quinta-feira, 15 de abril de 2021

A geração dos jovens que não verão país nenhum


As projeções de crescimento da economia para o ano que vem começam a cair para a casa do 1%. É apenas chute vagamente informado, mas essa bola deve cair mesmo no pântano em que vivemos faz tempo. Em 2022, bicentenário da Independência, serão nove anos de pobreza piorada. Ainda estaremos colonizados pelos nossos piores monstros.

Imagine-se uma brasileira que teve a boa sorte de terminar a faculdade no último ano antes da catástrofe, em 2013, nos seus 21 anos. “Boa sorte” porque apenas 1 de cada 4 jovens de 18 a 24 anos está no ensino superior ou concluiu este curso. Há quem tenha largado a escola muito antes e terá vida pior. No ano que vem, essa brasileira fará 30 anos. Terá passado a primeira parte de sua vida adulta em um país em destruição. É apenas um símbolo de uma catástrofe duradoura, uma de várias gerações perdidas.

No ano que vem, o país ainda será mais pobre do que era em 2013: a renda (PIB) per capita deve ser ainda 7,5% menor. Pelas estimativas atuais, voltaremos a 2013 apenas em 2027. Mas chute econômico não é destino. Assistir bestificado à presente destruição vai nos garantir futuro tenebroso.

Mal ou bem, países do centro do mundo planejam a reconstrução depois da epidemia. São grandes projetos de economia verde e pesquisa científica e tecnológica, como biotecnologia e inteligência artificial.

Qual o lugar do Brasil nesse futuro? Uma zona de catástrofe ambiental e sanitária, talvez por isso objeto de sanções econômicas e políticas.

Nossos produtos industriais logo serão ainda mais obsoletos em termos tecnológicos e ambientais. Talvez não queiram também nossos grãos, ferro e petróleo, por prevenção ambiental ou porque a China passou a plantar soja na África ou porque o país é infecto ou avilta o trabalhador. Com o troco que nos sobrar, compraremos produtos “verdes” ou máquinas inteligentes reais e virtuais etc. inventados com pesquisa subsidiada no mundo rico.

O plano Bolsonaro é o avesso podre dos planos de reconstrução: é devastação ambiental e da Educação, sob mando de um adepto do espancamento de crianças. São tempos de dr. Jairinho e dr. Jairzinho.

Desmontam-se agências e a participação democrática nos conselhos de Estado, avilta-se ou se assedia o corpo técnico de servidores, perseguem-se professores, acelera-se a destruição da pesquisa científica. Capangas oficiais e paramilitares, milícias, talvez colaborem para a implantação de um autoritarismo temperado por farisaísmo, fundamentalismo religioso, patriotada militaresca e ignorância lunática.

Nos acostumamos aos quase nove anos de catástrofe econômica assim como nos acostumamos agora aos 3 mil mortos por dia ou aos crimes de responsabilidade semanais de Jair Bolsonaro. Resta força apenas para combater o regresso autoritário. O Brasil se acostumou a não ter futuro.

É pior do que nos anos perdidos para o horror social e a inflação dos 1980/90. Então se tentava reconstruir um país: Constituição, estabilidade econômica, alguns direitos sociais.

Ainda assim, nossos desastres vêm de longe, pelo menos desde a recessão que começou em 1981, desatino final da ditadura militar. Desde então até 2019, o PIB per capita do Brasil cresceu 36%. O dos países já ricos (OCDE), 85%. O do mundo, 75%. É o aspecto econômico de um fracasso longo e maior. A diferença agora é que morreu ou está para morrer, sem UTI, a ideia de sucesso ou de progresso.

“Não Verás País Nenhum”, dizia o título do romance presciente de Ignácio de Loyola Brandão (aliás de 1981). Tratava de um Brasil em que a Amazônia se tornou um deserto, em que São Paulo fede a cadáveres e em que militecnos comandam um governo autoritário.​


Texto de Vinicius Torres Freire, na Folha de São Paulo

sexta-feira, 9 de abril de 2021

Diariamente


Para calar a mente, quetiapina
Para lavar a roupa, Flanax
Para viagem longa, XR
Para difíceis contas, Adderall

Para quem está na lona, Lexapro
Para o noticiário, pantoprazol
Para pular o dia, Rivotril
Para a fibromialgia, não tem cura a dor
Para parar com o Lyrica, Dorflex
Para andar na Pamplona, mais Dorflex
Para trazer à tona, Zoloft
Para a melhor receita, cor a-zuuuul

Para a angústia da noiva, propanolol
Para a dor do piriri, Duspatalin
Para o outono e a rinite, Allegra D.
Para quem vive na sombra, Pondera

Para todas as coisas, receituário
Se te deixarem tonta, Labirin
Para suportar a fronha, Stilnox
Para sair da gangorra, 200 (mg)

Para qualquer desconfiança, distúrbio
Para beber uma coca, não misture
Para não ferver a cabeça, Topamax
Para a luz lá na cachola, 220 páginas

Para neuroses em ronda, falta fé
Para o neoliberalismo, apaga a dor
Para o beijo da moça, anorgasmia
Para um bafo muito seco, hor-teeeee-lã

Para a cor roxa, cloroquina
Para a chata de galocha, BupPara ser “mother”, Equilid
Para abrir as pernas, pare com o Efexor

Para aumentar a dosagem, sábado
Para na cama ficar mole, Miosan
Para trancar bem a porta, verifique cem vezes
Para que ainda receitam o Amytril, niiinguém saaabe

Para quem não acorda, volte com o Efexor
Para a coluna torta, Tramal
Para parecer mais nova, botox
Para os dias de prova, Ri-ta-liiiiiiii-na

Para dar risada do nome, Piracetam
Para sobrecarregar, fígado
Para levar a criança à escola, Sumax
Para os dias de fossa, es-ta-bi-li-za-doooores (hmmmm)

Para o indivíduo que capota, Dual
Para fechar uma porta, verifique 500 vezes
Para quem não se comporta, Nardil
Para a mulher que se coloca, louca

Para saber a resposta, toxicômano
Para escolher a farmácia, grande
Para a menina que engorda, Ozempic
Para a riqueza da indústria, farmacêutica

Para o sentimento que toca
Para o pensamento que faz troça
Para a foto que você posta
Para você, o que te destróoooi, diariameeeeeente


Crônica paródica de Tati Bernardi, na Folha de São Paulo.

quinta-feira, 8 de abril de 2021

Bosi fez do acordo entre o verbo e a carne o norte de sua existência


Numa mesa redonda sobre a obra de Machado de Assis, realizada em 1980, e com nomes de proa, como Antonio Callado e Roberto Schwarz, Alfredo Bosi tomou a palavra e, em vez de expor erudição intimidadora ou elaborar teorias inteligentes, propôs uma pergunta que condensa a singularidade de seu olhar e a potência de sua contribuição à cultura brasileira. “É uma curiosidade minha saber como é que vocês responderam vitalmente a Machado.”

Autorretrato involuntário. Para Alfredo Bosi, cultura nunca foi sinônimo de acúmulo rigoroso de dados dissociado da vida. Pelo contrário, segundo ele, o conhecimento era parte de uma ética que vinculava intrinsecamente a formação à roda da biblioteca com o saber forjado nas experiências do cotidiano.

Circula no YouTube uma notável conferência do crítico, "Cultura ou Culturas Brasileiras?", de 2015. A fim de explicar o conceito de cultura, além de recorrer às noções grega e romana, ele lançou mão de sua experiência em Florença, nos anos de 1961 e 1962.

Bolsista do governo italiano, o jovem Bosi converteu seus contratempos diários numa fascinante reflexão acerca da ambiguidade do conceito latino –cultura implica tanto trabalhar a terra com as mãos quanto moldar o espírito.

Ambiguidade tornada dilema que ainda hoje aprisiona a civilização brasileira, como descortinado no fundamental “Dialética da Colonização”, de 1992. Polos opostos se confrontam há séculos –de um lado, se “aproxima cultura e culto, utopia e tradição”. De outro, tendência dominante, se “amarra firmemente a escrita à eficiência da máquina econômica articulando cultura e colo”. A defesa incondicional da vida pouco vale nos manifestos de banqueiros preocupados com a economia e nada pesa na desfaçatez de políticos e empresários que desejam legalizar o contrabando vergonhoso de vacinas.

Doutor em literatura italiana, com tese dedicada ao “Itinerário da Narrativa Pirandelliana”, defendida em 1964, e livre-docente na mesma disciplina, com o trabalho “Mito e Poesia em Leopardi”, de 1970, Bosi dominava como poucos a tradição da literatura clássica, numa das mais completas vocações de comparatista da universidade brasileira.

Em 1970, ele realizou uma mudança importante. Passou a ensinar literatura brasileira, se tornando professor titular em 1985 e professor emérito em 2009.

Não se pense, contudo, que este foi um movimento inesperado. Fiel ao compromisso com o próprio tempo, Bosi sempre se interessou pela literatura nacional. Em 1962 organizou “José Bonifácio, o Moço – Poesias”. Em 1966, publicou sua primeira obra de referência na disciplina, “O Pré-Modernismo”, estudo incontornável do período imediatamente anterior à eclosão da Semana de Arte Moderna em 1922.

Na verdade, o rito de passagem foi celebrado com um livro-monumento, saído no mesmo ano de 1970 –“História Concisa da Literatura Brasileira”, título obrigatório e incomum best-seller acadêmico.

Em primeiro lugar, Bosi aceitou o desafio de analisar a produção contemporânea, recusando o abrigo cômodo de lidar somente com o cânone. Em novas edições, acrescentou uma seção sobre a ficção produzida entre os anos 1970 e 1990. De igual modo, estudou a poesia concreta, poetas posteriores e ainda destacou, tópico inédito em histórias literárias, as traduções de poesia.

Outro gesto que não se encontra em títulos do gênero –Bosi concluiu o livro com uma seção em que sublinhou a importância de outros críticos, seus pares e, por vezes, vozes divergentes. Generosidade intelectual que reitera o elo entre vida e obra.

As últimas páginas homenageiam um austríaco naturalizado brasileiro, conferindo pleno sentido a uma das dedicatórias do livro. “Para Otto Maria Carpeaux, mestre de cultura e de vida.” Eis aí o acordo entre verbo e carne, biblioteca e pólis –norte da existência de Alfredo Bosi.

Por fim, publicar “História Concisa da Literatura Brasileira” foi um relevante ato de resistência nem sempre bem compreendido. Leiamos a nota adicionada em 1979 –“Quanto à crítica produzida nos anos de 1970, registre-se a tendência formalista e estruturalista”. Portanto, escrever uma história da literatura em 1970, momento mais sanguinário da ditadura militar durante o governo do general Médici, foi uma atitude ousada –dentro e fora da universidade.

Resistir foi o verbo central na vida e na obra do autor de “Literatura e Resistência”, de 2002. No Brasil de hoje, em plena incapacidade de um governo negacionista de enfrentar a crise da Covid-19, resistir também é viver com coerência e dignidade. Lição definitiva, que afirma a atualidade perene do pensamento-ação de Alfredo Bosi.


O texto é de João Cezar de Castro Rocha, professor da UERJ, publicado na Folha de São Paulo

Atualmente só dá para descer até o chão ao som de Ultraje a Rigor


Dois homens se reúnem na sede da Central dos Amigos Conservadores e Aliados, a C.A.C.A.

“Chefe, está tudo certo para o nosso Grande Encontro dos Conservadores do Brasil.”

“Ótimo. Não vejo a hora de reunir todos os conservadores para debater a tradição, os bons costumes e a liberdade.”

“Só temos um problema, senhor.”

“Não vai me dizer que estamos em pandemia, que não devemos aglomerar, blábláblá... Não podemos ter medo desse vírus comunista.”

“Jamais, senhor. Mas não é isso... É sobre a lista de convidados.”

“Faltou alguém? Onde cabem 500, cabem mil.”

“Pelo contrário. Precisamos cortar alguns nomes. Estou vendo aqui que o senhor planeja convidar o filósofo Luiz Felipe Pondé.”

“Sim, queremos ele na mesa: ‘Homens conservadores transam, sim’.”

“Sinto dizer, senhor, mas o Pondé acabou de escrever uma coluna na Foice de São Paulo dizendo que, entre o nosso presidente e o Lula, ele votaria no... Lula.”

“Não acredito que o Pondé, grande filósofo da direita, virou comunista?”

“E dizem que agora está transando muito mais.”

“Então coloca o Constantino na mesa.”

“Não creio que Constantino transe. Também teremos que tirar o Diogo Mainardi da lista de convidados.”

“Que que tem o Diogão? Ele sempre foi o nosso grande aliado, com o Antagonista.”

“Mas o Manhattan Connection acabou de ir para TV Cultura. E a TV Cultura é do governo de São Paulo, que é João Doria. Ou seja, comunista.””

“Tá, pode tirar o Mainardi.”

“O senhor também precisa alterar o set list da pista de dança. Aqui diz que vai tocar Britney Spears.”

“Sim. ‘Ooops, I Did It Again’ é minha música.”

“É que, com a pandemia, ela começou a defender redistribuição de renda e greve trabalhista. Ou seja, comunista.”

“Os comunistas levaram até a Britney?”

“Levaram a Anitta também, que chamou nosso presidente de ‘Bolsocaro’.”

“Por Deus, não dá mais para ser conservador e descer até o chão?”

“Dá. Mas só ao som de Ultraje a Rigor.”

“Cancela o encontro, então.”​


Texto de Flavia Boggio, na Folha de São Paulo

quarta-feira, 7 de abril de 2021

Ainda não me convenci de que existam generais democratas no Brasil


Conheci um bom pedaço da ditadura (já estava grandinho no governo Geisel).

Nem vou falar dos horrores, das violências, dos desastres e das injustiças do período. Trato de uma coisa menor, mas que me deixa bem irritado ao ver repetida agora: o puxa-saquismo dos civis em relação aos militares.

Apareceu por toda parte nestes dias. “O general Fulano se recusa a participar de um golpe”: parabéns ao general Fulano. “Como nunca, os militares estão conscientes de suas funções constitucionais.” Que bom. Ainda bem. “O comandante Beltrano reafirma seu compromisso com a ordem vigente.” Nossa. Muito obrigado.

Quando chegamos a esse ponto, ponho as mãos na cabeça. É sinal de que nós, os civis, vamos deixando de ser sujeitos do processo político —e que depende deles, militares, a decisão de aderir ou rejeitar um projeto golpista.

“Não há clima para uma intervenção”, diz o general A; mas e se houvesse? Aí, imagino que não haveria declaração nenhuma —os tanques já estariam nas ruas. Parece evidente que, se não todos, muitos militares trabalham com essa hipótese. “Se tiver que haver, haverá”, disse o general Mourão em 2017.

Em 2018, o general Villas-Boas postou seu famoso tuíte alertando, por assim dizer, contra uma possível decisão do Supremo Tribunal Federal, o STF, em favor de Lula, falando de “repúdio à impunidade” e de um Exército “atento às suas missões institucionais”.

Dois anos depois, o general Augusto Heleno esbravejava contra outra decisão do STF, que possibilitava que Bolsonaro tivesse seu celular apreendido para investigações: haveria “consequências imprevisíveis para a estabilidade nacional”.

Ainda em 2020, o general Luiz Eduardo Ramos descartava um movimento militar: declarou que os comandantes militares achavam “ultrajante” essa hipótese. Mas logo acrescentou: “Agora o outro lado tem de entender também o seguinte: não estica a corda”.

Não são militares da ativa, certo. Pertencem à cúpula do bolsonarismo —ironicamente, à vertente “moderada” de um “freak show” de milicianos, malucos da conspiração, videntes e incendiários.

Não quero cometer injustiças com os três militares demitidos por Bolsonaro. Tudo indica que não quiseram aderir à demência presidencial.

Mas até hoje não tive notícia de chefe militar brasileiro visceralmente democrático. Só mudarei de ideia quando algum criticar o golpe de 1964.

Ao contrário, todo ano, no dia 31 de março, vemos pronunciamentos celebrando o movimento. Por quê? Afinal, não é feriado nacional, não é data religiosa, não é Dia Internacional da Mulher, Dia da Consciência Negra, aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Em 1964, os militares puseram tanques nas ruas sem que nenhum poder constitucional requisitasse a sua intervenção. Diante do fato consumado, a maioria do Congresso se curvou. O nome disso é golpe.

Passaram-se mais de 50 anos, e não sei de nenhum militar que tenha feito a autocrítica dessa violência, ponto de partida para todas aquelas que se seguiram.

É o que disse Janio de Freitas, na Folha de domingo passado: “Enquanto faltar a coragem moral de reconhecer que antecessores seus cometeram crimes bárbaros e estrangularam as liberdades e demais direitos universais, os militares não estarão a serviço legítimo da sua função de Estado”.

Mas o que mais se vê é um movimento de reverência aos militares supostamente democratas. É a mesma auto-hipnose de quem repete que “as instituições estão sólidas”.

Estivessem sólidas, não estaríamos dando graças a Deus pelo fato de haver militares sem disposição para dar o golpe. Estivessem sólidas, não estariam parados os processos investigando o golpismo do presidente. Um dia acordaremos percebendo que as instituições que “eram sólidas” deixaram de ser.

Muita coisa diferencia o momento atual do que acontecia em 1964. Naquela época, o golpe não foi feito em favor de um projeto individual. As Forças Armadas, como um todo, tomaram o poder; não é a mesma coisa do que entregar o comando a um psicopata.

Além disso, não estamos vivendo um momento de agitação social, de “caos”, de “baderna”, como os militares gostavam de classificar os movimentos de esquerda.

Esses dois fatores correspondem, creio, à “falta de clima” para uma intervenção agora. Mas nada me convence de que os militares descartam a hipótese. Provavelmente, quem os elogia agora também irá elogiá-los nessa ocasião.


Texto de Marcelo Coelho, na Folha de São Paulo

Destaque do blogueiro. 

sábado, 3 de abril de 2021

Jesuis

 

“Multipliquei os pães e os peixes e dei aos famintos”, disse Jesus. Vai pra Cuba! Tem que ensinar a pescar! Rarará!


Trechinho da coluna de José Simão, na Folha de São Paulo

terça-feira, 30 de março de 2021

Morre Contardo Calligaris, o psicanalista italiano que soube levar o Brasil ao divã


O estilo de se expressar de Contardo Calligaris, morto nesta terça (30), aos 72 anos, em decorrência de um câncer, era bastante particular. Gestual envolvente, olhar sedutor, tiradas irônicas e um sotaque que embaralhava italiano, inglês e português eram a marca de sua presença tanto num debate profissional como no hábito de que ele tanto gostava, o da tertúlia com os amigos.

A morte de Calligaris foi confirmada por seu filho, o cineasta Maximilien Calligaris, numa rede social. Segundo ele, diante da proximidade da morte, seu pai disse que esperava "estar à altura". O psicanalista, escritor e dramaturgo se firmou nas duas últimas décadas no Brasil como um fino observador da cultura e do comportamento do país.

O diretor de Redação da FolhaOtavio Frias Filho, morto em 2018, gostava de provocar Calligaris, dizendo que, no fundo, ele devia ser um argentino que tinha inventado uma vivência por vários países só para justificar o sotaque que virou sua marca.

Calligaris, de bom humor, sempre ria dessa brincadeira. Aliás, não era pequena a admiração de Frias Filho por ele. Ambos compartilhavam um gosto semelhante no que diz respeito a cinema e teatro e um interesse por entender a sexualidade humana.

O sotaque, expliquemos logo, era resultado do fato de Calligaris ser italiano, porém de ter sido alfabetizado em inglês. Vinha de uma família que havia lutado contra o fascismo de Mussolini e este era justamente o idioma da resistência, como conta Calligaris em "Hello, Brasil", escrito nos anos 1990.

Na reedição desse livro, em 2017, Calligaris afirmava que já não poderia mais escrever sobre o país com o olhar de um estrangeiro, já que se sentia cada vez mais brasileiro. Ele nasceu em Milão, em 2 de junho de 1948. Escritor, psicanalista e dramaturgo, manteve uma coluna neste jornal desde 1999, às quintas-feiras, dedicadas a temas da psicanálise, filmes, peças e livros.

“Nascido em Milão, cidadão do mundo e tradutor do Brasil, Contardo Calligaris elevou o patamar do colunismo de cultura no Brasil. Foi testemunha ocular das principais mudanças de comportamento dos últimos 50 anos. Deixará uma lacuna gigante”, afirmou Sérgio Dávila, diretor de Redação da Folha.

Com o tempo, certa rigidez das abordagens iniciais se reduziu. Os temas deixaram de ser mais acadêmicos ou mais relacionados a seu consultório. Calligaris passou a se sentir mais à vontade —talvez mais brasileiro— para tratar de acontecimentos de sua vida cotidiana em São Paulo, virando um cronista da cidade, com um olhar ácido e divertido, transformando acontecimentos prosaicos em peças sobre o comportamento humano.

Como numa das colunas, em que ele contou estar dirigindo numa madrugada na avenida Sapopemba, na zona leste, e, ao ver um cão prestes a tentar atravessar a via, e assim se arriscar à morte, desceu do carro e, para o seduzir a ficar onde estava, comprou para ele um faustoso churrasco numa barraquinha e o tranquilizou.

Sua relação com a capital paulista teve início em 1986, depois de lançar seu livro "Hipótese sobre o Fantasma na Cura Psicanalítica"". Calligaris veio ao Brasil para fazer palestras, e recebeu a proposta de um grupo de psicanalistas para que passasse 15 dias a cada dois meses em São Paulo, para serem analisados por ele. Aceitou.

Depois de várias viagens, acabou se instalando num apartamento nos Jardins. E passou a ter o hábito de jantar quase todos os dias no restaurante Tatini, na rua Batataes. Quando ia sozinho, levava um livro ou anotações. Mas também era ali que gostava de levar amigos para papear até altas horas.

Calligaris gostava muito de escrever e ler em cafés —hábito mais europeu do que paulistano— e sentia falta de locais para fazer isso em São Paulo. Mesmo assim, o cultivava, e várias vezes se pegou fazendo anotações na calçada mesmo. Por isso, era normal o ver sempre com uma ou duas canetas no bolso.

Ler e escrever em aviões também eram parte de seu hábito. E, como viajava muito, chegava a ler dois livros por voo entre São Paulo e Nova York, contando o tempo que passava no que chamava de "limbo", os aeroportos e salões de embarque.

Calligaris teve uma formação católica, filho de um cardiologista e de uma tenista. Na sua adolescência, na Itália, conta que havia vivido "paixões ideais contraditórias". Eram os anos 1960, e ele contava ter sido logo influenciado pela obra do jornalista liberal e antifascista Piero Gobetti. Depois disso, leu Antonio Gramsci e passou a se considerar um socialista. Por outro lado, ia se apaixonando também pela contracultura americana.

Tinha uma relação complicada com sua origem italiana, que não negava mas com a qual mantinha certa distância —achava que a imagem de seu país no exterior estava demasiado ligada ao fascismo ou à estridência de sua cultura popular.

Trabalhou, ainda na juventude, num jornal mensal de cultura, o "Utopia". Depois de passar uma temporada no Reino Unido, foi estudar em Genebra e em Paris. Na Suíça, foi aluno do historiador Jean Starobinski e do crítico literário George Steiner. Na França, ele se aprofundou no estudo da psicanálise, estudando com Jacques Lacan e Michel Foucault. Sua tese em semiologia foi orientada por Roland Barthes.

Contava que se sentia "um peixe fora d'água", na França dos anos 1970, por ter uma formação psicanalítica lacaniana, estudando na escola freudiana de Paris, mas, ao mesmo tempo, interessado na obra de culturalistas americanos como Karen Horney e Erich Fromm.

Seu ímpeto contraditório fez com que o pai, quando Calligaris ainda era criança, dissesse ao filho que tinha dado a ele um nome errado. Que o deveria ter chamado de Contrário, e não de Contardo.

"Não que eu fosse permanentemente do contra, mas, desde pequeno, parecia que eu só sabia começar minhas frases por um 'mas'", ele dizia.

Nos Estados Unidos, foi professor de antropologia na Universidade da Califórnia e de e estudos culturais na New School, em Nova York. No Brasil, começou a atuar como psicanalista e, aos poucos, a construir uma personalidade pública constantemente chamada a falar em público sobre temas sobre amor, relações humanas, sexualidade e questões existenciais. Sua relação com São Paulo foi se tornando mais intensa e seu personagem, mais popular. Vieram, então, suas obras para teatro, romances e uma série para a televisão.

Teve oito casamentos e explicava essa cifra afirmando que era porque, quando se apaixonava, não queria "ver a pessoa apenas de vez em quando", mas sim que gostava da convivência e do desafio de construir uma relação. Seu interesse pela sexualidade humana também fez dele um explorador nessa área, que o levou a se interessar pelo que se passava no submundo sexual paulistano.

Entre suas aventuras, uma das que fez pública, foi o caso com uma malabarista de trânsito de São Paulo. Mas sua busca e seu interesse eram contínuos. Dizia aos amigos que precisava fazer sexo todos os dias, senão não dormia direito.

Calligaris teve um filho, Maximilien, nascido na França. Até recentemente, ainda lutava boxe, o esporte que praticou na juventude e que rendeu a ele uma bolsa de estudos quando vivia na Suíça.

Numa entrevista a um meio gaúcho, em maio de 2020, Calligaris falou sobre a pandemia do coronavírus e sobre o medo que sentia de que alguns hábitos e cenas do passado não voltassem mais.

Entre eles, dois dos quais gostava tanto, como ir ao cinema ou entrar num avião sem medo. E, para exemplificar sua tristeza com a pandemia, que logo de início afetou tanto o seu país-natal, falou de uma imagem que viu da Piazza del Campo, de Siena, deserta por causa do confinamento. Era ali, disse, que, além dos turistas, os jovens caminhavam e buscavam flertar ou iniciar uma aventura amorosa. E se isso não voltasse nunca mais?


Contardo Calligaris (1948-2021). O texto é de Sylvia Colombo, publicado na Folha de São Paulo


Uma perda imensa. Eu estou bastante abalado. 

Medo do espelho


governo federal é diretamente responsável por uma crise humanitária no país, decorrente do agravamento sem precedentes da crise sanitária internacional, com capacidade de ameaçar o resto do mundo. Como lidar com isso?

Não será tarefa fácil. Muitos imaginam o homem no Palácio do Planalto como um tirano enlouquecido que sequestrou a sociedade brasileira. Porém, não há estelionato eleitoral no atual governo. Todos que o elegeram, ou votaram nulo ou branco, estavam dispostos a pagar um preço para atingir objetivos políticos específicos, que, então, imaginavam pudessem ser compatibilizados.

Eu listo: eliminação do PT como “player” político; políticas neoliberais para os meios empresariais e financeiros; fortalecimento de denominações religiosas fundamentalistas que acreditam num Deus de ira e que se apressaram em ver no vírus um agente d’Ele; fortalecimento e inimputabilidade das corporações militares e, dentro delas, de práticas de tortura e extermínio; tolerância para o exercício de práticas antiecológicas, machistas, racistas e homofóbicas seculares, hoje criminalizadas com base na Constituição Federal de 1988.

Em nenhum caso a razão do voto e do apoio foi desinformação ou déficit cognitivo, mas leituras situadas da realidade que apostaram no horror, sintetizado no gesto de campanha de atirar em alguém com uma arma, porque acreditaram que não seriam atingidos. E não, o combate à corrupção não foi essencial para a eleição do deputado do baixo clero para a Presidência da República.

O bem recebido retorno de Lula ao jogo político abre alguma esperança de que os pressupostos que uniram tal frente macabra já não estejam mais dados. Porém, para que possamos superar de forma mais rápida o genocídio em curso, é preciso saber se a conta ficou realmente alta demais e para quem.

A catástrofe agora anunciada assustará a elite política de Brasília? Temerá o centrão ser responsabilizado como cúmplice de crime contra a humanidade denunciado nos tribunais internacionais? O “mercado”, na pele de jornalistas, “Faria Limers” e investidores que permanecem no país, temerá, ao menos, o colapso da rede privada de saúde?

Isso vale para as elites, mas também para os setores populares que caminharam para a extrema direita. Nas periferias, mais tragédia, muitas vezes apenas reforça os cultores da intolerância, bem como o poder paralelo de grupos paramilitares.

Talvez a fome, mais que a peste, possa fazer este eleitor conservador perceber a morte em massa de brasileiros incentivados pelo presidente a se aglomerarem e a não usarem máscaras, sem vacina e sem auxílio emergencial, como a necropolítica que é. Talvez não.

A princípio, o caminho de volta, se houver, passa por 2022. Será, e já está sendo, muito doloroso. 

Ao finalizar esse artigo, visitei o site do Memorial Inumeráveis, iniciativa de 2020. Quando não temos saída, precisamos, ao menos, dizer o nome dos nossos mortos.


Texto da professora Hebe Mattos (Universidade Federal de Juiz de Fora) na Folha de São Paulo

O amor cobra sua fatura

 

Cantado em verso e prosa, o amor entre humanos, quando correspondido, é das maiores fontes de satisfação que se tem notícia. Seja fugaz ou duradouro, paixão ou amor, com ou sem sexo, trata-se de uma experiência da qual ninguém sai ileso.

Não é de se estranhar que no auge do encontro amoroso a realidade da morte se apresente da forma mais cristalina para os amantes. O orgasmo, também chamado de “petite mort”, revela como o máximo do prazer flerta com o fim —o apagamento da consciência.

A jura de amor tem sempre algo de despedida, pois cada segundo no qual se desfruta da presença do outro é um segundo a menos do tempo que resta. O desejo se renova na exata medida do temor de perder o amado.

Nos casais, o amor é o que pode sobrar, quando acaba o chantilly da paixão. Por vezes, o amor erótico muda o destino de uma amizade, transformando, de repente, o que era casto e fraterno em sexo e espanto, que pode ser seguido de arrependimento ou gostinho de quero mais. O amor a qual me referi até aqui é herdeiro do ideário romântico que nasce com o homem moderno.

Mas o amor é bem menos circunscrito a um período histórico, sendo a base das relações humanas. Basta citar o amor fraterno, o amor filial, o amor espiritual, cada um com seu grau de apaixonamento próprio, ainda que apartados do intercurso sexual.

Os rituais fúnebres da pré-história humana revelam formas de honrar e lamentar a perda de pessoas queridas e são os primeiros indícios da capacidade humana de simbolizar a morte e o amor, na forma de lamento por sua perda.

O amor transferencial proposto por Freud no dispositivo psicanalítico, por sua vez, trata de um desencontro previsto e que não pode prescindir de um bom e ético manejo. O paciente ama no analista algo que ele mesmo —paciente— deposita lá. O analista sustenta esse equívoco sem se permitir a impostura de acreditar que o amor que o paciente lhe transfere diga respeito aos encantos do analista.

Como o próprio nome diz, é afeto transferido de outrem e cabe ao analista abster-se de corresponder-lhe.

Nada impede que reconheçamos no trabalho e na pessoa do analista seu valor, e que o amor decorrente da gratidão e da admiração surjam ao longo do tratamento. Mas se trata de afeto que não pode ser confundido com o que o paciente deposita de excesso na relação.

Breuer, parceiro de Freud na pré-história da psicanálise, escorregou na casca da banana deixada por Anna O., a musa da histeria e paciente fundadora do dispositivo analítico. Acreditou que o amor da jovem paciente por ele fosse devido a seus irresistíveis dotes de senhor barbudo. Freud, de sua parte, foi impecável no quesito abstinência. Lacan foi bem mais questionável como podemos ler no delicioso “A Vida Com Lacan” (Zahar, 2017) da psicanalista Catherine Millot —paciente e amante do analista francês.

O amor romântico foi criado e assim poderá desaparecer, como seu declínio vem apontando. Não vejo grandes problemas nisso, inventa-se outras formas.

O mesmo não se pode dizer do amor fraterno, cujo declínio aponta para o fim da civilização. De fato, de todos os amores, o que mais carecemos hoje é esse último.

Nem políticos, nem soldados, nem cientistas… os heróis do nosso tempo são as pessoas ainda capazes de amar o outro, o desconhecido, o anônimo. O resto é o horror da indiferença. O resto é contar pessoas como se fossem números: até ontem, 312 mil.


Texto de Vera Iaconelli, na Folha de São Paulo


domingo, 28 de março de 2021

Jogadores do Maracanazo, como Barbosa, não são festejados ao completarem um século


O lateral direito Augusto completaria 100 anos em outubro passado e a data passou em branco.

O zagueiro Danilo também, em dezembro de 2020.

Assim como Jair Rosa Pinto, lembrado, é verdade, aqui e ali no último domingo (21), provavelmente mais pelos caçadores de efemérides em tempos de pandemia.

Neste sábado (27) Barbosa faria 100 anos.

Em setembro que vem será a vez de Zizinho, o Mestre Ziza, ídolo do Rei Pelé, dia 14.

Em 2022, Bigode, Ademir de Menezes, o Queixada e Chico.

Juvenal fica para 2023 e Bauer só em 2025. Entre um e outro, em 2024, Friaça, o autor do solitário gol brasileiro, o do 1 a 0 no fatídico 2 a 1 para o Uruguai.

De todos os brasileiros participantes da final da Copa do Mundo de 1950 no Maracanã com lendários 200 mil torcedores, o goleiro negro Barbosa é o protagonista mais dramático, bode expiatório da derrota dolorosa.

Moacyr Barbosa Nascimento morreu culpado irremediavelmente em 2000, condenado à prisão perpétua como lamentava nos últimos anos de vida.

Não por coincidência, a culpa é até hoje dividida com outro negro, o lateral esquerdo Bigode, acusado de covardia por não ter reagido à suposta bofetada no rosto desferido pelo capitão uruguaio Obdulio Varela, e em cima de quem Gigghia fez o gol da virada.

Obdulio, também negro, negou a agressão até morrer e para sempre é tido como o grande herói daquela Copa, pelos brasileiros inclusive, como se os negros uruguaios valessem mais que os nacionais.

A injustiça com Bigode, no entanto, não produziu restrição aos laterais pretos, diferentemente do que se deu em relação aos goleiros, a ponto de a seleção brasileira só voltar a ter um como titular em 2006, na Alemanha, 56 anos depois do Maracanazo.

Nunca ninguém admitiu o preconceito, nem precisava.

O centenário de Barbosa não é comemorado. No máximo, é lembrado como desagravo, tardio, sem o testemunho dele, cuja entrada na concentração da seleção, em 1993, antes do jogo contra o mesmo Uruguai que definiu a classificação para a Copa nos Estados Unidos, teria sido negada (há quem desminta) para não dar azar.

Tivesse mesmo tomado o tapa, Bigode, caso o Brasil saísse vencedor, seria elogiado pela maturidade, pelo sangue frio, por não ter caído na provocação e desfalcado o time.

Também entre o 2 a 1, marcado aos 34 minutos do segundo tempo, e o fim do jogo, houve tempo suficiente para o empate que significaria o título.

Não importa: a culpa é de Barbosa, pela falha no gol.

No dia 1º de janeiro de 2046, Roberto Rivellino, um dos heróis do tricampeonato em 1970, completará 100 anos e será devidamente festejado.

Apesar de, em 1974, ter sido responsabilizado injustamente pela derrota do Corinthians contra o Palmeiras, na decisão estadual que acabaria com o jejum de 20 anos sem títulos.

Três dias antes, no primeiro jogo das finais, empate em 1 a 1, ele recebeu milhões de elogios por ter jogado para o time, sem um pingo de estrelismo.

Pois repetiu sem tirar nem por a atuação no jogo definitivo, derrota alvinegra por 1 a 0.

O mundo caiu sobre sua cabeça, tronco e membros e, por exigência da torcida, o melhor jogador da história corintiana acabou vendido para o Fluminense.

Melhor prova impossível de que a voz do povo nem sempre é divina.

Melhor prova, não! A melhor segue sendo a da injustiça cometida com Barbosa.


Texto de Juca Kfouri, na Folha de São Paulo

quarta-feira, 24 de março de 2021

Os mortos de cada um


Não é que a morte esteja chegando perto. Desde que a Covid começou, ela nunca esteve longe. Meu primeiro amigo a partir com a doença foi o artista plástico e educador Daniel Azulay, criador da Turma do Lambe-Lambe, e isso já tem um ano. Foi em março de 2020, quando ainda começávamos a nos acostumar com as máscaras. Em maio, a morte de Aldir Blanc equivaleu a silenciar um milhão de palavras --as que ele ainda não tinha escrito. Mas foi todo um mês de devastação: a radialista Daysi Lucidi, o cantor Carlos José, o compositor Evaldo Gouveia, o romancista Sergio Sant'Anna, a poeta Olga Savary e a grande dama da sociedade Lourdes Catão.

Em junho, perdemos a cantora Dulce Nunes, uma das inspiradoras da bossa nova, o economista e historiador Carlos Lessa e o fotógrafo Pedro Oswaldo Cruz, a quem o patrimônio histórico do Rio tanto ficou devendo. Em julho, o jornalista José-Itamar de Freitas, o teatrólogo Antonio Bivar e o apresentador de TV Rodrigo Rodrigues. Em agosto, o médico e cientista Elsimar Coutinho. Nos meses seguintes, a maldita pareceu dar uma trégua, mas voltou a ceifar em dezembro, levando, entre muitos, a atriz Nicete Bruno e a jornalista e psiquiatra Germana de Lamare. E não parou mais.

A alguns fui só apresentado; com outros, convivi por décadas. Mas os admirei todos, e não é possível resumir o que deram aos seus amigos e à cultura do Brasil.

É intolerável pensar que ainda poderiam estar aqui, ativos e produtivos, não fosse um governante estúpido, cruel e debochado que, em vez de levar a nação a se proteger, semeou a morte ao instaurar de propósito a confusão. O que falta para responsabilizá-lo pela perda de cada vida e da vida de 300 mil brasileiros?

Essa lista contém apenas alguns dos meus mortos. Que cada leitor faça a sua. Quando a besta-fera começar a responder por seus crimes, precisaremos dessa contabilidade em detalhes.


Texto de Ruy Castro, na Folha de São Paulo