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terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

Bom dia e sejam todos bem-vindos ao grupo de apoio aos problematizadores anônimos

"Bom dia e sejam todos bem-vindos ao nosso grupo de apoio aos problematizadores anônimos. O meu nome é..."

"Desculpa interromper, mas, você disse... bom dia ou...?"

"Algum problema?"

"Só acho um pouco insensível da sua parte utilizar um adjetivo de conformidade em um momento tão delicado, nem todo mundo está tendo um dia bom. Ignorar o contexto no qual estamos inseridos, reféns da omissão criminosa do governo no meio de uma pandemia, é perpetuar o discurso da positividade tóxica que acaba prejudicando ainda mais a saúde mental das pessoas."

"Qual o seu nome?"

"Jéssica."

"Pessoal, a Jéssica está há oito segundos sem problematizar e isso já é um grande avanço. Parabéns."

"Qual é o problema de problematizar?"

"A problematização é fundamental para combater estruturas de opressão, violência, e silenciamento, mas..."

"Mas? Como assim mas? Só falta você dizer que o mundo está chato."

"Não é o mundo que está chato. Você abriu o Twitter? Tem acompanhado esse BBB?"

"Olha, eu sou a favor da problematização. Mas problematizar a problematização em si, aí já é demais."

"Então você está problematizando a problematização da problematização. Entende onde está o problema?"

"Não."

"Exato. O problema é quando a problematização sai do controle e nada mais faz sentido. A nossa conversa é um exemplo disso."

"Acho problemático partir da nossa experiência pessoal para abordar uma questão que diz respeito à sociedade como um todo."

"Jéssica, eu era assim, como você. Entrava em uma problematização sem fazer a menor ideia de como, e quando, sairia dela. Perdi amigos, oportunidades de trabalho, até meu autocontrole."

"A culpa não é minha, o Brasil me obriga a problematizar."

"Eu sei. Por isso criei esse grupo de apoio. É um momento crítico para pessoas como nós. Todas as vezes em que o Bolsonaro abre a boca, os amigos que postam fotos em festas como se tivessem furado a fila da vacina, e agora, como se não bastasse, o BBB. A gente se sente como um diabético na loja de doces."

"Essa comparação, além de desrespeitosa com quem sofre de diabetes, reforça o estereótipo de que o diabético não pode comer doces, quando basta seguir uma dieta balanceada com supervisão de um nutricionista."

"OK, desisto. Quem vocês acham que sai no paredão?"


Texto de Manuela Cantuária, na Folha de São Paulo

terça-feira, 3 de novembro de 2020

Fiz depilação a laser, mas agora todo mundo tem cabelo no sovaco

 “Que bom te ter de volta, Marisa. Fala o que que tá te afligindo. É essa marca de expressão na testa? É mole, rapidinho a gente preenche com botox.”

“Não é isso, doutor. Eu estou bem insatisfeita com algumas partes do meu corpo. Começando pelo sovaco.”

“Que tal uma lipo axilar?”

“Não. O problema foi a depilação a laser que você me indicou. Agora não está mais nascendo pelo no local.”

“Ótimo, falei que a clínica era boa, conheço a Gláucia há muitos anos.”

“Mas é que agora todo mundo tem cabelo no sovaco. É mais moderno, mais sexy, mais empoderado.”

“Não cai nessa, que isso é moda, vai passar já já.”

“Eu não uso mais blusa de alcinha de tanta vergonha desse sovaco liso que nem um boto.”

“Depilação definitiva não tem esse nome à toa. Não tem como reverter.”

“Até aqueles implantes de cabelo que os carecas fazem em Istambul eu tô topando.”

“O máximo que posso fazer é te indicar alguns nomes, mas não sei se o resultado vai ficar ‘instagramável’. Algo mais?”

“Na verdade, tem outro problema, até mais sério. A minha vagina desapareceu.”

“Que exagero, você mesma pediu para eu retirar os grandes lábios.”

“Mas você tirou os pequenos também.”

“Porque eles eram grandes demais. Posso te dar uma opinião masculina? Do jeito que estava não dava para encarar. Desse assunto eu entendo, meu trabalho é recuperar a autoestima das minhas pacientes.”

“O foco mudou, doutor. Se os homens acham que a vagina ideal precisa ser idêntica à boca do Sergio Moro, isso não é problema nosso.”

“Eu te dei um hímen novo de brinde e é assim que você agradece?”

“Uma caneta-lanterna teria sido mais útil. Maldita hora em que a Anitta postou a foto atochada em um maiô cavado.”

“Eu não posso reclamar, a trend da pepeca negativa da Anitta foi a belle époque da labioplastia. Bons tempos.”

“Tempos idos. Pepeca negativa é a nova calça saruel. É por isso que imploro, make my vagina great again. Será que não existe uma forma de ela voltar a ser como era antes? Positiva? Afirmativa? Propositiva?”

“A gente pode tentar uma reconstrução com um enxerto da sua… coxa, por exemplo.”

“Justo onde eu tenho mais celulite? Negativo, essa é a parte do meu corpo que eu mais gosto.”


Crônica de Manuela Cantuária, na Folha de São Paulo

domingo, 20 de setembro de 2020

Pela autogestão das fake news

 Uma das tristezas de viver num país colonizado é depender de ideias importadas das nações mais ricas. Imitamos os termos e métodos na administração, os hábitos de consumo, o audiovisual e os padrões de beleza —até o hediondo mullet, veja só, nós imitamos. Por que seria diferente com as teorias da conspiração?

Terraplanismomovimento antivacina, “globalismo”, “ideologia de gênero” e agora QAnon (deem um Google, não tenho palavras) são todas ideias de jerico estrangeiras. Como uma nação forte depende de uma cultura forte, eu, patriota e cidadão de bem, chafurdando no zeitgeist “disso daí, talquei?”, venho colaborar na produção de delírios coletivos 100% nacionais. Se é pra sermos imbecis, que nos ferremos de verde e amarelo: chega de viajar na maionese imperialista, metamos o pé na jaca patrícia.

Faustão fez pacto com o demônio. A lenda de Fausto conta a história de um homem que vende a alma ao Tinhoso em troca de poder. Adotando o nome do célebre personagem, o apresentador da Globo sequer tenta esconder o comércio anímico. Não nos esqueçamos, também, que Fausto Silva começou no programa “Perdidos na Noite”. Quem se perde na noite invariavelmente acaba no colo do Capiroto. Alguns anos atrás, Fausto renovou o contrato com o Cramunhão e incluiu uma nova cláusula —ou vocês caíram nessa farsa de cirurgia bariátrica?

7 a 1 foi comprado. Os jogadores foram subornados pela comunista globalista nudista e líder mundial da ideologia de gênero, Angela Merkel. A ideia, surgida no Foro de São Paulo e apoiada pelo PT –não esqueçam que a chanceler alemã cresceu na Alemanha Oriental– era desestabilizar a nação, preparando o terreno para a invasão europeia; primeiro o Mineirão, depois o Planalto. Ainda bem que os patriotas não se deixaram abater e elegeram o capitão para presidente —não me refiro, infelizmente, ao Thiago Silva.

Câncer de próstata não existe. É uma invenção do movimento gayzista esquerdista globalista. Obrigando os homens a se submeter a essa massagem desvirilizante, violam o último reduto da individualidade. Chega de Estado se metendo onde não deve!

mico-leão dourado não existe. Ele foi criado pelo Hans Donner, com apoio da Globolixo, da SOS Mata Atlântica e do George Soros para impedir que o Brasil explore as riquezas minerais da floresta, continuando pobre e presa fácil, novamente, do globalismo e do gayzismo —é evidente que o mico-leão (ui!) dourado (nossa!) é homossexual.

A escravidão nunca existiu. Os africanos se jogavam dentro das caravelas portuguesas e se escondiam nos porões porque queriam vir para o Brasil viver com casa e comida de graça em nossas fartas plantações. Tudo custeado pelo cidadão de bem que pagava seus impostos. Depois de 300 anos os ingratos abandonaram seus zelosos cuidadores, se espalharam pelos morros e criaram a Lei Rouanet, para sustentar seus batuques. É urgente uma reparação aos brancos, tão explorados em nosso país.

Padre Julio Lancellotti é traficante. É ele quem vende drogas na cracolândia, por isso impede que a polícia faça o correto, que é seguir o exemplo de Duterte, nas Filipinas, e assassinar qualquer um que tenha envolvimento com drogas. Ou viva na rua. Ou seja preto e esteja andando por aí depois das 22h. Julio Lancellotti, aliás, é pai do jornalista Silvio Lancellotti, que tem publicados dez livros de culinária —toda uma carreira, portanto, baseada na larica.

Repassem sem dó!


Texto de Antonio Prata, na Folha de São Paulo

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

Posso criticar uma mulher sem ser considerado machista?

Com o objetivo de evitar vexames como as recentes declarações de Pedro Bial sobre a indicação de Petra Costa ao Oscar, os tuítes de José de Abreu sobre Regina Duarte e o vazamento tóxico ocasionado pelos “chernoboys” do BBB 20, o movimento feminista acaba de inaugurar um FAQ voltado para o público masculino. 
A ideia é responder a dúvidas comuns, diminuindo a taxa de cancelamentos e, de quebra, poupando a paciência de mulheres de todo o Brasil.
Posso criticar uma obra de arte feita por uma mulher sem ser considerado machista?
Pode, claro. Basta ter o mínimo de embasamento e alguns cuidados básicos. Observe se a sua crítica sugere que a artista é louca porque você não conseguiu extrair sentido da obra. Também evite menosprezar as motivações da autora dizendo que ela quis “chamar a atenção” ou “agradar a mamãe”.
Posso criticar uma mulher sem ser considerado machista?
Com certeza. É só fazer um pequeno esforço para enxergar o alvo da crítica para além de sua aparência física ou de sua sexualidade. Por exemplo, quando um homem diz que “não comeria” ou que “já comeu” uma mulher com o objetivo de diminuí-la, o feitiço acaba se voltando contra o feiticeiro. Elaborando melhor sua crítica, você também contribui com a luta das mulheres pelo direito de serem ofendidas apropriadamente enquanto nós priorizamos causas mais urgentes.
Posso flertar sem ser considerado um assediador?
Sim. O segredo é estar atento aos sinais. Um deles é quando a mulher se utiliza do advérbio de negação “não”, que significa recusa. Parece bobagem, mas muitos homens interpretam o não como um talvez ou até como um jogo de sedução. É mais simples do que parece: não é não. A segunda regra de ouro é evitar o contato físico. Você não está no hortifrúti para ficar apalpando, alisando e cheirando o que pretende comer. Se dê ao respeito se quiser ser respeitado.
Como posso ser machista se amo a minha mãe?
As estatísticas não mentem: cerca de 100% dos homens considerados machistas foram gerados em um útero. O fato de você ter mãe, avó, irmã, filha, namorada e até amigas, não anula erros, nem justifica acertos. É o tratamento que você reserva a mulheres com quem não possui um laço afetivo que vai revelar se você respeita ou não o sexo feminino.
Se você ainda tem dúvidas ou quer enviar sua sugestão sobre como o feminismo pode melhor atendê-lo, não perca tempo. Acesse agora nosso Fale Conosco —afinal, a cada dia que passa, sua opinião é menos importante para nós.

Texto de Manuela Cantuária, na Folha de São Paulo

sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

Exatamente

Cara colunista, ao dizer que não respeita quem votou no Bolsonaro, você está querendo dizer que, contra tudo o que prega a democracia que tanto defende, você não aceita um voto diferente do seu? 
Exatamente. Nesse caso específico, votaram contra a democracia, e quem o faz não merece ser respeitado democraticamente.
Mas, ao dizer que não tolera quem votou no Bolsonaro, sobretudo em tempos violentos como os nossos, não estaria você fomentando brigas?
Exatamente. Sou adepta de muita briga. No espaço virtual, no elevador, nas festas, nas reuniões, nas universidades (se restar alguma) e, sobretudo, nos almoços em família.
Para garantir um país sem armas e agressões físicas, a fim de assegurar uma vida menos desgraçada para, por exemplo, mulheres, pobres, negros e LGBTs, é preciso, quem diria, quebrar o pau. Reclamar, escrever, discutir.
Quando escreve que considera ignorante, mal-intencionado ou perverso quem segue apoiando esse governo, não estaria você se julgando melhor que os outros?
Exatamente. Eu acho isso mesmo. Eu não tenho maturidade, bondade no coração e espiritualidade suficientes para pensar diferente.
Se você apoia o governo do preconceito, do racismo, da ignorância, das milícias, da perseguição a professores, do fim da cultura, do fim da ciência, do nazismo, me desculpe, mas ou você não entendeu nada e lhe falta leitura ou você entendeu tudo e lhe falta humanidade ou você se considera acima do bem e do mal (e, portanto, as leis civilizatórias não lhe servem).
Tati, metade dos meus amigos gosta do Bolsonaro e eles não são idiotas. Eles fizeram GV!
Exatamente! Eles fizeram GV e são idiotas! Que absurdo, né?! Para você ver que fazer GV não salva ninguém de ser imbecil. Nem USP nem mestrado nos Estados Unidos. 
Mas, Tati, você acharia melhor que o PT continuasse no poder?
Exatamente. Eu votei no Ciro no primeiro turno da eleição passada. E votaria até no PSDB se fosse para tirar o atual governo.
Eu também tenho bode do PT, porém apoiar esse governo é um crime contra a moralidade e a decência. E moralidade e decência, na minha opinião, nada têm a ver com religião e conservadorismo.
Tati, lembra de mim? A gente era primo de primeiro grau até 2018. Você sumiu, te chamei para a festa dos gêmeos no buffet Mickey Amigão e você não apareceu. Anda ocupada ou tudo isso é só porque eu votei no Bolsonaro? 
Exatamente. Perceba em minhas redes sociais: eu vou a restaurantes, viajo, leio, faço novos amigos e tatuagens.
Tentei na terapia e na meditação, mas meio que você morreu para mim em algum lugar muito profundo, ancestral e primitivo. Beijo nas crianças (e coitadas delas!).
Tatiana, você deve ter faltado mesmo às aulas de história. Você segue se recusando a discutir o que é o fascismo.
Exatamente. Faltei a algumas por motivo de putaria. Eu peguei geral na época da escola e no período da faculdade e até bem pouco tempo atrás. Putaria é um troço maravilhoso.
Alguém avisa a Damares que não faz sentido parar de transar antes do casamento porque é justamente durante o casamento que a gente para de transar.
Fascismo não se discute, tampouco se pondera. Ou é fascista ou não é. Se você insiste em debater se um governo fascista é fascista, sinto muito, não falo com fascistas. E meu nome é Tatiane.
Cronista da Foice de SP, estou cansado de você só escrever palavrão e papo furado de esquerda.
Exatamente, eu também estou. Contudo, até que pessoas como você entendam a merda em que nos metemos e como estamos fodidos, eu vou ter que continuar com essa porra.

Texto de Tati Bernardi, na Folha de São Paulo