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sexta-feira, 24 de março de 2017

O que Brasil pode aprender com o Canadá na área da saúde?

Quando converso com as pessoas que encontro aqui no Brasil é bem comum eu ouvir: "Você é canadense? A vida deve ser muito melhor que aqui: vocês têm uma saúde excelente por lá!".
Então decidi realmente entender isso. Será que o sistema de saúde canadense é melhor mesmo? E por quê? Nesse sentido, o Brasil tem algo a aprender com os canadenses e, quem sabe, vice-versa?
Ambos, Brasil e Canadá, têm um sistema de saúde universal, ou seja, o acesso é garantido por lei para todos os cidadãos. Mas observe os números: o Canadá tem expectativa da vida de seis anos a mais -84 anos contra 78 anos. Lá, a taxa de mortalidade infantil é cerca de três vezes menor –quatro para cada mil partos versus estratosféricos 14 para cada mil nascimentos no Brasil.
Vários outros índices canadenses têm, de fato, melhores resultados. Mas por que tanta diferença?
Há quem diga que o motivo é porque o Brasil, sendo um país tropical, tem doenças tropicais, mas a explicação é mais simples: o Canadá é mais rico.
O PIB per capita (indicação de quantos recursos existem para cada cidadão) é de R$ 132.000 por ano no país do hemisfério norte. Já no Brasil, é de apenas R$ 26.000 por ano –cinco vezes menor.
Mas não adianta ser só rico, precisa-se investir bem, e o Canadá investe muito mais em saúde, direcionando 11% do PIB à área. Já no Brasil, utiliza-se algo em torno de 8%. Aqui, portanto, são 35% a menos de recursos –simplesmente não se emprega dinheiro suficiente para se chegar ao nível de saúde que o Canadá tem.
Além disso, a população canadense é de apenas 35 milhões de pessoas. Já no Brasil, são 200 milhões –o país é considerado o maior do mundo com sistema de saúde 100% universal–, e o governo precisa garantir atendimento básico, de alta complexidade e remédios para todos os habitantes. Claramente, um desafio imenso que demanda altíssima eficiência em gestão.
Contudo, não é só isso. Também acredito em outros fatores, menos visíveis, para explicar tanta diferença nos números relacionados à saúde entre os dois países.
Um exemplo: o Brasil tem um sistema de saúde suplementar (via planos de saúde) que atende 25% da população. Já no Canadá, a saúde privada não é permitida a existir da mesma forma –são autorizados planos de saúde para apenas alguns procedimentos eletivos, odontológicos e medicamentos caros.
Agora, imagine se no Brasil as classes sociais mais altas precisassem usar as mesmas clínicas e hospitais que as mais baixas. Será que o sistema de saúde público melhoraria?
Mais um ponto: o Canadá tem uma cultura muito mais saudável. Eles consomem muito menos fast foods e refrigerantes e valorizam comida fresca e atividades físicas. Há também bastante espaço público, como parques e calçadas bem cuidadas. Os canadenses também são menos estressados.
No Brasil, a maioria da população mora em cidades, mas sem acesso democrático a espaços públicos para fazer esportes e atividades físicas. Não é uma surpresa saber que o país está sofrendo com a obesidade e as doenças causadas por ela, como diabetes e cardiovasculares.
Segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde), o Brasil ocupa a 125ª posição no ranking mundial que avalia sistemas de saúde. Descobri que Canada é o número 30! Nem está no top 10. Realmente, fiquei chocado porque sempre pensei que ele era um dos melhores. Mas na verdade não é.
No Canadá, você precisa ver um médico? Agende com uma semana de antecedência. Um dermatologista? Um mês. Precisa fazer uma ressonância ou tomografia? Fila de espera de dois meses. Transplante? Podem ser anos. Por lá, alguns remédios simplesmente não existem –é necessário pagar por eles sozinho (não é como no Brasil que o governo, muitas vezes, subsidia).
De certa forma, o Canadá oferece uma cobertura básica muito boa, mas algumas pessoas acabam "escapando entre os dedos". E se o Canadá é o número 30, quem ocupa primeiro lugar? A França.
E o que ela faz para estar no topo do ranking mundial? Primeiramente, investe e muito. Mais de 20% dos salários dos franceses vão para a saúde. Há um sistema privado e público, mas o governo se envolve bastante como regulador, por exemplo, controlando gastos hospitalares.
A França também foca bastante as doenças mais caras –diabetes, saúde mental e câncer– e paga 100% dos custos com remédios, cirurgias e outras terapias. Por isso, os franceses estão muito satisfeitos e seguros em termos de sua saúde.
Outro diferencial interessante é o quanto eles priorizam a primeira infância (de zero a três anos). O governo reconhece a importância desse período da vida para a saúde em longo prazo. Por isso, novas mães na França têm condições luxuosas: após o parto, por exemplo, por lei podem ficar meses afastadas, recebendo uma bolsa financeira generosa para cuidar do bebê.
Além disso, enfermeiras são designadas para visitas frequentes à casa delas, e as creches são subsidiadas e de altíssima qualidade.
Há alguns fatores fundamentais que dificultam melhorias rápidas em saúde. De outro lado, há muito que pode ser feito sem ter tantos recursos financeiros: coisas como melhorias em gestão, uso de tecnologia, investimento em primeira infância, e mudanças na cultura.
Sem esses tipos de ações, o Brasil não apenas arrisca não melhorar a saúde, mas também compromete todo o progresso conquistado nas últimas décadas.


Texto de Michael Kapps, para a Folha de São Paulo

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Médicos se suicidam cinco vezes mais que a população em geral

"Estou enfrentando no hospital onde trabalho algo que não é incomum entre meus colegas: que precisamos contribuir mais com solicitação de exames. 'A RM [ressonância magnética] está muito subutilizada', tive que escutar."
"É duro ver colegas fazer coisas desnecessárias. Dias desses, um deles indicou ecodoppler de carótidas ao meu pai, exame que todas as sociedades lá de fora orientam não fazer em pacientes assintomáticos, que é o caso dele. Depois queriam lhe meter um CAT [cateterismo cardíaco]. Tudo isso só serviu para o meu pai falar todo dia que terá um AVC e se preparar para morrer de algo tão incerto quanto a vida."
"Estimo que grande parte das nossas cirurgias sejam desnecessárias e atendem apenas à política do hospital. É muito interessante avaliar o mapa cirúrgico de cada hospital. Para grande surpresa, é completamente diferente de um hospital para outro. Como é possível, pois se trata de uma população relativamente homogênea na saúde suplementar?"
"Como você acha que se sente o médico que estuda, tem a recomendação de várias sociedades para pensar mil vezes antes de colocar uma sonda em paciente com demência avançada, e se vê em hospitais remando contra a maré, com grupos de terapia nutricional altamente agressivos, porque simplesmente o hospital é varejista do insumo, o revende por 400%?"
"No dia a dia o que mais vejo é: médico extorquindo o convênio e o hospital, hospital extorquindo convênio, convênio priorizando atendimento amalucado do hospital e não valorizando médico que faz um trabalho de qualidade, população que só frequenta pronto-socorro, zero de prevenção".
"Você instiga eles [hospitais] a repensar processos, identifiquei, por exemplo, que muitos pacientes que passavam pela Emergência e não precisavam ficar, acabavam fazendo investigação ambulatorial em outro lugar. Propus que azeitássemos isso, que aumentariam exames, no caso necessários. Mas eles querem sempre o atalho. E o atalho é fazer exames em quem não precisa."
"Estou saindo [do hospital]. Estão colocando no meu lugar alguém que vê com naturalidade essa história de "pedir mais exames", aliás, é uma metralhadora de pedir exames."
"Enfrentamos hoje na saúde uma epidemia de desesperança e tristeza. É incrível o número crescente de colegas que tenho visto em Burnout (enfermeiros também, não apenas médicos). Suicídio é algo que não temos muita notícia oficial, mas tenho percepção de crescimento proporcional."
"Tenho um colega, talvez o cara mais brilhante que já conheci, que nunca mais se recuperou de um episódio depressivo. Anda nitidamente impregnado por essas drogas da psiquiatria, trabalha/licença, trabalha/licença, já não se percebe se o pior é a doença ou efeitos de tratamentos. Nesse ínterim, a mesma história com vários amigos. É muita história triste para uma profissão que tem tudo para ser linda!"
*
Caros doutores, obrigada pelas mensagens ao longo deste ano e pela confiança em dividir comigo um pouco das suas angústias e pressões do dia a dia na atividade médica.
Compartilho muito dessas preocupações e tenho usado várias delas como gancho para reportagens e colunas sobre o tema. Na minha opinião, essas angústias deveriam ser de todos que desejam um sistema de saúde melhor.
Um sistema que premie seus profissionais e seus prestadores de serviços pelo bom atendimento, não pela quantidade de procedimentos feitos, muitos deles desnecessários. Um sistema que valorize a saúde das pessoas, não as doenças (verdadeiras ou não) e o lucro que elas podem gerar. Um sistema que invista prioritariamente na prevenção e na promoção de saúde.
Sim, os sistemas de saúde (público e privado) estão doentes, mas a razão da coluna de hoje é para falar um pouco da saúde de vocês. Especialmente da saúde mental. O suicídio recente de uma colega de vocês, a médica de família Valquíria, 31, me comoveu. Ela e o filho de dois anos morreram asfixiados na noite de 10 dezembro. Na carta de despedida, disse que não aguentava mais.
Não sei das razões que motivaram Valquíria a acabar com sua vida e a do filho. O que sei é que os recentes casos de suicídio entre vocês têm preocupado toda a categoria. E a mim também.
Neste ano, sete médicos do Estado de Pernambuco se mataram. Recentemente, um outro se suicidou no estacionamento de um hospital privado de Porto Alegre. Desconheço estatísticas oficiais sobre o aumento de suicídio na categoria médica, mas, de qualquer forma, o assunto tem aparecido em vários fóruns.
Em setembro, foi debatido no Encontro Nacional de Conselhos de Medicina. Segundo a psiquiatra Alexandrina Meleiro, estudos internacionais indicam que os médicos se suicidam cinco vezes mais que a população geral. Entre os principais motivos estão o acesso a meios mais eficazes de letalidade, isolamento social (desde a faculdade), situação conjugal insatisfatória e precária situação de emprego.
"O médico é facilmente frustrado em suas necessidades de realização e reconhecimento. E isso é suficiente para produzir a ansiedade, a depressão, a hipocondria, o abuso de álcool e outras substâncias, que, infelizmente, podem culminar no suicídio."
Estudos apresentados pela psiquiatra sugerem que os anestesistas e os psiquiatras são os mais vulneráveis. Entre os alunos de medicina, o grupo de alto risco se concentra naqueles que demonstram melhor performance escolar, são mais exigentes, têm pouca tolerância a falhas, sentem mais culpa pelo que não sabem e ficam paralisados pelo medo de errar.
O simples ato de conversar é uma das formas mais eficazes de se prevenir o suicídio. Não só de médicos. O CVV (Centro de Valorização da Vida) faz um trabalho incrível nessa área. Talvez entre vocês seja mais complicado se abrir, pedir ajuda, se mostrar vulneráveis. A vida não anda fácil para ninguém e bem sei que, muitas vezes, está difícil de encontrar saídas.
Neste momento, porém, só quero agradecer a todos que se mantêm fiéis aos princípios hipocráticos, especialmente no que diz respeito a "fazer o bem aos doentes e manter-se longe de todo o dano voluntário e de toda a sedução."
Sim, há muitos que fraudam o SUS, que dão um jeito de registrar presença sem dar as caras na unidade de saúde, mas há outros tantos que dão a vida pelo sistema e pelos pacientes. Há muitos aceitam (e até cobram) os "bônus" da indústria de medicamentos, de próteses e órteses, ou que se aliam aos hospitais na prática frenética de exames e cirurgias desnecessárias. Mas há outros que resistem, que dizem não.
A vocês, meu muito obrigado. Dedico-lhes um trecho da obra "O Poder do Mito", de Joseph Campbell (1904-1987): "Persiga a sua bem-aventurança e não tenha medo. As portas se abrirão lá onde você não sabia que havia portas." Um ótimo Natal para vocês!"


Reprodução do blogue de Cláudia Collucci, na Folha de São Paulo

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Líder dos problemas, saúde não mobiliza, não enche a Paulista

A saúde voltou a ocupar o lugar de onde nunca saiu de fato: a liderança dos principais problemas do país. Segundo pesquisa Datafolha publicada no domingo, 33% consideram a assistência médica a grande falha do país e 16%, a corrupção, que neste último ano havia ocupado o topo do ranking.
Não que neste período a saúde tenha melhorado. Ela só foi ofuscada momentaneamente pelo impeachment de Dilma Rousseff (PT) e pelas inúmeras denúncias de desvios de recursos públicos que vieram à tona com a Operação Lava Jato.
De resto, a coisa continua de mal a pior. Faltam medicamentos, alguns básicos, em toda a rede de saúde, vários serviços estão reduzindo atendimento, as filas de espera por cirurgias eletivas estão a perder de vista. Sem contar as arboviroses (dengue, zika e chikungunya) que neste ano devem bater recorde histórico, ultrapassando a marca dos 2 milhões.
Isso tudo em momento em que as pessoas estão perdendo o emprego (e, consequentemente, seus planos de saúde) e indo bater na porta do SUS. Como desgraça pouca é bobagem, há também o temor com os impactos do congelamento de investimentos federais no SUS ao longo dos 20 anos de vigência da PEC 55.
O interessante é que, a despeito de liderar por anos o ranking das insatisfações dos brasileiros, a saúde não mobiliza, não enche a avenida Paulista. Talvez porque os grupos com poder de mobilização não se identificam com o SUS, pouco se importam com o seu sucateamento.
Na última quinta (8), médicos sanitaristas, economistas e outros especialistas da área debateram o assunto no Instituto de Estudos Avançados da USP (Universidade de São Paulo). Uma questão importante levantada foi a desigualdade, explicitada nas taxas de mortalidade infantil na capital paulista.
Um mapeamento da Prefeitura de São Paulo, por exemplo, aponta duas vezes mais mortes de crianças nos bairros da zona leste, mais pobres, do que em Pinheiros, de classe média alta, na zona oeste.
"Qualquer pesquisa de opinião coloca corrupção e saúde entre os temas de maior importância no Brasil. A desigualdade, porém, aparece como problema de menor importância, ao contrário do que ocorre na maioria dos países", lembrou Gastão Wagner, professor da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas e presidente da Abrasco (Associação Brasileira de Saúde Coletiva).
Para ele, a total desconsideração pelo ser humano pode ser vista em cidades mais feias, sem áreas verdes, na segregação horrenda das favelas e comunidades das grandes cidades sem saneamento básico. "Isso seria resolvido com R$ 15 bilhões, segundo estudos, o que são trocados. Temos tradição de desrespeito à população", disse.
A médica sanitarista Ligia Bahia, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, defendeu a participação dos economistas em estudos e na defesa do SUS. "Precisamos que eles se metam na saúde. Não é possível que não falem em saúde, porque é de financiamento que mais falamos; é o maior problema."
Ela criticou a isenção fiscal de gastos com a saúde, que considera vergonhosa e uma das causas mais importantes dos problemas de caixa do SUS. "E nessa crise toda, o tema não chega às mesas de debates. O governo da Irlanda acabou recentemente com a dedução fiscal na saúde. Não se trata de ser de esquerda ou de direita. Na defesa pelo SUS, precisamos da economia", disse.
Além de economistas, o sistema público de saúde precisa também de bons gestores. A diferença que eles fazem pode ser vista nas ilhas de excelência do SUS. Muitas padecem da mesma falta de financiamento de outras unidades, mas conseguem se sobressair. O SUS precisa de gestores que, sobretudo, não fechem os olhos para o desperdício e para as fraudes.
O SUS também precisa de nós, mesmo que a gente ache, por ignorância ou preconceito, que não precisa dele. Faço minhas as palavras da Ligia. Não se trata de ser de esquerda ou de direita. Trata-se de exercer a cidadania, de ter consciência das suas obrigações e direitos, lutando para que sejam colocados em prática. E isso vai muito além de vestir uma camiseta verde e amarelo.


Texto de Cláudia Collucci, na Folha de São Paulo

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Acesso a plano de saúde despenca; saúde pública sofre com crise e ministro sinistro

Quanto menos emprego formal, com carteira assinada, menos gente tem plano de saúde. Mais pessoas passam a recorrer à saúde pública. Óbvio.
O descalabro administrativo quase geral e a queda da receita de impostos limitam ao mínimo obrigatório, se tanto, os recursos para o SUS. Odesemprego ainda deve aumentar pelo menos até o fim de 2017. A aguda crise fiscal vai durar ainda uns três anos, para ser otimista.
Desde dezembro de 2014, começo da fase horrenda da recessão, o número de empregos formais no país diminuiu 2,07 milhões. O número de "beneficiários de planos privados de assistência médica" baixou 1,91 milhão.
O número de empregos formais e de segurados que têm planos de saúde por meio de empresas é muito parecido (39,2 milhões e 38,6 milhões, respectivamente). Outras tantas pessoas ficam descobertas também por não poderem pagar seus planos particulares, por desemprego ou quebra de seus pequenos negócios. Óbvio.
O prognóstico é, pois, de desgraça. Óbvio.
A fim de enfrentar essa crise angustiante, temos a liderança sinistra do ministro da Saúde, despreparado mesmo para conceder entrevistas jornalísticas elementares.
Até agora, entre tantos disparates, o ministro foi capaz apenas de propor a criação de um plano de saúde marca barbante vagabundo, um remendo de interesse apenas das empresas prestadoras de serviços de saúde. Não é novidade.
Faz década e meia, os ministros da pasta são uns tipos indizíveis, vários deles enrolados em corrupção ou ignorantes grosseiros. "Bom dia, garotada. Tudo legal? Deixa eu fazer uma pergunta: vocês acham que têm o crânio normal?", disse o último tipo que ocupou o cargo sob Dilma 2, quando fazia campanha de "esclarecimento" sobre a zika.
Faz tempo, inclusive na quase década e meia de governo "de esquerda", não há discussão nacional sobre a reorganização do SUS, desconjuntado depois de quase 30 anos de existência, intervenções pontuais de governos marqueteiros, privatizações parciais e outras mexidas que tiraram o caráter de "único" do sistema, entre outros problemas.
No entanto, o problema imediato é o dos efeitos diretos da recessão, do desemprego e do colapso financeiro e administrativo dos governos e de tantos plano de saúde.
O "modelo" está pifado. Empresas quebram. Algumas boas têm dificuldades de equilibrar as contas. As empresas, no geral, são vendedoras de seguros, não companhias dedicadas à saúde.
Especialistas da área não cansam de dizer que o sistema é ruim e custoso também porque as empresas não tratam de saúde. Isto é, de cuidados rotineiros e preventivos que evitam doenças perigosas e caras: é um problema casado de saúde e economia.
Há quem ainda aponte (economistas) a necessidade de haver algum tipo de copagamento ou franquia (como em outros seguros), a fim de limitar uso excessivo de serviços. Sim, parece feio falar do assunto, mas há desperdício e tentativas de criar incentivos a fim de evitá-los mesmo em sistemas públicos razoáveis, como o francês e o britânico.
Há discussão séria e urgente a fazer, ainda mais agora, na agonia da crise. Mas, além de besteira variada, o que o ministro da Saúde tem a dizer é propaganda de plano de saúde gambiarra.


Texto de Vinicius Torres Freire, na Folha de São Paulo

terça-feira, 26 de julho de 2016

Plano barato pode ser cilada, não saída para saúde

A recente proposta do ministro da Saúde, Ricardo Barros, de criar planos de saúde populares como alternativa para desafogar o SUS tem polarizado o setor, conforme ficou claro na página "Tendências/Debates" da Folha no último sábado (23).
De um lado a advogada Solange Palheiro Mendes, presidente da FenaSaúde (Federação Nacional de Saúde Suplementar), defendeu que a medida é uma alternativa para quem hoje está sem convênio médico. Nos últimos 12 meses, 1,6 milhão de pessoas abriram mão dos seus planos porque perderam o emprego ou não conseguem mais pagar planos particulares.
"[Esse contingente de pessoas] Não poderia ter, ao menos, a possibilidade de escolher a adesão a um plano mais básico e barato do que os ofertados hoje? Em uma sociedade fundada na livre escolha, é justo tolher outras opções?", questiona.
Há tempos que o setor deseja a entrada de produtos mais baratos no mercado que diminuam os custos das operadoras e "caibam no bolso" dos empregadores e de pessoas físicas. Ocorre que hoje isso esbarra na atual lei que rege o mercado de planos de saúde. Pela legislação, os planos de saúde são obrigados a manter um nível de cobertura que atenda a todas as doenças da CID 10 (lista oficial da Organização Mundial da Saúde).
Mario Scheffer, professor da USP e vice-presidente da Abrasco (Associação Brasileira de Saúde Coletiva) sustenta que "plano popular é um barato que sai caro."
"Por isso, não existe em nenhum país do mundo que adote sistema universal ou mecanismos coletivos para proteger a saúde dos cidadãos. Simplesmente porque saúde é um direito humano, as necessidades não são previsíveis e o risco de adoecimento não pode ser customizado em um plano promocional."
Barros argumenta que 85% dos problemas de saúde da população poderiam ser resolvidos na atenção primária e que, portanto, poderiam ser cobertos por "planos populares", que ficaram desobrigados a oferecer tratamentos mais complexos.
O grande gargalo hoje no país é por procedimentos de média e alta complexidade, que no ano passado consumiram 42% do orçamento do Ministério da Saúde. Consultas e outras ações de atenção básica responderam por 14%.
Do ponto de vista de mercado, a proposta é ótima e, tendo o ministro como principal defensor, tem grandes chances de passar.
Do ponto de vista de saúde do consumidor, pode significar uma grande cilada. Os atuais planos baratos, com cobertura básica, já cometem hoje inúmeros abusos. Têm uma rede credenciada de médicos reduzida, criam obstáculos e barreiras para a assistência de idosos e doentes crônicos, adotam reajustes proibitivos, além de negativas e exclusões de coberturas.
Fora o fato de que a proposta é parecida com a das chamadas clínicas populares, que oferecem consultas e exames baratos. Até em algumas estações do Metrô já é possível fazer consultas "express" por menos de R$ 100.
Mas, em ambos os modelos, essas clínicas não se responsabilizam pelo cuidado integral do paciente. Se ele descobre numa dessas consultas que tem câncer, por exemplo, ou terá que pagar o tratamento na rede privada ou recorrer ao SUS, o que é mais provável.
Sim, o consumidor tem todo direito de investir o seu suado dinheirinho em um plano de saúde "meia-boca", que pode deixá-lo na mão numa situação de mais gravidade. Só precisa estar ciente disso para não comprar gato por lebre.


Texto de Cláudia Collucci, na Folha de São Paulo

terça-feira, 7 de junho de 2016

Você usa o SUS e nem se deu conta disso

Você usa o SUS? Sim, certamente você usa, mas talvez nunca tenha se dado conta disso. Eu tenho plano de saúde empresarial há quase 30 anos, desde que ingressei no mercado formal de trabalho, mas sou usuária do SUS.
Já utilizei o sistema várias vezes. Em duas delas, após graves acidentes de trânsito. Fui prontamente atendida pelo Samu e levada a hospitais públicos de referência em traumas.
Obviamente, não havia nenhum luxo ou mordomia de que estamos acostumados nos hospitais privados. Nas duas vezes, fiquei em macas nos corredores lotados e, depois, fui transferida para enfermarias igualmente lotadas.
Mas tinha a certeza de que ali receberia a melhor assistência, já que os profissionais desses hospitais-referência têm expertise, estão acostumados a atender acidentados todos os dias. Não há hotelaria no mundo que supere isso.
Em outras ocasiões, já recebi vacinas em postos públicos –a antitetânica e a contra a febre amarela, pelo menos. Meus pais também têm plano de saúde, mas buscam medicamentos no Programa Farmácia Popular.
Também já foram atendidos e internados no Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto. Nessas ocasiões, também tive a certeza de que estariam mais bem atendidos ali do que no hospital "do plano".
Não é só de assistência médico-hospitalar que estou falando. Na verdade, todos nós usamos o SUS todos os dias. Ao comprar alimentos ou ao comer em restaurantes, por exemplo, tem ali o dedo da Vigilância Sanitária.
Ao tomar um remédio ou usar um cosmético, existe um registro da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). Os exemplos são vários e estão contemplados neste excelente vídeo produzido pelo Idisa (Instituto Sanitário de Direito Aplicado).
Reforçar essa consciência de que o SUS é meu, é seu, é nosso deveria existir desde sempre. Pelo menos desde 1988, quando ele foi criado. Talvez se isso tivesse ficado mais claro para a população, teria havido mais engajamento, mais carinho pelo bem público. E mais luta para evitar o desmantelamento que a gente assiste hoje.
Vejo essa questão como suprapartidária, acima da ideologia de qualquer partido. Ter direito a um sistema que dá a possibilidade de todos os brasileiros serem cuidados pelos serviços de saúde públicos é uma condição de cidadania, fortemente defendida por diversos países europeus, além do Canadá. É muito diferente de quando se paga por saúde já que, nesse caso, você é apenas e tão somente um consumidor. E só tem direitos se
puder pagar por eles.
Tenho muitas críticas ao SUS (e ao sistema privado também, como venho pontuando neste espaço), mas não tenho dúvidas de que não podemos abrir mão do sistema público de saúde jamais.
Nos últimos tempos, surgiram no front diversas possibilidades de retrocessos nas políticas públicas de saúde. Dias atrás, a equipe econômica do presidente interino Michel Temer (PMDB) anunciou uma mudança na base de cálculo do orçamento do SUS, que deixa de ser vinculado às receitas correntes líquidas (RCL) e passa a ser pela variação da inflação no ano anterior.
Outra questão é a PEC 143, em tramitação no Senado, que pretende desvincular 25% das Receitas da União, Estados e Municípios, o que pode reduzir o financiamento do SUS. A estimativa é que, se a proposta for aprovada, o sistema deixe de arrecadar R$ 80 bilhões.
Nesta semana, estão previstos diversos protestos contra essas medidas e contra o governo de Michel Temer. Sim, há ameaças de retrocessos, porém, é preciso lembrar que o subfinanciamento e o sucateamento do SUS, além do aumento de incentivo a grupos privados de saúde por meio de isenções fiscais, estão aí no cenário há tempos, a despeito de 13 anos de governo de esquerda. Muitos dos ativistas que levantam a bandeira agora assistiram a tudo isso bem quietinhos nos últimos anos. Ser pedra é fácil, difícil é ser vidraça.


Texto de Claudia Collucci, na Folha de São Paulo

domingo, 31 de agosto de 2014

Médico denuncia privatização dos hospitais gaúchos

Hospital da Restinga – Construído com recursos Federais.
Não vi e não ouvi nenhuma menção ao fato de que o Hospital da Restinga foi construído com uma “doação” de recursos (R$ 65 milhões) feita pelo Ministério da Saúde ao Hospital Moinhos de Vento (a alegação é de que o Hospital Moinhos de Vento é uma entidade filantrópica – não sei em que mundo – nenhum paciente do SUS jamais passou pela porta do HMV – e se passou deve ter sido barrado em seu interior). O Hospital Moinhos de Vento, assim como o Hospital Mãe de Deus, é tão filantrópico como a Santa Casa de Misericórdia que declara para a imprensa que atende 62% de Planos Privados e mais 5 a 10% de privados puros – quando deveria atender 60% pelo SUS. E o terreno, pelo que sei, foi doado pela prefeitura de Porto Alegre ao HMV. Essa é a nossa “Saúde Pública”. Já comentei em outro artigo que 84% dos leitos hospitalares do Rio Grande do Sul são privados. E que o setor privado detêm de 7 a 10 vezes mais equipamentos para exames complementares do que o SUS. Deveriam ser 84% públicos e o restante privado. Nesta conta não estão incluídos os 120 leitos do Hospital de Clínicas que ficam à disposição de quem tem Plano Privado ou pode despender o dinheiro necessário para ser internado de forma privada no H. Clínicas.
O que é uma pouca vergonha.
E aí aparece na imprensa uma história declarando que os leitos do Hospital da Restinga não são utilizados por falta de profissionais médicos!!!!!
Faltam médicos em Porto Alegre? Desde quando?
Porto Alegre tem uma das maiores taxas de médicos por habitante do país.
O que existe é uma vergonhosa política de privatização e subsídio ao setor privado, transformando o “setor público’ em um setor desqualificado e de dificílimo acesso. Filas e mais filas, meses para ser atendido por um especialista e assim vai.
É uma desfaçatez. Em 2013 a arrecadação de impostos pelos governos foi de 1 trilhão e 700 bilhões. Desse total, 1 trilhão fica com o governo Federal. Não daria para disponibilizar os 160 bilhões para a saúde e fazer uma saúde decente para o povo.
Falta de dinheiro não é. É falta de vergonha.
E ainda temos, como também já comentei, um Laboratório de Fabricação de Medicamentos – LAFERG S – que há 15 anos não produz nenhum tipo de medicamento. Também não é falta de recursos financeiros. É uma política deliberada de beneficiar os setores privados que vendem medicamentos.
Espero que nas próximas eleições o povo eleja um governo comprometido com os interesses da população e não de um punhado de setores privados – se é que existe algum candidato com esse perfil. Eu particularmente, penso que não.
Nem no Estado e nem em nível Federal.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

O NHS e a utopia (ou os milagres) do SUS


O SUS é utopico e opera alguns milagres com os recursos de que dispõe. Sejamos mais claros.
Qualquer promessa de melhora da saúde pública brasileira deve vir acompanhada de discussões sobre o financiamento. Não precisa ser um especialista para saber. Hoje o National Health Service, da Inglaterra, que nos serviu de inspiração, consome anualmente 109 bilhões de libras, ou quase R$ 403 bi. Isso para atender menos de um terço da população que temos no Brasil. Se quisermos adequar o orçamento à nossa densidade demográfica (sem considerar as sobrecargas de um país em desenvolvimento, como efeitos da violência e do ainda precário saneamento, sem contar a incomparável extensão territorial), teríamos que garantir, por baixo, R$ 1,3 trilhões, para garantir a mesma média de investimento por pessoa.

Ora, isto é simplesmente impossível. O orçamento total da União hoje, sem considerar, portanto, os recursos de estados e municípios, é de R$ 2,48 tri. É como se metade de todo o dinheiro disponível fosse bancar a saúde. Mas também queremos educação, infraestrutura, bons salários para profissionais, etc.

Está mais do que na hora de colocar a discussão às claras para a população. Mas há interesses em não abrir o jogo: governos não querem passar por incompetentes, pedindo mais dinheiro; a grande mídia gosta de esconder o drama do subfinanciamento para jogar políticamente com a falta de informação; oposições se aproveitam para prometer o impossível; por fim, entidades representativas dos médicos usam de demagogia para garantir benesses corporativas. Não precisamos nem falar do lobby de planos de saúde, responsáveis pela campanha contra a CPMF.
Está todo mundo errado. Grande parte da população realmente acredita que é possível fazer saúde (universal e gratuita) de país desenvolvido com PIB de país em desenvolvimento. Ou nos contentamos com menos. Ou temos que discutir novas fontes.

Para piorar, um maldito lugar comum que se reproduz como bactéria: bastaria ter melhor gestão e eliminar a corrupção. Ora, nem a Inglaterra conseguiu fazer isso. Os recursos perdidos naquele país, com fraudes e corrupção, chegam a 7 bilhões de libras, ou quase 26 bilhões de reais, anualmente. Nada garante que nossos desvios e desvãos superem, proporcionalmente, esta marca.

Portanto, a discussão prévia e necessária é: mais dinheiro. O resto é complemento.
Por outro lado, diante de um quadro como este, se o SUS ainda consegue ser visto como bom e ótimo para 30% da população, e ao menos razoável para outros 44%, nada se assemelhará mais a um autêntico milagre de gestão. Observe que o orçamento da saúde privada é proporcionalmente muito maior que a da saúde pública, e ainda assim consegue uma aprovação modesta da opinião pública.
Fontes:
Sobre orçamento e funcionamento do NHS:http://www.nhs.uk/NHSEngland/thenhs/about/Pages/overview.aspx

Reprodução do Jornal GGN.

terça-feira, 29 de julho de 2014

Um médico pra chamar de seu


Nunca houve um médico como o doutor Clodoaldo. Pelo menos não para a minha família. Clínico-geral, ele era a referência para qualquer tipo de problema. Do mal de Parkinson da minha avó, passando pela erisipela da minha tia e a hérnia do meu pai, ele sempre foi pau pra toda obra.
Era o médico da nossa família. E de milhares de outros ribeirão-pretanos que lotavam o seu consultório, na Vila Tibério, à procura de solução para os seus problemas de saúde. Estou usando as frases no passado apenas por não ter notícias recentes do dr. Clodoaldo. As últimas que tive, ano passado, davam conta de que ele continuava na ativa, aos 83 anos, atendendo de 15 a 20 pessoas todos os dias.
Preciso em seus diagnósticos, praticamente salvou a vida do meu pai anos atrás quando detectou uma apendicite supurada. Meu velho já tinha passado duas vezes pelo pronto-socorro. Nas duas vezes, foi "examinado" pelos doutores de plantão, que mal o tocaram.
Prescreveram analgésicos e o mandaram de volta para casa. Com muita dor e febre, ele procurou o dr. Clodoaldo no consultório que, num simples toque, percebeu a gravidade e o encaminhou direto para a cirurgia. Sorte. Já estava com infecção generalizada.
Mais sorte ainda foi ter caído nas mãos do dr. Balduíno, experiente cirurgião do aparelho digestivo, que tão bem soube conduzir o caso. Aos 84 anos, dois infartos e uma dengue complicada no currículo, "seu" Haroldo segue firme e forte cultivando a sua horta.
A história é só para lembrar a diferença que faz na vida a gente ter um bom médico. O nosso médico. Também tenho a minha, a Lilian, muito mais do que a minha ginecologista. É a pessoa que já me orientou nas mais diversas situações, mesmo à distância. De uma intoxicação alimentar na Colômbia a uma crise de sinusite nos EUA.
A Lilian e o Clodoaldo são dois exemplos de médicos que me fazem acreditar veemente que a maior parte das nossas queixas pode ser resolvida longe dos pronto-socorros, sem necessidade de exames invasivos ou do uso de alta tecnologia. Só depende de alguém que te escute, que te toque e que te enxergue.
Por isso é bem-vinda a iniciativa de alguns planos de saúde de investirem em programas de saúde da família, conforme reportagem publicada nesre domingo (27). São ainda iniciativas isoladas, mas representam um passo para melhorar a assistência privada no país.
Presente no SUS há 20 anos, o PSF (Programa de Saúde da Família) já promoveu importantes mudanças na saúde pública (ainda há muito o que melhorar, não há dúvida) e deveria ser usado como modelo para os planos privados.
Aliás, o ideal seria que os dois sistemas (público e privado) conversassem de alguma forma.
Não é preciso ser um PhD pela Universidade Harvard para saber que uma rede de cuidados básicos, bem articulada com os demais níveis de assistência, é o pilar de qualquer qualquer sistema sério de saúde. Essa história que a gente assiste hoje, de o paciente ficar rodando de médico em médico, de pronto-socorro a pronto-socorro, é a coisa mais contraproducente que existe.
Ninguém ganha com isso. Os planos perdem dinheiro. E o paciente, muitas vezes, a vida.


Texto de Cláudia Collucci, na Folha de São Paulo

terça-feira, 15 de julho de 2014

O fracasso do Obamacare é não fracassar


Quantos norte-americanos sabem como a reforma da saúde no país está se saindo? Aliás, quanta gente na mídia noticiosa vem acompanhando os desdobramentos positivos?
Suspeito que a resposta à primeira pergunta seja "não muitos", e que a resposta à segunda seja "talvez ainda menos", por motivos que exporei adiante. E se estou certo, isso é realmente notável - um imenso sucesso em termos de política pública está melhorando as vidas de milhões de norte-americanos, mas no geral sem atrair grande atenção.
Como é que isso é possível? Bem, uma negatividade incansável, acompanhada pela irresponsabilidade propiciada pela falta de prestação de contas, serve como resposta. A Lei de Acesso à Saúde vem enfrentando incessantes ataques partidários e da mídia de direita, e a mídia mais equilibrada também vem tendendo a insistir mais em seus problemas do que nos pontos positivos.
Muitos dos ataques envolveram previsões de desastre, e nenhuma delas se concretizou. Mas a ausência de desastre não propicia manchetes atraentes, e as pessoas que previram falsas calamidades não param de voltar com novas profecias catastróficas.
Considere, especialmente, o impacto do Obamacare sobre o número de norte-americanos desprovidos de planos de saúde. O fiasco inicial no site do governo federal para o plano produziu muita alegria na direita e muitas reportagens negativas na mídia centrista, igualmente; no começo de 2014, muitas reportagens afirmavam com confiança que o número de inscritos no novo sistema em seu primeiro ano ficaria bem aquém das projeções da Casa Branca.
E então veio a notável disparada tardia no número de inscrições. Os pessimistas tiveram de encarar perguntas difíceis sobre os motivos de seu imenso erro? É claro que não. Em lugar disso, as mesmas pessoas apareceram com um novo conjunto de teorias da conspiração e novas previsões de calamidade.
O governo está "adulterando os números", disse o senador John Barrasso, do Wyoming; as pessoas inscritas não pagariam as mensalidades dos planos de saúde, uma coleção de supostos "especialistas" previu; mais pessoas estavam perdendo os planos de saúde de que dispunham do que assinando para novos planos, declarou Ted Cruz, senador pelo Texas.
Mas a grande maioria dos inscritos pagou suas mensalidades, e hoje temos múltiplos levantamentos independentes - do Gallup, do Urban Institute e do Commonwealth Fund - mostrando acentuada redução no número de norte-americanos desprovidos de planos de saúde, do final do ano passado para cá.

CAPENGA

Tenho visto algumas alegações da direita no sentido de que a dramática redução no número de pessoas desprovidas de planos de saúde foi causada pela recuperação da economia e não pela reforma da saúde (o que quer dizer que agora os conservadores elogiam a condução da economia por Obama?) Mas é uma afirmação bem capenga, e demonstravelmente falsa.
Para começar, a queda é muito acentuada para ser explicada por uma melhora no máximo modesta no quadro do emprego. Além disso, a pesquisa do Urban Institute mostra diferença notável entre a experiência nos Estados que expandiram o [plano federal de saúde] Medicaid - que em geral também são aqueles que fizeram o melhor trabalho para garantir que a reforma da saúde funcione - e os Estados que fizeram o possível para recusar cobertura adicional do governo federal aos seus cidadãos mais pobres.
E o resultado é que a queda no número de pessoas desprovidas de planos de saúde foi três vezes maior nos Estados que expandiram o Medicaid do que naqueles que rejeitaram essa expansão. Não é a economia: é a política, estúpido.
E quanto ao custo? No ano passado, houve muitas alegações de um "choque de mensalidades", uma disparada no custo dos planos de saúde. Mas no mês passado o Departamento de Saúde e Serviços Humanos do governo federal norte-americano reportou que entre as pessoas que recebem subsídios federais - a grande maioria dos inscritos -, o saldo líquido mensal a pagar por um plano é de apenas US$ 82.
Sim, há quem tenha saído perdendo com o Obamacare. Se você é jovem, saudável e tem renda suficiente para não se qualificar para um subsídio (e não contar com um plano de saúde fornecido por seu empregador), é provável que a mensalidade do seu plano de saúde tenha subido.
E se você é rico o bastante para pagar os impostos adicionais que bancam os subsídios, terá sofrido um impacto financeiro. Mas é revelador que nem mesmo os oponentes da reforma estejam tentando dar destaque a essas histórias.
Em lugar disso, continuam a procurar por vítimas mais velhas, e mais doentes, na classe média, e continuam fracassando em encontrá-las.
Oh, e de acordo com a pesquisa do Commonwealth Fund, a maioria esmagadora das pessoas que adquiriram novos planos de saúde, o que inclui 74% dos republicanos entre elas, estão satisfeitas com a cobertura de que dispõem.

RESULTADOS

Seria possível perguntar por que, se a reforma da saúde está indo tão bem, seus resultados nas pesquisas continuam tão ruins. É crucial, eu argumentaria, compreender que o Obamacare, propositadamente, não afeta os norte-americanos que já contam com bons planos de saúde. Como resultado, a opinião de muita gente é determinada pela cobertura em geral negativa da mídia noticiosa.
Ainda assim, a mais recente pesquisa de acompanhamento da Kaiser Family Foundation mostra que número crescente de norte-americanos está sendo informado por familiares e amigos sobre o plano, o que significa que mais pessoas estão começando a ser informadas pelos beneficiários do programa.
E como sugeri acima, o pessoal da mídia - especialmente os sabichões da elite -talvez esteja entre os últimos a ouvir as boas notícias, simplesmente porque é parte de uma categoria socioeconômica na qual as pessoas em geral contam com boa cobertura.
Para os menos afortunados, porém, a Lei de Acesso à Saúde já fez grande e positiva diferença. Os suspeitos de sempre continuarão a alegar fracasso, mas a verdade é que a reforma da saúde - que absurdo! - está funcionando.

Reprodução de texto de Paul Krugmann, na Folha de São Paulo. Tradução de Paulo Migliacci.

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Para ajudar pacientes pobres, Índia quer abolir patentes de remédios contra câncer

Alka Kudesia precisa de um medicamento caro para tratar seu câncer de seio, mas se recusa a dizer isso para seus filhos, por temer que eles façam empréstimos para comprar o remédio e passem o resto da vida endividados.
"Nós mal podemos pagar pelo tratamento que já estou recebendo", disse Kudesia, 48, com uma resignação tranquila. "Meus filhos estão começando na vida. Não quero ser um peso para eles."
O remédio, Herceptin, é um dos mais eficazes para uma forma agressiva de câncer de seio. Mas na Índia, ao custo de pelo menos US$ 18 mil por uma etapa do tratamento, somente uma pequena fração das mulheres que precisam dele o recebem.
O governo indiano ameaçou no ano passado permitir a produção de versões genéricas mais baratas do Herceptin. Seu fabricante, a Roche Holdings da Suíça, inicialmente resistiu, mas cedeu os direitos de patente este ano em grande medida porque concluiu que perderia uma ação nos tribunais indianos.
As desavenças sobre o Herceptin e outros medicamentos contra câncer fazem parte de uma nova fase crítica na longa luta para tornar os remédios acessíveis aos mais pobres do mundo, que começou para valer há mais de uma década, quando ativistas fizeram campanhas de sucesso para tornar acessíveis os remédios contra Aids para milhões de africanos.
"O câncer é a próxima questão HIV/Aids, e a luta apenas começou", disse Shamnad Basheer, professor de direito na Universidade Nacional de Ciências Jurídicas de Bengala Ocidental, em Calcutá.
As autoridades comerciais dos EUA manifestaram preocupações sobre o tratamento da Índia às patentes de medicamentos, incluindo seus motivos para às vezes desrespeitá-las. O presidente Barack Obama discutiu a questão no início deste ano com o primeiro-ministro indiano, Manmohan Singh, durante uma reunião na Casa Branca, segundo autoridades dos EUA.
Executivos da indústria farmacêutica internacional, que depende cada vez mais das vendas em mercados emergentes como Índia, China e Brasil, alegam que os esforços da Índia para cancelar patentes ameaçam o sistema global para descoberta de tratamentos, enquanto pouco fazem para resolver os desafios à saúde que a maioria dos pacientes enfrenta.
"Estamos abertos para discutir a melhor maneira de levar medicamentos inovadores aos pacientes", disse Daniel Grotzky, porta-voz da Roche, que tem uma grande carteira de medicamentos contra o câncer. "Mas uma sociedade que quer desenvolver novos remédios e tecnologia deve recompensar a inovação por meio de uma sólida proteção à propriedade intelectual."
Alguns especialistas em saúde dizem que investir em um diagnóstico precoce do câncer de seio e melhorar os testes, a cirurgia e o acesso à radioterapia é mais importante que o acesso a drogas caras.
"A quimioterapia não é a principal questão para o controle do câncer na Índia", disse o doutor Richard Sullivan, professor de política para o câncer e saúde global no Centro de Câncer Integrado King's Health Partners em Londres.
Mas ativistas de saúde dizem que argumentos semelhantes foram feitos pelo governo americano e a indústria farmacêutica quando buscavam proteger patentes sobre remédios para Aids durante a maior parte da década de 90, posição de que o ex-presidente Bill Clinton disse ter-se arrependido. Seria injusto retardar o aperfeiçoamento do acesso aos remédios contra o câncer até que o sistema de tratamentos na Índia fosse consertado, dizem eles. Eles notam que o número de pessoas que morrem de câncer por ano na Índia é mais que o dobro do das vítimas de Aids.
Enquanto o mundo fez progresso contra desnutrição e doenças infecciosas, mais pessoas vivem até idade avançada e morrem de doenças crônicas como doenças cardíacas e câncer, que hoje causam dois terços das mortes globalmente. Em 2012 houve 14,1 milhões de novos casos de câncer em todo o mundo e 8,2 milhões de mortes por câncer, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). E o número de casos de câncer de seio está aumentando. Cerca de 6,3 milhões de mulheres viviam com a doença no ano passado.
O aumento da incidência de câncer já é um grande peso para o sistema de saúde deficiente da Índia. As indianas, embora tenham menor probabilidade de contrair câncer de seio do que as americanas, têm uma probabilidade muito maior de morrer da doença. Cerca de 115 mil mulheres aqui são diagnosticadas com câncer de seio todo ano, e em 2008 aproximadamente 54 mil morreram da doença, segundo a OMS.
Nos cruzamentos de Nova Déli, mulheres carregando receitas de médicos pedem dinheiro para os tratamentos. A Índia tem apenas 27 centros de câncer públicos para 1,2 bilhão de pessoas. O governo prometeu acrescentar 50 nos próximos anos, mas especialistas médicos dizem que mesmo isso será amplamente inadequado.
A Índia, que é um dos principais produtores mundiais de medicamentos genéricos, há muito tempo vê com ceticismo os direitos de patentes de remédios. Ela já considerou inválidas as patentes que protegem as vendas exclusivas dos medicamentos anticâncer Gleevec da Novartis, Sutent da Pfizer e Tarceva da Roche. Em uma decisão notável em 2012, o governo concordou que a patente que protege o Nexavar da Bayer, também um remédio contra o câncer, era válida, mas a anulou de qualquer maneira porque uma companhia de genéricos prometeu reduzir o preço do tratamento mensal de US$ 4.500 para cerca de US$ 140.
O governo agora quer cancelar os direitos de vendas exclusivas de dois outros medicamentos contra o câncer. A Roche cedeu sua patente do Herceptin no início deste ano em parte porque considerou que era uma batalha perdida. Cada um desses passos foi recebido com aprovação na Índia e profunda reprovação de grupos empresariais, legisladores e laboratórios farmacêuticos dos EUA.
Uma comissão do governo indiano logo deverá anunciar o início de um processo formal para colocar de lado patentes de 15 outros remédios, segundo um membro da comissão que concordou em falar sobre deliberações secretas sob a condição do anonimato. Malini Aisola, da Fundação de Saúde Pública da Índia, disse que a lista completa "vai gerar comoção em todo o mundo".
Para os laboratórios, o aspecto mais preocupante dos esforços da Índia em reduzir os preços dos medicamentos é que outros países comecem a seguir seu exemplo. Tanto a Indonésia como as Filipinas adotaram recentemente leis de patentes baseadas nas da Índia, e legisladores do Brasil e da Colômbia propuseram medidas semelhantes.
"Uma das preocupações do setor não é apenas o que a Índia está fazendo na Índia, mas nós percebemos que o mundo inteiro está observando", disse Amy Hariani, do Conselho Empresarial EUA-Índia, que é afiliado à Câmara de Comércio dos EUA e combate as políticas de patentes indianas.
Para o governo Obama, a briga sobre as patentes de medicamentos no mundo em desenvolvimento é um campo minado. A indústria de medicamentos foi um grande contribuinte da campanha de Obama e um dos primeiros e cruciais apoiadores de seu programa de saúde. Mas assessores de Obama esperam evitar os erros do governo Clinton, que foi duramente criticado por ativistas da Aids por sua posição inicial contra fornecer drogas antirretrovirais genéricas para a África.
Cerca de 25 mil mulheres indianas se beneficiariam do tratamento com Herceptin por ano, mas no máximo 1.500 o recebem, segundo Kalyani Menon-Sen, uma defensora de pacientes em Nova Déli que liderou uma campanha por uma versão genérica.
Kudesia, temerosa de contar a seus filhos sobre o Herceptin por causa do custo, já tem problemas para pagar seu coquetel de medicamentos genéricos menos caros.
Para economizar, ela disse que agora deve deixar o apartamento de três quartos e US$ 80 mensais que divide com sua sogra e filho e vender a maior parte de suas posses. Comprar Herceptin está fora de questão. Ela reza para Krishna, Rama e outros deuses hindus por ajuda.
"Eu quero passar o resto do tempo que tenho resolvendo nossas dívidas, e não agravando-as", disse. "Não posso dizer a meus filhos que há outra droga que pode me ajudar."

Reportagem de Gardiner Harris, no The New York Times, reproduzido no UOL. Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

O peixe Nemo e o Mais Médicos

A indústria farmacêutica apresenta uma característica peculiar. Ela vende para um, o doente, que é quem paga, mas quem escolhe o medicamento é outro, o médico.
Essa condição fez com que a indústria farmacêutica internacional desenvolvesse uma estratégia "sui generis" que, não obstante, imita um comportamento comum entre animais inferiores, a simbiose.
Observo em meu aquário o peixe palhaço percola Nemo colher um vôngole e leva-lo à boca de "sua" anêmona, antes mesmo que ele próprio se alimente. Em troca, recebe da anêmona --um animal com tentáculos venenosos-- proteção contra eventuais predadores. Essa troca de favores chamamos simbiose.
A promoção de medicamentos se faz de porta em porta, nos consultórios médicos. Todo mundo sabe que os inúmeros congressos médicos nos mais pitorescos locais do mundo, de Paris a Cancun, são patrocinados pelas empresas produtoras de medicamentos, inclusive com passagens e estadia pagas.
O que não era percebido até recentemente é a importância e o volume de recursos repassados diretamente a médicos como remuneração pela promoção de medicamentos. Pois bem, embora sejam esses recursos diminutos em comparação com os gastos globais dessas empresas com propaganda, em que se incluem as conferências técnico-turísticas, elas ultrapassam só nos Estados Unidos uma centena de milhões de dólares por ano.
E onde fica a ética? E o ensinamento de Hipócritas? A prática quotidiana e a necessidade de sobrevivência geram padrões de comportamento que, por sua vez, estabelecem dogmas, tabus, que enfim são incorporados como princípios éticos à cultura de cada sociedade.
Aos poucos, os médicos acabam por sepultar sua própria percepção dos conflitos de interesse que regem essa maléfica simbiose. Três empresas multinacionais do setor farmacêutico foram há pouco multadas e 18 de seus funcionários presos na China por adotarem essa prática.
Recentemente, o médico britânico e Nobel de medicina Richard J. Roberts acusou as farmacêuticas de evitar a cura em prol da dependência, um fato já conhecido. Se você cura o doente, você deixa de faturar. Se você simplesmente o mantém vivo, você fatura indefinidamente. Uma estratégia também adotada por animais parasitas. Quantas corporações médicas denunciaram essa condição maléfica?
Médicos e suas associações já se opuseram, se não publicamente, pelo menos nos bastidores, a iniciativas positivas do Estado. Isso ocorreu com a instalação do SUS e com as poucas iniciativas de produção de medicamentos em laboratórios estatais. Agora acontece com o programa Mais Médicos, que, para as condições atuais da saúde no Brasil, é imprescindível. Tudo que pareça interferir com a tradicional simbiose médico-produtoras de medicamentos, mesmo que tangencialmente, passa a ser hostilizado.
Quantos dos médicos que se declaram contra o programa repudiaram ofertas de passagens e estadias em gostosas conferências? Quantos colocam o interesse da sociedade brasileira acima dos seus próprios e de sua corporação?


Texto de Rogério Cezar de Cerqueira Leite, publicado na Folha de São Paulo

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Nova lei de saúde nos EUA combate mortalidade infantil

Nova lei de saúde nos EUA combate mortalidade infantil
Por EDUARDO PORTER

O setor médico privado dos Estados Unidos oferece o atendimento mais avançado do mundo para bebês prematuros.
Mas esse fato não tem ajudado a diminuir um dos estigmas mais notórios do país: sua taxa de mortalidade infantil, persistentemente alta, que não condiz com um dos países mais ricos e mais tecnologicamente avançados do mundo.
"Não é um problema de tecnologia", disse o economista Gaetan Lafortune, da divisão de saúde da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico. "O problema é que no país há muitas partos prematuros."
A Affordable Care Act de Obama -a lei de reforma da saúde- pode trazer alívio. A lei prevê que, pela primeira vez, gestantes de todo o país, independentemente de sua renda, terão acesso a um seguro-saúde que garanta um padrão mínimo de atendimento, que ajudará a manter vivos seus bebês.
Nem sempre os EUA estiveram em posição baixa nos índices. Quatro décadas atrás, os americanos perdiam proporcionalmente menos bebês que a média dos países industrializados. Os EUA perdiam mais que a França, mas menos que a Alemanha, mais que a Suécia, mas não tantos quanto Luxemburgo.
Em 2010, porém, virtualmente todos os outros países avançados já tinham superado os EUA. Em Portugal, 2,5 bebês em cada mil nascidos vivos morriam antes de chegar a um ano de idade. Na Finlândia e no Japão, morriam 2,3. Apesar de os Estados Unidos terem feito progresso recentemente, sua taxa de mortalidade infantil ainda era de 6,1. Entre os membros da OCDE, apenas México, Chile e Turquia tinham índices piores.
Não está claro em que medida a lei da reforma da saúde nos EUA poderia ter ajudado a prevenir essas mortes precoces. Mas a experiência de outros países sugere que garantir às mulheres amplo acesso à saúde antes, durante e após a gestação pode ajudar.
"Esta é uma mudança fundamental", comentou Genevieve Kenney, diretora do Centro de Políticas de Saúde do Instituto Urbano, centro não partidário de pesquisas em Washington. "A situação pode mudar."
Considere-se o caso da Finlândia. Mika Gessler, professor pesquisador do Instituto Nacional de Saúde e Bem-Estar, em Helsinque, contou que a Finlândia decidiu empreender ações contra a mortalidade infantil ainda na década de 1940, quando a economia nacional era agrária e pobre.
Hoje o governo finlandês oferece atendimento pré-natal gratuito a todas as mulheres que o querem. De cada mil gestantes, cerca de 997, incluindo imigrantes ilegais, passam por clínicas de maternidade entre 13 e 15 vezes durante a gravidez, em média. A taxa de mortalidade infantil caiu para um sexto do que era em 1970. Apenas 5,7 partos em cada cem são prematuros, a mesma proporção da de um quarto de século atrás.
Esse tipo de atendimento a gestantes e mães é raro nos Estados Unidos. Os planos de saúde individuais normalmente não cobrem a gravidez. Menos de duas em cada três grávidas no Texas ou em Maryland tiveram uma consulta de pré-natal no primeiro trimestre de gravidez. E quase 12 em cada cem bebês americanos nascem prematuros, mais de duas vezes o índice da Finlândia e 18% mais que 25 anos atrás.
O atendimento pré-natal não basta. As causas do alto índice de mortalidade dos bebês americanos ainda são nebulosas, até certo ponto, mas é provável que o fator mais importante seja o grande número de partos prematuros, maior que no resto do mundo desenvolvido.
Os especialistas não têm uma visão clara do que leva tantos bebês a nascer antes de completadas 37 semanas de gestação. As grávidas que apresentam diabetes ou hipertensão têm mais probabilidade de dar à luz filhos prematuros, os quais têm tendência a morrer precocemente. A mesma coisa acontece com mulheres obesas, fumantes, adolescentes e mulheres que têm seu segundo filho logo após o primeiro.
A mortalidade infantil é muito mais alta entre bebês negros que entre os brancos. Os filhos de mulheres com nível de instrução mais baixo morrem em índice maior que os de mulheres com grau de instrução mais alto. Mas os bebês brancos também morrem em taxa mais alta na Finlândia.
A lei da reforma da saúde promulgada por Obama oferece a todas as mulheres acesso mais amplo e consistente à saúde. Ela dá muita ênfase à prevenção e ao fomento de comportamentos saudáveis. Pode ajudar a reduzir os casos de gravidez indesejada, que com frequência levam a partos prematuros, ou até aliviar o estresse financeiro de passar sem atendimento adequado à saúde.
"As mulheres de nível de renda e instrução mais baixos e cujos empregos não lhes garantem acesso à saúde terão atendimento médico mais padronizado e constante", disse Kenney. "Para as mulheres em idade reprodutiva, é uma mudança fundamental."
Se a lei da reforma da saúde reduzir a taxa de mortalidade infantil dos EUA, poderá trazer uma nova visão da capacidade do governo de cuidar da saúde da nação e, quem sabe, de lidar com outras disfunções sociais.


Texto publicado no The New York Times, reproduzido na Folha de São Paulo

Limites

O retrato devastador que o repórter Fabiano Maisonnave traçou de algumas escolas médicas da Bolívia fala por si só. Não obstante, cerca de 25 mil estudantes brasileiros estão matriculados nessas instituições --o equivalente a 23% do total de alunos que fazem graduação em medicina por aqui.
Como a maioria não deve ter planos de migrar em definitivo para o país vizinho, esses jovens apostam que o mercado por médicos no Brasil seguirá atraente e que, em algum momento, conseguirão validar seus diplomas e voltar para casa. Os dados empíricos, porém, não recomendam otimismo. Em 2012, só 2,1% dos graduados na Bolívia passaram no Revalida, contra uma média de 8,7%.
Esse descompasso entre sonhos e competência mostra o que está acontecendo no setor. De um lado, faltam médicos no sistema público. As escalas de postos de saúde e hospitais aparecem com brancos. O envelhecimento da população também aponta para um mercado em expansão. O governo, portanto, tem interesse legítimo em ampliar a oferta de vagas em medicina e, emergencialmente, até em importar profissionais.
Há, é claro, um outro lado, que é o da qualidade. Garantir que todo brasileiro seja atendido sempre por um profissional preparado e atualizado exigiria mudanças fortes no processo de certificação, com a introdução de um exame de proficiência ao final da graduação, nos moldes da prova da OAB, e avaliações periódicas.
O problema é que esses dois objetivos são contraditórios. Se mais jovens cursarem medicina, iremos necessariamente recrutá-los entre candidatos menos preparados, o que fará com que a qualidade média dos graduados caia. E, se instituirmos testes mais rigorosos, formaremos ainda menos profissionais.
Uma alternativa seria redesenhar todo o sistema, reservando as visitas a médicos para casos mais graves. Mas esse é um assunto que todo o mundo prefere evitar.


Texto de Helio Schwartsman, na Folha de São Paulo

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Mais clientes de plano usam SUS ou médico privado em SP

Mais clientes de plano usam SUS ou médico privado em SP
Datafolha aponta que 30% dos usuários buscam atendimento fora
Na pesquisa anterior, índice era de 20%; 79% dos entrevistados relataram ter sofrido problemas com serviço
DE SÃO PAULO

Três em cada dez pessoas que têm planos de saúde no Estado de São Paulo recorreram ao SUS (Sistema Único de Saúde) ou ao atendimento particular para receber cuidados médicos adequados nos últimos dois anos.
Os dados são de uma pesquisa encomendada pela APM (Associação Paulista de Medicina) ao Datafolha.
Foram entrevistados 861 usuários de planos de saúde.
O índice de 30% indica uma alta de dez pontos percentuais em relação à última pesquisa, que foi divulgada no ano passado.
Segundo o levantamento, do grupo que utilizou os planos nos últimos 24 meses, 79% relataram ter tido problemas com o serviço. O percentual é semelhante ao da pesquisa anterior (77%).
As principais reclamações são relativas ao atendimento em prontos-socorros, consultas médicas e exames.
Nos prontos-socorros, os entrevistados apontam falhas como local de espera lotado e demora no atendimento.
Em relação às consultas médicas, a demora no agendamento é a maior queixa, segundo 52% dos usuários.
Outros problemas são a saída de médicos (28%) e a demora na autorização de consultas (25%).
A pesquisa também mostra que 15% dos usuários consultados já fizeram reclamação, recurso ou notificação contra algum plano.

PROFISSIONAIS

Em pesquisas anteriores do Datafolha com profissionais de medicina, 9 em cada 10 entrevistados relataram insatisfação por problemas diversos, como as pressões exercidas pelos planos para que reduzam exames e interferências em internações.
A pesquisa foi realizada com pessoas de 18 anos ou mais, de todas as classes econômicas, que são titulares ou dependentes de planos.
A margem de erro é de até três pontos percentuais, com nível de confiança de 95%.


Reprodução da Folha de São Paulo