terça-feira, 10 de novembro de 2020

À procura de um pai intelectual

 "Toda biblioteca é autobiográfica." A frase do ensaísta argentino Alberto Manguel foi escolhida como epígrafe para este livro bastante pessoal e igualmente iluminado e erudito de Miguel Sanches Neto.

É curioso pensar que, enquanto Manguel foi filho de um embaixador intelectual, Sanches Neto, órfão de pai analfabeto, acabou criado por um padrasto "pobre e extremamente apegado ao dinheiro, com o primário incompleto", que não compreendia qualquer texto para além dos didáticos e de leitura obrigatória na escola.

Enquanto a biblioteca do primeiro certamente começou como herança, a do segundo precisou ser conquistada, muitas vezes de forma furtiva e obsessiva: "Tive que buscar a figura do pai em amigos e autores e fiz das afinidades culturais o caminho para esta família".

A vida escolar de Miguel, na cidade de Peabiru, interior do Paraná, se deu durante a ditatura e numa instituição pública (um colégio agrícola) que, nas palavras do autor, tinha uma função muito mais conformadora do que formadora, ignorando por completo o desejo de voar mais alto nutrido por alguns estudantes. "Ela não desejava elevar culturalmente os alunos pobres, queria apenas dotá-los de habilidades manuais e informações básicas."

No entanto, na sétima série, Sanches Neto passou a frequentar a sala de leitura da escola, e sua paixão pelos grandes nomes da literatura se tornou tamanha que ele acabou por arrancar de um livro uma folha com a imagem de Lima Barreto: "Minha namoradinha colecionava pôsteres de atores de novelas, eu também queria ter meus ídolos".

Já vivendo em Curitiba e tendo transformado as livrarias em seus locais preferidos para passeios e peregrinações, Miguel cultivava o hábito, uma vez que vivia com a grana contada e eram tempos de inflação desenfreada, de esconder os livros que desejava comprar (e que vinham com etiquetas de preço) para que esses acabassem, meses depois, sendo desvalorizados economicamente.

De olho nas bibliotecas de figuras do universo literário que, como o próprio escritor nos conta, acabaram por formar a sua família letradamente abastada, foi que ele acabou por adquirir em um sebo muitos exemplares dedicados a Paulo Leminski, poeta de enorme importância em sua formação e que, no final da vida, decidira vender boa parte de seu tesouro.

Ainda sobre as lojas de livros usados, Miguel nos ensina: "a organização mata a alma do sebo". Eu tomei essa frase particularmente como um tapa na minha face, pois jamais entendi a zona forçosamente despretensiosa desses ambientes.

Os textos sobre a relação de Sanches Neto com lápis, canetas e marcadores de livros são inferiores àqueles nos quais se dedica a narrar seu périplo pessoal (de criança nascida em uma família ignorante a romancista premiado e reitor em uma grande universidade) e seu amor obstinado e quase monotemático à literatura.

Também enriquecem a obra as inúmeras citações de histórias e frases de autores aclamados, como Dalton Trevisan, Mário de Andrade, Schopenhauer, Borges —talvez parentes próximos daqueles que podem ostentá-los em bibliotecas íntimas.

Ao final, o leitor dessas crônicas-enciclopédicas tão encantadoras ainda ganha uma excelente lista de títulos para ler e conservar antes de morrer —e, assim, poder deixar estantes recheadas de afeto e conhecimento para as próximas gerações.


Texto de Tati Bernardi, na Folha de São Paulo

Seria a política sempre objeto, em grande medida, da esfera mítica?

 Há muito a análise de comportamento em política sepultou os mitos da democracia.

As pessoas nunca discutiram política pra construírem uma consciência crítica, mas sim pra escorraçar o oponente. Independentemente do nível educacional dos envolvidos. A maioria das pessoas é movida por ideias fixas em política ou por puro e simples desinteresse. E, quando se tornam mais interessadas, pesquisam para reforçar as suas ideias fixas.

Os desinteressados em política justificam a sua ignorância racionalmente: gasto minha energia escolhendo meu celular porque eu decido qual comprar. Meu voto é miseravelmente irrelevante: é um só, nada decide.

A ideia de uma política majoritariamente racional é uma lenda. Nossa relação com a política é mediada por estruturas passionais. Levemos a sério a ideia de que a racionalidade, na espécie, seja uma evolução tardia e não plenamente bem-sucedida.

O filósofo Ernst Cassirer (1874-1945) era membro da chamada escola neokantiana de Marburg, na Alemanha. Fugiu de lá por ser judeu. Neokantianos são uma mistura de Kant com Hegel. Mas deixemos para lá esses detalhes mais técnicos.

Trago Cassirer para o nosso debate por causa de sua teoria das formas simbólicas, esquecida por muitos afeitos às modas teóricas de ocasião, mas que pode nos ajudar em muito a entender a política como mito.

Para Cassirer somos um animal simbólico. Abelhas fazem mel; aranhas, teias; nós, símbolos. Pensar o homem como animal simbólico é comum em autores como Carl Gustav Jung, Joseph Campbell e Mircea Eliade, entre outros. Segundo Cassirer, dito de forma sintética, existem três grandes grupos de formas simbólicas, não necessariamente constituindo uma hierarquia entre elas, mas que são bem distintas na sua operação de entendimento da realidade e de ação sobre ela. Entretanto, vale dizer que elas podem operar conjuntamente, não representando obrigatoriamente qualquer exclusão entre elas.

A primeira é a mítico-religiosa. Essa atravessa construções simbólicas como as religiões e suas narrativas cosmogônicas (narrativas de criação do mundo) e míticas, com seus personagens divinos, humanos e heroicos, “explicando” a vida, a política, a moral e a história (ou destino).

A segunda é a estética. Essa se manifesta na arte e afins. Sustentada nas narrativas de fundo sensorial, transita pelas diversas formas artísticas, não só figurativas. É claro que essa dialoga profundamente com a dimensão mítico-religiosa. Para alguns, a primeira seria redutível à segunda na medida em que religiões, mitos e crenças são criações simbólicas estéticas. Entretanto, para a forma mítica, há uma objetividade absoluta no mito e não a subjetiva do artista. O mito é, a arte inventa.

A terceira é a lógico-empírica. Essa implica adentrarmos o espaço do teste empírico da realidade para as construções simbólicas. Isso significa que não podemos construir símbolos aqui sem a contrapartida da comprovação vinda da realidade. A ciência está aqui, evidentemente. Toda a atividade racional, imbuída de testes de realidade ou de encadeamento lógico do raciocínio, como filosofia, deduções lógicas e afins, é característica dessa terceira forma simbólica.

Pois bem. Em 1946 foi publicado, postumamente, uma pequena pérola escrita por Cassirer chamado o “Mito do Estado”. Neste livro Cassirer analisa o nazismo na chave mítico-religiosa em várias das suas dimensões. A impermeabilidade à experiência crítica e à razão é trazida à luz através das suas categorias míticas de pensamento. Para o autor, o mito sempre teve uma função primordial na vida política e social, assim como na psicologia das emoções. O mito não é “pura estupidez primitiva”, ele é uma forma ancestral de organização e de ação no mundo.

Como disse acima, o mito da democracia não resiste ao teste da realidade. Desse mito faz parte a lenda da racionalidade, da crítica e do diálogo. Uma questão que nos lega Cassirer é: seria a política sempre objeto, em grande medida, da esfera mítica? E se isso for verdade, como fazer a democracia resistir à sua desmitologização?


Texto de Luiz Felipe Pondé, na Folha de São Paulo.

terça-feira, 3 de novembro de 2020

Fiz depilação a laser, mas agora todo mundo tem cabelo no sovaco

 “Que bom te ter de volta, Marisa. Fala o que que tá te afligindo. É essa marca de expressão na testa? É mole, rapidinho a gente preenche com botox.”

“Não é isso, doutor. Eu estou bem insatisfeita com algumas partes do meu corpo. Começando pelo sovaco.”

“Que tal uma lipo axilar?”

“Não. O problema foi a depilação a laser que você me indicou. Agora não está mais nascendo pelo no local.”

“Ótimo, falei que a clínica era boa, conheço a Gláucia há muitos anos.”

“Mas é que agora todo mundo tem cabelo no sovaco. É mais moderno, mais sexy, mais empoderado.”

“Não cai nessa, que isso é moda, vai passar já já.”

“Eu não uso mais blusa de alcinha de tanta vergonha desse sovaco liso que nem um boto.”

“Depilação definitiva não tem esse nome à toa. Não tem como reverter.”

“Até aqueles implantes de cabelo que os carecas fazem em Istambul eu tô topando.”

“O máximo que posso fazer é te indicar alguns nomes, mas não sei se o resultado vai ficar ‘instagramável’. Algo mais?”

“Na verdade, tem outro problema, até mais sério. A minha vagina desapareceu.”

“Que exagero, você mesma pediu para eu retirar os grandes lábios.”

“Mas você tirou os pequenos também.”

“Porque eles eram grandes demais. Posso te dar uma opinião masculina? Do jeito que estava não dava para encarar. Desse assunto eu entendo, meu trabalho é recuperar a autoestima das minhas pacientes.”

“O foco mudou, doutor. Se os homens acham que a vagina ideal precisa ser idêntica à boca do Sergio Moro, isso não é problema nosso.”

“Eu te dei um hímen novo de brinde e é assim que você agradece?”

“Uma caneta-lanterna teria sido mais útil. Maldita hora em que a Anitta postou a foto atochada em um maiô cavado.”

“Eu não posso reclamar, a trend da pepeca negativa da Anitta foi a belle époque da labioplastia. Bons tempos.”

“Tempos idos. Pepeca negativa é a nova calça saruel. É por isso que imploro, make my vagina great again. Será que não existe uma forma de ela voltar a ser como era antes? Positiva? Afirmativa? Propositiva?”

“A gente pode tentar uma reconstrução com um enxerto da sua… coxa, por exemplo.”

“Justo onde eu tenho mais celulite? Negativo, essa é a parte do meu corpo que eu mais gosto.”


Crônica de Manuela Cantuária, na Folha de São Paulo

domingo, 1 de novembro de 2020

Morre Sean Connery, o mais memorável intérprete de James Bond, aos 90 anos

 Talvez seja um engano típico de necrológios dizer que Sean Connery ficou famoso por ter sido o primeiro intérprete de James Bond no cinema. Talvez seja mais certo dizer que James Bond ficou famoso porque seu primeiro intérprete foi Sean Connery, que morreu neste sábado, aos 90 anos.

Sim, há tudo mais —a abertura, as “Bond girls”, começando por Ursula Andress, os “gadgets”, os carros, as armas inesperadas. Mas vale perguntar o que teria sido de 007 se em vez de Connery estivesse na tela o simpático Roger Moore, como queria o criador do personagem, Ian Fleming.

É verdade que Moore já tinha uma carreira consolidada àquela altura, em especial na TV, em que brilhou como “Ivanhoé” e depois em “Maverick”, tudo na virada dos anos 1950 para os 1960, enquanto Connery ainda tateava o cinema.

Mas tomemos o que veio depois. Em 1971, Connery se encheu de fazer o papel e passou o bastão a Moore, que foi Bond sete vezes e só parou porque, beirando os 60 anos, já não tinha as qualidades atléticas que o papel requeria. Não há por que desfazer de Moore, longe disso. Mas no período em que foi James Bond o 
filme que mais chamou a atenção foi mesmo “007 – 
Nunca Mais Outra Vez”, um Bond meio pirata em que o ator era, justamente, Connery.

Mesmo no tempo em que foi 007, Sean Connery deixou claro que não se acomodaria ao papel. Tanto que topou ser o ricaço Mark Rutland do hitchcockiano “Marnie, Confissões de uma Ladra”, de 1964. Não só ricaço como aparentemente tolo, porque o imbatível sedutor de “O Satânico Dr. No” de repente se arrastava aos pés da ladra Tippi Hedren e, em vez de a mandar para a cadeia, como sugeriria qualquer bolsonarista, tentava entender o que se passava naquela cabeça tão bela quanto estranha.

Da tensão entre os dois resultou essa obra-prima de sexualidade reprimida, de tensão sem fim entre dois amantes paradoxais. Mas isso não bastaria para Sean Connery.

Pouco depois ele estava na Líbia, mais precisamente em “A Colina dos Homens Perdidos”de 1965. Era plena Segunda Guerra e, no filme de Sidney Lumet, ele não era o herói imbatível —estava numa prisão britânica, onde foi parar por desobediência a ordens de cima (que ele achava absurdas, o que é outra história).

Mais um pouco e ele se arriscava no Velho Oeste e, em companhia de Brigitte 
Bardot, fazia “Shalako”, de 1968, um faroeste menos que mais ou menos do então 
decadente Edward Dmytrik. Em 1970 ele virava mineiro na Pensilvânia e líder dos Molly McGuires, organização secreta de autodefesa dos irlandeses que ali trabalhavam.

Como se vê, o glamour de James Bond não embaçou sua visão ou limitou seus horizontes. Pouco depois, em 1973, ele estava no futuro, bem futuro, na pele de Zed, em “Zardoz”, belo filme de John Boorman que fracassou nas bilheterias.

Com tudo isso, admitamos, entre bons filmes e outros nem tanto, a carreira de Sean Connery até certo ponto patinava. E voltar a James Bond em 1983 parece ter sido uma bela decisão. Não só por o levar de novo à linha de frente, em matéria de exposição, como por exorcizar de vez o velho herói de sua juventude.

É a partir daí que começa uma formidável série de sucessos. Por vezes pessoais, como “O Nome da Rosa”, de 1986. Ali ele foi William de Baskerville, o frade franciscano e detetive que investiga uma série de mortes num convento beneditino. O filme saiu do romance de Umberto Eco, e a escolha de Connery para o papel foi perfeita. Ele é uma espécie de 007 que tinha o formidável intelecto como arma para combater a Inquisição.

Há razão para perguntar de novo o que seria de “O Nome da Rosa” sem Sean Connery. Talvez uma ruína orquestrada pelos mil equívocos de Jean-Jacques Annaud ao adaptar o inteligentíssimo, belíssimo romance. Mas Annaud acertou na escolha de seu ator central —o resto estava salvo.

De “Os Intocáveis”, de 1987, não se poderá dizer que Connery salvou o filme. O trabalho de Brian De Palma podia destoar de seus grandes momentos, parece mesmo uma encomenda, nem por isso deixa de ser admirável ponto por ponto. Ainda assim, o grupo do incorruptível porém ingênuo Eliot Ness, papel de Kevin Costner, precisava de um comparsa cascudo para combater os mafiosos da Chicago.

Esse comparsa cascudo era um guarda de rua, honesto e intratável, de origem irlandesa, Jim Malone, isto é, Sean Connery. E o resultado é que Malone acabou por se tornar o grande personagem do filme, maior que Eliott Ness, maior que o Al Capone de De Niro.

O fenômeno se repetiria dois anos depois, quando Steven Spielberg introduziu Connery, na pessoa, do professor Henry Jones, o pai de Indiana Jones, papel de Harrison Ford, em “Indiana Jones e a Última Cruzada”, de 1989. E a série que ameaçava cair em decadência ganhou uma nova (embora efêmera) existência.

De certa forma, o círculo se fechava. “Os Intocáveis” rendeu a ele um Oscar de melhor ator coadjuvante; em 1991, recebeu a Legião de Honra do governo francês. Nove anos depois, a rainha da Inglaterra teve de se deslocar até a Escócia para conceder ao ator o título de “sir”. Muito justo pelos serviços prestados a Sua Majestade como James Bond.

Connery se vestiu com o típico kilt para receber a honraria. Que ficasse claro, para Elizabeth 2ª e para o mundo que ele continuaria a defender a independência da Escócia.

O mito de Sean Connery triunfou sobre o mito de 007. Desde então, aos poucos, discretamente, já podia se afastar de um cinema que já não tinha papéis para um ator como ele e viver sua aposentadora nas Bahamas, onde morreu em sua casa, em 31 de outubro de 2020, enquanto dormia.


Texto de Inácio Araújo, na Folha de São Paulo

sexta-feira, 30 de outubro de 2020

A arte da inveja

 Esses dias eu estava em uma reunião de trabalho quando comecei a sentir inveja. E não era pouca, não. Era da brava. O cabelo da moça, o corpo, a voz, a boca, a idade, os brincos grandes e verdes, as maçãs do rosto buliçosas, as ideias, o bronzeado, a atenção que ela recebia. Meu coração disparou, minhas unhas afundaram nas palmas, lembrei que preciso deixar a magnésia bisurada na bolsa. Fiquei rapidamente muito engraçadinha e agitada para depois emudecer, com o corpo pesado e dolorido. Cansada, inflamada e vencida.

Primeiro, eu achei que queria morar naquela jovem inteligente, doce e de beleza incômoda, depois tive certeza de que só queria destruí-la. Foram horas digerindo minha derrota vexatória até entender o tamanho da liberdade artística que aquela experiência me proporcionaria.

Pensei nos meus amigos escritores algorítmicos. Presos ao que precisam escrever. Ao que está na moda dizer. Ao que pega bem ser. Eles até recebem ótimas resenhas, mas, por Deus, como são chatos! Alguns mudam a voz, o jeito de olhar. Ao menos para mim, o seriíssimo estrabismo que lançam para o horizonte, sem a gentileza da autoironia, mata a arte e o meu interesse todos os dias. Gente que se leva a sério demais porque leva a sério demais os problemas da sociedade. Gente que faz harmonização facial antes de ir dormir no chão de uma cabana indígena para sair bem nas fotos.

Enfim, tudo isso para dizer que não há licença poética maior do que, em tempos de infinitos livros sobre sororidade, lançar esta crônica desnecessária sobre inveja. E, se der tempo, também sobre falsidade.

Ah, amigos, eu estava humilhada. Já tem uns dois anos que minhas axilas caíram. Eu tento de tudo no pilates, mas elas não voltam para o lugar. Meu sovaco é uma boquinha triste olhando para o meu passado de glórias físicas. Bunda e peitos caem, e eu estava preparada para isso. Mas nenhuma mulher havia me contado das axilas. Era um dia muito quente, e aquela roteirista de 25 anos exibia seus sovacos atléticos diante do meu nariz. E ainda dava boas ideias e havia escrito ótimos diálogos. Ou seja: nem o consolo que sempre me dou, “pelo menos sou mais esperta que ela”, estava rolando naquele momento.

E que liberdade, amigos! Odiar meu cabelo perante aquela beldade. “Ah, mas temos que amar nossos pelos o tempo todo e jamais gritar com nossos filhos e meditar e peidar linhaça e ter gratidão pelas nossas rugas e pela nossa pança molenga e arrotar kombucha.” Meu cabelo tem um buraco pós-amamentação do lado esquerdo e um redemoinho escroto do lado direito que faz minha franja levantar um topete anos 90 ensebado e me deixa com uma cara de “quem é essa tia meio equivocada e abatida?”.

Depois dos 40 anos, muitas coisas desagradáveis acontecem com a gente. A começar pelo sol, que não nos deixa mais saudáveis, mas sim parecendo que alguém tomou todinho e espirrou com a boca cheia em cima de nós. Aquela garota, a ninfa de 25 anos da inesquecível e odiosa reunião, se divertiu muito ao ver que aumentei as letras do meu celular porque já não enxergo direito nem mesmo com meus óculos de leitura. “Ai, para, você é tão engraçada.” Que bom, querida, que estou fazendo seu dia melhor. Seu dia de mocinha desejada que mora sozinha e ainda tem essa pele firme que não acorda toda amassada por um simples lençol. Que bom, e, espero, talvez um ônibus te encontre na esquina quando você sair daqui. Literatura: desejo de meter a cara belíssima de uma jovem roteirista no meu menisco lesionado. Inveja: poesia, ruptura, arte puríssima.


Texto de Tati Bernardi, na Folha de São Paulo

O tempo

 Carrego meus fantasmas

Dentro de um armário

Entalhado no peito

Eu sou o que tenho feito

Apesar do grande defeito,

De sonhar mais que o pássaro,

Que voa sem fazer cálculos.

Eu sou eu e os meus cacos

Uma caneca de louça sem asa

Uma latinha de pastilhas

Fotos de minhas filhas

Lembranças feito ilhas

De um futuro no passado,

O presente encarcerado,

Lobo depois das trilhas,

O olhar depois das chuvas.

Do blogue do Juremir Machado da Silva

quarta-feira, 28 de outubro de 2020

Um irmão serve pra você saber que não está delirando

 Na minha infância, éramos quatro irmãos e eu tinha um sonho: ser filho único. Calculava que, se não fossem meus irmãos, teria tudo em triplo: carinho, atenção, brinquedos.

Achava que o Riquinho tinha aquele império porque não tinha irmãos —bastava que meus irmãos desaparecessem que brotaria um McDonald's na garagem e Cavaleiros do Zodíaco no armário. Em algum momento, percebi que o Riquinho tinha uma existência miserável, implorando por amigos, enquanto eu tinha o maior tesouro: testemunhas.

O irmão é a única pessoa do mundo que sabe o que significa ser filho dos seus pais e conhece esse drama em toda a sua complexidade. Ninguém mais serviu de cobaia pra essa experiência. Levando em conta que toda infância traumatiza, o único alívio que podemos dar a um filho é um companheiro de traumas. Você não convida uma pessoa pra uma festa sem o habitual "mais um".

Não há nada mais confortante que falar mal dos pais com quem conhece a causa. Só o irmão tem o alvará que permite espinafrar sua mãe, por ser também mãe dele.

O filho único está condenado a levar pro túmulo a experiência ímpar que só ele viveu. Deve ser como assistir a uma série que ninguém mais pode ver.

Amyr Klink me intriga. Não porque atravessou o Atlântico remando, mas porque escolheu fazer isso sozinho. Imagina você encontrar uma baleia e não ter alguém pra falar: "Cacete. Isso. Realmente. Aconteceu?". Quando você está sozinho, tudo é alucinação —um irmão serve pra garantir que você não está delirando.

Todo o mundo deveria ter direito a pelo menos um parceiro de jornada. A China fez a lei do filho único. Queria fazer a lei do filho duplo. Tudo bem não ter filhos. Mas pra quem teve um, acho que a lei deveria obrigar a ter outro —subsidiado, claro, pelo Estado, com anos de licença paga pra ambos os pais. Interessa a todos nós uma nação mais fraterna.

Dito isso, só tive uma filha, e estamos empurrando a próxima gravidez com a barriga. Nunca parece o momento de dizer: é agora. Quanto mais tempo passa, mais parece loucura voltar à estaca zero, à cólica, às fraldas e às noites sem sono. Taí: se tivesse lei que nos obrigasse, já tínhamos tido.

Teremos! Preciso que a minha filha tenha alguém pra compartilhar a delícia que deve ser falar mal de mim —esse prazer que o leitor da Folha já conhece há tanto tempo.


Texto de Gregório Duvivier, na Folha de São Paulo

domingo, 25 de outubro de 2020

Fomos e seremos um experimento aleatório, único, da natureza

 É difícil contar o número de estrelas no firmamento. Primeiro, porque são muitas; depois, como estar certos de que encontramos todas?

Esse problema é discutido no livro "Space at the Speed of of Light", escrito por Rebecca Smerthurst, astrofísica da Universidade de Oxford.

Para o cálculo do número de estrelas existentes nas galáxias que compõem o Universo, a autora se concentrou nos dados das fotografias obtidas pelo Hubble Space Telescope, em órbita ao redor da Terra desde 1990, com a função de colher imagens de estruturas desconhecidas ou pouco observadas, para além da Via Láctea.

Os astrônomos têm usado essas informações, para perscrutar o espaço mais escuro do Universo conhecido: a constelação Fornax, localizada no hemisfério sul.

A partir do número de galáxias presentes nessa constelação, eles estimam que no Universo haveria no mínimo 100 trilhões de galáxias.

Como cada uma contém em média 100 bilhões de estrelas, o número total de estrelas seria da ordem de 100 sextilhões, ou seja, 100.000.000.000.000. 000.000.000.

Imagine, leitora, que haja condições favoráveis ao surgimento da vida apenas em um, de cada quintilhão desses corpos celestes. Existiriam, então, algumas centenas de milhares de planetas na vastidão do espaço, em que a competição das espécies pelos recursos e a seleção natural poderiam levar ao aparecimento de seres inteligentes.

A existência deles responderia à eterna questão filosófica: estamos sozinhos no Universo?

Nossos ancestrais mais distantes, as primeiras bactérias, surgiram assim que a Terra esfriou o suficiente, há 3,8 bilhões de anos. Portanto, o aparecimento aleatório da vida não parece fenômeno tão difícil de ocorrer.

No entanto, das 50 bilhões de espécies que um dia viveram ou ainda habitam nosso planeta, só uma levou ao gênero Homo, 2,5 a 3,2 milhões de anos atrás. Nesse gênero, sobreviveu só o Homo sapiens, espécie capaz de elaborar raciocínios abstratos, dominar a linguagem, a resolução de problemas complexos e a composição de sinfonias. Na história da vida na Terra, o Homo sapiens ocupa 0,005% do tempo.

A evolução não tem propósito algum, não segue qualquer linha na direção de determinado objetivo, não olha o interesse da espécie, mas o do indivíduo mais apto a espalhar seus genes.

As bactérias, seres unicelulares sem nenhuma atividade semelhante ao pensamento mais rudimentar, constituem o maior sucesso evolutivo de todos os tempos: 3,8 bilhões de anos. E ainda estão por aqui, sem dar sinal de que serão extintas ou deixarão de ser o que sempre foram: seres unicelulares.

Se a criação da vida pode ser repetida com relativa facilidade em outros planetas, o aparecimento da alta inteligência deve ser fenômeno muito raro, uma vez que apenas uma espécie entre 50 bilhões desenvolveu essa habilidade.

Imaginar que em algum das centenas de milhares de planetas habitados por alguma forma de vida surgiriam seres com capacidade cognitiva tão semelhante à nossa que tornasse viável a comunicação implicaria admitir não só que as condições geológicas e climáticas tenham sido idênticas às da Terra, mas que as pressões ecológicas estiveram sincronizadas às nossas durante milhões de anos, de modo a repetir as incontáveis mutações sofridas por nossos ancestrais, na longa jornada da unicelularidade, à vida multicelular que levou aos animais vertebrados, aos mamíferos e ao homem.

Vamos citar apenas um, entre centenas de milhares de eventos ocasionais que conduziram ao Homo sapiens, por mecanismo de seleção natural.

Se, 65 milhões de anos atrás, não caísse um meteoro no México, os mamíferos estariam limitados até hoje a grupos de pequenos roedores noturnos, apavorados pela presença de dinossauros na vizinhança. Qual a probabilidade de ocorrerem eventos decisivos como esse, na mesma sequência temporal, em outro planeta?

Vamos imaginar que, a despeito da alta improbabilidade, identificássemos extraterrestres em tudo semelhantes a nós; digamos, com 99% de identidade genética.

Ainda assim, estaríamos sós, não haveria comunicação possível. Esse é o número de genes que compartilhamos com os chimpanzés.

Fomos e seremos um experimento aleatório, único, da natureza, mesmo que venhamos a descobrir que o Universo conhecido é apenas um dos trilhões de outros espalhados pelo espaço infinito.


Texto de Drauzio Varella, na Folha de São Paulo

Quarentena, gim-tônica e Serasa

 Escrevo esta coluna bêbado, 10 kg acima do meu peso, num teclado besuntado de maionese e com o nome no Serasa: sou um quarentão, mas pode me chamar de quarentener.

Em março eu estava na melhor forma da minha vida. Vinha treinando havia meses para uma meia maratona. Bebia moderadamente. Comia quinoa. Brócolis. Kiwi. Fazia ginástica funcional. Meu assoalho pélvico tava tinindo como um porcelanato com Pinho Sol. Cheguei perto, juro,
de ter uma barriga de tanquinho. Então veio o corona.

No primeiro mês, tentei manter a normalidade. Para mim e para as crianças. Aquela pose austera e meio boba, tipo: não é porque estou sozinho que posso comer de boca aberta.

Tudo mudou em abril, quando li uma matéria no New York Times. No artigo, uma nutricionista sugeria que a quarentena não era o momento de educar as crianças para uma alimentação saudável. Elas já estavam sem escola, sem avós, sem a pracinha, sem amigos; talvez, nos dois meses que deveria durar a quarentena, fosse mais importante reconfortar suas pequenas almas com batata frita e ovo de páscoa recheado de chocotone do que proporcionar aos seus diminutos corpos a quantidade ideal de fibras,
betacaroteno e flavonoides.

Fechei o iPad, abri um Diamante Negro de 500 gramas pros meus filhos e —numa regra de três autoindulgente— escancarei um caminho sem volta pra mim.

Ué, se as crianças merecem açúcar e afeto, pensei, eu também mereço os meus correlatos. Começava aí um mergulho perigoso no alcoolismo, no hamburguismo, no pizzismo, no sedentarismo e no amazonismo —o vício de entrar na Amazon quase todo dia e comprar
coisas absolutamente inúteis.

Comprei: um estilingue que seria aprovado pelo COI, caso estilingue fosse esporte olímpico, um microscópio, uma barraca de camping, uma luminária à energia solar, um pandeiro, formas de gelo que parecem ter sido desenvolvidas pela Nasa, um saca-rolhas elétrico, um fone de ouvidos sem fio, outro fone de ouvidos sem fio, mais um fone de ouvidos sem fio, um moedor de carne manual, um moedor de carne elétrico, umas rodelas de metal pra moldar hambúrguer, umas minitampas de panela pra derreter o queijo do hambúrguer e uma quantidade de livros que três gerações dos meus descendentes não darão conta de ler.

Pros meus filhos: bastões luminescentes de camping, 28 bonecos dos Power Rangers, 189 mil jogos de iPad, caixa de lápis de cor, caixa de massinha, caixa de argila, 25 bonecas LOL (aí que entrei pro Serasa; uma Ferrari é mais barata do que as bonecas LOL).

Foi emocionante e divertido no começo. Eu trabalhava de casa todo dia, das dez às cinco e cinquenta e nove. Assim que dava seis da tarde, porém, eu sextava furiosamente.

Por dois meses, como disse a nutricionista do NYT, tudo bem. Mas a pandemia, ao contrário do que ela previa, não acabou. E essa existência mezzo saloon de velho oeste, mezzo Passaporte da Alegria no Playcenter, oito meses depois, tá cobrando seu preço. Pro meu cartão de crédito. Pras minhas coronárias. Pra educação dos meus filhos.

Num mesmo dia o Dani perguntou: “Papai, o que a gente vai comprar hoje?”. E a Olivia: “Papai, se eu te falar uma coisa, você não vai ficar bravo?”. “Claro que não, filhota, o que é?.” “É que a sua barriga tá ficando engraçada.”

Decidi que tinha chegado ao fundo do poço. Precisava tomar uma atitude. Botei os dois pra dormir, fiz uma gim-tônica, entrei na Amazon e comprei um telescópio.


Texto de Antonio Prata, na Folha de São Paulo

sexta-feira, 23 de outubro de 2020

Com Pelé na Ponte Aérea

 Foi numa tarde dos anos 80. Pelé entrou no avião da ponte aérea e, num segundo, as portas se fecharam, como se só estivessem esperando por ele. Sentado no corredor da segunda fileira, não tive como não vê-lo —mesmo porque Pelé usava paletó laranja, camisa violeta e gravata rosa-choque, seu guarda-roupa na época. E, por acaso, sua fileira era a minha. Como um jato, Pelé passou por mim e pelo homem na poltrona do meio, sentou-se à janela e, ato contínuo, levou a mão à testa cobrindo os olhos, como se tivesse acabado de cair no sono. E assim ficou do Rio a São Paulo, embora eu não o ouvisse ressonar.

Era óbvio que fingia dormir, e nada mais compreensível. Era a sua única maneira de passar os 45 minutos do voo sem ter alguém ao seu lado dizendo-lhe que, apesar de ele ter feito uma média de quatro gols por semana no Corinthians, o sujeito o admirava. Ou se era verdade que tinha perdido gols de propósito para que o 1.000º fosse no Maracanã. Fazer de conta que cochilava era essencial para evitar o contato olho a olho —aquele que, uma vez estabelecido, tacitamente autoriza o fã a se dirigir ao ídolo.

Pelé não imaginava que, a duas poltronas da sua, estava alguém que sabia mais de sua vida do que ele poderia pensar. No caso, eu. E só porque tínhamos alguém em comum: o jornalista Hans Henningsen, o famoso Marinheiro Sueco, consagrado por Nelson Rodrigues.

Hans exercia grande ascendência pessoal sobre Pelé, que lhe devia contatos, conselhos e orientações. E era mais que um amigo para mim. Era um irmão mais velho, e não havia segredos entre nós. Nem mesmo os segredos de Pelé.

Evidente que sempre guardei comigo o Pelé desconhecido que, às vezes, ele me descrevia: o homem que se debatia entre o herói, o potentado, o cidadão do mundo e o Edson ingênuo, inseguro, capaz de erros terríveis, dolorosamente humano —que no fundo é.


Texto de Ruy Castro, na Folha de São Paulo. 

Civilização, ética e ódio

 Numa obra que se tornou um clássico da literatura universal, Joseph Conrad descreve um personagem que sofre com as virtudes éticas do protagonista do livro, o "Lord Jim", por ser ele capaz de, frente a um erro, assumir a culpa, quando outros fugiram de sua responsabilidade, e de buscar um caminho para purgar o mal que tinha feito, colocando-se, com grande risco pessoal, a serviço dos outros de forma generosa e empática.

Jim era longe de perfeito, mas havia, em sua obstinada atitude, um despojamento e uma ingenuidade que chegam a comover e, por isso mesmo, a despertar ódio e desejo de vingança em seu adversário, o pirata chamado no livro de "gentleman Brown", que se sente ameaçado por suas qualidades. E Brown trabalhará para destruir Jim.

Ao ler a obra, em meio à pandemia, não pude deixar de pensar no espírito do tempo em que vivemos. O ódio vigente parece resultar não só do sofrimento vivido com a crise, mas de certa repugnância sentida frente ao fortalecimento de uma atitude de empatia, da inclusão do outro num espaço percebido antes como um clube de privilégios e da comunicação não agressiva com quem pensa diferente.

Ou seja, o processo civilizatório que demanda um esforço em direção a uma sociedade em que não só nossos direitos exclusivos sejam respeitados, mas os dos outros também, tira-nos da zona de conforto e nos traz a sensação de perdas. É como se quiséssemos preservar o direito de ofender, de ser "politicamente incorretos", de nos blindarmos da acusação por crimes que atribuímos aos outros.

Mas há algum antídoto matador contra o ódio? Aparentemente não. Essa infelicidade com o sucesso moral dos outros parece não ter cura, pois a existência de pessoas com tais virtudes denuncia as limitações de quem não é capaz de se sacrificar pelo coletivo ou de corrigir eventuais erros cometidos. No fundo é como se, na competição da vida, podemos nos sair melhor se os outros nos forem inferiores inclusive na esfera ética.

Nesse caso, muitos preferem esvaziar palavras de seu significado. "Liberdade de expressão" e "corrupção" têm sido fartamente utilizados para descrever ações do grupo percebido como rival. Masha Geschen, em seu recente livro "Surviving Autocracy", chega a afirmar que o vocabulário usualmente usado em democracias liberais perde poder explicativo ao ser aplicado aos tempos em que vivemos.

Mas há certamente caminhos a serem trilhados para enfrentar esse "zeitgeist". E eles passam por uma educação de qualidade para todos, que preserve conquistas civilizatórias e promova, em crianças e jovens, valores para uma convivência empática e não violenta.


Texto de Claudia Costin, na Folha de São Paulo.

A naturalização da submissão feminina é jogo jogado

 O movimento feminista não entrou em campo queimando sutiãs nos anos 1960. As sufragetes fizeram campanha por direitos, em vários países, desde quase o nascimento do sistema representativo. Os homens votavam por elas, trabalhavam por elas, mandavam nelas. A vida pública era deles. A vida privada também: a longa dominação masculina entre quatro paredes é tão antiga quanto notória.

A bola rolou muito, entre uma Copa e outra, mas as regras do jogo pouco mudaram. Sou a única mulher dentre os dez que se revezam nesta coluna de política, aspirante recentemente incorporada ao plantel de homens titulares.

É que embora a equidade de gênero seja ideia bonita para estampar camisas, muita gente —inclusive mulheres— fica desconfortável com o uniforme. Quando a bola quica, a maioria prefere o banco de reservas. É sempre entre ranger de dentes, burlas, reações, que se escala uma mulher. Vejam-se as caneladas dos partidos com as cotas para candidatas. Nas artes, nas ciências, na política, onde a contestação feminina à dominação masculina entra no gramado, o contra-ataque machista se arma. Dilma Rousseff foi substituída aos 15 do primeiro tempo por muitas razões, mas o fato de ser uma “presidenta” —aliás, o português nem prevê a palavra— não foi irrelevante.

A vez é dos esportes, terreno viril por excelência, no qual as moças começaram de gandulas. O assédio nesta pequena área é centenário. Robinho fez o que fez —“a gente teve relação entre homem e mulher, relações que o homem tem com a mulher”— e disse o que disse —“não estou nem aí”. Ao ganhar cartão vermelho do Judiciário italiano, reconheceu como falta a pulada de cerca —“o erro que eu cometi foi não ter sido fiel à minha esposa”.

O tom da conversa com os amigos, afirmou ao UOL, foi o normal, é “o que homens conversam entre si”. Defendeu atacando: “Infelizmente existe o movimento feminista”, uma equipe de “mulheres que às vezes não são sempre mulheres”.

O jogo entre o esquadrão das vadias e o dos filhos de rainhas (como Robinho define a mãe) transcorre em todas as arenas. Vacilou, apanhou. A violência física é o corretivo quando a violência simbólica não faz bem o serviço. Caso do marmanjo socando a namorada no meio da rua em Ilhéus, indiferente aos que o filmavam. É que nenhum juiz apitara seus pênaltis em quase uma dúzia de BOs que deram em nada.

Se é assim em gramado sob holofotes, na meia luz dos vestiários o pau corre ainda mais solto. A pandemia agravou infrações e subnotificação. Nas alcovas, não há árbitros, só arbítrios. Na concentração forçada em casa no primeiro semestre deste ano, o Anuário do Fórum Nacional de Segurança Pública atesta que 648 mulheres foram mortas por não serem homens ou não lhes obedecerem. Dentre outras 1.861 assassinadas, muitas se encaixariam no padrão, apenas não há como demonstrá-lo. No campeonato nacional, foram 22.201 estupros e 110.791 surras com lesão física. Tudo na zona do agrião do doce lar.

É exuberante o plantel de sádicos furiosos. Nos processos judiciais, seus gols nascem da “violenta emoção”. Transtornam-se porque o time das agredidas não joga como gostaria quem tem o mando de campo. A escalação é democrática, com todas as classes e todas as cores —embora, como em tudo, as negras sejam as mais contundidas.

A naturalização da submissão feminina é jogo jogado. Bolsonaro não criou o esporte, mas esta torcida organizada elegeu este presidente. Por isso, Robinho está seguro de que “em breve as coisas vão voltar ao normal”. Como bolsonarista cristão, conta com a mão de Deus para escapar da zona de rebaixamento.


Texto de Angela Alonso, na Folha de São Paulo