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terça-feira, 16 de agosto de 2016

General francês revela como método de tortura do país virou referência


"Eu vou atravessar uma porta, e diante dessa porta tem um espelho, vou olhar para esse espelho e não quero ver um canalha", assim falava o general francês Paul Aussaresses, em suas últimas entrevistas antes de morrer, em 2013, aos 95.
Desde que deu as primeiras declarações ao jornal "Le Monde", em 2000, até pouco antes de sua morte, Aussaresses rompeu de forma incômoda um silêncio que dominava as Forças Armadas francesas sobre os métodos abusivos utilizados contra os integrantes da Frente de Libertação Nacional durante a guerra de independência da Argélia, entre 1954 e 1962. O país era, desde 1830 e até então, uma colônia francesa.
Na França, que sempre se orgulhou de seu apreço pela defesa dos direitos humanos, as declarações de Aussaresses causaram intensa repercussão. Era a primeira vez que um militar de alta patente reconhecia que o Exército francês praticara torturas na Argélia.
Mas, para o próprio, foi como acertar contas consigo mesmo. "Creio que ele estava pensando no que aconteceria depois de sua morte, e imaginava que, ao dizer a verdade, poderia se livrar de um julgamento negativo. Mas em nenhum momento ele se disse arrependido", conta a jornalista e pesquisadora Leneide Duarte-Plon em seu recém-lançado "A Tortura como Arma de Guerra".
Baseado nas entrevistas que realizou com Aussaresses a partir de 2008, o livro detalha as técnicas usadas pelos franceses para obtenção de informações, assim como o modo como foram executados ou "desaparecidos" vários líderes do FLN.
Aussaresses foi um ex-combatente da Segunda Guerra Mundial, das guerras da Indochina (1946-1954) e da Argélia (1954-1962).
Depois disso, foi enviado aos EUA para ensinar militares americanos e latino-americanos a como atuar contra a insurgência em forma de guerrilha, ou, em suas palavras, com os "terroristas".
"Quando se estuda as ditaduras na América Latina, fala-se muito da ação dos EUA, e esse vínculo com a França é pouco estudado, mas ele foi muito forte. Passaram por esses cursos dos veteranos franceses nos fortes Bragg e Benning, nos EUA, muitos militares sul-americanos, como o argentino Jorge Videla (1925-2013) e o chileno Augusto Pinochet (1915-2006), que depois se transformariam em ditadores", diz a autora.
Nesses encontros, segundo o relato de Aussaresses, os militares franceses ensinaram suas técnicas de interrogatório sob tortura.
O vínculo de Aussaresses com a América Latina se fortaleceria entre 1973 e 1975, quando atuou como adido militar da França em Brasília. Nesta época, teria tido como amigo na capital brasileira o general João Batista Figueiredo (1918-1999), enquanto este ainda era chefe do SNI (Serviço Nacional de Informações) –depois assumiria o cargo de último presidente da ditadura militar brasileira (1964-1985).
"Falou-me de Figueiredo como um amigo, alguém com quem compartilhava várias afinidades. Os dois eram enfaticamente anti-comunistas, gostavam de cavalos e de mulheres", conta Duarte-Plon.
Mas a relação entre os dois chefes militares não terminou muito bem. À jornalista, Aussaresses relembra um caso que já havia relatado em seu livro "Je N'ai Pas Tout Dit", em que contava que o próprio Figueiredo havia mandado interrogar sob tortura uma mulher que tinha tido um breve "affair" com o francês, mas que o então chefe do SNI acreditava ser uma espiã do "Leste". Aussaresses tentou fazer com que Figueiredo a libertasse, mas não conseguiu. Ao final, depois de muito insistir, o brasileiro lhe teria dito: "Paul, aquela mulher era frágil fisicamente. Ela foi levada ao hospital e morreu."
Com base nas descrições do general torturador, Duarte-Plon sugere que algumas mortes famosas da ditadura brasileira teriam sido inspiradas no modo de executar prisioneiros dos militares franceses na Argélia. O caso mais emblemático seria o do jornalista Vladimir Herzog, cuja morte após sofrer tortura tentou-se camuflar alegando que ele teria se suicidado por enforcamento, produzindo uma das imagens mais simbólicas da tortura no Brasil.
Duarte-Plon conta que um dos chefes do FLN, Larbi Ben M'Hidi, teve a morte apresentada da mesma forma, como suicídio por enforcamento, mas que Aussaresses lhe confessara que, na verdade, ele tinha sido morto por tortura antes. "Nós o ajudamos", teria dito o ex-general.
As polêmicas declarações de Aussaresses não foram dadas apenas em entrevistas a jornais e a emissoras de TV. O ex-general também lançou livros, após a primeira revelação, nos quais defendeu seus métodos, além de relatar como foi a execução de vários líderes do FLN.
Acabou sendo levado à Justiça francesa, mas não foi condenado devido à lei de Anistia de 1968. Em sua defesa, dizia que "uma informação obtida a tempo poderia salvar dezenas de vidas humanas", caso o torturado fosse de fato um "terrorista". Justificava as execuções, também, dizendo que era preciso "não sobrecarregar o sistema Judiciário".

'GENTLEMAN'

Duarte-Plon diz ter se impressionado com a facilidade com que o general falava de detalhes muito técnicos das torturas e mortes sem parecer se incomodar. Também conta que se comportava como "um gentleman" e que tinha "gostos requintados". De fato, em entrevistas disponíveis no YouTube, pode-se ver Ausseresses confessando torturas, dizendo não ter remorsos, mas portando-se sempre de modo elegante e educado.
As únicas punições que recebeu foi ter perdido o direito de usar a Legião de Honra como herói da Segunda Guerra, retirada em 2005 pelo então presidente Jacques Chirac, e ter de pagar uma multa de 7.500 euros por fazer "apologia de crimes de guerra".


Reportagem de Sylvia Colombo para a Folha de São Paulo

sexta-feira, 8 de julho de 2016

Uma vez Michel Rocard

Michel Rocard (1930-2016) se foi. No sábado, 02/07, ele nos deixou. Um câncer – após uma hemorragia cerebral em 2007 e um ataque cardíaco em 2012 – o ceifou. A cartografia mundial da esquerda perdeu um grande militante. A paisagem política europeia e francesa, um sincero, desejoso e corajoso homem de estado. Os políticos e aspirantes políticos de todas as colorações, uma referência de exigência e entusiasmo vis-à-vis da coisa pública. Impossível ser indiferente ao desaparecimento de Michel Rocard.
Nascido em 1930, Michel Rocard carregava a marca da ferocidade humana das grandes guerras mundiais. A ocupação nazista da França imprimiria nele a necessidade e o dever de fazer política. Desde os seus mais tenros anos, ele iniciou sua militância à esquerda. Seus combates decisivos foram pela recomposição da dignidade dos povos.
Em fins dos anos de 1940, ele ingressaria na SFIO – Section française de l’internationale ouvrière. Adiante, fundaria o PSA – Parti socialiste autonome. Nos anos de 1960 aderiria ao PSU – Parti socialiste unifié. Até que em 1974 se filia ao PS – Parti socialiste – do qual jamais sairia.
A primeira grande causa de sua geração no após-1945 foi a guerra na Argélia. Desde o início ele advogou pela descolonização. Seu engajamento na questão argelina o projetaria como liderança política emergente na esquerda francesa e europeia dos anos de 1960 que permitiria sua ascensão à condição de candidato à presidência da República em 1969 pelo PSU.
Desde o início dos anos de 1970, seu interesse político visou a modernização da esquerda na França. Sua démarche ficou conhecida como “segunda esquerda”. Seu mote era o reformismo com o distanciamento de manifestações ortodoxas do marxismo, do socialismo e do comunismo e uma aproximação a certo realismo e pragmatismo político e econômico a partir da disposição para diálogo não-sectário com tendências políticas republicanas para além dos círculos de esquerda. Tudo isso o tornaria doravante eterno corpo estranho no interior do PS e, malgrado respeitado, um ser marginal e marginalizado no interior do conjunto da esquerda francesa, europeia e mundial.
Seus inimigos e adversários foram se multiplicando em todas as agremiações políticas. Especialmente na França. Mas isso não o impediu de, em 1980, ser o favorito do PS para as eleições presidenciais de 1981. Mas em seu caminho existia François Mitterrand (1916-1996).
Mitterrand foi o principal responsável pela marginalização de Michel Rocard no interior do PS antes e depois de 1981. A incompatibilidade de gênio entre eles era explícita e eles nada faziam reduzi-las. Viviam a praticavam “mundos” diferentes.
Durante a primeira presidência Mitterrand (1981-1988), Michel Rocard não assumiu que postos terciários de pouca visibilidade mesmo sendo um político massivamente popular. Apenas no segundo período Mitterrand (1988-1995), ele seria convocado para primeiro-ministro. Ficaria no cargo de apenas três anos. De 1988 a 1991. Sua grande contribuição, no plano geoestratégico, foi claramente a incorporação da questão ambiental como prioridade do governo e a discussão do lugar do Ocidente no mundo após o desaparecimento da URSS.
Desse período advém sua famosa máxima “não podemos acolher toda a miséria do mundo”.
Fora do cargo, ele seria primeiro secretário do PS de 1993 a 1994, quando seria eleito deputado europeu e representaria seu país em Bruxelas até 2009.
Seu eterno remorso sempre foi a convicção de que poderia – e deveria – ter sido presidente da França. O destino não o quis.
Todos que conviveram com esse exímio homem político de esquerda – e toda a geração de latino-americanos e especialmente brasileiros de esquerda exilada na Europa nos anos sombrios dos regimes militares na região pode testemunhar – encontravam nele um homem convivial, generoso, afeito à bonomia, de fácil integração, como excelente capacidade de trabalho e imaginação.
Seu maior handicap talvez fora a sua franqueza. Seu estilo franco e direto o tornou demasiado incômodo. Isso o impediria de galgar postos na estrutura política francesa.
Ele próprio reconhecia – vide suas memórias Si la gauche savait (2005), Si ça vous amuse (2010) e seu vide seu La Gauche n'a plus le droit à l'erreur, com Pierre Larrouturou, (2013) – suas inabilidades para o cinismo, a demagogia, o complô.
Cinismo, demagogia e complô sempre foram artifícios da manifestação política. Mas nos tempos atuais esses artifícios sobrepujaram e quase eliminaram todos os demais. O produto desse processo vem sendo a afirmação do império da mediocridade política teórica e prática em toda parte. Dignidade política e dignidade na política estão virando avis rara. Michel Rocard encarnou como ninguém o senso de dignidade teórica e prática na política. Nesse sentido, seu maior legado talvez seja o seu esforço na contenção dessa mediocrização corrente. Após sua morte, a urgência onipresente consiste fortemente na emergência de homens públicos capazes de praticar esse legado.

terça-feira, 29 de março de 2016

Morre o escritor francês Alain Decaux aos 90 anos

Morre o escritor francês Alain Decaux aos 90 anos

Acadêmico estava internado em hospital de Paris
O escritor, biógrafo e acadêmico francês Alain Decaux morreu neste domingo no Hospital Pompidou em Paris, aos 90 anos, anunciou sua esposa, Micheline Pelletier-Decaux.
Este formidável contista, autor de mais de 60 obras, entrou a partir dos anos 1950 para a história da rádio e televisão francesa, onde criou vários programas famosos. Eleito para a Academia Francesa em 1979, ministro da Francofonia (1988-1991) durante a presidência do socialista François Mitterrand, o contista criou e apresentou vários programas que se tornaram clássicos.

Decaux publicou seu primeiro livro, "Louis XVII retrouvé", em 1947 e foi premiado pela Academia Francesa com seu segundo trabalho, "Letizia".  Em 1989, foi nomeado coordenador da política externa de televisão da França. Desde 1999, existe o prêmio Alain Decaux para a Francofonia. Casado duas vezes, Decaux deixa três filhos.

Reprodução do Correio do Povo

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Em livro, professor de Yale reconstrói história da Comuna de Paris


"Paris já conhece o terror há tempos, o que é uma lástima. Em alguns momentos da história, foi o terror do Estado; noutros, o terror que extermina apenas porque o outro é diferente, de outra cor ou de outra religião", diz à Folha o professor de história da Universidade de Yale (EUA) John Merriman, que acaba de ter lançado no Brasil o livro "A Comuna de Paris".
O título em português é pouco feliz, pois não traduz o tom dramático do relato. Em inglês, a obra se chama "Massacre" e apresenta de modo vibrante o que ocorreu nas ruas da capital francesa em 1871, nos 72 dias da Comuna de Paris –insurreição que levantou os habitantes da cidade contra o governo, então recolhido em Versalhes, e criou uma forma alternativa de administração, transformando-se em inspiração para a esquerda no século seguinte.
A Comuna de Paris foi duramente reprimida pelas forças enviadas por Adolphe Thiers (1797-1877), provocando uma verdadeira chacina. Do lado da comuna, foram mortas cerca de 15 mil pessoas, enquanto os rebeldes executaram 68 prisioneiros.
"Os assassinatos cometidos pelos que integravam a comuna são deploráveis, mas a repressão foi tão brutal que ficou evidente a desproporção que a violência pode tomar quando é o Estado quem se prontifica a matar. Por isso, creio que o episódio oferece chaves para entender vários massacres do século 20", afirma Merriman.
Além de fornecer uma sólida contextualização geopolítica da França naquele tempo, logo após uma humilhante derrota para a Prússia, o livro centra a atenção nos personagens que participaram da comuna e numa descrição de como se organizava Paris.
Surgem, então, figuras como a professora anarquista Louise Michel, que recrutava prostitutas para ajudar a cuidar dos feridos nas barricadas. Ou Raoul Rigault, personagem boêmio e controverso que assumiu a polícia e perseguia espiões e líderes religiosos. O aspecto anticlerical da revolta, assim, é contado a partir de desafetos cotidianos. Durante a comuna, igrejas foram ocupadas para serem transformadas em centros comunitários.
Estão também no livro o pintor Gustave Courbet (1819-77), que partiu para o exílio após o episódio, e o arcebispo de Paris Georges Darboy (1813-71), assassinado pelos membros da comuna. "A quantidade de anotações, diários e correspondências que deixaram é imensa. Deixei-me levar por esses fantasmas da comuna e tentei relatar com os olhos deles o que viveram", diz Merriman.
Também há descrições de como a crise política e a guerra foram antecedidas por uma crise urbana. O rápido aumento da população de Paris, que dobrara em poucas décadas, vinha deteriorando setores da capital francesa. Um dos documentos citados conta: "É uma cidade gótica, um lugar de escuridão e cheio de excrementos, desordem, violência e sangue".
No curto período da comuna, foram estabelecidos a autogestão de fábricas, a laicidade do Estado e um sistema em que as decisões eram tomadas de modo horizontal.

AMADORISMO

A narrativa culmina na "Semaine Sanglante" (semana sangrenta), de 21 a 28 de maio, quando as tropas de Thiers invadiram a cidade.
"Ficou evidente o amadorismo das barricadas, a falta de estrutura e de armamento. E também que os soldados atuaram com especial brutalidade. Minha teoria é de que a derrota para a Prússia os havia deixado de orgulho ferido, e eles se vingaram contra a população de Paris", diz o historiador. Nos dias finais, filas eram formadas para execução nas paredes do cemitério de Père Lachaise.
Dono de um apartamento a uma quadra da Redação do "Charlie Hebdo", alvo de terroristas em janeiro, Merriman não estava em Paris no dia dos atentados de 13 de novembro. "Depois do ataque ao 'Charlie', eu sabia que outros iam vir. Também não acho que esse será o último. Há muita tensão em Paris."
Quanto ao tamanho do trauma que o episódio deixará na história, Merriman diz: "A Comuna de 1871 foi um dos quatro grandes traumas que eu considerava terem moldado a França. Além dele, estão a Revolução de 1789, a experiência de Vichy, em 1940, e Maio de 1968. Talvez 2015 entre nessa lista."
*
ASCENSÃO E QUEDA
1870
Trabalhadores parisienses obrigam a Assembleia Legislativa a dissolver o império de Napoleão 3º após sucessivas perdas na Guerra Franco-Prussiana. O novo governo é regido pelo burguês Louis Adolphe Thiers, que busca uma negociação com os prussianos. O ato leva à revolta do proletariado francês e de setores da Guarda Nacional. Liderados pelo socialista Louis Blanqui, eles tomam o Hôtel de Ville –a prefeitura de Paris– e se levantam contra o governo de Thiers que, para conter o levante civil, promete deixar o poder e organizar eleições. Os trabalhadores aceitam os termos, mas Thiers não deixa o poder. Blanqui é preso.
Thiers assina um acordo de paz com o chanceler prussiano Otto Von Bismarck. Revoltada, a classe operária e a Guarda Nacional tomam o poder em Paris, em março de 1871 –cercam o contingente de Thiers e substituem o governo republicano pela Comuna de Paris, composta por 90 socialistas de diversas vertentes. A cidade passa a ser administrada por funcionários eleitos, as fábricas ficam sob a responsabilidade dos operários, o salário dos professores é duplicado. Mas, em maio, sob o comando da burguesia que havia sido deposta, tropas matam aproximadamente 15 mil pessoas –incluindo mulheres e crianças–, aprisionam outras 38 mil e tomam o poder das mãos dos revolucionários.
A COMUNA DE PARIS
AUTOR John Merriman
TRADUÇÃO Bruno Casotti
EDITORA Rocco
QUANTO R$ 59,90 (400 págs.)

Reprodução de texto de Sylvia Colombo, na Folha de São Paulo

terça-feira, 8 de setembro de 2015

Montaillou, “une petite village française”, 1258.


O camponês Bernad d’Alion vinha de ser condenado pela Inquisição por suas indisfarçáveis heresias. O padre Jacques Fournier fora o responsável pelos autos da condenação.
Práticas similares eram recorrentes em todos os domínios da Igreja naqueles idos dos tempos medievais. Dessa maneira, Jacques Fournier, Bernad d’Alion e essa minúscula vila rural francesa medieval tinham tudo para aceder ao esquecimento do tempo e da história. Mas seus destinos mudaram completamente a partir de 1975 com a publicação do best-seller Montaillou, village occitan de 1294 à 1324 de Emmanuel Le Roy Ladurie. Faz quarenta anos.
A 5 de novembro de 1975, Emmanuel Le Roy Ladurie fazia publicar seu precioso manuscrito pela prestigiosa Bibliothèques des historiens dirigida por Pierre Nora. A primeira tiragem de seis mil exemplares se esgotou rapidamente. Às vésperas do natal daquele ano mais de 100.000 exemplares tinham sido vendidos simplesmente na França.
Quarenta anos depois o livro segue sendo bem vendido e lido mundo afora.
Pelas estimativas da Gallimard em língua francesa são mais de 230.000 exemplares vendidos. Nas outras mais de vinte línguas para as quais foram vertidas Montaillou, village occitan de 1294 à 1324 suas tiragens ultrapassam um milhão de exemplares.
Esse verdadeiro fenômeno Montaillou, village occitan de 1294 à 1324 faria de Emmanuel Le Roy Ladurie o primeiro historiador francês a ser best-seller mundial.
Experiência similar ocorrera antes somente com o antropólogo Claude Levi-Strauss e seuTristes trópicos e com o filósofo Michel Foucault e seu As palavras e as coisas. Recentemente o fenômeno entre os franceses tem sua melhor representação em Thomas Piketty e seu O capital no século 21.
Sobre Montaillou de Le Roy Ladurie, historiadores, editores, jornalistas e leitores passaram os últimos quarenta anos na senda das razões desse sucesso retumbante. Mas nenhuma boa explicação foi encontrada. Afinal, malgrado escrito divinamente, Montaillou, village occitan de 1294 à 1324 não é de leitura e compreensão fáceis.
Seja como for, quando ele saiu eram os anos 1970s.
Maio de 68 seguia vivo nos espíritos. Woodstock também. O general De Gaulle além de sair do poder tinha também partido desta vida. A guerra no Vietnã dava sinais de desaparecer. Os acordos de Bretton Woods já tinham desaparecido. Os trinta anos gloriosos franco-europeus eram cenários de passado. Crises econômicas e sociais tomavam conta da paisagem política. Em 1975, no vazio deixado pela renúncia do presidente Richard Nixon decorrente dos escândalos de Watergate, o presidente Valery Giscard d’Estaing vinha de criar o G4 – depois tornado em G 6 e hoje G ora 7 ora 8.
Esse é o contexto, somado ao momento historiográfico da nouvelle histoire francesa, da aparição de Montaillou, village occitan de 1294 à 1324.
Questionado sobre as razões do sucesso do livro, Le Roy Ladurie indica simples e diretamente: o nervo rústico francês. Essa talvez seja a razão mais decisiva desse sucesso.
Montaillou, village occitan de 1294 à 1324 surgiu num momento onde os franceses e europeus discutiam, mais uma vez, as suas origens e sua natureza identidade. Nessa discussão ficava evidente o apego francês ao rústico, ao rural, à campanha. Justamente a área de especialidade de Le Roy Ladurie.
Nascido na pequena vila de Moutiers-em-Cinglais em 1929, Emmanuel Le Roy Ladurie virou doutor em História em 1967 com uma tese sobre o mundo rural do antigo regime fortemente influenciada pelos escritos do mestre Fernand Braudel. Seis anos depois ascenderia a membro do suntuoso Collège de France.
1968 seria o seu primeiro contato com o processo Bernad d’Alion. Doravante ele ficaria absolutamente apaixonado por Montaillou. Em 1971 ele inclusive produziria um documentário sobre a vila rural para a televisão francesa. Nessa época surgiu a dúvida fatal: Le Roy Ladurie titubeava entre escrever um romance ou produzir um livro de História. Acabaria fazendo um pouco dos dois. Muito de cada gênero vai contido nesse seu formidável Montaillou, village occitan de 1294 à 1324. Não ao acaso seu livro cairia no gosto literário rigoroso inclusive do futuro presidente François Mitterrand.
Após sua publicação a 5 de novembro de 1975, Montaillou, village occitan de 1294 à 1324 seria saudado pelos principais historiadores franceses da época. Entre eles Max Gallo, Pierre Chaunu, Georges Duby, Jacques Le Goff. A 5 de dezembro de 1975, Le Roy Ladurie seria o convidado especial da importante emissão literária Apostrophes de Bernard Pivot. A partir de então o sucesso Montaillou começaria a atravessar as fronteiras. Primeiro com a tradução ao português e sua consequente louvação de aceite. Depois com o reconhecimento da crítica anglo-saxônica. Robin Briggs, importante historiador inglês, chegaria a considerar Emmanuel Le Roy Ladurie de “the king of french history”. Em 1980 seria a vez da London review of books lhe dedicar uma ampla reportagem de capa.
Mesmo assim, Le Roy Ladurie e seu Montaillou não escaparia de críticas severas. Primeiro os guardiães da história local que o consideraram excessivamente sofisticado e, portanto, inautêntico na reconstituição do meio rústico e rural. Depois os medievalistas que em geral lhe conferiram o notório silêncio gelado das confrarias acadêmicas. Por fim das novas gerações de historiadores que o consideram simplesmente limitado. Mesmo assim, Montaillou, village occitan de 1294 está prestes a ganhar as telas dos cinemas. Até fins de 2015 ele vira filme. Um filme em homenagem à Montaillou e aos quarenta anos de sucesso de Montaillou, village occitan de 1294 à 1324.

Reprodução do Jornal GGN

terça-feira, 14 de abril de 2015

Morre escritor e editor francês François Maspero

Morre escritor e editor francês François Maspero

Jornalista e tradutor publicou obras de Che Guevara
O escritor e editor francês François Maspero, cuja editora publicou nos anos 1960 e 1970 várias obras contestatórias, incluindo as de Che Guevara, morreu nesse sábado aos 83 anos, indicou nesta segunda-feira a editora Le Seuil. 

Maspero também era jornalista e tradutor para o francês de inúmeros autores da Espanha e da América Latina, de Luis Sepúlveda a Arturo Perez Reverte, passando por Álvaro Mutis, César Vallejo e Eduardo Mendoza. Em 1959, fundou a editora que leva seu nome.

Neto do egiptólogo Gaston Maspero e filho do sinólogo Henri Maspero, François Maspero nasceu em Paris, em 19 de janeiro de 1932. Sua juventude foi marcada pela guerra: em 1944 seu pai morreu em Buchenwald, o campo de concentração nazista libertado há 70 anos e seu irmão foi morto na França pelos alemães. 

Em 1955, abriu uma livraria no bairro latino de Paris, onde artistas e intelectuais se reuniram com frequência. Quatro anos depois, fundou a editora Maspero, que nas duas décadas seguintes publicou textos sobre a guerra na Argélia, a revolução cubana e bras que questionavam o stalinismo, o subdesenvolvimento e o neocolonialismo.

Che Guevara, Louis Althusser, Jean-Pierre Vernant, Pierre Vidal-Naquet, Yves Lacoste, Yannis Ritsos, Tahar Ben Jelloun e Nazim Hikmet publicaram seus trabalhos na França pela editora Maspero. Em 1982, Maspero vendeu sua editora, que passou a se chamar La Découverte, dirigida por François Gèze. A partir de então, passou a se dedicar exclusivamente à literatura, publicando livros - sobretudo romances e relatos de viagens - e à tradução de autores de língua espanhola ou inglesa.
Reprodução do Correio do Povo
Comentário: somos basicamente seres ignorantes. Eu já havia lido Vernant e Naquet, mas, claro, não conhecia o editor deles na França. Havia lido parte da obra dos historiadores franceses em sua tradução ao português. Pelo jeito, um editor importante, e grande divulgador de história e filosofia, além de tradutor de autores de língua espanhola.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Jornal foi alvo por ir até as últimas consequências

ENTREVISTA - DANIEL COHN-BENDIT

Jornal foi alvo por ir até as últimas consequências

Líder do maio de 68 e próximo de vítimas se diz desemparado com 'selvageria' e critica 'fascismo' de islã radicalizado
RODRIGO VIZEUEDITOR-ASSISTENTE DE "MUNDO"

O jornal "Charlie Hebdo" foi alvo de terroristas porque "ia até o fim", afirma o ícone do Maio de 1968 francês Daniel Cohn-Bendit, 69. Hoje deputado no Parlamento Europeu, o franco-alemão Cohn-Bendit, um dos líderes do movimento estudantil dos anos 60, era amigo de alguns dos cartunistas assassinados.
Ele saudou as vítimas por sua capacidade de expor as contradições sociais e criticou o que chamou de "fascismo" do islamismo radical. Segundo o político, é preciso um combate de convencimento de muçulmanos europeus radicalizados.

Folha- Como o sr. recebe esse ataque, primeiramente de um ponto de vista pessoal?
Daniel Cohn-Bendit - Pessoalmente, é um choque terrível que esse atentado possa ter ocorrido em uma Redação de jornal em Paris. Nos sentimos totalmente desamparados diante da selvageria.

Dois deles, Cabu e Wolinski, eram próximos do sr.
Sim, nos acompanharam na maior parte de nosso percurso político. São pessoas que encontrava com frequência, com quem confraternizei, que lutavam o mesmo combate antinuclear, antimilitarista, anticlerical. Tinham a capacidade, com suas canetas e lápis, de mostrar as contradições da sociedade. Eram antinacionalistas, antinucleares, ecologistas, libertários.
É preciso entender que "Charlie Hebdo" foi alvo por ser um jornal no qual os fundadores eram anticlericais, antirreligiosos, eles iam até o fim. Jornalistas que se consideravam no espírito de 68, no senso crítico, de uma radicalização do pensamento, da rejeição da religião, do autoritarismo.

O sr. acredita que de alguma forma "Charlie Hebdo" exagerava nas piadas?
Era a concepção deles, um jornal satírico onde o exagero era parte de sua ideia. Se você diz que eles exageram, diz que eles não têm razão de ser. Estavam convencidos de que a liberdade de expressão é atacar de Cristo a Maomé. Era a concepção de liberdade deles. Pode-se achar isso babaca ou bom. Mas é parte do jogo. Uma sociedade livre é justamente aquela que suporta o excesso.

Como vê o ataque do ponto de vista político?
Creio que há no movimento islâmico terrorista e radical um momento fascista. São forças, pequenos grupos fascistas. Isso não quer dizer --e a elite política e todo mundo na França sublinhou isso bem hoje-- que se deva confundir esse fascismo que se faz em nome do islã com os muçulmanos em geral.

Como combater isso?
Existe um combate militar-policial, como contra o Estado Islâmico. Não é com boas palavras e pedindo o dia todo que você vai derrotá-lo. Além disso, na sociedade, é preciso demonstrar aos muçulmanos europeus que eles são cidadãos europeus e como tal devem combater o extremismo.


Reprodução da Folha de São Paulo

Apesar de ameaças, editor não se intimidava

Apesar de ameaças, editor não se intimidava

Depois de edição parodiando Maomé em 2011, sede do jornal foi atacada
Cartunista Stéphane Charbonnier, defensor da livre expressão, dizia viver 'sob lei francesa, não sob a do Alcorão'
DAS AGÊNCIAS DE NOTÍCIAS

O cartunista Stéphane Charbonnier, 47, diretor editorial do jornal satírico francês Charlie Hebdo que foi morto nesta quarta (7), não se deixava intimidar.
Em 2011, ele publicou uma edição paródia do jornal, em que dizia ter contado com o profeta Maomé como "editor convidado" e comemorava a vitória do partido islamista nas eleições da Tunísia. Prometia cem chibatadas a quem não achasse graça.
Logo depois, a sede do jornal foi alvo de um ataque à bomba e ficou completamente destruída. A edição seguinte à polêmica trazia na capa um muçulmano beijando um chargista.
Ao Le Monde, ele disse não ter medo de ataques. "Não tenho filhos, nem mulher, nem carro, nem crédito", disse. "Talvez soe um pouco pomposo, mas prefiro morrer em pé do que viver de joelhos."
Depois do ataque, Charb, como era conhecido, passou a contar com proteção policial. Mas defendia a liberdade de expressão e não deixou de publicar charges polêmicas. "Usar nossa liberdade em um país livre não é provocação", disse em entrevista à Folha na época. "Publicamos o desenho de Maomé para zombar da sharia."
Em 2012, Charbonnier ignorou advertências do governo francês e publicou charges que mostravam Maomé nu e em poses pornográficas.
"Será que é razoável jogar lenha na fogueira", perguntou Laurent Fabius, chanceler francês na época, ao fechar embaixadas francesas em mais de 20 países, diante dos protestos de muçulmanos.
"Maomé não é sagrado para mim", ele disse. "Eu vivo sob a lei francesa, não sob a lei do Alcorão."
O Charlie Hebdo foi fundado em 1970 depois que a publicação Hara-Kiri, onde os cartunistas Georges Wolinski e Jean Cabut trabalhavam, fechou em meio a críticas por ter satirizado a morte de Charles de Gaulle.
A equipe fundou o Charlie Hebdo, ou Semanário Charlie, em referência à sua publicação das tirinhas do Charlie Brown.
Charb trabalhou no jornal por mais de 20 anos. Nesse período, o Charlie não poupou ninguém: teve capas com o papa Bento XVI abraçando romanticamente um guarda do Vaticano e um judeu ortodoxo beijando um soldado nazista.
Um cartum recente que ele desenhou parece profético. Retrata um homem usando a vestimenta típica de extremistas islâmicos, com uma cara muito infeliz, e os dizeres: "Ainda nenhum ataque na França". No balãozinho, uma frase do extremista: "Calma, ainda tenho até o fim de janeiro para fazer meus desejos de ano novo.


Reprodução da Folha de São Paulo

Semanário sempre ironizou qualquer tipo de instituição


Semanário sempre ironizou qualquer tipo de instituição

'Charlie Hebdo' implicava com quase tudo, do comunismo à extrema direita e ao islã
JOÃO BATISTA NATALICOLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Em novembro de 1970, morria aos quase 80 anos o general Charles de Gaulle, estadista e ex-dirigente da Resistência à ocupação alemã. Ele se retirara, aposentado, a uma pequena aldeia da Normandia, Colombey-les-Deux-Églises. O jornal satírico "Hara-Kiri" estampou em manchete: "Baile Trágico em Colombey: um Morto".
A publicação foi proibida de circular pelo então ministro do Interior, o gaullista conservador Raymond Marcellin, com o aval do então presidente Georges Pompidou, também gaullista.
Os jornalistas e cartunistas do jornal decidiram contornar a proibição e lançaram o "Charlie Hebdo", versão semanal ("hébdomadaire", em francês) do mensal "Charlie", que mantinham em homenagem a Charlie Brown, personagem de histórias em quadrinho doamericano Charles Schulz (1922-2000).
Mas em verdade o "Charlie Hebdo" era bem mais que um veículo de humor negro. Criou e ampliou na mídia francesa um espaço editorial que se definia como libertário, como uma casamata que protegia uma constelação diversificada dos pensamentos da esquerda não oficial.
Implicava com o catolicismo conservador, com o Partido Comunista, com a hierarquia judaica, com a extrema direita e com o terrorismo islâmico. Por mais que nunca tenha sido um jornal de ampla circulação, era por meio dele que sobrevivia, na mídia, o pensamento criativo nascido nas barricadas estudantis de Maio de 1968.
No "Charlie Hebdo" se formou e cresceu o melhor do cartunismo francês. Passaram ou saíram do jornal nomes como Cabu, Wolinski, mortos no atentado, Gébé, Reiser, Cavanna ou Siné.
Um dos pressupostos editoriais estava no fato de que simplesmente não prestava aquilo que era institucionalmente sério, em termos de política ou de costumes.
Um exemplo: há muitos anos a direita francesa defendeu a tese de que a imigração tinha um "teto" de convivência possível. O "Charlie Hebdo" produziu e publicou fotos em que uma francesa aparecia na mesma cama com três africanos, com a legenda: "O teto foi alcançado".
O "Charlie Hebdo" não escapava facilmente da reputação de ser um jornal de pessoas mais velhas, que concebiam sempre do mesmo jeito o que seria uma reação libertária. Mais que previsível, então, ter publicado imagens de Maomé, que em 2006 provocaram protestos em massa no mundo muçulmano.
Mas já não havia mais o mesmo vigor juvenil de 1969, quando François Cavanna criou o pequeno grupo editorial, que sobreviveu a crises internas e ao declínio na circulação de exemplares.


Reprodução da Folha de São Paulo

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Sem-teto da França aumentam e se veem em condições mais difíceis que em 2001

Em seu relatório "Um retrato social da França", publicado na quarta-feira (19), o Instituto Nacional de Estatísticas e Estudos Econômicos (Insee), registrou para 2012 o número de 81 mil adultos e 31 mil crianças como pessoas sem domicílio fixo. São 44% a mais do que onze anos atrás. Nem todas essas pessoas ficam nas ruas, mas elas não dispõem de uma moradia pessoal. Na verdade, somente 10% dormem na rua e 90% são abrigadas, seja em alojamento fornecido por alguma organização (29%), seja em um abrigo (33%) ou um albergue que deve ser deixado pela manhã (12%) ou ainda em hotéis (16%), cujo custo costuma ser coberto por alguma ONG.
O sistema social de abrigamento até melhorou entre 2001 e 2012, em parte graças à lei sobre o direito de moradia oponível de 5 de março de 2007, por iniciativa de Christine Boutin. A porcentagem de pessoas abrigadas em albergues que precisam deixá-los pela manhã sem a segurança de encontrar um lugar à noite caiu 4 pontos, em prol de quartos de hotéis (+8 pontos), um modo de abrigamento que pode ser precário, mas ainda assim é mais estável que o albergue.
Os sem-domicílio-fixo (SDF) vivem em sua maior parte na área metropolitana parisiense: 44% dos SDF e 55% dos imigrantes vivem em Paris e periferia, uma vez que a capital continua sendo um ponto de entrada. As condições de moradia ali são mais difíceis que no interior, sendo o hotel a forma mais frequente de abrigo. Quatorze por cento dos SDF parisienses estão nas ruas, contra 8% em outras cidades.

Estrangeiros mais frequentemente em família

O instituto distingue dois perfis bastante diferentes entre os SDF. Os estrangeiros, ou aqueles que nasceram fora da França (56% dos SDF) são originários do Magrebe (23%), da África (35%) – em sua maior parte francófonos – ou do Leste Europeu – Romênia, Bulgária, Polônia - , dos quais 70% não falam francês. São eles que costumam vir acompanhados de crianças (40% dos casos) e as mulheres são mais numerosas. Também são eles que dormem com mais frequência na rua. O estudo indica que o número de SDFs não francófonos subiu 34% entre 2001 e 2012 e especialmente na região metropolitana de Paris, com um salto de 84%.
Quarenta e quatro por cento dos SDF são franceses, ou seja, 36 mil pessoas. Essa população é composta em sua maior parte por homens sozinhos. Quase um de cada dois deles (43%) jamais teve moradia pessoal, ou a perdeu em decorrência de problemas financeiros, despejo ou demissão (30%), motivos mais frequentes em 2012 do que em 2001. Entre outros motivos, estão as dificuldades familiares (separação, morte do cônjuge, às vezes violência conjugal), que atingem 35%. É, aliás, o que chama a atenção nos perfis traçados pelo Insee: "Ao olhar mais longe em seu passado, constata-se que os SDF muitas vezes tiveram uma infância marcada por histórias familiares dolorosas, sendo que um quarto deles quando crianças foram enviados para orfanatos ou famílias adotivas", escrevem os autores do estudo. Vinte por cento delas sofreram violência familiar.
Os SDF não rompem totalmente com suas famílias, mantendo contatos pouco frequentes com seus parentes, mas veem amigos e 80% deles têm um telefone celular, um índice próximo do da população geral (89%). Em compensação, eles usam muito menos a internet.
Outro fato marcante é que, enquanto um terço dos SDFs vive com menos de 300 euros por mês, um em cada quatro trabalha, ou seja, 3% a menos que em 2001, e para metade deles seus recursos chegam a cerca de 900 euros por mês.

Reportagem de Isabelle Rey-Lefebvre, para o Le Monde, reproduzida no UOL

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Nepotismo e número excessivo de políticos

Desde os gregos que a comparação é um exercício de civilização.
Estou em Paris como professor visitante na Sorbonne.
Atualizo comparações.
O cego ideológico só vê a corrupção do adversário.
O deslumbrado idealiza o estrangeiro.
Toda a corrupção deve ser denunciada.
O sistema em que se insere deve ser explicitado.
Muita gente acha que tem senador demais no Brasil.
São 81 senadores e 513 deputados numa população de 200 milhões de habitantes.
A França tem pouco mais de 65 milhões de habitantes e 348 senadores e 577 deputados.
Os senadores são eleitos pelos chamados “grandes eleitores” – prefeitos e outros privilegiados – por seis anos.
Um senador ganha mais de 13 mil euros por mês e ainda pode acumular outro mandato.
Viaja em primeira classe na SNCF sem pagar. Tem cinco linhas telefônicas gratuitas e verba para contratar assessores.
O mesmo vale para os deputados, que ganham mais de 12 mil euros por mês.
Não existe lei contra o nepotismo. Senadores e deputados contratam seus parentes.
Quando questionados, respondem furiosamente:
– Não existe nada mais importante na França com o que se preocupar?
Ou, como certos juízes faziam no Brasil, falam cinicamente:
– São cargos de confiança.  Ninguém mais confiável do que meu filho.
É impossível divulgar todos os dados referentes aos ganhos dos agentes públicos.
Uma lei de transparência, como a brasileira, é considerada inconstitucional por atentar contra o direito à privacidade.
Só na Europa mesmo.

Corrupção e jogo sujo por baixo dos panos

Corrupção, corrupção, corrupção.
Depois do escândalo chamado Bigmalyon, vulgo financiamento ilícito da campanha de Nicolas Sarkozy, o ex-primeiro ministro Françøis Fillon, do partido de Sarkozy, com quem disputa a presidência da UMP e direito de ser candidato a chefe da nação, em 2017, teve uma conversa com um assessor do inimigo, François Hollande, para pedir que a justiça seja mais severa com seu antigo chefe. Entenderam? Fillon pede a Hollande para ferrar Sarkzoy. Pode isso, Arnaldo?
Que deu na direita francesa? Quer todos os escândalos para ela?
A situação é grave. Nunca se viu tanta corrupção. O novo caso envolve um empresário de primeira grandeza, senador e dono de um importante jornalão de direita, dinheiro para compra de votos (em torno R$ 150 milhões), um contador fiel e capaz de levar e trazer dinheiro de contas no exterior, especialmente na Suíça e no Liechtenstein, um transportador da bufunfa, apelidado de “carregador de malas”, e uma operação complexa envolvendo sacos de dinheiro depositados no canto de um escritório situado na mais charmosa e dinâmica avenida do país.
A nação está paralisada com as revelações. A mídia só fala disso. A lavagem de dinheiro deu-se entre 1995 e 2012.
O advogado do empresário alega que os fatos já prescreveram. Pego com a boca no botija, o contador aceitou entregar tudo para tentar aliviar a sua pena.
– Os sacos plásticos de dinheiro eram colocados no canto do escritório e a gente falada de apenas de outras coisas.
O senador empresário, cujo esquema de votos acaba de ser desmantelado, é conhecido por sua língua virulenta. Moralista, defensor de uma justiça rigorosa com os malfeitores, apologista da tolerância zero com os corruptos, sempre se elegeu como apóstolo dos bons costumes e crítico do excesso de Estado na vida das pessoas. Jamais perdeu oportunidade de atacar os trabalhadores preguiçosos que vivem do assistencialismo estatal e os políticos que não cuidam das finanças públicas.
Para ele, governar é cortar gastos e demitir.
Eta, Brasil! Será o José Sarney? Será o Renan Calheiros? Não, leitor, não é o Brasil nem nossos impolutos senadores. É a França. O empresário chama-se Serge Dassault, dono do jornal “Le Figaro”, senador da República, sexta fortuna do país, prefeito de Corbeil até 2009 e figura exponencial do combate ao socialismo e a todas as formas de intervenção do Estado na economia. O seu contador, que agora usufrui das instalações carcerárias francesas, chama-se Gérard Limat e apresenta-se como um homem discreto. O dinheiro para compra de votos chegava pelas suas mãos a um escritório chique da portentosa avenida dos Champs-Élysées. Ele fez 33 entregas de grana líquida e sonante para comprar votos.
A direita brasileira precisa reagir. Não é possível que um francês venha desconstituir a ideia de que só tem corrupção no Brasil. Ainda mais com métodos equivalentes e para fins semelhantes. O que nos diferencia é a incapacidade francesa para dar um bom nome ao escândalo. Nem mensalão nem petrolão. Nadinha. Só “Caso Dassault”. Que pobrinho! Dassault especializou-se em laranjas. O esquema furou quando um banco se recusou a repassar dinheiro para a conta de um laranja condenado à prisão.
É o terceiro grande escândalo de corrupção em menos de um ano na França.
O ex-presidente Nicolas Sarkozy está atolado num deles. Os franceses sussurram pelos cafés:
– Será que algum dia nós teremos, enfim, a coragem de botar um ex-presidente da República na cadeia?
Na França, a gente se sente em casa. Basta abrir os jornais para encontrar as mesmas denúncias e a mesma atmosfera de corrupção. A única diferença é a modéstia francesa. Eles não acham que isso só acontece com eles.
Mas tem direito de clube de futebol, de Marselha, em prisão preventiva por causa de malfeitos na venda de jogadores.
E tem uma investigação sobre resultados arranjados de jogos.
Que é isso? Será que nunca houve tanta corrupção na França como agora?

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Ascensão do antissemitismo na França faz crescer imigração para Israel

O governo francês está preocupado. Acredita que há surtos inaceitáveis de antissemitismo. O presidente François Hollande, o primeiro-ministro Manoel Valls e o ministro do Interior, Bernard Cazeneuve, lançaram alertas nestas semanas de maneira reiterada. Valls reagiu duramente no final de agosto ao ataque a sinagogas e contra o que não se ouvia há décadas nas ruas de Paris: "Morte aos judeus". A guerra de Gaza exaltou os ânimos, e o medo está instalado entre as comunidades judaicas europeias.

"Minha amiga acaba de partir com toda a família. Agrediram na rua seu pai de 80 anos, e ela disse: 'Agora chega'", conta a "El País" um judeu de Paris que prefere manter o anonimato.
Joël Mergui, presidente do Consistório Israelita da França, não duvida de que haja um antissemitismo crescente e um certo ataque à liberdade religiosa, que projeta dúvidas sobre o futuro nesse país. "Muitos consideram que este não é mais seu lugar", afirma Roger Cukierman, presidente do Conselho Representativo das Instituições Judaicas da França. Philip Carmel, conselheiro do Congresso Judaico Europeu, afirma: "Os que partem são apenas 1%. Para 99%, o país oferece um futuro."
Na França, que tem a maior comunidade judaica do continente (600 mil cidadãos), as expatriações com destino a Israel dispararam, transformando-a no país que mais cidadãos enviou este ano. Em 2012, apenas 2.000 judeus franceses partiram para Israel. Já em 2013, eles aumentaram para 3.280. Nos oito primeiros meses deste ano, foram 4.566, segundo o Ministério Israelense da Integração, quase o dobro dos que partiram da Rússia ou dos Estados Unidos.
A última pesquisa da Agência de Direitos Fundamentais da UE (União Europeia), realizada em novembro passado, concluiu que 76% dos judeus europeus acreditam que a situação se agravou nos últimos cinco anos. Um em cada três sofreu agressão física. Os insultos, o assédio e a violência não são fatos isolados, nem na França.
A crise econômica é sem dúvida uma razão fundamental da fuga. "O futuro é incerto, e sobretudo os jovens querem se desenvolver profissionalmente", diz Zvi Tal, ministro plenipotenciário da embaixada de Israel em Paris. Em algumas reportagens audiovisuais realizadas em Israel pela mídia francesa nesses dias, boa parte das famílias interpeladas reconhece que o antissemitismo também as animou a partir.
A internet favoreceu a desinibição na divulgação de mensagens antissemitas, concordam as fontes consultadas em Paris. O governo de Hollande, muito criticado neste verão por proibir dois protestos violentos nos quais houve gritos antissionistas e antissemitas, está analisando como controlar o fenômeno digital junto com Israel.
Mas seu maior temor são o jihadismo e os combatentes europeus que regressam da Síria radicalizados. Mais de 800 franceses se envolveram no conflito e alguns já são tristemente famosos por seus atos terroristas. Mehdi Nemmouche, francês de 29 anos, matou em maio quatro pessoas no Museu Judaico de Bruxelas. Agora se sabe que ele foi o carcereiro do Estado Islâmico de quatro jornalistas franceses libertados em abril.
Nemmouche, já extraditado para a Bélgica, é, segundo seus antigos reféns, um homem muito violento e antissemita, que prometia "arrastar pelas tranças os pequenos judeus" antes de matá-los. Seu herói é Mohamed Merah, outro ex-combatente francês, que supostamente matou sete pessoas há dois anos em Toulouse, entre elas um professor e três crianças de uma escola judaica.
A comunidade muçulmana francesa soma 6 milhões de pessoas. "É uma pena que, em vez de aproveitar a convivência entre comunidades tão grandes para estabelecer um diálogo na Europa, só se tenha conseguido estender para cá o conflito no Oriente Médio", diz com pesar Rivon Krygier, um rabino em Paris.

Reportagem de Gabriela Cañas, para o El País, reproduzido no UOL. Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Jornalistas são condenadas por foto de suposta amante de Hollande

Duas jornalistas da revista francesa "Closer" foram condenadas nesta terça (2) a pagar uma multa pela publicação, em janeiro, de uma foto da atriz Julie Gayet, pouco depois da revelação de seu suposto relacionamento com o presidente François Hollande
Laurence Pieau, diretora de redação da revista, e Carmine Perna, diretora geral da Mondadori Magazines France, a editora da publicação, foram condenadas a pagar multas de € 3 mil (R$ 8,8 mil) por um tribunal de Nanterre, perto de Paris. O paparazzi Laurent Viers foi considerado o autor da fotografia e condenado a uma multa de € 1.000 (R$ 2,95 mil)
Em 17 de janeiro, a Closer publicou uma foto de Gayet quando, segundo a revista, ela seguia para encontrar Hollande. A atriz de 42 anos, que se considerava "perseguida" desde a revelação do relacionamento, fez uma denúncia.
Ela identificou Laurent Viers como autor da foto. "Não conseguia me livrar dele", disse.


Reprodução da Folha de São Paulo