Mostrando postagens com marcador guerra. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador guerra. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 21 de novembro de 2023

Guerra transforma Gaza em cemitério para crianças


Descalço e chorando, Khaled Joudeh, de 9 anos, corre em direção às dezenas de corpos envoltos em lençóis brancos, cobertores e tapetes do lado de fora da necrotério superlotado em Deir al-Balah, na Faixa de Gaza.

"Onde está minha mãe? Eu quero ver minha mãe", chora ele. "Onde está Khalil?" continua, entre soluços, enquanto pergunta pelo seu irmão de 12 anos. Um funcionário, então, abre um sudário branco para que Khaled possa beijar seu irmão pela última vez.

Depois, ele se despede de sua irmã de 8 meses. Outro lençol é puxado e revela o rosto ensanguentado de uma bebê. Khaled começa a soluçar novamente ao identificá-la para a equipe do hospital. Seu nome era Misk, almíscar em árabe.

"Mamãe estava tão feliz quando teve você", sussurra ele, tocando gentilmente a testa da bebê enquanto lágrimas escorrem do seu rosto para o dela.

Khaled se despediu de sua mãe, seu pai, seu irmão mais velho e sua irmã —os corpos de todos eles alinhados ao seu redor. Apenas ele e seu irmão mais novo, Tamer, de 7 anos, sobreviveram ao que parentes e jornalistas locais disseram ter sido um ataque aéreo em 22 de outubro que derrubou dois prédios onde sua família estendida se abrigava.

Um total de 68 membros da família foram mortos naquele dia enquanto dormiam em suas camas em Deir al-Balah, no centro da Faixa de Gaza, relataram três parentes de Khaled. Segundo os familiares, vários ramos e gerações dos Joudehs estavam se reunindo antes do ataque, incluindo alguns que haviam fugido do norte de Gaza, conforme Israel havia ordenado aos moradores. O exército israelense diz que não pode responder a perguntas sobre o bombardeio.

Os membros da família foram enterrados juntos, lado a lado, em uma longa sepultura, disseram parentes.

Gaza, adverte a ONU, tornou-se "um cemitério para milhares de crianças". Autoridades de saúde no território afirmam que 5.000 crianças palestinas foram mortas desde o início dos ataques israelense. Muitos funcionários internacionais e especialistas familiarizados com a forma como os números de mortos são compilados em Gaza dizem que os números são geralmente confiáveis.

Se estiverem realmente precisos, mais crianças foram mortas em Gaza nas últimas seis semanas do que as 2.985 crianças mortas nas principais zonas de conflito do mundo combinadas, em duas dezenas de países, durante todo o ano passado, de acordo com contagens verificadas de mortes em conflitos armados da ONU.

O exército israelense afirma que, diferentemente do "ataque assassino contra mulheres, crianças, idosos e deficientes" promovido pelo Hamas em 7 de outubro, as forças israelenses tomam "todas as precauções viáveis" para "mitigar danos" a civis.

Mas o ritmo furioso dos bombardeios —mais de 15 mil até o momento, segundo o exército israelense, incluindo no sul de Gaza também— torna a campanha aérea israelense no território palestino uma das mais intensas do século 21. E está acontecendo em um território urbano denso e sob cerco, com alta concentração de civis.

Depois de questionar inicialmente o número de mortos relatado pelas autoridades de saúde em Gaza, a administração Biden agora diz que "muitos" palestinos foram mortos, admitindo que os números reais de vítimas civis podem ser "ainda maiores do que estão sendo citados".

Na sala de emergência do Hospital Al-Shifa, na Cidade de Gaza, o doutor Ghassan Abu-Sittah diz que muitas crianças foram trazidas de escombros sozinhas e em estado de choque, com queimaduras, ferimentos por estilhaços ou lesões graves causadas por esmagamento. Em muitos casos, segundo ele, ninguém sabia quem eram.

"Elas recebem uma designação —'Criança traumatizada desacompanhada'— até que alguém os reconheça", diz ele. "A coisa paralisante é que alguns deles são os únicos sobreviventes de suas famílias, então ninguém nunca vem", continua. "Cada vez mais, parece uma guerra contra crianças."

O exército israelense afirma que "lamenta qualquer dano causado a civis (especialmente crianças)", e acrescenta que está examinando "todas as suas operações" para garantir que elas sigam suas próprias regras e cumpram o direito internacional.

Um número crescente de grupos de direitos humanos e autoridades, porém, argumenta que Israel já violou essa lei.

Depois de condenar os ataques "hediondos, brutais e chocantes" do Hamas como crimes de guerra, Volker Türk, alto comissário da ONU para os direitos humanos, disse neste mês que "a punição coletiva de Israel aos civis palestinos também equivale a um crime de guerra, assim como a evacuação forçada ilegal de civis".

"Os bombardeios massivos de Israel mataram, mutilaram e feriram especialmente mulheres e crianças", acrescentou. "Tudo isso tem um preço insuportável."

Muitas crianças estão mostrando sinais claros de trauma, incluindo terrores noturnos, afirma Nida Zaeem, uma oficial de saúde mental do Comitê Internacional da Cruz Vermelha em Gaza.

"Eles acordam gritando e chorando", diz Zaeem de um abrigo da Cruz Vermelha, em Rafah. Todas as noites, acrescenta, as crianças no abrigo acordam gritando: "Vamos morrer, vamos morrer". "Eles gritam, imploram: 'Por favor, me proteja, por favor, me esconda. Eu não quero morrer'", conta ela.

Gaza, uma faixa costeira no Mediterrâneo, costumava ter uma cultura de praia animada. Yasser Abou Ishaq, 34, lembra como costumava ensinar suas três filhas pequenas a nadar. "Elas sempre me pediam para ir à praia, ao parque de diversões, aos parques", conta ele. "Eu adorava vê-las brincar."

Amal, a mais velha, de 7 anos, foi nomeada em homenagem à sua mãe. Na escola, ela era uma boa aluna com uma caligrafia excelente, lembra ele. Em casa, ela se tornava a professora que fazia sua irmã mais nova, Israa, de 4 anos, que adorava chocolate e brinquedos Kinder, brincar de ser sua aluna.

Ele conta que, quando sua casa foi destruída por um ataque aéreo, perdeu ambas, além de sua mulher. No total, 25 membros de sua família, 15 deles crianças, foram mortos, diz ele. O exército israelense afirma que não pode responder a perguntas sobre o ataque.

Abou Ishaq conta que ele e sua filha de 1 ano, Habiba, foram feridos e levados para o hospital. A maioria de sua família, incluindo sua esposa e sua outra filha, foi retirada dos escombros no mesmo dia e enterrada por parentes, enquanto ele ainda estava sendo tratado.

No dia seguinte, o corpo de Israa foi retirado dos escombros, diz ele. Abou Ishaq conseguiu vê-la na sala do hospital e segurá-la pela última vez. "Eu a abracei e beijei. Me despedi e chorei", diz ele. "Só Deus sabe o quanto eu chorei."


Reportagem de Raja Abdulrahim, Samar Abu Elouf e Yousef Masoud para o New York Times, reproduzida na Folha de São Paulo

domingo, 1 de outubro de 2023

Ucranianos morrem para satisfazer elite americana pró-guerra


Há mais de 70 anos, as guerras travadas pelos EUA seguem um mesmo padrão: cada vez que uma nova guerra é proposta, o bombardeio de propaganda midiática e estatal é tão grande que a maioria do público se une em apoio.

Inevitavelmente, esse apoio vai se erodindo. Enquanto o conflito se arrasta, as promessas vão deixando de ser cumpridas e as previsões de uma vitória fácil são desmentidas pela realidade; a população começa a perceber que a guerra foi um erro, repensa o apoio e começa a exigir o seu fim.

Assim foi no Vietnã, no Iraque, no Afeganistão, na Síria e na Líbia. Aos poucos, esse padrão lamentável se repete na Ucrânia. Enquanto um terço da população americana se dizia favorável a apoiar a Ucrânia nos meses seguintes à invasão russa, uma pesquisa recentemente realizada pela CNN traz um cenário diferente: "Maioria dos americanos são contra mais ajuda à Ucrânia na guerra com a Rússia".

Já o presidente Joe Biden segue comprometido com a manutenção do envolvimento dos EUA no conflito, tendo em agosto solicitado ao Congresso o envio de um novo pacote de US$ 24 bilhões —além dos mais de US$ 100 bilhões que os EUA já empenharam na manutenção desse conflito.

A participação no conflito na Ucrânia também obedece a outro padrão histórico nos EUA a respeito de guerras: não há diferença nenhuma entre os establishments republicano e democrata.

Todos os democratas —desde Bernie Sanders, senador independente de Vermont, à congressista "de esquerda" Alexandria Ocasio-Cortez, de Nova York— vêm sendo unânimes em seu apoio à política de Biden de envio de bilhões e bilhões de dólares para fabricantes de armas como Raytheon e Boeing (o chamado complexo industrial-militar), para a CIA e para o notoriamente corrupto sistema político ucraniano.

O mesmo é verdade quando se trata dos setores tradicionais do Partido Republicano, que vem apoiando Biden de forma igualmente fervorosa, postura que pode ser exemplificada pelo líder do Senado, Mitch McConnell, político conservador tradicional e histórico no partido. Não se ouve nenhuma sinalização, por superficial que seja, no sentido de resolver o conflito diplomaticamente.

Mas, se é possível identificar a repetição de velhas dinâmicas, há desta vez uma novidade: o surgimento de uma ala populista e, ao menos pretensamente, antiguerra no Partido Republicano, liderada pelo ex-presidente Donald Trump, que vem sendo o único setor na política dos EUA a se colocar contra esse conflito desde o princípio.

Cerca de 70 republicanos, na Câmara e no Senado —de modo geral, os que se colocam como alinhados a Trump— vêm manifestando sua oposição ao envolvimento na guerra, um número que só deve crescer à medida que mais e mais americanos comecem a se opor ao envio de mais recursos.

Essa estranha dinâmica política dos EUA pode ser vista no posicionamento dos candidatos presidenciais. Dois dos candidatos concorrendo à esquerda de Biden se opõem veementemente ao envio de mais armamentos e recursos para a Ucrânia: o desafiante democrata Robert F. Kennedy Jr. e o ativista e candidato independente Cornel West.

Por outro lado, os candidatos republicanos tradicionais, como o antigo vice de Trump, Mike Pence, e a governadora e ex-embaixadora na ONU Nikki Haley, apoiam fervorosamente a política de Biden.

Não é só na opinião pública que se pode perceber mudanças: a realidade da guerra em si mudou radicalmente desde a invasão russa. Desde o início de 2023, cerca de 20% do território ucraniano vem sendo ocupado pela Rússia, inclusive a península da Crimeia, ocupada pela Rússia desde 2014.

Para manter o apoio da opinião pública nos EUA e na Europa, "especialistas" insistiram que os ucranianos provavelmente reconquistariam grande parte de seu território neste ano. Porém, o que se vê é o oposto: "as linhas de frente na Ucrânia não mudaram quase nada no último inverno", reporta o New York Times, acrescentando que, "apesar de nove meses de conflito sangrento, menos de 1.300 km2 de território mudaram de lado desde o início do ano".

Enquanto o Ocidente estava soterrado em propaganda inspiradora sobre os bravos ucranianos ansiosos por lutar por sua liberdade, mais e mais homens ucranianos vêm tentando fugir do país desesperadamente para evitar uma guerra em que sabem que podem ser mortos.

O presidente do país, Volodimir Zelenski, luta não com um exército de voluntários, mas com um exército de conscritos. Ou seja: dezenas de milhares de jovens ucranianos que nunca quiseram participar da guerra foram mortos só neste ano em troca de nenhum benefício estratégico.

Os apoiadores da guerra nos EUA já nem se preocupam mais em fingir que essa é uma guerra virtuosa, visando defender a democracia: já se fala, cada vez mais abertamente, que a Ucrânia não está sendo salva, mas destruída, mas que isso deve ser apoiado assim mesmo porque ajuda no objetivo de enfraquecer a Rússia.

Em outras palavras, essa guerra é igual a todas as outras em sua dimensão mais importante: uma quantidade enorme de pessoas sem nenhum poder é levada a lutar e morrer, tudo para satisfazer os objetivos de uma parcela mínima das elites americanas, para quem a quantidade de mortos e os rastros de destruição não passam de uma nota de rodapé inconveniente.


Texto de Glenn Greenwald na Folha de São Paulo

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Cuidado com seus projetos


Previsões e planos, duas coisas comuns nesta época do ano, costumam sofrer depressa o desmentido dos fatos. Raras vezes esse desmentido foi tão brutal, contudo, quanto na Primeira Grande Guerra, cujo início faz cem anos agora em 2014.
Comecei a ler um pouco sobre o assunto, para depois resenhar os livros que estão programados para a efeméride. Pelo que andei vendo, um bom ponto de partida é o estudo de Barbara Tuchman, publicado pela primeira vez em 1962.
Chama-se "The Guns of August" e representou uma virada nas interpretações sobre o período. Ela relativiza, por exemplo, a importância do famoso assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando em Sarajevo --tantas vezes mencionado, numa síntese que nunca explica muita coisa, como sendo o "estopim" da Primeira Guerra.
A autora de "A Marcha da Insensatez" (Bestbolso) dá ênfase a toda a verdadeira máquina infernal de preparativos militares, tanto da Alemanha como das demais potências, que tornava qualquer ameaça de conflito praticamente impossível de reverter. Na narrativa de Tuchman, planos desse tipo se chocam com as previsões, que eram muitas também. Como em todo ano novo, 1914 encenou dramaticamente a ironia entre o que se quer que aconteça e o que se pensa que vai acontecer.
Nunca entendi por que o famoso filme de Jean Renoir sobre a Primeira Guerra se chamava "A Grande Ilusão". Que ilusão? A de que pessoas de diferentes nações são diferentes entre si? A de que a amizade entre um alemão e um francês pode superar rivalidades? A ilusão é a paz? Ou a ilusão é a guerra?
Graças ao livro de Tuchman, aprendi que "A Grande Ilusão" é o título de um estudo escrito pelo inglês Norman Angell (1872-1967). A obra fez sensação na "belle époque".
Demonstrava-se, ali, a improbabilidade absoluta de uma nova guerra europeia. Os recursos técnicos e humanos à disposição de cada país eram tão vastos que qualquer conflito seria suicídio: mesmo a nação vitoriosa emergiria dele totalmente arruinada e destruída. Num mundo interessado no lucro, quem apostaria em prejuízos de tal monta?
O livro saiu em 1910. Ninguém menos do que o chefe do Conselho de Guerra do Império Britânico, Lord Esher, entusiasmou-se com a tese e tratou de divulgá-la em palestras e cursos. Uma das figuras máximas do militarismo alemão, o marechal Von Moltke (1800-1891), já enunciara ideias semelhantes. As guerras por vir jamais seriam curtas, e o seu preço, mesmo para o país vencedor, seria catastrófico.
Enquanto as previsões iam nessa toada, os planos caminhavam em sentido contrário. Ou melhor: levando em conta os mesmos fatos, conduziam a uma conclusão oposta.
Sabendo-se que todas as potências eram fortíssimas, e que uma guerra longa e custosa poderia acontecer, o único método para garantir a vitória consistiria em atacar de uma vez, o mais cedo possível...
Beneficiando-se de uma ofensiva-surpresa, que passasse por cima da Bélgica, tão fraca e tão neutra, os alemães contavam chegar a Paris em questão de semanas. Do lado francês, o Estado-Maior concluía, em 1913, que "só a ofensiva conta".
Estabelecido o dogma militar, parece pesar pouco a vontade dos participantes no momento em que o drama se aproxima. Esta, pelo menos, é a interpretação de Barbara Tuchman, que narra um episódio arrepiante com o Kaiser alemão.
Não se tratava, evidentemente, de nenhum pacifista. Mas a guerra entre Alemanha e Rússia já estava declarada, e era do interesse de qualquer estrategista evitar que França e Inglaterra entrassem no conflito. Para os alemães, sempre seria um pesadelo dar conta de duas frentes --a do Oeste e a do Leste-- ao mesmo tempo.
Surge uma chance. Eram cinco horas da tarde do dia 1º de agosto de 1914 quando aparece, em Berlim, um telegrama em código informando que os ingleses estavam dispostos a manter-se neutros na guerra, caso os alemães se comprometessem a não atacar a França.
Mas todos os planos para o ataque já estavam em movimento. O Kaiser hesita: e se for um blefe? E se os franceses atacarem antes do mesmo jeito? Conversa com seu chefe de Estado-Maior.
Moltke, o Jovem (sobrinho daquele marechal do mesmo nome que previa ruína e exaustão para os vencedores), já não tinha paciência para com os palpites do imperador. Como se lê em "Os Três Imperadores", de Miranda Carter (Objetiva), Guilherme 2º desde cedo manifestava grande vaidade intelectual, achava que entendia de tudo.
Moltke chorou ao ver aquelas tentativas apaziguadoras do Kaiser. Era hora de deixar a guerra para os militares, que entendiam do assunto. Assim foi feito.
Previsões e planos para 2014? Por vezes, não fazer nada já é uma iniciativa e tanto.


Texto de Marcelo Coelho na Folha de São Paulo

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Esperanças alemãs para centenário da 1ª Guerra Mundial podem ser frustradas


Tyne Cot é o maior cemitério de guerra britânico e da Comunidade Britânica, com 11.956 sepulturas, 8.369 delas com combatentes não identificados. Muitos dos homens aqui enterrados foram mortos na batalha de Passchendaele que ocorreu sob chuva, em 1917, quando a área em torno de Ypres tornou-se um lamaçal fedorento, e os homens feridos escorregavam das estruturas de madeira e desapareciam na lama.
Os soldados enterrados em Tyne Cot não descansaram em paz neste ano. Trabalhadores equipados com geradores rugindo e ferramentas pneumáticas de gravação remarcaram e substituíram milhares de lápides aqui e em cemitérios britânicos na Bélgica e na França, em preparação para o esperado aumento no número de visitantes por ocasião do centenário do início da Primeira Guerra Mundial no ano que vem.
"Nossos cemitérios e memoriais são lugares muito fortes, especialmente para os jovens", disse Peter Francis, porta-voz da Comissão de Sepulturas de Guerra da Comunidade Britânica. "Com a chegada do centenário, queremos garantir que nossos locais de visitação estejam prontos para todo esse período de quatro anos".
O mundo está se preparando para comemorar o início da guerra que moldou o século passado, matou 16 milhões de pessoas e tornou-se sinônimo de perda inútil de vida e o início da guerra industrial, onde o indivíduo não era nada diante da artilharia, metralhadoras, gás venenoso, lança-chamas, tanques e lama.
Mas as esperanças de que o centenário vai resultar em uma memória verdadeiramente conjunta da guerra podem ser frustradas. Cada nação está preocupada com suas próprias cerimônias, e a Alemanha atualmente não tem nenhum plano firmado.
O Reino Unido anunciou um programa de 50 milhões de libras (em torno de R$ 170 milhões) em eventos para marcar o centenário de momentos históricos, incluindo a Batalha do Somme em 1916, a Batalha naval de Jutland em 1916 e o armistício de 1918. A Austrália está gastando uma quantia similar. A França, cortada pela maior parte dos 700 km da Frente Ocidental, está realizando uma série de projetos e exposições e, em 2011, abriu o Museu da Grande Guerra, em Meaux, perto de Paris, com um investimento de $ 28 milhões de euros.

Poucos preparativos na Alemanha

Na Alemanha, os preparativos estão muito mais discretos. O governo ainda tem que firmar seus planos. "Estamos em contato com nossos parceiros para coordenar as atividades de comemoração", disse uma autoridade do governo alemão ao "Spiegel Online".
"Dada a natureza global e a natureza complexa do evento que ocorreu há um século, há em cada país uma diversidade de experiências e sentimentos", acrescentou a autoridade. "Cada nação tem o direito a sua própria abordagem. No entanto, percebemos uma grande vontade e empenho de fortalecer as pontes entre os nossos povos, por ocasião do centenário".
A Universidade Livre de Berlim e a Biblioteca Estadual da Baviera lançaram o maior projeto de pesquisa internacional sobre a guerra, e o Museu Histórico Alemão em Berlim está planejando uma grande exposição no próximo ano. Mas o país não está se preparando para grandes cerimônias públicas de memória nacional.
"Para nós, tudo é secundário à Segunda Guerra Mundial e o regime nazista, que domina as memórias das pessoas", disse Fritz Kirchmeier, porta-voz da comissão alemã de sepulturas de guerra.
Kirchmeier disse que o centenário é uma oportunidade para a Europa encontrar uma forma unificada de relembrar a guerra. "A guerra não nos divide tanto quanto a Segunda Guerra Mundial e a tirania nazista; ela não polariza tanto. Não foi marcada por crimes de guerra como a Segunda Guerra Mundial", disse ele. "Pode-se superar as perspectivas nacionais e olhar para as perdas sofridas pelo outro lado. Por exemplo, se você vai ler os nomes dos mortos, por que não ler os nomes de alemães, britânicos, italianos ou russos todos juntos?"
É uma sugestão louvável. Mas há um risco de que a Europa, em meio a todas as promessas de cerimônias comuns, perca essa oportunidade. Há pouco sentido no momento para um objetivo compartilhado por trás dos preparativos.
Qual poderia ser esse objetivo? Reconciliação? Isso já foi alcançado.
Qual seria a ideia? Transmitir uma mensagem de que a Europa, unida pela memória das guerras que a devastaram, compartilha um destino comum e deve continuar a unida? O momento não é para isso. A crise do euro colocou a solidariedade entre os países europeus sob forte tensão. Além disso, a nova geração de líderes que não têm experiência de guerra já não encarna um elo entre o passado sangrento e necessidade de união de hoje.
O ex-chanceler Helmut Kohl, que ajudou a tirar as pessoas mortas dos escombros de bombardeios aliados quando era menino em Ludwigshafen, na Segunda Guerra Mundial, muitas vezes citou a integração europeia como a chave para a paz duradoura. Seu lema era que os litígios antes resolvidos nos campos de batalha agora são resolvidos nas salas de conferência em Bruxelas.
Ele e o presidente francês François Mitterrand fizeram um poderoso gesto de reconciliação e união em 1984, quando deram as mãos durante uma cerimônia em um cemitério de guerra em Verdun, o local de uma das batalhas mais sangrentas da Primeira Guerra Mundial.
O governo alemão gostaria que as cerimônias do ano que vem transmitissem uma mensagem similar.
"Não devemos esquecer o incrível sofrimento que este cataclismo significou para toda uma geração", disse a autoridade. "Queremos salientar a grande conquista da reconciliação na Europa. A maior cooperação e integração na Europa provou ser o caminho certo para sair das sombras escuras da primeira metade do século 20".
No entanto, muitos europeus hoje assumem a paz como um dado garantido. E provavelmente as cerimônias não influenciarão os críticos de uma maior integração.
"Algumas pessoas, especialmente na Europa, vão tentar usar o centenário como uma ocasião para transmitir uma mensagem política moderna", disse o historiador britânico Max Hastings ao "Spiegel Online".
"Mas, pessoalmente, eu pensaria que a mensagem óbvia é que as guerras da Europa foram uma catástrofe para a Europa e não devemos jamais permitir que voltem a acontecer", Hastings continuou. "Eu acho que a maioria dos britânicos iria resistir fortemente a qualquer ideia de ir mais longe e dizer que isso significa maior integração europeia. Politicamente, seria uma batata muito quente no Reino Unido".
Na verdade, o primeiro-ministro britânico, David Cameron, está sob pressão para lidar com o crescente ceticismo britânico em relação à UE e arrancar algumas concessões de líderes do continente antes do referendo sobre a adesão do Reino Unido à UE em 2017.
Hastings disse que as memórias nacionais obrigatoriamente são muito diferentes. "Na França, essa foi a experiência mais traumática do século 20; algumas partes do país foram devastadas, e 1,5 milhão de pessoas morreram, muito mais do que os britânicos. Nosso país escapou mais ou menos incólume, embora, evidentemente, os britânicos também tenham sofrido muitas baixas".
"Quanto à Alemanha, duvido muito que seja possível chegar a uma visão compartilhada", disse Hastings. "Enquanto a maioria dos alemães aceita a responsabilidade alemã pela Segunda Guerra Mundial, a maior parte hoje acredita que a Primeira Guerra Mundial não foi culpa sua. Alguns de nós historiadores acreditamos que, embora nenhuma nação tenha toda a responsabilidade, a Alemanha era a única nação que em julho de 1914 tinha o poder de evitar uma guerra e optou por não exercê-lo".

Historiadores têm visão compartilhada

Entre os historiadores, pelo menos, a visão de que a Alemanha tem uma responsabilidade considerável há muito foi estabelecida e é improvável que seja seriamente questionada por ocasião do centenário.
"As lideranças alemães e austríacas não queriam a guerra, mas arriscaram, jogaram um jogo perigoso", diz o professor Oliver Janz, historiador alemão na Universidade Livre de Berlim, que está a cargo do  "1914-1918 On-line", o maior projeto de pesquisa internacional da Primeira Guerra Mundial, que é a compilação de uma enciclopédia em inglês online que deve entrar em operação em outubro de 2014.
Janz, autor do livro recém-publicado "14", disse que, embora a memória pública provavelmente continue segregada por país, as pesquisas já estão chegando a uma visão transnacional.
"Tentamos ver a coisa de uma perspectiva verdadeiramente global, do ponto de vista japonês, sul-africano, latino-americano; temos seções separadas para cada uma dessas regiões e também para países neutros. Estamos tentando reunir as várias perspectivas de cada nação e também chegar a uma imagem comum."
Uma rede de 800 historiadores estará envolvida, e a enciclopédia terá 15 mil páginas de texto, bem como fotos e imagens de vídeo.
"Minha impressão é que temos uma chance de chegar a uma visão transnacional da guerra porque hoje há uma distância suficiente para isso. Nenhum dos combatentes está vivo", diz Janz. "Mas é preciso esforço para se atingir uma perspectiva europeia comum. As pessoas estão acostumadas com a suas respectivas perspectivas nacionais".
Não há nenhum sinal até agora de que o centenário terá qualquer tom de vitória das nações que ganharam a guerra. E ninguém deve discutir o fato que o centenário oferece uma oportunidade para explicar como a guerra aconteceu e seu enorme impacto sobre o século passado.
"A nossa ambição é que muito mais gente passe a ver que não se pode entender o mundo de hoje a menos que se entenda as causas, o curso e as consequências da Primeira Guerra Mundial", disse Diane Lees, Diretora do Museu Imperial da Guerra do Reino Unido.
Do ponto de vista de hoje, é um desafio entender como os países se permitiram ser manobrados de forma que gerações inteiras de homens fossem abatidos em batalhas por alguns quilômetros, às vezes até alguns metros, de território, por quatro anos sem fim.
Esta talvez seja a melhor oportunidade de alcançar uma forma comum de recordação europeia: o sofrimento do soldado comum, um tema primordial da guerra e que foi o mesmo em todos os lados.
Neste sentido, a localização de um dos eventos de abertura do centenário parece particularmente adequada: será realizada no dia 4 de agosto no Cemitério Militar Britânico de St. Symphorien em Mons, na Bélgica, onde um número igual de soldados britânicos e alemães descansa lado a lado.

Texto de David Crossland para a Der Spiegel, reproduzido no UOL. Tradução: Deborah Weinberg

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Região turística turca vira base de rebeldes


Região turística turca vira base de rebeldes

Por JEFFREY GETTLEMAN

ANTAKYA, Turquia - As pessoas daqui a chamam de Toscana com minaretes.
O quadrante sudeste da Turquia, junto à fronteira com a Síria, é uma das regiões mais pitorescas do país, com olivais encobrindo seus campos ondulados, e montanhas sulcadas por córregos cristalinos. Pelas manhãs, idosas descem os morros para pegarem damascos nos mercados. À noite, turistas passeiam por alamedas com calçamento de pedra.
Mas há uma nova uma onda de recém-chegados: sírios, especialmente combatentes. Não é raro ver soldados rebeldes mancando de muletas pela cidade turística de Antakya, e incontáveis apartamentos da região foram transformados em clínicas improvisadas, que ficam lotadas de jovens corpulentos feridos a bala.
Suprimentos médicos, equipamentos militares e combatentes se infiltram todas as noites pelos 890 km de fronteira, fazendo deste charmoso pedaço da Turquia a mais importante base para a crescente rebelião síria.
A guerra civil na Síria virou uma dor de cabeça para a segurança nacional turca. Em 30 de julho, Ancara despachou soldados, blindados e mísseis para a fronteira, embora as autoridades tenham se apressado em descrever a mobilização como "rotineira".
Além do ônus de receber 40 mil refugiados, um posto de fronteira no lado sírio acaba de cair nas mãos de um grupo ligado à rede terrorista Al Qaeda, e cerca de doze combatentes líbios foram recentemente vistos no principal hospital de Antakya, esperando seus "irmãos" feridos.
Houve rumores de que um contingente de combatentes líbios havia acabado de desembarcar no aeroporto local, portando coletes à prova de balas.
Aparentemente, Antakya tem atraído "jihadistas" estrangeiros que chegam à Turquia para travar uma guerra santa na Síria. Um refugiado recém-chegado de Bab al Hawa disse que cerca de 200 jihadistas estrangeiros haviam capturado essa cidade fronteiriça.
Outra zona de fronteira foi dominada no lado sírio por milicianos curdos, deixando os turcos temerosos de que o rápido esfacelamento do governo de Bashar Assad possa estimular ativistas curdos na Turquia.
Questionado recentemente sobre a hipótese de a Turquia bombardear a Síria caso militantes curdos usem o país árabe como base, o primeiro-ministro turco, Tayyip Erdogan, disse: "Isso não é nem questão de discussão; é um dado".
Mas o conflito na vizinhança não permite respostas fáceis. Originalmente, o governo turco pediu reformas a Assad. Como ele recusou, a Turquia escancarou suas portas ao Exército Sírio Livre, grupo rebelde obstinado, mas incipiente, cujos líderes operam a partir de um acampamento fortemente vigiado no lado turco da fronteira.
Os turcos tentam sutilmente guiar os acontecimentos na Síria, estimulando a oposição a se unir, recebendo várias reuniões de alto escalão com líderes rebeldes e ajudando os insurgentes a obter armas. Ancara, no entanto, tem receio de se envolver mais profundamente.
"Esta sociedade está colhendo os frutos da prosperidade econômica, e não quer que ela seja destruída por algum envolvimento externo", disse Ilter Turand, professor de relações internacionais na Universidade Bilgi, em Istambul.
De certa forma, os dois vizinhos não poderiam ser mais diferentes, no momento.
A Turquia, democrática, fortemente nacionalista, ordeira e ascendente, versus a Síria, autoritária, profundamente dividida e mergulhando em uma confusa guerra civil.
Antakya é uma cidade turística, conhecida por suas ruínas, suas igrejas e um museu que abriga um dos melhores acervos existentes de mosaicos romanos e arte bizantina.
Os campos ao seu redor são incrivelmente férteis, produzindo azeitonas, cerejas, melões enormes e doces, e uma culinária famosa pelo uso inovador de ingredientes frescos.
Nos fins de semana, a cidade costumava receber sírios que vinham fazer compras. Um agente de viagens que não quis se identificar disse que sua clientela caiu de 2.000 por dia para zero, e que ele acaba de demitir suas três últimas secretárias.
"Esse conflito não nos afetou", afirmou. "Ele acabou conosco."
Sebnem Arsu colaborou com reportagem


quarta-feira, 7 de março de 2012

EUA terceirizam os riscos da guerra


EUA terceirizam os riscos da guerra

Por ROD NORDLAND

CABUL, Afeganistão - Até a morte é terceirizada aqui.
Esta é uma guerra em que os empregos militares tradicionais, de cozinheiros a guardas de base e motoristas de comboios são cada vez mais transferidos para o setor privado. Muitos generais e diplomatas americanos têm guarda-costas empregados de empresas terceirizadas. E junto com os riscos vieram as consequências: no ano passado, pela primeira vez, mais funcionários civis de empresas americanas do que soldados morreram no Afeganistão.
Os empregadores americanos aqui não têm a obrigação de relatar publicamente a morte de seus funcionários e frequentemente não o fazem. Enquanto os militares anunciam os nomes de todos os seus mortos na guerra, as empresas privadas notificam apenas os membros da família. A maioria dos terceirizados morre sem anúncio e sem contagem -e em alguns casos deixam seus familiares sem indenização.
"Ao continuar terceirizando empregos de alto risco que antes eram ocupados por soldados, os militares na verdade estão privatizando o sacrifício máximo", disse Steven L. Schooner, um professor de direito na Universidade George Washington em Washington, que estudou a questão das baixas de civis.
No ano passado, pelo menos 430 empregados de empreiteiras americanas foram relatados mortos no Afeganistão: 386 que trabalhavam para o Departamento da Defesa, 43 para a Agência de Desenvolvimento Internacional dos EUA e 1 para o Departamento de Estado, segundo dados fornecidos pela embaixada americana em Cabul e disponíveis ao público no Departamento de Trabalho.
Em comparação, 418 soldados americanos morreram no Afeganistão no ano passado, segundo o Departamento da Defesa compiladas poricasualties.org, uma organização independente que monitora as mortes na guerra.
Essa tendência tem crescido nos últimos anos no Afeganistão e se equipara a uma semelhante no Iraque, onde as mortes de terceirizados superam as de militares desde 2009. No Iraque, porém, isso ocorreu enquanto o número de soldados americanos era drasticamente reduzido, até sua retirada completa no final do ano passado.
Especialistas que estudaram o fenômeno dizem que como muitas empreiteiras não cumprem as atuais exigências mínimas de informação, o verdadeiro número de mortes de funcionários privados pode ser ainda maior.
"Ninguém acredita que estamos relatando menos mortes de militares", disse Schooner. "Todo mundo acredita que estamos relatando menos mortes de terceirizados."
Sob a Lei Básica de Defesa dos EUA, as empreiteiras de defesa americanas são obrigadas a relatar as mortes e ferimentos em zona de guerra de seus empregados -incluindo terceirizados e trabalhadores estrangeiros- ao Departamento do Trabalho, e a ter seguros que forneçam cuidados médicos e indenização aos empregados.
No caso de empregados estrangeiros, como eram muitos dos mortos, os sobreviventes recebem um benefício equivalente à metade do salário do funcionário por toda a vida; os empregados americanos recebem ainda mais.
Havia 113.491 empregados de empreiteiras de defesa no Afeganistão em janeiro de 2012, comparados com cerca de 90 mil soldados americanos, segundo estatísticas do Departamento da Defesa. Destes, cerca de 22% dos empregados eram cidadãos americanos, 47% de afegãos e 31% de outros países.
Ao todo, segundo o Departamento do Trabalho, 64 companhias americanas perderam mais de sete empregados cada uma nos últimos dez anos.
A maior empreiteira em termos de mortes em zona de guerra é aparentemente a gigante da defesa L-3 Communications. Se a L-3 fosse um país, teria a terceira maior perda de vidas no Afeganistão, assim como no Iraque; somente os EUA e o Reino Unido a superariam em baixas.
Para cada funcionário terceirizado morto, muitos outros são seriamente feridos. Segundo o Departamento do Trabalho, 1.777 americanos terceirizados no Afeganistão foram feridos ou seriamente feridos a ponto de perder mais de quatro dias de trabalho no ano passado.
Marcie Hascall Clark começou o blog Indenização da Lei Básica de Defesa ["Defense Base Act Compensation Blog"] depois que seu marido, Merlin, um ex-perito em explosivos da marinha, foi ferido em 2003 enquanto trabalhava para uma empreiteira americana. Ela e o marido passaram os últimos sete anos lutando por centenas de milhares de dólares em pagamentos por incapacidade e em indenização médica.
"Foi um choque saber como o corpo, a mente e o futuro de meu marido valiam pouco", disse.


quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Milhares celebram retirada de tropas norte-americanas em Falluja


Milhares celebram retirada de tropas norte-americanas em Falluja

Iraquianos queimaram bandeiras dos EUA e agitaram cartazes.
Cidade de 3 mil moradores, de maioria sunita, já foi reduto da al-Qaeda.



Iraquianos queimaram bandeiras dos Estados Unidos, agitaram cartazes e lotaram as ruas de Falluja, no oeste do Iraque, para celebrar a retirada das tropas norte-americanas do país.
Falluja, de maioria sunita, já foi reduto da al-Qaeda e registrou algumas das mais violentas batalhas em quase nove anos de guerra. Cerca de 3.000 moradores participaram de uma passeata levando cartazes com os dizeres "Falluja, cidade da resistência" e fotos de moradores mortos pelos ocupantes.
"As celebrações marcam um dia histórico para a cidade de Falluja, e devemos lembrar com orgulho dos mártires que sacrificaram seu sangue por esta cidade", disse Dhabi al-Arsan, vice-governador da província de Anbar, dirigindo-se à multidão.
Os combatentes da insurgência iraquiana fizeram de Falluja a sua base ao longo do conflito, e em 2004 a cidade registrou duas batalhas importantes. Forças dos EUA usaram a força bruta, incluindo tanques, caças e helicópteros, para esmagar a resistência, em combates que deixaram centenas de mortos e milhares de desabrigados.
"Estou contente por ver os norte-americanos deixando o Iraque. Só agora sentimos realmente o gosto da liberdade e da independência", disse o taxista Ahmed Jassim, de 30 anos, agitando uma bandeira iraquiana. "Não vamos mais ver as forças norte-americanas. Elas nos evocam conflito e destruição."
Depois de chegar a ter cerca de 170 mil soldados no país, os EUA hoje mantêm apenas cerca de 5.500, que devem sair até o final do mês. Só um pequeno contingente de instrutores civis e cerca de 200 adidos militares devem permanecer.
Muitos iraquianos aguardam com alívio e esperança o fim da ocupação, apesar do temor de recrudescimento da violência sectária. Em geral, a violência já diminuiu bem desde o auge do conflito entre sunitas e xiitas, mas atentados e assassinatos continuam sendo comuns.
"Depois que os norte-americanos saírem, queremos ver um Iraque unido, não queremos disputas", disse o clérigo sunita Hameed Jadou à multidão. "Quem diz que se trata de um iraquiano sunita, xiita, curdo ou turcomeno está usando termos trazidos pelo ocupante."

Notícia da Reuters, no G1

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Paquistão silencia separatistas balúchis

Paquistão silencia separatistas balúchis

Por CARLOTTA GALL

GENEBRA - Com seu físico esguio metido num terno escuro, Brahumdagh Bugti, 30, poderia passar por um executivo de banco nas ruas desta cidade suíça. Mas na verdade ele é um líder exilado da resistência, envolvido num conflito separatista cada vez mais violento dentro do Paquistão.
Bugti está foragido desde 2006, quando escapou de uma operação militar que matou seu avô e dezenas de membros da sua tribo na província do Baluchistão, no sudoeste paquistanês.
Desde então, os esforços do governo para sufocar a rebelião da minoria étnica balúchi se intensificaram, segundo organizações de direitos humanos e políticos paquistaneses.
A insurgência balúchi, que ocorre de forma intermitente há décadas, é frequentemente chamada de "Guerra Suja do Paquistão", por causa do crescente número de pessoas mortas ou desaparecidas em ambos os lados. Mas o conflito recebe pouca atenção internacional, em parte porque a maioria dos olhos se volta para a luta contra o Taleban e a Al Qaeda nas áreas tribais do noroeste paquistanês.
Os nacionalistas balúchis nunca aceitaram fazer parte do Paquistão, e já se rebelaram cinco vezes desde a formação do país. Suas exigências variam de maior controle sobre o gás e os recursos naturais até a independência total.
Quando o Exército bombardeou a casa da sua família em Dera Bugti, em dezembro de 2005, Bugti se refugiou nas montanhas com seu avô, Nawab Akbar Khan Bugti, ex-líder da tribo Bugti. Em agosto de 2006, os militares os apanharam. "Eu escapei, mas ele não conseguiu", disse Bugti.
O único lugar para ir era o Afeganistão, que, no entanto, não era um porto seguro. Bugti relatou que ele e sua família se tornaram alvos de repetidos ataques cometidos pelo Taleban e a Al Qaeda, mas que acreditam ter sido ordenados por militares paquistaneses.
O governo do Paquistão não faz segredo sobre sua intenção de matar ou capturar Bugti. Membros da Otan pediram ao Afeganistão que transferisse Bugti para outro lugar, segundo diplomatas ocidentais e funcionários afegãos. Então, em outubro de 2010, ele e sua família mudaram-se para a Suíça.
Embora Bugti diga apoiar apenas o ativismo político pacifico, ele é partidário do separatismo balúchi. Logo depois da morte do avô, o rapaz fundou um partido que recebeu amplo apoio da classe média e dos movimentos estudantis balúchis. A reação do governo não demorou. Oito membros de seu partido no Baluchistão foram mortos, cinco integrantes do comitê central estão desaparecidos, e os principais líderes tiveram de se exilar.
Isso é parte da repressão governamental contra líderes estudantis e políticos nacionalistas na província, que vem se tornando cada vez mais letal nos últimos 18 meses, segundo políticos e entidades de direitos humanos. A Anistia Internacional descreve uma tática de "assassinar e desovar", pela qual a cada mês cerca de 20 ativistas, professores, jornalistas, advogados e até mesmo adolescentes vêm sendo detidos e têm seus corpos, crivados de balas, abandonados em estradas.
A ONG Human Rights Watch diz que centenas de pessoas desapareceram desde 2005 no Baluchistão, e que foram documentados 45 casos de torturas e desaparecimentos na província em 2009 e 2010, tendo as forças de segurança como responsáveis.
Bugti já pediu aos EUA que suspendam sua ajuda ao Exército paquistanês, que, segundo ele, estaria desviando para a repressão aos balúchis recursos que deveriam ser usados no combate ao terrorismo. "Se os EUA interrompessem a assistência militar e financeira, [os militares] não poderiam manter suas operações por muito tempo", afirmou.
O aumento da violência levou os balúchis a irem além das suas reivindicações originais por maior autonomia, desencadeando um movimento separatista armado.
"As pessoas estão indignadas e irão para o lado daqueles que usam a violência", disse Bugti.
"Se você acaba com todas as formas pacíficas de debate e sequestra ativistas políticos, e os tortura até a morte e atira seus corpos na beira das estradas, então definitivamente eles irão se juntar aos grupos de resistência armada."


Notícia do The New York Times, reproduzida na Folha de São Paulo, de 5 de setembro de 2011.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Sem fim

Sem fim

FIM DE SEMANA perfeito para a civilização ocidental: no sábado, bombardeio à casa de Gaddafi, com presumida e previsível morte de um filho seu e de netos pequenos; no domingo, ataque à casa de Osama Bin Laden, matando-o e a pelo menos uma mulher e um homem não identificados de imediato.
Grandes feitos, mas sem resposta alguma para os impasses e os conflitos em causa. O mistério da morte deixa de estar nos mortos e assume, nos dois casos, a forma de indagações voltadas para o futuro dos vivos e de mais temores no seu presente.
O êxito festejado na morte de Bin Laden foi pela morte em si mesma. Não buscou outro sentido senão o da vingança, não propriamente cristã, pela monstruosidade do maior de seus crimes.
A caçada a Bin Laden estava ciente de que o comando efetivo da Al Qaeda passara a outras cabeças. Em especial à do médico egípcio Al Zawahiri -como lembrou, poucas horas depois da morte de Bin Laden, o embaixador do Brasil no Paquistão, Alfredo Leoni, portador de informações próprias dessas representações oficiais no caldeirão paquistanês. Não era mais ao chefe da Al Qaeda que a caçada buscava, era a Bin Laden em pessoa. Aí, o êxito.
Festejo peculiar: recheado de alertas transmitidos pelo mundo afora, ordens de redobrada vigilância, de prontidões e de acessos fechados, mais tensão e medo.
As esperadas retaliações recairão onde, quando e como? Que modalidade tendem a adotar? E o que ainda pode ser feito para preveni-las? Afinal, a morte de Bin Laden vai servir, ou não, de estímulo a adesões jovens à Al Qaeda, a mais terrorismo? E, o que talvez seja uma interrogação mais pertinente do que aparenta: o que levara Bin Laden a estar, supõe-se que escondido, em meio a um centro militar das Forças Armadas do Paquistão?
As perguntas se multiplicam e as respostas não se oferecem, porque não é ainda o seu tempo. De um modo ou de outro, a maioria de nós vai pagar a espera com mais restrições e constrangimentos, quase sempre produtos de pouca inteligência e muita prepotência. Mais cedo ou mais tarde, tinha de acontecer.
Muitos comentários à morte de Bin Laden consideram encerrar-se nesse fato uma etapa da história internacional. O mais provável é que o encerramento se dê quando haja respostas para as perguntas que ganharam força ou apareceram nos escombros inertes em uma casa na insuposta Abbottabad. Até lá, é a continuidade sem fim perceptível.
Bin Laden e Gaddafi mostraram traços em comum. É natural que deles, em vida ou em morte, se projetem semelhanças nas perguntas que lançam. Gaddafi não está sob ataque por vingança. Antes seria por hipocrisia e ingratidão de muitos dos que até poucos meses o visitavam como amigos ou associados. E com ele negociavam petróleo, gás e, claro, as armas para a Líbia. Bilhões de euros iluminados por orgias italianas, turismo à francesa, cortesias inglesas, além de se prestarem a reservas para as incertezas da existência.
O ataque à morada familiar e suas consequências cegas não são fatos que Gaddafi e seus fiéis, como são vistos, deixem passar sem represália. Qual, onde, contra qual dos atacantes? Não é menos obscuro o efeito que o episódio tenha no confronto líbio, já um atoleiro em que os governantes da Otan enfiaram as botas sem saber, agora, como tirá-las.
Para que não falte uma resposta: o mundo está melhor? Não há quem saiba.



quinta-feira, 28 de abril de 2011

OTAN vai atacar exército líbio descaradamente

Otan vai atacar retaguarda do Exército líbio

DAS AGÊNCIAS DE NOTÍCIAS

Estrategistas da Otan (aliança militar ocidental) estão ampliando os bombardeios aéreos na Líbia para alvos na retaguarda do Exército do regime -tais como quartéis-generais, centrais de comunicação e instituições que apoiam o ditador Muammar Gaddafi.
Segundo o jornal americano "New York Times", os objetivos são desestruturar a cadeia de comando do Exército -impedindo que ordens cheguem às tropas- e neutralizar instituições que dão legitimidade ao regime, como a TV estatal.
Anteontem, um complexo residencial usado por Gaddafi, que fica na capital Trípoli, foi alvo de bombardeio dos aliados.
Oficiais da Otan disseram ao "NYT" sob anonimato que os ataques a instituições-símbolo do regime também teriam como efeito secundário a perda de legitimidade do ditador e sua consequente queda.

MISRATA
Após anunciar pretensa retirada de Misrata, último bastião rebelde no oeste do país, tropas líbias consolidaram posições nos arredores da cidade.
Com sua artilharia de campanha abrigada de ataques aéreos da Otan (dividida em pequenos grupos junto a prédios civis), o Exército começou ontem a bombardear e lançar ataques de infantaria contra a região portuária.
O porto de Misrata é a única linha de suprimentos dos rebeldes na cidade. A interrupção dela possivelmente forçaria uma rendição dos insurgentes que combatem na região.


“Resolução de ‘exclusão aérea’ na ONU” se transformou em uma guerra de fato, da OTAN, contra o governo líbio.




quarta-feira, 23 de março de 2011

The fog of war at 1600 Pennsylvania Avenue

The White House clearly has a problem on its hands. The launch of the military intervention with Libya has been messy at best. The fog of war is supposed to be restricted to the battlefield, but for the moment it seems to have settled in over the White House. Here are just a few of the contradictions and confusions swirling about at the moment:
National Security Advisor Tom Donilon was on the record as saying the U.S. had no strategic interests in Libya. Now, he must coordinate an American involvement that would be irresponsible unless indeed such interests existed.
The President and his team made it clear through their early remarks that America would not be in lead in this mission. But the Pentagon over the weekend let it be known that Americans were indeed in command but plans were being discussed for a hand-over at some unspecified point in the future.
The involvement of the Arab League was allegedly a critical catalyst for U.S. support, but military support has been slow to materialize, minimal when it has, and political opposition to key components of the mission -- like bombing to neutralize threats on the ground -- has emerged.
The involvement, according to the President and his team would be short, limited to protecting the Libyan people from Qaddafi. While the quick dispatch of Qaddafi would be the best protection for the Libyan people, other possible paths are just as likely at this point: a short involvement that leaves Qaddafi in place and Libya divided, which would be a very unsatisfactory outcome strategically and politically, or a long one that ends up in Qaddafi going to ground, resisting the rebels thanks to his considerable resources, and ultimately requiring a much more extensive international involvement than is currently contemplated.  In short, the involvement is unlikely to be as neat nor its outcome as clear-cut in its benefits as was advertised.
The principle underlying the involvement was the protection of the Libyan people from abuse at the hands of their government. Syrian troops fired into crowds of their people this weekend: will the same principle soon apply there? In Yemen? In Bahrain? In Iran? In the Palestinian territories? It is impossible to imagine that it will apply in any of these places thus undercutting the idea that any principle was involved at all.
The President has argued he has consulted with Congress on his actions. The disagreement with this idea seems to begin on Capitol Hill where in one of the few bipartisan displays in recent months, both Democrats and Republicans have complained that what consultation that did take place was perfunctory and inadequate.
The President's men are very agitated that the New York Times narrative that they were led to war by Hillary Clinton, Susan Rice, Samantha Power, Gayle Smith and are now arguing the President was the leader of the move to act. While the final decision clearly rested with the President, the Amazons In-Charge narrative is going to be hard to dial back because these strong, capable women did actually drive the decision process against the opposition of Gates, Donilon, Brennan and others. Worse, the delay between the initial instance in which Secretary Clinton advocated the idea and the time it was ultimately implemented have created many complications that make the involvement much more difficult...and those delays are traceable to uncertainty on the part of the President and his close White House advisors.
The move to multilateralism was belied by a trip to Brazil in which the President effectively rebuffed Brazilian desires to win his support for their candidacy for a permanent seat on the U.N. Security Council -- support he has already given to India.  All the Brazilians got was a non-committal "we'll look into it" and were left to digest why India was treated differently. The U.S. had wanted a more compliant Brazil on issues like Iran's nuclear program, but the message to the Brazilians is that the Indians were rewarded strategically for undertaking a nuclear weapons program while the Brazilians who avoided this step were penalized for having a different opinion on nuclear issues.
Both India and Brazil abstained on the UN vote on Libya making the distinction between the two even more hard to defend. This issue by the way offset within Brazil's government whatever perceived "success" the Obama trip has had via photo ops for the President in Rio favelas. Combine this with the forced resignation of the US Ambassador to Mexico this weekend and you have a pretty lousy week for U.S. Latin relations coinciding with a presidential trip to the region that was optically very difficult given the entire Libya issue.                                                                 
The White House needs to be decisive and move quickly to undo the problems of the past few days. The President began the process of trying to address these issues during his press conference in Chile, but the real heavy lifting will begin when he arrives again in Washington. At that point, both he and the American public will have a clearer picture of the situation on the ground in Libya.

Texto de David Rothkopf, na Foreign Policy



O Google Tradutor oferece uma tradução muito razoável para a língua portuguesa. É só seguir o linque.

Não colei a tradução aqui também porque o Google Tradutor traz junto as sentenças originais, misturando as frases. O primeiro parágrafo, por exemplo, ficou assim:

"A Casa Branca tem claramente um problema em suas mãos. The launch of the military intervention with Libya has been messy at best. O lançamento da intervenção militar com a Líbia tem sido confuso na melhor das hipóteses. The fog of war is supposed to be restricted to the battlefield, but for the moment it seems to have settled in over the White House. A névoa da guerra deveria ser restrita ao campo de batalha, mas no momento parece ter-se estabelecido em mais de a Casa Branca. Here are just a few of the contradictions and confusions swirling about at the moment: Aqui são apenas algumas das contradições e confusões sobre a roda no momento:"



Confuso não? Por isso que eu digo, siga o linque.

sábado, 5 de março de 2011

Prisão Perpétua pra Bradley Manning?

Suposta fonte do WikiLeaks vai enfrentar 22 novas acusações

Soldado pode ser condenado à prisão perpétua por vazar dados

DAS AGÊNCIAS DE NOTÍCIAS

O Exército americano afirmou ontem que o soldado e ex-analista de inteligência Bradley Manning, 23 -suspeito de ter vazado milhares de documentos confidenciais dos EUA para a organização WikiLeaks-, enfrentará 22 novas acusações.
Se for condenado, Manning pode receber a prisão perpetua como sentença.
As novas acusações foram formuladas depois de uma investigação de sete meses. Uma delas é "ajudar o inimigo" -crime punido com a pena capital pela Justiça Militar americana.
Mas, em comunicado, as Forças Armadas afirmaram que não desejam que ele seja condenado à morte.
Manning é suspeito de ter copiado milhares de arquivos eletrônicos confidenciais dos EUA, entre eles telegramas diplomáticos e registros de ações militares no Afeganistão e no Iraque, quando era recruta e servia no Iraque como analista.
Ele foi descoberto e preso em uma base da Marinha na Virginia, nos EUA. O soldado foi inicialmente acusado de copiar e transmitir ao WikiLeaks um vídeo confidencial no qual a tripulação de um helicóptero de ataque americano fuzilava um grupo de civis em Bagdá, inclusive dois jornalistas, em 2007.
Por causa disso, enfrentou um processo na corte marcial por baixar e transmitir vídeo confidencial para pessoal não autorizado.
Contudo, o material supostamente vazado por Manning continuou a ser divulgado pelo WikiLeaks -colocando o governo americano em situação delicada ante diversos governos.
O julgamento de Manning tem sido adiado enquanto ele passa por avaliações de seu estado mental. Quando essa fase terminar, ele pode ser levado a júri.
Julian Assange, chefe do WikiLeaks, nega que Manning tenha sido sua fonte.