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quinta-feira, 23 de março de 2017

Médico precisa ter cuidado até para dar boa notícia

Em outubro passado, recebi o diagnóstico de um pequeno nódulo na vesícula durante ultrassom de abdome de rotina. Nada muito assustador exceto o fato de a minha mãe ter morrido três meses antes de um câncer primário nesse mesmo órgão, com metástase no fígado.
Eu e minha médica decidimos repetir o exame seis meses depois para ver como o nódulo havia se comportado. Caso tivesse aumentado ou mudado de formato, faria uma cirurgia para retirar a vesícula.
Na semana passada, repeti o ultrassom de abdome com uma certa apreensão. Ao passar o transdutor na região da vesícula, a médica se deteve no local. Passou o aparelho várias vezes. "Segura a respiração, agora solta." "Vira de lado, agora do outro". Nesse meio tempo, falava baixinho com a assistente.
Depois de alguns minutos e nada de dar prosseguimento na análise de outros órgãos, perguntei à médica se havia algo errado com a vesícula. "Ao final a gente conversa", ela respondeu. Engoli o choro.
É claro que não ela fazia ideia (e continua não fazendo) do impacto que essas palavras iriam me causar. As três semanas terríveis entre o diagnóstico do câncer da minha mãe a morte dela voltaram a me assombrar. Na minha cabeça só passava o pior. Naquela hora, de nada valeu o arsenal de informações que eu tinha sobre o câncer que levou a minha mãe e o fato de o tumor não ter origem genética.
Após examinar os outros órgãos, a médica deixou a sala e voltou dizendo que repetiria a análise da vesícula, aumentando ainda mais a minha apreensão. Após mais alguns minutos, ela disse: "Não fique assustada, mas é que não estou encontrando o nódulo que o exame anterior havia detectado. A sua vesícula tá ótima, não tem nada". Chorei de alívio.
Ela não entendeu nada. Eu também me calei sobre a razão das lágrimas. Claro que ninguém tem a obrigação de conhecer de antemão as suscetibilidades do paciente, mas penso que ainda há muito o que avançar na comunicação de notícias (as ruins e as boas também).
O meu caso não é nada diante de tantas histórias que já ouvi e escrevi, mas me fez lembrar delas. De uma amiga febril que ouviu de um infectologista que ela tinha leucemia (sem ao menos os olhar os exames) a um oncologista que, diante da recidiva do câncer da paciente, decretou a sua morte dizendo mais ou menos assim: "Aproveite o seu filho enquanto há tempo". Detalhe: o filho, de oito anos, estava do lado dela.
Há histórias que de tão bizarras parecem inverossímeis. Uma leitora me contou que certa vez um especialista em reprodução humana disse que ela não engravidaria naturalmente porque, aos 41 anos, não era mais "aquela Brastemp".
Dentro das instituições de saúde, existem várias iniciativas com o intuito de melhorar a comunicação entre médicos e pacientes. Algumas envolvem até encenações com atores profissionais para ensinar a comunicação de más notícias. Muitas são louváveis, mas pouco adianta se o profissional desconhecer aquela velha e boa regra de ouro: trate os outros como gostaria de ser tratado, ou faça aos outros aquilo que gostaria que fizessem a você.


Texto de Claudia Collucci, na Folha de São Paulo

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Médicos se suicidam cinco vezes mais que a população em geral

"Estou enfrentando no hospital onde trabalho algo que não é incomum entre meus colegas: que precisamos contribuir mais com solicitação de exames. 'A RM [ressonância magnética] está muito subutilizada', tive que escutar."
"É duro ver colegas fazer coisas desnecessárias. Dias desses, um deles indicou ecodoppler de carótidas ao meu pai, exame que todas as sociedades lá de fora orientam não fazer em pacientes assintomáticos, que é o caso dele. Depois queriam lhe meter um CAT [cateterismo cardíaco]. Tudo isso só serviu para o meu pai falar todo dia que terá um AVC e se preparar para morrer de algo tão incerto quanto a vida."
"Estimo que grande parte das nossas cirurgias sejam desnecessárias e atendem apenas à política do hospital. É muito interessante avaliar o mapa cirúrgico de cada hospital. Para grande surpresa, é completamente diferente de um hospital para outro. Como é possível, pois se trata de uma população relativamente homogênea na saúde suplementar?"
"Como você acha que se sente o médico que estuda, tem a recomendação de várias sociedades para pensar mil vezes antes de colocar uma sonda em paciente com demência avançada, e se vê em hospitais remando contra a maré, com grupos de terapia nutricional altamente agressivos, porque simplesmente o hospital é varejista do insumo, o revende por 400%?"
"No dia a dia o que mais vejo é: médico extorquindo o convênio e o hospital, hospital extorquindo convênio, convênio priorizando atendimento amalucado do hospital e não valorizando médico que faz um trabalho de qualidade, população que só frequenta pronto-socorro, zero de prevenção".
"Você instiga eles [hospitais] a repensar processos, identifiquei, por exemplo, que muitos pacientes que passavam pela Emergência e não precisavam ficar, acabavam fazendo investigação ambulatorial em outro lugar. Propus que azeitássemos isso, que aumentariam exames, no caso necessários. Mas eles querem sempre o atalho. E o atalho é fazer exames em quem não precisa."
"Estou saindo [do hospital]. Estão colocando no meu lugar alguém que vê com naturalidade essa história de "pedir mais exames", aliás, é uma metralhadora de pedir exames."
"Enfrentamos hoje na saúde uma epidemia de desesperança e tristeza. É incrível o número crescente de colegas que tenho visto em Burnout (enfermeiros também, não apenas médicos). Suicídio é algo que não temos muita notícia oficial, mas tenho percepção de crescimento proporcional."
"Tenho um colega, talvez o cara mais brilhante que já conheci, que nunca mais se recuperou de um episódio depressivo. Anda nitidamente impregnado por essas drogas da psiquiatria, trabalha/licença, trabalha/licença, já não se percebe se o pior é a doença ou efeitos de tratamentos. Nesse ínterim, a mesma história com vários amigos. É muita história triste para uma profissão que tem tudo para ser linda!"
*
Caros doutores, obrigada pelas mensagens ao longo deste ano e pela confiança em dividir comigo um pouco das suas angústias e pressões do dia a dia na atividade médica.
Compartilho muito dessas preocupações e tenho usado várias delas como gancho para reportagens e colunas sobre o tema. Na minha opinião, essas angústias deveriam ser de todos que desejam um sistema de saúde melhor.
Um sistema que premie seus profissionais e seus prestadores de serviços pelo bom atendimento, não pela quantidade de procedimentos feitos, muitos deles desnecessários. Um sistema que valorize a saúde das pessoas, não as doenças (verdadeiras ou não) e o lucro que elas podem gerar. Um sistema que invista prioritariamente na prevenção e na promoção de saúde.
Sim, os sistemas de saúde (público e privado) estão doentes, mas a razão da coluna de hoje é para falar um pouco da saúde de vocês. Especialmente da saúde mental. O suicídio recente de uma colega de vocês, a médica de família Valquíria, 31, me comoveu. Ela e o filho de dois anos morreram asfixiados na noite de 10 dezembro. Na carta de despedida, disse que não aguentava mais.
Não sei das razões que motivaram Valquíria a acabar com sua vida e a do filho. O que sei é que os recentes casos de suicídio entre vocês têm preocupado toda a categoria. E a mim também.
Neste ano, sete médicos do Estado de Pernambuco se mataram. Recentemente, um outro se suicidou no estacionamento de um hospital privado de Porto Alegre. Desconheço estatísticas oficiais sobre o aumento de suicídio na categoria médica, mas, de qualquer forma, o assunto tem aparecido em vários fóruns.
Em setembro, foi debatido no Encontro Nacional de Conselhos de Medicina. Segundo a psiquiatra Alexandrina Meleiro, estudos internacionais indicam que os médicos se suicidam cinco vezes mais que a população geral. Entre os principais motivos estão o acesso a meios mais eficazes de letalidade, isolamento social (desde a faculdade), situação conjugal insatisfatória e precária situação de emprego.
"O médico é facilmente frustrado em suas necessidades de realização e reconhecimento. E isso é suficiente para produzir a ansiedade, a depressão, a hipocondria, o abuso de álcool e outras substâncias, que, infelizmente, podem culminar no suicídio."
Estudos apresentados pela psiquiatra sugerem que os anestesistas e os psiquiatras são os mais vulneráveis. Entre os alunos de medicina, o grupo de alto risco se concentra naqueles que demonstram melhor performance escolar, são mais exigentes, têm pouca tolerância a falhas, sentem mais culpa pelo que não sabem e ficam paralisados pelo medo de errar.
O simples ato de conversar é uma das formas mais eficazes de se prevenir o suicídio. Não só de médicos. O CVV (Centro de Valorização da Vida) faz um trabalho incrível nessa área. Talvez entre vocês seja mais complicado se abrir, pedir ajuda, se mostrar vulneráveis. A vida não anda fácil para ninguém e bem sei que, muitas vezes, está difícil de encontrar saídas.
Neste momento, porém, só quero agradecer a todos que se mantêm fiéis aos princípios hipocráticos, especialmente no que diz respeito a "fazer o bem aos doentes e manter-se longe de todo o dano voluntário e de toda a sedução."
Sim, há muitos que fraudam o SUS, que dão um jeito de registrar presença sem dar as caras na unidade de saúde, mas há outros tantos que dão a vida pelo sistema e pelos pacientes. Há muitos aceitam (e até cobram) os "bônus" da indústria de medicamentos, de próteses e órteses, ou que se aliam aos hospitais na prática frenética de exames e cirurgias desnecessárias. Mas há outros que resistem, que dizem não.
A vocês, meu muito obrigado. Dedico-lhes um trecho da obra "O Poder do Mito", de Joseph Campbell (1904-1987): "Persiga a sua bem-aventurança e não tenha medo. As portas se abrirão lá onde você não sabia que havia portas." Um ótimo Natal para vocês!"


Reprodução do blogue de Cláudia Collucci, na Folha de São Paulo

sábado, 17 de setembro de 2016

Transformação da flora intestinal pode ajudar a tratar obesidade e doenças

"Imagine o cenário: um cientista numa conferência diz que encontrou um novo órgão no corpo humano."
Começa com essa frase uma revisão sobre a influência dos germes intestinais na saúde humana, publicada no "British Medical Journal". E, continua: "...esse órgão contém um número de genes cem vezes maior do que o do hospedeiro, é específico de cada pessoa, possui componentes herdáveis, e pode ser modificado pela dieta, por cirurgia ou antibióticos".
O intestino humano é habitado por bactérias, fungos e vírus, conjunto de microrganismos que leva o nome de microbiota e contribui decisivamente para o desenvolvimento e a biologia. Há evidências claras de que esse microbiota evoluiu junto com nossa espécie (coevolução).
Estudos publicados nos últimos dez anos demonstraram que o microbiota intestinal está associado à promoção da saúde e a diversas doenças gastrointestinais e de outros órgãos. Nesse período, o Projeto do Microbioma Humano investigou uma variedade de nichos no organismo: pele, as cavidades oral, nasal e vaginal e, com mais atenção, o trato digestório.
A população de bactérias que vive no jejuno e no íleo é diferente em número e composição daquela encontrada no cólon e no reto. A diversificação é explicável pela disponibilidade de nutrientes: carboidratos complexos no cólon e reto; moléculas menores de carboidratos no jejuno-íleo.
Embora existam pelo menos dez diferentes filos de bactérias intestinais, formados por dezenas de espécies, os dois mais conhecidos são o dos Firmicutes e dos Bacteroidetes, cuja proporção numérica varia de um indivíduo para outro.
Há cerca de 160 espécies de bactérias apenas no intestino grosso. Como indivíduos não aparentados compartilham apenas um pequeno número delas, é provável que tenhamos sido colonizados pelo microbiota transmitido por nossos ancestrais.
Fermentação dos carboidratos é a atividade central do microbiota do intestino. As substâncias formadas nesse processo exercem papel importante no controle do sistema imunológico e nas reações inflamatórias, especialmente na inflamação crônica causada pelas células adiposas, nas pessoas obesas.
Nos obesos, existe relativa abundância de Firmicutes e redução do número de Bacteroidetes. A perda de peso está associada à proliferação de Bacteroidetes.
O controle das taxas de glicose no sangue também guarda relação com a composição do microbiota. Transplantes de fezes de indivíduos magros para o intestino de diabéticos aumenta a diversidade de bactérias e a sensibilidade à insulina.
Embora a obesidade seja causada por um excesso de calorias ingeridas, diferenças na ecologia dos microrganismos intestinais constituem um fator causal, passível de manipulação terapêutica.
Como o fígado recebe 70% do sangue que circula pelas alças intestinais, está continuamente exposto aos componentes e às toxinas bacterianas. A epidemia de casos de hepatite gordurosa em gente que não bebe guarda relação com o aumento do número de Bateroidetes em relação ao de Firmicutes.
Embora o álcool esteja claramente associado à cirrose hepática, nem todos os alcoólatras desenvolvem a doença. Hoje sabemos que ele provoca proliferação de bactérias no jejuno humano e que, quanto maior o número delas, mais grave a cirrose alcoólica.
Há muitos estudos concentrados nas doenças inflamatórias do cólon: colite ulcerativa e doença de Crohn. Está demonstrado que, nesses pacientes, a composição das bactérias no intestino grosso fica alterada, e que o uso de probióticos e de transplantes de fezes doadas por indivíduos saudáveis podem modificar o curso da enfermidade.
As interações entre as funções metabólicas do microbioma intestinal e a dieta estão implicadas na etiologia do câncer de cólon e reto. O metabolismo das fibras ingeridas tem importância crítica nesse processo.]
Há diversos testes com probióticos e prebióticos capazes de modular o crescimento e alterar as características da flora intestinal na prevenção e no tratamento da obesidade, de doenças inflamatórias, infecciosas, degenerativas e até de transtornos psiquiátricos.
A manipulação do microbioma humano fará uma revolução na medicina do século 21.


Texto de Drauzio Varella, na Folha de São Paulo

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Teste em macacos controla toxina do mal de Alzheimer

Teste em macacos controla toxina do mal de Alzheimer

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Homem com paralisia volta a caminhar após tratamento revolucionário

Homem com paralisia volta a caminhar após tratamento revolucionário


Búlgaro fez um transplante de células nervosas na Polônia

Um homem com paralisia, provocada por um ataque com faca, voltou a andar graças a um transplante de células nervosas realizado na Polônia, em uma operação sem precedentes.

O búlgaro Darek Fidyka é a primeira pessoa no mundo a se recuperar de um rompimento total dos nervos da coluna vertebral, segundo um artigo publicado na revista científica Cell Transplantation. "Para mim, isto é ainda mais impressionante do que um homem caminhando na lua", afirmou o professor Geoffrey Raisman, do Instituto de Neurologia
do University College de Londres (UCL).

Fidyka consegue caminhar com um andador, ter uma vida normal e até mesmo dirigir um automóvel, quatro anos depois de ter sido agredido. "Quando começa a retornar, você sente que sua vida começou de novo, como se fosse um renascer. É um sentimento incrível, difícil de descrever", declarou Fidyka ao programa Panorama da BBC, que teve acesso exclusivo ao paciente e aos médicos.

A operação foi realizada por uma equipe médica polonesa, coordenada pelo dr. Pawel Tabakow, da Universidade de Wroclaw. Os cirurgiões utilizaram células nervosas do nariz do paciente a partir das quais se desenvolveram os tecidos seccionados.

A técnica, descoberta pela UCL, apresentou bons resultados em laboratório, mas nunca havia sido testada com sucesso em um ser humano. "Nós acreditamos que procedimento é uma descoberta capital que, se for desenvolvida, constituirá uma mudança histórica para as pessoas que sofrem de ferimentos na coluna vertebral", declarou o dr. Geoffrey Raisman. A pesquisa foi financiada pela Nicholls Spinal Injury Foundation e pela Fundação Britânica sobre Células Tronco.


Reprodução do Correio do Povo.

terça-feira, 29 de julho de 2014

Um médico pra chamar de seu


Nunca houve um médico como o doutor Clodoaldo. Pelo menos não para a minha família. Clínico-geral, ele era a referência para qualquer tipo de problema. Do mal de Parkinson da minha avó, passando pela erisipela da minha tia e a hérnia do meu pai, ele sempre foi pau pra toda obra.
Era o médico da nossa família. E de milhares de outros ribeirão-pretanos que lotavam o seu consultório, na Vila Tibério, à procura de solução para os seus problemas de saúde. Estou usando as frases no passado apenas por não ter notícias recentes do dr. Clodoaldo. As últimas que tive, ano passado, davam conta de que ele continuava na ativa, aos 83 anos, atendendo de 15 a 20 pessoas todos os dias.
Preciso em seus diagnósticos, praticamente salvou a vida do meu pai anos atrás quando detectou uma apendicite supurada. Meu velho já tinha passado duas vezes pelo pronto-socorro. Nas duas vezes, foi "examinado" pelos doutores de plantão, que mal o tocaram.
Prescreveram analgésicos e o mandaram de volta para casa. Com muita dor e febre, ele procurou o dr. Clodoaldo no consultório que, num simples toque, percebeu a gravidade e o encaminhou direto para a cirurgia. Sorte. Já estava com infecção generalizada.
Mais sorte ainda foi ter caído nas mãos do dr. Balduíno, experiente cirurgião do aparelho digestivo, que tão bem soube conduzir o caso. Aos 84 anos, dois infartos e uma dengue complicada no currículo, "seu" Haroldo segue firme e forte cultivando a sua horta.
A história é só para lembrar a diferença que faz na vida a gente ter um bom médico. O nosso médico. Também tenho a minha, a Lilian, muito mais do que a minha ginecologista. É a pessoa que já me orientou nas mais diversas situações, mesmo à distância. De uma intoxicação alimentar na Colômbia a uma crise de sinusite nos EUA.
A Lilian e o Clodoaldo são dois exemplos de médicos que me fazem acreditar veemente que a maior parte das nossas queixas pode ser resolvida longe dos pronto-socorros, sem necessidade de exames invasivos ou do uso de alta tecnologia. Só depende de alguém que te escute, que te toque e que te enxergue.
Por isso é bem-vinda a iniciativa de alguns planos de saúde de investirem em programas de saúde da família, conforme reportagem publicada nesre domingo (27). São ainda iniciativas isoladas, mas representam um passo para melhorar a assistência privada no país.
Presente no SUS há 20 anos, o PSF (Programa de Saúde da Família) já promoveu importantes mudanças na saúde pública (ainda há muito o que melhorar, não há dúvida) e deveria ser usado como modelo para os planos privados.
Aliás, o ideal seria que os dois sistemas (público e privado) conversassem de alguma forma.
Não é preciso ser um PhD pela Universidade Harvard para saber que uma rede de cuidados básicos, bem articulada com os demais níveis de assistência, é o pilar de qualquer qualquer sistema sério de saúde. Essa história que a gente assiste hoje, de o paciente ficar rodando de médico em médico, de pronto-socorro a pronto-socorro, é a coisa mais contraproducente que existe.
Ninguém ganha com isso. Os planos perdem dinheiro. E o paciente, muitas vezes, a vida.


Texto de Cláudia Collucci, na Folha de São Paulo

terça-feira, 10 de junho de 2014

Nova pílula garante sexo mais seguro


Em 1960, a Agência de Alimentos e Medicamentos (FDA, na sigla em inglês) dos Estados Unidos fez algo surpreendente: aprovou um medicamento contra a infertilidade para o uso oposto: o controle da natalidade. Esse medicamento -logo conhecido simplesmente como "a pílula"- desencadeou a revolução sexual.
Isso, porém, não se deu da noite para o dia. No início, os médicos resistiram a receitar a pílula para mulheres solteiras. As mulheres relutavam em portar provas de que pretendiam fazer sexo. Feministas pioneiras rebateram as calúnias e defenderam o uso da pílula. Algumas das previsões dos moralistas se confirmaram: os índices de gonorreia entre mulheres subiram e efeitos colaterais como coágulos no sangue surgiram. Mas a revolução persistiu.
Para os homens gays -sem mencionar milhões de africanos, usuários de drogas e outros grupos de risco para o HIV-, o mundo está novamente em um momento crucial. A FDA, que aprovou uma droga chamada Truvada para o tratamento contra o HIV em 2004, passou a aprová-la para a prevenção, segundo o método de profilaxia pré-exposição, ou PrEP (sigla em inglês).
Previsivelmente, isso gerou fortes reações contrárias. Alguns homens que usam o Truvada, em vez de preservativos, são chamados de "prostitutos do Truvada".
Oponentes disseram que os altos índices de sífilis e gonorreia entre homens gays iriam piorar.
Mas, mesmo que não se torne aceito pela sociedade, o Truvada será parte de uma verdade maior que surge no campo da medicina especializada em Aids: medicamentos antirretrovirais modernos poderão ser a chave para finalmente reduzir a epidemia.
Em doses profiláticas relativamente pequenas, eles podem proteger pessoas saudáveis contra o HIV. Em doses do tratamento com terapia tripla ("coquetéis" dos três medicamentos), podem fazer as pessoas infectadas ficarem virtualmente livres do HIV.
As evidências de como eles funcionam continuam se acumulando. Amostras de sangue de um estudo do iPrEx em 2010 mostrou que homens gays que tomavam Truvada sete dias por semana reduziram suas chances de infecção em 99%. Um teste em 2011 com casais heterossexuais, em que um só parceiro estava infectado, mostrou que, quando os infectados tomavam seus coquetéis de terapia tripla regularmente, a chance de contaminar seus parceiros era 96% menor.
E, em uma reviravolta surpreendente, foram divulgados em março os resultados preliminares de um estudo envolvendo 767 casais gays e héteros que não usavam preservativos e cujos exames de sangue confirmaram que os parceiros infectados estavam tomando medicamentos. Os casais haviam feito sexo cerca de 30.400 vezes desde o início do estudo, há dois anos, e o HIV não foi transmitido nem uma vez.
Proteção de 96% a 100% é melhor até do que as vacinas mais avançadas. No entanto, certas vacinas protegem durante muitos anos, enquanto as pílulas têm de ser ingeridas diariamente. Algumas mulheres achavam isso complicado com a pílula anticoncepcional, então o mercado nesse setor lançou injeções de efeito duradouro, implantes, DIUs e pílulas "do dia seguinte". O campo do HIV já está indo nessa direção.
Um levantamento realizado pela Universidade de Nova York junto a 200 homens gays descobriu que, se existisse uma dose de Truvada com efeito durante três meses, 79% deles a prefeririam em vez de comprimidos diários.
Até Ruanda está sentindo o efeito. Graças a doadores, 87% dos ruandenses estão fazendo a terapia tripla da qual precisam. As novas infecções caíram 60%.
Ainda há 2,3 milhões de novas infecções por ano no mundo inteiro. O uso disseminado dos medicamentos poderia combater isso, mas obstáculos financeiros prejudicam os países pobres, sobretudo na África.
Atualmente, 10 milhões de pessoas infectadas, de um total mundial de 35 milhões, fazem a terapia tripla. Doadores lutam para aumentar esse número. Mas, para acabar com a epidemia, todos os infectados precisariam da terapia -e provavelmente também precisariam ser incentivados com pequenos pagamentos em dinheiro para tomar suas pílulas diariamente. Ainda assim, o PrEP para a África nem sequer está em discussão.


Texto de Donald G. McNeil Jr., para o The New York Times, reproduzido na Folha de São Paulo

domingo, 8 de junho de 2014

A vergonha de Hipócrates

A morte do fotógrafo Luiz Cláudio Marigo, de infarto, na porta do Instituto Nacional de Cardiologia, infelizmente, é mais uma na rotina de descaso com aqueles que buscam atendimento em hospitais públicos.
Marigo sentiu-se mal dentro de um ônibus e foi levado pelo motorista Amarildo Gomes para o hospital, em greve. Apesar dos pedidos do motorista e de passageiros, não recebeu nenhuma atenção dos funcionários do hospital. Segundo testemunhas, sob a alegação de que lá não há emergência. Morreu uma hora depois, estirado no corredor do ônibus.
Em entrevista à TV Globo, a diretora médica do hospital, Cynthia Magalhães, disse não ter havido negligência, já que, segundo ela, médicos e enfermeiros não foram avisados da situação de Marigo. "Não foi passado para o segurança a gravidade do que estava acontecendo", disse.
Entende-se, então, que a responsabilidade pela morte do fotógrafo foi de quem tentava ajudá-lo, o motorista Gomes e os passageiros.
Seguindo nessa linha de raciocínio, também seria culpado o segurança que, na porta do hospital, faz a triagem de quem deve ser atendido ou não, cena comum em hospitais públicos do Rio.
Não se pode fugir à responsabilidade pela morte de Marigo jogando-a sobre um segurança que, sem formação para isso, tem a incumbência de avaliar a gravidade de um caso. Menos ainda jogando-a sobre o motorista e os passageiros que, em um gesto de solidariedade e compaixão a cada dia mais raros, tentaram ajudar de todas as formas um desconhecido que passava mal.
"Prometo solenemente consagrar a minha vida ao serviço da humanidade" e "exercerei minha arte com consciência e dignidade" são duas frases do juramento prestado por todo médico ao se formar.
Hipócrates, o autor do juramento, deve ter ficado envergonhado.


Texto de Cristina Grillo, na Folha de São Paulo

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Mais Médicos


Dedicado a um belo trabalho fotográfico sobre a fauna e a flora, capaz de levar a medidas governamentais de proteção, Luiz Claudio Marigo sofreu com um infarto por perto de uma hora, deitado, até morrer, no corredor de um ônibus em frente à porta do Instituto Nacional de Cardiologia. O INL está em greve e ninguém do pessoal em serviço obrigatório foi ao ônibus. A direção do INL diz que não houve pedido claro no hospital. Várias testemunhas dizem o oposto, entre elas o próprio motorista que dirigiu o ônibus e foi em pessoa apelar pelo socorro médico.
Até o momento em que escrevo, já no terceiro dia do ocorrido, não encontrei o pronunciamento devido pela Associação Médica Brasileira e pelo Conselho Federal de Medicina. Na Câmara, o sempre citável Ronaldo Caiado preferiu ocupar-se dos médicos cubanos desertores, para ouvir do ministro da Saúde que são o menor grupo de desistentes do Mais Médicos. E, com os dois mais recentes que também vieram apenas fazer trânsito esperto aqui, rumo aos Estados Unidos, esses trânsfugas são apenas 0,1% do total.
Ronaldo Caiado está no seu papel, médico que deu também as costas à medicina, para servir no Congresso aos seus agronegócios. Mas a AMB e o CFM não se limitam a sua campanha contra o Mais Médicos, nem só aos interesses da classe.


Trecho da coluna de Jânio de Freitas, na Folha de São Paulo

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Mulher fratura o braço e morre após suposta negligência médica


Um braço fraturado em duas partes, em um acidente de moto, há uma semana, no bairro de Bebedouro, Maceió, e uma série de supostas negligências médicas teriam provocado a morte da dona de casa Aldinez Maria da Silva, 38 anos, nesse final de semana. 
A denúncia foi feita na manhã desta segunda-feira (24), pelo marido da vítima, Paulo Alves dos Santos, 56 anos, que denuncia um suposto caso de negligência no atendimento pelo HGE. 
Em nota, a direção do HGE informou que irá instaurar, em caráter de urgência, processo administrativo para apurar o caso.
Segundo a denúncia, Aldinez Maria da Silva, de 38 anos, teria sido socorrida no hospital após o acidente e, no local, foi constatado que ela fraturou o braço em dois lugares. Em vez de cirurgia, foi feita a imobilização do braço, com gesso. A mulher deixou o HGE com muita dor. Na terça-feira (18), Aldinez teria voltado à unidade pedindo ajuda e, nesse dia, ele teve apenas o gesso trocado, quando passou a se queixar de que ele estaria apertado. 
Com a circulação do sangue na região do braço prejudicada, o membro começou a necrosar e os sinais do problema começaram a ser percebidos por ela na quinta-feira, com um grande inchaço da mão. A paciente voltou ao HGE aos gritos e uma enfermeira teria dito que não poderia trocar o gesso mais uma vez.
Um médico, que teve seu nome preservado, teria se oferecido para operar Aldinez ao custo de R$ 3 mil. A família ainda juntou R$ 2 mil, mas o profissional não teria aceitado.
Só na sexta-feira, após descobrir que era diabética, Aldinez foi encaminhada para o Centro Cirúrgico com o braço gangrenado, ou seja, aprodrecido.
Uma imagem obtida pelo TNH1 por meio do Facebook mostra o estado em que ficou a mão da paciente.
A mulher teve o membro amputado, mas não resistiu à infecção, que tomou todo o corpo. Aldinez morreu no último sábado, dia do seu aniversário, e foi enterrada ontem (23).
O marido dela concedeu entrevista nesta manhã ao TNH1 para relatar todo o caso. Os filhos de Aldinez estavam transtornados. A família cobra a punição dos médicos e enfermeiros que atenderam a mulher. "Vamos levar isso adiante para que outros casos não venham acontecer", prometeu Gilvan José da Silva, de 18 anos, um dos cinco filhos deixados pela dona de casa.
Na manhã de hoje o HGE se pronunciou sobre o caso através de uma nota, onde afirma que a paciente foi atendida de acordo com os procedimentos estabelecidos no protocolo clínico, desde a entrada até o procedimento cirúrgico que terminou na amputação do braço de Aldinez Maria da Silva. A nota diz ainda que a a direção vai instaurar um processo administrativo para apurar a denúncia de negligência.

Reprodução de parte do sítio TNH1. Fotos e vídeo .


Comentário rápido: segundo a matéria, parece que os médicos que atenderam esta mulher não eram cubanos, e eram habilitados pelos Conselhos Regional e Federal de Medicina.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

O peixe Nemo e o Mais Médicos

A indústria farmacêutica apresenta uma característica peculiar. Ela vende para um, o doente, que é quem paga, mas quem escolhe o medicamento é outro, o médico.
Essa condição fez com que a indústria farmacêutica internacional desenvolvesse uma estratégia "sui generis" que, não obstante, imita um comportamento comum entre animais inferiores, a simbiose.
Observo em meu aquário o peixe palhaço percola Nemo colher um vôngole e leva-lo à boca de "sua" anêmona, antes mesmo que ele próprio se alimente. Em troca, recebe da anêmona --um animal com tentáculos venenosos-- proteção contra eventuais predadores. Essa troca de favores chamamos simbiose.
A promoção de medicamentos se faz de porta em porta, nos consultórios médicos. Todo mundo sabe que os inúmeros congressos médicos nos mais pitorescos locais do mundo, de Paris a Cancun, são patrocinados pelas empresas produtoras de medicamentos, inclusive com passagens e estadia pagas.
O que não era percebido até recentemente é a importância e o volume de recursos repassados diretamente a médicos como remuneração pela promoção de medicamentos. Pois bem, embora sejam esses recursos diminutos em comparação com os gastos globais dessas empresas com propaganda, em que se incluem as conferências técnico-turísticas, elas ultrapassam só nos Estados Unidos uma centena de milhões de dólares por ano.
E onde fica a ética? E o ensinamento de Hipócritas? A prática quotidiana e a necessidade de sobrevivência geram padrões de comportamento que, por sua vez, estabelecem dogmas, tabus, que enfim são incorporados como princípios éticos à cultura de cada sociedade.
Aos poucos, os médicos acabam por sepultar sua própria percepção dos conflitos de interesse que regem essa maléfica simbiose. Três empresas multinacionais do setor farmacêutico foram há pouco multadas e 18 de seus funcionários presos na China por adotarem essa prática.
Recentemente, o médico britânico e Nobel de medicina Richard J. Roberts acusou as farmacêuticas de evitar a cura em prol da dependência, um fato já conhecido. Se você cura o doente, você deixa de faturar. Se você simplesmente o mantém vivo, você fatura indefinidamente. Uma estratégia também adotada por animais parasitas. Quantas corporações médicas denunciaram essa condição maléfica?
Médicos e suas associações já se opuseram, se não publicamente, pelo menos nos bastidores, a iniciativas positivas do Estado. Isso ocorreu com a instalação do SUS e com as poucas iniciativas de produção de medicamentos em laboratórios estatais. Agora acontece com o programa Mais Médicos, que, para as condições atuais da saúde no Brasil, é imprescindível. Tudo que pareça interferir com a tradicional simbiose médico-produtoras de medicamentos, mesmo que tangencialmente, passa a ser hostilizado.
Quantos dos médicos que se declaram contra o programa repudiaram ofertas de passagens e estadias em gostosas conferências? Quantos colocam o interesse da sociedade brasileira acima dos seus próprios e de sua corporação?


Texto de Rogério Cezar de Cerqueira Leite, publicado na Folha de São Paulo

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Limites

O retrato devastador que o repórter Fabiano Maisonnave traçou de algumas escolas médicas da Bolívia fala por si só. Não obstante, cerca de 25 mil estudantes brasileiros estão matriculados nessas instituições --o equivalente a 23% do total de alunos que fazem graduação em medicina por aqui.
Como a maioria não deve ter planos de migrar em definitivo para o país vizinho, esses jovens apostam que o mercado por médicos no Brasil seguirá atraente e que, em algum momento, conseguirão validar seus diplomas e voltar para casa. Os dados empíricos, porém, não recomendam otimismo. Em 2012, só 2,1% dos graduados na Bolívia passaram no Revalida, contra uma média de 8,7%.
Esse descompasso entre sonhos e competência mostra o que está acontecendo no setor. De um lado, faltam médicos no sistema público. As escalas de postos de saúde e hospitais aparecem com brancos. O envelhecimento da população também aponta para um mercado em expansão. O governo, portanto, tem interesse legítimo em ampliar a oferta de vagas em medicina e, emergencialmente, até em importar profissionais.
Há, é claro, um outro lado, que é o da qualidade. Garantir que todo brasileiro seja atendido sempre por um profissional preparado e atualizado exigiria mudanças fortes no processo de certificação, com a introdução de um exame de proficiência ao final da graduação, nos moldes da prova da OAB, e avaliações periódicas.
O problema é que esses dois objetivos são contraditórios. Se mais jovens cursarem medicina, iremos necessariamente recrutá-los entre candidatos menos preparados, o que fará com que a qualidade média dos graduados caia. E, se instituirmos testes mais rigorosos, formaremos ainda menos profissionais.
Uma alternativa seria redesenhar todo o sistema, reservando as visitas a médicos para casos mais graves. Mas esse é um assunto que todo o mundo prefere evitar.


Texto de Helio Schwartsman, na Folha de São Paulo

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Revalida tem pior índice de aprovação na primeira fase

Revalida tem pior índice de aprovação na primeira fase

Dos 1.595 candidatos que fizeram a prova este ano, apenas 155 passaram para segunda etapa

Criado em 2011, o Exame Nacional de Revalidação de Diplomas Médicos Expedidos por instituições de Educação Superior Estrangeiras (Revalida) teve este ano o pior percentual de aprovação na primeira fase da avaliação: 9,72%. Dos 1.595 candidatos que fizeram a prova, apenas 155 passaram para a segunda etapa.

Em 2011, os aprovados na mesma fase foram 14%; em 2012, foram 12,5%. A cada prova, surge a discussão sobre os motivos do alto índice de reprovação e as opiniões são divergentes entre professores, médicos formados no exterior e entidades médicas.

O perfil dos inscritos nas três edições do Revalida é principalmente de médicos de nacionalidade brasileira. Eles respondem por mais da metade das inscrições em cada um das edições. Em seguida estão os bolivianos e peruanos. Quanto à origem do diploma, a Bolívia lidera a lista. Em 2013, chegou a 990 o número de inscritos com diploma emitido na Bolívia. Os dados são do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, responsável pela aplicação do exame.

O Revalida avalia conteúdos e competências das cinco áreas de exercício profissional: cirurgia, medicina de família e comunidade, pediatria, ginecologia-obstetrícia e clínica médica. Na primeira fase é aplicada uma prova objetiva de múltipla escolha e questões discursivas nos turnos da manhã e da tarde.

A parte objetiva tem 110 questões retiradas de um banco de itens e elaboradas por professores de universidades que aderem ao exame. As questões descrevem quadros de enfermidades e o estudante tem que escolher ente itens com opções de diagnóstico, exames e medicamentos recomendados. As questões discursivas são cinco e seguem a linha da objetiva. A segunda fase é uma prova prática, com a simulação de atendimentos médicos usando atores e manequins.

Apesar do baixo número de aprovados, o diretor da Faculdade de Medicina da Universidade de Brasília (UnB), Paulo César de Jesus, diz que o percentual é compatível com o que era verificado no processo da UnB para a revalidação de diplomas de medicina antes do Revalida.

“A UnB tem experiência em revalidação de diplomas e, por volta de 2002, passamos a aplicar a mesma prova da residência e passavam menos de 10%. A reclamação na época era que a prova era muito difícil, que era feita para reprovar, mas era a prova da residência para um recém-formado que está entrando no mercado de trabalho”, disse.

Na avaliação de Jesus, o nível de dificuldade do exame é adequado e ele defende um processo capaz de selecionar apenas os bons profissionais. “Em qualquer país mais sério, o profissional é submetido a uma avaliação escrita e de habilidades. Não se expõe a população a médicos que não têm formação boa. É isso que está por trás dessa avaliação. Não é para punir ninguém, é para garantir que o diploma vai ser emitido para uma pessoa que tem condição”.

Sem tempo suficiente para fazer a prova 

A coordenadora da Associação Médica Nacional, Maíra Fachini, Wesley Caçador, tem opinião diferente. Formada em Cuba, ela fez a prova do Revalida em não foi aprovado. Maíra disse que o grau de dificuldade das questões da prova variam entre o médio e o alto. O médico considera que o tempo para fazer a prova não é suficiente e que o elevado índice de reprovação está ligado também a questões pedagógicas. “Um grande problema é a extensão da prova, dá menos de 2 minutos por questão e ainda tem que transferir as respostas para o cartão. São casos clínicos que exigem leitura e análise detalhada. A extensão da prova provoca desgaste”, diz o coordenador da associação, que reúne médicos com diploma estrangeiro.

Para o presidente do Conselho Federal de Medicina, Roberto D'Avila, o motivo da grande reprovação no Revalida é a má-formação dos profissionais. “O Revalida mostra que esses médicos que vêm pra cá, da América Latina ou brasileiro formado na Bolívia, principalmente, não estão preparados para atender o brasileiro. A prova do Revalida é difícil para quem não estudou medicina devidamente”, opina.

Uma dos questionamentos que surge quando o tema é o Revalida é se os médicos brasileiros teriam bom índice de aprovação caso fossem submetidos à prova. Neste ano, o Ministério da Educação planejou aplicar um pré-teste a estudantes brasileiros do sexto ano de medicina para avaliar se o exame está dentro das diretrizes curriculares do país. Como a participação dos estudantes seria voluntária, a baixa adesão fez com que a prova fosse adiada sem previsão de nova data.

Universidades com processo próprio de revalidação


O Revalida não é a única alternativa para os médicos formados no exterior revalidarem o diploma no Brasil. As universidades públicas podem aderir ao exame ou fazer um processo próprio de revalidação, conforme previsto na Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB). Este ano, 37 instituições aderiram ao exame.

O processo conduzido pelas universidades, no entanto, também gera reclamações quanto à demora. A médica brasileira Verusca Rodrigues se formou em Cuba em 2006, antes da criação do Revalida, e gastou dois anos para ter o diploma reconhecido no Brasil. Ela conta que buscou várias universidades, enfrentou burocracia e diferentes metodologias de avaliação. “Cada universidade tem regras próprias e abre o processo por semestre ou por ano. Acontece que umas abriam, outras não, umas cobravam preços exorbitantes e tínhamos dificuldade para entregar documentos”, conta Verusca. Para ela, uma prova nacional como o Revalida simplifica o processo.

Procurado pela Agência Brasil, o Inep, responsável pela aplicação do exame, informou que não teria condições de se manifestar sobre o assunto na última semana. Ao divulgar o resultado da primeira fase do Revalida, o Inep informou que a avaliação foi criada como uma estratégia de unificação nacional do processo e é referência de utilização de parâmetros igualitários da formação médica no país, em consonância com as Diretrizes Curriculares Nacionais dos cursos de Medicina.

A lei que criou o Programa Mais Médicos prevê que os profissionais com diploma estrangeiro não precisam revalidá-lo para trabalhar no programa. Porém, após o fim do contrato, se o médico quiser trabalhar no país, precisará passar pela revalidação. O programa contratou médicos brasileiros e estrangeiros para atuar em regiões com déficit de profissionais, como no interior do país e nas periferias dasgrandes cidades.


Reprodução do Correio do Povo.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Bem-vindo à xenofobia

O sumiço de livros vai acontecendo cada vez mais aqui em casa. Dei pela falta, outro dia, de um guiazinho de viagens muito bonito, com a capa de pano azul-clara, cheio de ilustrações coloridas, quase aquarelas, no estilo da década de 1950.
Era uma espécie de guia de boas maneiras, a ser usado por turistas em todas as partes do mundo. Chamava-se "Savoir Faire International" e tinha mais do que regras de boa educação.
Lembrava o viajante que sem aspirar o "h", por exemplo, sua comunicação nos países de língua inglesa piora bastante. E explicava (estamos em 1950) que não adianta reclamar dos lençóis nos hotéis da Alemanha.
Ainda em 1986, entendi do que se tratava. Os alemães tinham uma espécie de colcha, muito mole e recheada de paina, que não servia exatamente de edredom; havia uma espécie de fenda, pela qual o dorminhoco deveria inserir-se inteiramente.
"Resigne-se ao desconforto das camas alemãs", dizia o livrinho. Lembro-me de pouca coisa mais. Mas não esqueço que, folheando os capítulos, cada qual dedicado a um país, topei com frases simpáticas a respeito do Brasil.
"Não se preocupe demais em fazer as coisas certas", ensinava o guia. "A simples condição de estrangeiro o fará ser visto com bons olhos."
Nos outros Estados eu não tenho certeza absoluta, mas como paulistano sempre senti que podia assinar embaixo. Havia muito poucos turistas estrangeiros por aqui. Ainda hoje, se vejo algum, minha vontade é fazer festa. Quero ajudar, quero mostrar coisas, quero mostrar que sei a língua deles, quero me enturmar.
Acompanhei pouco a polêmica em torno da chegada dos médicos cubanos. Do ponto de vista cultural, "antropológico", social, o que quisermos, acho de todo modo que aconteceu um fato inédito na história do país --vai ver que só nos tempos coloniais ou de Dom João 6º produziu-se coisa parecida.
Cubanos desembarcam no aeroporto e são hostilizados por médicos brasileiros. Nunca, pelo que me lembro, eu tinha visto manifestações de xenofobia tão explícitas, tão grosseiras, em nosso território.
O mito do brasileiro acolhedor e festeiro --só um mito? Até jogadores de futebol argentinos foram recebidos com carinho pelas torcidas de times brasileiros. Tevez, o simpaticíssimo e modesto artilheiro do Corinthians, será que reclama de hostilidade?
Com toda a implicância que muitos brasileiros têm contra argentinos, não creio que estes sejam maltratados aqui. Certo, o turista não vem para tirar emprego de ninguém.
O racismo que se verifica em tantos países europeus tem razões mais antigas do que o desemprego. A direita explora, naturalmente, a ideia de que os imigrantes tiram postos de trabalho dos brancos.
Mas, se os brancos não querem aqueles postos de trabalho mais rudes e com salários baixos, não importa. O racista vê nisso mais um motivo para desprezar os africanos, os turcos, os brasileiros que os aceitam.
Mesmo que um ou outro médico brasileiro perca seu posto numa cidadezinha perdida no sertão, há, pelo que sei, falta de médicos, e não de empregos. Tanto que o médico da cidadezinha tem outros.
Além de médicos, o fato é que eles são negros. E além de negros são cubanos. Não fizeram o tal exame de revalidação do diploma que possuem? Mas estão abrindo clínica especializada em neurocirurgia ao lado do Sírio-Libanês? Vão concorrer com os especialistas em plástica facial?
A televisão mostrou a entrevista de um representante de não sei que entidade médica brasileira, afirmando que os tais cubanos mal saberiam realizar um exame de ecocardiograma.
O caso é sério. Imagine se eles danificam, sem querer, todos os aparelhos de ressonância magnética de Primeiro Mundo que os esperam no sertão piauiense...
Que emprego, então, está em jogo? Ou o temor é de que sejam militantes socialistas a mando de Castro? Se forem, quem sabe se convertem à liberdade brasileira...
Talvez nosso sistema de vida, nessas áreas miseráveis, não convença tanto assim. Estarão os cubanos pondo o dedo numa ferida --o da consciência da classe média alta brasileira?
Curiosamente, os que protestam contra os cubanos assumem uma retórica sindical: lutam pelos salários dos outros. É um piquete, então? Pode ser. Nessas vastidões sem médico nenhum, a greve nos serviços de saúde dura bem uns quatro séculos.
Sozinhos não resolvem? É preciso mais que alguns médicos? Sim. Espero que, de lá onde vão clinicar, façam um protesto melhor do que o que andamos vendo por aqui.


Texto de Marcelo Coelho, na Folha de São Paulo

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Vamos para onde os brasileiros não vão, diz cubano vaiado por médicos

Vamos para onde os brasileiros não vão, diz cubano vaiado por médicos


AGUIRRE TALENTO

DE FORTALEZA

Um dos médicos cubanos vaiados na noite de anteontem por um grupo de brasileiros em Fortaleza, Juan Delgado, 49, disse que não entende as razões da hostilidade. "Vamos ocupar lugares onde eles não vão", disse.
Uma foto que flagrou o momento em que Delgado era vaiado por duas brasileiras de jaleco branco saiu ontem na Primeira Página da Folha.
Ele e outros estrangeiros foram cercados em um protesto do Simec (Sindicato dos Médicos do Ceará), ao sair do primeiro dia do curso do programa Mais Médicos.
"Me impressionou a manifestação. Diziam que somos escravos, que fôssemos embora do Brasil. Não sei por que diziam isso, não vamos tirar seus postos de trabalho", afirmou ele.
O protesto em que manifestantes chamavam os cubanos de "escravos" foi gravado em vídeo pela Folha.
O médico disse que veio ao Brasil por vontade própria e que já trabalhou no Haiti.
"Isso não é certo, não somos escravos. Seremos escravos da saúde, dos pacientes doentes, de quem estaremos ao lado todo o tempo necessário", afirmou. "Os médicos brasileiros deveriam fazer o mesmo que nós: ir aos lugares mais pobres prestar assistência", completou.
Delgado diz acreditar, no entanto, que "não são todos" os médicos brasileiros que rejeitam a presença dos cubanos e acha que será possível dar assistência aos brasileiros mesmo em condições de infraestrutura precária.
"O trabalho vai ser difícil porque vamos a lugares onde nunca esteve um médico e a população vai precisar muito de nossa ajuda", disse.
Ele afirmou ainda que o desconhecimento da língua portuguesa não será um empecilho e que a população brasileira "aceitará muito bem os cubanos".
"Nenhum de nós vai voltar a Cuba. Estamos com vontade de começar logo a trabalhar e atender a população."

REAÇÃO

Ontem, o Ministério da Saúde e entidades de saúde do Ceará fizeram um desagravo aos médicos estrangeiros e classificaram de "intolerância, racismo e xenofobia" o protesto do Simec.
Horas depois, o presidente do sindicato, José Maria Pontes, disse que as vaias não foram dirigidas aos cubanos, mas aos gestores do curso.
"E quando os manifestantes gritaram 'escravo, escravo, escravo', não foi no sentido pejorativo. Foi no sentido de defesa, de que eles estão submetidos a trabalho escravo e que estamos lutando para mudar aquele vínculo."
Em Belo Horizonte, onde esteve ontem, a presidente Dilma Rousseff foi questionada sobre a vaia e respondeu: "Eu achei bom os aplausos".


Reprodução da Folha de São Paulo

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Por que apoio os médicos estrangeiros

Sei que o governo federal lançou o projeto Mais Médicos de forma improvisada como uma resposta às manifestações de rua.
Também sei que os problemas da saúde são complexos e apenas colocar médicos em cidades distantes não é a salvação.
Para acrescentar, devemos considerar que Alexandre Padilha, ministro da Saúde, é candidato ao governo de São Paulo --o que costuma trazer ingredientes eleitorais para uma questão técnica.
Mesmo assim, apoio a vinda de médicos estrangeiros porque é melhor algum médico do que nenhum médico.
Lembremos que a vaga foi oferecida a brasileiros, com uma bolsa de R$ 10 mil mensais mais ajuda de custo - o que é mais do que ganha um professor universitário no topo na carreira.
Se a vinda dos cubanos não estiver arranhando a lei local, ótimo. A formação de médicos em Cuba é respeitada internacionalmente.
Ou seja, não é a melhor solução, mas é alguma solução para os mais pobres sem acesso à saúde.
É melhor um médico falando portunhol do que nenhum médico falando.
Minha suspeita é que a reação de associações médicas - em alguns casos um tanto histéricas - estão mais ligadas aos interesses (ou supostos) da corporação do que do cidadão.

Gilberto Dimenstein, na Folha de São Paulo.


Comentário rápido: Se Gilberto Dimenstein suspeita que a reação das associações médicas estão mais ligadas aos interesses da corporação do que do cidadão, eu tenho quase certeza.

O percurso

Dos argumentos polêmicos contra a vinda de médicos do exterior, dirigentes corporativos da classe médica brasileira passaram a um histerismo gaiato e primário e já estão em atitudes fronteiriças de crimes, com a incitação aos médicos a "não socorrerem erros" que, imaginam, os estrangeiros cometerão. Sem trocadilho: trata-se de um processo nitidamente doentio.
A vinda de médicos cubanos anexou à reação corporativa a sua utilização ideológica pelos comentaristas conservadores. Já se acumulam bastantes indicações, aliás, de que também as exasperações de vários dos dirigentes corporativos da classe médica não são apenas corporativas. Seu recheio é ideológico, ainda tão nostálgico da guerra fria que não consegue disfarçar-se o suficiente, assim como se dá com os comentaristas. Quanto a isso, nada de novo, portanto. Nem de importante.
Mas, em tanta e tão descomposta reação em nome da classe médica, como ficam os carentes da atenção de um médico nas lonjuras onde nem um só foi jamais visto? Esses numerosos conselhos de medicina, essas inúmeras associações de médicos, esses incontáveis dirigentes corporativos nada têm a dizer que não seja contra o preenchimento estrangeiro dos buracos de sofrimento deixados por brasileiros pelo Brasil afora?
Não têm nem uma palavra proponente, alguma preliminar de plano, uma iniciativa viável, para intercalar nas reações vociferadas à vinda de estrangeiros? Não, não têm. Nunca tiveram, desde que as urgências da saúde pública voltaram a ser um problema de consciência nacional, perdida com as primeiras décadas do século passado.
O nível tão baixo em que está a ação dos dirigentes corporativos não é justo com a classe médica. As referências, digamos, domésticas a esse episódio parecem largamente favoráveis à vinda dos estrangeiros. E, nelas, os criticados por suas reações são "os médicos", assim generalizados.

Jânio de Freitas, na Folha de São Paulo

Mal na foto

As reações destemperadas de órgãos e conselhos médicos à vinda dos cubanos quase dão razão ao governo brasileiro. Quase.
O ponto alto do desvario corporativo foi o presidente do CRM mineiro afirmando que orientaria os médicos das Alterosas a não atender eventuais erros cometidos pelos cubanos --o que dá bem a medida da conta em que o CRM-MG tem o paciente.
O governo, porém, não fica muito melhor na foto. A ideia de levar médicos às áreas desassistidas é correta. Melhor ainda se levasse também a estrutura para fazer boa medicina, mas, como sabemos que isso não acontecerá tão cedo, que haja ao menos um profissional capaz de tratar diarreias, infecções e verminoses.
Como essas doenças têm alta prevalência nas áreas remotas e são relativamente fáceis de diagnosticar, é improvável que os cubanos, mesmo que tenham menor preparo técnico que os brasileiros, como dizem os conselhos, matem mais pessoas por iatrogenias variadas do que salvem. 
O argumento de que é errado os cubanos receberem bem menos do que seus colegas brasileiros para fazer a mesma coisa tem certo apelo. É incômodo ver o governo brasileiro se desdobrando para ajudar financeiramente uma ditadura. Mas diferenças no pagamento de médicos não são novidade. Quem entrar num hospital paulista vai se deparar com muitas camadas arqueológicas de médicos, atuando sob variados regimes e remunerações. Há estatutários, celetistas concursados, celetistas em contrato de emergência, profissionais vinculados a OSs etc. É estranho que as diferenças só mobilizem conselhos e procuradores agora.
O que é imperdoável mesmo é a declaração da AGU de que, se algum cubano requisitar asilo ao Brasil, terá seu pedido negado. Fazer negócios com ditaduras é uma coisa. Até a mais ética das democracias comercia com China, Arábia Saudita etc. Mas atuar como carcereiro para os irmãos Castro vai muito além da conta.


Texto de Hélio Schwartsman, na Folha de São Paulo.

Debate sobre os médicos me dá vergonha

O perfil dos médicos cubanos é o seguinte: em geral, eles têm mais de uma década de formados, passaram por missões em outros países, fizeram residência, parte deles ( 20%) cursaram mestrado e 40% obtiveram mais que uma especialização.
Para quem está preocupado com o cidadão e não apenas com a corporação, a pergunta essencial é: essa formação é suficiente?
Aproveito essa pergunta para apontar o que vejo como uma absurda incoerência - uma incoerência pouca conhecida da população - de dirigentes de associações médicas. Um dos dirigentes, aliás, disse publicamente que um médico brasileiro não deveria prestar socorro (veja só) se um paciente for vítima de um médico estrangeiro. Deixa morrer. Bela ética.
Provas têm demonstrado que uma boa parte dos alunos formados nos cursos de medicina no Brasil não está apta a exercer a profissão. Não vou aqui discutir de quem é a culpa, se da escola ou do aluno. Até porque para a eventual vítima tanto faz.
Mesmo sendo reprovados nos testes, os estudantes ganham autorização para trabalhar.
Por que essas mesmas associações, tão furiosas em atacar médicos estrangeiros, não fazem barulho para denunciar alunos comprovadamente despreparados?
A resposta encontra-se na moléstia do corporativismo.
Se os brasileiros querem tanto essas vagas por que não se candidataram?
Será que preferem que o pobre se dane apenas para que um outro médico não possa trabalhar?
Sinceramente, sinto vergonha por médicos que agem colocando a vida de um paciente abaixo de seus interesses.


Texto de Gilberto Dimenstein, na Folha de São Paulo.

sábado, 24 de agosto de 2013

Médicos cubanos: pode criticar, mas não é trabalho escravo


Se considerarmos que a condição dos médicos cubanos que estão sendo trazidos ao Brasil é de trabalho escravo contemporâneo, como querem fazer crer alguns contrários ao programa Mais Médicos, também teremos que incluir nessa conta milhões de trabalhadores do agronegócio, da construção civil, dos serviços que recebem salários abaixo do piso ou do mercado. O governo cubano deve receber os recursos das bolsas de R$ 10 mil e repassar parte delas aos seus médicos no Brasil.
Renato Bignami, responsável pela fiscalização de casos de escravidão em São Paulo, analisa que, a princípio, os elementos do novo programa do governo federal não caracterizam trabalho análogo ao de escravo. Se considerarmos que configuram a priori, parte do trabalho no Brasil seria escravo. Ou seja, um desconhecimento do artigo 149 do Código Penal, que trata do tema, e da jurisprudência em torno dele.
E os fiscais do trabalho já viram muita gente, inclusive escravos envolvidos em processos do próprio governo federal, como na produção de coletes para recenseadores do IBGE, em obras do Minha Casa, Minha Vida, do Programa de Aceleração do Crescimento, do Luz para Todos…
Ganhar pouco ou mesmo estar em condições precárias de trabalho são coisas diferentes de trabalho escravo. Estampar algo como “trabalho escravo” pode ser útil para dar notoriedade a um argumento, uma vez que é um tema grave e que gera repulsa por parte da sociedade. Mas, por isso mesmo, deve-se tomar muito cuidado ao divulgá-lo, que é o que os jornalistas que cobrem o tema tentam fazer o tempo todo. Saibam que muita coisa fica de fora porque não se sustenta.
De acordo com o artigo 149, são elementos que determinam trabalho análogo ao de escravo: condições degradantes de trabalho (aquelas que excluem o trabalhador de sua dignidade), jornada exaustiva (que impede o trabalhador de se recuperar fisicamente e ter uma vida social), trabalho forçado (manter a pessoa no serviço através de fraudes, isolamento geográfico, ameaças e violências físicas e psicológicas) e servidão por dívida (fazer o trabalhador contrair ilegalmente um débito e prendê-lo a ele).
Não espero que o corporativismo tacanho de alguns representantes de associações médicas entendam isso. Mas o cidadão comum, sim, precisa compreender a diferença.
Uma coisa é a política pública em si, de levar médicos estrangeiros ao interior do Brasil em áreas carentes, que – a meu ver – está correta. Outra é deixar de garantir direitos a grupos de trabalhadores, nacionais ou estrangeiros, o que não pode ser aceito.
Se a lei que sair do Congresso Nacional sobre essa política pública, oriunda da análise da medida provisória encaminhada pelo governo, retirar direitos, ela será inconstitucional. Pois mesmo se o regime de trabalho proposto pela MP for excepcional, ele precisa obedecer à Constituição. Caso contrário, vai naufragar. Simples assim.
Essa adaptação vai acabar ocorrendo via controle de constitucionalidade abstrata, pela Procuradoria Geral da República ou pela Procuradoria Geral do Trabalho, ou via milhares de ações individuais por parte dos próprios médicos envolvidos.
Ao mesmo tempo, é fundamental o Ministério Público do Trabalho monitore qualquer irregularidade que prejudique o trabalhador, fazendo com que o governo respeite a Constituição Federal (principalmente o artigo 7o, que versa sobre os direitos dos trabalhadores), as convenções da Organização Internacional do Trabalho e os tratados de direitos humanos dos quais o país é signatário. Prevenir é melhor que remediar.
“Acho difícil acreditar que a Organização Pan-Americana de Saúde validaria uma experiência com mão de obra escrava”, pondera José Guerra, secretário-executivo da Comissão Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo, vinculado à Secretaria dos Direitos Humanos da Presidência da República, lembrando que a vinda de médicos tem a parceira da Opas.
Marcus Barberino, juiz do trabalho da 15a Região e um dos maiores especialistas jurídicos em trabalho escravo contemporâneo, concorda que não é possível afirmar que o programa incorre em escravidão contemporânea. E que é preciso ter muito cuidado com o conceito. ”A proteção contra tratamentos discriminatórios ao trabalho é de âmbito constitucional e não permite tratamento distinto quanto aos direitos fundamentais. Fora da moldura constitucional, todo programa público será revisto pelo Judiciário naquilo que confrontar com a Constituição, que corresponde ao piso civilizatório universal”, afirma.
Como já disse aqui, a gente perde os cabelos, há anos, tentando fazer a bancada ruralista no Congresso Nacional entender que trabalho escravo contemporâneo não é qualquer coisa, como falta de azulejo no banheiro ou salário baixo, mas um pacote de condições que configura uma gravíssima violação aos direitos humanos. E, de repente, pessoas que desconhecem o tema usam-no em proveito próprio.
Como disse um médico amigo meu que conhece bem a fronteira agrícola amazônica e lá trabalhou: se esse povo todo que fala essas groselhas conhecesse o que é trabalho escravo de verdade ou, pelo menos, a realidade dos trabalhadores rurais do interior do país, não teria coragem de fazer esse paralelo absurdo.
Acima de tudo, isso é falta de contato com a realidade e de respeito com quem realmente está nessas condições e precisa ser resgatado para ter sua liberdade ou dignidade de volta.