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sexta-feira, 20 de março de 2015

EUA vão continuar espionando Brasil

Os Estados Unidos dificilmente vão parar de espionar o Brasil. Um pronunciamento do ex-diretor da NSA, a agência de espionagem dos Estados Unidos, é uma boa amostra.
Em evento na semana passada no think tank New America Fondation, Michael Hayden, que também foi diretor da CIA, afirmou que "nunca será fechado um acordo de não espionagem com a Alemanha".
A chanceler Angela Merkel, assim como a presidente Dilma Rousseff, foi espionada pela inteligência americana e teve seu celular grampeado.
Merkel esteve em Washington em fevereiro.
"Cinco significa cinco...é um arranjo entre cinco nações para criar um grau maior de confiança e transparência". Ele se referia ao acordo conhecido como Five Eyes (cinco olhos), entre EUA, Reino Unido, Austrália, Canadá e Nova Zelândia.
Pelo acordo, essas nações compartilham informações que recolhem entre si e de terceiros países. E a Alemanha continuará fora desse círculo, disse Hayden.
"Vocês podem fazer mil viagens a Washington, mas não nós temos a chave para transformar cinco em seis", disse.
Ele admitiu que os vazamentos de Edward Snowden em 2013 sobre a espionagem da NSA prejudicaram o relacionamento entre EUA e Alemanha, mas o problema não foi espionar.
"Precisamos nos envergonhar não pelo que fizemos, mas por nossa incapacidade de manter secreto o que fizemos." À frente da NSA, ele se reservou o direito de "os EUA conduzirem espionagem para preservar a segurança dos EUA, quando os EUA achassem necessário."
Hayden não está mais à frente da NSA, mas ajudou a desenhar todo o arcabouço da agência. E Obama, apesar de ter anunciado várias reformas no sistema de espionagem, passou longe de garantir que seus aliados não mais serão vítimas de vigilância.
Se isso aconteceu com a Alemanha, por que o Brasil estaria a salvo?
Desde que vieram à tona revelações de que a NSA grampeava até o celular de Dilma, o relacionamento entre EUA e Brasil azedou.
A visita de Estado que Dilma faria em outubro de 2013 foi "adiada" indefinidamente, e há uma tênue esperança de que seja reagendada neste ano (desde que Dilma tenha uma situação minimamente estável aqui no Brasil, o que está longe de estar garantido).
A coisa vem melhorando nos últimos tempos, em grande parte por causa dos esforços continuados do vice-presidente Joe Biden para quebrar o gelo. Mas o fato é que, sem um conjunto razoável de "deliverables" para anunciar, a visita não sai do papel.
O chanceler Mauro Vieira esteve com Susan Rice esta semana e discutiu uma possível agenda para a visita —sem , no entanto, referir-se a datas.
Existe uma percepção do lado brasileiro de que os EUA deveriam fazer algum gesto para mostrar contrição em relação aos atos da NSA, ainda que não seja um pedido de desculpas com todas as letras. A fala de Hayden mostra que isso dificilmente vai ocorrer.


Reprodução de texto de Patrícia Campos Mello, na Folha de São Paulo.

domingo, 14 de setembro de 2014

Yahoo! diz ter sido ameaçado pelos EUA

Yahoo! diz ter sido ameaçado pelos EUA

Empresa teve de colaborar com a NSA
A empresa Yahoo! denunciou ter sido ameaçada com multas caso não entregasse dados dos usuários à NSA (agência americana de segurança nacional). A acusação, feita nesta quinta (11) pelo chefe de assuntos jurídicos do Yahoo!, remonta a 2007, quando a NSA solicitou informação sobre seus usuários. A empresa entrou na Justiça, mas perdeu o caso e foi obrigada a entregar os dados. Nos anos seguintes, lutou para retirar a confidencialidade do caso, agora divulgado.


Reprodução da Folha de São Paulo

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Analista revelou vírus de computador instalado pelos EUA no Irã


RESUMO Diretor da empresa de segurança F-Secure, o finlandês Mikko Hyppönen, 45, atuou em uma força-tarefa de especialistas que revelou o vírus Stuxnet –instalado pelos Estados Unidos em uma usina iraniana. A descoberta parece histórias de espião, com pistas em fotos e paranoia por parte dos pesquisadores. Hyppönen esteve em São Paulo na segunda (25), para evento de cibersegurança, quando falou à Folha.
*
Quando conseguimos o código, não nos demos conta da importância. Percebemos que era um caso interessante, mas não tínhamos ideia de que havia infectado um sistema de enriquecimento nuclear –nem sabíamos que havia sido encontrado no Irã.
Foi em 2010, quando tivemos acesso ao Stuxnet original. Ele foi encontrado por uma pequena empresa de antivírus da Bielorrússia. As companhias do leste europeu prestam muitos serviços de segurança para o Irã porque não têm restrições em fazer negócios com aquele país, ao contrário do resto da Europa.
Começamos a prestar mais atenção porque o vírus explorava uma falha de dia zero –vulnerabilidade de um sistema, como o Windows, que não haviam sido notadas antes. Falhas de dia zero são raras, valiosas e interessantes.
Só então encontramos outras falhas dia zero sendo exploradas. Não havíamos nunca, jamais, visto malware que explorava mais de uma falha dia zero. O Stuxnet explorava três. O que é completamente único. E isso imediatamente diz que não é normal.
Então começamos a nos dar conta de que o que tínhamos na mão era tão grande e complicado, e provavelmente foi tão caro para ser desenvolvido, que a fonte era um governo. Também encontramos dicas de que o vírus fora encontrado no Irã e tinha a ver com o programa nuclear.
Um amigo meu da empresa Computer Associates, da Austrália, foi o primeiro a declarar em uma lista de e-mails que, com base no que havia sido descoberto até então, era seguro dizer que tratava-se de uma operação do governo dos Estados Unidos contra o programa nuclear iraniano.
Ele enviou esse e-mail e, dois minutos depois, enviou outro dizendo que gostaria que todos soubessem que ele nunca teve tendências suicidas –só para o caso de ser encontrado morto. Isso é o quão paranoicos estávamos.

CONFIGURAÇÃO

A não ser que a rede infectada esteja configurada de forma específica, o código não faz nada. A rede precisa de um modelo específico de conversores de energia que precisam estar conectados em grupos específicos.
É a digital do sistema. É assim que o vírus sabe que está na usina certa. Se não encontrar essa configuração, não faz nada. Se o terminal de uma fábrica de alimentos em São Paulo for infectado, nada acontecerá porque a configuração é outra.
A pergunta passou a ser: "Há alguma instalação iraniana com essa configuração?". Procuramos fotos no site da Presidência do Irã.
Encontramos uma do então presidente, Mahmoud Ahmadinejad, olhando o monitor de uma usina. Demos zoom. O computador à frente mostra a disposição da usina –que casa exatamente com a do Stuxnet. Foi assim que provamos. Depois, descobrimos por meio de outras fontes que estávamos certos.
O governo americano restringiu o vírus porque não queria causar dano, por exemplo, dentro do próprio país ou em outro lugar. Quando um sistema é infectado, a primeira coisa que o vírus faz é checar a data. Se passou de junho de 2012, não faz nada. O Stuxnet expirou.

Reprodução da Folha de São Paulo.

Espiões saem do frio

Não foi somente dona Dilma e outras autoridades brasileiras que reclamaram dos grampos telefônicos que sofreram do Departamento de Estado norte-americano. Outros chefes de governo, na Europa e na Ásia, também se sentiram insultados quando perceberam que seus telefones estavam violados pela CIA ou outra entidade afim. Medo de outro atentado igual ao que atingiu o World Trade Center em 11 de setembro de 2001? Dados de situação econômica e militar de outros Estados?
Em 1954, os serviços de informação e inteligência do Departamento de Estado norte-americano já dispunham de tecnologia bastante para rastrear o encontro num quarto de hospital de dois personagens secundários (ou nem isso) no episódio da deposição de Goulart, em março de 1964. Em 1973, por ocasião do caso Watergate, já dispunham de recursos mais sofisticados para grampear conversas até mesmo no Salão Oval da Casa Branca. Podiam gravar, por interesse próprio ou para abastecer aliados de informações "inside", dispondo de uma tecnologia ainda não acessível aos países subdesenvolvidos.
Enquanto durou a Guerra Fria, em nome da segurança do mundo livre e da sua própria segurança, os Estados Unidos dispunham de recursos técnicos capazes de espionar qualquer cidadão em qualquer parte do mundo, criando condições para o seu desaparecimento, contando, obviamente, com a colaboração dos interessados locais, que se posicionavam no tabuleiro internacional como seus aliados.
De 1962 até o final dos anos 1970, início dos anos 1980, o clima não apenas na América Latina, mas na Ásia e na África era condicionado prioritariamente pelo conceito de segurança do mundo livre, cujo baluarte operacional político e militar era o próprio Departamento de Estado norte-americano.


Texto de Carlos Heitor Cony, na Folha de São Paulo.

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Espião alemão é preso suspeito de trabalhar para os EUA


A Alemanha convocou nesta sexta-feira (4) o embaixador dos Estados Unidos em Berlim, John Emerson, para conversar sobre a prisão de um alemão acusado de espionagem.
Segundo a mídia alemã, o homem de 31 anos trabalha para o serviço secreto do país (BND), mas repassou informações aos EUA, inclusive sobre a investigação que o Parlamento alemão acerca da espionagem americana.
O homem, que foi preso na quarta-feira (2) inicialmente sob suspeita de passar informações para a Rússia, teria revelado ao procurador-geral que vendeu informações aos EUA.
O jornal alemão "Bild" afirma que o suspeito trabalha como agente duplo há dois anos e que roubou 218 documentos confidenciais. O homem teria oferecido as informações à embaixada dos EUA em Berlim em 2012 em troca de 25 mil euros.
Dois parlamentares que fazem parte do comitê alemão que investiga a Agência de Segurança Nacional americana (NSA) confirmaram à Reuters que o homem se ofereceu para colaborar com os EUA de forma voluntária.
"Esse homem não tem contato direto com o comitê de investigação. Ele não é um agente de alto escalão", disse o parlamentar de forma anônima.
A chanceler alemã, Angela Merkel, foi informada da prisão na quinta (3), segundo seu porta-voz Steffen Seibert. "O governo alemão vai esperar os resultados da investigação. Não há dúvida de que se trata de uma questão grave", disse em coletiva de imprensa nesta sexta.
A Procuradoria-Geral alemã não confirmou as denúncias da mídia, dizendo apenas que o homem foi preso suspeito de espionar para outro país. A Embaixada dos EUA em Berlim, o Departamento de Estado americano e a Casa Branca não comentaram o caso.
Seibert disse ainda que Merkel falou com o presidente americano, Barack Obama, por telefone na quinta, mas não deu detalhes sobre a ligação.
O tema da espionagem causou mal-estar entre os aliados quando os documentos vazados pelo ex-técnico da NSA revelaram, em outubro de 2013, que a agência americana grampeou o celular de Merkel.

INVESTIGAÇÃO

O comitê de investigação do Parlamento alemão sobre a NSA, formado por nove pessoas, tem reuniões confidenciais.
Na quinta, os parlamentares ouviram os primeiros depoimentos da investigação, vindos de dois ex-funcionários da agência americana –William Binney e Thomas Drake.
Segundo o britânico "Guardian", Binney, ex-diretor técnico, disse que a NSA tinha uma "mentalidade totalitária" e representava a "maior ameaça" para a sociedade americana desde a guerra civil. Já Drake, que trabalhou na NSA entre 2001 e 2008, acusou os alemães de colaborar com a agência.
Também na quinta, um estudante foi o primeiro alemão –depois de Merkel– a ser identificado como alvo da espionagem da NSA, segundo jornais alemães. O computador de Sebastian Hahn teria sido espionado porque ele usava um programa de criptografia que permite ao usuário permanecer anônimo na internet, evitando a vigilância.
A opositora Martina Renner, que faz parte do comitê, disse que caso a acusação se confirme, "não bastará apenas uma resposta legal, será necessário uma resposta política". 


Reprodução da Folha de São Paulo.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Reino Unido afirma ter direito de interceptar Facebook, Google e Twitter

Em uma ampla argumentação legal para coleta de informação sobre o uso da internet por seus cidadãos, o governo britânico afirmou o direito de interceptação de comunicações por serviços como Facebook, Google e Twitter, que são baseados nos Estados Unidos ou em outros países estrangeiros, mesmo se forem entre cidadãos do Reino Unido.

A posição britânica é descrita em um relatório divulgado na terça-feira (17) pelo Privacy International e outros grupos de defesa. O relatório, confirmando um sumário visto na segunda-feira pelo "The New York Times", diz que as conclusões são baseadas em um documento do governo que os grupos obtiveram por meio de uma ação na Justiça.

O documento do governo, divulgado com o relatório, diz que o contato entre pessoas no Reino Unido por redes sociais baseadas em qualquer outro lugar --ou o uso de ferramentas de busca localizadas fora do Reino Unido-- constitui "comunicação externa" e, portanto, está sujeita a interceptação, mesmo quando não há suspeita de nenhuma transgressão.

Em comparação, segundo a lei britânica, "comunicação interna" entre pessoas baseadas no país só pode ser interceptada quando há suspeita de atividade ilegal, especificada em um mandado emitido pelo governo e supervisionado pela Justiça.

Não está claro quão livremente o governo britânico está aplicando essa interpretação de "comunicação externa" ou quantos mandados obteve segundo essas diretrizes para interceptar comunicações de pessoas no país.

A agência de vigilância britânica que supervisiona essa atividade, o Quartel-General de Comunicações do Governo, se recusou na segunda-feira a afirmar a forma como sua posição foi retratada, citando "uma antiga política de não comentarmos assuntos de inteligência". Mas acrescentou, em uma declaração, que "todo o trabalho do QGCG é executado de acordo com a rígida estrutura legal e de políticas que assegura que nossas atividades sejam autorizadas, necessárias e proporcionais".

O documento do governo é atribuído a Charles Farr, diretor-geral do Escritório para Segurança e Contraterrorismo, um órgão do governo britânico que ajuda a coordenar a estratégia antiterrorismo do país.

A Privacy International se recusou a comentar sobre o sumário em seu relatório antes da divulgação oficial. Informado sobre o conteúdo do sumário, o Google emitiu uma declaração que dizia em parte: "Nós fornecemos dados dos usuários apenas de acordo com a lei. Nossa equipe legal analisa cada pedido e frequentemente os rejeita quando são amplos demais ou não seguem o devido processo".

Um representante do Facebook se recusou a comentar e o Twitter não respondeu imediatamente ao convite para fazê-lo.

Defensores da privacidade
A defesa do governo britânico foi em resposta a uma ação impetrada no ano passado por defensores da privacidade, incluindo a Privacy International e a Anistia Internacional, com base nas revelações de Edward J. Snowden, um ex-prestador de serviços da Agência de Segurança Nacional (NSA) americana, sobre vigilância pelo governo.

Entre outras coisas, os grupos de privacidade estão pedindo ao governo britânico que pare de usar informação do Prism, um sistema que permite à NSA coletar e-mails de não-americanos no exterior, sem mandados individuais, a partir de provedores baseados nos Estados Unidos como o Facebook, Gmail, Yahoo e Hotmail.

Os grupos de privacidade também querem que o governo britânico suspenda seu programa Tempora de vigilância, no qual uma agência de inteligência pode acessar os cabos de fibra óptica que transmitem os dados de internet que entram e saem do Reino Unido. Os cabos transmitem diariamente milhões de e-mails e buscas na internet, entre outros dados pessoais.

Como parte do caso legal, que será ouvido no mês que vem pelo Tribunal de Poderes Investigativos, um tribunal britânico que cuida dos casos legais contra as agências de inteligência do país, Farr, do Escritório de Segurança e Contraterrorismo, será uma testemunha crucial para o governo britânico em seus esforços para continuar usando os métodos de vigilância.

Quando as revelações sobre o Prism e outras atividades de inteligência foram feitas no ano passado, o governo britânico disse que as agências de inteligência do país cumpriam as regras locais que visam proteger a privacidade dos cidadãos.

Mas a defesa legal apresentada no relatório dos grupos de privacidade representa a discussão mais detalhada que veio à tona sobre a abordagem do governo para coletar as comunicações de indivíduos em alguns dos serviços de internet mais populares.

Reportagem de Mark Scott, para o The New York Times, reproduzida no UOL. Tradutor: George El Khouri Andolfato

domingo, 8 de junho de 2014

Reportagem minuciosa expõe a espionagem feita pelos EUA

Reportagem minuciosa expõe a espionagem feita pelos EUA
ELEONORA DE LUCENADE SÃO PAULO

A esquisita franja de Michelle Obama e a cantoria estridente de Beyoncé foram destaque na festa de posse do segundo mandato de Barack Obama em 21 de janeiro do ano passado. Naquele mesmo dia, houve mais um ataque de drone no Iêmen, o terceiro em três dias --sem alarde nem contestação.
Era mais um capítulo da ação do governo de Washington, que tem ignorado arcabouços jurídicos e convenções internacionais, promovendo assassinatos --inclusive de cidadãos americanos-- sem prestar contas a ninguém e desrespeitando a soberania das nações.
Esse é o tema do jornalista Jeremy Scahill em "Guerras Sujas", minuciosa reportagem que expõe as entranhas da rotina de violência, perseguições, violações de direitos, espionagem conduzida pelos governos americanos.
"Esta é a história de como os Estados Unidos adotaram o assassinato como parte essencial de sua política de segurança nacional", define o escritor logo de início. De fato, numa torrente de casos, fica escancarada a doutrina da guerra sem limites alardeada após os ataques de 11 de Setembro.
Numa longuíssima narrativa cheia de detalhes, Scahill reúne informações de bastidores, discursos oficiais, visões de especialistas e entrevistas com ex-agentes de espionagem.
Políticos norte-americanos e figuras dos confins do Paquistão, Afeganistão, Somália, Iêmen e Etiópia são personagens do livro, que faz um recorte incisivo em uma nova forma tenebrosa de guerra.
Essa estratégia, mostra o jornalista, vem desde o final do governo Clinton, quando os EUA começaram a operar drones no Afeganistão, a partir de uma base secreta no Uzbequistão.
Depois, segundo ele, no governo Bush (pai), foram plantadas as sementes do uso de empresas privadas para travar as guerras do país --simplesmente uma forma de burlar fiscalizações, sigilos e prestações públicas de contas a respeito de conflitos, declarados ou não.
Especialista no tema, Scahill é autor de "Blackwater" (2007), que destrincha a ascensão da empresa de mercenários de guerra com conexões com o poder estadunidense e acusada de massacre de civis no Iraque. Hoje a companhia se chama Academi e foi contratada pelo governo brasileiro para treinar policiais que vão atuar na Copa.
No seu novo livro --base do documentário homônimo indicado ao Oscar neste ano e sem data de exibição no Brasil--, o jornalista fala de prisões secretas americanas em pelo menos oito países pelo mundo, onde interrogatórios e torturas acontecem ao arrepio da lei, sem advogados e assistência da Cruz Vermelha.
Scahill conta como o governo dos EUA passou a adotar a política de "capturar suspeitos de terrorismo no mundo inteiro sem respeitar tratados bilaterais de extradição ou convenções internacionais". Para ele, Washington construiu uma "cortina de ferro" em torno dessas operações que constituem "a mais eficiente máquina de morte e captura" do planeta.
O relato traz o avanço no uso dos drones e percorre as guerras no Iraque e no Afeganistão, conflitos na África, a morte de Bin Laden. Observa que a invasão que derrubou Saddam Hussein acabou atraindo militantes da Al-Qaeda ao país. "Apesar de tudo o que se falava sobre as profundas divergências sectárias no Iraque, a ocupação americana estava, na verdade, unindo os iraquianos, tanto os xiitas quanto os sunitas, na causa comum."
Scahill afirma que Obama, contrariando sua própria retórica quando candidato, aprofundou a política herdada de Bush filho. Diz que o Nobel da Paz e sua equipe construíram "a infraestrutura de um programa americano formal de assassinatos".
O autor mescla análise e reportagem, com histórias de vítimas desse modelo. Como a do menino norte-americano Abdulrahman Awlaki, que estendeu uma toalha no chão para saborear um churrasco com seus primos na noite de 14 de outubro de 2011 numa cidade do Iêmen.
Um drone o estraçalhou. Sem acusação, julgamento, explicação. Tinha 16 anos e ainda chorava a morte do pai, assassinado duas semanas antes. Casos assim, que induzem a mais violência, fazem o repórter perguntar: "Como se acaba com uma guerra como essa?".

Tele diz que países têm acesso livre a dados

Tele diz que países têm acesso livre a dados
Britânica Vodafone revela que governos de seis locais onde ela atua recebem livremente informações de usuários
Empresa, que atua em 29 países, não divulga os nomes dos governos que utilizam dados, por questão de segurança
JULIETTE GARSIDEDO "GUARDIAN"

A Vodafone, uma das maiores operadoras mundiais de telefonia móvel, revelou nesta sexta (6) a existência de um sistema secreto que permite que agências de governos ouçam todas as conversas em suas redes.
Segundo a companhia britânica, presente em 29 países, o sistema funciona em seis deles. A empresa não forneceu os nomes por receio de colocar em risco seus funcionários nesses locais.
Entre os países de atuação da Vodafone estão Reino Unido, Espanha, Turquia, Índia, Qatar, África do Sul, Egito e Austrália.
A empresa diz que o sistema permite que países ouçam e gravem conversas e, em certos casos, rastreiem o paradeiro de um usuário.
A Vodafone afirma que fez a revelação por ser contra o uso cada vez mais amplo de redes de telefonia e banda larga para espionar cidadãos.
"Para os governos, ter acesso fácil a um celular é um poder aterrorizante", diz Shami Chakrarbarti, diretor da Liberty, ONG de direitos civis britânica.
Sistemas de acesso direto não requerem mandados, e a companhia não tem informações sobre a identidade e o número de clientes que se tornam alvo de espionagem.
A vigilância em massa pode acontecer em qualquer rede de telecomunicações sem que as agências do governo precisem justificar sua intrusão à companhia envolvida.
Fontes do setor dizem que, em alguns casos, o sistema de acesso direto consiste de equipamento em uma sala trancada na central de processamento de dados da rede ou em uma de suas centrais locais de comutação.
O pessoal que trabalha nessa sala é pago pelas empresas de telecomunicações, mas tem licenças de segurança do Estado e no geral está proibido de discutir qualquer aspecto do seu trabalho com outras áreas da companhia.
A Vodafone afirma que requer que todos os seus funcionários sigam o código de conduta da empresa, mas o sigilo dispõe que nem sempre seja possível determinar que eles de fato o façam.
Agências do governo também podem interceptar dados a caminho de centrais de processamento, vasculhando conversas antes de encaminhá-las à operadora.
Stephen Deadman, executivo encarregado de questões de privacidade a Vodafone, disse que "esses cabos existem, o modelo de acesso direto existe".
"Nós estamos fazendo um apelo para pôr fim ao acesso direto como meio de as agências do governo obterem dados sobre as comunicações das pessoas", declarou Deadman.
A empresa afirma que os governos deveriam "desencorajar as agências e autoridades de buscar acesso direto à infraestrutura de comunicações de uma operadora sem mandado judicial".


Reprodução da Folha de São Paulo

domingo, 1 de junho de 2014

EUA obtêm milhões de fotos pessoais por dia espionando mensagens, diz "NYT"

A Agência de Segurança Nacional (NSA) dos Estados Unidos obtém a cada dia milhões de fotos pessoais interceptadas em comunicações eletrônicas e que depois utiliza em sofisticados programas de reconhecimento facial, segundo documentos secretos revelados neste domingo pelo jornal "The New York Times".

Os serviços secretos americanos confiam nessas tecnologias para analisar as "milhões de fotografias" que obtêm a cada dia através da espionagem de e-mails, mensagens de texto, redes sociais, videoconferências e outras comunicações.

Do total de imagens coletadas diariamente, 55 mil têm qualidade suficiente para o uso em técnicas de reconhecimento facial, segundo documentos de 2011 vazados por Edward Snowden, ex-analista da agência.

Após anos focando em comunicações escritas e verbais, a NSA dá agora a mesma importância a fotos de rostos, impressões digitais e outros tipos de imagens em suas operações, afirma o "NYT".

"Não estamos só por trás das comunicações tradicionais: trata-se de buscar todo um arsenal que explore digitalmente as pistas que um alvo deixa para trás em suas atividades frequentes na rede para serem compiladas em dados biográficos e biométricos", diz um dos documentos.

O uso das tecnologias de reconhecimento facial por parte da NSA foi intensificado sob a presidência de Barack Obama, especialmente após a tentativa de atentado em um voo com destino a Detroit no Natal de 2009 e o frustrado ataque com um carro-bomba poucos meses depois na Times Square, em Nova York, segundo a publicação.

Uma porta-voz da agência, ao ser perguntada pelo "New York Times" a respeito, afirmou que a NSA tenta continuamente melhorar suas atividades de inteligência, mas ressaltou que os serviços secretos não têm acesso às bases de dados nas quais são compiladas as fotos de carteiras de motorista e passaportes de cidadãos americanos.

No entanto, ela não quis dizer se isso ocorre com os arquivos do Departamento de Estado que contêm fotos de estrangeiros que solicitam vistos para entrar no país.

Os programas de reconhecimento facial cometem ainda vários erros, especialmente quando as imagens não são de alta resolução e os rostos estão registrados em diferentes ângulos, segundo o jornal.

Tanto o governo como o setor privado estão investindo "bilhões de dólares" neste tipo de tecnologia, segundo Jennifer Lynch, uma especialista citada pelo "NYT".


Reprodução do UOL Notícias.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Livro revela rede mais ampla de espionagem norte-americana contra diplomatas


Em maio de 2010, quando o Conselho de Segurança da ONU (Organização das Nações Unidas) estava estudando a possibilidade de adotar sanções contra o Irã devido ao programa nuclear do país, vários membros estavam indecisos sobre como deveriam votar. A embaixadora dos Estados Unidos nas Nações Unidas, Susan Rice, pediu auxílio à Agência de Segurança Nacional (NSA) "para que ela pudesse desenvolver uma estratégia", segundo mostra um documento da agência que foi vazado.

A NSA agiu rapidamente, produzindo a papelada necessária para obter a aprovação legal para poder espionar diplomatas de quatro países-membros do Conselho de Segurança da ONU --Bósnia, Gabão, Nigéria e Uganda-- cujas embaixadas e missões ainda não estavam sendo monitoradas. No mês seguinte, em junho de 2010, 12 membros do Conselho de Segurança, que possui 15 assentos, votaram e aprovaram novas sanções contra o Irã. O Líbano se absteve e apenas o Brasil e a Turquia votaram contra.

Posteriormente, naquele verão, Rice agradeceu à agência, dizendo que as atividades de inteligência da NSA a tinham auxiliado a descobrir quando os diplomatas pertencentes aos outros representantes permanentes do Conselho de Segurança --China, Inglaterra, França e Rússia-- "estavam dizendo a verdade... revelando sua verdadeira posição sobre as sanções... o que nos deu uma vantagem nas negociações... e forneceu informações sobre os limites de vários países".

Os dois documentos que expõem esse episódio e foram vazados pelo ex-prestador de serviços da NSA Edward J. Snowden são reproduzidas em um novo livro de Glenn Greenwald, "No Place to Hide: Edward Snowden, the NSA, and the U.S. Surveillance State" ("Sem lugar para se esconder: Edward Snowden, a NSA, e o estado de vigilância dos EUA").

Elementos relacionados ao papel desempenhado pela NSA no auxílio às negociações diplomáticas dos EUA que antecederam a votação sobre as sanções contra o Irã já haviam sido divulgados anteriormente, inclusive em um artigo publicado em outubro de 2013 pelo jornal francês Le Monde, que se concentrou nas atividades de espionagem da agência contra diplomatas franceses.

O livro de Greenwald também reproduz um documento que lista as repartições invadidas pela NSA, incluindo embaixadas e missões de Brasil, Bulgária, Colômbia, União Europeia, França, Geórgia, Grécia, Índia, Itália, Japão, México, Eslováquia, África do Sul, Coréia do Sul, Taiwan, Venezuela e Vietnã. Partes desse documento foram divulgadas em junho do ano passado pelo jornal britânico The Guardian.

Revelações sobre as operações de espionagem da NSA no exterior, que incluíram autoridades de países aliados dos Estados Unidos, têm alimentado a raiva contra os norte-americanos. Mas Caitlin Hayden, uma porta-voz da NSA, observou que o presidente Barack Obama procurou abordar essas questões em janeiro passado, quando prometeu impor limites mais amplos para as operações de espionagem que têm como alvo aliados e parceiros dos EUA.

"Nossas agências de inteligência continuarão coletando informações sobre as intenções dos governos --em oposição às intenções dos cidadãos comuns-- de todo o mundo, da mesma maneira que os serviços de inteligência de todos os outros países fazem. Mas, apesar disso, nós não vamos pedir desculpas pelo fato de os nossos serviços serem possivelmente mais eficazes", disse ela.

O pedido de ajuda de Rice de maio de 2010 foi repetido em um relatório interno da divisão de Operações de Fontes Especiais da agência de segurança, que trabalha com empresas de telecomunicação instaladas nos EUA.

Uma equipe jurídica foi chamada em 22 de maio para iniciar a elaboração da papelada relacionada às quatro ordens judiciais, uma para cada um dos quatro países do Conselho de Segurança da ONU cujas embaixadas e missões aparentemente ainda não estavam sendo monitoradas. Um juiz assinou as ordens em 26 de maio.

O relatório interno que mostra que a NSA obtém ordens judiciais específicas para cada país no Tribunal de Monitoramento de Inteligência Estrangeira para espionar as instalações diplomáticas desses países pode lançar luz sobre um documento obscuro publicado em março pela Der Spiegel. Esse documento mostrou que o tribunal emitiu uma ordem judicial autorizando operações de espionagem na Alemanha em 7 de março de 2013, e listava vários outros países cujas ordens judiciais estavam prestes a expirar.

A Foreign Intelligence Surveillance Act (Lei de Monitoramento de Inteligência Estrangeira) não autoriza que o tribunal emita ordens judiciais para realizar operações amplas de monitoramento de países específicos. Ela autoriza a emissão de ordens relacionadas a "potências estrangeiras" específicas que operam em solo norte-americano e expiram no período de um ano.

Texto de Charlie Savage, para o The New York Times, reproduzido no UOL. Tradutor: Cláudia Gonçalves

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Merkel baixa tom e 'esquece' promessa de investigar espionagem americana


Houve um momento em que Angela Merkel se comprometeu a investigar a extensão da espionagem da NSA na Alemanha. Agora, porém, a chanceler mudou totalmente de opinião. A união transatlântica é sua nova prioridade, e a investigação sobre a NSA foi deixada de lado.
No mundo da diplomacia, os momentos de franqueza são raros e costumam ficar obscurecidos por trás de um véu de cordialidade e gestos amáveis. Não foi diferente na última sexta-feira (2), durante a reunião entre o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, e a chanceler alemã, Angela Merkel, em Washington.
Obama saudou Merkel chamando-a de "uma de minhas parceiras mais próximas" e de "amiga", e a conduziu por um passeio pela horta da Casa Branca, como parte das quatro horas que disponibilizou à líder alemã. Ele também elogiou Merkel ao dizer que ela tem sido uma "boa parceira" durante a crise da Ucrânia e agradeceu muitas vezes a chanceler pela estreita cooperação exibida nos últimos anos. Os pássaros que estavam no Jardim das Rosas da Casa Branca cantaram alegremente enquanto o presidente falava.
Mas, em seguida, Obama deixou claro quem tem a força nessa relação maravilhosamente harmoniosa. Quando um repórter perguntou por que, na esteira do escândalo de espionagem da NSA, o acordo de não espionagem entre a Alemanha e os EUA sucumbiu, Obama evitou dar uma resposta clara. Ele também se esquivou de uma pergunta sobre se a equipe de Merkel ainda é monitorada. Em vez disso, ele se mostrou vago: "na posição de mais antiga democracia constitucional contínua do mundo, acho que nós sabemos um pouco sobre a tentativa de proteger a privacidade das pessoas". E ponto final.
Merkel, quando questionada sobre se a confiança tinha sido reconstruída após as revelações relacionadas à NSA, se mostrou muito menos otimista. "É preciso que nós realizemos mais do apenas negociações de rotina – e nós realizaremos", disse ela.
Se aceitar a derrota com um sorriso no rosto faz parte do teatro político, então Angela Merkel teve um desempenho primoroso. Recentemente, em janeiro passado, ela fez um discurso com palavras duras ao parlamento alemão sobre as táticas usadas pelos órgãos de inteligência dos EUA. "Uma abordagem na qual os fins justificam os meios –e que emprega todas as ferramentas técnicas disponíveis – viola a confiança. Essa abordagem semeia a desconfiança". E Merkel acrescentou: "eu estou convencida de que amigos e aliados também deveriam ser capazes e estar dispostos a cooperar quando se trata da defesa contra ameaças externas".
Cooperação? Quando Merkel partiu para os EUA, na quinta-feira passada, ninguém tinha lhe prometido nada – nem mesmo em relação ao tratado de não espionagem, um acordo que os EUA tinham proposto inicialmente em resposta à indignação alemã sobre as revelações de que a NSA coletou uma grande quantidade de dados de telecomunicação na Alemanha e monitorou o celular da chanceler Merkel. Caso Merkel tivesse aderido à prática comum entre os políticos mais proeminentes, que manda evitar viagens ao exterior quando não se espera nenhum resultado concreto, ela teria ficado em Berlim.

A relação entre Berlim e Washington

Mas há um tipo de relação especial entre Berlim e Washington no momento --especial no sentido de que a chanceler quer fazer de tudo para evitar um conflito com os EUA. E ela tinha todos os motivos do mundo para ficar longe da polidez diplomática. Afinal de contas, o próprio celular de Merkel foi alvo da NSA. Mas, em vez disso, ela trouxe um presente valioso para Obama: a promessa de que o denunciante Edward Snowden não irá para a Alemanha para prestar depoimento no inquérito parlamentar sobre as práticas de espionagem da NSA que está em curso.
Merkel ainda fica agitada ao falar sobre a espionagem norte-americana – mas apenas quando as câmeras estão desligadas. No Jardim das Rosas, na semana passada, ela se mostrou tão vaga quanto Obama, preferindo falar de "diferenças de opinião". Mas não haverá consequências imediatas.
A razão não é difícil de identificar: a crise na Ucrânia. Como a situação na região continua piorando, Merkel está ansiosa por demonstrar união com Obama, e os dois ameaçaram a Rússia com novas sanções econômicas. Mas a solidariedade tem um preço: Merkel teve de se afastar de algumas de suas próprias convicções.
Pouco antes de Merkel partir para Washington, seu governo em Berlim tomou medidas que tornarão o trabalho da comissão de investigação sobre a NSA no parlamento muito mais difícil. Isso porque foi apenas em março passado que os conservadores de Merkel, em conjunto com seus parceiros de coalizão socialdemocratas, de centro-esquerda, se comprometeram a investigar ao máximo as práticas da NSA na Alemanha. Mas agora, pouco mais de um mês depois, os nobres objetivos da investigação foram reformulados – e drasticamente reduzidos.
Isso ficou evidente na semana passada, quando o governo de Merkel revelou à comissão de investigação o que pensa sobre o plano original de interrogar Edward Snowden na Alemanha: ou seja, não muita coisa. Em um relatório de 30 páginas, o governo enfatizou a "importância fundamental" da relação transatlântica com os EUA "para a política externa e as questões de segurança". O desejo de fazer Snowden depor na Alemanha teve que ser colocado de lado.

Desautorizando o Bundestag

Essa desistência também pegou os especialistas em política interna e os juristas do próprio partido de Merkel de surpresa. Anteriormente, as discussões se concentravam na questão legal sobre se a Alemanha seria obrigada a extraditar Snowden para os EUA caso ele fosse a Berlim para prestar seu testemunho.
Mas esse debate agora é coisa do passado. O governo de Merkel, reclama Konstantin von Notz, representante sênior na comissão do Partido Verde, de oposição, priorizou os interesses relacionados à política externa e à cooperação na área de inteligência em detrimento dos interesses do próprio parlamento da Alemanha. "É uma tentativa de enfraquecer o Bundestag", disse ele. Se a maioria dos membros da comissão compartilhar a opinião de von Notz quando eles se reunirem na próxima quinta-feira, acrescentou o representante dos verdes, a comissão não terá outra escolha senão confrontar o governo alemão no Tribunal Constitucional Federal, a mais alta instância judicial da Alemanha.
Do jeito que as coisas estão, o depoimento de Snowden provavelmente não será a única questão que o tribunal terá que resolver. Internamente, o governo de Merkel concordou em fornecer à comissão parlamentar de inquérito apenas acesso limitado a seus arquivos relacionados à NSA. As informações sobre as negociações do acordo de não espionagem, por exemplo, não serão disponibilizadas aos parlamentares. Segundo um alto representante do governo alemão disse à Spiegel, devido ao fato de as negociações sobre o acordo estarem em curso, não será possível repassar nenhuma informação sobre ele. Além disso, acrescentou esse representante, a questão toca em "uma área central relacionada ao privilégio dos membros do executivo*", que é protegido pela constituição. (Nota da tradutora: privilégio executivo é o princípio segundo o qual o presidente da república ou outro membro do executivo não precisa revelar informações sigilosas para terceiros.)
A investigação parlamentar representa uma ameaça direta às atividades dos serviços secretos da Alemanha e dos estrategistas da área de segurança da chancelaria. Tanto as agências de inteligência estrangeiras quanto as alemãs mantêm uma "cooperação estreita e digna de confiança" com a NSA e sua congênere britânica, a GCHQ, de acordo com um documento sigiloso do governo alemão. Informações também são trocadas regularmente com o FBI, a CIA, o Departamento de Segurança Interna dos EUA, o MI5 britânico e com várias outras agências de inteligência britânicas e norte-americanas. A cooperação tornou-se ainda maior nos últimos anos e é essencial para a Alemanha quando se trata de combater os perigos representados pelo terrorismo islâmico. Mas existe a preocupação de que uma investigação parlamentar agressiva possa prejudicar essa cooperação estreita.
"Nós temos medo que todos os nossos segredos comerciais sejam expostos pela comissão", disse uma autoridade do setor de inteligência da Alemanha. Para impedir que isso ocorra, o governo de Merkel começou erigir obstáculos. A chamada "regra da terceira parte", por exemplo, está sendo aplicada. Essa a regra estabelece que, antes que uma informação obtida por uma agência de inteligência estrangeira possa ser repassada, primeiro essa agência precisa conceder sua permissão. A regra, é claro, se aplica tanto à NSA quanto à GCHQ – o que significa que as agências suspeitas de terem cometido espionagem em larga escala na Alemanha têm uma influência significativa sobre a comissão encarregada de investigar essa espionagem.

"Sabotagem"

Os políticos oposicionistas do Partido de Esquerda, de extrema-esquerda, e do Partido Verde vem falando sobre "sabotagem". Eles também ficaram perplexos quando souberam, na semana passada, que o governo baseou sua posição, em parte, nas orientações jurídicas fornecidas por um escritório de advocacia norte-americano.
Essas orientações foram fornecidas pelo escritório Rubin, Winston, Diercks, Harris & Cooke, sediado em Washington, e essencialmente significam que qualquer pessoa que tenha qualquer coisa a ver com Snowden, até mesmo jornalistas, é uma criminosa em potencial. "Em nossa opinião, se Snowden fornecer informações ou documentos sigilosos para o Bundestag ou para os diplomatas alemães que entrevistarem Snowden, esses atos farão com que os envolvidos se exponham a uma conduta criminosa, de acordo com as leis dos Estados Unidos. Por esse motivo, os Estados Unidos teriam competência para julgar esses atos independentemente de onde eles tenham ocorrido", escreveu Jeffrey Harris, um dos sócios do escritório de advocacia. Essa é uma interpretação que também se aplica à Spiegel e a outros meios de comunicação que têm tido acesso a e divulgado uma grande quantidade de documentos fornecidos por Snowden.
O documento observa claramente que, nos Estados Unidos, os políticos alemães não gozam dos mesmos direitos de que gozam na Alemanha e que eles também não têm tanta proteção quanto os parlamentares norte-americanos.
O advogado norte-americano de Snowden, Ben Wizner, disse que essa conclusão – de que as autoridades norte-americanas podem tentar responsabilizar criminalmente os políticos alemães – é "mas do que absurda". Além disso, observou ele, Snowden "não se ofereceu para revelar como testemunha novas atividades de monitoramento que ainda não tenham sido divulgadas pelos jornalistas".
Parece incerto atualmente se a comissão de investigação sobre a NSA do parlamento alemão será capaz de cumprir sua missão. E também não parece que outras instituições estejam preparadas para jogar muita luz sobre o assunto. No início deste ano, promotores alemães estavam considerando a abertura de uma investigação criminal sobre o monitoramento do telefone celular de Merkel. Mas esse plano parece ter sido arquivado. De acordo com a explicação fornecida para o arquivamento, uma investigação como essa teria pouca chance de sucesso sem a assistência jurídica dos EUA.
Esse ponto de vista marca uma significativa mudança de opinião. Tanto os políticos de esquerda quanto os de direita da Alemanha tinham esperanças de poderem confrontar os órgãos de inteligência dos EUA, mesmo que apenas simbolicamente. Especialmente para o SPD (Partido Social Democrata), essa era uma questão de credibilidade. Afinal de contas, não faz muito tempo que Peer Steinbrück, então candidato do SPD a chanceler durante as eleições do outono passado, acusou Merkel de ter quebrado seu juramento de posse ao não proteger os alemães contra a espionagem norte-americana. O presidente do partido, Sigmar Gabriel, disse: "eu espero que a chanceler represente a constituição alemã em suas discussões nos EUA, e não os interesses dos serviços de inteligência norte-americanos na Alemanha".

Cão latindo ou pedinte

Mas isso foi antes das eleições gerais de setembro passado – e milênios atrás em termos políticos. Agora, até mesmo Gabriel acredita que ser gentil com os norte-americanos deve ser uma prioridade, e ele parece ter se esquecido de sua posição declarada, segundo a qual um acordo de livre comércio com os EUA só poderá ser concluído se os norte-americanos respeitarem os direitos democráticos dos alemães.
Mas nem todos os socialdemocratas têm uma memória tão ruim assim. "Snowden e outras pessoas continuam sendo testemunhas importantes para a comissão de investigação", disse Rolf Mützenich, vice-líder do SPD no parlamento alemão. Dietmar Nietan, tesoureiro do SPD, concorda que seria um erro minimizar um conflito com os EUA. "Houve um grande distanciamento e nós não deveríamos dourar a pílula", diz ele.
Muitos entre os conservadores de Merkel também acreditam que é imprudente por parte da chanceler se mostrar tão próxima de Obama. Atualmente, vários parlamentares da CDU (União Democrata Cristã) estão em campanha para a eleição ao Parlamento Europeu, que ocorrerá no final deste mês, e muitas vezes eles têm sido questionados sobre por que a Alemanha deveria se mostrar disposta a impor sanções contra a Rússia em resposta à crise Ucrânia se os norte-americanos parecem tão desinteressados em cumprir as leis internacionais.
"Já há algum tempo eu venho notando em minhas aparições públicas que a abordagem crítica dos alemães em relação aos EUA é, infelizmente, maior do que já foi no passado", disse o parlamentar da CDU Wolfgang Bosbach. "Há uma certa decepção com o fato de que Obama tenha mantido, sem nenhuma interrupção, as mesmas políticas da era Bush em relação às questões de segurança nacional".
Merkel, é claro, está ciente desse estado de espírito, mas ela se recusa a ceder a ele. Ela está convencida de que o presidente russo Vladimir Putin só poderá ser controlado se a Europa e os EUA se apoiarem mutuamente durante a crise na Ucrânia – e ela até está preparada para sacrificar a investigação sobre a NSA para alcançar esse objetivo. Isso também significa utilizar dois pesos e duas medidas. Seria pouco eficaz ameaçar Putin com consequências devido à violação de leis internacionais e ignorar as próprias violações cometidas por Obama. Merkel gosta de lembrar que os EUA e a Alemanha pertencem a uma comunidade que segue valores. Mas qual é o valor dessa comunidade quando se constata que o compromisso de Obama com esses valores é guiado pela conveniência?
Antes de sua viagem, na semana passada, Merkel e sua equipe insistiram que era preciso olhar para as coisas de maneira pragmática. Independentemente de quanto Berlim protestasse, os norte-americanos iriam ignorar esses protestos, pois sabem que a Alemanha é dependente deles, afirmaram os assessores de Merkel. "Nós estávamos em algum ponto entre a posição de um pedinte e a de um cão latindo", disse um assessor da chancelaria. Agora, Merkel parece ter escolhido seu papel favorito: o de pedinte.
 
 
Texto da Der Spiegel, reproduzido no UOL. Tradutor: Cláudia Gonçalves

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Alemanha considera praticar espionagem contra EUA


Insatisfeitas com a falta de respostas de Washington no escândalo de espionagem da Agência Nacional de Segurança (NSA na sigla em inglês), as autoridades de Berlim consideram uma nova abordagem. A Alemanha poderia iniciar medidas de contraespionagem dirigidas a seus aliados.
A pergunta parecia deslocada, especialmente feita três vezes. Uma jornalista de uma revista satírica queria saber se Thomas de Maizière gostava de salgadinhos de queijo. "Perguntas como essa são mais adequadas para o café da manhã na televisão do que aqui", retrucou o ministro. Era a primeira visita de De Maizière como ministro do Interior ao Departamento Federal de Proteção da Constituição (BfV na sigla em alemão), a agência de inteligência interna da Alemanha. E ele não estava com humor para brincadeiras.
Em vez disso, o ministro preferiu se concentrar no básico durante sua aparição duas semanas atrás, com a contraespionagem no topo de sua lista. A questão, ele advertiu, não deveria ser subestimada, acrescentando que a pergunta sobre quem estava fazendo espionagem tinha importância secundária.
Em outras palavras, a Alemanha pretende se defender contra todos os esforços de espionagem no futuro, mesmo que eles sejam cometidos por supostos amigos.
Enquanto as palavras do ministro podem ter soado inócuas, elas marcaram nada menos que o início de um confronto político. Longe do olhar do público, o governo alemão avança nos planos para voltar seus próprios espiões contra países parceiros como os EUA, colocando aliados no mesmo nível que chineses, russos e norte-coreanos.

Revelações humilhantes

A teimosia dos americanos, que responderam a poucas perguntas relevantes da Alemanha durante o escândalo de espionagem da NSA, irritou o novo governo, composto pelos conservadores da chanceler Angela Merkel (CDU) e o Partido Social-Democrata (SPD), de centro-esquerda. Agora aumenta a pressão para que a Alemanha encontre suas próprias respostas para as perguntas que Washington tem ignorado. "Eles são como caubóis que só compreendem a linguagem do faroeste", dizem fontes do partido de Merkel, referindo-se à obstinação dos americanos. Dois órgãos do governo estão no centro da estratégia para restaurar o respeito perdido durante os meses de revelações humilhantes de que os EUA têm espionado a Alemanha: o Departamento para Proteção da Constituição e o Gabinete do Promotor Federal.
A nova assertividade de De Maizière ficou clara primeiramente na Conferência de Segurança em Munique no início deste mês. Durante uma discussão, ele levantou a questão com Mike Rogers, presidente da Comissão Permanente de Inteligência da Câmara dos Deputados e chamou a incansável coleta de dados pela NSA de "ilimitada". Ele disse que não podia sequer afirmar quais foram os danos políticos porque ainda não tinha informações vitais.
De fato, sobre muitas questões chaves o governo alemão ainda está voando tão cegamente quanto estava em junho passado, quando o denunciante Edward Snowden fez suas primeiras revelações sobre os esforços da NSA para espionar a Europa e outras partes do mundo. Em resposta às alegações que cercam os documentos vazados, tanto o Ministério do Interior quanto o da Justiça da Alemanha enviaram extensas listas de perguntas aos EUA. No final de outubro eles também enviaram um lembrete simpático. Mas mesmo então, depois de meses de espera, nenhuma resposta satisfatória foi oferecida.

Diplomatas deixam Washington de mãos vazias

Diversas delegações alemãs de alto nível viajaram a Washington em missões de averiguações, mas também voltaram de mãos vazias, na maior parte. Os americanos forneceram cerca de mil páginas de documentos que foram "desclassificados" neste outono, mas são basicamente parágrafos intermináveis sobre procedimentos e regulamentações. O resto ou está pintado de preto ou é irrelevante.
O chamado pacote Alemanha, que conteria todos os dados copiados por Snowden relativos à Alemanha, foi prometido mas não entregue. E não houve progresso sobre um "acordo de não espionagem", apesar de meses de idas e vindas sobre o assunto. Uma versão do documento, que deverá expor as regras para a cooperação entre os órgãos de inteligência alemães e americanos, foram arquivados por Washington. É provável que também continue lá.
Na semana passada, o próprio presidente Barack Obama recusou qualquer forma de "acordo de não espionagem". "Não há nenhum país onde tenhamos um acordo de não espionagem", disse Obama em uma entrevista coletiva durante a visita do presidente francês, François Hollande. O líder francês, que manifestou desejo semelhante ao da Alemanha, foi obrigado a voltar para Paris de mãos vazias.

EUA querem "virar a página"

Entre a Casa Branca e o Capitólio, as pessoas parecem estar revirando os olhos diante dos alemães. Elas dizem que já ouviram lamentos suficientes. Fontes próximas ao secretário de Estado John Kerry, especialmente, estão forçando para se distanciar do escândalo de espionagem. "Vamos virar a página", teria dito Kerry durante reuniões privadas com Merkel e o ministro das Relações Exteriores, Frank-Walter Steinmeier.
Um novo capítulo está chegando, mas não será exatamente como Kerry o imagina. Os social-democratas estão cada vez mais irritados com a aparente ignorância dos americanos sobre como a Alemanha considera delicado o caso da NSA. "A guerra do Iraque foi brincadeira comparada com o golpe que nossas relações sofreram com o caso NSA", diz Dietmar Nietan, membro do Parlamento alemão que atua na questão das relações germano-americanas há anos.
Membros dos conservadores de Merkel têm opiniões semelhantes. Eles também temem que a chanceler sofra um duro golpe contra sua imagem se ela simplesmente aceitar o fato de que seu celular foi grampeado.
Contra esse pano de fundo, na verdade seria adequado tanto para os conservadores como para a SPD se o Promotor Público Federal Harald Range fosse em frente e abrisse uma investigação oficial das atividades de espionagem na Alemanha. O promotor-geral da Alemanha não tomou uma decisão sobre o caso ainda, mas a pressão está crescendo em Berlim. Em conversas informais, os ministros de governo do SPD - Heiko Maas no Ministério da Justiça, Steinmeier no das Relações Exteriores e Sigmar Gabriel no da Economia - chegaram a um acordo com seus colegas da CDU Peter Altmeier na Chancelaria e De Maizière de não atrapalhar qualquer investigação. Pelo contrário. Range, que há muito tempo acha que há bons motivos para uma investigação, hoje está sendo explicitamente encorajado a agir.

Deixando espiões fora do gancho

Recentemente, autoridades do Ministério da Justiça de Maas indicaram para o Gabinete do Promotor Federal que seria incompreensível dispensar investigações só porque poucos esperam que elas produzam resultados. "Não é possível que estejamos caçando ladrões comuns mas nem sequer tentemos investigar quando o celular da chanceler foi grampeado", teria dito Maas em uma discussão interna.
Ainda assim, e por mais que o novo governo queira mostrar sua firmeza, é improvável que uma investigação desse muitos frutos. Portanto, Berlim também considera seriamente romper um tabu e espionar seus próprios amigos. Seu veículo preferido seria a Seção 4 do BfV, que é responsável pelas iniciativas de contraespionagem da Alemanha.
O BfV, sediado em Colônia, há muito tempo divide o mundo da espionagem em bons e maus. Os russos, chineses, iranianos e norte-coreanos sempre foram relegados ao lado ruim, e o órgão lidou especificamente com essas ameaças. Mas os americanos, os britânicos e os franceses foram essencialmente considerados imunes.

"Não podemos ignorar países aliados"

Especialistas em política interna de todos os partidos gostariam de mudar isso. "Temos que pôr fim à abordagem desigual e colocar todos no mesmo nível", diz o político da CDU Clemens Binninger, o novo chefe do Painel de Controle Parlamentar, que é responsável por supervisionar os órgãos de inteligência no Parlamento.
"Temos de nos proteger, não importa de onde venham as ameaças", concorda o especialista em assuntos domésticos do SPD, Michael Hartmann. E mesmo a União Social Cristã, que é tradicionalmente amistosa com os EUA, está preocupada. "Não podemos ignorar os países aliados", diz Stephan Mayer, o porta-voz de assuntos internos da CSU, que tem poder no governo e é o partido irmão da CDU de Merkel na Baviera.
Os planos para monitorar os aliados já estão avançados. A Seção 4 no BfV, onde apenas cem especialistas eram empregados, deverá ser expandida de modo significativo. Além disso, planeja-se uma espécie de "observação light": os parceiros ocidentais não serão alvo de todo o espectro de instrumentos de inteligência disponíveis, como monitoração de telefones, aquisição de fontes ou observação direta. Mas as autoridades alemãs farão o possível para manter em vista o que acontece nas embaixadas e consulados, saber mais sobre quem trabalha lá e determinar a extensão de suas capacidades técnicas. Em suma, elas querem saber, por exemplo, se os departamentos do governo alemão estão sendo monitorados pela embaixada americana em Berlim.
Hans-Georg Maassen, diretor do BfV, já começou. Ele pediu que a embaixada dos EUA forneça nomes e dados do pessoal da inteligência que está na Alemanha com credenciais diplomáticas. Ele também pediu informações sobre empresas privadas com as quais os EUA cooperam na Alemanha em questões de inteligência. Segundo fontes do BfV, a agência já tem uma visão geral melhor do que acontece do que apenas alguns meses atrás.
Até a menor das três agências de inteligência alemãs, o Serviço de Contraespionagem Militar (MAD na sigla em alemão), que se situa nas forças armadas e realiza algumas operações de inteligência interna, contempla uma nova abordagem. Ulrich Birkenheier, diretor do MAD, está examinando se sua organização deveria prestar mais atenção nas agências de inteligência aliadas.

Dando uma lição nos EUA

As mudanças significam que nove meses depois do caso da NSA o governo alemão ruma para um sério confronto com os EUA. Este marcaria uma ruptura com a prática de décadas de permitir que parceiros ocidentais basicamente façam o que quiserem na Alemanha. É claro que há várias vozes - a maioria delas na Chancelaria e no Ministério do Interior - que advertiram que monitorar mais os aliados poderá provocar consequências imprevistas e potencialmente causar danos às parcerias existentes. Outras autoridades graduadas, porém, dizem que sem essa mudança de enfoque os EUA não compreenderiam totalmente as ramificações do caso NSA.
Uma decisão definitiva ainda não foi tomada. Os Ministérios das Relações Exteriores e do Interior e a Chancelaria continuam no processo de encontrar uma posição comum. Esse também é um motivo para o adiamento da visita de Merkel a Washington. Originalmente, março havia sido considerado, mas hoje só se diz que a chanceler fará a viagem "na primavera".
Poderá ser mais à frente. Fontes do governo dizem que Merkel só viajará quando Berlim chegar a uma posição comum sobre inteligência. E quando estiver definido antes de ela embarcar de que poderá voltar com um claro sucesso. Merkel precisa de um escalpo. Ainda não está claro exatamente qual será.
 

Reportagem de Hubert Gude, Horand Knaup, Jörg Schindler, Fidelius Schmid e Holger Stark para a Der Spiegel, reproduzida no UOL. Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Os fins dos meios

Ao sair de Brasília para encontrar-se com a secretária de Segurança Nacional dos Estados Unidos, o ministro das Relações Exteriores levava uma bagagem politicamente simples: o Brasil não deixou de condicionar a restauração das relações com os EUA, e em particular com o governo Obama, ao pedido de desculpas pela violação das comunicações da presidente e do governo brasileiros, revelada por Edward Snowden.
Não era, por certo, o que Susan Rice esperava de Luiz Alberto Figueiredo, o que explica a brevidade do encontro depois da demorada viagem por ela pedida ao ministro. Menos de 45 minutos foram suficientes para os gestos protocolares, de chegada e de saída, e para o recheio com a explicação sobre as medidas --poucas, superficiais e sem garantias -- anunciadas pelo próprio Obama na Agência Nacional de Segurança (NSA), a cidadela da espionagem.
Menos de 24 horas antes do encontro infrutífero em Washington, Angela Merkel, ao inaugurar na tribuna do Parlamento o seu terceiro mandato de chefe do governo alemão, dedicou duros e inteligentes parágrafos à espionagem americana, que também a visou. E, inevitável, ao discurso de Obama em defesa da NSA. "As ações em que os fins justificam os meios, nas quais o uso da técnica não tem limites, traem a confiança e instauram a desconfiança."
Os alegados fins da segurança a justificarem os meios. Razão bastante para a afirmação de Merkel, talvez jamais ouvida pelos americanos na voz de um aliado, de que Alemanha e Estados Unidos "estão muito distantes quando se trata de ética", entre "a liberdade e a ação do Estado". É estupendo que palavras assim venham da Alemanha.
Mas historicamente grandioso para a Alemanha e seu povo, não para a humanidade. Porque são palavras dirigidas a um país e um povo que outrora as diziam ao mundo e hoje são os destinatários delas. Se não as ouvem cabisbaixos e enrubescidos, é por superpotência significar, na realidade, superprepotência.

Trecho da coluna de Jânio de Freitas, na Folha de São Paulo