agradece.


Texto de Ruy Castro, na Folha de São Paulo

sábado, 24 de abril de 2021

Viet Thanh Nguyen, vencedor do Pulitzer, desmistificou lugar de fala

 

Viet Thanh Nguyen nasceu no Vietnã. Tinha quatro anos quando, na véspera das tropas comunistas tomarem Saigon, em 1975, sua família fugiu para os Estados Unidos. Formou-se em Berkeley, casou com uma artista vietnamita, tem dois filhos e ganha a vida como professor universitário.

Estreou tarde na arte, aos 44 anos, ao publicar “O Simpatizante”, em 2015. Deu-se o inesperado: o romance vendeu 1 milhão de exemplares; levou o Pulitzer e uma penca de prêmios; ganhou elogios extáticos; abiscoitou bolsas, cátedras, colunas —lançado no Brasil pela Alfaguara, deu-se o esperado: ninguém o leu.

“O Simpatizante” é pertinente, inventivo e, o mais surpreendente, de rolar de rir. Começa com a queda de Saigon, onde o narrador tenta sobreviver ao barata-voa. Homem da CIA, ele é ajudante de ordens de um figurão do regime, um generaleco ensebado que lembra Augusto Heleno.

Só que não. Na real, é um espião infiltrado nas fileiras pró-ianques, um vermelho disfarçado de colabô que, na hora do bem-bom apoteótico, recebe a ordem de ir com os podrões para os Estados Unidos. Ali, vigiará Augusto Heleno, que treina uma milícia de palermas para retomar o Vietnã.

O enredo rocambolesco faz com que os personagens virem o contrário do que eram no início. Mas a constelação de temas se mantém: o refugiado como estrela-guia da sociedade atual; o racismo que o torna invisível; a humilhação perpétua como signo do novo tempo —como a do narrador, um vitorioso clandestino que se enterra na vala dos vencidos.

Com tudo isso, “O Simpatizante” esmerilha o “lugar de fala”, satirizando-o e o desmistificando. Seu narrador, por ser vietnamita e americano, estar lá e cá, separa a realidade da representação e finca a faca ali onde a ideologia pulsa —na má consciência da arte para massas.

Na cena mais bufa do romance, ele dá consultoria a uma superprodução americana sobre a guerra no Vietnã. Constata que os vietnamitas não têm direito a lugar nenhum, a uma reles fala. Amarelos em andrajos, suados e imundos, eles são estripados por americanos trágicos.

Fica claro que “O Simpatizante” não se refere a um hiperblockbuster do tipo “Rambo” —e sim a uma obra-prima do naipe de “Apocalypse Now”, com seus ecos de Conrad e Eliot.

O Vietnã de Nguyen não foi uma tragédia americana que enlouqueceu o coronel Kurtz de Marlon Brando. Foi uma épica nacional comandada e vencida por Ho Chi Minh —que, como repete o narrador, ensinou que nada é mais precioso que a liberdade e a independência.

Saiu há pouco nos Estados Unidos o esperado segundo romance de Nguyen, “The Committed”. Surpresa das surpresas, o protagonista comprometido de seu título é o mesmo de “O Simpatizante”, que agora quer ser burguês. Para fazer a acumulação primitiva de capital, trafica drogas.

Ele passou por um campo de reeducação no Vietnã, onde torturadores arrebentaram-lhe a alma, e está em, ulalá, Paris. Fala a língua por ser o filho bastardo de um padre católico com uma camponesa de 13 anos —seu apelido na bandidagem é Crazy Bastard.

Em busca de um nicho no mercado de haxixe e coca, ceva beletristas como o Maoísta PhD (inspirado em Alain Badiou) e BFD (um misto de BHL, o picareta Bernard-Henri Lévy, e DSK, o estuprador Dominique Strauss-Kahn). O escárnio é rombudo.

Rombudo em excesso, se bem que sempre hilário. A guerra entre os rufiões do norte da África e os do sul da Ásia, por exemplo, é uma pândega de porres e bordoadas. Como no romance anterior, contudo, “The Committed” não perde a perspectiva pós-colonial.

Ou seja, para franceses de bom berço, argelinos e líbios formam um bafafá indistinto, árabe e pardo. E a gangue multiasiática de Crazy Bastard não passa de sete anões de olho puxado, vendendo miojo por lámen no Delícias da Ásia, o pior restaurante oriental de Paris.

À medida que a violência incrementa a trama, crescem também as elucubrações filosóficas e políticas —o leão de chácara de um bordel lê Voltaire enquanto entretém a freguesia.

Doutas, as citações grifam a condição colonial: Fanon, Aimé Césaire, o Sartre de “o europeu só se tornou homem quando criou escravos e monstros”. O colonizado, pois, pode ser tanto Ho Chi Minh como Crazy Bastard.

A violência que impera não visa a libertação dos oprimidos, ao contrário: eles guerreiam entre si. Os tiroteios do capitalismo gangsterizado se sobrepõem à crítica, e “The Committed” se torna então um novo “Apocalypse Now” —com Bruce Lee de astro e Tarantino na direção.


Texto de Mario Sergio Conti, na Folha de São Paulo

quinta-feira, 22 de abril de 2021

Livro, um passaporte para além

 

Trancados em casa, e já estafados de tantas telas, temos nos livros uma válvula de escape ainda maior que de costume para vislumbrar paisagens e mundos além das paredes que nos cercam.

Imagino o quanto já se escreveu, nesta interminável pandemia, sobre viajar com livros. Estou pensando não em relatos de viajantes, mas em livros que, sem falar propriamente de viagens, aguçaram-me na vida a vontade de conhecer lugares.

Também são muitos. Recorro à memória para, embaralhando a cabeça como um globo de loteria, deixar que escoem as bolinhas sorteadas ao acaso.

A primeira tarefa é eliminar os mais óbvios, os livros de viagem. Há para todos os gostos, dos introspectivos aos aventureiros —e inclusive aos que são ambos, como “Cem Dias entre Céu e Mar”, do navegador solitário Amyr Klink.

Nesta categoria —da qual prometi não falar, mas já falando— entrariam também a tresloucada perambulação beatnik de Jack Kerouak, “Pé na Estrada”; ou a romântica aventura juvenil de Che Guevara, “De Moto pela América do Sul”, que muito depois inspiraria o filme “Diários de Motocicleta”, de Walter Salles. Não confundir com os “Diários de Bicicleta”, relatando viagens sobre duas rodas por cidades tão díspares como San Francisco, Buenos Aires e Manila, nas Filipinas, realizadas pelo músico David Byrne (da banda Talking Heads).

Não, não é deles que queria falar. Estava pensando mais em livros como “Paris é uma Festa”, com relatos escritos por Ernest Hemingway no período em que não era turista, mas um morador da cidade, em cujos cafés, munido de lápis (literalmente) e papel, inventava livros. Me deu vontade de conhecer Paris, bem antes de ter pisado lá.

Da mesma forma que “Shogun”, de James Clavell, acendeu minha curiosidade pelo Japão: embora a história se passe no século 17, ela é vista pelos olhos de um ocidental (um marinheiro inglês) impactado pelas diferenças culturais que presencia —eu intuía que o moderno Japão, no fundo, tivesse muito daquelas idiossincrasias seculares, o que se confirmaria quando finalmente conheci o país.

“Sob o Sol da Toscana”, de Francis Mayes, é de dar água na boca por essa região da Itália cuja extrema beleza, no entender de Stendhal, poderia literalmente enlouquecer de enlevo uma pessoa. Mas não tem a mesma dose fantástica de humor que o inglês Peter Mayle imprimiu ao relato de quando se mudou de Londres para o sul da França (“Um Ano da Provence”), um projeto que parecia ter-se tornado inescapável para mim quando o li.

E Nova York? Parece materializar-se em concreto, parques e pessoas quando lemos romances de Truman Capote (como “Bonequinha de Luxo”), ou de Tom Wolfe: deste, “Fogueira das Vaidades” nos faz sentir na cidade, seja em festas nas coberturas dos yuppies, na periferia liderada por pastores charlatães, ou nos bares dos jornalistas ébrios.

Pouco importa que alguns deles se passem em outras épocas —as cidades e países viram personagens involuntários, e em mim acenderam o desejo de conhecer ou revisitar. Vale para a Praga de Milan Kundera (“A Insustentável Leveza do Ser”); a Istambul de “A Ponte das Turquesas”, uma história da cidade escrita pela brasileira Fernanda de Camargo-Moro; a Índia de Herman Hesse (“Sidarta”); ou —repetindo uma cidade— as memórias do jornalista americano A. J. Liebling em “Fome de Paris - Memórias de um Gourmet Apaixonado”.

A lista seria imensa. Mas interrompo para adicionar uma outra categoria: a loucura da pandemia é tamanha que não surpreende que muita gente use o escapismo dos livros para sonhar não somente com outros lugares existentes, mas também para destinos mágicos, janelas para delírios infinitos.

Aí me lembro dos mundos fantásticos descritos em livros lidos na adolescência, como “As Brumas de Avalon”, de Marion Zimmer Bradley, ou “O Senhor dos Anéis”, de J.R.R. Tolkien. E—lido agora na quarentena com meu filho— o mundo fantástico de “Harry Potter”, de J.K. Rowling. Ou finalmente (e mais adequado à idade), “As Cidades Invisíveis”, inventadas por Italo Calvino: este atualmente frequentando minha mesa de cabeceira.


Texto de Josimar Melo, na Folha de São Paulo