domingo, 25 de agosto de 2013

Uma riqueza a ser protegida

Uma riqueza a ser protegida
A tecnologia para exploração do gás de xisto é invasiva. Os impactos ambientais, embora ainda sejam desconhecidos, podem ser irreversíveis
Em meio à escassez de água em quase todo o planeta, o Brasil tem o privilégio de contar com uma das maiores reservas de água doce do mundo, o aquífero Guarani. Em vez de tratar esse recurso como riqueza a ser protegida, o governo pretende começar uma empreitada que pode, ao contrário, comprometê-lo.
A exploração do gás de xisto atingirá profundamente o aquífero Guarani, sob o qual jaz, a centenas de metros, a rocha a ser fraturada --o folhelho Irati.
Localizado sob o solo do Brasil, da Argentina, do Uruguai e do Paraguai, o aquífero tem 1,1 milhão de quilômetros quadrados e profundidade de 1.500 metros. Tem a capacidade de abastecer milhões de habitantes anualmente com trilhões de metros cúbicos de água doce.
Como observa o geólogo Luiz Fernando Scheibe, há grande pressão para que o Brasil, assim como os Estados Unidos, explore o gás de xisto. Existem companhias interessadas na extração e outras, na despoluição da água e das áreas afetadas.
O governo brasileiro manifestou intenção de incluir o gás de xisto na matriz energética do país e agendou o primeiro leilão de áreas a serem exploradas para o final de 2013.
Pesquisadores propuseram uma moratória de cinco anos, tempo para realizarem estudos sobre a viabilidade, a sustentabilidade e as consequências ambientais dessa forma de extrair combustíveis fósseis.
Mas, afinal, por que a ameaça do gás de xisto é tão assustadora?
Sua exploração contamina a água. O xisto se encontra aprisionado em pequenas bolhas de formações rochosas altamente impermeáveis. Diferentemente do gás natural já utilizado e do petróleo, que ocorrem em nichos próprios, o xisto está impregnado na formação geológica.
Sua extração tornou-se eficiente devido a avanços tecnológicos. Um deles é conhecido como "fracking". Consiste na fratura da rocha e injeção sob alta pressão de grande quantidade de água, explosivos e substâncias químicas, que podem causar vazamentos.
Essa tecnologia baseia-se em processos invasivos da camada geológica, causando impactos ambientais que, embora ainda sejam desconhecidos, podem ser irreversíveis.
A exploração do xisto vem sendo apontada como sucesso tecnológico e econômico nos Estados Unidos. Bilhões de dólares devem ser movimentados, o que pode soar bom para a economia, mas insano para a sustentabilidade ambiental.
A atividade, porém, não é unânime. França, Bulgária e alguns Estados norte-americanos proibiram a extração. O Canadá passa por avaliação criteriosa de sua viabilidade.
Existem pactos de cooperação entre os países que compartilham o aquífero Guarani, mas o Brasil não parece se lembrar dos compromissos assumidos. Pretende abrir concessões para a extração do gás de xisto sem nem mesmo consultar a comunidade científica de forma adequada. Prudente seria aprofundar a discussão com os estudiosos do tema para embasar futuras decisões.

Texto de Suzana Pádua, publicado na Folha de São Paulo.

O anarquista inofensivo

Aqui e ali, a propósito das manifestações nas ruas e do vandalismo de alguns grupos em diversas cidades brasileiras, volta e meia há referências explícitas ao anarquismo, que muitos, da esquerda ou da direita, acham completamente fora de moda, como a virgindade, o samba-canção e o Hydrolitol.
Com a chegada dos anos, comecei a fazer coisas que detestava, culminando com um discurso quando tomei posse na Academia Brasileira de Letras. Amigos pediram que eu me definisse ideologicamente, e fui buscar em Eça de Queiroz, nas suas "Notas Contemporâneas", um trecho que sempre usei como meu:
"A presença angustiosa das misérias humanas, tanto velho sem lar, tanta criança sem pão, a incapacidade da Monarquia e da República, da Ditadura e da Democracia para realizar a única obra urgente do mundo, a casa para todos, o pão para todos, lentamente me tem tornado um vago anarquista, um anarquista entristecido, humilde e inofensivo".
Quando alguém se refere ao anarquista, pensa-se na anedota do espanhol ("?Hay gobierno acá? Entonces soy contra"). Bombas jogadas em creches, descarrilamento de trens, profanações de cemitérios e igrejas, empastelamento de jornais --a imagem do anarquista é, acima de tudo, a de um ofensivo, em defesa ou em ataque a determinado sistema ou credo.
O que seria então um anarquista inofensivo, como se intitulou o autor de "A Ilustre Casa de Ramires", seu livro que mais aprecio, do qual roubei impunemente a expressão?
Para falar a verdade, não sei. É como me sinto desde que tomei conhecimento da sociedade, nobreza, clero e povo.
Não fui consultado quando fizeram a bandeira nacional. Mudaria o dístico: não aprecio a ordem e sempre desconfiei do progresso. Mas sou preguiçoso e, por isso, inofensivo.


Texto de Carlos Heitor Cony, na Folha de São Paulo

sábado, 24 de agosto de 2013

Domando o poder americano

Caía sobre Washington uma chuvinha melancólica no dia em que Nixon renunciou. Confesso que me emocionei com o adeus daquele homem que tinha sido o mais poderoso do mundo e perdia tudo por haver abusado do poder na Guerra do Vietnã e no escândalo de Watergate.
A reação do país aos abusos foi indignada e vigorosa. O Congresso impôs limites estritos às operações clandestinas no exterior --contra Angola, por exemplo. No Senado, uma comissão presidida pelo senador Frank Church, que morreria prematuramente, investigou as sistemáticas violações de direitos pelas agências de inteligência.
Praticamente tudo o que agora causou espanto nas revelações de Edward Snowden já tinha vindo à luz nos depoimentos à comissão. Soube-se que a quase desconhecida National Security Agency (NSA) possuía de longe o maior orçamento das 16 agências americanas de inteligência. Sua missão era, já então, monitorar todas as comunicações telegráficas e telefônicas, decifrando os códigos das embaixadas estrangeiras, cujas sedes eram violadas por agentes disfarçados de funcionários das empresas de telecomunicação ou de operários incumbidos de reformas.
Eu era conselheiro de nossa missão nos EUA e lembro que mandamos todas as informações ao Itamaraty. Quando voltei como embaixador, em 1991, assumi como hipótese que tudo o que eu dizia ao telefone ou transmitia ao Brasil, cifrado ou não, poderia ser facilmente interceptado, dada a superioridade dos meios tecnológicos americanos.
Aproveitei a situação para criticar em linguagem não diplomática o que me parecia absurdo na política exterior de Washington (em particular, a campanha de subversão contra o governo legal e eleito de Angola e o apoio à guerrilha da Unita, de Jonas Savimbi). Nunca acreditei que a lei aprovada pela comissão do Senado proibindo as escutas e violações tivesse sido obedecida.
De qualquer modo, a questão se tornou acadêmica ao se adotar o Patriot Act, legislação antiterrorista de 2001, após os atentados às Torres Gêmeas. De novo o pêndulo se moveu em favor de privilegiar a segurança em detrimento da privacidade e dos direitos individuais.
Desta vez foi pior do que 40 anos atrás. O desastroso epílogo da Guerra do Vietnã e o choque com os métodos criminosos de Watergate haviam desmoralizado a justificativa das agências de espionagem. A sociedade americana, quase de forma unânime, condenou o recurso abusivo a operações clandestinas.
Hoje duvido que a maioria americana, traumatizada duravelmente pela ameaça do terrorismo islâmico, opte por abrir mão da espionagem cibernética devido às revelações de Snowden. Assim como não vai querer renunciar aos "drones" para matar à distância, de modo seguro, terroristas reais ou supostos.
A tendência inelutável do poder, ensinavam os teóricos do realismo, é jamais ficar ocioso. Domar o poder por meio de estritos freios legais é a essência do processo civilizatório. Contudo, como voltamos a ver, inclusive em prejuízo do Brasil, convém não se fiar nas promessas e lutar para que a lei internacional possa um dia submeter efetivamente o arbítrio dos poderosos.


Texto de Rubens Ricupero, para a Folha de São Paulo.

Médicos cubanos: pode criticar, mas não é trabalho escravo


Se considerarmos que a condição dos médicos cubanos que estão sendo trazidos ao Brasil é de trabalho escravo contemporâneo, como querem fazer crer alguns contrários ao programa Mais Médicos, também teremos que incluir nessa conta milhões de trabalhadores do agronegócio, da construção civil, dos serviços que recebem salários abaixo do piso ou do mercado. O governo cubano deve receber os recursos das bolsas de R$ 10 mil e repassar parte delas aos seus médicos no Brasil.
Renato Bignami, responsável pela fiscalização de casos de escravidão em São Paulo, analisa que, a princípio, os elementos do novo programa do governo federal não caracterizam trabalho análogo ao de escravo. Se considerarmos que configuram a priori, parte do trabalho no Brasil seria escravo. Ou seja, um desconhecimento do artigo 149 do Código Penal, que trata do tema, e da jurisprudência em torno dele.
E os fiscais do trabalho já viram muita gente, inclusive escravos envolvidos em processos do próprio governo federal, como na produção de coletes para recenseadores do IBGE, em obras do Minha Casa, Minha Vida, do Programa de Aceleração do Crescimento, do Luz para Todos…
Ganhar pouco ou mesmo estar em condições precárias de trabalho são coisas diferentes de trabalho escravo. Estampar algo como “trabalho escravo” pode ser útil para dar notoriedade a um argumento, uma vez que é um tema grave e que gera repulsa por parte da sociedade. Mas, por isso mesmo, deve-se tomar muito cuidado ao divulgá-lo, que é o que os jornalistas que cobrem o tema tentam fazer o tempo todo. Saibam que muita coisa fica de fora porque não se sustenta.
De acordo com o artigo 149, são elementos que determinam trabalho análogo ao de escravo: condições degradantes de trabalho (aquelas que excluem o trabalhador de sua dignidade), jornada exaustiva (que impede o trabalhador de se recuperar fisicamente e ter uma vida social), trabalho forçado (manter a pessoa no serviço através de fraudes, isolamento geográfico, ameaças e violências físicas e psicológicas) e servidão por dívida (fazer o trabalhador contrair ilegalmente um débito e prendê-lo a ele).
Não espero que o corporativismo tacanho de alguns representantes de associações médicas entendam isso. Mas o cidadão comum, sim, precisa compreender a diferença.
Uma coisa é a política pública em si, de levar médicos estrangeiros ao interior do Brasil em áreas carentes, que – a meu ver – está correta. Outra é deixar de garantir direitos a grupos de trabalhadores, nacionais ou estrangeiros, o que não pode ser aceito.
Se a lei que sair do Congresso Nacional sobre essa política pública, oriunda da análise da medida provisória encaminhada pelo governo, retirar direitos, ela será inconstitucional. Pois mesmo se o regime de trabalho proposto pela MP for excepcional, ele precisa obedecer à Constituição. Caso contrário, vai naufragar. Simples assim.
Essa adaptação vai acabar ocorrendo via controle de constitucionalidade abstrata, pela Procuradoria Geral da República ou pela Procuradoria Geral do Trabalho, ou via milhares de ações individuais por parte dos próprios médicos envolvidos.
Ao mesmo tempo, é fundamental o Ministério Público do Trabalho monitore qualquer irregularidade que prejudique o trabalhador, fazendo com que o governo respeite a Constituição Federal (principalmente o artigo 7o, que versa sobre os direitos dos trabalhadores), as convenções da Organização Internacional do Trabalho e os tratados de direitos humanos dos quais o país é signatário. Prevenir é melhor que remediar.
“Acho difícil acreditar que a Organização Pan-Americana de Saúde validaria uma experiência com mão de obra escrava”, pondera José Guerra, secretário-executivo da Comissão Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo, vinculado à Secretaria dos Direitos Humanos da Presidência da República, lembrando que a vinda de médicos tem a parceira da Opas.
Marcus Barberino, juiz do trabalho da 15a Região e um dos maiores especialistas jurídicos em trabalho escravo contemporâneo, concorda que não é possível afirmar que o programa incorre em escravidão contemporânea. E que é preciso ter muito cuidado com o conceito. ”A proteção contra tratamentos discriminatórios ao trabalho é de âmbito constitucional e não permite tratamento distinto quanto aos direitos fundamentais. Fora da moldura constitucional, todo programa público será revisto pelo Judiciário naquilo que confrontar com a Constituição, que corresponde ao piso civilizatório universal”, afirma.
Como já disse aqui, a gente perde os cabelos, há anos, tentando fazer a bancada ruralista no Congresso Nacional entender que trabalho escravo contemporâneo não é qualquer coisa, como falta de azulejo no banheiro ou salário baixo, mas um pacote de condições que configura uma gravíssima violação aos direitos humanos. E, de repente, pessoas que desconhecem o tema usam-no em proveito próprio.
Como disse um médico amigo meu que conhece bem a fronteira agrícola amazônica e lá trabalhou: se esse povo todo que fala essas groselhas conhecesse o que é trabalho escravo de verdade ou, pelo menos, a realidade dos trabalhadores rurais do interior do país, não teria coragem de fazer esse paralelo absurdo.
Acima de tudo, isso é falta de contato com a realidade e de respeito com quem realmente está nessas condições e precisa ser resgatado para ter sua liberdade ou dignidade de volta.

Contrários à pena de morte, fabricantes de medicamentos fazem 'greve' e adiam execuções

Diversos Estados americanos que adotam a pena de morte estão enfrentando dificuldades para levar adiante as execuções devido à falta das drogas usadas nas injeções letais.
No Arkansas, o governador Mike Beebe anunciou em junho que iria suspender o agendamento de novas execuções.
Alvo de uma disputa legal sobre sua nova lei de execuções, o Estado está com o estoque das drogas no fim e enfrenta a oposição do fabricante, que cancelou o contrato com o governo após descobrir que seus medicamentos - Lorazepam e Fenobarbital - seriam usados em injeções letais.
Problemas semelhantes atingem Estados como Ohio, Missouri, Geórgia, Califórnia e Texas - o campeão em execuções nos EUA.
A injeção letal é o método usado pelos 32 Estados americanos onde há pena de morte.
A maioria recorre a um coquetel composto por um anestésico (Pentobarbital ou Tiopental), um agente bloqueador muscular (Brometo de Pancurônio) e Cloreto de Potássio, que provoca parada cardíaca. Onze Estados utilizam apenas uma droga, em doses letais.
No entanto, a pressão de laboratórios e de grupos europeus contra o uso das drogas em execuções tem tornado cada vez mais difícil sua obtenção.
O fabricante do Tiopental suspendeu o fornecimento depois de pressões por parte de funcionários e autoridades na Itália, onde fica uma das fábricas. O mesmo ocorreu com o fabricante do Pentobarbital, na Dinamarca.

Alternativas

Com seus estoques chegando ao fim e sem a possibilidade de fornecimento, os Estados estão tendo de recorrer a alternativas.
Na semana passada, a Suprema Corte do Missouri anunciou que o Estado será o primeiro a usar o Propofol - anestésico que causou a morte do cantor Michael Jackson.
Ohio e Texas anunciaram que seus estoques de Pentobarbital expiram setembro e que estão em busca de soluções. Outros Estados, como a Geórgia, decidiram recorrer a farmácias de manipulação.
Essas alternativas, porém, são alvo de críticas, especialmente por nunca terem sido testadas em execuções.
"Não sabemos se vão funcionar, se vão causar efeitos colaterais, como convulsões", disse à BBC Brasil o diretor-executivo do Death Penalty Information Center (Centro de Informações sobre a Pena de Morte), Richard Dieter.
"É um experimento com humanos", afirma.
O diretor jurídico da organização pró-pena de morte Criminal Justice Legal Foundation, Kent Scheidegger, diz que há outras alternativas, como a importação de países asiáticos que adotam a pena de morte.
"Não há falta de drogas. O que há é uma conspiração por parte de empresas europeias", disse Scheidegger à BBC Brasil.
"A pena de morte é uma opção dos EUA. Não é da conta dos europeus", afirma.

Execuções

Pesquisas revelam que 63% dos americanos são favoráveis à pena de morte. Há 20 anos, esse percentual era de cerca de 80%, segundo o instituto Gallup.
Desde 1976, quando a pena de morte voltou a ser adotada, após um intervalo de quatro anos em que esteve suspensa pela Suprema Corte, 1.343 pessoas foram executadas nos EUA.
O número atingiu seu ápice em 1999, quando 98 pessoas foram executadas. Desde então, a tendência tem sido de queda. No ano passado foram 43 execuções, mesmo número de 2011. Neste ano, já foram 23, e a expectativa é de que o total fique em torno de 30.
O número de condenações à morte também vem caindo. Nos anos 1990, a média era de 300 sentenças por ano. Hoje, é de 75.
Mesmo assim, ainda há 3.125 pessoas no corredor da morte nos EUA, no qual o tempo médio de permanência é de 15 anos até a execução.
Segundo a Anistia Internacional, os EUA estão entre os cinco países que mais executam prisioneiros, atrás de China, Irã, Iraque e Arábia Saudita.

Problemas

Para Dieter, a falta de drogas pode ser mais um fator a contribuir para a redução nos números, em um momento em que o método de injeção letal apresenta diversos problemas que acabam impedindo que os Estados levem adiante as execuções.
"Cada vez que um Estado faz uma mudança no processo, precisa de aprovação na Justiça, justificar o motivo de trocar de droga, qual a dosagem apropriada, como a pessoa que administra será treinada, etc. Isso causa muita lentidão", afirma.
Dieter cita exemplos como o da Califórnia, que não tem execuções há sete anos, apesar de adotar a pena de morte, e de Maryland, que após seis anos sem execuções acabou tornando-se o 18º Estado americano a abolir a pena capital, em maio.
Nos últimos seis anos, também aboliram a pena Connecticut, Illinois, Nova Jersey, Nova York e Novo México.
"Tomaram essa decisão porque a pena de morte não estava funcionando. É um processo caro e ineficaz", afirma Dieter.
Ele também acha pouco provável que algum Estado retorne aos métodos anteriores, como a cadeira elétrica ou câmaras de gás, abolidos exatamente por serem considerados mais brutais e, portanto, mais sujeitos a protestos.
Para Scheidegger, a falta de drogas não deve ter impacto sobre a pena de morte nos EUA.
"Essa questão será solucionada nos próximos anos", aposta. "A pena de morte ainda é apoiada por uma sólida maioria neste país."

Reportagem de Alessandra Correa, para a BBC Brasil, reproduzida no UOL

Filme registra fotógrafos das ruas de NY

Filme registra fotógrafos das ruas de NY
'Everybody Street' revê trajetória de artistas que documentaram transformação da cidade nos anos 1960 e 1970
Garry Winogrand, um dos maiores nomes do movimento, é tema de palestra amanhã durante a SP-Arte/Foto
SILAS MARTÍDE SÃO PAULO

Quando Nova York desbancou a Europa arrasada pela guerra para virar o novo centro do mundo nos anos 1960, fotógrafos estavam nas ruas para registrar toda a exuberância, os excessos e a violência dessa transformação.
"Everybody Street", documentário que estreia em outubro nos Estados Unidos e que já passou pelos maiores festivais do gênero, narra a história das objetivas que varreram Manhattan e os fotógrafos por trás delas, gente que encontrou grandes dramas no metrô, retratou a rotina de policiais e bombeiros e escancarou os vícios e a truculência das gangues.
"Era a Nova York dos blecautes, dos trens pichados, uma cidade ainda falida", lembra Cheryl Dunn, diretora do filme. "Tinha uma energia assustadora. Essas séries fotográficas foram todas construídas nas ruas mesmo, porque toda a intimidade dessa época passava por elas."
Garry Winogrand, fotógrafo morto em 1984 que se consagrou com flagras bizarros da cidade, como um casal andando com chimpanzés no colo ou uma mulher intrigada com rinocerontes no zoológico, foi um dos maiores nomes dessa trama de obsessão fotográfica pelas ruas.
Embora apareça pouco no documentário, Winogrand é tema de uma conversa amanhã na SP-Arte/Foto e teve imagens publicadas no último número da revista "Zum".
"Ele foi um trabalhador voraz, talvez a voz mais potente dessa época de ansiedade e promessas", diz Leo Rubinfien, fotógrafo que fala sobre Winogrand na feira de arte e organizou a maior mostra do artista, aberta no começo do ano em San Francisco e que vai circular por cidades dos Estados Unidos e da Europa.
Na opinião de Rubinfien, Winogrand é o "fotógrafo essencial dos Estados Unidos", em especial de Nova York, a arena esquadrinhada por Dunn em seu documentário.
Enquanto ele focou a bonança --sorvetes, vitrines e vedetes--, outros fizeram um retrato mais cru da cidade.
Boogie, fotógrafo sérvio que se radicou em Nova York, fez talvez as imagens mais contundentes de "Everybody Street", retratando gangues e seus arsenais de pistolas e fuzis em momentos descontraídos, uma raiz longínqua do que seriam hoje os clipes de rap ou de funk ostentação.
"Essas imagens falam muito daquele momento", diz Dunn. "Construir uma série dessas é fruto de devoção. Ele passou anos fazendo isso."

VIDAS EM ERUPÇÃO

Jill Freedman também ficou anos no encalço de policiais e bombeiros na tentativa de expor o mundo do crime numa cidade que então brigava para erradicar a violência. Seus retratos mostram ocorrências sangrentas e crianças brincando em bairros destruídos e refeitos pela especulação imobiliária.
Na mesma pegada, Clayton Patterson, um barbudo do Lower East Side, retratou os personagens do bairro, tão hippies quanto ele, sempre diante da porta de seu prédio. entre eles o --também barbudo-- poeta Allen Ginsberg.
"Sem dúvida, havia a sensação de que tudo que era importante naquela época estava acontecendo nas ruas", diz Rubinfien. "Foi um momento em que a vida estava em erupção. As pessoas queriam mostrar o que sentiam nas ruas, como se todos fizessem uma grande performance."
Ou talvez só parecesse performance. "Alguns fotógrafos fingem que estão dirigindo um filme quando saem na rua examinando as pessoas", conta Joel Meyerowitz, fotógrafo que está no documentário. "Mas tudo é um caos."
E nesse caos, ele diz que tenta o tempo todo registrar "um instante de clareza". "É aquele gesto espontâneo que faz a gente pensar que entende uma pessoa ou que somos capazes de ler aquela cultura e o papel daquele personagem dentro desse mundo."

Militares e islamitas estão levando o Egito 60 anos para trás

O mais avassalador na tragédia em que o Egito está se afundando não são as mesquitas transformadas em necrotérios, as mulheres e as crianças metralhadas, os feridos morrendo em leitos de hospital. O mais assustador não são as ruas devastadas, as igrejas incendiadas e a propaganda de ódio despejada pela mídia. Não, o mais terrível é o fato de que militares e islamitas estão levando o Egito 60 anos para trás. Assim como em seu implacável confronto de 1952-1954, eles estão se preparando para arruinar as aspirações populares ao progresso e à emancipação.
Em 1952, a revolução dos oficiais livres, apoiada pela Irmandade Muçulmana, derrubou uma monarquia desacreditada. Esse golpe de Estado colocou um fim a 30 anos de um parlamentarismo imperfeito, mas pluralista. Em 1954, Gamal Abdel Nasser (1918-1970), ex-membro da Irmandade Muçulmana, se voltou contra seus aliados e os reprimiu. O complô totalmente inventado na época em Alexandria não resistiu, assim como as acusações de conspiração com o Hamas fabricadas hoje para manter o presidente Mursi detido.
O exército perdeu todas as guerras que ele conduziu ou que lhe foram impostas. Ele afundou até um terço de suas forças ao lado dos republicanos do Iêmen, antes de se retirar ingloriamente em 1970. E mesmo a incrível travessia do canal de Suez em 1973 terminou com o cerco de parte do corpo expedicionário no Sinai, obrigado a fazer um cessar-fogo para não morrer de sede. Em compensação, assim como tantos outros exércitos árabes, as forças egípcias foram impiedosas contra sua população, em nome de um "estado de emergência" continuamente renovado.
A paz acordada com Israel em 1979 permitiu que o exército egípcio reunisse uma colossal ajuda americana, da ordem de mais de US$ 1 bilhão por ano. Os militares egípcios, protegidos de qualquer conflito exterior, puderam assim se dedicar a lucrativos negócios no comércio, na indústria e no mercado imobiliário. As fontes que lhes atribuem o controle direto ou indireto de um terço da economia egípcia são inverificáveis, em um domínio em que prevalecem a opacidade e o nepotismo. As veleidades de Hosni Mubarak de confiar sua sucessão a seu filho Gamal, ponta de lança de uma geração de empresários "liberais", suscitaram discórdia na cúpula das forças armadas.
Houve dois golpes de Estado militares no Egito. O primeiro, no dia 11 de fevereiro de 2011, resultou na deposição do presidente Mubarak; o segundo, em 3 de julho de 2013, na de Mohammed Mursi. Mubarak reinava sozinho havia 30 anos, reconduzido ao comando do Estado por plebiscitos acertados previamente. Mursi foi o primeiro chefe de Estado democraticamente eleito do Egito, após uma disputada votação em 2012. Esses golpes foram precedidos da mobilização de multidões imensas. Nos dois casos, os militares deturparam, a seu favor, esses protestos populares e pacíficos.
Na verdade, foi o marechal Hussein Tantawi que assumiu o poder executivo à frente do Conselho Superior das Forças Armadas (CSFA), com a queda de Mubarak. O general Abdel Fattah al-Sissi era o mais jovem membro dessa junta. O temor dos revolucionários egípcios era ver o CSFA e a Irmandade Muçulmana entrando em um acordo às custas deles. De fato, os apelos por uma "segunda revolução" foram se amplificando a partir do outono de 2011, apesar da sangrenta repressão desses movimentos de protestos. E o CSFA sabotou a transição para continuar controlando a maior parte do governo.
Foi assim que as legislativas de dezembro de 2011-janeiro de 2012, vencidas pela Irmandade Muçulmana, se esvaziaram de sua substância: o governo continuava sendo somente uma emanação do CSFA, o que tornou mais dramático o resultado das presidenciais de 2012. Os militares no fundo apostavam na polarização entre o candidato da Irmandade Muçulmana e o deles, o ex-general Chafik, último chefe do governo de Mubarak. Mas a política do CSFA se voltou contra ele e Mursi o venceu com 51,7% dos votos.
A cúpula militar, que por um momento ficou tentada a rejeitar o veredicto das urnas, teve de admitir a derrota. Tantawi se aposentou em contrapartida à nomeação de Al-Sissi como ministro da Defesa. O general que fingia ser lealista desde então não parou mais de conspirar contra a Irmandade Muçulmana, pela qual ele sente um ódio inextinguível. A Arábia Saudita, onde ele serviu como adido de Defesa, o encorajou nesse caminho. Riad e Abu Dhabi, já contra-mestres da revolução em Bahrein, em março de 2011, subsidiaram o trabalho de solapamento dos militares egípcios.
Quanto ao presidente Mursi, ele se revelou incapaz de se distanciar da influência da Irmandade Muçulmana, que, sob comando de Khairat al-Chater, o número dois do movimento, deu prioridade absoluta aos interesses da organização em detrimento dos da nação.
Uma abertura sincera às correntes liberais e nacionalistas se revelou impossível, enquanto os radicais islamitas iam multiplicando seus "feitos". A Constituição, imposta pela presidência em dezembro de 2012, obteve uma maioria por referendo, mas continuou sendo considerada ilegítima por muitos egípcios.
A Irmandade Muçulmana, em pânico por causa do precedente da repressão de 1954, acentuou seu sectarismo. O general Al-Sissi apostou na crescente impopularidade dela e a agravou através de falsas crises de escassez. Ele camuflou seu golpe instalando fantoches à frente do Estado. Durante o mês do ramadã, ele encenou a comédia das mediações internacionais antes de cantar vitória no dia 14 de agosto. A repressão às manifestações que pediam pela restauração do presidente eleito reavivou o mais virulento dos martirológios. Os islamitas preservaram assim sua herança doutrinal, não sem antes jogar a minoria copta na cova de seus partidários desorientados.
Os militares derrotaram através das armas a resistência desesperada da Irmandade Muçulmana. Mas esse sangrento triunfo seria a pior das derrotas porque a junta terá fechado assim as portas para a integração dos islamitas ao jogo institucional, relegando-os unicamente para a ação violenta. Esse desastre terá efeitos duradouros muito além das fronteiras do país, comprometendo em todo o mundo árabe as chances de uma transição democrática, baseada na harmonia entre as visões nacionalistas e islamitas do pacto coletivo.
O egípcio Ayman al-Zawahiri, sucessor de Bin Laden em 2011 no comando da Al Qaeda, poderá proclamar vitória a partir do santuário paquistanês onde está enfurnado. Preso e torturado pelos militares egípcios em 1981, solto e expulso três anos mais tarde, ele condenava continuamente a opção legalista da Irmandade Muçulmana.
A junta do Cairo está alimentando a propaganda jihadista. E ela provavelmente vai alimentar uma onda terrorista de escala regional. O exército está assumindo uma responsabilidade esmagadora nessa imensa bagunça. Mas nem de longe será o único a pagar o exorbitante preço dela.

Texto de Jean-Pierre Filiu, professor da Science Po de Paris, para o Le Monde, reproduzido no UOL

Guerra na Síria força mais um êxodo para o Iraque

"Fogem do sectarismo, das bombas e da fome." Yusef Mahmud, porta-voz do Alto Comissariado da ONU para os Refugiados (Acnur) no Iraque, resume as causas do êxodo que desde quinta-feira passada levou quase 40 mil sírios a fugirem para o Curdistão iraquiano. "Têm medo de tudo e pouca esperança", indica por telefone Mahmud, enquanto atende a questões urgentes: um problema de autorização para um caminhão que vem da Jordânia, a contratação de operários para montar as tendas para alojar os refugiados, como conseguir mais água para eles... Ele confessa que a situação "superou" a Acnur. "Os refugiados nos contam que a situação piorou rapidamente em poucas semanas e que era impossível continuar na Síria", explica.
Noventa e cinco por cento desses exilados são curdos. Ontem já eram 5.100, apesar do limite de 3.000 refugiados por dia imposto pelo governo regional do Curdistão iraquiano, presidido por Masud Barzani. A metade deles é menor de idade e há várias dezenas que chegam sem parentes. Ao todo, já beiram os 200 mil. Chegam esgotados pelas caminhadas e depois de longos dias de espera do outro lado da fronteira, no deserto, onde ainda permanecem cerca de 4.000 pessoas. Chegam sem nada. Precisam de tudo. Para eles era mais urgente conservar a vida do que parar para recolher víveres. Procedem sobretudo de Nasakeh e Qamishli, um território do nordeste sírio que as tropas de Bashar al-Assad abandonaram no verão passado para se concentrar em zonas onde os rebeldes estavam avançando. Os curdos sírios do Partido União e Democracia começaram então a controlar a região, apoiados nos 30 mil membros da milícia Comitês de Proteção Popular.
Não houve grandes incidentes nesta zona nos dois primeiros anos do conflito sírio, mas no início de 2013 os guerrilheiros curdos começaram a enfrentar o rebelde Exército Livre da Síria (ELS). "No início havia medo devido à presença de tropas do regime. Depois que elas partiram, os rebeldes avançaram. Há facções que não respeitam a minoria curda e não admitem que eles governem sua área e controlem parcialmente as reservas de petróleo e as refinarias. Por isso começaram os confrontos", explica Iman Maluf, membro do Observatório Sírio pelos Direitos Humanos em Londres.
 Em março se conseguiu uma trégua e os rebeldes retrocederam para o oeste. Mas logo começou outra batalha. Apareceram os jihadistas. A Frente Al Nusra e o Estado Islâmico no Iraque e no Levante --vinculados à Al Qaeda e que, segundo a inteligência americana, contam com efetivos cada vez mais numerosos e estão melhor armados-- reforçaram sua presença nas províncias curdas, na tentativa de se apoderar de seus recursos. Além disso, a região serve de passagem chave para o Iraque, onde contam com o apoio de grupos afins e inclusive suas próprias bases.
Maluf confirma que ontem três aldeias de Hassakeh foram arrasadas nos confrontos armados entre curdos e jihadistas. Ainda se desconhece o número de vítimas. Hassiba Hadj Sahraui, diretora-adjunta do programa da Anistia Internacional para o Oriente Médio e Norte da África, explica que essa guerra contra curdos da Síria se desenvolve através de prisões, fuzilamentos e queima de bens.
O suficiente para sair correndo. No entanto, ainda há mais. Os bombardeios do governo um pouco mais a oeste, em Efrin ou Aleppo, também estão provocando a fuga de sírios sunitas e curdos que quase não têm o que comer.
Os campos estão muito danificados pelos combates diretos, e as estradas, pela aviação. A abertura, há uma semana, de uma ponte sobre o rio Tigre, uma fronteira que estava fechada desde maio, permitiu a fuga maciça de curdos sírios.
"Chegam em tão mau estado que até se rompeu a norma de que as mulheres e crianças viajem primeiro. Há caos nos ônibus que vão para os acampamentos", insiste a Acnur. O primeiro campo aberto no Curdistão estava projetado para 15 mil pessoas e já abriga 55 mil. Estão terminando a instalação de outros dois acampamentos.

Reportagem de Carmen Rengel, para o El País, reproduzida no UOL. Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Reação liberal pode ter sido tardia para proteger futuro do Egito

O ex-ditador Hosni Mubarak governou o Egito em meio a um estado de emergência por mais de 30 anos e, agora, depois de uma pausa de dois anos, o exército egípcio fez o país retornar a esse estado novamente. O general do exército Abdel Fattah al-Sisi, que efetivamente governa o país hoje em dia, estava determinado a adotar essa medida, que pode muito bem preparar o Egito para uma guerra civil de longa duração ou, no mínimo, para os tipos de assassinatos, atentados e prisões em massa que caracterizaram o período de 1992 a 1998.
A operação para esvaziar as duas praças ocupadas por partidários do presidente Mohammed Mursi, deposto após manifestações em massa realizadas em julho passado, se transformou em um massacre total. O preço da chamada "operação de limpeza" tem sido centenas de vidas, até mesmo entre as forças de segurança do governo.
Confrontos armados ocorreram não só no Cairo, mas também em muitas outras cidades do Egito, onde houve um recuo após a queda e a prisão de Mursi. A Irmandade Muçulmana e os apoiadores de seus aliados atacaram igrejas de cristãos coptas em muitas cidades e as incendiaram. O exército, por outro lado, está perseguindo os simpatizantes da Irmandade Muçulmana.
Hazem Al Beblawi, o primeiro-ministro interino do Egito, teve uma reação muito diferente da do primeiro-ministro turco Recep Tayyip Erdogan, que caracterizou o derramamento de sangue como terrorismo de Estado. Al Beblawi disse que a polícia demonstrou um "heroísmo lendário" ao esvaziar as praças, alegando que a polícia agiu "com extrema cautela".
Ironicamente, a justificativa dele para a operação do exército foi muito semelhante à de Erdogan durante a recente agitação civil na Turquia. "Nenhum estado de respeito permitiria que duas de suas praças fossem ocupadas por milhares de manifestantes durante um mês e meio", disse Beblawi.
Apesar de o primeiro-ministro interino do Egito ter afirmado que o uso da violência e a instauração subsequente do estado de emergência foram "medidas necessárias para possibilitar a realização de eleições livres", é muito mais provável que o Egito se mantenha em estado de emergência durante um longo período. O primeiro-ministro egípcio se mantém leal ao roteiro do exército local, uma vez que foi o exército que lhe entregou o poder em primeiro lugar. Beblawi disse que o governo está determinado a realizar eleições até o início de 2014, mas ninguém acredita que o Egito estará livre e seguro o suficiente para a realização de eleições dentro de alguns meses.
Essa segunda intervenção do exército egípcio também foi um duro golpe para os chamados liberais, como Mohammed ElBaradei, que estava em busca de uma terceira via entre o exército e a Irmandade Muçulmana antes do massacre. Esses círculos já perderam muita credibilidade após terem ficado de rodeios e não terem chamado o golpe de golpe e ao aceitarem cargos ministeriais --o de vice-presidente, no caso de ElBaradei. Agora, como já fez ElBaradei, outros liberais também terão que se demitir e compartilhar a responsabilidade pelo massacre. A renúncia de ElBaradei enquanto o estado de emergência estava sendo instaurado foi uma medida necessária para salvar sua própria dignidade, mas talvez ela tenha vindo tarde demais para salvar seu futuro político.

Um estado da Irmandade Muçulmana

Hoje, um segmento da população egípcia apoia o exército contra a Irmandade Muçulmana. Os coptas egípcios, ou cristãos, e a Igreja Copta formam o principal contingente entre esses apoiadores, pois eles são os alvos naturais da Irmandade Muçulmana e de outras organizações jihadistas mais radicais. Assim como alguns cristãos sírios consideram o Partido Baath e a ditadura de Bashar Al-Assad como o menor de dois males, essas pessoas veem o exército egípcio como a última chance para manter sua segurança.
As preocupações dos coptas se mostraram justificadas quando igrejas e edifícios coptas foram alvo, ao lado de edifícios do governo e das forças de segurança, durante as manifestações da semana passada. Um segmento da classe média urbana tem preocupações semelhantes e também está ao lado do exército. Além disso, como os Irmãos Muçulmanos favoreceram seus próprios partidários e alienaram a classe média secular durante o governo de um ano de Mursi, essa mesma classe média vê o exército como uma forma de preservar sua situação econômica e seu modo de vida.
Mas esses segmentos da sociedade são insuficientes para formar a maioria no Egito. Por outro lado, a Irmandade Muçulmana pode recuperar o prestígio, que foi perdido durante seu governo de um ano como resultado de sua falta de tato, da atitude paternalista e da pressa em criar um Estado da Irmandade Muçulmana.
As prisões e os assassinatos em massa podem ter garantido aos islâmicos um pouco de simpatia, mas vai ser muito difícil eles conseguirem se reorganizar, pelo menos por alguns anos. O espaço que eles deixarão será preenchido por outras organizações, muitas das quais podem ser mais radicais. Em suma: haverá "terroristas" e "atentados terroristas" suficientes para prolongar o estado de emergência por tempo indeterminado no Egito.
O mundo ocidental que hoje condena as ações violentas do exército na limpeza das praças egípcias se aliará com o exército amanhã, quando os assassinos e os homens-bomba atacarem os coptas, um pequeno grupo ou turistas que se atreverem a visitar o Egito, ou o exército e a polícia diretamente.
Quatro dias depois de o exército ter derrubado Mursi, eu escrevi um artigo dizendo que o monarca tinha demitido o vizir. O monarca, isto é, o exército egípcio, tirou Mursi, o vizir, do poder quando sua propriedade estava em perigo. Agora nós entramos em um período de domínio militar direto, assim como o ano que se seguiu à derrubada de Hosni Mubarak.
A coalizão em torno do exército e de seus partidários já foi quase que totalmente dissolvida. O exército egípcio será alvo da oposição da sociedade e das demandas por democracia a partir de agora. Isso significa que praticamente todo o Egito estará na mira, assim como a maior parte de sua economia.
Eu escrevi há um mês que a revolução é uma saída radical para que os países se livrem de monarquias absolutas, de ditaduras e de regimes totalitários --o fim de um regime financeiro-social e o início de outro. Portanto, a revolução no Egito continua. A afirmação que eu fiz no final daquele artigo é muito mais válida hoje em dia: "A etapa final dessa revolução será o destronamento do monarca real [o exército]". Será que essa revolução dará à luz uma democracia no curto prazo? Não há nenhuma garantia de que isso ocorrerá. O resultado dependerá principalmente da evolução da Irmandade Muçulmana.
Ahmet Insel, para o The New York Times, www.worldcrunch.com em parceria com Radikal, 
Tradutor: Cláudia Gonçalves

Soldado que vazou dossiê ao Wikileaks diz ser mulher e quer mudar nome

Um dia após ser condenado a 35 anos de prisão por vazar documentos confidenciais para o site Wikileaks, o militar Bradley Manning, 25, afirmou que é uma mulher. 

A um programa de TV da emissora "NBC News", o militar de 25 anos disse nesta quinta-feira (22) que quer viver com o nome de Chelsea.
"Como uma transição para este próximo estágio da minha vida, quero que todos conheçam o verdadeiro eu. Eu sou Chelsea Manning. Sou uma mulher. Dada a maneira como me sinto, e tenho me sentido desde criança, quero começar um tratamento hormonal assim que possível. Espero que vocês me apoiem nesta transição. Solicito também que, começando hoje, vocês se refiram a mim pelo meu novo nome e use o pronome feminino [salvo em correspondência oficial à prisão]. Espero receber cartas de apoiadores e ter a chance de escrever de volta", diz a declaração de Manning, que assina com o nome de Chelsea.

Condenado

Na quarta-feira (22), a Justiça fixou em 35 anos de prisão a pena de Manning pelo vazamento dos papéis. O advogado do soldado, David Coombs, disse que entrará com um pedido de perdão presidencial para reverter a condenação de seu cliente. 
Segundo Coombs, a ideia é que a pena seja transformada no tempo que ele já foi preso --um pouco mais de três anos. Assim, o soldado seria imediatamente solto.
Caso não consiga reverter a pena, Manning poderá tentar pedir liberdade condicional em sete anos. "Qual é a percepção pública disso (da sentença)? Que foi um julgamento justo? A resposta é não. E isso é triste", afirmou.
O advogado também contou que seu cliente reagiu com serenidade à sentença. "Eu e outros começamos a chorar. Manning olhou para mim e disse 'está tudo bem. Você fez seu melhor. Eu ficarei bem e passarei por tudo isso'", disse. 
Segundo a promotoria militar, o vazamento de dados promovido por Manning durante seu serviço no Iraque em 2010 colocou os Estados Unidos em perigo, assim como suas delegações civis e militares em vários países.
Após a sentença, Manning foi retirado rapidamente da corte aos gritos de "nós continuaremos lutando por você, Bradley" e "você é nosso herói" de apoiadores que estavam no tribunal.
O WikiLeaks considera a pena de 35 anos uma "vitória estratégica", pois significa que ele pode obter liberdade condicional em menos de nove anos. 
O jornalista Gleen Greenwald, que publicou uma série de reportagens sobre o esquema de espionagem da Agência Nacional de Segurança dos Estados Unidos no jornal "The Guardian", ironizou a sentença de Manning em um post no Twitter:
"Os EUA nunca serão capazes de falar novamente ao mundo sobre o valor da transparência e da liberdade de imprensa sem causar um ataque de riso mundial."
A Anistia Internacional pediu ao presidente Barack Obama que considere o pedido de clemência e diminua a sentença de Manning.

Maior vazamento da história

Na semana passada, Manning pediu desculpas e lamentou que seus atos tinham prejudicado as pessoas e os EUA. Durante o julgamento, a defesa destacou os problemas de identidade sexual na juventude, bem como sua difícil infância com pais alcoólatras.
Entre os vazamentos de Manning, estava o registro de um ataque aéreo de um helicóptero americano a um grupo de civis em Bagdá, incluindo jornalistas. O conteúdo filmado foi revelado pelo WikiLeaks e complicou o governo dos EUA, que se viu envolvido em uma série de debates sobre a impunidade aos militares norte-americanos nos últimos conflitos armados.
Manning foi absolvido no final de junho da acusação mais grave contra ele, a de colaborar com o inimigo, que por si só implicava uma sentença de prisão perpétua. Ele foi condenado por mais de 20 acusações. (Com agências internacionais)

Reprodução do UOL Notícias.

Europa enfrenta retorno da tuberculose

A tuberculose, a doença dos pobres, resiste a desaparecer da próspera Europa. Nem os tratamentos existentes nem o bem-estar do continente, sobretudo no oeste, eliminaram a doença.
A Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que em 2011 havia na Europa 500 mil pessoas com tuberculose. O número estava em declínio, mas a OMS aponta, antes de fechar os dados, que a tendência se inverteu. Destas pessoas, cerca de 44 mil morrem por ano, o que a transforma na segunda enfermidade infecciosa mais letal, depois da Aids.
A maior parte das vítimas está na Europa do Leste e Central. Os números nos países ocidentais são muito menores, mas há um aumento, sobretudo de casos resistentes.
O mal - uma infecção bacteriana contagiosa que ataca principalmente os pulmões, mas pode se propagar para outros órgãos - representa uma importante carga econômica: 6 bilhões de euros por ano na UE, segundo a primeira avaliação. E são cálculos "conservadores", segundo a equipe do Hospital Universitário de Schleswig-Holstein (em Kiel, Alemanha) que os publicou no "European Respiratory Journal".
São duas as causas de uma situação que contradiz os prognósticos de 40 anos atrás, quando se pensou em erradicar a doença. Por um lado, o aparecimento de variantes do bacilo resistentes aos medicamentos. Seu impacto é tal que se o tratamento de uma pessoa com o bacilo normal custa 7.900 euros, quando se trata de um com uma variante resistente (só pode ser tratada com medicamentos de segunda geração), sobe para 55 mil e chega a 168 mil nas extremamente resistentes (quase não há medicação).
Por outro lado, ocorre a chegada de coletivos de imigrantes que repetem as condições de superlotação, pobreza e má alimentação e higiene que fizeram da tuberculose uma praga até o início do século 20. Muitos também vêm de países onde a incidência da doença é alta.
O último toque de atenção a respeito foi dado pela França. Um relatório recente de seu serviço de vigilância epidemiológica detectou que entre 2006 e 2010 chegaram cerca de 50 amostras da variante resistente. Hoje são 69. Mais que os números em si, importa o aumento. Mas neste caso as autoridades comprovaram que se trata de casos importados da Rússia e de outros países do Leste Europeu, já que não há surtos (grupos de doentes relacionados). Mesmo assim, representa um risco potencial para o resto da população, já que basta respirar ar com microgotas de um infectado para contrair a doença.
Outro exemplo da necessidade de enfrentar o mal vem da Bélgica, onde, quase três décadas depois de fechar o último hospital para tuberculosos, Bruxelas está prestes a construir um para tratar os doentes com a variante mais perigosa.
Não se trata de um lugar de repouso onde se respira o ar puro das montanhas, como os do século 19, e sim de um módulo do Hospital Saint-Pierre, no centro da capital, para dez pacientes com a variante mais resistente aos antibióticos.
"Esse projeto piloto foi pensado para aqueles que passaram da fase mais perigosa, na qual se detectam bactérias nos exames, mas devem ficar internados mais de um ano porque ainda podem transmitir a doença", afirma Michèle Gerard, responsável pelo controle de infecções do hospital.
A Bélgica contava em 2008 com mil infectados; em 2012 eram 1.200. Não são os únicos. "Vimos experiências semelhantes na Noruega e na Hungria. Recomendamos concentrar o tratamento no atendimento ambulatorial, mas esse programa, como complemento de um plano integral, vai na boa direção", afirma Masoud Dara, responsável pelo programa europeu de doenças infecciosas da OMS.

Tratamento ambulatorial

Atualmente se registram na Espanha cerca de 10 mil casos por ano de tuberculose (aproximadamente 15 a cada 100 mil habitantes, segundo o Centro Europeu de Controle de Doenças). Mas a grande maioria recebe tratamento ambulatorial, segundo Joan Ruiz Manzano, do grupo de tuberculose da Sociedade Espanhola de Pneumologia e Cirurgia Torácica (Separ).
A medicação que foi implantada nos anos 1960 representou o fim dos centros para doentes. "Percebeu-se que não contagiavam", diz Manzano. "Restam apenas alguns para os casos especiais", afirma. Ele se refere a pessoas com problemas de dependência química ou em situação marginal, que podem ter dificuldade para seguir o tratamento.
Porque o importante é que a pessoa tome a medicação. Esta é eficaz, mas lenta: seis meses se correr bem (dois anos se houver resistência). Como são só comprimidos, não é preciso que os pacientes se internem. Aos descumpridores é dado um "tratamento observado", em que um profissional garante que o paciente o tome.
Os resultados são, na maioria dos casos, muito bons: "Com 15 dias já estão trabalhando", diz Manzano.

Reportagem de Luis Doncel e Emilio de Benito, para o El País, reproduzido no UOL. Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Divulgada lista de patronáveis da Feira do Livro de Porto Alegre

Nome do patrono da 59ª edição do evento será conhecido em setembro


Foi divulgada nesta terça-feira a lista dos dez candidatos a patrono da 59ª edição da Feira do Livro de Porto Alegre. O nome do escolhido deverá ser conhecido no início do mês de setembro.

Um dos maiores eventos literários do Rio Grande do Sul será realizado entre os dias 1º e 17 de novembro de 2013. A diretoria da Câmara Rio-Grandense do Livro, seus associados, ex-patronos e também alguns representantes da comunidade cultural votarão em apenas três dos nomes da lista de patronáveis. Só após esta primeira apuração, a entidade anunciará o nome do patrono. 

Confira a lista de patronáveis:

Airton Ortiz
Jornalista, escritor e fotógrafo, especializado no gênero Jornalismo de Aventura. Escreveu 15 livros sobre suas viagens radicais – dez de reportagens, dois de crônicas e um romance. Entre as principais obras estão "Na estrada do Everest”, “Pelos caminhos do Tibete”, ” Havana” e “Jerusalém”.

Caio Riter
Jornalista, licenciado em Letras, mestre e doutor em Literatura Brasileira. Ministra oficinas literárias de narrativa e de Literatura Infantil. No ano passado, foi patrono da Feira do Livro de Torres. Entre as principais obras estão "A cor das coisas findas", "O rapaz que não era de Liverpool" e "Coleção Historinhas Bem...".

Celso Gutfreind

Escritor e médico psiquiatra, é especialista em psiquiatria da infância e da adolescência e realizou pesquisa sobre a utilização terapêutica do conto. Publicou cerca de vinte livros, entre poesias, ensaios e literatura infantil. Entre os principais trabalhos estão "As duas análises de uma fobia em um menino de cinco anos: O pequeno Hans" e "Narrar, ser mãe, ser pai".

Cíntia Moscovich
Escritora, jornalista e mestre em Teoria Literária, também foi professora, tradutora, consultora literária, revisora e assessora de imprensa. Entre as principais obras publicadas está "O reino das cebolas", indicada ao Prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, a novela "Duas iguais - Manual de amores e equívocos assemelhados" e "Anotações durante o incêndio".

Claudia Tajes
Redatora publicitária e escritora, estreou na literatura com "Dez (Quase) Amores". Entre outras obras de destaque estão o romance "Dores, Amores & Assemelhados", "A vida sexual da mulher feia", "Louca por homem", "Só as mulheres e as baratas sobreviverão" e "Por isso eu sou vingativa". Claudia Tajes também é roteirista e em 2011 teve seu livro "Louca por homem" adaptado para uma série no canal HBO chamado "Mulher de fases". 

Fabrício Carpinejar
Poeta, jornalista, mestre em Literatura Brasileira. É autor de livros como "As Solas do Sol", "Porto Alegre e o dia em que a cidade fugiu de casa", "Cinco Marias", "O Amor Esquece de Começar", "Filhote De Cruz Credo", "Canalha!", "Diário de um Apaixonado: sintomas de um bem incurável", "Mulher perdigueira" e "Borralheiro".

David Coimbra
Escritor e jornalista, escreveu obras com temática ligada ao futebol, como "A História dos Grenais", sobre o maior clássico do futebol gaúcho, além de "Atravessando a Escuridão", reportagem sobre um mineiro de carvão torturado pela repressão durante a ditadura militar no Brasil, "Uma estação no inferno", livro de poesias, e as obras de crônicas como ""A Mulher do Centroavante", "Crônica da Selvageria Ocidental" , "Mulheres!" e "Meu Guri",  sobre o filho, Bernardo.

Maria Carpi
Advogada, magistrada estatal e escritora, entre as obras publicadas estão: "Nos gerais da dor", "Desiderium Desideravi", "Vidência e acaso", "Os cantares da semente", "A migalha e a fome" e as antologias pessoais "Pequena Antologia" e "Caderno das águas". É mãe do poeta Fabrício Carpinejar.

Luís Augusto Fischer
Escritor, ensaísta, mestre e doutor em Literatura Brasileira, leciona no Instituto de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs). Tem publicados livros de contos, crônicas, ensaios e teoria literária. Seus maiores sucessos de vendas são o "Dicionário de Porto-Alegrês" e o "Dicionário de Palavras e Expressões Estrangeiras". Outra obra de destaque é a novela "Quatro Negros". É um dos organizadores do Sarau Elétrico, evento que acontece todas as noites de terça-feira no Bar Ocidente, em Porto Alegre.

Francisco Pereira Rodrigues
Advogado, contista, poeta e escritor, com diversas obras editadas, celebrou um século de vida neste ano. Foi presidente da Estância da Poesia Crioula e da Academia Rio-grandense de Letras, além de participar de entidades voltadas à cultura literária com ênfase aos costumes regionalistas do gaúcho. Entre as suas obras estão "Cincerros de Sol", "Quintilhas do Meu Tear", "Governicho e a Revolução Federalista", "Um Pedaço do Rio Grande", entre outros. Foi presidente da Estância da Poesia Crioula no período de 1988 a 1989 e da Academia Rio-grandense de Letras no período de 1990 a 1996.

Com informações da repórter Stephany Sander


Reprodução do Correio do Povo