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domingo, 7 de julho de 2024

Biografia


meu pai apostava o feijão no futebol

tinha drible ligeiro, batia forte na bola


eu apostei a vida no poema

nas promessas que ele inventava


cada um escolhe o deus 

que nos salva e condena


nunca acertamos um milhar

nenhuma pule premiada


não houve livro na lista dos mais

vendidos nada no jogo do bicho


no fim sobramos dois vagabundos

esperando explodir o fim do mundo


ele cansou, partiu primeiro, enquanto

eu vou indo, de domingo a domingo


pagando o preço do precipício que

é viver sem ter mais nada a perder



Poema de Jorge Augusto publicado na revista piauí de novembro de 2023, edição 206.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

Aprender a morrer


Aprender a morrer


Maria do Carmo Ferreira


Olhar compadecido para as coisas
que nunca foram vistas, por se olhar
distraidamente, tentando-se adiar
o dom da vida que se faz presente

Olhar com os olhos, mas internamente.
Olhar com o coração, mais que os sentidos
que tudo captam e tudo dão ouvidos
salvo ao mistério que circunda a gente

Olhar como uma criança desarmada 
que no colo dos pais mais se abandona
ao fruir do instante que a contém e capta
toda a alegria de viver avante

Olhar intensamente para dentro,
mas com a sabedoria de quem sabe 
que não se nasce para morrer, mas sempre
se morre a cada instante em que se nasce

para ressuscitar gloriosamente
em outras dimensões que não nos cabe
viver antes que a morte nos frequente
a cada passo, desde a eternidade 

Na revista piauí, edição 182, novembro de 2021. 

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

Quando eu morrer


Os deuses dão a sombra e a luz. A sombra brilha,
E o coração da luz esconde um claro-escuro.
O mal vive no bem. Não há remédio, filha:
Tu chorarás por mim nas noites do futuro.
O que nos cabe aqui é a triste maravilha.
Nada é somente suave, ou acre, ou doce, ou bruto.
Tudo fere, e eu também vou te ferir. Oh, filha,
Tu chorarás por mim nas noites do futuro.
Mas é nossa missão cair nessa armadilha,
E o que passou persiste em seu estado puro.
Não vou morrer quando eu morrer. Pois, minha filha,
Tu chorarás por mim nas noites do futuro.

O poema é atribuído a José Francisco Botelho, e eu vi na linha de tempo da(o)s Amiga(o)s da Roda de Leituras.

sexta-feira, 30 de outubro de 2020

O tempo

 Carrego meus fantasmas

Dentro de um armário

Entalhado no peito

Eu sou o que tenho feito

Apesar do grande defeito,

De sonhar mais que o pássaro,

Que voa sem fazer cálculos.

Eu sou eu e os meus cacos

Uma caneca de louça sem asa

Uma latinha de pastilhas

Fotos de minhas filhas

Lembranças feito ilhas

De um futuro no passado,

O presente encarcerado,

Lobo depois das trilhas,

O olhar depois das chuvas.

Do blogue do Juremir Machado da Silva

segunda-feira, 30 de março de 2020

Horizonte


Pra longe é minha lente
De névoa é minha quarentena
Te quero aqui de repente

Por Bárbara Sanco

30/03/2020.

domingo, 22 de março de 2020

Agora almoçar

Quanto tempo teremos?
Melhor esquecer o relógio
Melhor almoçar enquanto podemos

Por Bárbara Sanco 

22/03/2020.

Quarentena em Porto Alegre

Queria folga da humanidade
Um anjo disse amém
Meu pedido virou realidade

Por Bárbara Sanco 

22/03/2020.

Quarentena em POA

Em livros e filmes esqueço
Entre histórias de outros
Do mundo doente me perco

Por Bárbara Sanco

22/03/2020.

Quarentena na Praia

Entre meus dedos areia
No corpo sol e silêncio
E do mundo fico alheia

Por Bárbara Sanco

22/03/2020

Agora almoçar

Manter a rotina
Entre o dormir
E o acordar

Por Ana Mello

22/03/2020.

Quarentena em POA

A janela é o limite
Antes privacidade
Agora desejo de liberdade

por Ana Mello

22/03/2020.

Quarentena na Praia

Vento soprando recados
Sol, praia e mar
Desocupados

por Mário Roberto Ulbrich

22/03/2020.

domingo, 8 de março de 2020

Eileen Myles e Bruna Beber

eu gosto mesmo é de ficar bêbado
e estar apaixonado
ou pelo menos bêbado
mas de preferência apaixonado
com duas ou três cervejas
na cabeça vadiando pelo centro
e repassando mentalmente um poema
sobre você
quando não estou 
bêbado nem apaixonado
quase morro de tristeza
lembro das pessoas
que levam a vida como zumbis
os olhos queimados pela visão do nada
a ouvir o canto das sereias
e me pergunto se vou aguentar até o fim
mas em geral não penso nelas
em geral só penso em pessoas apaixonadas
e estou sempre marcando o próximo porre
com meus colegas de copo e de cruz
também gosto de ver minhas canetas morrerem
não gosto quando elas somem
ou são roubadas
gosto muito das palavras lataria
fuselagem
e adoro aquelas cenas de paz
dos filmes de gângsteres
em que um gordinho de calças arriadas
caga e folheia o jornal de esportes
segundos antes de ser metralhado
pelo bando inimigo

Poema de Fabricio Corsaletti, na Folha de São Paulo.  

sábado, 2 de março de 2019

Soneto de Separação

De repente do riso fez-se o pranto 
Silencioso e branco como a bruma 
E das bocas unidas fez-se a espuma 
E das mãos espalmadas fez-se o espanto. 

De repente da calma fez-se o vento 
Que dos olhos desfez a última chama 
E da paixão fez-se o pressentimento 
E do momento imóvel fez-se o drama. 

De repente, não mais que de repente 
Fez-se de triste o que se fez amante 
E de sozinho o que se fez contente. 

Fez-se do amigo próximo o distante 
Fez-se da vida uma aventura errante 
De repente, não mais que de repente.

De Vinicius de Moraes.


28/02/2019.

sábado, 18 de outubro de 2014

Soneto de Separação

De repente do riso fez-se o pranto 
Silencioso e branco como a bruma 
E das bocas unidas fez-se a espuma 
E das mãos espalmadas fez-se o espanto. 

De repente da calma fez-se o vento 
Que dos olhos desfez a última chama 
E da paixão fez-se o pressentimento 
E do momento imóvel fez-se o drama. 

De repente, não mais que de repente 
Fez-se de triste o que se fez amante 
E de sozinho o que se fez contente. 

Fez-se do amigo próximo o distante 
Fez-se da vida uma aventura errante 
De repente, não mais que de repente.


Reprodução do sítio de Vinícius de Moraes

(15-10-2014).

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Se eu morresse amanhã

Se eu morresse amanhã


Álvares de Azevedo


Se eu morresse amanhã, viria ao menos
Fechar meus olhos minha triste irmã;
Minha mãe de saudades morreria
Se eu morresse amanhã!

Quanta glória pressinto em meu futuro!
Que aurora de porvir e que amanhã!
Eu perdera chorando essas coroas
Se eu morresse amanhã!

Que sol! que céu azul! que doce n'alva
Acorda a natureza mais louçã!
Não me batera tanto amor no peito
Se eu morresse amanhã!

Mas essa dor da vida que devora
A ânsia de glória, o doloroso afã...
A dor no peito emudecera ao menos
Se eu morresse amanhã!


Copiado de Pensador - UOL.

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Mulher


Chamas a noite de vadia
Pelo desejo que sentes
de te perder dentro dela.

Esse medo que desde menina
É o que mais te fascina
No enigma da solidão.

Querias crescer antes do tempo
Para ganhar as ruas e estradas
E apagar sozinha as estrelas
No outro lado da imensidão.

Fugias na ponta dos saltos
dos lindos sapatos azuis
para iluminar as vitrines
com teus olhos de cobalto.

Desde muito cedo sabias
Que nada te impediria
De navegar até o alto
Da cidade incendiada.

Chamas a noite de vazia
Esquecendo que mentes
Por medo de encontrar
Nela o que perdeste
Na passagem dos anos.

Perdeste dias, homens,
Amores, algumas flores,
Ônibus, bonecas e donos.

Chamas a noite de cadela
Porque não queres que ela
Te surpreenda sem roupa
À espera do último amante.

Mas sabes que viveste
E que nada pode lavar
Essa marca da tua boca.

Que importa se te chamam
De faminta ou de louca,
De loba ou de mulher?

Só importa que te reclamam
E lembram de tuas promessas.

Foste no tempo caravela,
Tigresa, pintura e igreja,
Mar interior e ravina.

Entre as tuas pernas,
Nesse despenhadeiro,
Naufragaram os bravos.

Tantos acenderam velas
No seio do teu altar
Que não se tem contas
De quantos escravos
te pediram correntes.

Cheiravas a jasmim,
A canela, a cravos.
Nesse tempo, sabias
De ti como de mim.

Depois, enfim, a noite,
Serena, se encarregou
De desiludir o amanhecer.


quarta-feira, 18 de abril de 2012

Ausência


Ausência


Por pouco
e a minha mãe teria casado
com o senhor Zbigniew B. de Zduńska Wola.
Se tivessem uma filha - não seria eu.
Talvez com a memória para nomes, rostos
e canções ouvidas uma só vez - melhor que a minha.
Distinguindo sem erro um pássaro do outro.
Com excelentes notas de física e química,
de polonês nem tanto,
mas escrevendo poemas às escondidas,
logo muito melhores que os meus.

Por pouco
e naquela mesma época meu pai teria casado
com a senhorita Jadwiga R. de Zakopane.
Se tivessem uma filha - não seria eu.
Talvez mais teimosa e intransigente.
Saltando sem medo na água funda.
Suscetível ao que comove as massas.
Vista em vários lugares ao mesmo tempo,
poucas vezes com um livro, muito mais com a bola,
jogando com meninos nos pátios e ruas.

As duas poderiam ter se encontrado
na mesma escola e na mesma classe,
mas sem afinidades,
nenhum parentesco,
e na foto da turma, bem afastadas entre si.

Fiquem aqui, meninas
- diz o fotógrafo -,
as pequenas na frente, as mais altas atrás.
E sorrisos bonitos quando eu der o sinal.
Verifiquem ainda,
não falta ninguém?

- Sim, senhor, estamos todas aqui.





Poema de Wisława Szymborska, poeta polonesa, Prêmio Nobel de Literatura de 1996, recentemente falecida, traduzido por Henryk Siewierski, visto na revista Piauí, edição 66, de março de 2012, página 74.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Os Homens Ocos


"A penny for the Old Guy"
(Um pêni para o Velho Guy)

Nós somos os homens ocos
Os homens empalhados
Uns nos outros amparados
O elmo cheio de nada. Ai de nós!
Nossas vozes dessecadas,
Quando juntos sussurramos,
São quietas e inexpressas
Como o vento na relva seca
Ou pés de ratos sobre cacos
Em nossa adega evaporada

Fôrma sem forma, sombra sem cor
Força paralisada, gesto sem vigor;

Aqueles que atravessaram
De olhos retos, para o outro reino da morte
Nos recordam - se o fazem - não como violentas
Almas danadas, mas apenas
Como os homens ocos
Os homens empalhados.

  II

Os olhos que temo encontrar em sonhos
No reino de sonho da morte
Estes não aparecem:
Lá, os olhos são como a lâmina
Do sol nos ossos de uma coluna
Lá, uma árvore brande os ramos
E as vozes estão no frêmito
Do vento que está cantando
Mais distantes e solenes
Que uma estrela agonizante.

Que eu demais não me aproxime
Do reino de sonho da morte
Que eu possa trajar ainda
Esses tácitos disfarces
Pele de rato, plumas de corvo, estacas cruzadas
E comportar-me num campo
Como o vento se comporta
Nem mais um passo

- Não este encontro derradeiro
No reino crepuscular

  III

Esta é a terra morta
Esta é a terra do cacto
Aqui as imagens de pedra
Estão eretas, aqui recebem elas
A súplica da mão de um morto
Sob o lampejo de uma estrela agonizante.

E nisto consiste
O outro reino da morte:
Despertando sozinhos
À hora em que estamos
Trêmulos de ternura
Os lábios que beijariam
Rezam as pedras quebradas.

  IV

Os olhos não estão aqui
Aqui os olhos não brilham
Neste vale de estrelas tíbias
Neste vale desvalido
Esta mandíbula em ruínas de nossos reinos perdidos

Neste último sítio de encontros
Juntos tateamos
Todos à fala esquivos
Reunidos na praia do túrgido rio

Sem nada ver, a não ser
Que os olhos reapareçam
Como a estrela perpétua
Rosa multifoliada
Do reino em sombras da morte
A única esperança
De homens vazios.

  V

Aqui rondamos a figueira-brava
Figueira-brava figueira-brava
Aqui rondamos a figueira-brava
Às cinco em ponto da madrugada

Entre a idéia
E a realidade
Entre o movimento
E a ação
Tomba a Sombra
                        Porque Teu é o Reino

Entre a concepção
E a criação
Entre a emoção
E a reação
Tomba a Sombra
                       A vida é muito longa

Entre o desejo
E o espasmo
Entre a potência
E a existência
Entre a essência
E a descendência
Tomba a Sombra
                        Porque Teu é o Reino
Porque Teu é
A vida é
Porque Teu é o

Assim expira o mundo
Assim expira o mundo
Assim expira o mundo
Não com uma explosão, mas com um suspiro.


Poema de T.S. Eliot, em tradução de Ivan Junqueira, visto no O Poema.

The Hollow Men

Mistah Kurtz—he dead.

A penny for the Old Guy

I
We are the hollow men
We are the stuffed men
Leaning together
Headpiece filled with straw. Alas!
Our dried voices, when
We whisper together
Are quiet and meaningless
As wind in dry grass
Or rats' feet over broken glass
In our dry cellar

Shape without form, shade without colour,
Paralysed force, gesture without motion;

Those who have crossed
With direct eyes, to death's other Kingdom
Remember us—if at all—not as lost
Violent souls, but only
As the hollow men
The stuffed men.

II
Eyes I dare not meet in dreams
In death's dream kingdom
These do not appear:
There, the eyes are
Sunlight on a broken column
There, is a tree swinging
And voices are
In the wind's singing
More distant and more solemn
Than a fading star.

Let me be no nearer
In death's dream kingdom
Let me also wear
Such deliberate disguises
Rat's coat, crowskin, crossed staves
In a field
Behaving as the wind behaves
No nearer—

Not that final meeting
In the twilight kingdom

III
This is the dead land
This is cactus land
Here the stone images
Are raised, here they receive
The supplication of a dead man's hand
Under the twinkle of a fading star.

Is it like this
In death's other kingdom
Waking alone
At the hour when we are
Trembling with tenderness
Lips that would kiss
Form prayers to broken stone.

IV
The eyes are not here
There are no eyes here
In this valley of dying stars
In this hollow valley
This broken jaw of our lost kingdoms

In this last of meeting places
We grope together
And avoid speech
Gathered on this beach of the tumid river

Sightless, unless
The eyes reappear
As the perpetual star
Multifoliate rose
Of death's twilight kingdom
The hope only
Of empty men.

V
Here we go round the prickly pear
Prickly pear prickly pear
Here we go round the prickly pear
At five o'clock in the morning.


Between the idea
And the reality
Between the motion
And the act
Falls the Shadow
For Thine is the Kingdom

Between the conception
And the creation
Between the emotion
And the response
Falls the Shadow
Life is very long

Between the desire
And the spasm
Between the potency
And the existence
Between the essence
And the descent
Falls the Shadow
For Thine is the Kingdom

For Thine is
Life is
For Thine is the

This is the way the world ends
This is the way the world ends
This is the way the world ends
Not with a bang but a whimper.





Poem by T.S. Eliot, found out at Shmoop.


Poema de T.S. Eliot visto no Shmoop.